Tribunal de Justiça de Minas Gerais
1.0105.13.033564-6/001
Número do Númeração 0335646-
Des.(a) Kildare Carvalho Relator:
Des.(a) Kildare Carvalho Relator do Acordão:
09/07/0020 Data do Julgamento:
03/08/2020 Data da Publicação:
EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL - RECURSO ADESIVO - AÇÃO DE REPARAÇÃO CIVIL - DANOS MORAIS - DEMORA PROLONGADA NA L I B E R A Ç Ã O D E C O R P O - A T R A S O N O S E P U L T A M E N T O - RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO - ART. 37, § 6º, DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA - FALHA NA PRESTAÇÃO DO SERVIÇO - DEVER DE INDENIZAR - QUANTUM INDENIZATÓRIO - RAZOABILIDADE - CONSECTÁRIOS LEGAIS - HONORÁRIOS DE SUCUMBÊNCIA Em se tratando de ente público, a responsabilidade civil é objetiva, nos termos do artigo 37, § 6º, da Constituição da República, sendo, no entanto, imprescindível a demonstração da ocorrência de um ato ilícito, de um dano e do nexo de causalidade entre ambos. A demora injustificada na liberação do corpo, a fim de que fossem prestadas as homenagens póstumas, caracteriza o dever de indenizar do Estado pelos danos morais experimentados pelos familiares. Na fixação do quantum indenizatório, deve o magistrado se ater às circunstâncias do caso concreto, visando preservar o caráter punitivo e educativo de que se reveste a indenização, e, ainda, atenuador do infortúnio experimentado pela vítima, sem que isto implique, contudo, seu enriquecimento sem causa. Na fixação dos honorários advocatícios de sucumbência, nas causas em que vencida a Fazenda Pública, deve o magistrado observar os critérios objetivos previstos no artigo 85, do Código de Processo Civil. A correção dos valores devidos pela Fazenda Pública em razão de condenação deve observar o disposto no artigo 1º-F, da Lei n.
9.494/97, com redação dada pela Lei n. 11.960/2009, até a data de 25/03/2015, a partir de quando deve ser aplicado o IPCA-E a título de correção monetária, por força da modulação dos efeitos determinada pelo Supremo Tribunal Federal, no julgamento da ADI 4425.
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APELAÇÃO CÍVEL Nº 1.0105.13.033564-6/001 - COMARCA DE GOVERNADOR VALADARES - APELANTE(S): ESTADO DE MINAS GERAIS - APTE(S) ADESIV: DEILDO SOARES NUNES JUNIOR E OUTRO(A)(S), MARIA DA CONCEIÇAO COSTA NUNES - APELADO(A)(S):
ESTADO DE MINAS GERAIS, DEILDO SOARES NUNES JUNIOR E O U T R O ( A ) ( S ) , M A R I A D A C O N C E I Ç A O C O S T A N U N E S - LITISCONSORTE(S: MUNICÍPIO DE GOVERNADOR VALADARES A C Ó R D Ã O
Vistos etc., acorda, em Turma, a 4ª CÂMARA CÍVEL do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, na conformidade da ata dos julgamentos, e m N Ã O C O N H E C E R D O R E E X A M E N E C E S S A R I O E N E G A R P R O V I M E N T O A O S R E C U R S O S
DES. KILDARE CARVALHO RELATOR.
DES. KILDARE CARVALHO (RELATOR)
V O T O
Trato de recurso de apelação e adesivo interpostos em face da r.
sentença de fls. 230/233v, proferida pelo MM. Juiz da 6ª Vara Cível da comarca de Governador Valadares que, nos autos da ação de reparação civil movida por Deíldo Soares Nunes Júnior e Maria da Conceição Costa Nunes contra o Município de Governador Valadares e o Estado de Minas Gerais, julgou procedentes os pedidos iniciais em relação ao Estado, e condenou-o ao pagamento de indenização por danos morais no valor de R$20.000,00
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dos autores, com correção monetária desde a publicação da sentença segundo os índices oficiais de poupança até 25/03/2015, momento a partir do qual passará a incidir o IPCA-E, e juros moratórios desde o evento danoso, conforme índices de remuneração da caderneta de poupança.
