MARCO ANTONIO DOS SANTOS TEIXEIRA JULIANA RAMOS LUIZ *

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Os desafios de organizar acervos de fontes orais: o caso do Núcleo de Pesquisa, Documentação e Referência sobre Movimentos Sociais e Políticas Públicas no Campo (CPDA/UFRRJ)

MARCO ANTONIO DOS SANTOS TEIXEIRA

JULIANA RAMOS LUIZ*

Para melhor apresentar a experiência de organização de acervos de fontes orais do Núcleo de Pesquisa, Documentação e Referência sobre Movimentos Sociais e Políticas Públicas no Campo, este artigo foi dividido em três eixos centrais. O primeiro deles apresenta o histórico do Núcleo como um todo, traçando uma linha constitutiva desde sua criação até a atual composição. O segundo eixo, com conteúdo mais analítico, pretende encarar os dilemas, desafios e impasses que são enfrentados para a organização de um acervo como o existente no Núcleo – especialmente no que tange às fontes orais – buscando responder/debater algumas perguntas apresentadas ao longo do texto. Por fim, o terceiro eixo encerra o artigo dispondo das considerações finais, no esforço de apresentar um balanço do todo exposto.

Histórico do Núcleo

Inicialmente criado em 1997, o Núcleo foi consolidado (com sala própria e serviços técnicos especializados) apenas a partir de 2003. Sua idealização e coordenação estão a cargo da professora do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CPDA/UFRRJ) Leonilde Servolo de Medeiros que desenvolve, como uma de suas atividades de pesquisa, a linha “Movimentos sociais, relações de poder e políticas públicas no campo”, direcionada para o estudo das formas de ação e organização dos diferentes grupos/categorias existentes no campo brasileiro.

A partir desta linha de pesquisa, foi encaminhado à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) em 2002, no edital do Programa Cientistas do nosso

Estado, o projeto de pesquisa denominado “Movimentos sociais, mudanças políticas e

culturais: uma leitura a partir dos trabalhadores rurais” que tinha como uma de suas atividades

* Marco Antonio dos Santos Teixeira é historiador pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro

(UNIRIO), mestre em Ciências Sociais pelo CPDA/UFRRJ e membro da equipe técnica do Núcleo desde 2006. Juliana Ramos Luiz é historiadora pela UNIRIO, mestranda em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e membro da equipe técnica do Núcleo desde 2010.

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a organização da documentação reunida, ao longo dos anos, de diversas pesquisas acadêmicas desenvolvidas na área de movimentos sociais rurais. No decorrer dos últimos anos o Núcleo também recebeu financiamento do Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural do Ministério do Desenvolvimento Agrário (NEAD/MDA). Uma vez financiado, seja com apoio da FAPERJ, seja com auxílio do NEAD/MDA, o Núcleo passou a se constituir por documentos originários não só de pesquisas acadêmicas, mas também por material de outras instituições, como do Centro de Documentação da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE Nacional) e do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE). Também compõem seu acervo, documentação de atividades de assessoria sindical realizadas por intelectuais afeitos ao tema dos movimentos sociais rurais que doaram seus acervos ao Núcleo. Dentre os pesquisadores que contribuíram com documentação para o Núcleo, cita-se: Afrânio Raul Garcia Júnior, Ezequiel Dias, Gisélia Potengy, Maria Emília Pacheco, Moacir Palmeira, William Santos Assis, e, evidentemente, a própria Leonilde Servolo de Medeiros.

Com relação ao material oriundo de pesquisas acadêmicas, o material acumulado pela professora Leonilde Medeiros foi a base inicial para a formação do Núcleo. O interesse de diversos pesquisadores e estudiosos da área em consultar e ter acesso ao material reunido foi uma das principais motivações para a formação do Núcleo. O desejo de utilização desse material pelos seus orientandos reforçou a importância da disponibilização deste acervo à comunidade acadêmica como um todo, permitindo a acessibilidade da história dos movimentos sociais no campo para pesquisadores de outras linhas, programas e institutos.

