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O clímax nas odes de Horácio : uma análise dinâmica

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Academic year: 2021

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(1)UNIVERSIDADE DE LISBOA  FACULDADE DE LETRAS  DEPARTAMENTO DE ESTUDOS CLÁSSICOS   .    .   O CLÍMAX NAS ODES DE HORÁCIO:  UMA ANÁLISE DINÂMICA     . Pedro Braga Falcão           .     DOUTORAMENTO EM ESTUDOS LITERÁRIOS  LITERATURA LATINA    2011 .

(2) UNIVERSIDADE DE LISBOA  FACULDADE DE LETRAS  DEPARTAMENTO DE ESTUDOS CLÁSSICOS   .    .   O CLÍMAX NAS ODES DE HORÁCIO:  UMA ANÁLISE DINÂMICA     . Pedro Braga Falcão    Tese orientada pela Professora Doutora Maria Cristina de Castro‐Maia de Sousa Pimentel    Apoio do Programa de Bolsas de Formação Avançada da Fundação para a Ciência e Tecnologia   .     DOUTORAMENTO EM ESTUDOS LITERÁRIOS  LITERATURA LATINA    2011 .

(3) RESUMO     . A  presente  dissertação  discute  o  conceito  de  clímax  nas  Odes  de  Horácio, . definindo‐o e enquadrando‐o no âmbito de outras disciplinas, da Retórica aos Estudos  Musicais. Na Primeira Parte parte‐se de um estudo completo da palavra κλῖμαξ e do  seu equivalente latino gradatio no contexto da Retórica antiga e moderna, procurando  depois  aplicar  o  conceito  nos  seus  diversos  sentidos  (clássico,  moderno  e  contemporâneo)  a  díspares  formas  de  expressão  artística,  como  a  tragédia  grega  (Electra  de  Sófocles),  a  ópera  (Elektra  de  Richard  Strauss),  o  romance  (Amor  de  Perdição  de  Camilo  Castelo  Branco)  e  a  música  instrumental  (Prélude  à  L’Après‐midi  d’un Faune de Claude Debussy). Feito este trabalho propedêutico, e partindo‐se de um  poema  de  Mallarmé  (L’Après‐midi  d’un  Faune),  faz‐se  a  ponte  para  a  Segunda  Parte,  sobre  o  fenómeno  poético,  centrado  nas  odes  horacianas.  São  assim  analisados  diversos carmina sob este prisma específico, procurando investigar qual o clímax(ces)  de uma determinada composição, e catalogando‐o(s) segundo a sua natureza. Para o  fazer, ensaia‐se uma análise dinâmica da poesia, centrada no estudo e na aplicação de  termos  tais  como  o  de  crescendo  e  diminuendo,  forte  e  piano,  fundamentais  para  entender  e  estudar  o  desenho  de  uma  κλῖμαξ  poética,  explorando  de  igual  forma  conceitos  também  importantes  para  um  estudo  deste  carácter,  tais  como  o  de  cronologia e o de agógica. O estudo pretende suprir a falta de uma reflexão de fundo  sobre  o  clímax  (no  seu  sentido  contemporâneo)  na  poesia,  apesar  de  muitos  comentadores e estudiosos da obra de Horácio o referirem bastantes vezes nos seus  textos.  Definindo  o  termo  e  aplicando‐o  sistematicamente,  este  tipo  de  análise  obriga‐nos  a  pensar  na  forma  como  os  elementos  de  um  poema  podem  ser  gradativamente dispostos até um ponto culminante, e a reflectir igualmente sobre os  recursos poéticos usados por Horácio para o lograr.     . Palavras‐chave: .  . Horácio, Clímax, Dinâmica, Crescendo, Retórica, Música, Literatura.  .

(4) ABSTRACT     . This dissertation examines the concept of climax in Horace’s Odes, defining it in . the context of several disciplines, from Rhetoric to Music. The First Part begins with a  thorough  study  of  the  word  κλῖμαξ,  and  its  Latin  equivalent  gradatio,  within  the  framework of ancient and modern Rhetoric, then proceeding to apply it in its various  meanings  (classical,  modern  and  contemporary)  to  distinct  forms  of  artistic  creation,  such  as  Greek  Tragedy  (Sophocles’  Electra),  Opera  (Richard  Strauss’  Elektra),  Novel  (Camilo Castelo Branco’s Amor de Perdição) and Instrumental Music (Claude Debussy’s  Prélude à L’Après‐midi d’un Faune). This preliminary reading ends with the analysis of  Mallarmé’s poem L’Après‐midi d’un Faune that leads the way to the Second Part of the  thesis focused on the study of the poetical phenomenon, in particular Horace’s Odes.  From  this  specific  view‐point  various  carmina  are  analyzed,  in  an  effort  to  find  and  categorize the climax or climaxes of individual compositions. This is achieved through a  dynamical analysis of the Odes, bringing musical terms such as crescendo, diminuendo,  forte and piano to the realm of poetry. This method allows not only to study the design  of a poetical κλῖμαξ but also to explore key concepts in a reading of this nature, such  as  chronology  and  tempo  variation.  This  study  provides  an  in  depth  reflection  on  “climax” (in its contemporary sense) in poetry, an examination that has been missing,  even though many scholars use the expression in their works on Horace’s Odes. This  dissertation defines and systematically applies the concept “climax” for the first time  to many of his compositions, paving the way for the study of how elements in a poem  can be gradually arranged towards a climax and for a reflection on the poetic devices  Horace uses to achieve it.    .  .  . Keywords: .  . Horace, Climax, Dynamics, Crescendo, Rhetoric, Music, Literature.  .  .

