Roberta Hehl de Sylos Cintra
PANORAMA E PERSPECTIVAS DAS POLÍTICAS PÚBLICAS E
NORMATIVAS PARA A TRANSIÇÃO ENERGÉTICA NO CONTEXTO
DA UNASUL
São Carlos
2018
PANORAMA E PERSPECTIVAS DAS POLÍTICAS PÚBLICAS E
NORMATIVAS PARA A TRANSIÇÃO ENERGÉTICA NO CONTEXTO
DA UNASUL
Tese apresentada ao Programa de Pós
Graduação em Ciências Ambientais da
Universidade Federal de São Carlos –
SP, para cumprimento dos requisitos
necessários à obtenção do grau de
Doutora em Ciências Ambientais sob a
orientação científica do Doutor Celso
Maran de Oliveira, Professor do
Departamento de Ciências Ambientais
da Universidade Federal de São Carlos.
Orientador:
Prof. Dr. Celso Maran de Oliveira
326 f. : 30 cm.
Tese (doutorado)-Universidade Federal de São Carlos, campus São Carlos, São Carlos
Orientador: Celso Maran de Oliveira
Banca examinadora: Celso Maran de Oliveira, Suzana Tavares da Silva, Ana Maria Nusdeo, Marcelo Coutinho Vargas, Francisco Antônio Dupas Bibliografia
1. Energias Renováveis. 2. Integração Regional. 3. Mudanças Climáticas e Políticas Públicas. I. Orientador. II. Universidade Federal de São Carlos. III. Título.
Ficha catalográfica elaborada pelo Programa de Geração Automática da Secretaria Geral de Informática (SIn). DADOS FORNECIDOS PELO(A) AUTOR(A)
PANORAMA E PERSPECTIVAS DAS POLÍTICAS PÚBLICAS E
NORMATIVAS PARA A TRANSIÇÃO ENERGÉTICA NO CONTEXTO
DA UNASUL
Presidente da Banca:
___________________________________________________________________________ Prof. Dr. Celso Maran de Oliveira (orientador)
UFSCar/São Carlos
Banca Examinadora:
__________________________________________________________________________ Profa. Dra. Suzana Tavares da Silva
Universidade de Coimbra/Coimbra
___________________________________________________________________________ Profa. Dra. Ana Maria Nusdeo
USP/São Paulo
___________________________________________________________________________ Prof. Dr. Marcelo Coutinho Vargas
UFSCar/São Carlos
___________________________________________________________________________ Prof. Dr. Francisco Antônio Dupas
Durante esta jornada contei com apoio e incentivo de muitas pessoas. Algumas que fazem parte de minha vida desde sempre, e outras que, independentemente do tempo de convivência marcaram esta etapa de forma profunda. Este trabalho tem sido construído com realizações diárias, para as quais todas as pessoas a quem agradeço de alguma forma contribuíram. Minha mais sincera gratidão...
Aos meus pais, Wilma e Joaquim, agradeço por me darem a vida, carinho e dedicação, e por estarem presentes em meus pensamentos, em meu coração, em minha alma, e em todas as ocasiões de forma incondicional e única. Amo muito vocês!
Às minhas filhas, Manuela e Heloisa, agradeço por me proporcionarem o maior de todos os aprendizados, aquele que prova existir um amor tão poderoso e tão empoderador, que nos faz querer sermos uma pessoa melhor a cada dia, para que, mais que palavras, possamos proporcionar bons exemplos, boas experiências e lembranças reconfortantes.
Ao meu companheiro, Per, agradeço pelo café aceito naquele dia, em Coimbra. E, a partir daí, por tornar todos os meus cafés especiais, me fazendo lembrar que a felicidade sempre permeia nossa jornada, apenas precisamos conseguir compreender sua essência e apreciá-la. Jeg elsker dig.
Agradeço também ao meu irmão, Marcelo e família, e aos meus eternos sogros, Neide e Zé Renato, por se interessarem e perguntarem sobre meu progresso no trabalho, e mesmo por vezes sem entendê-lo, sempre buscarem me animar, incentivar e acalmar.
Agradeço ao Flávio por me proporcionar minhas maiores riquezas, nossas duas filhas, laços que nos unirão sempre em um fluxo de amor verdadeiro por elas.
Ao Professor Doutor Celso Maran Oliveira, meu orientador, por ter confiado em meu potencial e aceitado dispender tempo e disposição ao longo desta jornada de doutorado, me questionando em meus textos e orientando em minhas pesquisas.
Agradeço a Prof. Dra. Suzana Tavares da Silva pela acolhida em Coimbra - Portugal, que, para além de uma excelente orientadora, revelou-se, com sua atenção e carinho, ser uma pessoa de alma maravilhosa. Obrigada por tudo!
Ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da Universidade Federal de São Carlos, em especial ao secretário Vinicius pelas orientações, e a todos os professores do Programa, que contribuíram na minha formação.
Ao Prof. Dr. Victor Satoru Saito, à Profa. Dra. Andréa Lúcia Teixeira De Souza e à Profa. Dra. Sonia Maria Couto Buck pela disponibilidade, participação e contribuições na Banca da Aula de Qualificação.
Aos meus colegas do Programa, pela companhia, amizade e momentos tanto de aprendizado acadêmico e pessoal, como de descontração.
À todos os meus amigos queridos pelos infindáveis momentos de descontração tão necessários à minha sanidade mental!
implicações das normativas do TES para integração, concluindo-se não haver perspectiva de transição energética, se feita conforme planejado até o momento. Propõe-se e discorre-se acerca novos entendimentos sobre o direito à energia, para além do mero acesso, elevando-o à categoria de direito humano fundamental, descrevendo e comentando novos princípios, institutos jurídicos e a temática atual da democracia e justiça energética, como modo essencial de consecução dos ideais de igualdade de direitos e vida com dignidade.
OVERVIEW AND PROSPECTS OF PUBLIC POLICIES AND POLICIES
FOR ENERGY TRANSITION IN THE CONTEXT OF UNION OF
SOUTH AMERICAN NATIONS
promoting the regional integration in a sustainable way and in keeping with the objectives and propositions of the entity. The implications of the TES regulations for integration are exposed, concluding that there is no prospect of energy transition processes to occur if it is taken as planned. It is proposed and discussed new understandings on the right to energy, beyond mere access, raising it to the category of fundamental human right, describing and commenting on new principles, legal institutes and the current themes of democracy and energy justice, as an essential way of achieving the ideals of equal rights and life with dignity.
Figura 1 – Caracterização da Pesquisa de Doutorado ... 30
Figura 2 - Países Membros da UNASUL ... 104
Figura 3 - Organograma da UNASUL ... 104
Figura 4 - Tipologia de integração ... 112
Figura 5 - Blocos CAN (Comunidade Andina), MERCOSUL (Mercado Comum do Sul) e UNASUL (União das Nações Sul Americanas) ... 113
Figura 6 - Acordos de Regionalização abertos na América do Sul ... 115
Figura 7 - Conflitos na América do Sul ... 124
Figura 8 - Esquema da Doutrina Pública da Confiança da Natureza ... 234
Quadro 1 - Políticas Energéticas ... 81
Quadro 2 - Políticas para a Promoção das Energias Renováveis ... 82
Quadro 3 – Políticas para Eficiência Energética ... 82
Quadro 4 – Conflitos na América do Sul ... 123
Quadro 5 – PPeN para ER – Argentina ... 178
Quadro 6 - PPeN para ER – Bolívia ... 179
Quadro 7 - PPeN para ER – Brasil ... 180
Quadro 8 - PPeN para ER – Chile ... 182
Quadro 9 - PPeN para ER – Colômbia ... 183
Quadro 10 - PPeN para ER – Equador ... 185
Quadro 11 - PPeN para ER – Guiana ... 185
Quadro 12 - PPeN para ER – Paraguai ... 186
Quadro 13 - PPeN para ER – Peru ... 187
Quadro 14 - PPeN para ER – Suriname ... 189
Quadro 15 - PPeN para ER – Uruguai ... 190
Quadro 16 - PPeN para ER – Venezuela ... 192
Quadro 17 – Compilação dos instrumentos de incentivo para ER ... 193
Quadro 18 - Princípios para um Novo Direito da Energia ... 224
ABNT Associação Brasileira de Normas Técnicas.
