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Fábula: narrativa e resistência

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Academic year: 2020

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F Á B U L A : N A R R A T I V A E R E S I S T Ê N C I A

Juliano Desiderato A N T O N I O *

A s FÁBULAS

A palavra fábula vem do verbo latino "fabla", que significa falar, fabular ou narrar histórias. E uma narrativa pequena, que ao historiar acontecimentos fictícios tem a dupla função de instruir e divertir (Jesualdo,

1985, p. 143; G ó e s , 1984, p. 144).

N u m a fábula, geralmente os actantes s ã o animais, enquanto que nas p a r á b o l a s i n t e r v ê m homens e nos a p ó l o g o s , seres inanimados ( G ó e s , 1984, p.

144).

Rousseau, o grande filósofo francês, critica as fábulas por muitas vezes trazerem mentiras e i n f o r m a ç õ e s erradas a respeito dos animais, como na fábula A Cigarra e a Formiga, em que se diz que a cigarra é um inseto p r e g u i ç o s o , que n ã o trabalha como a formiga. N o entanto, o naturalista Fabre descobre que no v e r ã o a cigarra fura as cascas das á r v o r e s para sugar o l í q u i d o que delas escorre e que as formigas é que aproveitam do sulco aberto pela cigarra, expulsando-as dali (Jesualdo, 1985, p. 150).

Aluno do Programa de Pós-Graduação. Itinerários, Araraquara, n° 10, 1996.

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A RESISTÊNCIA

As fábulas originaram-se de tempos m u i t o antigos, como c o n s e q ü ê n c i a da necessidade do homem de expressar seus pensamentos por meio de imagens e s í m b o l o s ( G ó e s , 1984, p. 144).

E n t ã o , para que se possa entender a simbologia utilizada nas f á b u l a s , bem como sua o r g a n i z a ç ã o narrativa, " é preciso descrever o e s p e t á c u l o , determinar seus participantes e o papel que representam na historiazinha simulada" (Barros, 1990, p. 16). Para isso, será aplicada à a n á l i s e da fábula O Macaco e o Gato, de Monteiro Lobato, alguns conceitos da teoria s e m i ó t i c a desenvolvida por A . J. Greimas e pelo Grupo de I n v e s t i g a ç õ e s S ê m i o -l . i n g ü í s t i c a s da Esco-la de A-ltos Estudos em C i ê n c i a s Sociais, que "tem por objeto o texto, ou melhor, procura descrever e explicar o que o texto diz e como ele faz p a r a dizer o que diz " (Barros, 1990, p. 7).

Segundo esse modelo, para se chegar à i n t e r p r e t a ç ã o de um texto, deve-se percorrer um percurso, o percurso gerativo de sentido, que é uma s u c e s s ã o de n í v e i s , cada um com uma d e s c r i ç ã o e s p e c í f i c a , indo do mais concreto ao mais abstrato. Os n í v e i s do percurso gerativo s ã o t r ê s : o fundamental (ou profundo), o narrativo e o discursivo ( F i o r i n , 1990, p. 17).

O MACACO E O GATO ( L O B A T O , 1973, p. 54)

S i m ã o , o macaco, e Bichano, o gato, moram juntos na mesma casa. E pintam o sete. U m furta coisas, remexe gavetas, esconde tesourinhas, atormenta o papagaio; outro, arranha os tapetes, esfiapa as almofadas e bebe o leite das c r i a n ç a s .

Mas, apesar de amigos e s ó c i o s , o macaco sabe agir com tal maromba que é quem sai ganhando sempre.

Foi assim no caso das castanhas.

A cozinheira pusera a assar nas brasas umas castanhas e fora à horta colher temperos. Vendo a cozinha vazia, os dois malandros se aproximaram. Disse o macaco:

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- A m i g o Bichano, v o c ê , que tem uma pata jeitosa, tire as castanhas do fogo.

- O gato n ã o se fez insistir e c o m muita arte c o m e ç o u a tirar as castanhas.

