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Foucault e educação: A anatomia politica do corpo infantil / Foucault and education: The political anatomy of the child's body

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Academic year: 2020

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n.6, p.40096-40106 jun. 2020. ISSN 2525-8761

Foucault e educação: A anatomia politica do corpo infantil

Foucault and education: The political anatomy of the child's body

DOI:10.34117/bjdv6n6-518

Recebimento dos originais: 23/05/2020 Aceitação para publicação: 23/06/2020

Helen Rodrigues Xavier

Formada em Pedagogia Instituição: UENP Endereço: Curitiba- PR E-mail: [email protected]

Guilherme Müller Júnior

Professor de Licenciatura em Filosofia Instituição: UENP/CJ/CCHE/FILOSOFIA

E-mail: [email protected]

RESUMO

O objetivo geral desta pesquisa consiste em pensar e analisar o tratamento do corpo da criança nos anos iniciais da escolarização a partir do campo de pensamento do filósofo francês Michel Foucault. Visa-se, de forma específica, compreender o desenvolvimento da sujeição, necessária à produção de docilidade e utilidade, que fundamenta e dá fim a determinadas práticas pedagógicas. As obras Vigiar e Punir (2014) e Microfísica do Poder (2016) foram adotadas como a principal base referencial desta pesquisa, nas quais se fez possível selecionar e consultar conceitos e concepções sobre poder e corpo; o que viabilizou e abriu espaço para uma investigação a respeito da função da escola e do aspecto anatômico político do corpo da criança. Para esta pesquisa elegeu-se como instrumentos metodológicos a abordagem qualitativa, cuja coleta de dados foi exclusivamente de fontes bibliográficas. Com o auxílio das informações e dados teóricos escolhidos, esta pesquisa revela que as concepções de corpo, de criança e de educação são transfiguradas conforme as intencionalidades dos poderes presentes na sociedade. E que o corpo da criança é objeto de sujeição constante destas técnicas de controle, pois transborda potências que são capazes de desenvolver novas possibilidades de ser e existir, o que é visto como perigoso e incomodo aos que são beneficiados pela forma que os poderes estão organizados. Reconhece-se assim, a anatomia política do corpo da criança e a posição das instituições de ensino e da pedagogia na reestruturação ou na (re) produção da máquina social e da fabricação de docilidade.

Palavras-chave: Foucault, Corpos, Poder, Educação. ABSTRACT

The general objective of this research is to think and analyze the treatment of the child's body in the early years of schooling from the field of thought of the French philosopher Michel Foucault. It aims, in a specific way, to understand the development of subjection, necessary for the production of docility and utility, which underlies and ends certain pedagogical practices. The works Vigiar e Punir (2014) and Microfísica do Poder (2016) were adopted as

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n.6, p.40096-40106 jun. 2020. ISSN 2525-8761 the main reference base of this research, in which it was possible to select and consult concepts and concepts about power and body; what made possible and opened space for an investigation regarding the function of the school and the anatomical political aspect of the child's body. For this research, the qualitative approach was chosen as methodological instruments, whose data collection was exclusively from bibliographic sources. With the help of the chosen information and theoretical data, this research reveals that the concepts of body, child and education are transfigured according to the intentionalities of the powers present in society. And that the child's body is subject to constant subjection of these control techniques, as it overflows powers that are capable of developing new possibilities of being and existing, which is seen as dangerous and uncomfortable to those who benefit from the way that the powers are organized . Thus, the political anatomy of the child's body and the position of educational institutions and pedagogy in the restructuring or (re) production of the social machine and the manufacture of docility are recognized.

Keywords: Foucault, Bodies, Power, Education.

1 INTRODUÇÃO

A definição desta temática surge do interesse em compreender o desenvolvimento, no qual as escolas são uma das principais condutoras, da sujeição e da docilidade que inibem as vontades e desejos das crianças e o aspecto anatômico político de corpo abordado por Foucault, direcionando e especificando esta concepção ao corpo infantil.

Segundo Michel Foucault (2014), o corpo é alvo e objeto de toda forma de controle e dominação. Seja físico ou psíquico, as forças do poder entrelaçam-no, penetram-no e modificam-no para que corresponda aos interesses dominantes das sociedades. Este estudo irá aludir a trajetória e desenvolvimento dos significados e representações do corpo humano ao longo de um dado período histórico, abordando a forma com que determinadas concepções filosóficas influenciam a corporeidade, o contexto em que está inserida e quais as consequências e relações de poder envolvidas por esta estrutura. Tais percepções do corpo, têm como propósito abrir espaço para análise do contexto em que o corpo da criança está inserido e como e o por quê do poder se exercer sobre ele. Além de analisar como o poder consegue fazer o indivíduo aceitar e internalizar a sujeição de seus corpos e potências pelas instituições de poder presentes na sociedade, em especial, as instituições de ensino.