ALADI Associação Latino-Americana de Integração.
ALALC Associação Latino-Americana de Livre Comércio.
ALCA Área de livre Comércio das Américas.
ANEEL Agência Nacional de Energia Elétrica.
BEN Balance Energético Nacional.
BID Banco Interamericano de Desenvolvimento.
BNDES Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social do Brasil.
CAF Corporação Andina de Fomento.
CAN Comunidade Andina de Nações.
CARICOM Mercado Comum e Comunidade do Caribe.
CASA Comunidade Sul Americana de Nações.
CDE Contratos de Desempenho Energético.
CDS Conselho de Defesa Sul-Americano.
CES Conselho Energético Sul-Americano.
CEU Conselho Eleitoral.
CICPrata Comitê Intergovernamental Coodenador dos Países da Bacia do Prata.
CIER Comissão de Integração Energética Regional.
COSIPLAN Conselho Sul-americano de Infraestrutura e Planejamento.
COSUCTI Conselho Sul-Americano de Ciência, Tecnologia e Inovação.
COTED Conselho para o Comércio e Desenvolvimento Econômico.
CSC Conselho Sul-Americano de Cultura.
CSDS Conselho Sul-Americano de Desenvolvimento Social.
CSE Conselho Sul-Americano de Educação.
CSEF Conselho Sul-Americano de Economia e Finanças.
CSN Comunidade Sul-Americana de Nações.
CSPMD Conselho sobre o Problema Mundial das Drogas.
CSS O Conselho de Saúde Sul-Americano.
DOT Conselho Sul-Americano em Matéria de Segurança Cidadã, Justiça e Coordenação contra a Delinquência Organizada Transnacional.
ESCO Energy Service Company.
FIT Feed-In Tariff.
FONPLATA Fundo Financeiro para Desenvolvimento da Bacia do Prata.
GD Geração Distribuída.
GEE Gases de Efeito Estufa.
Gt Bilhões de Toneladas.
GT Grupos de Trabalho.
GWP Potencial de Aquecimento Global (Global Warming Potential)
ICLEI International Council for Local Governments for Sustainability.
IDH Índices de Desenvolvimento Humano.
IEA Agência Internacional da Energia.
IIRSA Iniciativa para Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana.
iNDC Contribuição Nacionalmente Determinada.
INPE Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.
IRENA International Renewable Energy Agency.
ISAGS Instituto Sul-Americano de Governo em Saúde.
IVA Imposto Sobre o Valor Agregado.
MCTI Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
MERCOSUL Mercado Comum do Sul.
MME Ministério de Minas e Energia.
MWh Megawatt-hora.
OEA Organização dos Estados Americanos.
OHCHR Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos.
OMC Organização Mundial do Comércio.
ONU Organização das Nações Unidas.
OTCA Organização do Tratado de Cooperação Amazônica.
OTEC Conversão Térmica do Oceano (Ocean Thermal Energy Conversion).
PCHs Pequenas Centrais Hidrelétricas.
PLEE Projeto de Lei de Eficiência Energética.
PPEN Políticas Públicas E Normativas.
PPGCAm Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais.
RISE Regulatory Indicators for Sustainable Energy.
RPS Renewable Portfolio Standards.
SEEG Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa.
SIC Sistema Interconectado Central.
SIG Sistema de Informação Geográfica.
SING Sistema Interconectado de Norte Grande.
SIRENE Sistema de Registro Nacional de Emissões.
SNI Sistema Interconectado Nacional.
TCN Terceira Comunicação Nacional do Brasil.
TEI Sigla em inglês para Direção de Comércio e Integração Econômica.
TEP Tonelada Equivalente de Petróleo.
TES Tratado Energético Sul Americano.
TI Tecnologias da Informação.
UFSCar Universidade Federal de São Carlos.
UNASUL União das Nações Sul Americanas.
UNASUR Referente à Unión de Naciones Suramericanas, em espanhol.
UNEP Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.
UNFCCC Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima.
CAPÍTULO 1: INTRODUÇÃO ... 18
1.1 A TEMÁTICA DA ENERGIA NA UNASUL E JUSTIFICATIVA ... 18
1.2 OBJETIVO GERAL ... 27
1.3 OBJETIVOS ESPECÍFICOS ... 28
1.4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ... 29
1.5 ESTRUTURA DA TESE ... 31
1.5.1 Descrição dos Capítulos ... 31
CAPÍTULO 2: IMPRESCINDIBILIDADE DAS ENERGIAS RENOVÁVEIS (ER) 33 2.1 PREMÊNCIAS AMBIENTAIS: MITIGAÇÃO CLIMÁTICA ... 33
2.2 HUMANIDADE, AMBIENTE E ENERGIA ... 39
2.3 TECNOLOGIAS ENERGÉTICAS ... 43
2.3.1 Energia Solar ... 44
2.3.2 Energia Eólica... 45
2.3.3 Energia da Biomassa ... 47
2.3.4 Energia Geotérmica ... 49
2.3.5 Energia Oceânica ... 50
2.3.6 Energia Hidráulica ... 52
2.4 ESSENCIALIDADE DAS NORMATIVAS: O PORQUÊ DA INTERVENÇÃO ESTATAL ... 54
2.4.1 Mercado Energético, Sustentabilidade e Normas Jurídicas ... 59
2.5 URGÊNCIA ÉTICA: QUAL SUA RAZÃO E O PAPEL DO ESTADO ... 61
CAPÍTULO 3: NECESSIDADE DE POLÍTICAS PÚBLICAS E NORMATIVAS (PPeN) PARA ER ... 66
3.1 POR QUE PPEN SÃO FUNDAMENTAIS PARA UMA TRANSIÇÃO ENERGÉTICA DE BAIXO CARBONO? ... 66
3.2 MITOS SOBRE O INSUCESSO DAS ENERGIAS RENOVÁVEIS ... 69
3.3 O “MEIO DE CULTURA” DAS POLÍTICAS PARA AS ENERGIAS RENOVÁVEIS ... 71
3.4 FORMAS DE DELINEAR E INSTRUMENTALIZAR POLÍTICAS PÚBLICAS PARA AS ER ... 75
3.5 PRINCIPAIS BARREIRAS E DESAFIOS ... 84
3.6.1.2 Chile ... 94
3.6.1.3 Alemanha ... 98
3.6.1.4 Conclusões sobre a Transição Energética no Chile e na Alemanha ... 100
CAPÍTULO 4: NECESSIDADE DE GERENCIAR O USO DAS ER DE FORMA REGIONALIZADA: A PROPOSTA DA UNASUL ... 102
4.1 O QUE É A UNASUL E A INTEGRAÇÃO DA AMÉRICA DO SUL ... 103
4.1.1 O processo histórico da UNASUL ... 111
4.1.2 A regulamentação da UNASUL ... 116
4.1.3 UNASUL: ambições explícitas, implícitas e desafios reflexos ... 118
CAPÍTULO 5: ER NA AMÉRICA DO SUL ... 125
5.1 POTENCIALIDADES E FRAGILIDADES DO SETOR ENERGÉTICO SUL-AMERICANO ... 126
5.2 RESERVAS ENERGÉTICAS NA AMÉRICA DO SUL ... 128
5.3 POTENCIAIS QUE SE COMPLEMENTAM, SEGURANÇA E EFICIÊNCIA ENERGÉTICA ... 130
5.3.1 Brasil ... 132
5.3.2 Argentina ... 136
5.3.3 Chile ... 140
5.3.4 Uruguai ... 145
5.3.5 Paraguai ... 147
5.3.6 Colômbia ... 148
5.3.7 Peru ... 150
5.3.8 Bolívia ... 152
5.3.9 Equador ... 153
5.3.10 Suriname ... 155
5.3.11 Guiana ... 156
5.3.12 Venezuela ... 157
5.4 POTENCIAIS PARA DESENVOLVIMENTO SOCIOECONÔMICO DA AMÉRICA DO SUL ... 157
CAPÍTULO 6: GERENCIANDO POLÍTICAS PÚBLICAS E NORMATIVAS (PPEN) PARA ER NO CONTEXTO DA UNASUL ... 161
6.1.3 O Conselho Energético Sul americano e a efetivação das políticas energéticas ... 166
6.2 PPEN PARA ER EM CADA ESTADO MEMBRO ... 172
6.3 O TRATADO ENERGÉTICO SUL AMERICANO (TES) ... 197
CAPÍTULO 7: TRANSIÇÃO ENERGÉTICA NA UNASUL: UMA OPORTUNIDADE PARA IR ALÉM ... 202
7.1 REALIDADE FÁTICA E TENDÊNCIAS NORMATIVAS ... 203
7.2 TRANSCENDER PARA CONCEBER: REFLEXÕES SOBRE INOVAÇÕES JURÍDICAS PARA AS ENERGIAS RENOVÁVEIS ... 214
7.2.1 Acesso à Energia: um direito fundamental. Como concebê-lo? ... 215
7.2.2 Liberdade Energética: a transição profunda ... 216
7.2.3 Princípios para um Novo Direito da Energia... 222
7.2.4 Revisitando clássicos Institutos Jurídicos... 228
7.2.4.1 O Trust e a Personificação Jurídica da Natureza ... 230
7.2.5 Inovação na Governança: referência democrática, policêntrica e multinível ... 239
CAPÍTULO 8: CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 244
REFERÊNCIAS ... 249
CAPÍTULO 1: INTRODUÇÃO
Este capítulo introdutório tem como principal objetivo contextualizar o presente trabalho de doutorado no campo de estudos das Ciências Ambientais, demonstrando a vívida conexão entre as ciências biológicas e da natureza, as políticas públicas, o direito, e a temática dos direitos humanos, conjugados ainda a processos participativos na sociedade. Além disso, visa apresentar a estrutura de desenvolvimento da tese, permitindo ao leitor uma melhor compreensão inicial sobre cada capítulo.