O Núcleo reúne em seu acervo material documental sobre formas de ação e organização dos trabalhadores do campo, dos setores empresariais relacionados ao meio rural, de agentes do Estado e da formação e desenvolvimento de políticas públicas para o campo etc. O acervo é dinâmico e está em constante crescimento. Além disso, nenhum material até então disponível fora reunido com o fim de alimentar a base de dados do Núcleo em si. A proveniência da documentação é diversificada, além de reservada para outros fins específicos, tornando imprescindível seu reordenamento quando incorporado, para permitir que melhor integre o corpus documental do Núcleo, servindo não mais como subsídios de outras pesquisas e projetos, mas sim como fontes de pesquisa, objetos de estudo e reflexão.

Os setores nos quais o material está dividido são: Audiovisual, Biblioteca, Documentação e Entrevistas. Os objetivos centrais do Núcleo são, conforme disposto em sua página eletrônica (ufrrj.br/cpda/nms):

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- Organização, preservação e divulgação da documentação reunida sobre as diferentes organizações e formas de mobilização social em torno das questões relacionadas ao meio rural no Brasil;

- Disponibilização do acervo documental (textual, audiovisual, impresso e publicações) para o estudo de pesquisadores, professores, alunos, instituições e demais interessados na questão agrária e na atuação dos movimentos sociais rurais no Brasil;

- Fornecimento de subsídios à pesquisa, desde a iniciação científica, mestrado ou doutorado, ou pesquisas de profissionais;

- Elaboração de instrumentos que possibilitem o acesso aos documentos de valor histórico e cultural;

- Recepção, organização e disponibilização, por meio de planilhas de acesso e de bancos de dados, a conjuntos documentais de diversos gêneros que sirvam de referência e apoio à atuação do próprio Núcleo e de outras instituições e/ou pesquisadores em iniciativas de debate acadêmico e troca de experiências;

- Incentivo à preservação e ao registro da memória das lutas no campo, sindicais e não-sindicais, através da divulgação do material existente e da promoção de eventos que favoreçam a produção de mais documentação a respeito.

Levando-se em consideração que este artigo se preocupa em analisar a organização de fontes orais, os dados aqui dispostos serão circunscritos ao setor Entrevistas. Para esse conjunto, e baseando-se apenas no grupo totalmente tratado e disponibilizado para o público, há um total de 202 entrevistas divididas em 10 categorias: Assessores de Formação e Educação (AF), Assessores Jurídicos (AJ), Assessores Técnicos (AT), Gestores Públicos (GP), Lideranças e Dirigentes de Organização não-Sindicais de Trabalhadores Rurais (LNST), Lideranças e Dirigentes de Organizações não-Sindicais Patronais (LNSP), Lideranças e Dirigentes de Organizações Sindicais de Trabalhadores Rurais (LST), Produtores Rurais (PR), Trabalhadores Rurais (TR) e, por último, Outros (OU) que compõem uma infinidade de funções como intelectuais, consultores, grileiros, assessores, parlamentares etc. A composição de cada grupo pode ser mais bem visualizada no gráfico abaixo:

29% 2% 22% 14% 1% 12% 15% 3% 1% 1% AF AJ AT GP LNST LNSP LST PR TR OU

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A diversidade dos documentos recebidos – de diferentes pesquisas, projetos e fins – resultou na opção de organização das entrevistas a partir do papel desempenhado pelo entrevistado no contexto da entrevista. Portanto, é possível localizar a mesma pessoa nas diferentes ramificações dispostas acima, como é o caso de Rolf Hackbart, ora identificado como Assessor Técnico – quando entrevistado enquanto assessor parlamentar da bancada do Partido dos Trabalhadores (PT) na Câmara dos Deputados, ora identificado como Gestor Público – quando entrevistado enquanto presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