A abordagem selecionada para esta pesquisa foi a qualitativa de análise com coleta de dados exclusivamente de fontes bibliográficas, pois se enquadra no objetivo desta pesquisa que é analisar e descrever determinados fenômenos. Este estudo não possui pretensões de fornecer soluções instantâneas para as problemáticas concernentes à Educação, mas sim abrir possibilidades para novos debates e novas experimentações acerca da temática. Considera-se

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n.6, p.40096-40106 jun. 2020. ISSN 2525-8761 que o estudo do material levantado possibilitou o êxito dos objetivos e afirma-se a importância de compreender os aspectos políticos que envolvem as práticas de ensino e o corpo da criança. Destaca-se ainda que as instituições de ensino e a Educação não podem ser consideradas apenas ferramentas do poder dominante, mas também potências de transformação dos saberes e das estruturas dos poderes. Assim, compreender profundamente estas questões possibilitam a formulação e criação de novas perspectivas metodológicas e teóricas sobre o ensino, sobre a criança e sobre a escola que podem proporcionar ressignificações e reestruturações na sociedade.

2 REFERENCIAL TEÓRICO

Observa-se que a imagem e significados do que é o corpo são construções históricas, filosóficas, políticas e sociais. O termo Criança irá se encaixar nesta mesma estrutura, ou seja, ser criança não é algo que deve ser analisado como natural, mas como uma composição de fatores e acontecimentos. A literatura e as artes da Grécia Antiga expõem que o Corpo da Criança era alvo constante de agressões e punições físicas, desde o ambiente familiar ao ambiente de ensino, Paidéia (C.f. FERREIRA, 2014). O corpo da criança em diversas pinturas é representado com a estrutura de um corpo adulto, reforçando a ideia da criança ser reconhecida como um pequeno adulto. No entanto, encontra-se em diversas obras literárias a concepção de criança como corpos indisciplinados, agressivos, travessos e com condutas maléficas (C.f. FERREIRA, 2014). Como afirma Platão: “Mas de todas as criaturas, a criança é a mais difícil de manipular, pois mais do que qualquer uma possui uma fonte de razão que ainda não foi refreada, é ardilosa e irascível, a mais insolente das criaturas” (leis de Platão, 7.808d, apud FERREIRA, 2014 p. 66).

Constata-se assim, que neste período o corpo da criança era alvo de diversas brutalidades, motivadas por várias razões como a religião (Relação de Zeus com Cronos), pelo medo constante do adulto ser superado por seu descendente (C.f. FERREIRA, 2014 p. 61), por discórdias familiares (em especial filhos bastardos) e afins. Em acréscimo, existia uma lei da Pólis de Esparta que determinava que aquela criança que possuísse um corpo considerado deformado deveria ser morta (C.f. FERREIRA, 2014 p. 64). Outro castigo corpóreo que legitimavam era o que o Mestre utilizava para melhorar determinados comportamentos tidos como inapropriados. Como comenta Aristóteles: “pois não brincam enquanto aprendem, é com dor que se faz a aprendizagem” (Apud FERREIRA, 2014 p. 72). É possível reparar traços dos pensamentos e dos métodos de ensino da era clássica que são bases da tendência Pedagógica

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n.6, p.40096-40106 jun. 2020. ISSN 2525-8761 Tradicional e de várias práxis utilizadas por docentes. Vale ressaltar ainda, que o tema agressividade infantil foi abordado pelos gregos, dividindo os debates acerca do assunto em: a criança herdar a personalidade dos seus parentes ou ser por falta ou falha de instrução, Paidéia (C.f. FERREIRA, 2014 p. 64).

Na Idade Média, o Corpo da Criança continua a ser abordado como um corpo de pequeno adulto. No entanto, devido à grande e densa taxa de mortalidade infantil, os adultos não davam relevância para este período da vida. Crianças com cinco anos de idade não tinham nome, pois era grande a crença de que não sobreviveria mais que este período. Além do Corpo da Criança não possuir identidade e não ter valor, concepções filosóficas e religiosas definiam que elas não possuíam alma (Cf. MIRANDA; SANTIN, 2014, p. 04). Elas eram fruto do pecado original, das relações carnais, corporais. Por serem impuros e corrompidos deviam crescer, se adequar ao meio social e de trabalho (de preferência a partir dos sete anos) para se limparem de seu pecado e se aproximarem do estado ideal.