O trabalho discorre sobre as políticas públicas e normativas (PPeN) para energias renováveis (ER) na América do Sul, no âmbito da União das Nações Sul Americanas (UNASUL), e se há (in)viabilidade da transição energética, segundo confronto do Tratado Energético Sul americano com o que a literatura consultada indica ser necessário para tal transição. Para tanto, o texto conta com uma organização clássica, em que cada capítulo aprofunda mais a temática abordada, seguindo as regras e orientações do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais (PPGCAm), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).
A seguir apresenta-se um introito à temática da transição energética, da UNASUL e da integração sul americana pela via da energia, sequenciada pela descrição dos métodos adotados para a realização da pesquisa e por um breve esclarecimento do teor de cada capítulo.
1.1 A TEMÁTICA DA ENERGIA NA UNASUL E JUSTIFICATIVA
Os anos de exploração desenfreada das matrizes energéticas, associadas ao magnífico resultado do desenvolvimento econômico proporcionado por este uso, fizeram com que se acreditasse que meio ambiente e recursos energéticos fossem bens dissociáveis. Por meio de métodos econométricos diversos, buscando comprovações de diferentes hipóteses para explicar a relação entre PIB (produto interno bruto) e consumo de energia, constata-se o inegável entrelaçamento dessas duas variáveis (MENEGAKI, 2014).
Para muitos não faz parte da mesma equação a utilização da energia, destruição ambiental e correlatas mazelas sociais, como a pobreza extrema e grandes desigualdades. Neste sentido, a maior utilização dos recursos energéticos, especialmente os fósseis, em grandes oligopólios acarretou danos profundos e outros com os quais luta-se até hoje para mitigar seus efeitos. Os danos podem ser ambientais, como as mudanças climáticas, também decorrentes de excesso de gases de efeito estufa, e a extrema degradação de ecossistemas naturais, e podem ser sociais, como a extrema desigualdade econômica e de acesso à recursos básicos à sobrevivência. Este último entendido aqui como reflexo da própria degradação dos recursos e distúrbios nos serviços proporcionados pelos sistemas naturais, bem como os impactos nos custos de manutenção e recuperação. No entanto, é importante salientar que o uso dos recursos energéticos não necessariamente ocasiona danos ao ambiente, mas sim as formas como são estruturados os sistemas de aproveitamento e correlativas matérias-primas usadas.
Meio ambiente, energia, relações humanas e atuação estatal, fazem todos parte de uma mesma equação que promove evolução. Evolução em termos biológicos, evolução em termos sociais. A história do desenvolvimento da espécie humana é reflexa à forma como as pessoas relacionam-se com o meio ambiente, dele extraindo e usufruindo os recursos para produção de energia, a prover bem-estar e proteção. Mas, esta relação não é isenta de conflitos e dificuldades, notadamente com o desenvolvimento de novas tecnologias que permitem maior aproveitamento dos recursos e serviços ecossistêmicos.
Este é o caso da indústria dos combustíveis fósseis, propulsora do acelerado crescimento econômico da era moderna. Este modelo energético, demandante de grandes investimentos, logo, empresas de alto capital, é centralizador de poder, repressor da autonomia individual e coletiva dos cidadãos, além, claro, da própria característica do elemento de fóssil de promover o lançamento de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera quando de sua utilização, acarretando enormes contribuições para o nefasto aquecimento global.
energia permite que as sociedades se desenvolvam e alcancem maior produtividade. Um fornecimento ininterrupto desta energia torna-se ainda mais essencial à medida que a economia contemporânea se baseia na magnitude e intensidade do fluxo de mercadorias, pessoas, capital e de acesso à informação (CORRAL, 2012; SACHS, 2015).
Todavia, não só em relação à demanda e oferta de energia se debruçam as preocupações dos Estados contemporâneos. Além da pungente necessidade de se ofertar cada vez mais energia à população e aos mercados econômicos, alerta-se para a questão da finitude dos recursos ambientais fornecedores desta energia, além da inexorável degradação ambiental correlata. A virtude está em equilibrar todas essas variáveis de forma que a exploração verta para uma democracia energética1, com uma maior distribuição equitativa dos benefícios e prejuízos correlatos ao uso da energia.
Nas palavras de Fairchild e Weinrub (2017),
Os dutos transcontinentais Dakota Access e Keystone North American são apenas dois exemplos de exploração fóssil contínua a causar estragos em frágeis ecossistemas, arruinando aquíferos delicados, terras indígenas, comunidades agrícolas, oceanos e, é claro, a atmosfera da Terra. Estes impactos climáticos e ambientais são particularmente ampliados e debilitantes para comunidades de baixa renda e comunidades de cor que moram mais perto de locais tóxicos; são desproporcionalmente impactados por altas incidências asma, câncer e taxas de morbidade e mortalidade; e falta os recursos financeiros para se adaptar aos impactos climáticos (FAIRCHILD, WEINRUB;2017, p. 3).
É manifesta a relação entre a predatória exploração ambiental não sustentável e a distribuição desigual dos prejuízos, refletindo injustiças energéticas. A atividade de empresas ligadas ao setor energético2, principalmente de origem fóssil, mas também podendo ser grandes usinas hidrelétricas, acaba por gerar inúmeros passivos ambientais, como degradação de matas e solo, processos erosivos, deslizamentos de terra, poluição de lençóis freáticos e águas superficiais, mortandade da fauna terrestre e aquática, que não são distribuídos e suportados de forma democrática e igualitária por todos os beneficiários da energia. Pelo contrário, muitos efeitos negativos podem até ser sentidos por grande parte da população, mas o maior sofrimento
1Democracia Energética é considerado um movimento social crescente de energia limpa e resiliência climática,
estando enraizada nos movimentos de justiça social e ambiental. Também é componente chave do movimento de desenvolvimento econômico democrático. Vai além da simplista estrutura de “transição para 100% de renováveis” para oferecer uma compreensão mais profunda do cultural, político, econômico e social dimensões do problema das alterações climáticas (FAIRCHILD; WEINRUB, 2017).
2 Setor energético é neste trabalho tratado como uma categoria de ações. De uma maneira ampla configurado por
é causado às populações mais suscetíveis e com baixa capacidade de recuperação e de enfrentamento, mormente em regiões e países mais pobres (JENKINS et al., 2016).
