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Rev. Bioét. vol.25 número1

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Academic year: 2018

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Bioéica, pesquisa qualitaiva e equilíbrio relexivo

Carlos Dimas Marins Ribeiro

Resumo

Trata-se de estudo de natureza teórica, em que se pretende discuir o uso do equilíbrio relexivo no processo de análise de dados em pesquisa qualitaiva em bioéica. Na primeira parte é discuido o papel da pesquisa qualitaiva em bioéica. Na segunda parte é analisado o uso desse procedimento nesses estudos. O equilíbrio relexivo é uma forma de jusiicação moral que objeiva o ajustamento mútuo entre a teoria éica adotada pela pesquisa, os julgamentos morais considerados pelo(s) pesquisador(es) e a experiência moral dos par

-icipantes da pesquisa, pressupondo certos fatos moralmente relevantes, de forma a tecer rede de crenças coerente entre esses componentes. Nesse processo, tanto a teoria éica como a experiência moral podem ser passíveis de críica.

Palavras-chave: Bioéica. Pesquisa qualitaiva. Análise de dados. Análise éica.

Resumen

Bioéica, invesigación cualitaiva y equilibrio relexivo

Se trata de estudio de naturaleza teórica, en el que se pretende discuir el uso del equilibrio relexivo en el proceso de análisis de datos en la invesigación cualitaiva en bioéica. La primera parte analiza el papel de la invesigación cualitaiva en la bioéica. En la segunda parte, se trata el uso de este procedimiento en estos estudios. El equilibrio relexivo es una forma de jusiicación moral que iene como objeivo lograr un ajuste mutuo entre la teoría éica adoptada en la invesigación, los juicios morales considerados por el/los invesi

-gador/es y la experiencia moral de los sujetos de invesigación, asumiendo ciertos hechos como moralmente relevantes, de manera tal de tejer una red de creencias coherente entre estos componentes. En este proceso, tanto la teoría éica como la experiencia moral pueden ser objeto de críica.

Palabras clave:Bioéica. Invesigación cualitaiva. Análisis de datos. Análisis éico.

Abstract

Bioethics, qualitaive research and relecive equilibrium

This is a theoreical study where we intend to discuss the use of relecive equilibrium in data analysis process in qualitaive research in bioethics. The irst part discusses the role of qualitaive research in bioethics. In the second part we analyze the use of this procedure in those studies. Relecive equilibrium is a type of moral jusiicaion with the purpose of mutual adjustment between the adopted ethical theory research, moral judgments taken into consideraion by researcher(s) and moral experience of research subjects, assuming certain morally relevant facts in order to weave a coherent network of beliefs between these components. In this case, both ethical theory and moral experience can be open to criicism.

Keywords:Bioethics. Qualitaive research. Data analysis. Ethical analysis.

Doutor [email protected] – Universidade Federal Fluminense (UFF), Rio de Janeiro/RJ, Brasil.

Correspondência

Praia José Bonifácio, 47/102, Paquetá CEP 20396-140. Rio de Janeiro/RJ, Brasil.

Declara não haver conlito de interesse.

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O papel da pesquisa qualitaiva em bioéica

A bioéica, como uma das vertentes da éica aplicada, pode ser deinida como campo teórico e práico caracterizado pela complexidade, envolven

-do diversos objetos de estu-do, referenciais teóricos, métodos e agentes sociais, seja da academia ou de organizações da sociedade civil. Tem como objeivo geral descrever e analisar problemas éicos relaivos às práicas sociais e seus efeitos sobre a vida humana e, de modo mais abrangente, a vida nas suas várias manifestações, bem como as moralidades que as sustentam. Em bioéica, a invesigação empírica – e, em paricular, a pesquisa qualitaiva – tem sido cada vez mais uilizada, embora seja modalidade recen

-te 1. Muitos de seus objetos de estudos envolvem

conhecimento sobre moralidades de grupos sociais em relação a práicas sociais.

Do ponto de vista metodológico, diversos procedimentos podem ser uilizados em pesquisas qualitaivas em bioéica, como a etnometodologia 2

e a hermenêuica 3,4, entre outros 5,6, além de com

-binações entre eles 7,8. O objeivo deste arigo é

discuir o equilíbrio relexivono processo de análise de dados em pesquisa qualitaiva em bioéica, es

-peciicamente a modalidade de pesquisa que adota análise de conteúdo em sua vertente temáica. Não é objeivo deste arigo discuir os vários métodos qualitaivos disponíveis em bioéica, mas apenas sugerir procedimento que, em combinação ou não com outros processos e técnicas, pode ser adotado nessas invesigações.

