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Fernanda Fernandes da Silva

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Academic year: 2018

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Fernanda Fernandes da Silva

A Sexualidade Masculina e a Perversão

MESTRADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO – PUC-SP Programa de Mestrado em Psicologia Clínica – Núcleo de Psicanálise

Fernanda Fernandes da Silva

A Sexualidade Masculina e a Perversão

São Paulo Março/2012

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Banca Examinadora

____________________________________ Profº. Dr. Claudio Bastidas

____________________________________ Profª. Drª. Silvana Rabello

____________________________________ Profª. Drª. Maria Lucia Vieira Violante

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Para Raul, que ainda nem

nasceu e já se faz tão presente

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Agradecimentos

Em primeiro lugar, à minha professora e orientadora Dra. Maria Lucia Vieira Violante pela condução firme e segura durante o trajeto dessa pesquisa, especialmente por sua disponibilidade diante das inúmeras solicitações de leitura e orientação, inclusive nas férias.

Aos meus ex-professores Dr.Claudio Bastidas e Dra.Silvana Rabello, que aceitaram participar da banca de qualificação, na qual contribuíram com importantes orientações, e de defesa. Tenho grande admiração pelo trabalho de ambos e me sinto muito grata por poder incluí-los em mais essa etapa do meu desenvolvimento acadêmico.

Ainda no âmbito acadêmico, agradeço à CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior), pela bolsa concedida nos últimos 13 meses, sem a qual não teria sido possível dispor do tempo de dedicação necessário ao presente trabalho. À Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, por me acolher desde 2004, primeiramente na pós-graduação lato-sensu e, agora, como mestranda, e contribuir muito para meu desenvolvimento, não apenas como estudante, mas também como pessoa. Farei o possível para repassar à sociedade todo o conhecimento aqui adquirido.

Agradeço aos meus colegas de pesquisa, Claudia, Helena e Matheus e aos demais, que me ajudaram a construir muito do que está nestas páginas, através de frutíferas discussões e de muito companheirismo. Obrigada por serem muito mais que colegas de pesquisa. A amizade de vocês fez da universidade um local acolhedor.

Agradeço aos amigos e também colegas de trabalho da Psicovida e AAPS (Associação de Apoio Psicossocial), que me ofereceram uma escuta atenciosa e demonstraram apoio e incentivo nos momentos difíceis.

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supervisões clínicas e sua grande generosidade. Ainda na clínica, agradeço a Nizha Soriano, minha analista, sem a qual o trajeto teria sido mais tortuoso.

No âmbito familiar, agradeço aos meus pais, irmãos, sobrinhos e cunhados, que sempre estiveram presentes em minha vida e muito me estimularam, mesmo sem saber ao certo do que se tratava a minha pesquisa.

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Resumo

A constituição psíquica e seu desfecho na masculinidade é o ponto inicial desta pesquisa que tem como objetivo principal investigar a psicogênese de um caso de perversão que reúne elementos acerca de experiências sexuais infantis, a relação com os pais, suas identificações e a escolha objetal na vida adulta. O material teórico foi selecionado a partir das necessidades impostas pelo caso clínico, a fim de favorecer a articulação entre o caso e a teoria, uma vez que o conflito identificatório vivenciado pelo sujeito e suas repetições no campo afetivo consistem no elemento primário que fomentou este trabalho. Assim também, a apresentação da constituição psíquica ―normal‖ se fez necessária à compreensão do quão intrínseco estão os polos entre normal e patológico. É a Freud que devemos a diminuição entre essas fronteiras, ele desnudou as manifestações do polimorfismo sexual infantil e seus efeitos na vida do sujeito adulto; este será outro aspecto a ser investigado nesta pesquisa. Utilizei a teoria freudiana em paralelo às contribuições de Aulagnier, especialmente no que se refere à influência do desejo e do pré-investimento dos pais sobre a constituição psíquica do filho. Outros autores contemporâneos complementam ainda, tanto a pesquisa teórica como as articulações feitas a partir da análise do caso clínico.

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Abstract

The psychic constitution and its outcome in manhood is the starting point of this research which has as its main goal to investigate the psychogenesis of a perversion case that gathers elements about child sexual experiences, the relationship with parents, its identification and object choice during adulthood. The theoretical material was selected from the imposed necessities by the clinical case in order to favor the conjunction between the case and the theory, once the identificatory conflict experienced by the subject and his repetitions in the affective field consists on the primary element that encouraged this work.

Also, the presentation of the ―normal‖ psychic constitution was necessary for the understanding of how intrinsic are the poles between normal and pathological. It is to Freud that we owe the decrease between these borders. He uncovered the manifestations of the child sexual polymorphism and its effects on the subject adult life; this will be another aspect to be investigated on this research. I have used Freud‘s theory in parallel with Aulagnier‘s contributions, especially with reference to the desire and pre investment of the parents about their child psychic constitution. Other contemporary authors still complement both the theoretical research as well as the articulations made from the clinical case analysis.

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Sumário

INTRODUÇÃO...9

Capítulo I CONSTITUIÇÃO PSÍQUICA MASCULINA 1) A Psicossexualidade segundo a Teoria Freudiana...12

2) Contribuições de Piera Aulagnier à Metapsicologia Freudiana...38

2.1) Os Modos de Funcionamento Psíquico...39

2.2) A Identificação...47

2.3) O Desejo dos Pais...50

Capítulo II A PERVERSÃO 1) O Conceito de Perversão em Freud: Contribuições Contemporâneas...55

2) O Conceito de Potencialidade Polimorfa de Piera Aulagnier: A Perversão...75

Capítulo III UM CASO DE PERVERSÃO 1) O Caso Clínico...86

2) Análise do Caso Clínico...101

CONSIDERAÇÕES FINAIS...121

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INTRODUÇÃO

A presente pesquisa acerca da perversão na sexualidade masculina pretende investigar, a partir de um caso clínico, a relação entre a problemática identificatória e a construção da escolha objetal do sujeito atrelada ao modelo de amor recebido na relação parental e, mais especificamente, o papel do desejo e do pré-investimento dos pais neste contexto.

A constituição psíquica masculina é entendida, a partir da psicanálise, como ponto de chegada, e não de partida, haja vista que o sexo biológico, apesar de poder funcionar como base na construção do masculino, não é determinante. Esse percurso, teoricamente pouco percorrido se comparado às pesquisas dedicadas à feminilidade, inicia o trajeto desta pesquisa.

A ideia de percurso inclui a possibilidade de obstáculos no meio do caminho e, neste trajeto, selecionei a perversão - que também faz parte do ponto de chegada - como o obstáculo a ser pesquisado. Assim, enquanto a construção masculina figura como a parte metapsicológica da pesquisa, a perversão faz parte do material psicopatológico e, por esta razão, a chamei de obstáculo.

A constituição psíquica masculina e a possibilidade do desfecho numa perversão configuram o objetivo principal desta pesquisa. Esta foi motivada inicialmente por um caso clínico, pois o tema da perversão na sexualidade masculina surgiu a partir de um trabalho de investigação do inconsciente, no decorrer do processo analítico de um paciente.

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proteger das consequências de seus atos, o sofrimento psíquico pode abrir caminho para uma demanda de análise.

O paciente em questão, a quem chamo de Pedro, buscou análise motivado pela frustração decorrente de uma decepção amorosa. Trata-se de um jovem rapaz que traz, na dinâmica de sua vida erótica, traços de uma infância marcada por uma complicada relação com os genitores. O sofrimento, a história familiar, as repetições, os abusos, os sintomas e a transferência serão os elementos utilizados na construção do caso a ser teoricamente analisado e fundamentado na teoria psicanalítica. Essa construção é, portanto, o retrato do que pude revelar acerca deste paciente. O retrato final apresentado por meio de recortes do tratamento, apesar de cuidadoso, não deixa de ser reducionista frente à complexidade do sujeito e do processo analítico.