Condenou, ainda, aos autores e o Estado de Minas Gerais ao pagamento pro rata das custas processuais, isento o ente estatal das custas na forma da lei e suspensa a exigibilidade dos autores ante a concessão dos benefícios da justiça gratuita. Quanto aos honorários advocatícios, arbitrou-os em benefício do Município de Governador Valadares e em desfavor dos autores no patamar de 10% (dez por cento) sobre o valor atualizado da condenação, observada a concessão da gratuidade de justiça, bem como condenou o Estado de Minas Gerais ao pagamento de honorários no importe de 10%
(dez por cento), também sobre o valor da condenação, devidos aos patronos dos autores.
Inconformado, o Estado de Minas Gerais apela às fls. 238/246, à alegação de que o exame do corpo da filha dos autores pelo Instituto Médico Legal somente ocorreu em virtude da suspeita de homicídio, sendo que realização de todos os exames necessários perdurou por apenas 14h30m.
Defende, assim, que o tempo de permanência do corpo no instituto foi o estritamente necessário à averiguação da suspeita de crime, sem que haja qualquer indício da omissão de agentes públicos nos fatos narrados pelos requerentes.
Pela eventualidade, defende a inexistência de fundamento para exclusão do Município de Governador Valadares do polo passivo, haja vista que as razões adotadas pelo magistrado de origem também se aplicam à sua situação. Pugna, ainda, pela redução do valor arbitrado a título de indenização, forte no argumento de que a monta será retirada do erário público, e que o quantum indenizatório deve observar a condição social da vítima.
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Por fim, requer a fixação dos honorários advocatícios em patamar módico, nos termos do art. 85, § 3º, do CPC, bem como a aplicação da sistemática prevista na Lei nº 11.960/09 no que tange aos consectários legais da condenação.
Contrarrazões apresentadas pelos autores às fls. 254/265, pela manutenção da sentença objurgada.
Às fls. 278/288, os autores apresentam recurso adesivo, à alegação de que a falha no serviço público teria retardado a liberação do corpo da filha em mais de 35 (trinta e cinco) horas, o que permitiu a realização de velório em tempo exíguo, de apenas 3 (três) horas, em manifesto prejuízo às homenagens fúnebres pretendidas.
Afirmam que o Município de Governador Valadares deve ser responsabilizado solidariamente, haja vista que a prévia instalação de serviço de verificação de óbito (SVO) na comarca poderia ter impedido o envio do corpo ao IML e, de consequência, o retardo em sua liberação.
Pugnam, ademais, pela majoração do quantum indenizatório, ao argumento de que a monta não visa apenas reparar o abalo emocional sofrido, mas também coibir novas falhas na prestação do serviço pelos entes estatais.
O Estado de Minas Gerais apresentou contrarrazões ao recurso adesivo às fls. 304/305, enquanto o Município de Governador Valadares deixou transcorrer o prazo sem qualquer manifestação.
Instada a se manifestar, a Procuradoria-Geral de Justiça consignou a desnecessidade de sua intervenção no feito (fls. 316/317).
É o relatório.
Inicialmente, conquanto o magistrado de origem tenha determinado a remessa necessária, verifico que o caso em apreço não se enquadra nas regras relativas ao duplo grau de jurisdição
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obrigatório.
Isso porque o Estado de Minas Gerais foi condenado ao pagamento da quantia líquida e certa de R$40.000,00 (quarenta mil reais), monta sabidamente inferior a 500 (quinhentos) salários mínimos e que afasta a necessidade de reexame necessário, nos termos do art. 496, § 3º, inciso II do CPC:
Art. 496. Está sujeita ao duplo grau de jurisdição, não produzindo efeito senão depois de confirmada pelo tribunal, a sentença:
(...)