Deve-se disinguir entre pesquisa empírica, que pretende explicar ou compreender a realidade social, e pesquisa normaiva, que procura fazer jul

-gamentos sobre essa realidade. Em suma, dois usos da linguagem: um descriivo, que expressa nossas crenças em relação ao mundo, pertencente ao âm

-bito de registro discursivo que concerne à verdade (fatos); e um normaivo, que se refere ao modo como o mundo deveria ser, pertencente ao cha

-mado vocabulário moral (valores) 9. Não é objeivo

deste arigo debater essa disinção, restringindo-se apenas a apresentar de forma breve as várias manei

-ras de integrar invesigação empírica e normaiva, considerando a pesquisa qualitaiva em bioéica.

Existem várias maneiras de integrar pesquisa empírica e teoria moral 6. Ives e Draper 10 ideniicam

duas abordagens para a bioéica, com propósi

-tos diferentes: a “bioéica ilosóica” e a “bioéica orientada para a políica ou práica” 10. Esta úlima

se subdivide em suas versões, “normaiva” e “des

-criiva”, sendo a primeira engajada na teorização

do que devem ser as práicas sociais e políicas públicas especíicas, enquanto a úlima seria como uma “sociologia da bioéica”, e descreve como o ra

-ciocínio bioéico concretamente ocorre em vários contextos 10.

Molewijk e colaboradores 11 classiicam em

cinco as abordagens para integrar “descriivo” e “normaivo” em bioéica: éica aplicada prescrii

-va; abordagem teórica; abordagem paricularista; éica aplicada prescriiva; éica aplicada críica; e éica empírica integrada 11. Essa classiicação está

baseada na questão de saber se, na análise de um problema concreto de invesigação, o arbítrio úli

-mo seria a teoria éica ou a experiência -moral de grupos sociais especíicos em relação a determina

-da práica social. Como se perguntam esses autores,

se a moralidade da práica social e a teoria moral não estão de acordo entre si, quem deve se adaptar: práica social, teoria moral, ambas ou nenhuma? 12.

Para a éica aplicada prescriiva, dados empí

-ricos nunca causam ajustamentos de teoria moral; seu propósito é garanir que a função prescriiva da teoria moral opere 12. Para a abordagem teórica, os

resultados da pesquisa empírica têm valor instru

-mental, como meio para melhorar uma teoria éica. Mas os dados empíricos apenas podem provocar reinamentos na teoria moral, já que a essência de uma teoria moral não muda 12. A abordagem par

-icularista não pretende conectar a moralidade de uma práica social a uma teoria moral 13, sendo a

primeira o único arbítrio. Nessa perspeciva, dados empíricos não têm apenas função instrumental; são essenciais para interpretar e explicar a moralidade de uma práica social paricular 13.

A éica aplicada prescriiva e a abordagem teó-rica são caracterizadas pela interação de mão única entre teoria moral e dados empíricos. Consideram a sequência éica aplicada prescriiva teoria moral a dados empíricos  abordagem teórica; ou seja,

parindo de dados empíricos até teoria moral. Essas abordagens airmam que a teoria moral é arbítrio úlimo, gerando aitudes paternalistas em relação à moralidade de uma práica social. A abordagem pari

-cularista negligencia a função críica da teoria moral. A quarta abordagem, a éica aplicada críica, incorpora a função críica tanto da éica para os da

-dos empíricos quanto destes em relação à éica, não reconhecendo, nem nas teorias morais, nem na mo

-ralidade de uma práica social, o arbítrio úlimo. Se não entram em acordo entre si, tanto uma como ou

-tra podem estar sujeitas a modiicações. Contudo, essa abordagem mantém a disinção entre descrii

-vo e normai-vo 11.