Seguindo esta perspectiva, não há que se falar em desenvolvimento econômico e social harmônico, consoante a um ambiente natural equilibrado, ou no jargão “sustentável”, sem recorrer em essência às energias renováveis. Estas, uma vez respeitado o tempo e os imperativos para a qualidade da ciclagem biogeoquímica frente à sua exploração, constituem fontes energéticas sustentáveis, aptas a proporcionar uma vida digna e materialmente suficiente e adequada.
Ao se considerar a sustentabilidade como princípio de respeito intergeracional, o crescimento econômico não pode desconsiderar os impactos aos recursos naturais e suas funções ecossistêmica, ao basear-se numa economia fóssil. Da mesma forma, também as medições desse desenvolvimento intergeracional não podem se basear somente no crescimento da renda per capita. Conforme Diniz e Berman (2012, p. 324), “[...] a desigualdade entre gerações é algo mais amplo, que envolve uma medida de bem-estar, e não simplesmente uma comparação da renda”. E, para esse bem-estar, convergem as fontes renováveis, capazes de instrumentalizar uma economia de baixo carbono, que preserva e respeita a qualidade ambiental (DINIZ; BERMANN, 2012)
Por fontes de energia renováveis entenda-se aquelas advindas de recursos naturais que se renovam constantemente, em termos de escala de tempo humana, de forma cíclica e sustentável, mesmo depois de serem usadas para gerar eletricidade ou calor. São exemplos de fontes renováveis a água da chuva e dos rios, o vento, a biomassa, o sol, as ondas e o calor da Terra. A essas fontes correspondem tecnicamente os potenciais de energia solar fotovoltaica, energia termossolar ou heliotérmica, energia hídrica, energia de eólica e energia geotérmica (GOLDEMBERG; LUCON, 2007).
Cabe neste momento ressaltar a diferença dos conceitos de energia renovável e energia limpa. Energia renovável, conforme mencionado no parágrafo anterior é qualquer tipo de energia que vem de recursos naturais renováveis, que não se esgotam. “Energia limpa” é qualquer forma de energia gerada com métodos limpos, inofensivos e não poluentes ao recurso natural, isto é, com mínimos passivos ambientais (DINCER, 2000).
ao descrever as políticas e normas implementadas nos países da UNASUL (cap.5) verificou-se não haver total conformidade entre esses conceitos e as nomenclaturas utilizadas nos textos legais (NUSDEO; BATISTA, 2015).
A pertinência das energias renováveis não se limita apenas a ponderações puramente ambientalistas. Justificativas para o fomento das mesmas não faltam aos países, permeando questões de saúde pública, da longevidade (ou inesgotabilidade) no fornecimento da energia primária, da menor exigência de mecanização e capital intensivo, empregabilidade local, de estabilidade nos preços (maior independência local), maior confiabilidade e resiliência do sistema e de segurança no abastecimento (quando integradas diversas fontes) (AKELLA et al., 2009; KAYGUSUZ, 2012).
A utilização dessas energias enseja uma verdadeira transformação no modo de pensar a civilização contemporânea, da relação indivíduo-natureza, da relação cidadão-sociedade, da relação produtor/consumidor-produto/serviços, da relação nação-Estado e da relação Estados-comunidade global, ao possibilitar uma maior autonomia produtiva descentralizada e local.
Dessa maior autonomia decorrem reflexos a serem percebidos na diminuição das grandes crises sociais, na redução da degradação ambiental e no reequilíbrio climático. E, embora não seja a única via, a utilização das renováveis é um dos principais instrumentos para a remodelação socioeconômica (TERRAPON-PFAFF, 2014).
Esta transformação é vislumbrada pelo potencial que as energias renováveis têm de ensejar a microprodução (ou autoprodução), bem como a produção energética compartilhada em grupos de cidadãos próximos e de forma mais localizada. Este modelo de organização produtiva requer também uma organização social dos coprodutores locais em grupos e comissões de governança participativa, na medida em que, por serem em menor número, todos tem chance de participar das deliberações e decisões sobre as demandas energéticas da comunidade. Ademais, no mesmo elo de cooperação e governança localizada, e viabilizada pelo encontro de governanças vizinhas e parceiras, acresce-se à este modelo participativo a gestão multinível e policêntrica (OSTROM, 2009).
O potencial transformativo e de empoderamento cidadão reflexo às tecnologias para energias renováveis é marcante para a descentralização da gestão, principalmente das fotovoltaicas, heliotérmicas e eólicas, conjugadas a sistemas de redes de comunicação e compartilhamento integradas. A possibilidade, hoje concreta, de gerar e distribuir energia localmente pelas smart grids, torna cada vez mais dispensável a necessidade de grandes empreendimentos de geração e distribuição, geralmente sob o comando de grandes oligopólios multinacionais, aproximando, assim, o produtor do consumidor. A este processo Rifkin chama de “lateralização” da energia (RIFKIN, 2012).
O encurtamento das distâncias entre produção e consumo, podendo chegar até a escala de autoprodução, será cada vez mais acessível graças ao barateamento da tecnologia de captação e das tecnologias de comunicação. Uma breve olhada em sites de busca é capaz de revelar uma verdadeira internet da energia se estruturando em cidades que já desfrutam dessas benesses, como no caso da cidade de Songdo (Coréia do Sul), Boulder (EUA), Cabo Norte (África do Sul), Freiburg (Alemanha), Thisted (Dinamarca), Montpellier (França), dentre diversas outras.
Por meio dessas redes inteligentes é possível optar pela fonte da onde se quer obter a energia, programar alterações automáticas de fontes, aproveitando o calor e a luz solar durante o dia e ventos à noite, ou ainda recrutar a energia que foi armazenada em baterias inovadoras. É possível também injetar e compartilhar energia pela rede, sabendo exatamente, em tempo real, quanto se está consumindo e qual a melhor fonte em termos de custo/benefício, deixando para o próprio sistema integrado a automatização em relação a alocação de energia de regiões onde há excedentes de geração para locais com oferta reduzida (BULKELEY; MCGUIRK; DOWLING, 2016).
Para além dos efeitos diretos relativos à democratização do acesso e utilização da energia e da drástica redução dos impactos ambientais, os demais setores relacionados à energia prenunciam mudanças de grandes dimensões. Uma vez assegurada energia sustentável, a custo baixo, segura e confiável, a real possibilidade de processos produtivos serem concretizados mais localmente e sem necessidade de grandes corporações, nem de transporte a grandes distâncias, também já se encontra disponível por meio dos mecanismos de impressão 3D, ou pela chamada “internet das coisas” (ABRAMOVAY, 2014).
melhores possibilidades de utilização e manutenção dos recursos naturais do entorno (ZANELLA et al., 2014). Exemplos atuais desse potencial participativo são as comunidades na Alemanha, Suíça e Áustria (ENGELKEN et al., 2016).
No campo das relações interpessoais e dos cidadãos com governos, há que se levantar a premissa de que quanto maior a utilização descentralizada e democrática das energias renováveis, menor a dependência de cenários econômicos externos, menor a volatilidade da economia, no que diz respeito a toda cadeia energético-dependente, e maior o bem-estar social. Ao Estado, em um panorama de ampla difusão das renováveis, caberá voltar-se mais para setores como educação, saúde, controle da violência, administração tributária e governança regulatória (BATCHELOR et al., 2014).
A exposição do cenário e perspectivas acima evidencia claramente o potencial inovador das energias renováveis para o processo de desenvolvimento sustentável da região sul-americana. Para tanto, serão necessários esforços de diversas áreas do conhecimento, sejam de bases tecnológicas, econômicas, sociais e ambientais. Mas, fundamentalmente, serão imprescindíveis esforços políticos e jurídicos para que as conquistas já realizadas nos múltiplos campos do conhecimento possam ser, de forma real e eficaz, transpostas da esfera propositiva para a esfera concreta e aplicável (GOLDTHAU, 2014)
Os Estados sul americanos estão envolvidos em processos de integração há algum tempo. Entretanto, desde firmado pelo Tratado de Brasília em 2008, com a criação da União das Nações Sul americanas (UNASUL), vemos que esses Estados buscam uma forma diferenciada de integração regional, onde o econômico não é a questão central, mas tratada conjuntamente com políticas sociais, ou para assim dizer, uma nova forma de integração profunda.