(5)    . AGRADECIMENTOS       . Uma  primeira  palavra  de  gratidão  sincera  é  devida  à  Professora  Cristina . Pimentel,  pessoa  que  desde  os  meus  primeiros  passos  na  vida  académica  me  acarinhou, motivou e ensinou com a paciência de uma mãe, e cujo zelo na orientação  e revisão desta tese não poderia ter sido maior. Todas as palavras de agradecimento  são poucas para alguém a quem tanto devo e que tanto admiro, pela sua inteligência,  coragem, fé, força e amor incondicional à vida. Obrigado.   . Devo  também  agradecer  a  todos  quantos  me  guiaram  ao  longo  desta . dissertação; ao Músico, Compositor, Mestre e amigo Eurico Carrapatoso, por ter sido  meu  professor  e  por  me  ter  dado  a  inspiração  para  o  tema  desta  dissertação,  e  igualmente  pela  paciência  com  que  reviu  a  parte  musical  nela  inclusa;  ao  meu  Professor  Rui  Fabião,  pelo  carinho  e  cuidado  que  colocou  na  revisão  da  minha  tradução de Mallarmé; ao Professor Carlo Santini, por me ter dado a conhecer a fértil  história da palavra “clímax”, ainda no contexto da minha dissertação de mestrado; ao  professor  Frederico  Lourenço  pela  sua  preciosa  ajuda  e  iluminadoras  palavras  em  relação ao fenómeno poético clássico; ao Professor Pedro Serra, por me ter ensinado o  gosto  por  Homero  e  pela  tragédia  grega,  e  igualmente  pela  alegria  com  que  sempre  me  fala;  ao  Professor  Peter  Stilwell,  Ex‐Director  da  Faculdade  de  Teologia  da  Universidade Católica Portuguesa e à Capela do Centro Comercial das Amoreiras, pela  ajuda financeira que me concederam no último ano de escrita da tese.   . À minha mãe Ana Bela, ao meu pai Laurénio, e ao vindouro filho do meu irmão . Saul  e  da  sua  Maria  João,  dedico  esta  tese.  À  Juca  e  ao  nosso  bebé  que  aí  vem,  deixo‐vos aqui um pequeno testemunho do meu amor eterno. Amo‐vos muito.   .  .

(6) i   . Índice Geral  Nota introdutória . 1.   PRIMEIRA PARTE . 16.   CAPÍTULO I ‐ A ΚΛΙΜΑΞ. HISTÓRIA DE UM TERMO . 17.   I. A palavra κλῖμαξ: significados mais frequentes em grego . 17. A figura retórica κλῖμαξ – ocorrências em grego . 21. Pseudo‐Demétrio, De elocutione . 21. Pseudo‐Longino, Περὶ ὕψους . 22. Pseudo‐Herodiano, De figuris . 24. Hermógenes, Περὶ Ἰδεῶν λόγου . 26. Alexandre, filho de Numénio, De figuris . 28. Tibério, De figuris Demosthenicis  . 31. Siriano, In Hermogenem Περὶ Ἰδεῶν λόγου  . 34. Fébamo, Περὶ τῶν Σχημάτων Ῥητορικῶν  . 36. João Siciliota, Commentarium in Hermogenis Περὶ Ἰδεῶν λόγου . 37. Eustátio, Commentarii ad Homerum . 41. Rhetorica Anonyma . 48. Scholia in Homerum . 54.   II. A  gradatio latina. Dos autores clássicos à Patrística Latina . 56. Época clássica: Cícero, Retórica a Herénio, Quintiliano . 56. Patrística Latina . 62.   III. Do entendimento clássico ao contemporâneo . 67. O clímax clássico: uma sistematização . 67. O clímax moderno: estudo etimológico de várias línguas europeias . 71.

(7) ii   .   CAPÍTULO II ‐ O CLÍMAX: UMA LEITURA PLURIDISCIPLINAR . 94.   a) Acerca do nosso entendimento de clímax . 94. b) O clímax trágico. O exemplo da Electra de Sófocles. . 97. c) O clímax operático. O caso da Elektra de Richard Strauss.  d) O clímax no romance. O caso de Amor de Perdição de Camilo Castelo .   115 136. Branco.  e) O clímax musical. Prélude à L’Aprè‐midi d’un Faune de Claude . 155. Debussy.  f) O clímax poético. Início de um estudo a partir de L’Après‐midi d’un . 172. Faune de Mallarmé.   . SEGUNDA PARTE . 185.   CAPÍTULO III ‐ CLÍMAX DE PENSAMENTO . 186.   a) Clímax de pensamento . 188. Ode I. 31 . 188. Ode II. 15 . 197. Ode III. 6 . 203. Ode III. 1 . 211.   b) Clímax sucessivo de um mesmo pensamento resultante de um   . 222. crescendo  Ode II. 20 . 222. Ode IV. 3 . 232. Ode II. 16 . 240.   c) Clímax sucessivo de pensamentos diferentes  Ode IV. 11 . 251 251.

