• Nenhum resultado encontrado

SEXO, SAÚDE E ESPORTE: OS DISCURSOS DA MÍDIA SOBRE O CORPO VELHO. Resumo

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "SEXO, SAÚDE E ESPORTE: OS DISCURSOS DA MÍDIA SOBRE O CORPO VELHO. Resumo"

Copied!
10
0
0

Texto

(1)

SEXO, SAÚDE E ESPORTE: OS DISCURSOS DA MÍDIA SOBRE O CORPO VELHO

Maria Emmanuele Rodrigues Monteiro (PROLING/UFPB) [email protected] Maria Regina Baracuhy Leite (PROLING/UFPB)

[email protected]

Resumo

O envelhecimento, enquanto discurso construído entorno da noção de corpo discursivisado está relacionado a como a mídia propõe os conceitos de beleza, de sexo e de longevidade. Assim, a mídia produz uma outra identidade que subverte o estereótipo da “vovozinha”, construindo uma positividade para o corpo velho e ratificando um modelo de beleza, que desloca os sujeitos e constrói outras identidades para os velhos. Dessa maneira, o objetivo desse trabalho é analisar a produção discursiva midiática sobre o corpo velho presente nos gêneros de nosso corpus. Dessa forma, vale ressaltar que a noção de corpo com a qual trabalhamos é a noção de corpo discursivisado, o corpo enquanto representação, segundo MILANEZ (2009, p.215) “o que inicialmente identificamos como corpo, podemos compreendê-lo não somente como uma simples prática corporal e objetivante, mas como prática discursiva”. Escolhemos a linha teórica da Análise do Discurso (AD), em seus diálogos com Michel Foucault, ressaltando as noções de biopoder e biopolítica, e os Estudos Culturais para discutir identidade e memória social, pois ela atua nos vazios existentes entre as fronteiras das Ciências Humanas e Sociais, e por isso nos possibilita abordar os aspectos sociais, históricos e psicanalíticos que envolvem e determinam as construções identitárias e a memória social sobre o corpo velho discursivisado e suas especificidades. Nosso corpus é composto por uma propaganda governamental sobre o uso da camisinha na terceira idade, publicada em 25 de fevereiro de 2009, na revista Veja, por uma propaganda de um banco de investimentos veiculada pela revista Época. Nossas análise mostraram que, na mídia, a representação do corpo velho é construído a partir de um ideal de beleza, longevidade e produtividade.

(2)

INTRODUÇÃO

“Amor é para sempre / Sexo também / Sexo é do bom / Amor é do bem...” (Rita Lee/ Roberto de Carvalho / Arnaldo Jabor)

Compreender a linguagem na perspectiva discursiva é considerar que os sentidos são determinados historicamente e reconhecer que a linguagem não é um simples instrumento de comunicação, mas uma forma de mediação entre o sujeito e o trabalho simbólico. A linguagem, para a Análise do Discurso é abordada como produção sócio-histórica, não é transparente (uma vez que tem uma ordem própria que a lingüística não descreve), está sujeita a equívocos e falhas.

Para a AD, todo discurso está diretamente vinculado às suas condições de produção e à história, assim os sujeitos e os discursos são afetados por uma “exterioridade constitutiva” (FERREIRA, 2002), ou seja, o social e o histórico são indissociáveis do lingüístico, pois os dois primeiros são elementos constitutivos do terceiro. Dessa forma, é preciso observar que a construção do sentido faz parte da relação entre o histórico e o ideológico. E, por isso, é possível constatar que essa indissociabilidade, entre o social, o histórico, o ideológico e o lingüístico, interfere na produção das identidades.