A percepção de Criança irá ser ressignificada com pensadores como Jean-Jacques Rousseau, que irá divergir da linha de pensamento platônica até então adotada pela sociedade para definir o que é e como lidar com o corpo da criança. Rousseau afirma que a Criança vem ao mundo sem maldade, mas conforme convive no meio social, vivenciando as desigualdades, as lutas e explorações devido às ambições por propriedades, seu corpo “bom” é corrompido. Ou seja, a criança nasce pura, mas a sociedade a corrompe, fazendo-se necessário educá-las longe da civilização. Os pensamentos deste filósofo renascentista são bases da Pedagogia Moderna original e de alguns segmentos desta tendência pedagógica. No entanto, na contemporaneidade, vários agentes e pesquisadores educacionais reformularam esta visão, e acredita-se que esta percepção de Infância está desaparecendo (Cf. MIRANDA; SANTIN, 2014).

Entretanto, esta nova concepção a respeito da Criança de Rosseau, construída no auge da revolução industrial e francesa, não era a exclusiva da época. No meio destas transformações sociais, políticas e econômicas, destacam-se dois novos corpos: O Corpo do Burguês e o Corpo do Proletariado. Dois novos status que definem qual a função de cada corpo na sociedade, como ele deve ser abordado, incluindo a educação que deve receber. O Corpo da Criança, assim, é definido por sua genealogia econômica: A criança filha de proletários, recebia um ensino de instrumentalização das máquinas, para que conseguisse trabalhar nas fábricas e indústrias, ajudando no sustento de sua família.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n.6, p.40096-40106 jun. 2020. ISSN 2525-8761 Enquanto a criança burguesa, a definida por Rosseau como “pura”, tinha acesso a uma infância sem trabalhos, mas com ensino voltado ao desenvolvimento de suas habilidades intelectuais e artísticas. São construídas dessa forma, novas visões de infância, assim como novas tendências educacionais. É o início da mercantilização do ensino; da formação técnica; da laicização do ensino, devido à perda das forças da Igreja Católica, por causa da reestruturação do poder. Isso leva a criança a parar de ser vista como propriedade do deus cristão e de seus pais.

É a origem da maternidade como uma ação naturalizada de afeto da mulher e da família moderna, que se fecha em um núcleo privado de atenção, cuidado e amor. Uma nova vigilância sobre a sexualidade dos corpos, especialmente os infantis que são alvo de grandes expectativas de ascensão das famílias. O corpo da Criança começa a ser destacado, se torna alvo de estudos, teorias, especialmente da Psicanálise com Sigmund Schlomo Freud, Karen Honey, entre outros. É a transição da Sociedade Punitiva para a Sociedade Disciplinar, que rege em torno de conhecer seus indivíduos, de produzir saberes sobre cada sujeito.

Ao contrário do Poder Punitivo, que reprimia e desprezava a figura da criança, o Poder Disciplinar começa a individualizá-las cada vez mais. Como afirma Roberto Machado (2016, p.26): “Pela primeira vez na história aparece essa figura individualizada, singular e objeto de saber: o homem”. O Corpo da Criança, assim como o conceito de Infância, passa a ser uma produção das inter-relações do Poder com o saber, e essa individualização dos sujeitos pelos saberes é um dos mais importantes efeitos do Poder Disciplinar, segundo Foucault.

Para Foucault é impossível dissociar o Poder do Saber. Um produz o outro em uma ação continua (Cf. FOUCAULT, 2016, p. 47). Em seus estudos, é possível observar que a criação dos hospícios, das prisões e demais instituições disciplinares, assim como as ciências do homem, como a psiquiatria, só foi possível a partir do momento em que o Corpo do Homem passa a ser alvo de estudos, da produção dos saberes. Da mesma forma, a psicopedagogia, a criação das instituições de educação infantil, a própria Pedagogia e suas tendências e práxis só foram construídas e desenvolvidas pelo novo enfoque dado ao Corpo da Criança.