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Finalmente, a úlima abordagem é a éica empírica integrada. Essa perspeciva propõe inten

-sa cooperação entre éica e ciência, não podendo ser caracterizada como abordagem inteiramente normaiva nem descriiva. Para a éica empírica inte

-grada não existe disinção entre fatos e valores, mas interdependência fundamental entre eles e entre empírico e normaivo 11. Para os autores, éica em

-pírica integrada representa hibridização teórica das disciplinas normaivas e empíricas 14 para consituir

novo campo de pesquisa e estabelecer uma ponte no abismo formado entre descriivo e normaivo. No entanto, airmam que não desejam realizar uma integração radical para criar uma unidade teórica abrangente 14. Para essa abordagem, fatos produ -zidos pelas ciências “descriivas” são entrelaçados com valores epistêmicos especíicos da disciplina 14 e toda teoria moral está inerentemente baseada em “suposições empíricas de fundo” 14.

Por outro lado, o trabalho de Leget, Borry e Vries 1 defende a éica aplicada críica, argumen

-tando que a éica empírica integrada se contradiz. Isso porque, por um lado, a éica empírica inte

-grada sustenta que fatos e valores não podem ser disinguidos e que o empírico e o normaivo devem consituir um novo híbrido 15; no entanto, explica

esse novo híbrido recorrendo à disinção que pre

-tende superar. Como consequência metodológica,

a inter-relação críica entre ciências sociais e éica normaiva se perde 15. Nem o normaivo pode ser

criicamente abordado pela pesquisa empírica, nem as implicações normaivas desta úlima podem ser criicamente examinadas. Para esses autores,deve

--se coninuar a disinguir o empírico do normaivo como dois focos independentes que, com coopera

-ção interdisciplinar, favorecem o desenvolvimento da bioéica.

Sem negar as diferenças entre essas várias perspecivas da uilização da pesquisa empírica em bioéica, ampla disinção pode ser feita entre abor

-dagens que parecem derivar prescrições éicas de resultados de pesquisas sociológicas 16, entre outras,

e aquelas que incorporam essas invesigações na jusiicação éica. Entre estas inclui-se a perspeciva discuida neste arigo 17. Kon avalia que a pesquisa

empírica pode contribuir para a bioéica em quatro níveis, enfaizando, sobretudo, a atenção à saúde ou bioéica clínica 18.

O primeiro inclui estudos que procuram deinir práicas correntes, opiniões, crenças ou outros as

-pectos que podem ser considerados como o status

quo 19, consituindo uma sociologia da moral. O se

-gundo contribui mediante pesquisas que pretendem

avaliar em que medida determinada práica social, como a práica clínica, relete determinado ideal. O terceiro contempla invesigações que procuram encontrar modos de resolver os problemas iden

-iicados no nível anterior. E o quarto baseia-se no trabalho dos três níveis anteriores, usando os conhecimentos obidos para formar as bases dos argumentos bioéicos para mudar normas éicas 18.

Análise de conteúdo e equilíbrio relexivo em bioéica

Inicialmente vamos apresentar, de modo ge

-ral, o procedimento do equilíbrio relexivo, para em

seguida examinar sua uilização na análise de con

-teúdo em sua modalidade temáica. O equilíbrio relexivo foi proposto inicialmente por Rawls em seu livro “Uma teoria de jusiça” 20, cujo objeivo foi ela

-borar uma concepção políica de jusiça para aplicar à estrutura básica de sociedades democráicas. Nesse senido, o equilíbrio relexivo foi usado como método argumentaivo para desenvolver e jusii

-car princípios de jusiça para regular as insituições e práicas que compõem essa estrutura. Posterior

-mente, o procedimento passou a ser uilizado por outros autores para propósitos disintos 21.

De modo geral, o equilíbrio relexivo pode ser caracterizado como processo de fundamentação voltado para o desenvolvimento de teoria moral, seleção de princípios éicos ou decisão sobre proble

-mas práicos 21. Trata-se de processo de jusiicação

éica em que se busca ajustamento ou apoio mútuo entre crenças morais e não morais, formando uma rede de crenças coerente. Para efeito de argumen

-tação, estamos denominando “crença” um conjunto muito amplo de formulações, que incluem argu

-mentos, julga-mentos, visões, noções, concepções, conceitos e categorias, sejam referidos a descrição do mundo ou a julgamento sobre ele. A qualidade desse processo deve ser avaliada em relação à 1) amplitude das crenças consideradas e 2) coerência alcançada.