Dessa forma, a Análise do Discurso leva em consideração que as relações de linguagem são relações de sujeitos e de sentidos com diferentes efeitos. Percebe-se então, que as palavras significam na e pela história e com a relação que mantêm com a ideologia. De acordo com Maria Cristina Leandro Ferreira (2000, p.107 – 122), o equívoco atinge a língua de várias formas e se manifesta sob as mais variadas marcas sintáticas, materializando-se e adquirindo significação. Essa possibilidade de (des) construir os sentidos existe, pois a língua é um sistema sintático inerentemente passível de jogo. Por isso, a AD não busca a verdade dos sentidos, mas suas possibilidades, já que os efeitos de sentido se constroem na relação com o outro, com o não-dito e com o que está silenciado.

Com base nesses pressupostos vamos desenvolver uma análise da produção discursiva midiática sobre o corpo e a constituição de suas identidades a partir do arcabouço da Análise do Discurso Francesa, praticada no Brasil, a partir dos postulados de Michel Pêcheux, Michel Foucault e Jean-Jacques Courtine. Para tanto é necessário ressaltar que o corpo velho, nosso objeto de estudo, não é o corpo do indivíduo, mas sim, um corpo enquanto unidade discursiva. Assim, trabalharemos com o corpo velho, considerando sua existência histórica e seu status material.

Nosso corpus é composto pela capa da da revista Época, publicada em 12 de janeiro de 2009, por uma propaganda de um banco de investimentos publicada na página 89 da revista Época em 16 de novembro de 2009.

(3)

Com a finalidade de desenvolver o que foi proposto acima, este trabalho estará dividido em duas partes. Na primeira, chamada de Fundamentando o nosso tema: corpo, identidade e mídia, tentaremos determinar o percurso teórico a ser seguido, tendo como foco a definição dos conceitos que nos auxiliarão nas análises. Na segunda parte, de cunho analítico, intitulada “Um novo tempo, a mesma libido?”: analisando os discursos sobre o corpo velho, apresentaremos o texto que compõe o corpus e daremos seguimento às análises, apoiando-nos no percurso teórico exposto na primeira parte. Essa forma de organização é um jeito de observar com mais afinco os mecanismos que tornam o ideal de beleza, longevidade e produtividade produzidos na/pela mídia um fator estruturante na construção de identidades para o corpo velho, nos gêneros de nosso corpus.

2 FUNDAMENTANDO NOSSO TEMA: CORPO, IDENTIDADE E MÍDIA

A análise investigativa que propomos está pautada nos procedimentos teórico-metodológicos da Análise do Discurso de linha francesa, fundada no ano de 1969, quando Michel Pêcheux, com a obra Análise Automática do Discurso, propôs uma nova visão para os estudos da linguagem, que buscava principalmente fazer um “questionamento sobre a epistemologia da Lingüística, por meio da problematização do corte saussuriano, propondo a análise das condições de possibilidades do discurso, dos processos discursivos” (GREGOLIN, 2003b, p. 7).

Como todo campo do saber em fase de constituição, a Análise do Discurso passou, desde que foi fundada, passou por uma série de deslocamentos, desconstruções e reconstruções, por isso sua história é dividida em três épocas. Portanto, enfatizaremos que nosso trabalho está fundamentado teoricamente, no momento da Análise do Discurso (AD) que Maldidier (2003) chama de “A desconstrução domesticada”. Optou-se fazer dessa forma por ser nesse momento da história da Análise do Discurso que os diálogos entre Pêcheux, Foucault e Bakhtin estão consolidados no interior deste campo disciplinar.

As nossas análises têm como ponto de partida a relação entre corpo, identidade e mídia na materialidade discursiva, por isso, utilizamos o conceito foucaultiano de discurso nesse trabalho. Esse conceito está relacionado às práticas discursivas em que circulam e emergem os enunciados. Michel Foucault (1972, p. 146 – 147) define discurso como

um conjunto de enunciados, na medida em que provêm da mesma formação discursiva; [...] é constituído de um número limitado de enunciados para os quais podemos definir um conjunto de condições de existência. [...] é, de parte a parte, histórico – fragmento de história, unidade e descontinuidade na própria história, colocando o problema de seus próprios limites, de seus cortes, de suas transformações, dos modos específicos de sua temporalidade [...].