O interesse pelo tema a ser pesquisado partiu, em princípio, da reflexão sobre as peculiaridades em torno da escolha objetal deste paciente e de sua relação com as vivências infantis, que ao longo do processo analítico revelaram-se como um interessante campo de pesquisa na medida em que trouxeram à tona, por meio da investigação do inconsciente, elementos que contribuem para uma hipótese teórica acerca da psicogênese de um caso de perversão. Neste percurso pretendo investigar a participação dos pais na problemática identificatória de Pedro, que inclui a construção da masculinidade, a escolha objetal e, por fim, a perversão.

Seguindo este interesse, pretendo investigar também qual a influência do modelo de amor oferecido pelos pais na construção identificatória e na escolha objetal deste paciente? Quanto à perversão, qual a participação dos pais? Quando o desejo dos pais entra em cena? Por outro lado, quais as possibilidades do Eu num funcionamento perverso? O que diz a literatura psicanalítica quanto à relação do perverso com o amor?

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parental. No que toca à importância do desejo dos pais entre si e para com a criança, assim como à relação deste desejo com o processo de constituição psíquica, lanço mão, novamente, da teoria de Aulagnier.

O percurso feito por Freud na construção teórica do conceito de perversão, e a interlocução com autores contemporâneos, será desenvolvido no capítulo II, dedicado à psicopatologia. Ainda no capítulo II abordarei a perversão tal como definida por Aulagnier. Considerando que, segundo a autora, a perversão é uma dentre outras manifestações possíveis da potencialidade polimorfa, este conceito será fundamental para a articulação teórica do caso clínico, uma vez que optei por incluir a problemática familiar do paciente que, segundo minha análise, dispõe das demais manifestações que Aulagnier situa ao lado das perversões.

Ainda para Aulagnier, a perversão não se restringe às manifestações bizarras da sexualidade. Portanto, é nessa tênue linha que separa o normal do patológico que pretendo inserir a discussão do caso clínico que, longe de ser um caso de transgressão sexual que choca a moral, apresenta sutilmente marcas de um conflito identificatório que aponta para uma hipótese diagnóstica de perversão.

A apresentação do caso clínico e a análise e discussão teórica do mesmo compõem o capítulo III. Além de Freud e Aulagnier, que serão prioritariamente utilizados como base para a discussão teórica, utilizarei autores contemporâneos, tais como: Joyce McDougall, Roudinesco, Violante, Ceccarelli e Valas, entre outros.

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CAPÍTULO I

CONSTITUIÇÃO PSÍQUICA MASCULINA

[...] a proporção em que masculino e feminino se misturam num indivíduo está sujeita a flutuações muito amplas. [...] aquilo que constitui a masculinidade é uma característica desconhecida que foge do alcance da anatomia. (Freud, 1933 [1932], p. 115)

1) A Psicossexualidade segundo a Teoria Freudiana

Freud definiu o lugar da sexualidade tanto na constituição psíquica normal quanto na patológica. Embora fosse médico, percebeu a necessidade de afastar-se de concepções biologizantes para a construção da psicanálise. Mas se o sexo biológico não representa uma certeza na direção de uma constituição especificamente masculina ou feminina, como se constitui então a identidade masculina?

A psicanálise responde a essa questão a partir do processo de identificação, que consiste no início de um longo e complexo processo de construção identificatória. A identidade masculina representa apenas uma parte deste processo; é esperado que ao final da infância o sujeito possa se posicionar como menino ou menina. Desse processo inconsciente, resulta a constituição do ego, que vai permitir ao sujeito diferenciar-se e, ao mesmo tempo, assumir características semelhantes àqueles que lhe oferecem os cuidados indispensáveis no início da vida. Assim, o desenvolvimento pulsional da sexualidade, ao lado do desenvolvimento tópico (estruturas psíquicas), será o fio condutor desta primeira parte da dissertação. E sendo indissociáveis, optei por expô-los de maneira intercalada.

Ao nascer, o bebê necessita de uma experiência mínima de prazer, a qual Freud denominou vivência de satisfação1. Em seu trabalho ―A Interpretação dos

1 FREUD, S. (1900) “A Interpretação dos Sonhos”. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas

Completas de Sigmund Freud, STRACHEY, J. (Ed.). Tradução de Jayme Salomão. Vol. V. Rio de Janeiro:

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Sonhos(1900), Freud retomou o conceito de vivência de satisfação, que já havia sido desenvolvido anteriormente no ―Projeto para uma Psicologia Científica”2 (1895).

Como postula Freud, é a vivência de satisfação que instaura o desejo: A esse tipo de corrente no interior do aparelho, partindo do desprazer e apontando para o prazer, demos o nome de ‗desejo‘; afirmamos que só o desejo é capaz de pôr o aparelho em movimento[...]3.

Assim, para Freud, diante de um acúmulo de excitação, que pode ser uma vivência desprazerosa, a criança busca promover o declínio dessa mesma excitação com o objetivo de sentir prazer, uma vez que já o experimentou na vivência de satisfação. A sucção do dedo, por exemplo, seria a repetição da sucção do mamilo que a alimentou. Este processo envolve, necessariamente, o auxílio de uma pessoa externa (a mãe, por exemplo).

Ao chorar o bebê desperta a atenção de quem se encontra na função materna; esta pessoa então volta-se ao bebê com o objetivo de prestar os cuidados necessários para que o desprazer seja removido. Assim, por meio do choro, o bebê consegue informar ao outro sobre a existência de um estado de desconforto ou tensão interna, e esse evento adquire a importante função de comunicar ao adulto sua necessidade de ajuda. Freud postula que:

O primeiro desejar parece ter consistido numa catexização alucinatória da lembrança da satisfação. Essas alucinações, contudo, não podendo ser mantidas até o esgotamento, mostraram-se insuficientes para promover a cessação da necessidade, ou, por conseguinte, o prazer ligado à satisfação.4

É a partir daí que Freud introduz a noção do que seria a base do conceito de pulsão: ―[a pulsão] nos aparecerá como sendo um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático [...]‖5. Estando a origem da pulsão na excitação corporal6,há uma representação psíquica da excitação corporal e uma carga energética resultante dessa excitação que impulsiona o organismo em direção a um objetivo que visa à supressão do estado de tensão. A participação de uma pessoa externa,

2 FREUD, S. (1895 [1950]) “Projeto para uma Psicologia Científica”. 3 Idem. (1900) “A Interpretação dos Sonhos”, p. 624-625.

4 Ibid., p. 625.

5Idem. (1915) “Os Instintos e suas Vicissitudes”, p. 127. 6 ROUDINESCO, E. & PLON, M. (1997)

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nesse momento que representa a inauguração da psique, é, sem dúvida, fundamental para que o motor (desejo) entre em funcionamento.