O grupo de entrevistas também está dividido a partir do suporte original. Algumas advêm de transcrição literal e áudio original. Já outras são originárias de publicações em jornais e revistas. Tudo aquilo que é classificado como Entrevista está reunido em listagem única, independentemente do suporte. O conteúdo informado na planilha de classificação é que orienta o consulente sobre a origem do material descrito, como pode ser visto nos exemplos abaixo:

Figura I: Exemplo 1: Entrevistas disponíveis em áudio e transcrição

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A planilha de classificação possui, portanto, informações sobre o(s) entrevistado(s), o(s) entrevistador(es), o contexto de produção da entrevista, a classificação da entrevista, o tipo de material em questão (áudio em k7, em mp3 ou transcrição), além de descritores1 e um sumário da entrevista. No sumário, é possível identificar os assuntos tratados pelo entrevistado na sequencia em que eles foram abordados. Espera-se que essas informações facilitem o trabalho do pesquisador, pois fornece uma série de dados ao consulente que o ajuda a conhecer o material descrito e o orienta na decisão de consultar, ou não, a entrevista em questão. A seguir, um exemplo de uma planilha completa de entrevista.

Figura III: Planilha de classificação

O conjunto Entrevistas fornece ao pesquisador uma vasta gama de material para consulta. Um exemplo bastante notório é do entrevistado João Pedro Stédile, que possui, até a presente data, um total de 12 entrevistas distintas – em áudio, publicação especializada, publicação de grande circulação, entrevistas públicas, etc. Desde 2010 os esforços do trabalho

1 Segundo o Dicionário Brasileiro de Terminologia Arquivística, o descritor é uma “palavra ou grupo de palavras

que, em indexação e tesauro, designa um conceito ou um assunto preciso, excluindo outros sentidos e significados” (2005:68). Nas planilhas, os descritores correspondem aos temas. Procura-se na elaboração dos descritores, sempre que possível, privilegiar os conceitos e processos históricos que estão presentes na documentação descrita.

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da equipe técnica giram em torno da consolidação do acervo em conformidade com as regras e normas brasileiras de Arquivologia, além do tratamento e catalogação de novos materiais.

Os desafios e impasses do trabalho de organização do acervo do Núcleo

Do total de 202 entrevistas catalogadas até o presente momento no Núcleo, 129 são entrevistas de tipo transcrição literal ou áudio original. Destas 129, 105 possuem o respectivo áudio, já convertido em formato digital e disponível para consulta, ao passo que as demais 24 entrevistas apenas possuem a entrevista transcrita em papel. As demais 73 entrevistas do conjunto correspondem ao modelo do segundo exemplo da figura II, oriundas de jornais e revistas.

Logo, todas as entrevistas advêm de pesquisas variadas ou fontes de mídia diversas, desde que possuam conteúdo voltado para temática dos movimentos sociais e políticas públicas no campo. Por essa razão, nenhum material foi originalmente constituído com o fim de alimentar a base de dados do Núcleo, ao contrário do que ocorre em outros centros de documentação, como o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas – CPDOC/FGV. Nessa instituição, há um programa de história oral voltado para a produção de um acervo de depoimentos.

Em suma, as entrevistas do Núcleo são fruto sobretudo de doações de pesquisadores, cada qual tendo sido produzida com fim diverso e específicos contextos de produção e nenhuma fora inicialmente idealizada para compor o acervo do Núcleo, muito menos para servir de fonte de pesquisa em arquivo público. Isso pode ser evidenciado através da tabela a seguir, que mostra a origem das entrevistas disponíveis em áudio (já que correspondem ao maior volume do conjunto Entrevistas):

24 entrevistas Pesquisa - Sindicalismo Rural no estado do Rio de Janeiro

16 entrevistas Pesquisa - Assentamentos rurais em perspectiva comparada: uma análise das dimensões econômica, social, histórica e ambiental