Em relação ao conceito saber, Michel Foucault afirma que não se deve reduzi-lo em conhecimentos sistematizados e focar a preocupação apenas na veracidade dos conhecimentos, mas sim em como eles se constituem; como são organizados entre si; quais as vontades de poder presente neles e como os sujeitos se tornam objeto do conhecimento e assujeitados a ele (Cf. VEIGA-NETO, 2017). Para o filósofo francês compreender como os saberes surgem é entender o jogo de forças e de poder que se distribuem ao longo do tecido social (Cf.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n.6, p.40096-40106 jun. 2020. ISSN 2525-8761 NETO, 2017) e pontos específicos em determinados períodos históricos que se interligam e influenciam certos acontecimentos presentes.

O filósofo ainda realiza uma analítica do poder e seus efeitos nos sujeitos, compreendendo-o como uma rede estendida pelo corpo social que envolve os indivíduos nos mínimos detalhes. Rede que “os captura, divide-os e classifica-os” (Cf. VEIGA-NETO, 2017, p. 55). Dessa forma, o Poder para Foucault não é uma substância que possui um espaço e uma forma determinada, ele não provém de um único ponto da sociedade, o que faz o filósofo recusar a ideia do Estado como a única instituição de controle de Poder. Ele não é algo imutável e não possui um dono. Para Foucault, existem vários poderes distribuídos pela sociedade que se interligam, disputam entre si, se intensificam e regem a sociedade. Eles são estratégias que funcionam como uma “engrenagem em uma máquina” (Cf. FOUCAULT, 2014, p. 30), são minimalistas e detalhistas, motivo pelo qual o filósofo os denomina como Micro-Poderes.

Ao longo da história, pode-se distinguir diversos poderes que agem de diversas formas e são intensificados por outras. Mas há um ponto em comum em todas estas formas de Poder: elas atuam sobre outros objetos ou forças. Ou seja, o Poder para Foucault é ação que se exerce sobre outra ação (Cf. VEIGA-NETO, 2017). Foucault estuda a transição do Poder Punitivo para o Poder Disciplinar, mostrando que o Poder é constituído pelos Saberes que o homem cria e ao mesmo tempo em que produz (Cf. FOUCAULT, 2014), define e organiza qual o “verdadeiro” Saber. E em as ambas estruturas apresentadas, os saberes e a ação (poder) se exercem no ponto mais concreto da sociedade humana: o corpo.

Todos os poderes possuem suas próprias técnicas que permitem seu fortalecimento e sua permanência na sociedade. Com a transição do Poder Punitivo para o Poder Disciplinar, as técnicas de punição corpórea e agressivas são substituídas por técnicas que controlam os indivíduos à distância. Os carrascos são substituídos por educadores, médicos e outros profissionais considerados especialistas de alguma parte do corpo, anatômico ou psíquico. E o enfoque de estudo destes especialistas se centraliza na anatomia política do corpo e nas técnicas de controle que compõe as relações de poder e saber (Cf. FOUCAULT, 2014, p.31) e permitem a constante subjeção dos indivíduos. Para o filosofo, “Estes métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade- utilidade, são o que podemos chamar de disciplina” (FOUCAULT, 2014, p. 135). Foucalt conceitua as diversas formas de poder como estratégias de relações de forças, redes que envolvem os indivíduos nos mínimos detalhes, que atuam

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n.6, p.40096-40106 jun. 2020. ISSN 2525-8761 sobre os corpos a partir de técnicas, desenvolvidas pela relação entre poder e saber, de modo que eles se sujeitem de forma naturalizada a ele. A partir destas relações e técnicas expostas, é possível analisar a ciência da educação (a pedagogia) e suas experimentações e metodologias na modelação dos comportamentos e corpos das crianças, as intencionalidades de poder frente às instituições de ensino e sua influência na anatomia política do corpo infantil.

3 METODOLOGIA

Para esta pesquisa escolheu-se a abordagem qualitativa. Segundo Zanella (2013, p. 95) “o qualitativo origina-se na antropologia e utiliza métodos indutivos, objetivando a descoberta, a identificação e a descrição detalhada e aprofundada”. Assim, este estudo baseado nas obras e concepções foucaultianas, não poderia empregar outra abordagem, pois além da pesquisa qualitativa fornecer bases para análises detalhadas e abrangentes, ela entra em harmonia com os próprios ideais de Foucault, nos quais “os pesquisadores qualitativos estão preocupados com o processo e não com os resultados e produtos. A preocupação está em conhecer como determinado fenômeno manifesta- se” (ZANELLA, 2013, p. 100), não em construir caminhos concretos e únicos.