(8) iii   . Ode III. 3 . 260. Ode I. 7 . 274.   CAPÍTULO IV ‐ CLÍMAX DE SENTIMENTO . 284.   a) Clímax de sentimento nas odes de temática amorosa . 285. Ode I. 25 . 285. Ode IV. 1 . 291. Ode IV. 10 . 304. Ode IV. 13 . 309. Ode III.9 . 317.   b) Clímax de sentimento em odes de temática política . 323. Ode III. 5 . 323. Ode II. 1 . 334. Ode IV. 2 . 342.   CAPÍTULO V – CLÍMAX DE IRONIA E CLÍMAX COMPOSTO    a) Clímax de Ironia . 354. Ode I. 27 . 354. Ode I. 23 . 362. Ode III. 15 . 366. Ode II. 8 . 371. b) Clímax composto . 380.  . b.1) Clímax de pensamento e clímax de sentimento . 380. Ode I. 35 . 380. Ode I. 5 . 394.    .  .

(9) iv   . b.2) Clímax de ironia e clímax de sentimento . 400. Ode I. 22 . 400. Ode II. 7 . 408.   c) Outros tipos de clímax . 419. c.1.) Clímax ex abrupto . 419. Ode I. 4 . 419. c.2) Clímax  ad infinitum . 428. Ode I. 8 . 428.   A PROPÓSITO DAS ODES SEM CLÍMAX: UMA SISTEMATIZAÇÃO E UMA CONCLUSÃO . 435.   I  ‐  Sistematização . 436. a) Técnicas de criação de crescendo . 436. b) Técnicas de criação de diminuendo . 449. c) Técnicas de criação de um clímax . 451.   II – A propósito das odes sem clímax: uma conclusão . 456.   BIBLIOGRAFIA . 487.   I – Bibliografia sobre Horácio . 487.   II – Bibliografia Geral . 496. a) Dicionários e Enciclopédias . 496. b) Fontes primárias e edições de texto . 498. b.1) Edições de texto e traduções de autores antigos . 498. b.2) Outras fontes primárias (de autores anteriores ao século XX) . 500. c) Outras obras citadas . 504. d) Edições Musicais . 510. e) Discografia . 511.

(10) v   .   Índice de autores modernos . 512.   Índice de autores antigos e de passos citados . 518.   Índice de passos citados de Horácio     . 523.

(11) 1   . Nota introdutória     . O que é o clímax de um poema? .  . Esta  simples  pergunta,  que  serviu  como  ponto  de  partida  para  a  presente . dissertação e  servirá  sempre como seu  fio  condutor,  não  surgiu  no  contexto  de  uma  aula de literatura, mas há cerca de uma dezena de anos, quando cursámos a classe de  Análise  e  Técnicas  de  Composição  do  compositor  e  pedagogo  português  Eurico  Carrapatoso,  disciplina  que  faz  parte  do  currículo  da  Escola  de  Música  do  Conservatório  Nacional.  Nas  suas  aulas,  em  particular  no  terceiro  e  último  ano  de  aprendizagem,  como  nos  debruçássemos  com  mais  atenção  sobre  a  música  compreendida  entre  o  final  do  século  XIX  e  a  idade  contemporânea,  um  termo  ia  sendo  recorrentemente  pronunciado  na  análise  das  obras  de  compositores  como  Debussy,  Stravinsky,  Bartok,  Messiaen  ou  Ligeti,  ou  sempre  que  o  mestre  nos  propunha  a  execução  de  um  qualquer  trabalho  prático  de  composição:  clímax.  Mas  como  definir  esse  momento  culminante  para  onde  toda  uma  peça  conflui,  como  se  constrói, como se organiza uma partitura de forma a que ela tenha um claro acumular  de  tensão  retórica  que  se  desvanece  num  ponto  determinado,  intelectual  ou  organicamente  calculado?  O  mestre  tinha  um  conjunto  de  ferramentas  analíticas,  técnicas,  composicionais  e  até  matemáticas,  definidas  e  articuladas,  que  generosamente  nos  ia  ensinando,  sob  o  seu  olhar  atento  e  vigilante,  embora  de  um  ponto  de  vista  eminentemente  prático,  dado  o  carácter  da  disciplina.  Partitura  após  partitura,  exercício  após  exercício,  cada  aluno  se  ia  apercebendo  de  que  aquele  momento particularmente emotivo ou intenso, aquela sensação de se sentir cada vez  mais  enlevado  na  audição,  aquele  ponto  determinado  em  que  sempre  sentíamos  fisicamente um inefável aperto no estômago, podia ser analisado e compreendido sob  uma perspectiva técnica, que iluminava não só a intenção retórica e composicional do  criador, como também nos ensinava a compor melhor sob esta dupla perspectiva, em  termos  de  estrutura  e  de  propósito  comunicativo.  Mas  foi  quando  analisámos  e  discutimos  o  Prélude  à  L’Après‐midi  d’un  Faune,  de  Claude  Debussy,  que .