13 entrevistas Pesquisa - Land reform and poverty reduction: lessons from Brazil

11 entrevistas Pesquisa - Reforma do Estado: instâncias, conflitos e atores. O lugar dos trabalhadores rurais

08 entrevistas Pesquisa - Trabalho Rural e Educação

07 entrevistas Entrevistas realizadas para a dissertação de mestrado do pesquisador Victor de Araújo Novicki

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05 entrevistas Pesquisa - Impactos regionais dos assentamentos rurais. Dimensões econômicas, políticas e sociais

04 entrevistas Pesquisa - Reforma Agrária: concepções, controvérsias e questões 04 entrevistas Outros

03 entrevistas Entrevistas realizadas para a dissertação de mestrado da pesquisadora Ana Maria Motta Ribeiro

03 entrevistas Entrevistas desenvolvidas para elaboração de documentários 01 entrevista Pesquisa – Conflitos no Campo

As pesquisas acima foram realizadas em tempos distintos, por grupos de entrevistadores/entrevistados múltiplos, além de intuitos e fins específicos. Foi essa fragmentação que corroborou na opção de organização hoje existente, embasada no ator a partir do papel desempenhado pelo entrevistado no contexto da entrevista. Trata-se, portanto, de um esforço para facilitar o trabalho dos pesquisadores da área, a fim de que os documentos arquivados no Núcleo possam ser explorados de forma exaustiva, segundo propósitos específicos de cada pesquisa.

Essas peculiaridades do acervo de fontes orais disponíveis implicam em alguns desafios constantemente enfrentados pela equipe técnica. Com isso, algumas indagações e reflexões sobre o acervo tornam-se constantes durante o processo de organização dos documentos do conjunto Entrevistas. Algumas das principais perguntas levantadas pela equipe técnica serão tratadas a seguir

A primeira delas busca avaliar quais são as implicações dessa variedade de origem do acervo de fontes orais para a organização do material. O principal limite para o tratamento do acervo de fontes orais do Núcleo é que a recuperação do contexto de produção da entrevista doada é difícil e, em alguns casos, talvez impossível. Como a tabela acima indica, há entrevistas oriundas de dissertações de mestrado, pesquisas financiadas por órgãos de fomento à pesquisa, resultando em relatórios e publicações, além de outras sem qualquer identificação. É claro que a leitura do material resultante da análise das entrevistas, como as dissertações, teses e relatórios dos pesquisadores, podem trazer informações sobre o contexto da pesquisa. Também a realização de entrevistas com os entrevistadores podem revelar aspectos do contexto de produção da entrevista. Todavia, atualmente, a equipe técnica do Núcleo não têm condições de realizar tal trabalho, sobretudo por falta de recursos que financiem uma investigação como essa.

O contexto da produção da entrevista é significativamente importante, já que corresponde ao fio condutor da seleção dos entrevistados, do roteiro de perguntas, das

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indagações e questionamentos formulados pelos entrevistadores. Para uma maior compreensão da fonte produzida pela entrevista é fundamental que se conheça os objetivos e problemáticas do pesquisador que realizou a entrevista. Essas informações ajudam a elucidar aspectos da entrevista que os consulentes têm acesso no Núcleo. Mais rico ainda seria conhecer as condições em que a entrevista foi realizada: local, como o entrevistado se comportou, quem estava presente no momento do depoimento etc. Em geral, as entrevistas do Núcleo não possuem essas informações esmiuçadas, embora haja um esforço da equipe em relacionar esses dados na planilha de classificação sempre que eles são conhecidos.