A União das Nações Sul Americanas, a UNASUL, é uma organização internacional formada por doze países sul americanos, oficializada em 2008, e que busca um processo de integração regional equânime, justo e democrático. Dentre as diversas vertentes planejadas pela entidade está a integração energética, alardeada como uma via de minorar as distorções socioeconômicas dos países envolvidos.
Em um contexto onde a geopolítica energética transforma-se constantemente em decorrência das alterações climáticas e das novas exigências para a descarbonização mundial, a UNASUL enfrenta o grande desafio de compatibilizar diretrizes políticas e regramentos normativos da exploração energética com a conservação dos recursos ambientais do subcontinente.
As energias renováveis têm maiores chances de serem uma realidade na UNASUL, se um arcabouço legal sólido, congruente e sincrônico for estabelecido para a governança dos recursos naturais de forma conjunta e harmônica pela entidade, ao mesmo tempo em que descentralizada e democrática, por cada um dos países soberanos e suas sub-regiões.
É fato que existem iniciativas e projetos bi e multilaterais (cap.6) que envolvem diretamente investimentos privados no setor das energias renováveis, de certa maneira prescindindo de interesse de todos os países da América do Sul. No entanto, se o foco for na sustentabilidade dos recursos e na resiliência e segurança energética da região, deliberar sobre acordos e projetos em um fórum múltiplo, como a UNASUL, é mais agregador e catalisador de bons resultados. Um exemplo é a proposta do Gasoduto do Sul, cujo convênio sobre a construção da infraestrutura continental a percorrer uma extensão de até 9000 quilômetros foi assinado no encontro em Montevideo (MORAES, 2013).
Alguns países sul-americanos deram primeiros passos para a consecução da segurança energética e do reequilíbrio ecossistêmico, por meio de boas legislações energéticas e políticas ambientais nacionais. Exemplos atuais de Constituições que incorporaram em seu texto demandas recentes em relação à proteção ambiental e sustentabilidade são as Constituições da Bolívia de 2009, do Equador de 2008, da Venezuela de 1999, do Brasil de 1988 e da Colômbia de 1991. Apesar de historicamente tratada de forma apartada, a questão energética tem sido nos últimos anos pensada de forma conjugada à da proteção ambiental, contida dentro de um Direito entendido como sendo mais biocêntrico e menos antropocêntrico, influenciando doutrinas a repensar o próprio constitucionalismo latino-americano (MORAES; MARQUES JUNIOR, 2011).
A UNASUL deve pensar uma integração energética renovável que, muito embora deva constituir-se de gestões descentralizados, com alto grau de autossuficiência, deve também ser pensada, estruturada e coordenada de forma conjunta entre os diversos Estados membros, inclusive porque, dada a intermitência da geração de base renovável, torna-se imprescindível promover integrações sub-regionais viabilizadas conjuntamente e que assegurem o abastecimento energético ininterrupto (CARRIZO; VELUT, 2014).
O histórico envolvendo a regulamentação do setor energético nos países da América do Sul demonstra claramente a ausência de preocupação com a inclusão das classes sociais menos favorecidas e das questões ambientais associadas a esta exploração. Não há dúvidas de que o estudo das regulamentações em energia e recursos naturais é fundamental para os propósitos da integração. No entanto, neste ambiente orbitam diferentes regimes políticos, ideologias socioculturais diversas e realidades ambientais discrepantes. Estudar estas diferenças, desenvolver perspectivas e abordagens comparativas podem promover uma maior harmonização dos quadros legais, de modo a funcionarem de forma satisfatória com vistas à melhoria constante na atuação da UNASUL.
Respectivamente à integração dos países sul americanos pelo viés da energia, é possível vislumbrar o imenso potencial para mudanças que este processo é capaz de viabilizar, se congruente com a transição energética profunda. Neste sentido, é importante que o projeto de integração esboçado pelo Tratado Energético Sul Americano (TES) em elaboração, traga instrumentos e normativas que possibilitem uma maior coordenação política e harmonização regulamentar para utilização dos recursos renováveis de forma compartilhada e sustentável.
Uma formulação baseada em planejamento de médio e longo prazo, que incorpore variáveis sociais e ambientais, e não apenas econômicas, é fundamental para a concretização de processos integrativos de vanguarda. Ademais, a migração de um estado de sobrevida da grande maioria dos sul americanos para o de uma vida digna pressupõe a mudança de um direito ao mero acesso à energia, conforme entendido hodiernamente, para um direito à autogestão energética, democrática e descentralizada.
Buscou-se demonstrar a hipótese de que o desenvolvimento sustentável proposto pela UNASUL não ocorrerá sem implementação de políticas e normas para a imediata transição energética e futura consolidação das energias renováveis nos Estados membros. Para tanto, mensurar e caracterizar as diretrizes político-normativas existentes, prospectar inovações jurídicas e sociais para o planejamento energético renovável da UNASUL tornam-se passos fundamentais.
Na literatura científica pesquisada há discussões acerca das questões de desenvolvimento, direitos, identidade cultural, promoção de formas alternativas de governança, processos de integração e energias renováveis. No entanto, o entrelaçamento escolhido neste trabalho, entre propostas de integração de uma região subcontinental, as normativas pensadas para sua consecução pelo viés da energia e a viabilidade destas em promover uma transição energética profunda torna ainda mais instigante e inovador o desenvolvimento da pesquisa realizada.
Posto isto, acredita-se que o tema abordado seja original e imbuído de real importância, dada a recente criação da UNASUL, que, por sua vez, acaba de iniciar os debates sobre o estabelecimento de uma política energética que integre todos os seus países membros. Acreditou-se ser este o momento apropriado para a realização de um amplo e profundo estudo que acolheu, ordenou, descreveu e sugeriu caminhos para o estabelecimento de políticas para matrizes energéticas renováveis, de forma a resguardar o capital natural a elas associado, e com melhor distribuição do capital socioeconômico por elas gerado.
1.2 OBJETIVO GERAL
Tendo em vista o cenário exposto, o trabalho desenvolvido tem como objetivo central investigar as normativas para energias renováveis planejadas para a integração energética dos países sul americanos, no âmbito da União das Nações Sul Americanas (UNASUL), e se, e de que forma, o Tratado Energético Sul Americano (TES) contribui para a transição energética da região.
menos para uma sociedade na qual a justiça energética promove modelos de aproveitamento dos recursos de forma compartilhada, democrática e com uma governança policêntrica.
1.3 OBJETIVOS ESPECÍFICOS
O objetivo central se desdobra em diversos outros objetivos secundários correlatos. São eles:
a) Contextualizar o tema das energias renováveis no cenário atual das mudanças climáticas, atestando para a imprescindibilidade de promover seu uso;
b) Investigar a necessidade de políticas públicas e normativas para que as energias renováveis se tornem realidade majoritária nos países;
c) Investigar a necessidade de gestão regionalizada para o aproveitamento das energias renováveis de forma mais eficaz;
d) Reconhecer e descrever os potenciais energéticos renováveis nos países membros da UNASUL;
e) Descrever as políticas e normativas estabelecidas para promover as renováveis nos países sul americanos, averiguando conexões, distorções e similitudes;
f) Entender de que maneira a UNASUL planeja a integração energética da região sul americana, correlacionando os planos para um tratado energético com os objetivos da instituição, e com a efetivação de uma transição energética; e
g) Averiguar a existência de novos instrumentos jurídicos para a promoção da transição energética e de novas abordagens para a governança da energia, sugerindo inovações nas relações entre Estado, cidadãos e ambiente.
1.4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
estruturas teóricas adotadas anteriormente, oferecendo base para descrições e explicações detalhadas de contextos específicos.
Quanto aos procedimentos técnicos, a presente pesquisa se enquadra como uma pesquisa bibliográfica, pois parte da análise de livros e artigos científicos relacionados com os temas das mudanças climáticas, das energias renováveis, políticas públicas, UNASUL, direito humano à energia, governança, meio ambiente e temas afins. É também considerada como documental, uma vez que se vale de materiais que não receberam ainda um tratamento analítico, como documentos de arquivos, leis e ordenamentos jurídicos para o desenvolvimento da argumentação exposta ao longo do texto (CERVO; BERVIAN; SILVA, 2007).