Freud postulou um dualismo pulsional a partir de seu trabalho ―Além do Princípio de Prazer‖ (1920), colocando a pulsão de morte - que tem como meta reconduzir o que está vivo ao estado inorgânico - em oposição às pulsões de vida - que abrangem a pulsão de autoconservação e a pulsão sexual ou libido. No que diz respeito ao psiquismo, a pulsão de morte visa o nada de tensão psíquica, enquanto a pulsão de vida liga, une; é Eros, amor. Em 1915 Freud já havia postulado a origem e os destinos da pulsão; embora a origem esteja sempre associada a uma fonte orgânica, seu objeto pode ou não ser parte do próprio corpo do sujeito:

[...] seu objeto é insignificante em comparação com o órgão que lhes serve de fonte, via de regra coincidindo com esse órgão. O objeto do instinto escopofílico, contudo, embora também a princípio seja parte do próprio corpo do sujeito, não é o olho em si; e no sadismo a fonte orgânica, que é provavelmente o aparelho muscular com sua capacidade para a ação, aponta inequivocamente para outro objeto que não ele próprio, muito embora esse objeto seja parte do próprio corpo do sujeito.7

Ambas as pulsões tem o id como reservatório, o que vem a ser o id? O bebê, à época do nascimento, é provido de um id, estrutura psíquica que compõe a segunda tópica – trata-se da segunda descrição de Freud, complementar à primeira, acerca do aparelho psíquico: Id, Ego e Superego. A primeira tópica (1900-1923) por sua vez é composta pelas seguintes qualidades psíquicas: consciente, inconsciente e pré-consciente. E, de acordo com Freud, ―a única qualidade predominante no id é a de ser inconsciente.‖8

Para definir o id é necessário abordar o conceito de inconsciente:

Reconhecemos que o Ics não coincide com o reprimido; é ainda verdade que tudo o que é reprimido é Ics, mas nem tudo que é Ics é reprimido.‖9. Isto significa que o reprimido (recalcado) representa apenas uma parte do id. Para Laplanche e Pontalis:

[...] no quadro da segunda tópica freudiana, o termo inconsciente é usado sobretudo na sua forma adjetiva [diferente da forma substantiva abreviada: ics, utilizada na primeira tópica];

7 FREUD, S. (1915) “Os Instintos e suas Vicissitudes”, p. 137. 8Idem. (1940 [1938]) “Esboço de Psicanálise”, p. 176.

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efetivamente, inconsciente deixa de ser o que é próprio de uma instância especial, visto que qualifica o id e, em parte, o ego e o superego.10

O ego, embora seja outra estrutura psíquica, também não se encontra totalmente separado do id; esse processo de separação que ocorre na constituição do ego é chamado de recalcamento primário ou originário. Na edição Standard

Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, a tradução do conceito urverdrängung aparece como ―repressão primeva‖. Sobre este conceito Freud afirma: Temos motivos suficientes para supor que existe uma repressão primeva, uma primeira fase de repressão, que consiste em negar entrada no consciente ao representante psíquico (ideacional) do instinto.”11

Na interpretação de Laplanche e Pontalis:

O recalque originário é antes de mais nada postulado a partir dos seus efeitos: uma representação não pode, segundo Freud, ser recalcada se não sofrer, simultaneamente com uma ação proveniente da instância superior, uma atração por parte dos conteúdos que já são inconscientes.12

Assim, ainda segundo os mesmos autores, o recalque primário tem a função de exercer uma atração no processo de recalque posterior; porém, esse recalque primário consiste em formações inconscientes que não teriam sido atraídas por outras formações. Isso ocorre porque, segundo Freud, ―Elas [as duas categorias de conteúdos do id] coincidem aproximadamente com a distinção entre o que se achava originalmente presente, inato, e o que foi adquirido ao longo do desenvolvimento do ego”13.

O id é regido pelo princípio de prazer, e este, ao lado do princípio de realidade, compõem os princípios que regem o funcionamento psíquico. Para Freud:

[...] é fato estabelecido que as autopercepções – sensações cenestésicas e sensações de prazer-desprazer – governam a passagem de acontecimentos no id com força despótica. O id obedece ao inexorável princípio de prazer.14

10 LAPLANCHE, J. & PONTALIS, J. B. (1982) Vocabulário da Psicanálise. Direção de Daniel Lagache. Tradução de Pedro Tamen. 4ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p.236.

11 FREUD, S. (1915) “Repressão”, p. 153.

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Aos princípios de prazer e de realidade Freud acrescenta o princípio de

nirvana. Segundo Freud, atribuímos ao aparelho psíquico o propósito de reduzir a nada ou, pelo menos, de manter tão baixas quanto possível as somas de excitação que fluem sobre ele

15

.

Portanto, o princípio de nirvana - que expressa a tendência da pulsão de morte, convive com o princípio de prazer - que representa as exigências da libido e o princípio de realidade - que representa a influência do mundo externo. Para Freud, esses princípios não são excludentes entre si:

Nenhum desses três princípios é realmente colocado fora de ação por outro. Via de regra eles podem tolerar-se mutuamente, embora conflitos estejam fadados a surgir ocasionalmente do fato dos objetivos diferentes que são estabelecidos para cada um [...]16

De acordo com Freud, em "Esboço de Psicanálise" (1940 [1938]), o âmago de nosso ser seria formado pelo id, estrutura psíquica que não mantém comunicação direta com o mundo externo, e comporta as pulsões, formadas pela fusão de duas forças primitivas: pulsão de vida e pulsão de morte. O único movimento desses ―instintos‖ (pulsões) segue no sentido da satisfação, e para isso conta com a participação de objetos externos. Os modos de funcionamento psíquico são: processo primário, que rege o id / inconsciente, e processo secundário, que entra em funcionamento a partir da constituição do ego e rege o consciente / ego.

Os processos que são possíveis nos supostos elementos psíquicos do id e entre eles (o processo primário) diferem amplamente daqueles que nos são familiares, através da percepção consciente, em nossa vida intelectual e emocional.17

Esses processos coexistem, pois a entrada em cena do secundário não elimina o modo primário de funcionamento psíquico; a este respeito Freud afirma:

Descrevi o tipo de processo encontrado no inconsciente como

sendo o processo psíquico ‗primário‘, em contraposição com o processo ‗secundário‘, que é o que impera em nossa vida de vigília

normal. Visto que todos os impulsos instintuais têm os sistemas

15 FREUD, S. (1924) “O Problema Econômico do Masoquismo”, p. 177. 16 Ibid., p. 178.

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inconscientes como seu ponto de impacto, quase não constitui novidade dizer que eles obedecem ao processo primário.18

O ego é a estrutura da mente regida pelo processo secundário do funcionamento psíquico, sendo também a estrutura do aparelho psíquico mais acessível à compreensão, pois tanto o inconsciente, quanto o consciente o qualificam psiquicamente.

Sobre a constituição do ego, e de acordo com Freud, há uma fusão de uma parte do ego a uma parte do id: O ego procura aplicar a influência do mundo externo ao id e às tendências deste, e esforça-se por substituir o princípio de prazer, que reina irrestritamente no id, pelo princípio de realidade.19

Seguindo ainda a exposição de Freud, em seu ―Esboço de Psicanálise‖ (1938) ele retoma a mesma definição de ego introduzida em 1923: ―Originalmente, com efeito, tudo era id; o ego desenvolveu-se a partir dele, através da influência contínua do mundo externo.‖20. Isto significa que o ego se desenvolve a partir da camada cortical do id, que sofre modificações por estar em contato direto com o mundo externo (realidade); entretanto, carregará a marca de sua origem. ―O ego estabeleceu-se a tarefa de autopreservação, que o id parece negligenciar‖21.

Funciona como um mediador que precisa defender sua existência contra um mundo externo que o ameaça, assim como contra um mundo interno que lhe exige excessivamente.

Em 1923, Freud já havia advertido que o ego não é apenas a parte do id que foi modificada pela realidade: ―Se o ego fosse simplesmente a parte do id modificada pela influência do sistema perceptivo, o representante na mente do mundo externo real, teríamos um simples estado de coisas com que tratar. Mas há uma outra complicação.[...]‖22.

Essa outra complicação é uma referência de Freud à parte inconsciente do ego, que é também ―primeiro e acima de tudo, um ego corporal‖23. Ainda sobre a

18FREUD, S. (1920) “Além do Princípio de Prazer”, p. 45. 19 Idem. (1923) “O Ego e o Id”, p.38.