Selecionou-se o Procedimento Bibliográfico pois foi utilizado um acerco de produções e discussões já levantadas anteriormente, direcionando-a para a relação do poder com as instituições escolares e o corpo infantil. O instrumento de coleta de dados é exclusivo de documentos e fontes bibliográficas, na qual “a principal vantagem é permitir ao pesquisador a cobertura mais ampla do que se fosse pesquisar diretamente” (ZANELLA 2013).

4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Constata-se através desta pesquisa que a imagem e representação do corpo são constantemente ressignificadas. Em cada povo e época da civilização humana essas percepções entram em harmonia com uma série de técnicas de controle que abrangem sistemas punitivos (prisões, tortura, exilamento), sistemas de recompensas (gratificações, acensão de status) e sistemas educativos (como as igrejas e escolas).

Em acréscimo, percebe-se ainda que estas concepções sobre os sujeitos além de influenciar as técnicas de controle, derivam de conhecimentos legitimados pela sociedade. A partir dos conteúdos levantados acerca do corpo na Modernidade, observa-se que quanto mais profundos e detalhados os conhecimentos sobre os indivíduos, mais formas eficazes e econômicas de controle são desenvolvidas e experimentadas.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n.6, p.40096-40106 jun. 2020. ISSN 2525-8761 Centralizando estas informações no corpo da criança, nota-se que o conceito de infância e criança são recentes na história. No início dos registros deste estudo, aponta-se que na Era Clássica as crianças eram definidas como mini-adultos, posteriormente, na Idade Média como seres sem alma ou dignidade. Por um longo período os corpos das crianças não possuíam nome próprio, pois não eram suficientemente importantes para as estruturas de poder. Além dos ensinamentos que aprendiam sobre o mundo serem direcionados unicamente ao trabalho que deviam assumir.

Na Era Moderna com o desenvolvimento das ciências os conceitos de infância e criança são construídos, assim como a própria imagem do que estes termos devem significar: Corpos com potências que podem ser moldáveis para transformações ou reproduções de sistemas, mostrando os constantes jogos de força de poderes e desejos presentes no tecido social. Assim, o corpo da criança se torna objeto de estudo e de interesse das estruturas de poder, pois é considerado algo perigoso, capaz de se desenvolver fora dos padrões e criar novas possibilidades de ser e existir; fator que incomoda aqueles que são beneficiados pela forma que os poderes estão organizados.

Com os olhares voltados ao corpo da criança, vários estudos e experimentos começam a se aprofundar na tentativa de compreender cada vez mais o ser humano e o seu desenvolvimento. Como Foucault (2014) comenta, estes estudos e novos saberes ampliam as estratégias para o controle de cada engrenagem da máquina social. Em vista disso, o corpo da criança é uma peça deste mecanismo que continua a ser reinterpretada, modificada e entrelaçada interruptamente pelas forças de poder, ao mesmo tempo em que pode gerar múltiplos caminhos para novas fugas, mecanismos ou estruturas de poderes. A educação deste corpo e as instituições que aplicam este ensino também se adaptam a cada novo saber e estão ligadas a várias intencionalidades dos diversos micropoderes espalhados pela sociedade.

Ainda foi possível compreender que não é correto afirmar que existe um único e permanente tipo de poder na sociedade, mas múltiplos micropoderes que se relacionam e envolvem os indivíduos e instituições nos mínimos detalhes. Este enfoque no detalhamento dos objetos e acontecimentos provém de crenças religiosas em que nada passa despercebido pelas entidades dividas e pelo desenvolvimento das ciências e dos saberes sobre o corpo e sobre o sujeito. A partir destes novos saberes construídos sobre os indivíduos, novas estratégias de controle e percepções são experimentadas. Percebe-se que a violência, o poder punitivo, não é tão produtivo quanto um poder que penetra o corpo e a subjetividade das pessoas, de forma que não seja necessário agressões, pois as pessoas o aceitam de forma

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n.6, p.40096-40106 jun. 2020. ISSN 2525-8761 naturalizada. Estes acontecimentos, segundo Foucault (2014) demonstram a alteração dos saberes sobre o mundo, sobre o corpo e consequentemente a transição das estruturas de poder punitivo para as estruturas do poder disciplinar.

Assim, abordou-se a percepção foucaltiana sobre poder disciplinar e como esta estrutura está envolvida no sistema de ensino brasileiro. Aliás, a educação e suas metodologias são alteradas e moldadas conforme as relações de poder presentes na sociedade.