Quanto à escolha do método de abordagem da pesquisa, a presente utiliza-se do método hipotético dedutivo, pois se inicia pela formulação da proposição de que há falhas no Tratado Energético Sul Americano (TES). A partir daí, desenvolve-se uma hipótese a ser testada por um processo dedutivo, no qual se parte da caracterização da problemática ambiental, passando pelos requisitos suscitados na literatura e capazes de instrumentalizar mudanças e processos de mitigação, até chegar à apreciação da plausibilidade das normativas e políticas impetradas pela UNASUL, e pelo TES, de promoverem a transição energética sul americana.
Neste sentido, a pesquisa realizada se qualifica, primeiramente, como descritiva e investigativa, na medida que averigua tanto a pertinência das energias renováveis, quanto de políticas e normas que as promovam de forma regional. Comparativa, pois consiste em investigar as leis dos países membros da UNASUL ligadas à incentivos e instrumentos promotores das energias renováveis, explicando-os segundo suas semelhanças e suas diferenças (LAKATOS; MARCONI, 1991).
Figura 1 – Caracterização da Pesquisa de Doutorado
Fonte: elaborado pela autora, com base em Espíndola (2017)
De maneira pormenorizada, para a consecução dos trabalhos de investigação exploratória, a pesquisa transcorreu em uma determinada sequência de procedimentos, relativos a cada etapa prevista:
1 - Levantamento dos potenciais energéticos renováveis, sua forma de exploração e consequências socioeconômicas para a região sul-americana, que foram realizados em sites institucionais e governamentais, e por meio de fontes bibliográficas indexadas nas principais bases de dados, como CAPES, na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações, e SciELO;
2 - Levantamento do histórico das negociações bilaterais e multilaterais sobre energia na América do Sul, realizados em sites institucionais e governamentais, e por meio de fontes bibliográficas indexadas nas principais bases de dados jurídicas, como LexML, Latin Laws e HeinOnline,;
3 – Elaboração de um quadro-síntese das normas nacionais em vigor que envolvam energias renováveis, em cada um dos doze países, o que ocorreu por meio de consultas às bases de dados institucionais, do legislativo, executivo e judiciário;
4 - Conceituação e teorização do processo de integração sul americano, promovido pela UNASUL, detalhado pelo estudo de obras de referência em Direito da Integração, Direito Internacional e Direito Comunitário;
5 – Profundo estudo, reflexão e delineamento de possíveis, e plausíveis, formas de introduzir e equalizar a temática das energias renováveis no cerne do processo de integração dos Estados-membros, sob a égide de uma instituição maior como a UNASUL. Para tanto, foi
Natureza Pesquisa Aplicada
Objetivos Pesquisa Exploratória
Pesquisa Descritiva
Pesquisa Explicativa
Procedimentos Técnicos
Pesquisa Documental
Pesquisa
Bibliográfica Levantamento
Procedimento ComparativaPesquisa
Abordagem
Método Hipotético
realizado estágio de pesquisa na Universidade de Coimbra, na linha temática de Direito da Integração e Direito da Energia da Faculdade de Direito de Coimbra; e
6 – Identificação das correlações, tais como trazidas pela literatura, entre a implementação de normas unasulenses sobre energias renováveis e a efetiva transição para uma matriz sustentável, seus reflexos para segurança energética, redução da pobreza e desigualdades. Nesta etapa, as fontes pesquisadas foram artigos científicos indexados nas principais bases de dados, principalmente naquelas assinadas pela Universidade Federal de São Carlos e Universidade de Coimbra.
1.5 ESTRUTURA DA TESE
Para contrapor a tese suscitada com a realidade fática e documental da UNASUL foi pensada uma sequência de capítulos que situam as energias renováveis no contexto da problemática ambiental e do clima, correlacionando as potencialidades dessa utilização para mudanças sociais e econômicas. Atentando para o fato de que o vislumbrar destas novas organizações requer sejam os recursos e serviços ambientais geridos de forma equilibrada, harmônica e congruente com a contiguidade de sua estrutura física e resiliência ideal.
Explicita-se também ao longo dos capítulos que para tais mudanças se concretizem são essenciais políticas e normativas especificas que as promovam nas mais diversas áreas do direito e da vida social. E, neste sentido, discorre-se sobre potenciais e regulamentações para a penetração das renováveis em cada um dos Estados membros da entidade.
De forma sucinta são descritas a seguir as temáticas de cada capitulo, sob a forma de itens sequenciais.
1.5.1 Descrição dos Capítulos
Capítulo 2: descreve as urgências ambientais: crise climática, processos de mitigação e potencialidade das renováveis para a consecução do desenvolvimento sustentável, e os perigos da não promoção dessas formas de aproveitamento da energia;
Capítulo 3: discorre sobre a necessidade de políticas públicas e normativas (PPeN) para a eficaz promoção das energias renováveis, e atesta sobre dois exemplos de sucesso, Chile e Alemanha;
Capítulo 4: relaciona a essencialidade das políticas para energias renováveis serem trabalhadas em um contexto alargado, levando em consideração a contiguidade dos recursos ambientais e a intermitência nas funções energéticas dos mesmos. Apresenta a proposta da UNASUL, detalhando a entidade, seus órgãos subordinados e o reflexo da atuação dos mesmos no campo da energia e da integração energética em planejamento;
Capítulo 5: descreve os potenciais energéticos em cada um dos Estados membros da UNASUL, asseverando complementaridades, desafios e inseguranças. Detalha potencialidades para segurança e eficiência energética, bem como para o desenvolvimento socioeconômico, com vistas ao aumento de empregos, diminuição da pobreza e desigualdades, e distribuição mais equitativa dos ativos e passivos da exploração energética;
Capítulo 6: faz um levantamento de todas as PPeN para renováveis presentes em cada um dos países sul americanos, descrevendo os principais instrumentos para promoção das tecnologias. Este capitulo traz quadros normativos esquematizados além de um quadro congregando as principais informações e dados das PPeN entre os países para que, na sequência, sejam apresentadas correlações e comentários sobre similaridades e discrepâncias normativas, com vistas a contribuir para uma futura harmonização legal;
CAPÍTULO 2: IMPRESCINDIBILIDADE DAS ENERGIAS RENOVÁVEIS (ER)
2.1 PREMÊNCIAS AMBIENTAIS: MITIGAÇÃO CLIMÁTICA
Espaçonave Terra, Sistema Terra, Aldeia Global, Gaia3. Todos esses termos personificam este terceiro planeta em distância do Sol, único habitat dos humanos com condições ideais de ar, água, temperatura, pressão, eletromagnetismo, radiação, força gravitacional e inúmeras outras variáveis perceptíveis e imperceptíveis, que permitem à vida florescer. O equilíbrio é tênue, embora o poder resiliente seja marcante. É nela que todos viajamos, e não com passageiros, mas sim como tripulantes ativos (MCLUHAN, 1974). O que se faz aqui, aqui fica. O que se usa daqui, de alguma forma aqui volta.
A menos que haja outros planetas habitáveis e que se consiga chegar algum dia a algum deles, a humanidade deve se bastar com o sistema Terra. Um sistema composto por subsistemas que se regulam entre si, numa harmonia conjunta com elementos bióticos e abióticos a forjá-lo tal como é. Um planeta de 510,3 milhões km2 de área, com 7,2 bilhões de espécimes humanos distribuídos por partes habitáveis do planeta, o que se resume a 31 milhões km2 de terras aráveis, excluindo-se regiões desérticas, de montanhas, de grandes altitudes e pantanosas. Aproximadamente 6% da área total são passíveis de se tornarem habitat para humanos.
Para além da porção terrestre, o sistema habitado por seres humanos conta com 360,63 milhões km2 de superfície coberta por águas, isto é 70,69% da superfície do planeta está submerso ou inacessível, das quais, para além do serviço de navegação, geração de energia e biodiversidade, nos proporciona 2,5% de água doce, das quais cerca de 2% estão confinadas em geleiras. Então, para uso de dessedentação humana e outros usos mais nobres, há apenas 0,5% disponível.
