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FREY APOLLONIO ? UM ROMANCE DO BRASIL QUE O LEITOR BRASILEIRO DESCONHECE

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Academic year: 2019

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DESCONHECE

Patricia Cezar da Cruz1

RESUMO

O romance Frey Apollonio, um romance do Brasil foi escrito pelo botânico alemão Carl Friedrich Phillipp von Martius em 1831. Após uma estadia no país, em que o autor conheceu a Amazônia brasileira, escreveu o livro não somente como um relato de viagem comum à época, mas como um romance de formação. O personagem principal, Hartoman, alter ego de Martius, chega ao Brasil com uma visão extremamente eurocêntrica e preconceituosa contra o país e aqueles que o habitam, os índios. Porém, após um período de convivência com esses autóctones em solo nacional, Hartoman tem sua visão parcialmente modificada. Se antes mostrava-se eurocêntrico, essa percepção é modificada pela convivência em que seu desenvolvimento pessoal, intelectual e moral é desenvolvido conforme propõe o “romance de formação”. O romance “do Brasil” permaneceu inédito no Brasil e na Alemanha até 1967, quando o manuscrito original foi encontrado por Erwin Theodor na Biblioteca da Baviera. Depois dessa descoberta, a tradução brasileira de Erwin Theodor ocorreu em 1992, para um lançamento simultâneo com a Alemanha. No século XIX, no Brasil, vigorou a vertente do Romantismo cujos objetivos eram muito diferenciados daqueles que propunham o romance de Martius, este inclinado ao Romantismo alemão, sobretudo na sua vertente de Iena, cuja ideia era ir de encontro com o outro, pois o romance propõe não uma nacionalização, mas uma desnacionalização. Assim, o romance de Martius não seria destinado ao público brasileiro, sedento por conhecer uma “Literatura brasileira genuína” em que fauna, flora e floresta eram exaltadas pelos autores nacionais sob alegação de serem símbolos do Brasil, elevando o país a um patamar de grandiosidade. Frey Apollonio, um romance do Brasil diz respeito às Letras nacionais por ser um romance que aborda o Brasil e tenta explorar o país, embora pelo olhar estrangeiro.

Palavras-chave: Romantismo alemão. Romance de formação. Martius. Brasil.

ABSTRACT

The novel Frey Apollonio, um romance do Brasil was written by the German naturalist Carl Friedrich Phillipp von Martius in 1831. After stay in the country, in which the author went to the Brazilian Amazon, he wrote a book not only as a trip report, common at that time, but also as a Bildungsroman. The main character, Hartoman, Martius’ alter ego, comes to Brazil with an extremely Eurocentric and prejudiced vision of the country and about those who live in this place, best known as Indians. However, after a period living together with the autochthonous, Hartoman partially changes his mind. If before he was shown as Eurocentric, this perception is then transformed, leading the character to a personal and intellectual development, like proposes the Bildungsroman. This novel “of Brazil” remained unpublished in Brazil, as well as in Germany, until 1967, when the manuscript was founded by Erwin Theodor at the Baviera’s Library. After this discovery, Erwin Theodor’s Brazilian translation occurred in 1992, to a simultaneous release with Germany. During the XIX century, it prevailed in Brazil a strand of Romanticism whose purposes were very different from the Martius’ novel, this one more inclined to the German Romanticism, particularly to its Jena period, which wanted a cooperation between different kind of people, not a nationalism as they wanted in Brazil. Thus, Martius’ novel would not be directed to the Brazilian public, anxious to meet a “genuine Brazilian Literature” in which fauna, flora and forest were exalted by national authors under the allegation that they would be symbols of Brazil, raising the country to a level of grandiosity. Frey Apollonio, um romance do Brasil

ϭ Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Pará (Estudos Literários). Mestre em Letras /Estudos Literários pela UFPA. Licenciada Plena em Letras/Alemão pela UFPA. Autora e coordenadora do projeto Littera – literaturas germânica e brasileira da Casa de Estudos Germânicos da UFPA.