Nesse processo não se objeiva produzir cer

-tezas, mas construir a mais ampla e coerente rede de crenças possível, conigurando equilíbrio sempre instável ou provisório, permanentemente aberto a revisões. Essa perspeciva facilita o diálogo entre teo ria e práica por não designar status preferencial para nenhuma dessas dimensões no problema de pesquisa 22. Disingue-se equilíbrio relexivo amplo

e restrito considerando dois critérios: 1) amplitude das crenças morais e não morais que o consituem;

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e 2) paricipação dos diferentes sujeitos sociais en

-volvidos no processo 23,24. Em relação ao primeiro

critério, o equilíbrio relexivo restrito é formado pelos julgamentos morais relaivos ao problema es

-pecíico de invesigação e pela teoria éica adotada na pesquisa. No equilíbrio relexivo amplo busca

--se testar julgamentos morais contra várias teorias éicas. Em relação ao segundo critério, o equilíbrio relexivo será restrito ou amplo em razão da diversi

-dade de sujeitos sociais envolvidos no processo. Diante de problemas de pesquisa deve-se buscar ouvir diferentes vozes, caracterizando um equilíbrio relexivo que não inclua apenas o pes

-quisador, mas outros atores sociais. Na pesquisa qualitaiva podemos colocar num polo uma inves

-igação em que o processo do equilíbrio relexivo é realizado, fundamentalmente, pelos pesquisadores, de modo que a experiência moral do entrevistado é basicamente usada para enriquecer a jusiicação éica do pesquisador. No outro, pesquisas (como a pesquisa-ação), em que se amplia a paricipação dos sujeitos sociais no processo em seus diferentes momentos 25,26.

Neste senido, podemos pensar em “equilíbrio relexivo privado”, como no caso de Rawls, ou em “equilíbrio relexivo contextual”, como propõe Wal

-zer, citado por Wolf e de-Shalit, em que o processo é fundamentalmente realizado pelo pesquisador e recai prioritariamente sobre suas experiências morais e teorias éicas 24. Mas, diferentemente, po

-demos conceber também um “equilíbrio relexivo público”, em que as crenças e teorias consideradas são derivadas de amplas fontes que paricipam efei

-vamente do processo de jusiicação éica. Incluem, entre outros sujeitos sociais, proissionais de saúde, o público geral, aivistas, ilósofos, antropólogos e usuários dos serviços de saúde 24.

Depois de apresentar brevemente o proce

-dimento do equilíbrio relexivo, passemos a sua aplicação no campo da pesquisa qualitaiva em bio

-éica, especiicamente nos estudos que adotam a análise de conteúdo na sua modalidade temáica. A análise de conteúdo é um dos métodos usados tanto em pesquisas qualitaivas como em invesiga

-ções quanitaivas 27,28. Surgiu nos Estados Unidos no

começo do século XX, voltada inicialmente para es

-tudos de comunicação de massas e, como observa Bardin, sua mais importante autora, até a década de 1950 predominou seu aspecto quanitaivo 29.

Existem várias maneiras de se adotar esse mé

-todo em pesquisas qualitaivas, incluindo diversas técnicas de análise, como a “análise da enuncia

-ção” ou “análise proposicional do discurso” 29.

Novamente, neste arigo não temos o objeivo de discuir as várias modalidades, mas apenas apresen

-tar, de modo geral, as etapas da análise de conteúdo para mostrar como o equilíbrio relexivo pode ser uilizado nas invesigações qualitaivas em bioéica.

A análise de conteúdo é um dos métodos uilizados para examinar dados textuais, como os oriundos de entrevistas, diários de trabalho de cam

-po, vídeos etc. Para aingir os objeivos deste arigo, a análise de conteúdo, na modalidade temáica, será apresentada, considerando três momentos essen

-ciais de qualquer processo de pesquisa: 1) pesquisa exploratória, representada pela elaboração do pro

-jeto de invesigação; 2) trabalho de campo; e 3) análise do material empírico.

A pesquisa exploratória consiste em determi

-nar o tema da invesigação, delimitar o problema a ser estudado, deinir o objeto e objeivos, escolher fontes e técnicas de coleta de dados e deinir a téc

-nica de análise dos dados, dentro de marco teórico conceitual, consituído por determinadas teorias e conceitos. Teorias são um conjunto inter-relaciona

-do de princípios, conceitos, teses e hipóteses que permitem interpretar a realidade empírica ou ex

-plicar os fenômenos sociais, oferecendo esquema conceitual. Conceitos, por sua vez, deinem forma e conteúdo da teoria, consituindo-se suas vigas mestras. Categorias são um ipo de conceito que permite pensar a realidade concreta de forma hie

-rarquizada, operando ordenação dos processos e relações sociais 30.