(4)

Assim, os discursos sobre a velhice são formados por enunciados que circulam principalmente na mídia, esses enunciados, por serem históricos, trazem consigo vestígios de significações anteriores. É a repetição incessante desses vestígios de significação enunciativa que constituem os traços identitários da velhice, enquanto discurso. Assim, os traços e marcas que constituem o corpo velho têm como base um conjunto de características que relacionam tanto aspectos psicoemocionais quanto aspectos físicos. Ao elencar tais aspectos, a maneira como se deve lidar com eles e os cuidados e “técnicas de si” os discursos sobre a velhice são produzidos, por isso, para nós, o conceito de identidade funciona como um efeito de linguagem que é constituído a partir dos discursos sociais. Dessa forma, ser velho, sob o aspecto discursivo, é muito mais uma questão de pertencimento a uma construção identitária que propriamente uma questão cronológica.

Assim, em nossa sociedade, é por intermédio da mídia que as construções

identitárias para a velhice se tornam um acontecimento. Devido à maior circulação e a conseqüente reiteração dessas construções identitárias, os mass media (televisão, rádio, imagem, internet, etc.) “transformam em atos aquilo que não teria sido senão palavra no ar, dão ao discurso, à declaração, à conferência de imprensa a solene eficácia do gesto irreversível” (NORA, 1995, p.182). Dessa forma, conforme Denise Bernuzze Sant’ana (2005), os avanços ocorridos a partir da década de 1970, quando houve a “fusão” do desenvolvimento da genética com o da informática e com a massificação global do consumo de bens industrializados suscitaram diferentes olhares da mídia sobre os corpos velhos. Se por um lado as singularidades de um corpo “velho” deixadas de lado, em favor das exigências econômicas do mercado, por outro, os sujeitos, cuja condição econômica possibilita tal fato, tendem a aumentar o espaço dedicado aos cuidados de si, influenciados não só pelo discurso médico, mas também pelo culto à beleza, enquanto produto a ser consumido, isso incide sobre os discursos produzidos na e pela mídia para o corpo velho.

Analisaremos nosso corpus, também, a partir da noção de biopoder, compreendida a partir de Michel Foucault, em seu livro História da Sexualidade I: a vontade de saber, no qual põe em jogo a questão do biopoder. Para ele, esse tipo de poder é exercido sobre a vida do indivíduo. A noção de biopoder foi desenvolvida a partir do século XVII e possui duas formas principais que se interrelacionam: a anátomo-política do corpo humano, cujo foco é o corpo enquanto máquina, na sua disciplinarização, na ampliação das aptidões físicas com o objetivo de aumentar sua produtividade. Por isso, fez necessário investir na saúde do indivíduo, pois da saúde dele depende sua produtividade.

O segundo tipo de biopoder tem como foco o corpo em espécie. Esse segundo tipo tem como procedimentos as políticas sociais relativas à natalidade e à mortalidade associadas ao aumento da longevidade, do culto ao corpo saudável, incluindo práticas esportivas e o estímulo, principalmente da mídia, à busca de técnicas médicas de rejuvenescimento. Dessa forma, as disciplinas do corpo e uma biopolítica da população formam os dois centros sobre os quais se desenvolveu a organização do poder sobre a vida.

Este biopoder, sem a menor dúvida, foi elemento indispensável ao desenvolvimento do capitalismo, que só pode ser garantido à custa da inserção controlada dos corpos no aparelho de produção e por meio de

(5)

um ajustamento dos fenômenos da população aos processos econômicos. (FOUCAULT, 1999b, p. 132)

É com base neste referencial teórico que vamos desenvolver nossas análises, buscando no entrelaçamento da Análise do Discurso com outras disciplinas escavar os vestígios enunciativos midiáticos que constituem identidades para o corpo velho.