20 Idem. (1940 [1938]) “Esboço de Psicanálise”, p. 176. 21 Ibid., p. 213.

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constituição do ego, Freud completa sua definição afirmando que ―o caráter do ego é um precipitado de catexias objetais abandonadas e que ele contém a história dessas escolhas de objeto.‖24

A modificação do ego ocorre, portanto, a partir das escolhas objetais que foram sendo abandonadas. Segundo Freud, ao ―[...] ter de abandonar um objeto sexual, muito amiúde se segue uma alteração de seu ego que só pode ser descrita como instalação do objeto dentro do ego, tal como ocorre na melancolia‖25. Freud refere-se nesse sentido ao processo de identificação ―normal‖ que se assemelha ao processo que ocorre na melancolia - este sendo patológico.

Trata-se do processo que inclui a escolha objetal e a identificação como mecanismo constitutivo do ego, assim Freud postula:

[...] seja o que for que a capacidade posterior do caráter para resistir às influências das catexias objetais abandonadas possa tornar-se, os efeitos das primeiras identificações efetuadas na mais primitiva infância serão gerais e duradouros.26

Em nota de rodapé, Freud destacou a figura da mãe nesse processo de identificação.

[...] os primeiros objetos sexuais de uma criança são as pessoas que se preocupam com sua alimentação, cuidados e proteção: isto é, no primeiro caso, sua mãe ou quem quer que a substitua.27

A mãe, na qualidade de objeto externo, ainda muito precocemente é alvo de investimento libidinal pelo bebê. O modo da pulsão sexual buscar satisfação no próprio corpo é o que Freud chama de autoerotismo: o ato de sugar, por exemplo, é impulsionado pela pulsão de autoconservação (fome); ao se separar da fome, a pulsão sexual oral perde seu objeto, tornando-se autoerótica. Assim, "A primeira e mais vital das atividades da criança – mamar no seio materno (ou em seus

24 FREUD, S. (1923) “O Ego e o Id”, p. 42. 25 Ibid., loc. cit.

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substitutos) – há de tê-la familiarizado com esse prazer."28. A satisfação dissocia-se

então da necessidade de nutrição. Segue Freud:

[...] o primeiro objeto do componente oral do instinto sexual é o seio materno, que satisfaz a necessidade de alimento do bebê. O componente erótico, que é satisfeito simultaneamente durante a sucção [nutricional], torna-se independente com o ato da sucção sensual [lutschen]; abandona o objeto externo e o substitui por uma área do corpo do próprio bebê. O instinto oral torna-se auto-erótico, como são, no início, os instintos anais e outros instintos erógenos.29

O bebê é um ser dependente de um outro que faça por ele as ações específicas que lhe garantam a sobrevivência física e psíquica, esta última só sendo possível com a carga de investimento libidinal que vem do outro. Graças a esse movimento libidinal, o sujeito ―aprende‖ a amar a si próprio; daí a constituição do ego, em sua primeira forma, como um ego ideal, narcisicamente investido pela libido.30

Existem diferentes acepções para o conceito de narcisismo na obra de Freud, todas elas complementares. A mais importante definição desse conceito, diz respeito à constituição egoica em sua primeira forma. Foi numa publicação de 1915, ano seguinte à publicação do texto Sobre o Narcisismo: Uma Introdução, que Freud estabeleceu essa relação que confere ao conceito de narcisismo um caráter mais estrutural e menos patológico. Segundo Laplanche e Pontalis:

A introdução da noção de narcisismo vem esclarecer a posteriori, a de auto-erotismo: no narcisismo é o ego, como imagem unificada do corpo, o objeto da libido narcísica, e o auto-erotismo é definido, por oposição, como a fase anárquica que precede essa convergência das pulsões parciais para um objeto comum [...]31

O ego - com a fragilidade própria da fase inicial de sua constituição - depende do investimento externo para poder realizar uma espécie de autoinvestimento, denominado por Freud de "narcisismo". A respeito da constituição do ego Freud postula:

[...] estamos destinados a supor que uma unidade comparável ao ego não pode existir no indivíduo desde o começo; o ego tem de

28 FREUD, S. (1905) “Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade”, p. 171.

29 Idem. (1917 [1916-17]) “Conferência XXI – O Desenvolvimento da Libido e as Organizações Sexuais”, p. 333.

30 VIOLANTE, M. L. V. Ensaios Freudianos em Torno da Psicossexualidade. São Paulo: Via Lettera, 2004, p. 78.

31 LAPLANCHE, J. & PONTALIS, J. B. (1982)

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ser desenvolvido. Os instintos auto-eróticos, contudo, ali se encontram desde o início, sendo, portanto, necessário que algo seja adicionado ao auto-erotismo – uma nova ação psíquica – a fim de provocar o narcisismo.32

Essa nova ação psíquica refere-se ao surgimento do ego, havendo uma regulação na quantidade de libido dividida entre o ego e os objetos externos. Roudinesco e Plon explicam a questão da economia libidinal, como proposta por Freud, com o que chamam de movimento de gangorra33, segundo o qual uma parte (o ego) enriquece e a outra (o objeto externo) empobrece, e vice-versa.

O investimento libidinal narcísico é precedido pelo investimento libidinal dos pais sobre a criança, tornando-se uma reedição do narcisismo dos pais. Segundo Freud, Se prestarmos atenção à atitude de pais afetuosos para com os filhos, temos de reconhecer que ela é uma revivescência e reprodução de seu próprio narcisismo, que de há muito abandonaram.”34

De fato, há uma expectativa dos pais no sentido de realizar seus desejos mais primitivos por meio das conquistas dos filhos; para isso, projetam nos filhos uma onipotência que só pode ter sua gênese no seu próprio narcisismo. Para Freud o menino se tornará um grande homem e um herói em lugar do pai, e a menina se casará com um príncipe como compensação para sua mãe.‖35

A projeção do narcisismo dos pais sobre a criança pode ser ao mesmo tempo constitutiva e patológica, dependendo do contexto familiar e da constituição psíquica desses pais. No artigo ―Os Roteiros Narcísicos dos Pais‖, publicado no Livro Anual de Psicanálise XV, Manzano et al. . tratam das peculiaridades presentes no narcisismo dos pais que poderiam influenciar o desenvolvimento psíquico do filho:

[...] os roteiros narcísicos dos pais podem ser superados e integrados no desenvolvimento harmonioso do relacionamento pais-filho, ou podem ter conseqüências patológicas, caso interfiram no desenvolvimento e conflitem com a realidade, particularmente com a

32 FREUD, S. (1923) “A Organização Genital Infantil (Uma Interpolação na Teoria da Sexualidade)”, p. 84. 33 ROUDINESCO, E. & PLON, M. (1997) Dicionário de Psicanálise, p. 531.

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realidade da existência de uma criança em crescimento, incompatível com as projeções dos pais nela.36

O narcisismo também é definido por Freud como sendo um estágio de desenvolvimento da libido localizado entre o autoerotismo e as relações objetais37. Assim, tanto o narcisismo como o autoerotismo não constituem somente uma fase evolutiva do desenvolvimento libidinal, são antes uma condição do psiquismo que nenhum investimento objetal permite ultrapassar completamente.

A escolha dos objetos amorosos por apoio está intimamente ligada ao modelo de amor oferecido pelos pais. Freud assim definiu a escolha objetal ―anaclítica‖ ou de ―ligação‖38: ama-se segundo o modelo de amor recebido na relação com as figuras parentais; aquela que alimenta, aquele que protege. Freud postula a presença de um narcisismo em todos os seres humanos quando prevê a escolha de dois objetos sexuais: ―ele próprio e a mulher que cuida dele‖; porém, reitera que ―em alguns casos, pode manifestar-se de forma dominante [a ligação com a mãe] em sua escolha objetal.‖39

Na escolha objetal narcisista - mais uma definição que o conceito de narcisismo abrange - o sujeito escolhe seu objeto de amor segundo o modelo de seu próprio ego; nesse caso, ama-se: a) o que é (a própria pessoa); b) o que foi; c) o que gostaria de ser; d) alguém que foi uma vez parte da própria pessoa40 (mãe fálica). O sujeito procura no outro a si próprio. O trabalho de Freud sobre Leonardo da Vinci traz importantes elucidações a respeito do tipo de escolha narcisista:

O menino reprime seu amor pela mãe; coloca-se em seu lugar, identifica-se com ela, e toma a si próprio como um modelo a que devem assemelhar-se os novos objetos de seu amor. Desse modo ele transformou-se num homossexual. O que de fato aconteceu foi um retorno ao autoerotismo, pois os meninos que ele agora ama à medida que cresce, são, apenas, figuras substitutivas e lembranças de si próprio durante sua infância – meninos que ele ama da maneira que sua mãe o amava quando era ele uma criança.41

36 MANZANO, J.; ESPASA, F e ZILKHA, N. “Os Roteiros Narcísicos dos Pais” In Livro Anual de Psicanálise

XV - 1999, PONCE, Roberto Doria-Medina (Ed.). Tradução de Elsa V. K. P. Susemihl. São Paulo: Escuta, 2001,

p. 41.

