M.
JUSTINO MACIEL & CATIA MOURAO (Coord,)
JORGE TOMAS GARCIA (Ed.)
IMAGENS DO PARADEISOS NOS
MOSAICOS DA HISPANIA
1g11
ADOLF M. HAKKERT-PUBLISHER-AMSTERDAM
CLASSICAL
AND
BYZANTINE
MONOGRAPHS
Coord. by
M. JUSTINO MACTEL AND
CATIA
MOURAOEdited by
JORGE
TOMAS GARCiA
VOL. LXXXV
IMAGENS
DO PARADEISOS NOS
MOSAICOS DA HISPANIA
ADOLF M. HAKKERT-PUBLISHER -AMSTERDAM
© Editora ADOLF M. HAKKERT PUBLISHER —AMSTERDAM, 2016
ISSN 1381-2955
ISBN 978-90-256.1310-5
© M. Justino Madel, Cátia MourAoeJorge TomasGarcia (EdicAo)
Este trabaiho éfinanciado por Fundos Nacioruxis atravdc da FCT — Fundaç& pans a:
Ciência e a Teenologiano finibizo do projecto UID/PAM/0041 7/2013.
A vindima nos mosaicos hispano-romanos como expressão do urn ecumenism0 paradislaco
Catia MOURAO
Arnemória da minha bisavó Olinda e do men avô Antdnio;
a
minha mae, Aim.Resumo
Neste texto que decorre da comunicaçäo por nos apreseinada no Encontro Ibdrico so Mosaicos Romanos, subordinado ao tema drnagens do Paradeisos nos mosaicos & Hispânia>, analisamos os tesselados ibdricos corn cenas de vindirnas, sublinharnos agn
profunda !igação ternática e narrativa corn aiguns exemplares que contemplarn diversu etapas e motivos do ideário vinicola e realçarnos o entrosarnento do dionisismo oulros cultos da Aiitiguidade, em especial as venusianos e as eleusinos. S& ainda a conformidade entre a dimensAo estétjca destas cenas, marcadas decorativismo e pelo dinarnismo, e a sua dimensao shnbolica, que evoca o ideal tempo ciclico, do regresso
a
Aurea £tas. copiosa e alegre. e da comunhao placida e o Homem, os deuses e nina Natureza paradislaca (na sua dupla expressão vegetal tanimal) em constante renovaçâo e etemo retomo.
Palavras-chave
Vindima; vitivinicultura; culto; comunhão; Paradeisos.
Introduçào
Particularmente caro nas regiOes rnediterránicas, onde a vitivinicultura d praticada d. a proto-história. o tema das vindimas cedo inspirou Os artistas e integrou a graniatica decorativa dos mais diversos objectos. alguns deles sem qualquer funçao utilitária directamente ligada
a
actividade ou As suas produçoes.Apesar de virias civiiizaçoes antigas. coma a egIpcia, incluIrern estas cenas da terrena no reportório fiinerário — como se observa nas pinturas murais do türnuk
Nakht, em Tebas, c. 16-14 aC, —, foi sobretuda corn as gregos e as rornanos q
ternática laica adquiriu urn carácter sagrado e urn simbolismo transcendente, de sen
Hisloriadora de Axle (PhD). Jnves*igadora e Membro Integrado do IHA. FCSH. Universidade NOVAdC Lisboa. Portugal.
fecundo vwtficante e enovado, e que aVnvoL asia duola dirnensAo cultutal e crntua Asstm, estes signiticados conuntos, que scm duvida enccnitrararn particular expressEo na arte utuana (sende o Sorcófago this V,nduiwc, proveriiente de CastarJ’era do Rthateio e hoje no Muscu Nacional de Arqueologia, urn born exemplo), aeabaram por ecoar em c.das as restantes rnanJesiaçôes, fossern elas nseridas em eaficios de cuho,
de habitaçAo on de exercicto politico, fossern em dornimos pnvados ou pübhcos
Quando marcam a arce grega e romana, as linagens de vindimas—bern corno as dernats
iue compöeir o reportóno vitw.nfcola e que corten’p[aff a p1sa da va. o faørco do
vtnho, a prove enolOgtca e a custodia de recipientes virneos — são geralmente
contextuaUzadas to ideárto &onisIaco. par se ccnsiderarern a1asOes mais ou nenos
directas a mitica descoberta da‘winha,
a
alegada propagacAo doseacuitwo ea
produçEovmicola pelo deus Baco3, e aincre aes efertos da ebnez3 patentes nas agitadas e alegres representacöes dos thiasoi divinos (considerados por alguns autores antigos, conio Plutarco, enquanto paradigma de ama felicidade eterna) e experhnentados nos seas elitsivos rftuais inistdricos, onde o nectar da “fruta de Dioniso”39’ era tido corno
1
onte vda’92 e furcionava corno psicotrópico nd€itor
a
fel.cidade’91, naturalmenteexpanenciado pelos ritmos musicals que apelavam
a
danca e aus prazeres fisicos. No
entanto. algumas des cenas de vmdirna
— sobretudo as executadas na dpoca severiana,
aftura em que se tomaram mais populares por possve1 rnfluência oriental3 — podeni
tambdrn revelar ama Iigação a outras personagens de veneraçAo major (sejam elas divindades e mistagogos do paganismo, ou nesmo o Messias do cristianismo). bern
corno ama relação corn cliferentes entrechos reilgiosos e profanos (como a sagração eucaristica da vida terena e a aspiraçào escatológica da vica além-tántulo,
o..i o
pragmatisrno dos trabaihos agricolas sazonais e a necesstdade de producAo de urn
‘APOLODORO, BthI,oteca 331 DIODORO SICULO Thblzoteca H,stor,ca IV 2 3 OPIAjVO Cinegénca liZ 230 HIGI”/O Fabulas 130 1’/OIvO Dtonjsiaca KIL 330-4 70
‘°
A este respelto veja-se, por exemplo,MERRONY. 1998, p 449 dn the Roman neriod, the vintag’ng scene was frequentiy directly associateainthe same pavement with some element of the Dionysiac scene
I
and thus coald be regarded as symbolical of one of the cult’s principa! charactenstics me and 4 drhnkenness),
9OPLUTARCO,
Cor.solaçao a Esposa, 4
3l
PINDARO, Fragmento 89.