3 “UM NOVO TEMPO, A MESMA LIBIDO?”: ANALISANDO OS DISCURSOS SOBRE A VELHICE

Na Análise de Discurso, o corpus é o elemento determinante dos conceitos a serem adotados durante a análise. Como a grande questão do nosso trabalho são as construções identitárias que os discursos da/na mídia propõem para o corpo velho, escolhemos um corpus característico da Mídia no que diz respeito à forma, mas principalmente no que diz respeito ao conteúdo temático. E ao observar os temas, notamos a reincidência de imagem do corpo velho que focalizava a longevidade e a vitalidade. Dessa forma, verificamos que não dá para discorrer sobre construções identitárias sem levar, em consideração, a memória e os enunciados que nela circulam.

A memória discursiva não é a memória psíquica, ou neurofisiológica, ela é o resgate da exterioridade, das relações com a história, percebidas através da memória social e coletiva. São traços discursivos que oportunizam a interpretação dos textos, tendo em vista que “a existência do outro, nas sociedades e na história, permite a interpretação, através da identificação e das transferências que organizam a memória e as relações sociais em redes de significantes” (GREGOLIN, 2001, p. 26).

De acordo com Pêcheux (1999, p. 52), “a memória discursiva vem restabelecer os implícitos (...) de que sua leitura necessita: a condição do legível em relação ao próprio legível”. Dessa forma, o leitor se subjetiva e dá sentido à imagem a partir da posição que ele ocupa na sociedade, por isso as práticas de leitura são definidas a partir do momento em que o leitor entra em contato com o texto (verbal e/ou não-verbal) e escolhe quais ferramentas irá acionar para interpretá-lo e realizar uma leitura possível.

O leitor/consumidor ao ter contato com as propagandas e reportagens vai por em “conflito” as suas memórias sobre o que é ser velho e essa outra prática discursiva corporal, proposta pela mídia, que está constituindo uma outra identidade baseada na longevidade e em um ideal de juventude além das possibilidades para a velhice.

Conforme Courtine e Vigarelo (2006, p.341), “A sociedade democrática apaga indícios físicos tradicionais, embaralha os velhos códigos da sociedade de ordem, banaliza a postura, mascara as hierarquias”, possibilitando, dessa forma, a ressignificação de identidades no âmbito social, tornando a construção identitária midiática em que o sujeito se insere, um espaço de busca por uma não-identidade. Então, seria o politicamente correto a lei que estaria colocando essa outra imagem para o corpo velho? O que de fato possibilitou a emergência da propaganda institucional a seguir?

(6)

De fato, o que possibilitou a propaganda institucional foram as novas práticas discursivas que embasam os discursos sobre a sexualidade feminina na terceira idade. Essa mudança na forma de encarar o sexo nessa faixa etária é também provocada pelo politicamente correto e vêm suscitando diferentes olhares da mídia sobre os corpos velhos. O sujeito exposto na imagem a seguir não deixou de sofrer a ação do tempo, no entanto, o fato de está segurando uma camisinha destoa da construção imagética canônica para o corpo velho, sempre relacionada à inatividade sexual e à falta de perspectiva. Essa construção imagética canônica estereotipada, nas palavras de Simone de Beauvoir (1990), é fruto de um ideal convencional sugerido às pessoas idosas, em que o medo do escândalo e do ridículo tornam os idosos reféns do olhar do “outro”.

Assim, a propaganda a seguir situa-se em um momento de ruptura entre os dizeres sobre a velhice que têm como base o discurso religioso e que pregam a castidade e a decência e os dizeres sobre a velhice que são sustentados pelos discursos da/na mídia. Uma vez que a propaganda em questão tem como tema o carnaval, que é uma festa fortemente relacionada à exaltação da libido e a liberação das pulsões sexuais e que tem como proposta o desejo do desejo na velhice e a ligação dos sujeitos com mais de 60 anos ao mundo erótico, sendo esses sujeitos, portanto, sujeitos sexuados.