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is important to the national Literature for being a novel that approaches Brazil and tries to explore the country, even though through a foreigner’s point of view.

Keywords: German Romantism. Bildungsroman. Martius. Brazil.

Recebido em: 10/08/2017 Aprovado em: 04/09/2017

A literatura brasileira obteve sua consolidação durante o período Romântico, com autores nacionais que buscaram, a partir da década de 1830, escrever o que acreditavam ser a

fundação de uma “literatura nacional genuína”. Desde o lançamento de Suspiros poéticos e saudades, de Gonçalves de Magalhães, marco do Romantismo brasileiro que, para Wilson Martins (1978), Soares Amora (1976) e Luciana Picchio (1997) é discutível, o movimento em

sua versão brasileira buscou abordar a tradição nacional em romances, “o melhor veículo para

propagação de ideias” (ALENCAR apud COUTINHO, 1986), por autores como o próprio

Magalhães, Teixeira e Sousa com o Filho do Pescador embora esquecido; Macedo com A Moreninha e principalmente José de Alencar com O Guarani, dentre outros nomes expressivos da época. Brasilidade significava a adoção da temática nacional, como o povo, a fauna, a flora e os costumes locais, desenvolvendo assim as cores nacionais numa literatura de identificação nossa.

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Um importante viajante europeu que chegou ao país foi Carl Friedrich Filip Von Martius, botânico alemão interessado pelos assuntos brasileiros, convidado pela corte da Baviera a vir ao Brasil2. Aqui, durante uma estadia de 10 meses que se estendeu à Amazônia, Martius escreveu a Historia Naturalis Palmarum-nova genere et species plantarum,quas in

itinere per Brasiliam annis 1817-1820 suspecto collegit et descripsit, a famosa Flora Brasiliensis, que continha 20.733 páginas e apresentava a descrição de 22.767 espécies de

plantas (ROSENTHAL, 1992) e a Viagem pelo Brasil 1817-1820. Em 1845, Martius ganhou o prêmio do IHGB – Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro com o artigo denominado

Como se deve escrever a história do Brasil, no qual fala sobre um país “que muito promete”

(MARTIUS, 1845, p. 381-403) e que, dentre outras questões, abordava assuntos como o da miscigenação. Porém, a este trabalho, Martius interessa com relação ao único romance que escreveu: Frey Apollonio – um romance do Brasil, inédito no país até o ano de 1992, quando ganhou a tradução em português por Erwin Theodor em lançamento simultâneo com a Alemanha (ROSENTHAL, 1992).

Na obra Frey Apollonio – um romance do Brasil, o autor escreveu um livro a priori

contraditório, a começar de seu subtítulo, “um romance do Brasil”. Embora tenha ligação com

o país a partir desse complemento, Martius o manteve longe do leitor brasileiro do século XIX, sem interesse de publicá-lo no período romântico, ainda que o tivesse escrito no ano de 1831 (ROSENTHAL, 1992). Ao observar o subtítulo em seu original em alemão, lê-se

Roman aus Brasilien”, que se traduz por “romance do Brasil”, no sentido do país como

procedência, e não “Roman von Brasilien”, como “brasileiro” ou “nacional”. Portanto, não

pareceu ser objetivo de Martius, como autor abstrato, identificar Frey Apollonio - um romance do Brasil como brasileiro, que se reforça ainda pela despreocupação do autor em convencer os leitores sobre sua brasilidade ou em exaltar o nacionalismo no livro à maneira dos autores românticos nacionais. Antes, o romance se aproxima de uma narrativa que, vinculada ao Romantismo alemão em sua ramificação que trata do universal, o de Iena,

proporia, para usar os termos de Karin Lisboa, uma “desnacionalização” (LISBOA, 1993, p.