1
“ 2
PETR0NI0,Savyricon,34
Estesrituais foram magistraimentedescurospor Euripides (EURIPIDES. 4s Bacantes;
e a capacidade que Dionlsio tinha de trazer ajegria a todos foirefenda por Hesiodo (HESIODO, Teogonza 941), Plndaro
(PINUARO,Fragmento5)eo anOnimo autor do 50° lImo Orfico, dedicado a Listo Lanea (urn dos nomes
deBaco). Por siia
vez. Pausanias documentou a celebração de fesuvidades em honra do deus, designadas
porDJo,ws,a,emnumerosas cidades gregas (PAUSANIAS, Descnção do GrEc,a,
1-VIIJ)
a&iw ILLANA, 1978,p.394
203
-elernento base da dicta e cia economia dos paves civilizados, Cu ate o delejie degustativo, 0 obhvio das preocupaçöes da alma, C) tome gaudio do momento fugaz e a
prazer do convfvio social).
Repreaeatacôes de viadimaa namudvária hispâica
Contrariamente ao que sucede no None de Africa e em Franca, onde se encontam alguns mosaicos rornanos corn ilustraçoes intencionalmente realistas das ta:as vitivinicolas (Saint-Germain-en.Ga!, see, III, e Cherchel, sees, ffl-IV), na Peninsula Ibérica a rnusivária ate hoje descoberta privilegia urn irnaginário mitico e alegôrico
sobre os labores cia vinha.395 Assim, embora as tesselados hispAnIcos atestem a
popularidade local da iconografia, sobretudo nos secutos II e Hi d.c. e rnais
esporadicarnenteno sec. IV, näo constituem reproduçöes corn valor documental destas
aetividades que tanto prosperararn no territOrio durante a ocupaçAo rornana — tendo
inciusivamente merecido literatura autOctone especializada3 —, mas ftrncionam,
outrossirn, como provas de uma eficaz aculturaçâo da rnitologia dionislaca, quer no que respeitaahagiografia da divindade, quer no que toca aflinçao desta como proteeFora da
vitivinicultura.
No corpus encontrado, as cenas da vindima podern assurnir posicOes axiais oti
marginais. No primeiro caso, podern afirmar-se no painet central como terna principal
(Banos de Ia Reina de Calpe, em Alicante. e talvez no desaparecido mosaico de DuratOn, em Segóvia, ambos possivelmente dos sees. 11-Ill) ou secundário (Ecija, sees. IT-HI). Já no segundo caso, podern ocuparos cantos (Merida, see. III, e Cordoba, see.
IV), ou as molduras de conjuntos dominados pelo cielo báquico (Murviedro, em
Sagunto, sees. Il-Ill), ou confinar-se a urn painel lateral justaposto a composiçôes afeetas aos cultos venusiano (Dornus do Anfiteatro, em Mérida, see. Ill) e Orfico
(Travesla de Pedro MarIa PIano, em Mdrida, sec. III), ou ainda combinados. de modo ora periférico ora acantonado, corn evocaçôes ao culto eteusino (no anterior e cm
Complutum, sees. IV-V).
3
c.rnthao
PIQUERO, 2008.COLUMELA, Os Trabathos do Campo, XI, 2.67 e XII, 18-27. A este autor nascido as provincia hispanica cia Bëtiea juntamos outros nAo bispánicos mas cert&mente conhecidos a nivel local, como Plinio-o-Velho (IJis(dria Natural, XVII, 74). Varr,o (Os Assuntos do Carnpo. 1. 54). CatAo (Sobre a Agricuirura, XXXVI) e Vergffio (Gedrgicas, Ill, 89-108).
Salvo rat-as excepçôes, estas cenas são caracterizadas par uma vegetaço luxuriante e frutuosa, que pode brotar da ampla terra ou de exIguos vases (numa alusão directa
a
producão vinicola e ao dionisismo ritual397), e que cresce conformada corn a disposiçao compositiva, ora desenvolverido-se em altura, come se chegasse ao firmamento (fazendo da parreira e do vinho elernentos facibtadores do contaclo directo, fisico e psiquico, entre os homens C 05 deuses, numa imagern simbólica da graça eterna), oraestendendo-se pelos lados e tomando a fundo, quaL rnanifestação panteista e paradisiaca cia generosidade dos deuses, responsaveis máximos pelaabundância. Nesta profusão do elernento vegetal deificado — onde a videira se afig-ura come o Arbusto Vital398 pot
exceléncia, sempre jovern e feeundo3, e as uvas come urna encarnação do próprio deus H
Baco (sendo disso exemplo a representaçAo da divindade corn o coipo em forma de cache num fresco de Pom1e1a400)— es eLementos arin’ais apequeparn-sc em escala e en
importância., ficando envoltos e submersos na prodigalidade transcendente da Natureza.