Assim, observamos que, a imagem do sujeito, que aparece na propaganda, é composta por símbolos que marcam uma construção identitária para o corpo velho: os cabelos brancos, o formato do corpo, a vestimenta, que ratificam o estereótipo. Os sentidos, que daí derivam, podem apontar para um sujeito cuja fragilidade corporal é apenas aparente. Dessa forma, os símbolos mudam, fazendo com que essa construção identitária do corpo velho deslize. Observe os enunciados a seguir: “Bloco da Mulher Madura” / “Use camisinha. É coisa de mulher segura.” / “Sexo não tem idade para acabar. Proteção também não.”. Tais enunciados só são possíveis em razão do verdadeiro da época em que vivemos e de uma biopolítica, que consiste numa “estatização do biológico” (FOUCAULT, 2002, p.286), voltada para a prevenção de doenças e consequente prolongamento da vida.

A biopolítica propõe mecanismos bem mais suaves, perspicazes e economicamente mais racionais do que simplesmente dar assistência. É o que acontece, por exemplo, a partir de um relatório do Ministério da Saúde, divulgado em 2006, que mostra um aumento na incidência de casos de AIDS entre idosos, em razão da mudança de comportamento sexual deles, nas últimas duas décadas, graças ao avanço das tecnologias médicas, incluindo a invenção de medicamentos como o Viagra. Relatórios como esse, ressaltam a necessidade de campanhas de prevenção, incluindo a produção de material publicitário como essa propaganda que estamos analisando.

(7)

Isso ocorre devido à necessidade do Estado de não permitir que os sujeitos idosos deixem de ser capazes de produzir, de ser economicamente viáveis e de ser socialmente ativos, em função da falta de cuidados preventivos com a própria saúde.

Observando a propaganda, notamos o jogo entre as expressões “mulher madura/mulher segura” que rompe com a ideia de “santidade” proposta pela igreja para os velhos que os afasta da possibilidade de uma vida sexual plena. Essa ideia recai com maior força sobre as idosas que sobre os idosos uma vez que os cabelos brancos e algumas rugas não contradizem o ideal de virilidade, principalmente em função de uma cultura machista em que a mulher idosa ou não é o objeto do desejo. Portanto, ser madura e segura está relacionado tanto ao fato de ser suficientemente inteligente para usar preservativo durante o coito, quando à possibilidade de a maturidade assegurar confiança suficiente para se expor e não ser apontada como uma “velha devassa”, pois os discursos que circulam na mídia reforçam a imagem de uma velhice saudável e ativa, inclusive sexualmente, e que tem meios de gerir o próprio corpo.

Na figura a seguir não há enunciados do campo da sexualidade, mas a imagem corpórea denota a virilidade do sujeito representado. Observe:

Figura 2 Época, 16 de novembro de 2009, p. 89

Na propaganda acima, abre-se um espaço corporal discursivo que se entrelaça com os enunciados “Invista em novas atitudes”, “Aprenda a investir na Bolsa de Valores”. A imagem, em destaque na propaganda, traz um ancião com uma disposição corporal diferente da imagem cristalizada do que é um corpo velho esteticamente. A exposição de um tórax bem definido e pele bronzeada em um corpo velho, inserido em uma prática cotidiana relacionada ao esporte, o surf, remetem a um ideal de beleza e juventude, a um biopoder.