(12) 2    verdadeiramente começou a germinar a semente que deu origem ao presente estudo,  pois  esta  peça  inspirava‐se  assumidamente  num  poema  de  Mallarmé,  precisamente  intitulado L’Après‐midi d’un Faune. A constante referência do mestre ao facto de esta  música ter partido daquele poema, juntamente com o facto de tantas vezes, ao longo  do  seu  curso,  nos  falar  em  História,  Literatura,  Arquitectura,  Pintura,  Escultura,  e  outras  formas  de  arte,  a  propósito  de  um  compositor  ou  de  uma  obra  específica,  foi‐nos  levando  a  ter  uma  leitura  cada  vez  mais  ampla  do  fenómeno  artístico,  por  inerência  pluridisciplinar,  num  diálogo  constante  entre  géneros  musicais,  artísticos  e  literários tão paradoxalmente próximos e distantes. Tendo pois como cicerone um tal  professor, nobilíssimo transmontano de interesses tão latos e abrangentes, seria quase  impossível  que  todos  nós  não  chegássemos  rapidamente  à  conclusão  de  que  seria  possível  ter  uma  leitura  mais  precisa  e  técnica  do  conceito  em  outras  formas  de  expressão  artística  que  não  a  música,  fugindo  deste  modo  do  carácter  algo  vago  e  inconsequente com que a expressão é muitas vezes utilizada entre nós em relação, por  exemplo,  a  um  filme  ou  a  uma  peça  de  teatro.  Recordamo‐nos  de  ler,  na  altura,  o  poema  em  questão  de  Mallarmé,  uma  hermética  écloga  de  uma  musicalidade  evidente, de ter sentido que determinados versos eram de facto o clímax do poema, e  que Debussy provavelmente imitou esse movimento climáctico no percurso dinâmico  do  seu  Prélude,  cuja  estrutura  fora  indiscutível  e  matematicamente  calculada  para  servir  os  momentos  de  clímax  do  texto  musical.  Mas  como  prová‐lo?  Como  demonstrá‐lo? Que ferramentas técnicas haveria ao dispor de um vate para criar um  clímax  num  poema?  A  pergunta  permaneceu  em  suspenso,  pois  não  era  o  contexto  certo para a desenvolvermos; a curiosidade, no entanto, ficou‐nos sempre gravada no  espírito.   . Na  nossa  dissertação  de  mestrado  procurámos  aplicar  já  o  conceito  a  um . poema.  O  ponto  de  partida  foi  o  Carmen  Saeculare  de  Horácio,  em  que  tentámos  estudar a forma como o texto se adequava a nível numerológico, semântico e retórico,  àquele  momento  preciso  em  que,  de  31  de  Maio  a  3  de  Junho  de  17  a.C.,  se  celebraram,  em  Roma,  os  Ludi  Saeculares.  No  decurso  da  nossa  investigação,  decidimos igualmente examinar a forma como também a nível matemático o texto se  organizava  estruturalmente em  torno  do  número  três, referindo  que, provavelmente .

(13) 3    de forma inconsciente, as secções do Carmen se dividiam segundo o princípio da sectio  aurea (mais uma vez inspirados pela análise que fizéramos de Debussy), e que também  o seu ponto culminante, o seu clímax, que considerámos ser os vv. 45‐48, tinham uma  posição “áurea” do ponto de vista matemático. Para justificarmos a nossa afirmação,  tivemos que reflectir, ainda de forma algo incipiente, sobre o que seria o clímax de um  poema.  Foi  aliás  o  Professor  Carlo  Santini,  no  contexto  de  uma  conferência  que  proferiu  na  Faculdade  de  Letras  da  Universidade  de  Lisboa  sensivelmente  por  essa  altura, e com o qual tivemos a oportunidade de discutir o tema da nossa dissertação  de  mestrado,  quem  primeiro  nos  alertou  para  o  rico  passado  retórico  do  termo,  dando‐nos  a  conhecer  o  artigo  sobre  o  “Klimax”  no  Historisches  Wörterbuch  der  Rhetorik (Kirby e Poster 1998, 1106‐1115), que se revelou fundamental para o primeiro  capítulo  desta  tese.  Simultaneamente,  ficámos  com  a  noção  de  que  nem  todas  as  línguas  europeias  tinham  um  entendimento  similar  do  conceito;  o  italiano,  por  exemplo, via‐o fundamentalmente como uma figura retórica semelhante àquilo que na  música  entendemos  por  crescendo,  não  tendo  quase  nunca  o  sentido  de  “ponto  culminante”.  Isto  foi  cada  vez  mais  espicaçando  a  nossa  curiosidade,  até  porque,  enquanto íamos traduzindo as odes de Horácio para o português, esforço que resultou  num  anexo  à  nossa  tese  de  mestrado,  nas  leituras  que  fazíamos  sobre  cada  um  dos  carmina,  especialmente  nos  comentários  de  Nisbet  e  Hubbard  (1970;  1978)  e  de  Nisbet  e  Rudd  (2004),  íamos  encontrando  amiúde  o  termo  “clímax”  usado  no  seu  sentido contemporâneo de “ponto culminante”.    . Daqui ao tema da presente dissertação foi um curto passo. À medida que cada . vez mais mergulhávamos na tradução e na interpretação das odes de Horácio, e que  íamos reflectindo e estudando as suas composições no contexto de alguns artigos que  entretanto publicámos, mais nos íamos convencendo de que havia, em grande parte  dos  seus  carmina,  os  mesmos  “momentos  culminantes”  de  que  o  compositor  Eurico  Carrapatoso  nos  falara.  Esbarrávamos,  porém,  sempre  na  mesma  pergunta  que  formuláramos em relação a Mallarmé: como demonstrá‐lo? Pensámos que seria este o  contexto ideal, uma dissertação de doutoramento, para iniciar um estudo abrangente  sobre o que é, de facto, um clímax na poesia.  .