Assim, tanto as ayes que debicam as frutos, quanto os humanos que os coihem tern urna
I
conjuntos, tornando evidente a sua dependéncia vivencial em:111
relação
a
ferdlidade dos solos ea
benevolência dos deuses. Esta simbólica redução das proporçOes e das relevâncias dos figurantes tot-na-se particularmente notória nos cases dos vindimadores, porquanto Os seus corpos são tao diminutos e as suas idades tao1
tern-as que dificilmente conseguem alcancar as cachos, necessitando de trepar os altissirnos pes e petcorrer as longas ramificaçoes, ou de subir escadotes pat-a as coiherem
Na ongem arcaica destas representaçöes ja a vinha prohferava e recobria os fundos das obras de arte, numa esteticamarcadapelo horror nacia, e logo as vmdirnadores—então
mormente Sátiros — ostentavam urn infimo tarnanho, sendo pouco maiores do que os
caches e muito menores do que Dioniso, cono se constata em nurnerosas ceramicas Aticas, onde o deus é colossal e preside aos trabaihos dos pequenos sâbditos enquanto degusta o vinho (Fig. I). NAo obstatite a intencional e sintornática desproporçäo entre soberanos e subalternos, os recolectores apresentavam se entilo barbados, corn
*
“ Sabre a smibologia
do kra:er como elernento lirnrgico nab confinado ao dionisismo e alargado a outros cultos afectos a diferentes religiocs iniciaticas orientais, uide o aturado estudo de JustinoMaciel, in MACtEL, 1988, pp.11 e 107-114.
398Cfr. . . .
corn o conceito cnstao de Arvore da Vida In Genesis 2: 8-17.
3
CFlEVALIER e GHEERBRANT, 1994, p. 693-694; BELFIORE, 2010, p. 624-629.
°
Este motivo conserva se nurn fragmento datIvel do Sec 1 d C que integra as colecçöes do Museo Archeologico Nazionale em Népoles (1tII’a)
205
compieiç&s vigorosas e em idades inequivocamente adultas. evidenciando o carActer simbélico das suas mInimas dsmensoes em reaØo S extensa e farta videira divirnzada.
4
Fig I—Dionisio corn Satiros vindirnadores, adultos e barbados Pormenor de vaso de figuras negras c
500 a C MuseoNazionale Etruscodi Villa Giuha Roma ItAlia Fotografla do Museu
Mesmo considerando Os casos veridicos em que as castas produzem cachos mais volumosos, como o Bumasto, ou “übere de vaca”, e o Moscato Branco (originános da Magna Grecia e muitocomumem toda a Bacia do Mediterrâneo), e em que as parreiras crescem sob sisWmas de conduçâo em aftur& como a enforcado ou a latada, a escala
4
humana nunca é tAo reduzidacomo nestas representaçöes,401No perlodo helenistico e, sobretudo, na época romana imperial, esta tendéncia enfatizou-se e os vindimadores adultos foram paulatinaxnente substituIdos par jovens e crianças (pisni). ou amda por erotes juvenis e infantis, como se
ye
na esmagadora4
maioria dos mosaicos em análise, para os quais se encontram paralelos norte-africanos
I
em Sousse, El Djem, Dougga. Djemila402, Hadrumetum e Thysdrus403 e italianos na Piazza Armerina404 e no Mausoléu de Santa Constança405.E
provável que esta regressA” etaria nAo tenha sido motivada por uma sugestAo de tamanhos, mas sim por401Sobre
as diferentes castase o sistema deconduçâo em altura,usdeVERGIL1O, Geórgzcas,III, 89-10
402
LOPEZ MONTEAGUDO, 2002, p.160.
403
BLAZQUEZ MARTiNEZ, 1984,IrA p 70 LOPEZ MONTEAGIJDO, 2002, p 160 405
MERR0NY, 1998, p 449
206
4
a/
analogia cern o simbolisrno reluvenescente e eterno da parra (e de toda a videira) —alias
partilbado corn a hera, planta trepadeira que amiüde cresce nas vinhas em reglOes no1enhas, entrelaçando-se nas videiras (Fig. 2), sendo muitas vezes representada nos mosaicos so lade daquela (como no exemplar da Dennis do Anfiteatro, em Mends) ou corn solucöes gráficas, composifivas e utilitãrias semeihantes, também nascendo em vases, percorrendo molduras, omando o tirso báquico e servindo de atributo as figuras das Estacoes e dos Ventos. ambos alegorias do tempo cIclico4.
Fig.2— Associaçao espontànea entre a videira e a hera no Parque NacionaldaPeneda Gerês (None de Portugal). FotogratladeCdtiaMourão,
Apesar de igualrnente imberbes e identicarnente alusivos näo apenas
a
primeira etapa da produçao do vinho mas tambéma
primeira Made do Hornem —que equivalea
Idade deOuro, despreocupada, ociosa e abundante, durante a qual os homens eram corno filbos para os deuses e recebiarn destes o afecto e a indulgência corn que se tratam as erianças
—, os pistil (cniancas ápteras) e os erotes (cnianças aladas) marcam de modes diversos as
cenas de vindimas. Corn efeito, se os prirneiros Ihes conferern urn sentido literalmente vivificante, podendo ainda acrescé-las de urn valor cémico pela dirninuta escala das figuras, os segundos transformam-nas em imagens de eternidade, eminenternente mIticas e alegónicas, cia medida em que estes protagonistas não são humanos nern reals, rnas sun miologicos, diinos e irnortais, clararnente resultarites de urn desdobrarnento helenistico de Eros408, fliho de Afrodite — frequentemente representado nos cortejos
406
CHEVALIER e CHEERBRANT, 1994, p. 363 e 364; PEREIRA, inIntroduçao a EURiPIDES, 1998,
p. 12; BELFIORE, 2010, p. 624-629. I:;::
407
A titulo de exemplo veja se o mosaico cordobes corn cortejo de Baco (sec II d C) provernente de Alcolea a hoje no Museo ArqueolOgico cIa COrdoba, onde o Vento associado ao Outono
e
sobrepujado por urns foiha de parreira, diferenciando-se dos dennis que são encimados pot folbas cordiformes cIa hera. Sobre estepormenor,uideMOURAO, 2010, Vol.1, p.286.408
MOURAO.2010,Vol.1,p.84e257.