§ 3º Não se aplica o disposto neste artigo quando a condenação ou o proveito econômico obtido na causa for de valor certo e líquido inferior a:
I - 1.000 (mil) salários-mínimos para a União e as respectivas autarquias e fundações de direito público;
II - 500 (quinhentos) salários-mínimos para os Estados, o Distrito Federal, as respectivas autarquias e fundações de direito público e os Municípios que constituam capitais dos Estados;
III - 100 (cem) salários-mínimos para todos os demais Municípios e respectivas autarquias e fundações de direito público.
Assim, sendo, não conheço do reexame necessário.
Conheço dos recursos de apelação e adesivo, porquanto presentes os pressupostos de admissibilidade.
Por oportuno, ressalto que as matérias devolvidas a esta instância recursal serão analisadas conjuntamente, conforme sua prejudicialidade.
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Da controvérsia
Compulsando os autos, verifica-se que Rafaela Soares Nunes, filha dos autores de apenas 18 (dezoito) anos de idade, veio à óbito no dia 21/07/2012, às 22:17 (sábado), em decorrência de parada respiratória, hemorragia subaracnoide e aneurisma cerebral.
A jovem foi inicialmente encaminhada ao Hospital Municipal de Governador Valadares, onde, logo na entrada, foi constatado o óbito. No entanto, o quadro da vítima despertou dúvidas nos profissionais a respeito das circunstâncias que levaram ao evento, tendo em vista a possibilidade de que o quadro tivesse sido causado por envenenamento.
Assim, aguardou-se o envio do corpo ao Instituo Médico Legal para avaliação da causa do óbito, sendo que a entrada do féretro no IML de Governador Valadares somente ocorreu às 17:08 do dia 22/07/2012 (domingo).
Ato contínuo, foi elaborado o relatório de necropsia, cuja conclusão apontou morte por aneurisma cerebral roto, sem quaisquer indícios de agressão ou envenenamento (fl. 197/199vº). O corpo, então, foi liberado apenas no dia 23/07/2012 (segunda-feira), às 8:00, razão pela qual as homenagens fúnebres duraram apenas 3 (três) horas, ante o longo transcurso de tempo entre o óbito e a liberação do corpo, e consequente necessidade de sepultamento.
Da responsabilidade civil do estado
Pois bem, o artigo 37, § 6º, da Constituição da República de 1988, prevê regra acerca da responsabilidade civil do Estado. Confira-se:
"Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios
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obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte:
"omissis"
§ 6º - As pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa."
Sobre o tema, oportuna a lição de Celso Ribeiro Bastos:
"A teoria hoje sedimentada adota a responsabilidade do Estado de natureza objetiva, vale dizer, para a qual não se questiona o elemento subjetivo da culpa havida na conduta da pessoa estatal, mas apenas na relação causal entre o dano e o comportamento que o provocou e que se impute àquela entidade. Qualquer comportamento estatal, comissivo ou omissivo, havido no desempenho de atividade administrativa, legislativa ou judicial, material ou jurídico, pode ensejar a responsabilidade, não existindo mais, de forma sustentável, qualquer ressaibo de irresponsabilidade do Estado nos sistemas normativos vigentes." (in Comentários à Constituição do Brasil promulgada em 5 de outubro de 1988", 3º vol., Tomo III, Saraiva, pág. 186):
Partindo para o caso em espécie, verifica-se que, indiscutivelmente, a omissão do Estado de Minas Gerais em proceder a remoção do corpo do Hospital Municipal e posterior envio ao Instituto Médico Legal caracterizou o ato ilícito ensejador do dever de indenizar.