O enunciados “Invista em novas atitudes”, “Aprenda a investir na Bolsa de Valores” materializam esse outro discurso da mídia que propõe essa “nova” construção identitária para a velhice. Como é característico do gênero propaganda, os verbos

(8)

aprender e investir estão no imperativo, trazendo consigo uma ideia de necessidade, de obrigação. Assim, os discursos do politicamente correto e os discursos econômicos atravessam os discursos da mídia sobre o corpo velho, propondo “novas atitudes”, é notório que isso inclui saber investir na Bolsa de Valores, mas também inclui uma necessidade de transformação. Dessa forma, o politicamente correto embasa a formação de uma identidade corporal que apaga as marcas do tempo e ressalta a necessidade de se manter sempre jovem, belo e saudável. Mas se é o rosto que traz os “indícios que autentificam uma pessoa, [...] um testemunho inédito do corpo como uma visão nova da identidade” (COURTINE e VIGARELO, 2006, p.341 - 342), é ele, o rosto, que traz os traços e altivez e felicidade que a XP Investimentos deseja como marca e que torna o ato de investir na Bolsa um símbolo de uma velhice feliz e estável, dentro do que rege os discursos do que é politicamente correto.

Para efeito de conclusão...

O discurso se materializa na língua e por isso possui uma regularidade, mas é na maneira de relacionar a língua com o social e com o histórico que os discursos se diversificam e, no caso de nossas análises, propõem uma construção identitária para o corpo velho diferente das imagens do corpo velho cristalizadas na memória social.

Conforme afirmamos na introdução, iniciamos nosso trabalho, objetivando analisar como a biopolítica e o biopoder influenciam na produção de identidades para homens e mulheres com mais de sessenta anos; investigar como a noção de corpo (físico e populacional) é tomada pela mídia, enquanto mecanismo de ratificação de um modelo de beleza, que desloca os sujeitos e constrói outras identidades para os velhos.

A biopolítica atua através da aplicação de biopoderes locais e se ocupa, em suma, da falta de capacidade produtiva e da inatividade dos sujeitos, seja devido à velhice ou às doenças, ou por qualquer “conjunto de fenômenos [...] que acarretam também consequências análogas de incapacidade, de por indivíduos fora de circuito, de neutralização” (FOUCAULT, 2002, p. 291), na proporção em que esses fenômenos se tornam preocupações políticas.

Isso tem como consequência cotidiana a rejeição às particularidades do corpo velho, consideradas negativas. Assim, para manter-se jovial e produtivo, na medida do (im)possível, é preciso cuidar do corpo através da prática esportiva, da cosmética, de tecnologias médicas preventivas e de tantos outros mecanismos de manutenção da vida e da beleza que demandam o consumo de bens, mercadorias e serviços que têm essa finalidade. Dessa maneira, os idosos que estão à margem das possibilidades econômicas sofrem um processo de segregação e hierarquização social, em função da “articulação do crescimento dos grupos humanos à expansão das forças produtivas e a repartição diferencial do lucro” (FOUCAULT, 1999b, p. 133), portanto para não ser excluído, o idoso deve se esforçar ao máximo para poder continuar sendo importante para o mercado seja através de sua produtividade e/ou através de sua capacidade de consumo.

(9)

Desse modo, no corpus analisados é recorrente a idéia de que o poder sobre a vida na produção dos afetos e das linguagens, nos corpos e nos desejos é capaz de produzir uma outra construção identitária para a velhice, fornecendo-lhe uma imagem de beleza e produtividade. É nesse momento, que o biopoder conjura a mídia e esta propõe à sociedade a juventude e a beleza enquanto produto a ser consumido.

Os resultados da análise confirmam a ideia de que a mídia, em geral, propõe a construção de múltiplas identidades para os maiores de sessenta anos: uma delas está relacionada à incapacidade produtiva e à inatividade sexual desses sujeitos; a outra está relacionada à longevidade, ao corpo sempre jovem e belo, e à produtividade, sendo essa a construção identitária ressaltada em nosso corpus. Assim, ao focalizar, em nosso artigo as conseqüências causadas ao ser humano e suas relações com o seu corpo e a sociedade pela implantação de uma ordem social baseada na tecnologia científica empresarial, nós buscamos problematizar essas transformações dos cuidados de si e do uso dos prazeres do corpo velho discursivisado.

Referências

BEAUVOIR, Simone de. A velhice. Trad. Maria Helena Franco Monteiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990. p.347 – 444.