Não obstante essa disponibilidade de água e terras, há 923 milhões de pessoas sem acesso a água potável e a densidade demográfica do sistema é de 50,79 pessoas por km2, ambos
3 Tais termos foram cunhados ao longo da história humana por diferentes profissionais, atuantes nas mais diversas
em termos mundiais. Distribuídas irregularmente entre países densamente povoados e países com baixas taxas, impactam o sistema de forma desigual, sendo 1% do planeta habitado por mais da metade dos humanos totais. Na Índia, Bangladesh e China, mora quase a metade (46%) da população mundial, enquanto que na África, Ásia e países da América do Sul, respectivamente 319 milhões, equivalente a 32%, 554 milhões (12,5%) e 50 milhões (8%) de humanos não tem acesso a água potável (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2017c; TORTAJADA, 2016; DUARTE, 2006).
Conta-se, ainda, com mais um grande subsistema do complexo Terra, a atmosfera. E, acerca desta cabe maiores apreciações, uma vez que se correlaciona intrinsecamente com o tema da transição energética, a despeito de consubstanciada aos demais subsistemas.
Com todas as suas bem especificas características, este subsistema, juntamente com os outros, prove a possibilidade da existência humana. Constitui-se em uma camada gasosa com aproximadamente 1.000 km de altura, formada por um conjunto de gases nas respectivas proporções, nitrogênio 78,084%, oxigênio 20,946%, argônio 0,934% e outros gases 0,036%, e cuja estabilidade nesta faixa de variação e pressão favorece a existência de vida (PEIXOTO, 1979).
A relativa estabilidade atmosférica do planeta foi atingida de forma mais recente, em termos geológicos, por meio da mútua e sincrônica coatuação dos elementos abióticos e bióticos. As espécies floresceram e com elas, a espécie humana. Apenas e somente em decorrência da especifica composição atmosférica descrita, em torno de 40% da radiação solar é refletida de imediato, enquanto que dos outros 60%, aproximadamente 17% são absorvidos, reagindo com os gases nela presentes, como no caso do ozônio (O3), que absorve a faixa ultravioleta dessa radiação protegendo humanos de reações prejudiciais desses raios no organismo. Já o CO2 e a água na forma de vapor são responsáveis pela absorção dos raios infravermelhos, garantindo o calor necessário e na dose certa. E, dos 43% de radiações restantes que atingem a superfície do planeta, 10% são refletidos para a atmosfera novamente (FINLAYSON-PITTS; PITTS, 1999; GILL, 2016).
Até pouco tempo atrás alterações nos subsistemas apenas se em enormes proporções, como grandes vulcanismos e derretimento de geleiras, causavam danos ao sistema Terra, e ainda esporadicamente. De resiliência e processos regenerativos o sistema Terra tem se autoequilibrado, e com eles e por causa deles, os demais subsistemas aquático, terrestre e atmosférico, continuando a dar substrato à vida.
Durante esse processo de homeostase, a espécie humana se desenvolveu concomitante a e interagindo com outros seres vivos, tornando mais próximo o reconhecimento da biodiversidade como elemento necessário ao equilíbrio humano. Já com os demais subsistemas, esses lhe parecem mais distantes e apartados dessa inter-relação com a biota. Nesta conjuntura, águas, terras, ar, não são, e nem deveriam apenas ser, mas tornaram-se objetos de apreciação e manuseio em vista ao deleite apenas de uma espécie. E o perigo é a falsa ou ingênua percepção de que se compreende a função do ambiente como mantenedor de vidas, inclusive a humana.
Ainda acerca do dinamismo assecuratório à vida humana, o equilíbrio entre as proporções gasosas atmosféricas entre si, e estas com a dinâmica dos oceanos é o principal fator a autorregular o clima do sistema Terra. Pelo menos, até então. A partir de algumas décadas, além de impactos naturais externos (mudanças na órbita do planeta e variação na radiação) e internos (alterações nas correntes oceânicas e na composição da atmosfera, alterações no relevo terrestre), as atividades humanas têm contribuído maciçamente para a alteração climática do planeta, por meio de queima de combustíveis fósseis, lançamento de gases estufa (GEE) na atmosfera, desmatamento e modificação climática em escala regional e local (MENDONÇA, 2015).
Fato é que, até aproximadamente as décadas finais do século XX, toda essa reflexão, ou não tinha o menor sentido para alguns, ou era objeto de devaneios filosóficos para outros. Com o tempo e com o desenvolvimento do conhecimento, e da tecnologia, humanos tornaram-se os maiores predadores, assentando-se no topo da cadeia alimentar e de existência, o que só ocorreu com a intensa depredação do conjunto Terra, sem nenhuma apreensão até então. Os problemas, ou seriam as consequências, da exaustão do sistema somente começaram a ser percebidos, e comprovados, mais recentemente.
O impacto das atividades humanas nos recursos e serviços ambientais já se faz perceber desde em ambientes acadêmicos, ambientes empresariais e em assuntos de Estado. Há anos muito se discute, mas pouco se fez frente ao tanto necessário. Desequilíbrios ambientais afetam a sobrevivência de parte dos humanos, mais diretamente aqueles que vivem em países não desenvolvidos, que vergonhosamente são ignorados e relevados ao papel de coadjuvantes, seja por meio de trabalhos inferiores e como escravos, ou seja ainda pela absorção de todas as externalidades negativas a eles direcionadas (BETZOLD; WEILER, 2017).
À parte, e a par, de toda a discussão sobre justiça climática, é fato que pessoas que menos contribuíram para causar as mudanças são as que mais vivenciam seus impactos. A maior parte do atual aquecimento é resultante das emissões históricas de GEE nos últimos 150 anos, lançadas, sobretudo pelos Estados Unidos e países da União Europeia. Estas afetam profundamente os países mais pobres, seja por estes estarem mais expostos e/ou pela intensidade dos impactos, seja pelas menores condições adaptativas a esses impactos, pois sua vulnerabilidade é maior. Honduras, Mianmar, Haiti, Filipinas, Paquistão, Nicarágua, Bangladesh, Vietnã, Tailândia, Bolívia, Índia, Burundi, dentre outros, são grandes afetados com secas, inundações, tempestades, grandes incêndios e deslizamentos de terra. E a esses, nem sempre a ajuda humanitária chega ou as políticas para adaptação climática são direcionadas (GREEN, 2016; KREFT, 2016; LEHMANN; COUMOU; FRIELER, 2015; BETZOLD; WEILER, 2017).
Já em 2009, Kofi Annan, ex-secretário geral da ONU, atestou haver mais de 300 mil mortes/ano decorrentes de catástrofes climáticas, e foram projetadas mais de 500 mil mortes e um gasto de mais de USD600 bilhões/ano até o ano de 2030, relativos às mudanças climáticas (ANNAN, 2009). Somente de fome ou má alimentação, decorrentes dos impactos climáticos na agricultura mundial, mais de 500 mil pessoas poderão morrer até 2050 (SPRINGMANN et al., 2016), enquanto que de doenças como diarreia, malária e dengue, indiretamente reflexas as alterações ambientais, e estresse corporal causado por temperaturas extremas, mais de 250 mil pessoas sucumbirão até 2050 (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, 2014).
levando a um aquecimento de 2,4 a 4,6 °C em 2100 (LIN, 2014). Conclui-se, pois, que a espaçonave não vai bem.
Voltando à conectividade, para além de mera conexão pontual, entre as atividades humanas e as premências ambientais é preciso fazer uma importante ressalva. Sempre que humanos são caracterizados como predadores é preciso fazer considerações. Ser predador de elementos bióticos e abióticos em sincronia com a necessidade orgânica de nutrir e tornar-se mais apto à sobrevivência é algo natural, inerente à vida e ao processo evolutivo.
O que se discute ao salientar a ganância predatória humana é o uso indiscriminado dos recursos naturais para satisfação de necessidades discutíveis e operadas com conhecimento das consequências para a homeostase do próprio sistema. Desta situação, embora para o caos climático tenha contribuído, distingue-se o uso equilibrado do sistema por muitas comunidades, ainda que primordialmente utilizado com desconhecimento dos reflexos autorreguladores deste uso.