37 FREUD, S. (1914), “Sobre o Narcisismo: Uma Introdução”. 38 Ibid.

39 Ibid., p. 95. 40 Ibid., p. 97.

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Embora Freud tenha assim definido a escolha objetal narcisista, não se pode concluir que os seres humanos sejam divididos em dois grupos rigorosamente diferentes segundo o tipo de escolha de objeto; com efeito: ―presumimos que ambos os tipos de escolha objetal estão abertos a cada indivíduo, embora ele possa mostrar preferência por um ou por outro [...]‖42.

A escolha objetal do período pré-genital (fases oral e anal do desenvolvimento psicossexual) é predominantemente dirigida aos pais. Neste período, porém, a criança ainda não considera a diferença sexual que irá adquirir importância com a primazia genital (fase fálica). Dentre as flutuações na escolha narcísica ou por apoio pelas quais passa a criança, uma coisa é certa, a fixação nos primeiros objetos, seja no eu ou nos pais, podem comprometer em algum nível a vida erótica do sujeito adulto. Para Freud:

É absolutamente normal e inevitável que a criança faça dos pais o objeto da primeira escolha amorosa. Porém a libido não permanece fixa neste primeiro objeto: posteriormente o tomará apenas como modelo, passando dele para pessoas estranhas, na ocasião da escolha definitiva. Desprender dos pais a criança torna-se portanto uma obrigação inelutável, sob pena de graves ameaças para a função social do jovem.43

Assim também, a escolha narcísica de objeto não é exclusividade dos homossexuais, segundo Laplanche e Pontalis:

Foi principalmente o estudo das psicoses que levou Freud a reconhecer que o sujeito podia tomar a sua própria pessoa como objeto de amor, o que em termos energéticos, significa que a libido pode investir-se tanto no ego como num objeto exterior.44

Aproveitando o tema sobre tipos de escolha objetal, abro aqui um parêntese para abordar uma questão que não está subordinada a um único tipo de escolha de objeto, mas pode ocorrer tanto na forma anaclítica como narcísica. No texto ―Um Tipo Especial de Escolha de Objeto Feita pelos Homens‖ (1910), Freud descreve algumas situações nas quais o homem sente-se impelido a desejar mulheres que, de alguma maneira, comportam características que as depreciam ou que as tornam interditadas àquele que deseja.

42 FREUD, S. (1914) “Sobre o Narcisismo: Uma Introdução”, p. 95. 43Idem. (1910 [1909]) “Cinco Lições de Psicanálise”, p. 58-59. 44 LAPLANCHE, J. & PONTALIS, J. B. (1982)

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[...] – as condições que se impõe ao homem, de que sua amada não deve ser desimpedida e deve ser semelhante à prostituta, o alto valor que lhe atribui, sua necessidade de sentir ciúmes, sua fidelidade que, não obstante, é compatível em ser transgredida, em uma longa série de circunstâncias, e a ânsia de salvar a mulher – parecerá pouco provável que todas decorram de uma única fonte.45

Fecho o parêntese.

Há um misto de sentimentos hostis e de ternura direcionados às figuras paterna e materna, e a si mesmo, que poderiam favorecer fixações, desenvolvendo assim determinados tipos de escolha de objeto. É neste contexto, descrevendo as características do ―romance familiar‖ que, de acordo com o editor inglês James Strachey, Freud utiliza pela primeira vez o termo complexo de Édipo, embora o conceito já lhe fosse familiar há mais tempo.

Antes de expor a definição do complexo de Édipo e castração pretendo abordar o ponto inicial do desenvolvimento libidinal, que avança em paralelo à estruturação psíquica, pois tanto o registro tópico – id, ego e superego – quanto o registro econômico da sexualidade – estádio oral, estádio anal, fase fálica, período de latência e organização genital adulta – estarão fatalmente subordinados ao desfecho imposto pela relação entre complexo de Édipo e complexo de castração.

Para Freud o desenvolvimento da libido no homem – a fase da primazia genital – deve ser precedida por uma ‗organização pré-genital‘.46 A organização sexual pré-genital é o período da sexualidade infantil, onde as zonas genitais ainda não assumiram seu papel preponderante; refere-se ao estádio oral e estádio anal do desenvolvimento sexual. Freud postula que ―ambos os sexos parecem atravessar da mesma maneira as fases iniciais do desenvolvimento libidinal‖.47

O caminho que uma pessoa percorre até a organização genital adulta é complexo: inicialmente as pulsões parciais buscam a satisfação por meio do alívio das tensões em cada uma das zonas erógenas. Freud define zona erógena como ―[...] uma parte da pele ou da mucosa em que certos tipos de estimulação provocam

45 FREUD, S. (1910) “Um Tipo Especial de Escolha de Objeto Feita pelos Homens (Contribuições à Psicologia do Amor I)”, p. 174.

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uma sensação prazerosa de determinada qualidade.‖48. A esta particularidade, Freud atribui o caráter sexual, que envolve o que ele chama de ―condições especiais‖ dos estímulos, tais como o caráter rítmico dos mesmos.

Na busca de satisfação o sujeito obtém prazer, predominantemente, por meio das zonas erógenas oral e anal; posteriormente a genital. Entretanto, Freud reitera que, embora o caráter erógeno possa ligar-se de maneira mais marcante a certas partes do corpo, ―qualquer outro ponto da pele ou da mucosa pode tomar a seu encargo as funções de uma zona erógena, devendo, portanto, ter uma certa aptidão para isso.‖49

O desenvolvimento da libido se dá a partir da organização pré-genital. Segundo Freud, a fase oral ou canibalesca do desenvolvimento psicossexual, em ―[...] conformidade com a maneira como um lactente é alimentado, a zona erógena da boca domina o que se pode denominar de atividade sexual desse período da vida.50

Nos "Três Ensaios..." Freud afirma que nesta fase a pulsão sexual ainda não está totalmente separada da pulsão de autoconservação, uma vez que o objeto da primeira é o mesmo da segunda, ―e o alvo sexual consiste na incorporação do objeto – modelo do que mais tarde irá desempenhar, sob a forma da identificação, um papel psíquico tão importante‖.51. Acerca da relação entre fase oral e identificação Freud postula:

A identificação, na verdade, é ambivalente desde o início; pode tornar-se expressão de ternura com tanta facilidade quanto um desejo do afastamento de alguém. Comporta-se como um derivado da primeira fase da organização da libido, da fase oral, em que o objeto que prezamos e pelo qual ansiamos é assimilado pela ingestão, sendo dessa maneira aniquilado como tal.52

Neste período a criança desenvolve atividades tais como o ―sugar com deleite‖, que segundo Freud, pelo fato de estar dissociado da necessidade de nutrição, revela um caráter sexual, este, porém, associado a uma necessidade psíquica de prazer.