O tema da pesquisa indica a área de interes

-se ou campo de práicas e teorias cujas questões incitam a curiosidade cieníica, referindo-se a de

-limitação bastante ampla que situa o objeto ou problema sobre o qual se pretende produzir conhe

-cimentos. A deinição do problema ou do objeto de invesigação é fruto do processo de problema

-ização e de aprofundamento do tema, gerando as perguntas que se quer estudar. Estas são funda -mentais, apontando para uma ou mais unidades

de análise (grupos de indivíduos, políicas públicas, organizações etc.), que consituem o objeto do es

-tudo. Trata-se de processo de delimitação em que o objeto ou problema é um recorte da realidade social em sua totalidade 31.

O trabalho de campo inclui coleta de dados, transcrição de gravações e armazenamento de da

-dos. Ressalta-se que o campo de pesquisa expressa a delimitação do objeto, em termos dos grupos sociais que se almeja estudar, situados em deter

-minado espaço e tempo e convivendo em processo de interação social dinâmico. O campo é lugar de

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encontro intersubjeivo entre pesquisador e grupo estudado 32. Finalmente, o momento de análise do

material empírico pode ser dividido em dois níveis principais 30. O primeiro diz respeito às determina

-ções fundamentais representadas pelo contexto econômico, social, políico e histórico do grupo so

-cial que se pretende estudar, deinidas no momento exploratório da invesigação. O segundo refere-se à análise em si dos dados empíricos, que pode ser dividida em três fases: 1) ordenação dos dados; 2) classiicação dos dados; e 3) análise inal.

Para a análise de conteúdo, o material empí

-rico ou texto bruto tem que passar por processo de codiicação. Para tanto, deve-se escolher as “uni

-dades de registro” e as “uni-dades de contexto” 29.

A unidade de registro corresponde ao segmento do texto considerado unidade de signiicação bási

-ca. Entre as diversas unidades de registro, o tema tem sido muito uilizado, paricularmente em pes

-quisas qualitaivas. Pode-se deinir o tema como airmação sobre determinado assunto ou “núcleo de senido” que se desprende do texto analisado, por causa de determinados critérios decorrentes das teorias e objeivos que compõem o problema de pesquisa 29.

Por outro lado, a unidade de contexto cor

-responde a segmento mais amplo do material, que permite compreender adequadamente o signii

-cado da unidade de registro. Além disso, os temas ideniicados devem ser classiicados e agrupados conforme critérios previamente deinidos. Essas categorias reúnem um conjunto de elementos te

-máicos organizados de acordo com caracterísicas

comuns, ao redor das quais a pesquisa pode se

de-senvolver e a compreensão do objeto de estudo se aprofundar. Pode-se ideniicar três fases nesse pro

-cesso de análise, representando graus progressivos de aprofundamento do conteúdo expresso no tex

-to em análise, nas quais novos conhecimen-tos são criados a parir dos dados coletados 27.

Na imersão, o pesquisador se dedica aos dados para obter visão de conjunto e ideniicar te

-mas e categorias. Na redução, os dados coletados são limitados àqueles relevantes para responder as questões de pesquisa, sendo reorganizados em categorias analiicamente úteis para a pesquisa. As categorias podem ser teóricas, quando elaboradas a parir de marco teórico conceitual da pesquisa, ou empíricas, quando surgem da fase de imersão, com

-pondo mapa conceitual no qual as categorias são organizadas umas em relação às outras. Finalmente, durante a interpretação, as categorias são discuidas com base na estrutura teórica da invesigação.

Em pesquisas qualitaivas em bioéica pode

-mos caracterizar dois momentos fundamentais, conforme sinteizado a seguir. Estamos assumindo a disinção entre moral e éica, compreendendo a primeira como práicas e valores parilhados que estruturam a vida coidiana de determinado grupo social, e a segunda – tomada como objeto de estu

-do – como relexão sobre a moral. A primeira será caracterizada, a seguir, como “experiência moral”, e a segunda refere-se às teorias éicas adotadas para se analisar as práicas sociais e a experiência moral relacionada 33:

Deinição do problema moral

As questões de pesquisa devem ser formu

-ladas de modo a requerer resposta de natureza normaiva, isto é, julgamento de valor relaivo a justo e injusto, bom e mau, certo e errado, que deve ser jusiicado. Problemas morais se referem aos mais variados objetos de estudo, mas para os propósitos deste arigo serão limitados a práicas sociais e experiência moral dos sujeitos sociais en