(14) 4     . A  razão  de  escolhermos  um  autor  como  Horácio  tem  a  ver  com  diversos . aspectos.  De  um  ponto  de  vista  prático,  era  o  poeta  que  melhor  conhecíamos,  em  virtude  de  o  termos  trabalhado  longamente  aquando  da  tradução1  não  só  das  suas  odes,  entretanto  publicada  (2008),  mas  da  sua  restante  obra,  que  ultimamos  neste  momento. Mas esse não seria um argumento válido se, de facto, Horácio não fosse um  dos compositores mais plurifacetados da história artística ocidental. Quando dizemos  “compositor”, pensamos não só no uso que o próprio Horácio dá ao verbo componere  no contexto da sua obra2, que associa ao processo técnico e criativo da “composição”  dos versos, como também na última frase das Actas dos Ludi Saeculares, encontrada  em 1890 na margem esquerda do Tibre: carmen composuit Quintus Horatius Flaccus.  Para além da emotiva surpresa de vermos indelevelmente inscrita na pedra a evidência  histórica e ontológica de um nome que admiramos, vivo na altura em que o cinzel o  esculpiu,  a  expressão  carmen  composuit  acaba  por  condensar  toda  a  técnica  poética  horaciana.  Dada  a  origem  genética  da  sua  lírica,  que  obrigou  Horácio  a  forjar  e  a  esculpir,  verso  após  verso,  uma  imitação,  uma  emulação,  e  uma  “romanização”  do  cânone  lírico  grego,  muitas  vezes  forçando  com  mestria  o  latim  a  um  ritmo  que  não  era espontaneamente seu, e isto de forma continuada e persistente, ao contrário, por  exemplo,  de  um  Catulo,  o  facto  é  que  cada  ode  sua  resulta  numa  obra  precisa  de  composição,  no  sentido  em  que  cada  palavra  parece  ter  sido  pensada,  calculada  e  pesada  em  todos  os  domínios,  desde  o  retórico  ao  musical.  Não  poderia,  pois,  ser  melhor  a  escolha  deste  autor  para  uma  tese  que  procura  explorar  um  conceito  apreendido no domínio da música, ainda para mais porque há esta evidência histórica  clara: carmen composuit Quintus Horatius Flaccus.    . Isto leva‐nos a uma questão que queremos deixar bem clara: não nos interessa . aqui  a  polémica  sobre  se  as  odes  do  vate  romano  foram  ou  não  interpretadas  melodicamente; a questão é insolúvel, e seria o mesmo que demonstrar, daqui a dois  milénios, perdida a melodia original, que os poemas de Jacques Brel, Leonard Cohen  ou Zeca Afonso foram concebidos para ser cantados. Os argumentos que aduzíssemos                                                          1.   As  interpretações  que  são  feitas  acerca  de  cada  carmen  abordado  partem  quase  sempre  desta  primeira  leitura  das  Odes  de  Horácio,  pelo  que  encaramos  a  tradução  em  questão  como  uma  obra  complementar à dissertação.  2  Cf. S. I.4.8, II.1.3, 63; Ep. I.1.12, II.2.91, 106; Ars 35. .

(15) 5    para o demonstrar estariam condenados ao fracasso, assim como os que negassem a  teoria, pelo simples facto de ainda não ser possível viajar no tempo3. A recente posição  de Stuart Lyons (2010) é sólida e consistente: as referências intertextuais de Horácio a  termos  que  sugerem  uma  prática  musical,  em  particular  ao  nível  da  menção  de  instrumentos e de termos técnicos conotados com a teoria musical, como a expressão  modi4,  conjugadas  com  as  muitas  evidências  de  uma  prática  musical  constante  na  época de Horácio, parecem sugerir que seria até o próprio compositor a cantar os seus  poemas  no  contexto,  por  exemplo,  dos  diversos  symposia  organizados  por  Mecenas,  provavelmente  no  Auditorio  di  Mecenate,  descoberto  em  1874.  Outro  argumento  parece‐nos convincente: não é plausível que o músico convidado para compor o carme  com que se finalizaram os Ludi Saeculares fosse um amador inexperiente, um curioso  sem  qualquer  tipo  de  técnica  musical,  especialmente  se  pensarmos  que  a  cerimónia  mais  importante,  do  ponto  de  vista  religioso  e  político,  do  principado  de  Augusto  foram precisamente estes jogos. Seria o mesmo do que se, em 1685, o rei inglês James  II tivesse encomendado a um poeta inexperto, que nunca tivesse composto uma peça  de  música  na  vida,  o  hino  que  celebrou  a  sua  coroação,  ao  invés  de  o  pedir  ao  mais  famoso e importante músico inglês da altura: Henry Purcell5.    . Aliás,  para  estudiosos  que  negam  a  essência  musical  dos  carmina  horacianos, . parece  ser  um  verdadeiro  contratempo  para  a  sua  teoria  a  tal  inscrição  na  pedra  de  que falávamos, e são rápidos em afirmar que o Carmen Saeculare é um exemplo único  a respeito de uma execução musical, usando esse facto para provar que nenhuma das  outras  odes  a  tiveram6.  Dir‐se‐ia  que  teriam  preferido  nunca  ter  descoberto  que  Horácio foi, de facto, um músico – talvez porque há demasiado tempo que os carmina  deste  autor  romano  estão  calados,  ou  silentemente  reproduzidos  em  milhões  de  páginas igualmente silenciosas, ou espalhados, esquartejados, analisados, pensados e  repensados  por  milénios  de  tácitas  interpretações.  Obviamente,  os  argumentos  que  sustentam  a  tese  “não  musical”  são  igualmente  sólidos,  especialmente  aqueles                                                          3.  Como é aliás a única conclusão possível, segundo ressalva Nina Mindt (2010) na sua recensão à obra de  Lyons (2010).  4  Cf. Carm. II.1.40, III.9.10, III.11.7, III.30.14, IV.6.43, IV.11.34.  5  Falamos do seu hino I was glad when they said unto me.   6   Cf.,  aliás,  a  posição  ambígua  de  Barchiesi  (2007,  148  e  ss.),  que  tanto  vai  negando  como  afirmando  uma performance musical das Odes. .