345), uma vez que apresenta os personagens principais europeus; distribui as localizações geográficas do romance entre Brasil, Europa e Arábia, e os índios dos quais partem as principais ações da trama são incas. Assim, a brasilidade de Frey Apollonio- um romance do

Ϯ No ano de 1815, o rei Maximilian Joseph I da Baviera solicitou à Real Academia de Ciências de Munique uma

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Brasil é explorada pela visão da alteridade, que demonstraria o país como um lugar cosmopolita, e não somente uma terra só de e para brasileiros.

Em um romance que oscila entre o que Karin Lisboa (1997) interpretou como pendular, cuja narrativa é ora homodiegética, ora heterodiégetica, Frey Apollonio – um romance do Brasil se afasta da proposta brasileira de Romantismo no século XIX. Não se encontra nele um enredo que aborde o romanesco tão ao gosto do leitor nacional; tampouco são presentes os traços identificadores de brasilidade, como o índio no papel de herói ou a exaltação nítida da natureza, tema comum entre os escritores românticos brasileiros. Não há

um esforço do autor em demonstrar a tradição brasileira na intenção de “fundar uma literatura

nacional”. Embora Martius se sentisse um “afilhado do Brasil” (ROSENTHAL, 1992, p.11), o

mesmo nasceu na Alemanha, e por esse dado do autor concreto retiraria o comprometimento do autor abstrato com o apelo e as características dos romances nacionais, e transferiria o

entendimento de “Brasil” para a visão da alteridade, em que o país é visto e sentido pelo

estrangeiro. Essa noção de autor abstrato, aqui, é importante pelo fato de que não se está apontando que, pelas origens do autor concreto, existiriam tais diferenças de entendimento do Brasil dentro do Romantismo, mas que, sendo abstrato, temos o que Schmid (2005) define

como “níveis de comunicação”, em que o destinatário da mensagem é para quem

intencionalmente ou presumidamente o autor se direciona, o “adressee”, no caso, os leitores alemães, uma vez que os aspectos do texto apresentariam uma identificação com esse público. No papel de autor abstrato, o autor se mostra pelo seu ato criativo no qual seu texto, com seus objetivos e subjetividades, surge para que posteriormente o público leitor faça sua reconstrução ao lê-lo. Frey Apollonio – um romance do Brasil, escrito à maneira de Os anos de aprendizado de Wilhem Meister, de Goethe, é, como aquele, um Bildungsroman, romance

de formação, termo primeiramente usado por Karl Morgenstern (SELBMANN, 1988), o qual

é “uma das preocupações-chave do Romantismo alemão: a formação do indivíduo e o pleno

desenvolvimento de suas faculdades” (NIVELLE apud VOLOBEUF, 1999, p.43) e, uma vez

que Bildung é um conceito que vem do Classicismo, visa o aprimoramento das faculdades

morais, intelectuais e espirituais, promovendo assim a harmonia da sociedade: “mediante a

narração do amadurecimento de Meister, Goethe apresenta o ideal clássico da formação plena

da personalidade” (ROSENFELD, 1997, p. 73).

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nativos, os eleva à mesma dignidade dos homens do Velho Mundo. Segundo Volobuef (1999), tal ponto de vista sugeriria ainda, pela variação de nacionalidades apresentadas (alemã, de Hartoman; italiana, de Riccardo; e portuguesa, de frei Apollonio) uma possível convivência universal, cosmopolita, que se aproxima de uma das primeiras vertentes do Romantismo alemão: o Jenaer Romantik (Romantismo de Iena), mais aberto à ideia do

contato com outras nacionalidades, a exemplo, no século XIX, de August Schlegel na viagem que fez com Madame de Stëal pela Itália, Franca, Escandinávia e Inglaterra, cujo livro