207
indianos do Baco e entendido corno agenre inebriante dos sentidos atravës cia paixao, A semelhança da sua mae -.-, e aludern ao comportarnento irnaturo e As acçôes
inconsequentes dos adultos embriagados, fazendo uma associação directa enUe os efeitos do ainor edo vinho439 tAo can acs poetas e artistas coevos (Fig. 3):
lvfuitas vezes. bracos delicados, as lançou aAmar, de raslo afogaeado, sobre as chfres apertados de Baco. bern bebido;
e quando a vinho se espalhou sabre as asas de Cupido,
[...]
logo sacade,a
pressa. as penas encharcadas[...]
0 vinho poe ajeito a coraçJo e torna-o pronto para afogueira;f..]
e Venus. no vinho, tornou-sefogo no logo.OVIDIO,Ane de Ama,,1,229-244.
Fig. 3—Dois casais amando-se sob uma videira. Pormenor dekyli,xde figuras negras. c. 500 aX’.
Steatliche Museen Preussischer Kulturbesitz. Berlim. Fotografia do Museu.
A integraçAo dos erotes nas vindimas
—
assirn como noutras cenas do contexto báquico, onde assurneni diversas funçôes identicamente ligadas ao ciclo do vinho (guardiAes de recipientes vinicos no mosaico navarro da Villa de El Ramalete: enOlogos no pavimento malacitano & Antequera; carregadores de cestos no tesseiado badajocense cia Villa do Solana de los Barros)—denuncia a concomitAncia dos deuses Baco, Cupido e Venus410.hem patente. alias, nas celebracoes das Vinalia e das Veneralia411. Corn efeito, a alusAo A triade rnistérica pode ser aferida no pavimento musivo emeritense cia Dornus do Anfiteatro (Figs. 4 a 6), que apresenta urn painel corn Venus—aqui figurada näo apenas
corno deusa do Amor, rnas tambérn corno <<deusa dos jardinsn4’2—, acompanhada do set’
Cfr. FERNA’cDEZ GALIANO, 1984, p. 120-127 e KUZNETSOVA-RESENDE, 2006. p. 280.
410
MOURAO. 20)0, Vol.1, pp. 77. 83-85, 258 e 259.
411
BELFIORE. 2010.p.1020 e 1021.
412
V4RRAO. L/i;gua Lutina, VI, 16-20.
filbo, ambos envoltos nurn fbndo dominado por rica vegetaço do acantos, heras e parras (três plantas do simbologia eterna), e anirnado per diversas ayes canoras, Justaposto a mao paine! corn vindirna efectuada per variospuItiem torno do urn lagar, onde três homens adultos, do mAos dadas, pisam as uvas corno so dancassem ao soni do camo das ayes, Esta conjugaçao entre douses e homens, entre ferninino e masculino, eiflre singular e plural, entre juventude e inffincia, cnn musics. dança e traball’io. trar smite urns ideia do fertiHdade inesgotAvel (no confinada a terra, mas alargada a hurnanidade), clararnente indissociável das noçôes do intercessAo divina e de esforço humane,
209
F,
Figs. 4 a 6— Da esquerda pan a direita panorAmica do mosaico daDarn usdoAnfiteatro(Mérida), corn dois paineis figuradosjustapostos na vertical; pormenores corn puni vindirnadores nurna vinha que
corijuga foihas de videira e de hera. Fotografias de Guadalupe LOpez Monteagudo.
A Iigaço entre o culto báquico e o Amor pode ter estado também subjacente, ainda que de modo mass velado, nos mosascos de Murviedro (Sagunto) e dos Banos de La Rerna de Calpe (Alicante) No primeiro (Fig 7), hoje cornpktamente perdido e do qual apenas nos chegam desenhos que permitern presurnir uma sconografia prOxima do exemplar norte-africano de Hadrumetuin, a vindima seria feita por erotes infantis, a avaliar pelas proporçOes diminutas e pelas anatomias roliças. A cena desenvolvia-se em tomo de urn embiema corn Baco-rnenino montado num tigre. motivo que confirma a importáncia da vertente enologica do dionisismo para esta região eminentemente vinleola, onde se erguia€0 principal santuário de Dionisio>> na Peninsula Ibédca413.
Os trés registos desenhados que se conhecem do conjunto mostram sensIveis difercnças sobretudo ao nIvel da forma dos quatro kantharoi posicionados nos cantos, das caracteristicas dos enrolarnentos das videiras, do nümero, da disposicäo e da acçâo dos pequenos vindimadores. Relativamente ao primeiro pormenor, os desenhos de Muflof14 e de Martel415 mostram os vasos em forma de krater decorado corn gomos, de boca larga, estreitando no fhste, de onde se desenvolvern asas laterais em “5” mais largo em cirna e mais estreito em baixo, alargando no bojo, e assentando numa nequena base
413
KUZNETSOvA-RESENDE, 2006.p.278. 414
1n LOPEZ MONTEAGUDO, 2004, p. 196. 4
’In ROJO MEDINA,s.d.