-volvidos nelas. Temos, portanto, práicas sociais, de um lado, e, de outro, julgamento moral sobre essas práicas, que pode, ou não, jusiicá-las ou fundamentá-las. Esse problema moral foi construí-do dentro de marco teórico conceitual que inclui, entre outras, as teorias éicas e seus conceitos espe

-cíicos. Nesse plano, trata-se, em úlima análise, da descrição da experiência moral – as jusiicaivas de determinadas práicas sociais – dos sujeitos-objetos da invesigação. Refere-se, portanto, à sociologia da moral 30.

Análise do problema moral

No processo de análise dos dados empíricos, o marco teórico conceitual é usado como ferramen

-ta críica ao mesmo tempo que é tes-tado, levando a reformulações ou a superação das teorias adota

-das e seus conceitos consituivos. Essa análise é caracterizada como processo de jusiicação moral, isto é, relaivo a julgamento de valor, e deve gerar conclusões normaivas em relação ao problema de pesquisa. Nesse momento, empreende-se críica da experiência moral, opondo o conjunto de crenças que consituem o marco teórico às crenças expres

-sas no material empírico coletado. Ressaltamos que a experiência moral é organizada em temas, envol

-vendo determinadas categorias. É nesse momento que o procedimento do equilíbrio relexivo pode ser empregado de modo mais intenso.

Existem várias versões do equilíbrio relexi

-vo e diversas maneiras de aplicá-lo à invesigação

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qualitaiva em bioéica. Na abordagem adotada aqui, consideramos três componentes fundamen

-tais do equilíbrio relexivo 10,34-36, delineados a seguir.

• Teoria éica adotada pela pesquisa, entre outras teorias relevantes para a invesigação;

• Experiência moral dos sujeitos de pesquisa, ex

-pressa nos comportamentos e crenças morais, em paricular os julgamentos em relação às prá

-icas sociais, entendidas como forma coerente e complexa de aividade humana cooperaiva, socialmente estabelecida (políicas públicas, ser

-viços de saúde, tecnologias médicas etc.) 37;

• Fatos moralmente relevantes de contexto espe

-cíico, compreendidos como componentes da si

-tuação que podem igurar como uma razão nos

julgamentos éicos sobre o problema moral, ob

-jeto de invesigação 38.

Na perspeciva deste trabalho, compreende

--se experiência moral como engajamento práico em um mundo local 39, em processo de interações

diárias que consitui, com outros componentes, a base social da condição humana. Esse mundo local é consituído por comunidade, redes de apoio social, serviços de saúde, vizinhança, família, entre outras insituições, e conigura espaço que agrega especii

-cidades culturais, políicas, econômicas, biológicas e psicológicas 39. A experiência moral refere-se ao que

é e o que não é parilhado, na qual o que impor

-ta tem signiicado coleivo e pessoal, concernente a determinados valores vividos. Nesse senido, a experiência moral diz respeito ao espectro de valo

-res – relaivos a certo e errado, bem e mal, justo e injusto – considerados pelos indivíduos como muito importantes e que podem estar sendo realizados ou violados na vida diária ou, ainda, estar em conlito uns com os outros 40.

Na experiência moral, as crenças morais po

-dem tomar a forma de “disposições incorporadas”, compreendidas como disposições pré-relexivas da vida social diária, não pensadas enquanto de

-sempenhadas. Podem igualmente se manifestar na forma de processos de problemaização sobre determinadas práicas sociais, em que as pes soas conscientemente avaliam o modo moralmente apropriado de ser ou agir no mundo social. Este úl

-imo caso pode ocorrer quando algum evento ou pessoa irrompe na vida diária de alguém, forçando

--a a releir sobre a resposta éica apropriada, como é o caso da paricipação em pesquisa 41.

Durante a invesigação, o processo do equilí

-brio relexivo se inicia considerando os julgamentos morais do(s) pesquisador(es), expressos no projeto

de pesquisa. Esses julgamentos funcionam como suposições ou hipóteses de trabalho, consituindo equilíbrio relexivo hipotéico sobre o problema de estudo, considerando-se determinados fatos moral

-mente relevantes e os conhecimentos de que o(s) pesquisador(es) dispõe(m) no momento 35. Esse

equilíbrio relexivo é ponto de parida para alcan

-çar novo equilíbrio relexivo, baseado no diálogo entre teoria éica e experiência moral dos sujeitos de pesquisa, pressupondo certos fatos moralmente relevantes, de forma que novos julgamentos morais possam ser construídos.