Em reportagem realizada cerca de cinco meses após os eventos narrados nos autos, é facilmente perceptível a precariedade do
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Instituto Médico Legal de Governador Valadares, em virtude da superlotação de corpos e condições precárias de funcionamento (fl. 44). A criticidade da situação foi evidenciada principalmente pelo remanejamento e exposição dos corpos às intempéries por até quatro dias, fato confirmado pelo próprio diretor do instituto à época (fl. 47).
Os depoimentos prestados sobre o crivo do contraditório também são esclarecedores em relação à desídia dos prepostos do apelante principal, bem como à situação precária de funcionamento do Instituto Médico Legal e o sofrimento dos pais diante da situação:
Deoclécio Francisco Ferreira Nunes (testemunha não compromissada) (fl.
168): QUE Rafaela só saiu do HM às 16:00 horas do dia 23 de julho de 2012, uma segunda-feira; QUE durante todo esse tempo o informante ficou trançando na Direção do Hospital, na Delegacia de Polícia e no IML, correndo atrás da liberação do corpo; QUE "um ficava jogando a culpa para o outro, eu ia na Delegacia e lá disseram que era o IML que teria que buscar o corpo, eu ia no IML e lá diziam que era o Hospital que tinha que liberar o corpo da Rafaela"; (...)
Maria Lúcia Marques dos Santos (fl. 169): QUE o corpo foi velado apenas 04 (quatro) ou 05 (cinco) horas por causa da demora na sua liberação; QUE a família não realizou as homenagens fúnebres, como missa ou culto; QUE os parentes que moravam em outras cidades não estavam presentes o velório;
(...) QUE o estado dos pais de Rafaela por conta da demora pela liberação do corpo "era de cortar o coração"; (...)
Gilceia Dias Silva Fraga (fl. 170) (...) QUE demorou muito para liberarem o corpo da Rafaela para o sepultamento; QUE eles diziam que era por causa da inexistência de perito no IML; QUE eles disseram também que toda morte precisava do corpo passar por um perito; QUE demorou 02 (dois) dias para eles liberarem o corpo para a família sepultar Rafaela; (...) QUE durante duas noites ninguém dormiu, nem os pais, nem os vizinhos, nem os parentes, nem os amigos; QUE foi tudo muito terrível; "QUE todos nós ficamos chocados com esse descaso terrível".
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O próprio médico responsável pelo primeiro atendimento da jovem fez importantes considerações sobre as condições do Instituto Médico Legal e sua influência na demora para liberação do corpo:
Alexandre Xavier Santos (fl. 191): (...) que não se recorda de datas específicas, mas houve época no IML que o depoente teve que ficar sozinho, por falta de médico, isto por um período aproximado de um ano; que como o depoente ficava sozinho a rotina de liberação era que os corpos que chegassem a noite eram liberados até as 09 horas da manhã do outro dia;
que o IML é que providencia a ida do corpo para a necropsia; (...)
Nesse contexto, é indiscutível que a demora de aproximadamente 18 (dezoito) horas para encaminhamento do corpo ao Instituto Médico Legal, associada à suspeita da prática de crime contra a filha de apenas 18 (dezoito) anos de idade, é suficiente à caracterização do abalo emocional sofrido pelos pais, que viram-se impedidos de prestar as homenagens fúnebres por período razoável.