De’Allemagne, “a literatura alemã, até então pouco conhecida e quase desprezada no mundo,

entrou definitivamente no concerto das literaturas europeias” (CARPEAUX, 2003, p. 91). Por outro lado, o romance posiciona-se contra a Weltschmerz (dor do mundo) do Romantismo

alemão: na Amazônia, Hartoman diz: “Vós, que vos considerais os cansados da Europa,

aprendei com minha solidão mais forte do que eu próprio e que acabaria por matar-se se tivesse de suportá-la para sempre” (MARTIUS, 1992, p.199). Embora Hartoman encerre o romance com um melhor julgamento da cultura brasileira, ele é europeu, e a Europa é a sua casa. Mas, de acordo com Montez:

Sem dúvida, discutir se Frey Apollonio é ou não brasileiro não é a questão principal. Mas esta afirmação não pode escamotear uma questão de fundo relevante. Trata-se da tarefa de investigar à luz das obras concretamente existentes o que realmente foi determinante na origem do romantismo brasileiro, e, no caso concreto de Martius, de se investigar em que consistiu o romantismo de Martius e em que medida ele está inserido no desenvolvimento literário no Brasil, isto é, em que medida ele determina e/ou é determinado pelo então nascente Romantismo brasileiro.

(MONTEZ, 2006, p. 6)

Como se vê, Montez (2006) propõe um estudo sobre as origens do Romantismo brasileiro, sobre como ele se estabeleceu no país. A presença dos viajantes foi importante para que anotações e relatos de viagem trouxessem à luz questões ligadas ao país. Mais particularmente, sua realidade tropical diferia muito da paisagem europeia a que estavam acostumados. Se os viajantes sugeriram aos escritores brasileiros abordar a temática de

“Brasil”, e se Martius aproveitou a ideia para desenvolver seu próprio romance sobre o país, cabe investigar por que a recepção do romance se tornou inexistente no país no período romântico.

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Brasilien, seu primeiro e provavelmente único romance. Esta obra, que assina como Siutram,

anagrama de seu nome, aguardou mais de 160 anos para ser editada. Em 1992, ela vem a lume ao mesmo tempo na Alemanha e no Brasil, em versão traduzida. Conforme o editor e tradutor

Erwin Theodor, Frey Apollonio pode ser compreendido como o “primeiro romance do Brasil,

dentro e fora do país”, uma vez que este gênero, em sua forma apurada tenha chegado tarde por aqui (...) Theodor considera que o naturalista segue os cânones da literatura romântica, desvelando-se em sua obra como um genuíno Bildungsroman. (LISBOA, 2008, p. 117)

No Brasil, além da primeira edição da brasiliense em 1992, em 2005 a editora da imprensa oficial também publicou o romance com a tradução de Erwin Theodor, o que se pode verificar que se trata da mesma tradução. Frey Apollonio, como já dito, ficou inédito para o público brasileiro até o ano de 1992, quando foi publicado no Brasil simultaneamente com a Alemanha, pela editora brasiliense. Escrito em alemão gótico, coube ao tradutor Erwin Theodor Rosenthal decifrar os manuscritos encontrados na biblioteca da Baviera, por ocasião do centenário de morte de Martius e assumir a tradução inteira do romance. De acordo com Lênia Mongelli (1995), Erwin Theodor teve um primeiro contato com o romance no ano de 1967, na forma de um manuscrito (talvez a repetição pudesse ser evitada por outro termo) contendo 314 páginas, cuja leitura não era muito fácil.

O detalhamento do tipo de tradução utilizada por Rosenthal, valeu-se da tradução logocêntrica, ou da tradução multicultural; se como tradutor interferiu no texto original ou não; se reescreveu partes do romance são questões que ainda precisam de estudos. A importância desta tradução de Rosenthal para o português não apenas descortina um romance

“do Brasil” que ficou desconhecido do público leitor brasileiro, mas também trouxe a

verificação de que, antes mesmo dos escritores brasileiros, como O filho do Pescador, de

Teixeira e Sousa, de 1843, existiu um romance com enfoque do país, portanto, um primeiro romance do Brasil, porém sob olhos da alteridade. Daí a importância desta tradução de 1992, a primeira em língua portuguesa, publicada com mais de um século de atraso.

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