- Pronto, uma...

- Agora, aquela de lá... Agora aquela gorducha... Isso. E mais a da esquerda, que estalou...

O gato as tirava, mas quem as comia, gulosamente, piscando o olho, era o macaco...

De repente, eis que surge a cozinheira, furiosa, de vara na m ã o . - Espera a í , diabada!...

Os dois gatunos sumiram-se aos pinotes. - Boa p e ç a , hein? - disse o macaco lá longe. O gato suspirou:

- Para v o c ê , que comeu as castanhas. Para m i m f o i p é s s i m a , pois arrisquei o p ê l o e fiquei em j e j u m , sem saber que gosto tem uma castanha assada...

O bom bocado n ã o é para quem o faz, é para quem o come.

N o nível profundo ( o mais abstrato) encontra-se a o p o s i ç ã o entre /esperteza/ e /ingenuidade/, as categorias s e m â n t i c a s que e s t ã o na base da c o n s t r u ç ã o do texto. A /esperteza/ é qualificada semanticamente como sendo eufórica, isto é, h á elementos no texto que a valorizam positivamente, como as a f i r m a ç õ e s de que o macaco é quem sempre sai ganhando devido à sua esperteza ( F i o r i n , 1990, p. 18).

N u m n í v e l menos abstrato que o profundo, o narrativo, encontram-se dois tipos de enunciados elementares, os de estado e os de fazer. Os enunciados de estado estabelecem uma r e l a ç ã o de j u n ç ã o entre um sujeito e um objeto e os

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enunciados de fazer mostram as t r a n s f o r m a ç õ e s de u m enunciado de estado a outro ( F i o r i n , 1990, p. 21).

N a fábula O Gato e o Macaco, observa-se um sujeito em d i s j u n ç ã o com o objeto que deseja e que para entrar em c o n j u n ç ã o c o m esse objeto, manipula u m outro sujeito. É no nível discursivo, que essas formas abstratas s ã o concretizadas. Tem-se um macaco que deseja as castanhas que e s t ã o no fogo e que convence o gato a t i r á - l a s do fogo para que ele possa c o m ê - l a s sem queimar as m ã o s ( F i o r i n , 1990, p. 29).

Para o estudo do nível narrativo de um texto t a m b é m s ã o levados em conta os seguintes e s t á g i o s : programa narrativo, percurso narrativo e esquema narrativo ( F i o r i n & Savioli, 1990, p. 55; Barros, 1990, p. 20;26-36). O esquema narrativo de qualquer texto p r e s s u p õ e um programa e um percurso narrativos.

N a fábula de M o n t e i r o Lobato, o gato f o i manipulado por s e d u ç ã o pelo macaco, quando este apresentou uma imagem positiva de sua c o m p e t ê n c i a , "... v o c ê , que tem uma pata jeitosa...".

A m a n i p u l a ç ã o ocorre quando um personagem induz outro a fazer alguma coisa. O que v a i fazer precisa querer ou dever. H á quatro tipos de m a n i p u l a ç ã o : a p r o v o c a ç ã o , a s e d u ç ã o , a t e n t a ç ã o e a i n t i m i d a ç ã o (Barros, 1990, p. 29; Fiorin & Savioli, 1990, p. 57).

A o ser manipulado pelo macaco, o gato t a m b é m c u m p r i u o programa de c o m p e t ê n c i a , que consiste no sujeito do fazer adquirir um saber e um poder. Nesta fábula, o macaco mostrou ao gato que este tinha uma pata jeitosa, isto é , que tinha c o m p e t ê n c i a .

Bichano, convencido desta capacidade para realizar a retirada das castanhas, coloca a m ã o no fogo e c o m e ç a a puxar e entregar as guloseimas a S i m ã o . Esta fase em que o sujeito do fazer executa sua a ç ã o é o programa narrativo de performance.