(16) 6    aduzidos por Rossi (1998, 163‐181)7, que Lyons, aliás, nunca chega a citar: a referência  aos instrumentos e à linguagem musical cumpre apenas um propósito retórico, em que  Horácio  se  pretende  colocar  ao  mesmo  nível  musical  que  certamente  tinha  Píndaro,  Alceu, Arquíloco ou Safo, juntamente com o argumento histórico, em que avulta uma  idade alexandrina na qual a poesia deixou de ter uma face musical tão evidente. Mas  uma vez que nunca poderemos saber ao certo como foram as odes interpretadas8, se  cantadas, se lidas ou recitadas, a nossa atenção, quando usamos o termo “compositor”  e “músico” para descrever Horácio, deve ser desviada noutro sentido.   . Já  Heinze,  num  dos  textos  mais  importantes  na  história  da  crítica  horaciana, . “Die Horazische Ode” (1923), e a que recentemente Santini (2001) veio dar o devido  lugar,  enfatizara  uma  ideia  de  uma  importância  fulcral  para  a  nossa  dissertação:  a  própria mise en scéne da ode horaciana exige uma performance9. Isto dada a própria  natureza  dialógica  dos  seus  carmina,  por  oposição,  por  exemplo,  à  tendência  monológica  da  lírica  moderna,  como  sublinha  o  estudioso  alemão:  de  facto,  praticamente  todas  as  suas  composições,  em  mais  de  uma  centena,  exigem  um  destinatário formal, que pressupõe que este esteja presente, nem que seja em termos  retóricos. Aliás, não é por acaso que, numa curtíssima entrada com apenas três breves  parágrafos,  no  artigo  do  Oxford  Classical  Dictionary  (Hornblower  e  Spawforth  2003,  1295‐6) sobre a recitatio, o seu autor se consegue referir a Horácio e a passos da sua  obra  por  quatro  vezes.  Se  há  uma  reencenação  a  cada  vocalização/recitação  da  ode,  isto obriga‐nos a repensar a natureza do carmen horaciano, performativa na sua mais  radical essência. Mas que tem isto a ver com o clímax e com a escolha da lírica latina                                                          7.  Especialmente consistente é o seu argumento métrico (171 e ss.), embora possa aplicar‐se aquilo que  há  pouco  dissemos  em  relação  a  Jacques  Brel,  Leonard  Cohen  ou  Zeca  Afonso.  Todos  os  outros  argumentos que aduz, porém, são facilmente utilizáveis para provar precisamente o contrário: que as  odes eram cantadas. Por exemplo, quando diz a propósito de III.30, que “anche se per ipotesi (assurda)  un  poeta  greco  arcaico  avesse  raccolto  i  suoi  carmi  destinati  alle  esecuzioni  occasionali,  non  saprei  immaginarlo  a  fare  una  dichiarazione  programmatica  come  questa,  che  toglie  la  propria  poesia  dall'effimero  dell'occasione  e  la  proietta  nella  perennità  di  una  acquisizione  che  s'identifica  con  il  proprio stesso corpus poetico, con il suo liber affidato alla pagina” (170), este mesmo argumento pode  servir para justificar que todas as outras odes, excepto III.30, eram cantadas. E além disso, quando fala  em  “dichiarazione  programmatica”,  lembramo‐nos  logo  de  um  conceito  caro  à  Musicologia,  que  é  precisamente o de “música programática”.  8   Como  aliás  resumidamente  admite  o  artigo  de  Guido  Milanese  na  Enciclopedia  Oraziana  (Mariotti  1996‐1998,  II,  921‐925),  que  Lyons  cita  mas  que  erradamente  atribui  ao  primeiro  volume  da  enciclopédia (quer na nota de rodapé (3, 10n), quer na bibliografia).  9  Ou como resume Barchiesi, a propósito do influente artigo de Heinze: “the poem is not imagined as  text and is consistently offered as ‘live’ and ‘musical’” (2007, 155). .

(17) 7    como  ponto  de  partida  para  a  nossa  tese?  Porque,  ao  admitir  que  a  poesia,  e  em  particular  a  lírica  de  Horácio,  tem  uma  indelével  componente  performativa,  mais  sentido faz aplicar um conceito como o de clímax a uma reflexão sobre a arquitectura  composicional de uma ode. O estudo de um clímax num carmen de Horácio não será  assim  pois  fundamentalmente  diferente  da  leitura  de  uma  partitura  silenciosa  de  Debussy,  no  tempo  em  que  não  havia  gravações  e  a  audição  interior  quer  do  musicólogo,  quer  do  compositor  era  quase  imprescindível,  numa  época  em  que  se  ouviria, ao longo de uma vida inteira, a Nona Sinfonia de Beethoven apenas duas ou  três  vezes,  e  isto  com  sorte,  dependendo  do  meio  cultural  e  social  em  que  o  sujeito  vivesse.  É  essa  “audição  em  silêncio”,  essa  análise  do  “monumento  silenciado”  que  verdadeiramente  demandamos  aqui,  em  especial  procurando  a  razão  por  que,  em  determinados  versos  de  Horácio,  podemos  falar  com  propriedade  no  conceito  de  clímax.  Mas  as  consequências  de  admitir  que  a  poesia  é,  na  sua  essência,  uma  arte  performativa leva‐nos, como dizíamos há pouco, a repensar o conceito de “música” e  de “compositor” quando falamos a propósito de Horácio.    . Isto  porque,  como  teremos  oportunidade  de  argumentar,  e  na  nossa . perspectiva, a questão não é saber se havia uma melodia associada às odes de Horácio  –  se  alguma  vez  existiu,  estará  irremediavelmente  perdida;  o  verdadeiro  objecto  de  estudo é saber ao certo o que se entende por “musicalidade” em relação à poesia em  geral,  e  a  Horácio  em  particular.  Aqui,  como  veremos,  todos  nós  tendemos  a  considerar  a  música  apenas  como  ritmo  e  melodia,  deixando  de  parte  um  conceito  fundamental,  que  poesia  e  música  partilham  indiscutivelmente:  dinâmica.  Daí  que  o  subtítulo  desta  tese  seja  precisamente  este:  “uma  análise  dinâmica”.  E  em  que  consiste uma análise dinâmica? Esta pergunta irá sendo respondida ao longo da nossa  dissertação.  Fundamentalmente,  trata‐se  de  encontrar  os  momentos  de  crescendo  e  de diminuendo de um poema, se determinado verso é forte ou più forte, piano ou più  piano, e de que ferramentas dispõe um poeta para o lograr, porque para encontrar o  clímax  de  um  poema  será  obrigatório  uma  análise  a  este  nível,  como  aliás  toda  a  Primeira  Parte  desta  tese  procurará  demonstrar.  Mas  não  é  só  por  este  motivo  que  decidimos  atribuir  este  subtítulo:  jogamos  também  com  a  ambiguidade  que  pode  existir na expressão “análise dinâmica”, que, num sentido não musical, implica que o .