I
cornea: ja na litografia conceolda por Ia Torre4° os recepticulos tim forma de kyhx,
decoraclos corn estnas ate ao oojo, sendo este hso, corn asas 1a:erats em nas estreito era cina e largo em batxo, Ernbora os rnovmentos dos enrolamentos sejarn disserneihantes ‘sos trés registos. as vides cresceni todas pars o centro, ra direccão dos cantos do emblema, onde se bifurcarn e desenvolvem pan os lados, encontrandose e confundindose corn as suns correspondentes laterats, de modo a criar urn efetto visual urnficado, de referéncia estromatürgsca, pleno de movimento e corn urn ritmo cuase musical que pode evocar os alegres canrares das virdirnas Anda que tambdm diferentes em todos os documentos, em todos des os erotes parecem
encarar as suns I
tarefas corn rn enrhousicssmós que pennite fazer a comparacão entre a felicdade infanti
1 sentida duranteas brincadefras e a euforiaébra
induzida nos ntuals tmciátcos e nasfesuvidades orgsásticas
ii
II
ii
11
II
4
I
I
211
-Fr
—
g. 7 As ect do sa arecdo mosaic de ac -me no corn va
a seg do esenho e M oz, na Real Academia tIe Ia Historia.inLOPEZ MON TEAGUDO, 2004, p 196.
No mosaico dos Banos de Ia Reina de Calpe (Figs, S e 9), hoje reduzido a metade da sua dimensao original. a vindima é novamente levada a cabo por erotes, desta feita aparentando idades menos tenras mas ainda jovens, a avaliar no sO pe!as atitudes (que parecem menos pueris e mais compenetradas), mas tambem pelas compleicôes morfolOgicas e pelas proporçes anatOmicas (ainda que concebidas de forma muito insipiente, frustre e esquemática). Embora actualmente restem apenas dois dos erotes
416
originais, e interessante notar que os seas corpos são integralmente preenchidos por
tessebs pretas, nAo apresentando qu&quer registo volurnétrico e contando apenas co ama anotação cromAtica nos olhos, de iris esverdeada. Já a ünica ave conservada goz de ama coloraçfto mais variada e ampla, corn penas amarelas e verrnelhas. Estas c s alegres e vibrantes corno o canto das canoras seriant talvez partlihadas por outras av s entretanto perdidas, que outrora davarn a vindirna urn ambiente paradisiaco. imediataxnente agradável a visão, presumivelmente deleitoso para a audiçao e,
evetflu&rnente, prazenteiro pam os demais sentidos.
Figs. 8 e 9—Aes erda:Aspectodo mosaicocornvindirna, segundo desenhode Cavanilles.Adireita: Fragmento conservado do mesmo mosaico. In PAStES OVIEDO, 2007. p. 23.
E
possivel que o mosaico segoviano de Duratén tivesse apresentado caracteristicas compositivas e cromáticas proxirnas do exemplar anteriormente referido, mas o sej desaparecirnento, a ausêneia de docurnentos desenhados e o catheter taconico descriçOes feitas an altura do sea achado impossibilitam quaisquer certezas neb rnatérias.417
No conjunto de mosaicos daDomus de Race (sécs. IV-V), eneontrado em Compluhun (Madrid), é possivel inferir urn entrosamento do dionisismo e do venusianismo comt eleusismo. Embora a composiçäo principal evidencie o ambiente de excessOs r desordem e a grarnática decorativa objectivarnente afecta an deus que dá nom’ habitaçao apresentando-o em estado etIlico no painel central entre urna Ménade Satiro e Sileno, justapondo-Ihe outros dois painéis corn panteras afrontadas bebetid (craters e ainda mais urn corn dois Satiros trarisportando cestos para 0 lagar, onde :
417
Viáe MOIJRAO. 2010, Vol. 11, p. 198.
congcineres pisant as uvas4’8 (uicando, porem. exciuldos cia cena os trabahos de apanha da uva), a relaço temática e sirnbókica corn outros tapeces cia rnesrna casa419 que integrarn figuras de erotes (que poderao 1cr carregado urn krater entretanto desaparecido) e das quatro Estaçoes do Mo parece substanciar uma leitura sincrttica dos trés cultos. De facto, a presenca aiegorica das TemporaAnnE nesta dotnus evoca a noço de tempo ciclico e representa as actividades agricolas sazonais. entre as quais se insere a vindirna, todas elas originariarnente tuteladas por Deméterlceres e relacionadas corn os Mistérios de Elêusis, mas rapidamente associadas a Dion(sio/Baco420.
E
também corn este sentido de renovaçào e prosperidade anual dos solos que a Estaçodo Outono torna a forma de urn vindimador quase real — Mo fora o seu claro valor
aiegórico — no mosaico de Seleucus et Anthus (sec. III), em Mérida (Fig. 1 0)9 e no
mosako das Estacöes (5Cc. IV), em COrdoba (Fig. 11). Em ambos os casos, as personificacoes sazonais coihem os grandes cachos das videiras que crescem cia própria terra, sendo que no prirneiro mosaico o corte C feito corn as mâos e no segundo corn urna foice (aqui lembrando a figura homéloga do tesselado italiano tardio da Catedral de Otranto, subordinado ao terna do Zodiaco).
Figs. 10 e 11—Vindimadores do Outono sos mosaicos de Seleucus€1Anthus (see. 111, Muscu Nacional
de Merida, fotografia de Guadalupe Lopez Monteagudo) e das Estacöes (finals do sec. IV d.C.. Museo ArqueoiOgico de Cordoba, in AA.VV., 20W, p. 173).
488
KUZNETSOVA-RESENDE, 2006, pp. 275-277. A autora ideniffica os carregadores e Os pisadores como camponeses humanos. Todavia, como envergam peles de feilno (pardalides) e transportarn cajados (peda), identiticamo-Los corno Sátiros.