É fundamental clarificar que se fala daquela menor porcentagem da população que impacta com tamanha magnitude a vida da maioria. Exemplifica-se esta situação com o impacto de um americano médio sobre o sistema terra, com pegada de carbono4/por habitante de 6.06 e cujo país consome o ambiente em mais de 150% sobre a biocapacidade5 do ecossistema, em contrapartida a uma pegada de carbono de 0,1 de um ugandense ou de 0,08 de um etíope na mesma biosfera, porém nesta região com um superávit entre 100 – 150% de biocapacidade (GLOBAL FOOTPRINT NETWORK, 2011).
Portanto, na conectividade entre humanos com os subsistemas, a conexão pontual entre as mazelas ambientais e os humanos predadores é a de que a forma de se obter os recursos e serviços naturais está em total descompasso com o potencial resiliente do sistema global. Assim como em descompasso com o direito humano fundamental de equidade global na disponibilidade desses recursos e seu usufruto, tendo em vista o limite físico do sistema e dinâmico da resiliência ambiental.
Terra só há uma, mas a espécie humana já depende de 1,6 planetas para suportar sua intensidade de uso dos recursos naturais tal qual está. Por certo, tal estimativa foge muito de
4 A pegada de carbono mede as emissões de CO2 associadas ao uso de combustíveis fósseis. Na medições de
Pegada Ecológica, estas quantidades são convertidas em áreas biologicamente produtivas necessárias para a absorção deste CO2.
5 Medida utilizada em medições de Pegada Ecológica que demonstra a capacidade dos ecossistemas para regenerar
uma padronização ou uniformidade ao longo das diversas sociedades espalhadas pelos continentes, já que uns consomem o planeta até cinco vezes mais que outros.
Para a homeostase planetária, todavia, este fato é irrelevante, uma vez que o sistema terrestre equilibra os desequilíbrios da humanidade de maneira indiferenciada. Isto significando que, danos a recursos na América do Norte refletem em alterações atmosféricas na Ásia, desmatamentos na América do Sul refletem em alterações de correntes de ar e umidade nos oceanos e outros territórios, e assim por diante na grande cadeia interligada que é o sistema terrestre (GLOBAL FOOTPRINT NETWORK, 2011). Neste sentido, para a homeostase da vida humana com dignidade é preciso congregar mais ações pensadas em conjunto e compartilhadas em todas as regiões.
2.2 HUMANIDADE, AMBIENTE E ENERGIA
Para além do desequilíbrio ambiental, a espécie humana e suas formas de produção e extração dos recursos e serviços ambientais também resultam em desequilíbrios socioeconômicos.
Neste sentido, conforme supramencionado, se observam nações com PIB de mais de 18 bilhões de USD (Estados Unidos, em 2016) e quase 70.000 USD de PIB per capita (Noruega, em 2016), enquanto que grande parte dos países, principalmente do hemisfério sul variam em média de 30 a 200 milhões de USD de PIB, sendo o Brasil, uma exceção com aproximadamente 1,5 bilhões de USD (FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL, 2016). Vê-se que de discrepâncias em PIBs pelo mundo a humanidade vai evoluindo, ou retrocedendo.
Pensa-se em mazelas humanas como as sociais e econômicas, mas subestima-se o quão estas são decorrentes, simultaneamente causas e efeitos, de uma degradação ambiental nunca antes vivenciada. Para alguns cientistas vivemos o Antropoceno, nome da era geológica cunhado por Stoermer e popularizado por Paul Crutzen, na qual a estabilidade ambiental antes observada, com resiliência ambiental suficiente para a manutenção de uma homeostase climática, não mais se aplica com tamanha previsibilidade e eficiência (VEIGA, J. E., 2017).
pelas ciências biológicas muito mais do que pelas sociais e humanas (VIOLA; BASSO, 2016; LEWIS; MASLIN, 2015).
Segundo Viola e Basso (2016), o risco à sobrevivência humana enquanto espécie aumenta muito ao ultrapassar os limites planetários, resultado de modelos de desenvolvimento adotados, com padrões distorcidos de produção, consumo e uso de combustíveis fósseis como fonte energética primordial. Estudos e pesquisas com resultados alarmantes não faltam para escancarar a preocupante realidade. Assim também como novas tecnologias para mitigar tal devastador fato se tornaram abundantes e bem eficazes. Não faltam ideias e propostas de novos modelos de desenvolvimento que, independentemente de especificidades ou teorias de base, vertem para a descarbonização da atmosfera. A questão não é mais tecnológica, mas sim de ações políticas mais satisfatórias, compartilhadas e inclusivas (VIOLA; BASSO, 2016).
Havendo a atividade humana se tornado uma força motriz impactante e geradora de tamanhas mudanças no sistema planetário, cabe firmar a correlação direta e reflexa dessa produção em massa. A depleção dos recursos fósseis e sua funesta consequência do aumento aterrador da quantidade de gases de efeito estufa (GEE) lançado na atmosfera é uma delas. Em outras palavras, é importante discorrer sobre o nexo de causalidade das atividades humanas, em algumas nações intenso e evidente, e as catástrofes climáticas resultantes, caracterizando de forma mais próxima um crime cometido contra àqueles mais vulneráveis.
Obtida de forma maciça e em grande escala a partir da Revolução Industrial, no século XVIII, a energia proveniente do carvão e petróleo pavimentou o caminho para o desenvolvimento estimulador de uma sociedade extremamente consumista, predadora dos recursos naturais e carrasca dos serviços ecossistêmicos, poluindo ar e águas, destruindo habitats e desflorestando paisagens (WRIGLEY, 2013). As estimativas de aumento nas emissões de gases do efeito estufa estão previstas a uma taxa geométrica. Assim também a temperatura média global, como mencionado, segundo relatório da Climate Action Tracker, de novembro de 2013, está prevista para subir aproximadamente 3,7 °C até o final deste século, tornando a vida no planeta precária, com o derretimento da camada de gelo da Groenlândia e da “permafrost” ártica (HANSEN et al., 2013).
O entendimento dessa força que pode ser transferida, seus usos e possibilidades instigaram investigações sobre o conceito de energia e protagonizaram uma revolução do pensamento científico europeu no século XXVIII. É, então, que toma ânimo a visão da natureza como fonte de energia a ser dominada e utilizada para produzir conforto e felicidade, vislumbradas à época, e pela maioria até os dias de hoje, como detenção de bens, dinheiro e poder.
A energia torna-se, ao mesmo tempo conceito físico, promotora de trabalho útil, e conceito socioeconômico, como commodity6, e enquanto combustível para aumento produtivo e instrumento de interligação entre as nações. A energia proporciona, ao mesmo tempo, excedente de produção e combustível para escoá-la para populações mais distantes. E estes são ingredientes perfeitos, propagandeados pelas mídias de comunicação, a base para o sistema de produção em massa, que atualmente requer quase dois planetas para ser mantido (RIFKIN, 2012).
Se os combustíveis fósseis foram os propulsores da produção em massa e da sociedade de consumo, a inerente característica da sua custosa extração também foi o gatilho para a estruturação e centralização de grande poder adstrito ao setor energético. Apenas grandes companhias estão aptas a explorar jazidas de petróleo e gás, cuja tendência é de aumento na dificuldade de produção, em áreas mais inóspita, locais longínquos e de difícil acesso, refletindo um aumento dos custos para a extração e aproveitamento desses recursos fósseis. E isto, pois, acaba por encarecer todo o sistema produtivo que é basicamente suportado por essas fontes energéticas.
É importante ressaltar que há de fato situações, muito comuns às empresas ligadas ao setor energético, em que a centralização no domínio da exploração e distribuição dos recursos energéticos e derivados de forma privativa à poucas empresas se faz necessária, na medida em que demandam alto custos e retornos demorados. Nesta situação, considera-se que conceder direito exclusivo da atividade à um produtor é medida de maior eficiência econômica, pois para que este produtor obtenha retorno e garanta preços adequados aos consumidores é preciso assegurar uma economia de escala, com grande demanda. Essa exclusividade de exploração econômica para determinadas atividades de grande porte, como extração de combustíveis fósseis e grandes hidrelétricas é chamada de monopólio natural. No entanto, por serem comuns
6 “Commodity é uma expressão do inglês que faz referência a um determinado bem ou produto de origem primária