Em casos análogos, no mesmo sentido, já decidiu este Tribunal:
EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE INDENIZAÇÃO - SERVIÇO FUNERÁRIO - ATRASO NA ENTREGA DO CORPO - AUSÊNCIA DE VEÍCULO PARA O TRASLADO - FALHA NA PRESTAÇÃO DO SERVIÇO COMPROVADA - DANO MORAL CONFIGURADO - INDENIZAÇÃO - FIXAÇÃO EM VALOR RAZOÁVEL. Comprovada a falha na prestação do serviço da ré, em razão do atraso na entrega do corpo no local do velório, em razão da ausência de veículo para a realização do traslado, deve ser reconhecida a responsabilidade da empresa funerária. O descumprimento do prazo de entrega do corpo no local previsto, com a consequente impossibilidade de realização de velório antes do sepultamento, ultrapassa em muito a categoria do mero aborrecimento, dando causa à configuração de um verdadeiro dano
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moral passível de reparação, em decorrência do desconforto, angústia, tristeza e aflição enfrentados pela companheira do de cujos. A indenização por danos morais deve ser arbitrada segundo critérios de razoabilidade e proporcionalidade, com observância das peculiaridades do caso e sempre tendo em vista os objetivos do instituto, quais sejam, compensar a vítima pelos prejuízos vivenciados, punir o agente pela conduta adotada e inibi-lo na prática de novos ilícitos. (TJMG - Apelação Cível 1.0480.11.014558-2/001, Relator(a): Des.(a) Arnaldo Maciel , 18ª CÂMARA CÍVEL, julgamento em 12/02/2019, publicação da súmula em 15/02/2019)
Ressalte-se, por oportuno, que a responsabilidade do ente estatal não se refere ao evento morte, nem tampouco ao período de aproximadamente 14 (quatorze) horas no qual o corpo permaneceu no Instituto Médico Legal para realização de necropsia. O ato ilícito consubstancia-se na inexplicável demora para remoção do corpo do Hospital Municipal para o instituto, período no qual os pais da jovem, já angustiados pela perda precoce, viram- se desprovidos de informações acerca de qual procedimento seria adotado e qual a destinação do corpo que intentavam velar.
Assim, a despeito das alegações do apelante principal, no sentido de que o procedimento teria transcorrido em prazo razoável, os elementos dos autos são categóricos em demonstrar a falha no serviço de envio do corpo à necropsia, não havendo falar-se em reforma da sentença ante a manifesta caracterização do dano moral.
Da responsabilidade do Município de Governador Valadares
Quanto às alegações dos apelantes principal e adesivo, no sentido de que o Município de Governador Valadares deveria ser solidariamente responsabilizado pelo abalo emocional experimentado pelos autores da demanda, tenho que não lhes assiste razão.
De início, cumpre salientar que, ao contrário do defendido pelo Estado de Minas Gerais, o ente municipal não foi excluído do polo passivo da lide. O magistrado singular reconheceu sua pertinência
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subjetiva para a demanda, mas não vislumbrou razões suficientes à sua condenação.
E nesse contexto, não há falar-se, de fato, em ato ilícito perpetrado pelo Município de Governador Valadares capaz de ensejar o dever de indenizar.
Isso porque, conforme consta dos autos, houve suspeita da prática de crime relacionado ao óbito da filha dos autores, inclusive com abertura de inquérito policial (fl. 85), o que demandava, obrigatoriamente, a intervenção do Instituto Médico Legal para averiguação da causa da morte.
Assim, não haveria como exigir-se da municipalidade a liberação do corpo, haja vista que os trâmites para deslocamento e realização de exames no IML, instituto que integra a estrutura orgânica da Polícia Civil (art. 17, § 1º, inciso IV da Lei Complementar Estadual nº 129/2013), são de responsabilidade exclusiva do Estado de Minas Gerais. A vítima foi prontamente atendida no nosocômio municipal, tendo sido, infelizmente, constatado o óbito logo na sua chegada, o que evidencia a inexistência de qualquer outra providência a ser adotada pela municipalidade (fl. 36).
Pelas mesmas razões, não encontra amparo a tese veiculada pelos autores em sede de recurso adesivo, no sentido de que a omissão da municipalidade em instalar o serviço de verificação de óbito (SVO) poderia ter obstado o retardo na liberação do corpo. Uma vez cogitada a prática de crime, o féretro seria enviado, de toda forma, ao Instituto Médico Legal, dada a obrigatoriedade de intervenção da instituição para realização de necropsia a ser encaminhada à Polícia Civil, nos termos do art. 8º da Portaria nº 1.405/2006, do Ministério da Saúde:
Art. 8º Os SVO serão implantados, organizados e capacitados para executarem as seguintes funções:
(...)