9
Um outro mosaico desta habitaçAo apresenta seis copeiros, em aiusao direclaadegustacao do vinho. 420
MOURAO, 2010, Vol. 1, pp. lie 83-85. Cfr. KUZNETSOVA-RESENDE, 2006, p. 279. A autora silo desenvolve neste texto quaisquer consideraçoes sobre esta evoiuçAo.
Bern arreigada no sincretismo religioso dos romanos, a confluéncia do dionisismo e do eleusismo nâo se confinou
a
arte musiva e estendeu-se tambdma
escultura, come se prova no Sarcofago das Quafro EstacOes (sec. III) encontrado em Reguengos de Monsaraz (hoje no Museu Nacional de Soares dos Reis, no Porto), onde uma cena de pisa de uva em lagar se associa as figuras das Tempora AnnE, I deusa Ceres (e tambdm ao deus Oceano, seu contraponto masculino alusivoa
abundancia das aguas) e ainda I junta de bois que lavra o campo21. Sendo que <<a terra é, simuitaneamente. conservadora de riquezas. fonte de sobrevivência e fonte de frocas>4 e que o homemromano dependia superlativamente de todo o manancial oferecido por este elemento, näo será, pals. de estranhar a siinbiose dos varies cultos e a máltipla invocaçâo de intercessöes divinas que se revelavam, de facto. complementares. Essa complementaridade C, alias, atestada per diversos autores antigos, come Vergillo (70 a.C.-19 a.C.), PausInias (c. 115 — 180 d.C.), Claudiano (370 —410 d.C.) e Nono de
Panópolis (final do see. IV— inicio do sec
v
d.C.), sendo que o primeiro contempla apartilha de fiinçôes entre Baco e Ceres423, a segundo relaciona directamente os dais424, o terceiro integra Baco no ebb misterico de Elêusis42’ e o quarto confirma o temple de Ceres come pabco das celebraçOes báquicas e a própria deusa come participante activa dos thiaso?26:
Para saberes se a terra é mais densa org maCs leve e, por conseguinte, rnaisfavordvel
a
plantacdo da vinha ou dos cereags—
sendo a mass densa afecta a Ceres e mass leve aLieu [isto é, Baco]—deverás escoiher primeliv urn lugar a al/ia e depois dara.s ordem
para que se abra urn poço profundo
[...J
VERC}IUO, GeOrgicas, II, 227-231
-Aqui fna Ida] se encontra a augusta morada do deusa [Ceres] e, no sew venerando templo, a pedra sagrada
[...].
Dentro gemem as terriveis cortejos baquicos, os delirantes sansudrios, em confusa sinfonia. 0 Ida fesreja Baco corn gritos ululante&1]
421
MACmL, 1995, p. 110,
422
VEYNE, 1990, p. 154.
423
VERGILIO Qeorgicas IL 226 237 424
PAUSANLAS, Descriçdo da Credo, VII, 20.1. 425
NON0 DE PANOPOLIS, Dionislacas, VI.
:1
4
CLAUD1ANo, 0 Rapro do Proserpina, 1,201-213.
[Ceres]fruio dernosiodo ircrnquiiodos roucos tiasos e. jubilosa corn o tinfr dos armas, atrelava osfrigios leöes
f..]
CLAIJDIANO, ORopto de Proserpina, 1,201-213 a 111,423-424.
No se iirnkando aos anteriores trés cuitos relacionados corn a fertilidade, o conjunto musivo da Travesia de Pedro Maria Piano (Mdrida) associa tambérn o orfismo
a
vindirna. Corn efeito. o conjunto centrahza a irnagern de Orfeu e justapöe-lhe tuna cena do apanha cia twa protagonizada por erotes infantis (Fig. 12), uma outra corn trecho de cortejo báquico formado per PA e Sileno montado num asno, outra corn caçadas, outra ainda corn geranornaquias e ainda as imagens das Quatro EstacOes. A presenca axial do principe trácio. corrhceido pelos dotes musicais capazes de pacificar as forças hostis da Natureza e de amansar a agressividade dos animais427 (aigo que Baco428 e Ceres129 conseguiarn corn o exerciclo da autoridade, mas Mo corn desempenho artIstico), revela so corno condiçAo do possibilidade da paz, da concordia e da harmonia, tAo necessarias A estabilidade dos movirnentos cIclicos quo garantem a prosperidade. De acordo corn a nossa leitura, a reIaçAo mutualista e verdadeirarnente ecuménica que este mosaico parece fazer430. associando o dionisismo. o venusianismo, o eleusismo e o orfismo. revela-se propiciadora, nor exceléncia. do urn conceito de Paradeisos ideal, onde Orfeu sobressai corno agente ordenador do caos dionislaco, moderador da paixâo venusiana e calibrador cia dinAmica eleusina, em surna, como moderador dos excessos e zelador da Iranquilitas e da stabilitas.
Fig. 12— Pormenor de erote vindimador no inosaico Travesia de Pedro Maria PIano, em Mends (Museo Arqueologieo). Sec. III d.C. In ALVAREZ MARTINEZ, 1990,
427
MOURAO, 2010, Vol.1, pp. 107-113.
‘
KUZNETSOVA-RESENDE, 2007, p. 85 Num mosaico tunisino orlando de El Ojem (see. IV), hoje no Museu do Bardo, Baco apresenla-se de cabeça envolta por urn halo e surge corno seithor des bestas.
429CLAUDIANO, 0 Rapto de Proserpina, 1,211-212 a III, 423-424.
MOURAO, 2010, Vol.1, pp. 84, 178 a 179.