(18) 8    estudo,  ele  próprio,  procurará  ser  dinâmico,  ou  seja,  manter‐se  em  permanente  diálogo entre as diversas áreas do saber e da arte, como aliás fica patente nesta nota  introdutória. E esta é uma razão mais para escolhermos um autor como Horácio: num  estudo que procura chegar a conclusões abrangentes sobre o fenómeno artístico em  geral, e poético em particular, este autor apresenta‐nos precisamente uma variedade  impressionante,  talvez  como  nenhum  outro  clássico10  ou  mesmo  moderno,  quer  em  termos  formais,  quer  em  termos  temáticos.  De  facto,  quantos  poetas  há  que  numa  mesma  obra  explorem  mais  de  uma  dezena  de  sistemas  métricos  diferentes,  em  composições de extensão sempre distinta? Quantos poetas há que numa mesma obra  explorem  temas  tão  diversos  como  a  própria  poesia  e  o  poeta,  o  seu  ofício  e  o  seu  poder,  a  natureza  humana,  o  imperativo  da  simplicidade,  da  aurea  mediocritas  e  do  carpe  diem  (expressões  que  aliás  cunhou),  a  morte,  a  fortuna,  o  amor,  visto  na  primeira  e  na  terceira  pessoas,  o  καιρός político,  o  destino  da  sua  cidade  e  do  seu  soberano,  os  deuses,  o  vinho,  o  banquete,  a  mitologia,  os  encantos  do  campo,  a  filosofia,  enfim,  todos  estes  temas  que  fazem  de  cada  ode,  considerada  individualmente, um ente próprio, um monumento variado não só em si mesmo, como  no contexto dos outros  carmina. Horácio é, de facto, um excelente ponto de partida  para  quem  procura  uma  leitura  o  mais  universal  possível  do  fenómeno  poético,  até  pela extraordinária fortuna que conheceu ao longos dos séculos, sendo uma presença  constante  em  todo  o  espaço  literário  europeu,  como  demonstram  as  mais  de  seiscentas  páginas  que  a  Enciclopedia  Oraziana  dedica  ao  assunto  (no  seu  terceiro  volume),  estudando  a  sua  fortuna  desde  a  antiguidade  até  aos  dias  de  hoje,  de  Portugal11 à Rússia.   . Postos  estes  breves  parágrafos  introdutórios,  pois  a  verdadeira  introdução  ao . nosso  estudo  será,  como  veremos,  o  capítulo  que  se  segue,  devemos  apenas  tecer                                                         . 10.   Também  dado  ao  facto  de  poucos  terem  uma  obra  tão  bem  conservada,  com  problemas  textuais  bastante  limitados  quando  comparados  com  outras  obras  (como,  por  exemplo,  a  questão  das  interpolações);  sobre  o  tema,  cf.  a  secção  “Tradizione  manoscrita”  da  Enciclopedia  Oraziana  (Mariotti  1996‐1998, I, 319‐354).  11  É aliás uma pena que o artigo sobre Portugal, da autoria de José Pina Martins (Mariotti 1996‐1998, II,  586‐587), seja tão resumido, quando comparado com outros países, dando a impressão que a Sérvia ou  a  Eslovénia  têm  uma  tradição  horaciana  mais  forte  do  que  a  nossa.  Desconhecemos  de  todo  a  razão  para  o  facto,  embora  desconfiemos  de  que  a  justificação  não  deve  ser  imputável  ao  douto  filólogo  português. .