As diversas origens do acervo de fontes orais indicam que os contextos de produção das entrevistas são variados e, com isso, o Núcleo perde o controle da forma pela qual esse material fora produzido, inclusive com relação ao roteiro da entrevista. Sobre o roteiro, como trata o Manual de procedimentos do programa de História Oral da Justiça Federal:

Toda entrevista deve passar por um processo de preparação. A elaboração do roteiro da entrevista é uma das mais importantes etapas da preparação (...) O roteiro fará a conexão, por meio de perguntas, entre a experiência pessoal do depoente com as questões que animam a pesquisa e a reflexão historiográfica sobre a instituição estudada (DE SORDI, 2007: 12)

Seguindo o mesmo raciocínio, conclui Sônia Maria de Freitas que “todo entrevistador precisa saber como conduzir sua entrevista, as questões mais importantes a serem perguntadas e até onde ir nessa entrevista.” (FREITAS, 2006: 88), e esta é a razão pela qual nas planilhas de classificação do material há o item Roteiro, como mostra a Figura I. Apesar disto, pouquíssimas são as entrevistas que de fato possuem roteiros da entrevista, indicando mais uma lacuna no corpus documental disponível e mais um desafio a ser enfrentado pelo Núcleo na organização do mesmo.

Além disso, não há, para esmagadora maioria dos casos, termos de cessão/doação da entrevista para disponibilização - na íntegra - em arquivo a ser consultado pelo público. Conforme estabeleceu a Associação dos Arquivistas Norte-Americanos, em um guia de 1995, são itens considerados fundamentais na catalogação de entrevistas de história oral: 1) entrevistador; 2) resumo do conteúdo, da natureza e do escopo da entrevista; 3) restrições ao acesso, se houver e 4) nome do projeto ou coleção, se houver (ALBERTI, 2005: 08). Sem o termo de cessão/doação – inclusive já com alguns entrevistados falecidos – a disponibilização

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das entrevistas é um dilema diário enfrentado pelo Núcleo, para permissão total/parcial da divulgação das entrevistas.

Hoje o Núcleo dispõe de autorizações secundárias, advindas apenas do entrevistador que doou seu acervo e permitiu a disponibilização do material por ele elaborado. Tem como política do Núcleo na revisão das transcrições, elaboração de resumos e fichas catalográficas evitar/omitir conteúdo difamatório, acusações feitas por entrevistados a terceiros ou expressões de baixo calão. Apesar disto, esse filtro não pode ser feito nas entrevistas em áudio, sendo sempre avaliadas caso a caso no momento da permissão de acesso (já que não há reprodução de conteúdo em áudio para pesquisador). De toda forma, os pesquisadores que consultam o acervo de fontes orais do Núcleo assinam um documento no qual se responsabilizam pelo uso da entrevista, que deve ser feito para fins acadêmicos e buscando resguardar a identidade do entrevistado. Somente é permitida a citação textual, com indicação da fonte e é proibida a publicação no todo ou em parte da entrevista.

Por fim, ainda com relação ao material disponível em áudio, a condição física e auditiva do material é variada: há fitas que, em razão do tempo e do perecimento do material, têm seu conteúdo sonoro comprometido e/ou perdido. A opção pela digitalização das fitas surgiu como solução para evitar sua perda completa, levando em consideração que cada entrevista é única e impossível de ser refeita. Sobre o assunto, explica Verena Alberti que:

A entrevista - e a relação de entrevista -, além de se constituir num todo, é sempre única, não havendo possibilidade de se repetir em outras circunstâncias. Se um mesmo entrevistado for procurado mais tarde por outros pesquisadores, mesmo que com objetivos semelhantes, para prestar um novo depoimento, as duas entrevistas poderão até ser parecidas, mas jamais serão iguais (...) Assim, mesmo que as pessoas engajadas nas entrevistas não sejam diferentes, cada um dos depoimentos será único e precisa ser analisado em função das peculiaridades em que é produzido (o momento pessoal e histórico de realização da entrevista, os objetivos que o geraram e a relação que se estabeleceu entre as partes) (ALBERTI, 2007:106)