Podemos considerar esse processo como espi

-ral em que uma rede de crenças morais e não morais, tão ampla e coerente quanto possível, vai sendo progressivamente tecida no processo de jusiicação éica em relação a práica social determinada e sua moralidade. Kaufmann descreve processo seme

-lhante quando discute o aprofundamento da análise em pesquisa qualitaiva, no qual ocorre confronto entre o que ele denomina “saber global”, ou catego

-rias abstratas previamente deinidas, e “saber local”, ou “categorias naivas” oriunda dos dados empíri

-cos 32. Para esse autor, trata-se de um friccionar os conceitos entre eles, incessantemente, em todos os senidos, sejam eles modesta categoria naiva ou grande paradigma legíimo, ajustando-os e situan

-do-os em conjunto coerente 42.

Nesse processo, como dissemos, a teoria éica e a experiência moral vão sendo criicadas, com

-pondo novos julgamentos morais considerados. De modo geral, para a teoria moral sofrer modiicações substanivas e, ainda mais, ser superada, é neces

-sário acumular pesquisas teóricas e empíricas que extrapolem os limites das invesigações qualitaivas em bioéicas especíicas. A tessitura de uma rede de crenças morais e não morais (o mais inclusiva e coe-rente possível) pode levar a processos indeinidos de jusiicação éica da moralidade da práica social determinada.

Dessa forma, para tornar a pesquisa tra

-balhável e delimitada, atendendo a propósitos invesigaivos especíicos, é necessário selecionar os ipos de crença e requerimento metodológicos que serão incluídos, dependendo do problema de pes

-quisa 21. Nessa direção, podemos deinir um ponto

de referência para os propósitos da invesigação, em torno do qual o processo de jusiicação éica deve se mover. Esse ponto de referência pode ser alguma

coisa como o núcleo duro de elementos coerentes

da teoria éica adotada ou princípios-limite éicos. Ao redor dele busca-se tecer uma rede de crenças com a experiência moral dos sujeitos de pesquisa,

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de modo que a jusiicação desse núcleo duro ou

princípios-limite não depende somente da coerên

-cia, no âmbito da pesquisa especíica 36.

Creio que podemos limitar a pesquisa desse modo sem nos comprometer com a visão de que, em sua essência, uma teoria moral não muda, no contraponto com a experiência moral de determi

-nada práica social. Ou que o único arbítrio para o processo de jusiicação moral de uma práica social especíica é a moralidade dessa práica, não tendo a teoria moral qualquer função. Trata-se de ponto de parida provisório que se torna jusiicado se puder

ser suporte para e apoiado pela rede de crença te

-cida no processo de análise. No confronto da teoria éica com a experiência moral, esta pode oferecer novos princípios-limite ou elementos importantes

para compor o núcleo duro da teoria éica.

Considerações inais

Neste trabalho procuramos sugerir o uso do equilíbrio relexivo para se analisar conteúdo

em pesquisas qualitaivas em bioéica. Trata-se de processo de jusiicação éica baseado na consitui

-ção de uma rede de crenças morais e não morais, capaz de fundamentar moralmente determinada práica social. Essa rede deve ser tão ampla e coe

-rente quanto possível, composta da teoria éica e da experiência moral dos paricipantes da pesquisa, considerando-se fatos moralmente relevantes.

Esse procedimento pode ser uilizado sozi

-nho ou em conjunto com outros métodos, sendo também objeto de críica à medida que é usado. Trata-se de caminho metodológico que nos pare

-ce perinente de ser explorado em pesquisas de bioéica, cujos objetos referem-se não somente à descrição das práicas sociais, mas, essencialmen

-te, a julgamento éico sobre elas. Evidentemen-te, não diria que esse procedimento é adequado para todas as pesquisas desse ipo, nem que não tenha suas limitações como procedimento de jusiicação éica em pesquisas qualitaivas em bioéica. À me

-dida que se uiliza o método, é possível avaliar suas limitações, assim como ideniicar os objetos mais apropriados para seu uso.

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Recebido: 1º. 4.2016 Revisado: 20.10.2016 Aprovado: 20. 2.2017

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