Embora a maioria dos mosaicos hispanicos apresente as vindirnas corno trabaihos infantis, ou quando muito jovens, e a vinha como iugar de encontro ecuménico, que confinna a natureza eclética do dionisismo tardio43t, existem casos que integrarn
vindirnadores de idade bastante avancada e que são exciusivarnente afectos so ciclo báquico. Corn efeito. o painel astigitano da Calle Espiritu Santo (Fig. 13) cx t urn vindimeiro de idade madura—o ünico que cothecernos em territOrio peninsu’ar
- nta
apenas corn personagens ligadas a Baco e está inteirarnente dedicado ao
vitivinicuitura, constituindo o exemplar ibdrico mais expressivo sobre Qação indissociável entre a vindima, a produção do vinho e o seu consumo. As várias etapas do processo são representadas nurn espaço ünico e nwn tempo sirnuhãneo. sendo que o prirneiro momemo corresponde
a
apanha da uva, cuja cepa cresce directamente do solo por urn ancião, que poderd ser Sileno ou Ikario432, o segundo ao transporte dos cachos.efectuado por urna jovem Ménade (que constitui o Unico elemento feminino desta obra) e por Pa, o terceiro itpisa em lagar, realizada portrês Satires—tat como no mosaico de
omplutwn e no octdgono do conjimto bdquico oriundo de ItAlica, integrado na colecçito Salinas, por oposicão ao exemplar emeritense da Domus do Anfiteatro, onde os protagonistas são humanos e não Sátiros, mantendo-se, pordm, o nüme; .Je pisadores (que lbncionam, a nosso ver, cornoumaversão masculina etotairnente fitvi!
das Três Graças) —, e o quarto momento corresponde
a
degustaçâo do mosto (onjé
dovinho) pordois hornens, urn adulto e urn ancião. A supervisão de todo o processo está a
cargo do prdprio deus Baco, ainda menino (Dionysos Pals), montado nurna parnera. de
acordo corn o modelo geralmente designado por Tigerreiter, pamo qual se -oicam
numerosos paralelos em todo o Imperto Esteanimal, queeaminha entre urn ntAo cs .ia esquerda) e urn (crater (it suafrente), ambos derrubados, parece virarcostas ao primeiro e inclina a cabeça na direcçao do segundo, como se tivesse acabado de beber dele e aludisse
a
rnetamorfose das Ménades em panteras433, na sequéncia do consumoMOIJR.AO, 2010, Vol. [,pp. 77e83-85.
Guadalupe Lopez Monteagudo identifica o anciäo como Icarios (LOPEZ MONTEAGUDO, 2001. p. 137 e LOPEZ MONTEAGUDO, 2006, p. 284), que fol cel primer mortal al que Dionisos ensefia ci cultivo de Ia vid, representado como pastor sentado en una rocao (LOPEZ MONTEAGUDO, 2006, p. 283).
Osa metamorfose ligada ao cicIo baquico é a dos piratas do Tirreno em golfinhos (HIGi’%O. I’óhula.c. 134; PSEUDO-HIGIN0. AstronOnica, XII, 17; ovfnio, Metamorfoses, In, 572). Estasido Donisio a zc: a travessia deste Mar a canfinho da ilha de Naxos, transfonnou aquclcs tradores em aCi!!3s pan se Hbcrter deies. como se ilustra no mosaico norte athcano de Utica. no Mseu do Bardo. I’.a
antiga Uispãnia podem set encontradas algumas representaçöes que &udem de forma velada a este epiOdio. sendo dsso exemplo o pthel emeritense dito do Baritto, o mosaico cordobense da Ililade
excessivo de vinho — analogia que se depreende noutros mosaicos hispanicos onde
feildeos bebem de kraiers, come no desaparecido pavimento de Santa VitOria do Arneixjal e nos conjuntos de Alcaiá de Henares, Puente de Ia Olmilla. Calle Masona e Compluewn.
Fig. 13—Mosaico corn o ciclo do vinho. Ecija. Fotografia de Guadalupe Lopez Monteagudo.
Nào obstante o fbrmato rectangular do painel, a composiçäo é marcada per urn discurso tendencialmente circular — ou mais exactamente formando urn 8 na horizontal434
—,
desenvolvendo-se da esquerda pan a direita e regressando ao ponto de partida, como se as quatro etapas do ciclo do vinho evocassem, grosso mode, as Quatro EstaçOes e a sua disposicâo aludisse ao conöeito de tempo deuce que estas representam. As idades das personagens (infantil. jovem, adulta e senior) parecern reforçar o sentido progressive clas actividades. que sâo encetadas pela rnais veiha e vistoriadas pela rnais nova, nurn sirnbdlico paradoxo de funçöes, competéncias e maturidades. 0 vindirnador encontra-se sentado e, presumiveirnente,
já
no final desta prirneira fase dos trabaihos, dando o Mtirno cache a corner a urn bode, ado que expressa a dupla valencia do fruto para rnatar a sede e a fome, al irnentando assirn os homens e os anirnais — que alias nào secircunscrevern ao gado e que se alargam as ayes, come as pombas que arniüde surgern a debicar uvas noutros rnosaicos come o de Astorga. Tal pormenor funciona tarnbém come
prova da abrangéncia do culto báquico não apenas
a
agricultura, mas tambdrna
peeuária.Santa Rosa. os cantos do tesselado da Villa do Rabaçal e o supra citado mosaico de Santa VitOria do Arneixtal
0 algarismo 8 <<exprime os sentidos de regeneraçao a eternidade (alern de qua quando desenhade no sentidohorizontal,corresponde ao sinai matemático do infinito) (MOURAO, 2008, p. 127), sentidos qua
secorrespondernperfcitamentecorna tcmáticailustrada neste mosaico.