COURTINE, Jean-Jacques; VIGRELO, Georges. Identificar traços, indícios suspeitas. In: COURTINE, Jean-Jacques (org.). História do corpo: as mutações do olhar. O século XX. Petrópolis, RJ: 2009. p. 341 – 361. Vol. 3.

FOUCAULT, M. Aula de 17 de março de 1976. In: FOUCAULT, M. Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p.285-315.

__________.A ordem do discurso. 5 ed., São Paulo: Edições Loyola. 1999a.

__________. História da sexualidade (vol. 1): a vontade de saber. 13.ed. Rio de Janeiro: Graal, 1999b.

__________. A arqueologia do saber. 3 ed., Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1972.

G1. Relatório mostra aumento de casos de AIDS entre idosos. Acessado em: 01/06/2011. Disponível em: http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,AA1357815-5598,00.html

GADET, F. & HAK,T. (orgs.)Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1990. GREGOLIN, Maria do Rosário. (org.) Discurso e Mídia: a cultura do espetáculo. São Carlos, SP: Claraluz, 2003a.

______. (org). Análise do Discurso: as materialidades do sentido. 2ed. São Carlos: Clara Luz, 2003b.

FERREIRA, Maria Cristina Leandro. Da ambiguidade ao equívoco: a resistência da língua nos limites da sintaxe e do discurso. Porto Alegre: Ed. Universidade UFRGS, 2000.

MILANEZ, Nilton. Corpo cheiroso, corpo gostoso: unidades corporais do sujeito no discurso. In: Acta Scientiarum. Language and Culture. Maringá, v.31, n.2, p.215-222, 2009.

PÊCHEUX, Michel. Papel da Memória. In: ACHARD, Pierre et al. Papel da Memória. Campinas, SP: Pontes, 1999b. Trad. José Horta Nunes.

(10)

REVEL, Judith. Nas origens do biopolítico: de Vigiar e punir ao pensamento da atualidade. In: KOHAN, Walter Omar e GONDRA, José (orgs.). Foucault 80 anos. Belo Horizonte – MG: Autêntica, 2006. p.51 – 62.

SANT’ANA, Denise Benuzze de. Transformações do corpo: controle si e uso dos prazeres. In: RAGO, M., LACERDA, L.B., VEIGA NETO, A. (orgs.). Imagens de Foucault e Deleuze: ressonâncias nietzchianas. 2.ed. Rio de Janeiro: DP&A. 2005, p. 99 – 110.

SILVA, Tomaz Tadeu da. (org.), Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. 2 ed., Petrópolis – RJ: Vozes, 2000.

Referências

Documentos relacionados

Uma maneira viável para compreender uma reação química é através da conservação das massas, isso porque numa abordagem mais ampla, como demonstra no livro

A democratização do acesso às tecnologias digitais permitiu uma significativa expansão na educação no Brasil, acontecimento decisivo no percurso de uma nação em

Portanto, mesmo percebendo a presença da música em diferentes situações no ambiente de educação infantil, percebe-se que as atividades relacionadas ao fazer musical ainda são

A ideia da pesquisa, de início, era montar um site para a 54ª região da Raça Rubro Negra (Paraíba), mas em conversa com o professor de Projeto de Pesquisa,

Crisóstomo (2001) apresenta elementos que devem ser considerados em relação a esta decisão. Ao adquirir soluções externas, usualmente, a equipe da empresa ainda tem um árduo

Estudos sobre privação de sono sugerem que neurônios da área pré-óptica lateral e do núcleo pré-óptico lateral se- jam também responsáveis pelos mecanismos que regulam o

Com o objetivo de enriquecer as informações referentes aos epífitos vasculares, esta pesquisa visa caracterizar a florística e a fitossociologia de uma

Para verificar a existência de associação entre as variáveis de interesse (tipo de IAM, tipo de serviço de saúde procurado no primeiro atendimento, número de serviços percorridos