Constata-se que as escolas são consideradas como instituições de sequestro. Instituições que raptam os indivíduos por determinados períodos de suas vidas para uma remodelação de seus corpos e comportamentos para que atendam aos padrões estabelecidos. Ela possui tecnologias do poder disciplinar e de vigilância que englobam o controle minucioso do tempo, dos lugares, das ações, gestos, desejos e desenvolvimentos de cada corpo, de forma a construir uma harmonia nas engrenagens que permite o exercício perfeito da máquina social, do poder. Além disso, são instituições de práticas sociais, ou seja, a partir das técnicas minimalistas de controle relatadas, atuam sobre os corpos dos indivíduos desde cedo de forma a garantir uma internalização de comportamentos e convicções convenientes ao poder de modo concreto e econômico.

As análises dos documentos bibliográficos selecionados para este estudo contribuíram para o desenvolvimento de interpretações a respeito das questões levantadas; e o aprofundamento e a confirmação das declarações iniciais desta pesquisa, em que o corpo da criança é condicionado á sujeições constantes que produzem um corpo adulto dócil e passivo e que as instituições de ensino são peças fundamentais para esta fabricação, simultaneamente em que é capaz de reorganizar e reestruturar esta aparelhagem social.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Finalizando a discussão este estudo abordou a produção de docilização e submissão dos indivíduos frente aos sistemas de poder e a interligação desta questão com as instituições escolares e a própria concepção de ensino e criança. Como comentado anteriormente, este resumo não possui pretensões de solucionar problemáticas do campo educacional ou arbitrar moralmente sobre o objeto de estudo, mas sim abrir espaço para reflexões e novos pontos acerca das relações entre poder e educação. Posto isto, o encontro dos conceitos, dos autores e das problemáticas levantadas contribuíram e possibilitaram para o êxito dos objetivos e intencionalidades propostas.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n.6, p.40096-40106 jun. 2020. ISSN 2525-8761 A partir do desenvolvimento desta pesquisa foi possível compreender as tecnologias que englobam minuciosamente as instituições, os discursos, os corpos e subjetividades dos indivíduos e como estas técnicas de manipulação e vigilância do tempo, espaço, vontades e ações de cada elemento favorecem o fortalecimento e a legitimação as forças de poder exercidas sobre os corpos, em especial os infantis.

Constata-se ainda o enfoque direcionado à modelação dos comportamentos e corpos infantis a datar da ressignificação de determinados saberes e estruturas de poder que influenciaram e foram influenciadas pelo termo criança e sua nova e crescente interpretação social, o que revela o impacto que as potências das crianças podem gerar na reprodução ou transformação de bases e eixos da

sociedade. Em vista disso, a cientificidade descritiva recaí sobre os corpos, desenvolvimentos e subjetividades das crianças, dissecando-as e investigando-as profundamente, a fim de gerar saberes direcionados á propósitos específicos. Compreende-se que as teorias da educação e suas práticas exercidas sobre os corpos das crianças provêm dessa relação do saber detalhado sobre um objeto e da força que será exercida sobre ele. Assim, cada instituição escolar, cada tendência e metodologia da educação e, cada pedagogia correspondem a determinados poderes e interesses do tecido social sobre o corpo da criança e a direção de seu desenvolvimento.

Dessa forma o corpo da criança é objeto de sujeição constante de diversas micro técnicas desenvolvidas pelos reflexos das estruturas de poder na escola e pela escola. Isto torna o processo de condicionamento de comportamentos, de acordo com os padrões condizentes com o sistema, mais econômico e consistente. Reconhece-se assim, a anatomia política do corpo da criança e a posição das instituições de ensino e da pedagogia na reestruturação ou na (re) produção da máquina social e da fabricação de docilidade.

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REFERÊNCIAS

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FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. 4. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016. 431 p. FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: Nascimento da prisão. 42. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2014. 302 p. Tradução de Raquel Ramalhete.

VEIGA NETO, Alfredo. Foucault e a Educação. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2017. 157 p.

MIRANDA, Ariane Camila Tagliacolo; SANTIN, Rafael Henrique. Fundamentos filosóficos e históricos da educação infantil. In: SANTANNA, Adriene; MIRANDA, Ariane Camila Tagliacolo;

SANTIN, Rafael Henrique. Teoria e pratica na educação infantil. 372. ed. Maringá: Centro Universitário de Maringá, 20--. Cap. 1. p. 01-14.

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