48 FREUD, S. (1905) “Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade”, p. 172. 49 Ibid., p. 173.

50 Idem. (1933 [1932]) “Novas conferências introdutórias sobre Psicanálise – Conferência XXXI”, p. 101. 51 Ibid., p. 187.

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Uma fixação oral, de acordo com Freud, poderia ocorrer numa criança cuja ―significação erógena da zona labial for constitucionalmente reforçada‖53, favorecendo assim, tanto tendências perversas, como inibições.

Já na etapa seguinte - a fase anal - a atividade sexual é orientada pelos impulsos sádicos e anais: Tal como a zona dos lábios, a zona anal está apta, por sua posição, a mediar um apoio da sexualidade em outras funções corporais.”54

O nascimento dos dentes, o fortalecimento muscular, os distúrbios intestinais, bem como a possibilidade de controle dos esfíncteres, desempenham importante função no desenvolvimento psicossexual da criança nesta fase. Para Freud:

A retenção da massa fecal, a princípio intencionalmente praticada para tirar proveito da estimulação como que masturbatória da zona anal, ou para ser empregada na relação com as pessoas que cuidam da criança, é, aliás, uma das raízes da constipação tão freqüente nos neuropatas.55

A relação de objeto também está intimamente ligada à função de defecação – retenção e expulsão – e ao valor simbólico das fezes que, segundo Freud, têm de início uma equivalência de ―presente‖56 que pode ser entregue com docilidade ou obstinadamente recusada aos pais. ―Do sentido de presente, esse conteúdo passa mais tarde ao de ‗bebê‘, que, segundo uma das teorias sexuais infantis, é adquirido pela comida e nasce pelo intestino‖57. Com relação à diferença sexual, No estágio da organização pré-genital sádico-anal não existe ainda questão de masculino e feminino; a antítese entre ativo e passivo é a dominante.”58. Freud relaciona atividade à pulsão de dominação que se manifesta por meio da musculatura corporal e a passividade com o órgão do alvo sexual passivo que é a ―mucosa erógena do intestino‖.59

Uma parte do erotismo anal pode ser direcionado para fins sexuais e outra desviada por meio da sublimação. Para Freud:

[...] o erotismo anal é um dos componentes do instinto [sexual] que, no decurso do desenvolvimento e de acordo com a educação que a nossa atual civilização exige, se tornarão inúteis para fins sexuais. Portanto, é plausível a suposição de que traços de caráter –

a ordem, a parcimônia e a obstinação –, com freqüência

53 FREUD, S. (1905) “Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade”, p. 171. 54 Ibid., p. 175.

55 Ibid., p. 176. 56 Ibid., loc cit. 57 Ibid., loc cit.

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relevantes nos indivíduos que anteriormente eram anal-eróticos, sejam os primeiros e mais constantes resultados da sublimação do erotismo anal.60

Assim também, a fase anal do desenvolvimento sexual infantil pode favorecer fixações ou complicações que poderão refletir na sexualidade e no caráter do sujeito adulto. As três qualidades grifadas na citação acima, que, segundo Freud, seriam resultados do processo de sublimação do erotismo anal, podem se manifestar de várias formas: esmero e descuido; avareza e descontrole financeiro; submissão e rebeldia.

Na fase fálica ou fase da organização genital infantil a atividade sexual está relacionada à descoberta e manipulação da zonaerógena genital. Tem a importante função de submeter as pulsões parciais à primazia dos órgãos genitais. De acordo com Freud, considerando a imaturidade biológica, nesta fase a sexualidade infantil aproxima-se bastante da forma como irá se manifestar no adulto:

A aproximação da vida sexual da criança à do adulto vai muito além e não se limita unicamente ao surgimento da escolha de um objeto. Mesmo não se realizando uma combinação adequada dos instintos parciais sob a primazia dos órgãos genitais, no auge do curso do desenvolvimento da sexualidade infantil, o interesse nos genitais e em sua atividade adquire uma significação dominante, que está pouco aquém da alcançada na maturidade.61

Esse estádio, no qual existe masculinidade, mas não feminilidade‖62, é marcado pela antítese entre castrado e fálico. E é justamente essa a principal diferença entre a fase genital infantil e a organização genital adulta, pois, para ambos os sexos, apenas o órgão genital masculino é levado em conta; a menina, segundo Freud, não tem consciência acerca da cavidade vaginal, e neste período ―o genital feminino permaneceu irrevelado‖63. Entretanto, como também postula Freud, ―não é uma primazia dos órgãos genitais, mas uma primazia do falo.‖64. Sendo que falo, em psicanálise, não corresponde ao pênis enquanto órgão. Nesse sentido, Laplanche e Pontalis assim o definem: ―o uso deste termo sublinha a função simbólica desempenhada pelo pênis na dialética intra e intersubjetiva, enquanto o

60 FREUD, S. (1908) “Caráter e Erotismo Anal”, p. 160-1.

61 Idem. (1923) “A Organização Genital Infantil (Uma Interpolação na Teoria da Sexualidade)”, p. 158. 62 Ibid., p. 161.

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termo ‗pênis‘ é sobretudo reservado para designar o órgão na sua realidade anatômica‖65.

Para Valas esse valor simbólico é atribuído ao pênis na medida em que:

[...] a criança vai experimentar as manifestações reais de seu órgão com o novo prazer que este lhe traz na masturbação, sua relação já erotizada com sua mãe, na dependência que está do amor desta, vai rapidamente ser polarizada para sua significação sexual. Por isso vai acreditar na existência do órgão fálico na mãe, à imagem do seu próprio.66

Desta maneira, o menino, com base em suas teorias sexuais infantis, tende a pensar, por analogia, que todas as pessoas têm um órgão genital como o seu (primazia fálica). As fantasias sexuais infantis desse período são ricas em função das excitações e das investigações sexuais que, cada vez mais, aproximam-no da descoberta sobre a diferença sexual, ou melhor dizendo, sobre a diferença anatômica entre os sexos.

A teoria do complexo de Édipo encontra seu clímax na fase fálica, contudo, os investimentos incestuosos do menino serão comprometidos pelas ameaças de castração, que tomam um sentido ameaçador a partir da visão dos órgãos genitais femininos. Para Laplanche:

A fase fálica não é somente uma fase de teoria. Ela é, certamente, uma fase de investigação, mas é também uma fase de experiência mental, afetiva e pulsional. É precisamente essa experiência pulsional que designamos como complexo de castração.67

E segundo Freud, ―Essa fase fálica, que é contemporânea do complexo de Édipo, não se desenvolve além, até a organização genital definitiva, mas é submersa, e sucedida pelo período de latência.‖68

Ainda de acordo com Freud: Somente após o desenvolvimento haver atingido seu completamento, na puberdade, que a polaridade sexual coincide com masculino e feminino.”69

65 LAPLANCHE, J. & PONTALIS, J. B. (1982). Vocabulário da Psicanálise, p. 166. 66 VALAS, Patrick.

Freud e a Perversão. Reunião de textos, Manoel Barros da Motta. Tradução de Dulce D.

Estrada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1990, p. 90.

67 LAPLANCHE, J. (1973) Problemáticas II Castração / Simbolizações. Tradução Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 1988, p. 50, grifo do autor.

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De acordo com a teoria psicanalítica, o conceito de complexo de Édipo ocupa lugar central na compreensão da constituição psíquica, tanto normal quanto patológica, como também na orientação do desejo humano. O complexo de castração incide, portanto, sobre o falo, o desejo incestuoso pela mãe e o ego ideal.

Chegado a esse ponto, e em consonância com o objetivo desta dissertação, antes de concluir as considerações acerca da fase fálica, farei a descrição apenas do Édipo masculino.