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II - transferir ao IML os casos:
a) confirmados ou suspeitos de morte por causas externas, verificados antes ou no decorrer da necropsia;
b) em estado avançado de decomposição; e c) de morte natural de identidade desconhecida;
Assim, de todo ângulo que se analise a questão, não estão presentes os elementos indispensáveis à caracterização do dever de indenizar do Município de Governador Valadares, razão pela qual mantém-se a improcedência dos pedidos iniciais em relação ao ente.
Do quantum indenizatório
Nas razões de sua insurgência, o Estado de Minas Gerais bate-se pela minoração do valor arbitrado, forte no argumento de que a monta deve ser condizente com o abalo experimentado e situação socioeconômica das vítimas. Por sua vez, os autores enfatizam a magnitude da dor experimentada pela demora na liberação do corpo, e pugnam pela majoração do quantum indenizatório.
Não obstante o tratamento dado ao tema, tanto no plano infra quanto no plano constitucional, é por todos conhecida a dificuldade encontrada pelo julgador na fixação do valor indenização por danos morais, em razão da subjetividade de que se reveste o assunto, porquanto impossível quantificar a redução do patrimônio imaterial da vítima do ato ilícito.
Assim, como já era esperado, deve o magistrado se ater às peculiaridades do caso levado à sua apreciação, especialmente no que tange às condições da vítima e do ofensor, e, também, ao entendimento jurisprudencial firmado acerca do tema.
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Vale dizer, tal fixação se reveste de caráter punitivo e educativo, na medida em que tem por escopo coibir a reiteração da prática ilícita, bem como atenuar o infortúnio experimentado pela vítima, sem que isto implique, contudo, enriquecimento sem causa, ou seja, o arbitramento da indenização deve ser permeado pela razoabilidade e pela proporcionalidade.
A propósito, o magistério de Felipe Peixoto Braga Netto, para quem "As circunstâncias são valiosas na justa caracterização dos valores, mas cabe à jurisprudência, especialmente a do STJ, fixar padrões, evitando injustiças e prestigiando a isonomia substancial. (in Manual de Direito do Consumidor à Luz da Jurisprudência do STJ. Salvador, 2016. Juspodivm. 11ª ed. rev., atual.
e ampl.; p. 222)
Oportuno, ainda, trecho do voto proferido pelo Ministro Antônio Carlos Ferreira, do Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do AgRg no REsp Nº 1.277.418/RS, ocorrido em sessão realizada pela Quarta Turma, aos 02/06/2016:
"O quantum indenizatório deve ser arbitrado em valor razoável, de modo a preservar a dupla finalidade da condenação, qual seja, a de punir o ato ilícito cometido e a de reparar o sofrimento experimentado pela vítima, considerando as peculiaridades subjetivas do caso."
Não se tem dúvidas quanto à dificuldade de se arbitrar o quantum indenizatório em casos como o presente, haja vista que o caso envolve o sentimento de perda de ente querido, cumulado ao descaso vivenciado na demora da liberação do corpo.
Todavia, atento à particularidade do caso, ao potencial econômico do requerido, à condição econômica da vítima, e, principalmente, ao entendimento fixado na jurisprudência desta Corte, e com o devido respeito às teses defendidas por ambas as partes, tenho que o valor de R$ 20.000,00 (vinte mil reais) para cada autor se mostra razoável e suficiente não só para atenuar o infortúnio suportado pelos requerentes, como, também, para tentar coibir o ente estatal da prática questionada.
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Dos honorários de sucumbência
Ao final de suas razões, o Estado de Minas Gerais pugna pela redução dos honorários sucumbenciais arbitrados em seu desfavor, ao argumento de que a verba deve ser fixada em patamares módicos.