Há ainda, em alguns casos, a impossibilidade de retornar ao entrevistado devido ao seu falecimento A despeito das implicações que pode ter a disponibilização do acervo de fontes orais para consulta sem que todas elas tenham sido formalmente autorizadas pelos entrevistados, algumas entrevistas disponíveis no Núcleo, com figuras emblemáticas, como é o caso de José Gomes da Silva, ex-presidente do Incra, são de valiosa importância para a história nacional e, por conseguinte, não podem ser descartadas para aproveitamento de novos

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pesquisadores. Outras, com lideranças de trabalhadores rurais envolvidos em diferentes conflitos por terra no território nacional são valiosa fonte de pesquisa para os interessados em compreender os movimentos sociais rurais no Brasil. Nessas entrevistas, é possível conhecer, por exemplo, as formas de ação dos trabalhadores rurais, suas relações com outros atores, assim como a forma como experenciavam as lutas por terra ou outros eventos de caráter nacional, como o golpe civil-militar de 1964.

Outros problemas envolvendo o áudio, consequência da produção do material sem intuito prévio de compor um acervo, é seu descarte pelo pesquisador. Como exemplo, menciona-se as entrevistas realizadas por Victor Novicki que, transcrito o áudio, reutilizava algumas de suas fitas para novas entrevistas. Nesse processo, há perdas substanciais de material sonoro bruto e, em alguns casos, perda completa, como é o caso da entrevista com o ex-assessor da Comissão de Assuntos Fundiários, José Augusto Rodriguez, que teve todo seu conteúdo apagado pela reutilização da fita para outras entrevistas. Há também o aproveitamento de fitas/lados/trechos para realização de novas entrevistas. Nesses casos, é possível ocorrer a perda da totalidade do áudio, quando todos os trechos não são localizados nos suportes disponíveis, como é o caso da entrevista com o político Gregório Lourenço Bezerra, em que sua parte inicial não foi localizada.

Há espaços específicos na planilha para apontar observações sobre alguns dos limites do material em questão e, assim, indicar ao leitor as possíveis lacunas da fonte, como pode ser visto na tabela da planilha do ex-dirigente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agrigultura – CONTAG, Francisco Urbano de Araújo Filho:

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Em resumo, permitir o uso ou não de entrevistas – sem autorização formal, sem todos os dados do contexto de sua produção ou, até mesmo, incompletas – são perguntas do cotidiano da organização do acervo. Para os casos mencionados acima, optou-se pela disponibilização em prol da difusão de material raro para a temática. Embora o pesquisador deva estar atento aos limites da fonte no momento de sua análise, as entrevistas realizadas por outros pesquisadores revelam-se importantes ferramentas de reflexão, na medida em que são fontes produzidas a partir da fala dos entrevistados que, em linhas gerais, falavam sobre suas experiências como atores que participaram de uma situação determinada. A especificidade dessas entrevistas é terem sido realizadas de acordo com os objetivos de outras pesquisas. Portanto, a conjuntura histórica de produção é distinta. Por isso, os resultados obtidos decorrem das hierarquias de ideias feitas no processo de realização da entrevista. Mas esses limites não diminuem a importância dessa fonte.

Outra reflexão que nos faz perceber a importância deste material refere-se às especificidades das fontes orais voltadas para o tema movimentos sociais e políticas públicas do campo. Isto porque, o desprestígio observado, em geral, para a classe trabalhadora como um todo e para a classe trabalhadora rural em especial repercute no tipo de entrevistados que majoritariamente compõem o acervo: são aqueles considerados “invisíveis”, por não serem identificados normalmente como sujeitos na história. Muitas vezes, a única forma de conhecer suas histórias é através de entrevistas como essas, uma vez que no mundo rural, no qual o analfabetismo é grande, esses sujeitos deixam pouco ou nenhum registro escrito de suas trajetórias de vida.