N o final, o felino reconhece que f o i trapaceado pelo companheiro e conclui que f o i uma p é s s i m a p e ç a , pois arriscou o p ê l o e ficou em j e j u m . Este castigo recebido pelo gato é o programa narrativo de s a n ç ã o .

O gato da fábula cumpre o percurso de sujeito, que p r e s s u p õ e o encadeamento de um programa de c o m p e t ê n c i a com um programa de performance, isto é, um sujeito adquire a c o m p e t ê n c i a n e c e s s á r i a para realizar

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um ato e e n t ã o o realiza (Barros, 1990, p. 26-27). O felino acreditou na imagem positiva de sua c o m p e t ê n c i a apresentada pelo s í m i o e fez o que este desejava que ele fizesse.

O percurso do destinador-manipulador é cumprido pelo bugio. Este percurso p r e s s u p õ e duas etapas hierarquizadas, a a t r i b u i ç ã o de c o m p e t ê n c i a s e m â n t i c a (o destinador-manipulador leva o s u j e i t o - d e s t i n a t á r i o a crer em seus valores para que se deixe manipular) e a d o a ç ã o de c o m p e t ê n c i a modal (o destinador-manipulador atribui ao s u j e i t o - d e s t i n a t á r i o os valores modais do querer-fazer, dever-fazer, saber-fazer e poder-fazer) (Barros, 1990, p. 28). S i m ã o levou o felino a crer que tinha capacidade para realizar a malfeitura quando atribuiu um valor positivo à sua c o m p e t ê n c i a .

O gato c u m p r i u o contrato assumido com o macaco, mas por ter sido enganado, sua c o n s c i ê n c i a executou o percurso de destinador-julgador, sancionando-o negativamente, "para m i m f o i p é s s i m a (a p e ç a ) " (Barros, 1990, p. 33).

O esquema narrativo é a o r g a n i z a ç ã o dos três percursos narrativos (do sujeito, do destinador-manipulador e do destinador-julgador), que por sua vez p r e s s u p õ e os programas narrativos (Barros, 1990, p. 36).

H á duas d e f i n i ç õ e s diferentes a respeito de narrativa: s u c e s s ã o de estados e t r a n s f o r m a ç õ e s e s u c e s s ã o de estabelecimentos e rupturas de contratos. " O esquema narrativo engloba os dois pontos de vista e simula a h i s t ó r i a do h o m e m " (Barros, 1990, p. 38).

A t r a v é s da a n á l i s e do esquema narrativo da fábula de M o n t e i r o Lobato, f o i p o s s í v e l examinar a estrutura s e m i ó t i c a da mesma, chegando-se à c o n c l u s ã o de que a a f i r m a ç ã o encontrada no início da narrativa, "... o macaco sabe agir com tal maromba que é quem sai ganhando sempre", e s t á correta. Levando o gato a crer que tinha c o m p e t ê n c i a para tirar do fogo as castanhas, o macaco, sem arriscar-se nem e s f o r ç a r - s e , f o i quem saboreou as guloseimas.

Dessa forma, a a n á l i s e da estrutura s e m i ó t i c a p ô d e demonstrar a sutileza e esperteza do destinador-manipulador, bem como auxiliar na c o m p r e e n s ã o da fábula, como dizem Fiorin & Savioli (1990, p. 58) "organizar a estrutura narrativa ajuda a e n t e n d ê - l a melhor".

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R E F E R Ê N C I A S B I B L I O G R Á F I C A S

BARROS, Diana L . P. Teoria semiótica do texto. São Paulo: Ática, 1990.

FIORIN, José Luiz. Elementos de análise do discurso. 2.ed. São Paulo: Contexto, 1990. FIORIN, José Luiz, SAVIOLI, Francisco P. Para entender o texto: Leitura e Redação.

São Paulo: Ática, 1990.

GÓES, Lúcia P. Introdução à literatura infantil e juvenil. São Paulo: Pioneira, 1984. JESUALDO. A Literatura Infantil. 2. ed. São Paulo: Cultrix, 1985.

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