Conelusäo
A latitude simbélica cia vindirna e a sus reieváncia soeioeconórnica e cultural
propiciaram o desenvolvimento de urn sincretismo reilgioso entre vários cultos mistéricos ligados
a
fertilidade, como o dioriisisrno, a venusianismo e o eleusismo, e, ocasionalmente, de urn outro culto evocador da concórdia, da paz da harmonia — aorfismo, que apaziguava a carga mais efusiva dos anteriores. Esta poderosa confiuéncia de invocaçôes e intercessöes fazia da virtha tuna espécic de Paradeisos ecuménico. onde a viderra se assumia coma arborescencia divina e vital (prenunctando a ideia cristi da <<Arvore cia Vida>>435) e a vinho coma bebida sagrada (mais tarde ligada ao Sangue de Cristo), duplamente destinada aos deuses (sob a fonna de libaçoes, corno a que se iluswa no mosaico báquico da Coriscada, em Méda) e aos homens (corno potencial libertador de tensOes, come efectivo psicotrópico ritual, ou coma simbOlico elixir da imortalidade),
Dc facto, as cenas de vindimas transmitem urna imagem panteista da Natureza, onde todos as seres vivern em tranquila uniào. desfrutando de urna flora prédiga que as acolhe, alimenta e multiplica. Na dinâinica envolvéncia das videiras. que atingem uma altura e urna extensâo irreais mas sintomáticas sabre a grandeza divina, exprirne-se a paradigma de uma fecundidade do solo alusiva
a
mitica Idade de Ouro, define-se o arquetipo cia integraçAo do Hornern no meio ambiente natural vegetai e animal4’6.confirma-se a trabaiho canto actividade lüdica. desernpenhada corn vigor e alegria, num ambiente de festa, e apela-se as memérias sensoriais de urna realidade rnediterrânica e ancestral que deleita a viso corn as cores das ayes e das uvas tingidas pelo sal, a
audição corn os trinados dos pássaros e as cantares dos vindimadores, o olfacto e a paladar corn o aroma e o sabor cia fruta rnadura, e ainda o tacto corn as texturas rugosas das folhas e lisas dos cachos. corn o calor do firn do Verao e a frescura da brisa do Outono.
Milagros Guardia Pans notou que <dos ternas de vendimia y pisa de uvas parecen tenet un mayor éxito en los ambientes ciudadanos que en el campo y lo mismo ocurre con las asociaciones de temas dionisiacos con las cuatro estaciones. En cuanto a las
CHEVALIER B GHEERBRANT 1994 p 693 436
A este propósito iside DELUMEAU 1994 p 12
hahitaciones que ocupan, y teniendo en cuenta jg ertormes lagunas que siempre se dan n este aspecto, parecen see habitualmente eL tricliniurn o habitaciones nobLes siempre tie incierta destinacion>>437, Efectivarnente documentadas em major nümero no cor,texto urbano do Ahc-irnpério e parecendo enais escassas no melo rural do Baixo-lmpërio, é ainda possivel pie estas temáticas tenharn sido igualmente bern acoihidas em arquftecturas funeedrias hispânicas entretanto arruinadas
(a
semelharça do que sucedeu noutros territórios extrahispânicos, sendo exempio disso a Mausoitiu de Santa Constança, conservado em Rorna). Esta hipótese parece ganhar consisténcia se tivermos em conta o fraguento de mosaico corn &arer encontrado na eec/asia do Montinho das Laranjeiras, precisamente na zona made se fizeram enterrarnentos.”8 A ligaçao entre a dionisismo, o vinho e a morte logo patente na própria hagioafia tie Baco. o dens renascido43 —, estd, efectivamente, atestada no one funerária, onde funcionava conic
qoto de perpetuaçAo da alegna e da despreocupacAo do estado ebno no mundo alem lunmlo preflguiando uma alegoria a vktorla Ca vida sobre a morte440 Este sentido foi
conservadoja em contexto cnstAo, no apenas em ambientes funeranos mas tambem
liturgicos e laicos, corno mostra a lucerna de Trota de Setubal (Portugal), made duas figuras rnterpretadas como exploradores de Canaâ441 carregarn urn pesado cacho de uvas, provando que <<el cristianismo asimilo Ia vid baquica al terna de Ia vifla del Señor” y por ello el tema tnunfa tambien en Ia iconografia cristiana y en los inonurnentos tardorromanos>>442 Em cronologias ja muito mais tardias, este luxuriante
imaginario vitivirncola pioliferou nas igrejas catolLcas cristfts, com a videira prenhe de
was debteadas por pombas e eolhidas por crLançasou por anjmhos (que representam as
trabaihadores da Vinha do Senhor443) a envolver colunas salomonicas em aLtares de
talhadouradabarroca.
Agradecimeatos
Prof. Doutor Justino Maciel cJCSI-1-UNL);
Prof. Doutora MarIa Lw Neira Jimdnez (LJniversidad Carlos III de Madrid):
437
GcAoIA PONS, 1989. p. 68.
“
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44’
MACIEL, 1996,p. 113.
442
BALIL ILLANA, 1978, p. 395.
‘Mateus 20: 1-16.
219
ii
______ __________
-Doutora Guad&upe Lopez Monteagudo (Conselo Superior de Investigaciones Cientifleas);
Prof. Doutor Raul Miguel Rosado Fern&ndes (Professor Jubilado da Fae&dade de Letras da Universidade de Lisboa);
Prof. Doutor Nuno SimOes Rodrigues (Facuidade de Letras da Universidade de Lisboa);
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