Além disso, a invisibilidade social “se relaciona à forma como são vistos os trabalhadores de profissões desprovidas de status, glamour, reconhecimento social e adequada remuneração” (CELEGUIM; ROESLER, 2009:01). Novamente aponta-se como contraponto o acervo do CPDOC/FGV, que desde sua origem priorizou a construção de um arquivo voltado para a classe política, identificada como “o conjunto de indivíduos que ocupa posições de mando na sociedade, e que exerce influência direta sobre as decisões centrais que afetam a comunidade em seu conjunto” (ALBERTI, 1998:01).

Apesar de o Núcleo possuir entrevistas com importantes figuras públicas e políticas nacionais, como é possível notar no gráfico do início do artigo, 51% das entrevistas hoje disponíveis para acesso ao público são de lideranças/dirigentes sindicais ou não sindicais que não são conhecidos/reconhecidos fora do universo rural ou, até mesmo, de suas localidades, mas não por isso menos importantes para a história. Além disso, há a presença de entrevistas

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com trabalhadores rurais, posseiros, assalariados, portanto, indivíduos comuns para buscar compreender a realidade social rural através dos seus depoimentos.

A característica de alguns grupos de entrevistados, como o de cortadores de cana, por exemplo, normalmente é o da itinerância. Esses trabalhadores costumam ir para onde há trabalho. Alguns entrevistados, como João da Silva, canavieiro da região de Campos dos Goytacazes, citam em seu depoimento, as diversas usinas e regiões nas quais já prestou serviço. Tudo isso contribui para a dificuldade de reencontro dessas pessoas para que se busque um termo de autorização formal de liberação para consulta da entrevista. No caso das entrevistas com os trabalhadores anônimos na histórica, no sentido de que não ganharam notoriedade política, a importância e a particularidade desse acervo é revelar aspectos da vida desses sujeitos que ajudam o pesquisador ou o consulente a entender sobre processos históricos diversos do mundo rural, como a relação de trabalho nas usinas de engenho, por exemplo, só para permanecer no escopo do caso referido acima.

Outra característica marcante nesse grupo de entrevistados é o papel da confiança, da palavra e da honra. Os documentos, papéis e a burocracia dos termos de cessão são vistos algumas vezes negativamente por estes indivíduos, já que o elemento confiança possui um peso especial na relação entre entrevistados-entrevistadores. Como contraponto, é possível usar as entrevistas de militantes urbanos do Regime Civil-Militar brasileiro. Na maioria dos casos, o acesso a esses indivíduos é complicada e exige pormenorização dos objetivos da pesquisa, da intervenção de terceiros, do destrinchamento das intenções de uso do material, além de, em muitos casos, ser exigido o uso do depoimento sem sua identificação, concedido somente se usado em anonimato. A perseguição pela polícia política, as prisões e a tortura tornaram esse grupo, na sua grande maioria, intrinsecamente “desconfiados” e menos abertos para exposição das suas vidas particulares. Não se quer fazer dessas observações uma regra, mas apenas indicar aspectos de reflexão a partir da experiência de pesquisa dos pesquisadores, já que o acordo informal estabelecido entre entrevistado e entrevistador parece ser predominante nos casos das pesquisas feitas com os trabalhadores rurais.

Esses são alguns dos principais problemas encontrados na organização do acervo do Núcleo, que não é constituído exclusivamente por entrevistas, mas sim por diversos materiais como documentos, mapas, textos, livros, etc. Sendo assim, o cuidado na catalogação das entrevistas leva em consideração que não se trata de um acervo de história oral, mas sim um acervo com entrevistas. Define-se história oral como:

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Um método de pesquisa (histórica, antropológica, sociológica, etc.) que privilegia a realização de entrevistas com pessoas que participaram de, ou testemunharam, acontecimentos, conjunturas, visões de mundo, como forma de se aproximar do objeto de estudo. Como consequencia, o método da história oral produz fontes de consulta (as entrevistas) para outros estudos, podendo ser reunidas em um acervo aberto a pesquisadores (ALBERTI, 2007:18).