Segundo Freud:

Em idade muito precoce o menino desenvolve uma catexia objetal pela mãe, originalmente relacionada ao seio materno, e que é o protótipo de uma escolha de objeto segundo o modelo anaclítico; o menino trata o pai identificando-se com este. Durante certo tempo, esses dois relacionamentos avançam lado a lado, até que os desejos sexuais do menino em relação à mãe se tornam mais intensos e o pai é percebido como um obstáculo a eles [...].70

O menino desenvolve assim uma rivalidade para com o pai, resultado de um desejo inconsciente de livrar-se dele (desejo parricida) para então ocupar seu lugar junto à mãe. Desta forma, a atitude ambivalente para com o pai e a relação afetuosa com a mãe constituem o complexo de Édipo positivo. Em paralelo ao Édipo positivo, Freud postula o Édipo negativo, no qual o menino ―[...] se comporta, como uma menina e apresenta uma atitude afetuosa feminina para com o pai e um ciúme e uma hostilidade correspondentes em relação à mãe.‖71

Sobre o Édipo negativo, Joyce McDougall compartilha a incerteza proposta por Freud acerca do destino que tais identificações podem promover na vida adulta do sujeito:

Os desejos homossexuais primários, em todas as crianças, na sua versão dual – quer dizer, o desejo de possuir o genitor do mesmo sexo e o desejo de ser o genitor do sexo oposto – também demandam soluções na sexualidade do adulto que está por vir.72

69 FREUD, S. (1924) “A Dissolução do Complexo de Édipo”, p. 161.

70 Idem. (1923) “O Ego e o Id”, p. 44. 71 Ibid., p. 46.

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O complexo de Édipo completo constitui, então, a ―mescla‖ desses dois processos: positivo e negativo. Aprofundando a questão, no trabalho ―O Ego e o Id‖, Freud postula que desse processo resulta uma identificação paterna e uma identificação materna:

A identificação paterna preservará a relação de objeto com a mãe, que pertencia ao complexo positivo e, ao mesmo tempo, substituirá a relação de objeto com o pai, que pertencia ao complexo invertido; o mesmo será verdade, mutatis mutandis, quanto à identificação materna.73

Conclui-se assim, que a constituição de uma identidade heterossexual masculina depende da identificação com o pai e da preservação da relação de objeto com a figura materna como protótipo da escolha objetal adulta que ocorre após a dissolução do complexo de Édipo. A disposição sexual refletirá a preponderância de uma das identificações e da escolha de objeto que, no sujeito heterossexual, refere-se ao Édipo positivo.

Retomando a fase fálica, de acordo com Freud, a visão do órgão genital da menina alimenta a fantasia infantil de que as ameaças de castração proferidas pelos pais possam, enfim, concretizar-se. Sob o ponto de vista do menino, a menina teria sofrido a castração como punição por desejos semelhantes aos seus. Estabelece-se assim um conflito entre o interesse narcísico do menino pelo seu pênis e a catexia libidinal endereçada às figuras parentais. É esperado que o ego da criança dissolva o complexo de Édipo em nome do amor a si e de um lugar na família. Assim, de acordo com Freud, o menino sente-se ameaçado pela angústia de castração:

As crianças são protegidas contra os perigos que as ameaçam do mundo externo pela solicitude dos pais; pagam esta segurança com um temor de perda de amor que as deixaria desamparadas face aos perigos do mundo externo. Este fator exerce influência decisiva no resultado do conflito quando um menino se encontra na situação do complexo de Édipo, no qual a ameaça ao seu narcisismo representada pelo perigo da castração, reforçado desde fontes primevas, se apossa dele.74

O complexo de Édipo, que segundo Freud é reforçado através do narcisismo ―desde fontes primevas‖, deve dissolver-se, então, a partir da angústia de castração. A angústia de castração é, portanto, a única força capaz de promover o

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recalcamento da sexualidade infantil – marcada por uma série de experiências traumatizantes prototípicas que implicam ―um elemento de perda, de separação de objeto: perda do seio no ritmo da amamentação, o desmame, a defecação‖75. Segundo Freud ela é acionada na fase fálica pela ―visão dos órgãos genitais femininos‖76, que também já foi precedida por ameaças de castração. O desfecho da identificação masculina só acontece após a dissolução do complexo de Édipo e a assunção da castração, quando o menino é compelido a abandonar seus investimentos incestuosos por um temor que o acomete. Para Freud é ―essa ameaça de castração o que ocasiona a destruição da organização genital fálica da criança‖77, isso porque é ela que põe em ação a angústia de castração.

Para Laplanche:

[...] [essa] angústia deve ser interpretada para além do medo. Que a angústia seja sempre uma angústia do ego, como diz Freud, só pode ter um sentido profundo: é que a angústia está ligada a uma desestruturação possível, a uma ameaça para a integridade dessa forma narcísica.78

Assim, no menino, a angústia de castração põe fim ao complexo de Édipo completo79, instala o interdito contra o incesto e o parricídio, e retira ou ―castra‖ do sujeito a condição fálica adquirida na formação do ego em sua primeira forma como um ego ideal, narcisicamente investido. Como resultado do complexo de castração, fica então o superego como herdeiro do complexo de Édipo, além de uma definição acerca da escolha objetal que pode ser feita por apoio no modelo de amor oferecido pelos pais, a partir do Édipo positivo, negativo, ou ainda, de uma escolha narcísica de objeto.

A assunção da castração simbólica permite à criança se ver como um sujeito definitivamente separado da mãe. E assim, psiquicamente, há de surgir um ego desidealizado, um superego e um ideal de ego.

75 LAPLANCHE, J. & PONTALIS, J. B. (1982).

Vocabulário da Psicanálise, p. 74.

76 FREUD, S. (1924) “A Dissolução do Complexo de Édipo”, p.195. 77 Ibid., loc. cit.

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Ainda nesse sentido, com a assunção da castração e a entrada no período de latência – que será apresentado na sequência – torna-se possível abordar a constituição do superego e completar a estruturação psíquica (segunda tópica).

O superego é postulado por Freud como o herdeiro do complexo de Édipo80: A autoridade do pai ou dos pais é introjetada no ego e aí forma o núcleo do superego, que assume a severidade do pai e perpetua a proibição deste contra o incesto, defendendo assim o ego do retorno da catexia libidinal.81

Como se vê, o superego comporta uma instância de censura, sendo também veículo do ideal de ego; sendo que esse último diz respeito ao que se espera de si projetado no futuro. Nas palavras de Freud, uma das funções do superego ―É também [ser] o veículo do ideal do ego, pelo qual o ego se avalia, que o estimula e cuja exigência por uma perfeição sempre maior ele se esforça por cumprir.‖82. Assim como a censura é formada pela introjeção da autoridade dos pais, o ideal do ego também é um ―precipitado da antiga imagem dos pais‖83; numa visão ainda precoce, a criança atribui aos pais uma perfeição que também será introjetada.

No trabalho ―O Ego e o Id‖, Freud afirma não ver razão para não utilizar o termo repressão para esse movimento de afastamento do ego em relação ao complexo de Édipo. Entretanto, reitera que se trata de algo mais do que uma repressão; o ideal seria antes uma ―abolição ou destruição‖ do complexo. ―Se o ego, na realidade, não conseguiu muito mais que uma repressão do complexo, este persiste em estado inconsciente no id e manifestará mais tarde seu efeito patogênico.‖84

Tendo em vista que a constituição do superego é algo tardio, uma vez que se trata de uma herança do complexo de Édipo, que fora destruído ao final da primeira infância, como compreender a manifestação de repressões em crianças de tenra idade? Conforme propõe Freud, estas acabam por assimilar o superego de seus pais:

80 FREUD, S. (1923) “O Ego e o Id”, p. 48.

81 Idem. (1924), “A Dissolução do Complexo de Édipo”, p. 196.

82 Idem. (1933 [1932]) “Conferência XXXI – A Dissecção da Personalidade Psíquica”, p.70. 83 Ibid., p. 70.

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[...] o superego de uma criança é, com efeito, construído segundo o modelo não de seus pais, mas do superego de seus pais; os conteúdos que ele encerra são os mesmos, e torna-se veículo da tradição e de todos os duradouros julgamentos de valores que dessa forma se transmitiram de geração em geração.85

Há, portanto, um processo de identificação do sujeito com aspectos egoicos e superegoicos de seus pais na constituição e funcionamento de seu psiquismo.