(19) 9    algumas  considerações  sobre  a  organização  da  presente  dissertação,  sobre  o  seu  método e critério bibliográficos e igualmente sobre o estado da questão.    . Comecemos  pela  estrutura.  Esta  é  composta  por  uma  Primeira  Parte,  que  se . divide em dois capítulos. No Capítulo I, procurar‐se‐á estudar a etimologia da palavra  clímax, partindo da leitura de todos os passos em que os autores gregos coligidos no  TLG utilizaram a expressão ou um dos seus compostos, para depois analisar, um a um,  os passos em que a palavra tem um sentido retórico, que é aquele que nos interessa.  De  seguida,  estudaremos  igualmente  a  gradatio  latina  no  contexto  clássico  e  no  da  patrística, uma vez que, na escola retórica, esta foi a tradução em latim para a figura  retórica  conhecida  como  κλῖμαξ. Estudada  exaustivamente  a  “face  clássica”  do  conceito, procuraremos saber, num segundo momento, porque é que a expressão tem  um significado tão distinto daquele que tinha na Antiguidade, investigando as razões  que  estão  por  trás  de,  hoje  em  dia,  em  português,  em  espanhol,  em  inglês  ou  em  alemão,  a  palavra  clímax  ser  quase  exclusivamente  um  sinónimo  de  “ponto  culminante”,  e  de  em  italiano  ser  um  sinónimo  quase  sempre  de  “crescendo”.  Isto  obrigar‐nos‐á  a  estudar,  dentro  de  cada  uma  das  línguas  europeias  (português,  espanhol,  francês,  italiano,  francês,  inglês  e  alemão)12  a  evolução  etimológica  que  a  palavra  sofreu  ao  longo  dos  tempos,  o  que  nos  levará  a  um  entendimento  cada  vez  mais  lato  do  conceito,  ao  estabelecer  as  suas  três  fases  etimológicas:  a  de  figura  retórica  clássica  (figura  de  repetição  de  palavras),  a  de  figura  retórica  moderna  (crescendo), e a de conceito contemporâneo (ponto culminante). Será pois baseados  nestes três entendimentos, que se completam e entrecruzam, como veremos, que nos  abalançaremos  ao  Capítulo  II,  em  que  procuramos,  depois  de  dar  o  nosso  entendimento claro do conceito e das linhas de análise possíveis, aplicá‐lo a diversas  formas  de  expressão  artística;  o  critério  de  selecção  de  cada  uma  das  obras  será  discutido  no  momento  em  que  as  formos  introduzindo.  Assim,  começaremos  pela  análise da tragédia Electra de Sófocles (clímax trágico), e daí passaremos a uma leitura  da ópera Elektra de Richard Strauss, com libretto de Hugo von Hofmannstahl (clímax                                                          12.   O  critério  de  selecção  destas  línguas  passa  pelo  simples  facto  de  infelizmente  não  estarmos  habilitados para ler outras (como o neerlandês, o russo ou o húngaro, por exemplo), embora possamos  dizer  que  estas  são  as  mais  importantes  não  só  do  ponto  de  vista  europeu,  como  também  dentro  da  própria escola retórica moderna.  .

(20) 10    operático).  Depois,  será  a  vez  de  analisarmos  o  clímax  no  romance,  apresentando,  a  esse  respeito,  uma  reflexão  acerca  de  Amor  de  Perdição  de  Camilo  Castelo  Branco.  Será então que passaremos à análise do Prélude à L’Après‐midi d’un Faune, de Claude  Debussy  (clímax  musical),  peça  que  esteve,  como  já  foi  dito,  na  origem  da  presente  dissertação,  assim  como,  numa  última  alínea  deste  capítulo,  do  poema  L’Après‐midi  d’un  Faune  de  Stéphane  Mallarmé,  que  servirá  de  ponte  para  a  Segunda  Parte  da  dissertação,  em  que  nos  abalançamos  ao  estudo  do  fenómeno  poético,  a  partir  das  odes  de  Horácio  propriamente  ditas.  Naturalmente,  todas  as  leituras  feitas  neste  Capítulo  II  serão  breves,  e  igualmente  condicionadas  exclusivamente  pelo  tema  do  clímax,  sempre  na  perspectiva  de  nos  munirem  das  ferramentas  iniciais  que  nos  permitam  já  um  certo  desembaraço  hermenêutico  quando  passarmos  ao  estudo  do  poeta romano.   . A Segunda Parte terá três momentos distintos, que se prendem naturalmente . com a discussão encetada na Primeira Parte. Será pois dividida de acordo com os três  tipos principais de clímax propostos: o clímax de pensamento (Capítulo III), o clímax de  sentimento  (Capítulo  IV)  e  o  clímax  de  ironia  (Capítulo  V).  Neste  quinto  capítulo  analisaremos  igualmente  odes  compostas  pelo  cruzar  destes  três  tipos  distintos  de  clímax, e estudaremos dois outros tipos (clímax ex abrupto e ad infinitum). Serão, no  total, quase trinta odes vistas sob a perspectiva do clímax, cuja selecção passou por um  trabalho  propedêutico  de  escolha  daquelas  que,  no  nosso  entender,  eram  mais  exemplificativas  de  um  determinado  processo  composicional.  O  último  capítulo  conterá  naturalmente  uma  sistematização  fundamental,  estruturada  em  alíneas,  acerca  de  todas  as  ferramentas  que  Horácio  utilizou  para  criar  momentos  de  clímax  nas  suas  odes,  algo  que  passa,  como  será  compreensível  logo  a  partir  do  primeiro  capítulo,  pelo  elencar  dos  recursos  técnicos  ao  dispor  de  um  poeta  para  organizar  gradativamente os seus carmina. Esta sistematização tem como ponto de partida, por  uma questão de método e de rigor científicos, uma tentativa de estudar o porquê de  algumas  odes  de  Horácio  não  terem  clímax,  algo  que  nos  dará  ensejo  de  concluir  a  nossa  dissertação,  reflectindo  sobre  qual  a  função  do  clímax,  a  sua  identidade,  apresentando  aqueles  que  julgamos  ser  os  principais  contributos  da  nossa  tese,  e  sublinhando aquelas que foram as linhas de força fundamentais da nossa dissertação..

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