Como já mencionado, não há produção de entrevistas especificamente para alimentar a base de dados do Núcleo, portanto não se pode chamá-lo como um acervo de história oral. São entrevistas produzidas por diversos pesquisadores, que se valem da história oral e nem sempre como objeto de pesquisa, mais como ferramenta de pesquisa. Muitas vezes desenvolvendo trabalhos com memória e não de memória. Apesar disso, o método em si, como disposto na citação acima, produz um resultado em si, que é entrevista, e que pode ser absorvida por um arquivo especializado, como faz o Núcleo de Pesquisa, Documentação e Referência sobre Movimentos Sociais e Políticas Públicas no Campo para entrevistas voltadas para sua temática.

Sendo um arquivo que está mais preocupado em garantir a preservação da memória dos movimentos sociais e políticas públicas no campo, as diversidades encontradas no material, as dificuldades para tratá-lo e até mesmo, a não observância das condições próprias de produção de um material de história oral são por ora flexibilizadas para permitir a consulta desse valioso material aos pesquisadores.

Considerações Finais

O Núcleo, formado há quase uma década, vem diaramente prestando serviços de difusão de material desenvolvido pela academia e por demais organizações sobre a realidade do campo brasileiro. Inobstante os dilemas enfrentados, especialmente por não ser o material originalmente constituído para disponibilização ao público, logo, não haver a preocupação de manter os métodos de elaboração de depoimentos de história oral, a opção feita pela sua equipe técnica foi de desenvolver instrumentos de catalogação e fichamento que melhor de adequem a tais especificidades.

A diversidade do material torna o trabalho do Núcleo não apenas um desafio diário, mas um espaço para reflexão sobre a forma como melhor gerir a documentação já catalogada e como integrar toda nova documentação que cotidianamente entra para o acervo. A catalogação das entrevistas a partir do entrevistado é um exemplo da sensibilidade

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desenvolvida pela equipe sobre a forma de gerir o material das entrevistas, sem transformar a organização do acervo em algo estéril ao pesquisador, e, consequentemente, sua “invisibilidade” pelo corpus documental existente no acervo. Afinal de contas, um dos objetivos do Núcleo consiste em “elaborar instrumentos que possibilitem o acesso aos documentos de valor histórico e cultural”, portanto, o esforço em reunir o material da melhor forma de potencializar a divulgação do material resultou nas opções apresentadas ao longo deste artigo.

Evidentemente que diversas indagações podem ser suscitadas e, certamente, serão levantadas ao longo do trabalho. O uso de fontes orais impõem necessidades próprias na organização de arquivos públicos, ainda mais se constituídos com outros tipos documentais. O esforço em questionar algumas técnicas e procedimentos é o que permite a melhoria da gestão dessas fontes, divulgação do seu acervo e disponibilização ao público.

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Referências Bibliográficas:

ALBERTI, Verena. Manual de história oral. 3ªed. Reimp. Rio de Janeiro: Ed.FGV, 2007 __________. O acervo de história oral do CPDOC: trajetória de sua constituição. Rio de Janeiro: CPDOC, 1998. 18f.

__________. Tratamento das entrevistas de história oral no CPDOC. Rio de Janeiro: CPDOC, 2005. 11f.

ARQUIVO NACIONAL (Brasil). Dicionário brasileiro de terminologia arquivística. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2005.

CELEGUIM, Cristiane R. J.; ROESLER, Heloísa M. K. N. A invisibilidade social no âmbito do trabalho. Rev. Interação. Faculdade das Américas, ano III, nº1, jan-jun, 2009. Disponível

em: http://www.fam2011.com.br/site/revista/pdf/ed4/art6.pdf.

DE SORDI, Neide Alves Dias. Manual de procedimentos do programa de história oral da

Justiça Federal. Brasília: Conselho da Justiça Federal, 2007

FREITAS, Sonia Maria de. História Oral: possibilidades e procedimentos. 2ª Ed. São Paulo: Humanitas, 2006

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