São os complexos de Édipo e de castração que promovem, assim, a saída identificatória do sujeito. E será a partir da castração simbólica que a criança elegerá seus objetos de amor e de identificação.

O período de latência sucede a fase fálica ou da organização genital infantil. Nele, há um deslocamento das pulsões sexuais, antes dirigidas às figuras parentais, para outros objetos. Não se trata de uma interrupção no desenvolvimento sexual infantil – uma vez que as crianças apresentam manifestações sexuais neste período –, mas há uma calmaria em relação ao período pré-genital e genital infantil que o antecedem. Para Laplanche, a interdição promovida pelo complexo de castração não incide na sexualidade como um todo, uma vez que:

[...] embora proibindo aparentemente toda atividade sexual, é a atividade sexual incestuosa em relação à mãe que é implicitamente proibida, no inconsciente – ao mesmo tempo o da criança e o do adulto.86

Com a presença do recalque promovido pelo ego, o pudor e as aspirações sociais entram em cena, e os investimentos objetais são transformados em identificações com os pais.

A partir de agora a puberdade será o próximo momento no desenvolvimento psicossexual. Esse período é caracterizado pelas transformações corporais decorrentes da maturação sexual, havendo também uma revivescência de conflitos edipianos. Na puberdade a organização genital adulta completa o desenvolvimento libidinal: estádio oral, estádio anal, fase fálica, período de latência e fase genital.

85FREUD, S. (1933 [1932]) “Conferência XXXI –A Dissecção da Personalidade Psíquica”, p. 72. 86 LAPLANCHE, J. (1974)

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Segundo Freud ―Reservamos o nome de fase genital para a organização sexual definitiva, que se estabelece após a puberdade [...]‖87.

É ainda na adolescência que se estabelece a configuração quanto à identificação e à escolha objetal do sujeito. Ressalto que o termo escolha, tal como Laplanche e Pontalis interpretam, ―Evoca o que pode haver de irreversível e de determinante na eleição pelo sujeito, num momento decisivo da sua história, do seu tipo de objeto de amor‖88.

Acerca da relação entre identificação e escolha objetal, para Freud:

Identificação e escolha objetal são, em grande parte, independentes uma da outra; no entanto, é possível identificar-se com alguém que, por exemplo, foi tomado como objeto sexual, e modificar o ego segundo esse modelo.89

A identificação consiste assim na ação de ―assemelhar um ego a outro ego‖90, assimilando características deste último. Funcionando, portanto, como uma forma de vinculação à outra pessoa. A escolha objetal, porém, não promove necessariamente uma modificação no ego do sujeito tal como a identificação. Freud expõe com clareza a diferença do impacto sobre o ego daquilo que se conhece por objeto de escolha amorosa e objeto de identificação.

Se um menino se identifica com seu pai, ele quer ser igual a seu pai; se fizer dele o objeto de sua escolha, o menino quer tê-lo, possuí-lo. No primeiro caso, seu ego modifica-se conforme o modelo de seu pai; no segundo caso, isso não é necessário.

Há também a possibilidade do ego ser modificado segundo o modelo de seu objeto de escolha amorosa: quando uma pessoa perde um objeto que lhe é caro, pode assumir uma identificação com o mesmo, a fim de restabelecê-lo no ego, tratando-se assim de uma regressão da escolha objetal à identificação.

87 FREUD, S. (1924) “A Dissolução do Complexo de Édipo”, p. 101.

88 LAPLANCHE, J. & PONTALIS, J. B. (1982). Vocabulário da Psicanálise, p. 154, grifo meu. 89 Ibid., p. 69.

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As figuras parentais representam um protótipo da escolha objetal, no entanto, a partir da resolução edípica e da assunção da castração, espera-se que o menino possa renunciar ao desejo parricida e incestuoso, recalcando com isso a hostilidade dirigida ao pai e substituindo o desejo incestuoso pelo desejo por outras pessoas. A castração vem interditar apenas uma das mulheres, a mãe, e a partir daí, abrir o campo do desejo às outras mulheres.

Penso que algumas marcas desse primeiro romance ficam impressas de maneira a nortear o desejo no sentido de reencontrar ao menos alguns aspectos do primeiro objeto amoroso em seus substitutos.

No texto "Psicologia de Grupo e a Análise do Ego"91, Freud descreve ―três fontes‖ do processo de identificação, que podem estabelecer relação direta ou indireta com o objeto sexual:

1) identificação como ―a forma original de laço emocional com um objeto‖92, na qual há uma qualidade emocional comum; trata-se da identificação primária;

2) identificação regressiva, na qual a identificação toma o lugar da escolha de objeto que regride para a identificação. Aqui Freud toma como exemplo o caso Dora, que imita a tosse do pai, ou seja, houve uma introjeção de um aspecto do objeto amoroso: ―[...] o ego assume as características do objeto.‖93

3) identificação a partir da percepção de uma qualidade partilhada com uma pessoa ou grupo que não tenha relação direta com o objeto sexual – ―Quanto mais importante essa qualidade comum é, mais bem-sucedida pode tornar-se essa identificação parcial, podendo representar assim o início de um novo laço.‖94. Freud exemplifica essa modalidade com a história de uma moça que, estando internada num convento, recebeu uma carta de amor que lhe despertou forte sentimento de ciúme, fazendo eclodir sintomas histéricos; assim, as companheiras de convento, identificadas com o desejo de estar na mesma posição (vivendo uma situação

91 FREUD, S. (1921). “Psicologia de Grupo e Análise do Ego”, p. 117. 92 Ibid., loc. cit.

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amorosa), teriam assimilado os mesmos sintomas histéricos manifestados pela

primeira, como numa ―infecção mental.‖95 As possibilidades de identificação não consideram apenas o modelo positivo

do complexo de Édipo (menino identificado com o pai). Freud não hesitou em destacar que tal modelo não seria o mais comum, ―mas representa antes uma simplificação ou esquematização que é, sem dúvida, frequentemente justificada para fins práticos. [...] o complexo de Édipo mais completo, [...] é dúplice, positivo e negativo‖96. Isso significa dizer que o processo de identificação comporta uma fase onde o menino também se identifica com aspectos da mãe, que podem ou não culminar numa homossexualidade. Desta forma, o processo de identificação inclui prioritariamente elementos dos dois objetos de identificação: pai e mãe e secundariamente de outras pessoas.

Assim, entendo que tanto a identificação materna, quanto a paterna - esta última de maneira privilegiada - estão presentes na constituição de uma identidade masculina. A escolha objetal também transita entre os objetos materno e paterno, contudo, na saída identificatória masculina, o sujeito deve conservar a mãe como protótipo da escolha objetal.

A regressão da libido – da escolha de objeto ao narcisismo –, ilustrada por Freud no estudo sobre Leonardo da Vinci (1910), pressupõe uma identificação com a mãe, na medida em que Leonardo teria elegido como objeto de amor sujeitos a sua semelhança – escolha narcísica de objeto – a fim de reproduzir o modelo de amor de sua mãe por ele.

A escolha de objeto de um sujeito adulto é o resultado de um processo complexo que pode resultar num tipo de escolha anaclítica ou narcísica de objeto. Tanto na escolha anaclítica, que se apoia no modelo de amor oferecido pelos pais, como na escolha narcisista, que busca no outro aspectos de seu próprio ego, a pessoa pode conservar características do primeiro romance vivido com o casal parental, haja vista que Leonardo da Vinci repetiu, na interpretação de Freud, o

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