No que tange aos valores fixados à título de honorários advocatícios de sucumbência, adequado se mostra o comando da sentença aos parâmetros previstos no artigo 85 do Código de Processo Civil.
Em se tratando de condenação inferior a 200 (duzentos) salários mínimos em desfavor da Fazenda Pública, incide a regra constante do art. 85, §2º c/c
§3º, inciso I, que preleciona o limite de 10 a 20% sobre o valor da condenação ou proveito econômico obtido para fixação de honorários sucumbenciais:
Art. 85. A sentença condenará o vencido a pagar honorários ao advogado do vencedor.
(...)
§ 2º Os honorários serão fixados entre o mínimo de dez e o máximo de vinte por cento sobre o valor da condenação, do proveito econômico obtido ou, não sendo possível mensurá-lo, sobre o valor atualizado da causa, atendidos:
I - o grau de zelo do profissional;
II - o lugar de prestação do serviço;
III - a natureza e a importância da causa;
IV - o trabalho realizado pelo advogado e o tempo exigido para o seu serviço.
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§ 3º Nas causas em que a Fazenda Pública for parte, a fixação dos honorários observará os critérios estabelecidos nos incisos I a IV do § 2º e os seguintes percentuais:
I - mínimo de dez e máximo de vinte por cento sobre o valor da condenação ou do proveito econômico obtido até 200 (duzentos) salários-mínimos;
Logo, verifica-se que o magistrado singular observou estritamente os parâmetros da legislação processual civil quando da fixação de honorários, arbitrando-os, inclusive, no limite mínimo de 10% (dez por cento), inexistindo razões, no caso ora em apreço, para fixação dos honorários por apreciação equitativa.
Dos consectários legais
Por fim, no que toca à correção dos valores a serem pagos pelo Estado de Minas Gerais, entendo, mais uma vez, correto o comando da sentença.
Conforme previsão do artigo 1º-F, da Lei n. 9.494/97, com redação dada pela Lei n. 11.960, de 29/06/2009, "nas condenações impostas à Fazenda Pública, independentemente de sua natureza e para fins de atualização monetária, remuneração do capital e compensação da mora, haverá a incidência uma única vez, até o efetivo pagamento, dos índices oficiais de remuneração básica e juros aplicados à caderneta de poupança."
Acontece que, no julgamento da ADI nº. 4425, cujo acórdão foi publicado aos 19/12/2013, o Supremo Tribunal Federal houve por bem declarar a inconstitucionalidade, por arrastamento, de parte do artigo 5º, da Lei n.
11.960/2009, em relação às expressões "independentemente de sua natureza", e "índices oficiais de remuneração básica (...) aplicados à caderneta de poupança", no tocante à correção monetária.
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O mesmo Supremo Tribunal Federal, entretanto, ao modular os efeitos da decisão declaratória de inconstitucionalidade de parte do artigo 5º, da Lei n.
11.960/2009, manteve a aplicação dos índices oficiais de remuneração básica aplicados à caderneta de poupança até 25/03/2015, e determinou que, após esta data, a correção monetária deverá observar o Índice de Preços ao Consumidor Amplo Especial - IPCA-E.
Desta forma, estando adequado à forma estabelecida por força de julgamento proferido pelo Supremo Tribunal Federal em ADI, abre mão de reparos a sentença quanto à forma de correção dos valores a serem pagos pelo Estado de Minas Gerais.
Ante o exposto, não conheço do reexame necessário e nego provimento aos recursos de apelação e adesivo, mantendo inalterada a sentença.
Em atenção ao disposto no art. 85, § 11, do CPC, majoro os honorários advocatícios devidos pelos autores em relação ao Município de Governador Valadares e aqueles devidos pelo Estado de Minas Gerais aos requerentes em 2% (dois por cento).
Custas recursais devidas pelos recorrentes em relação aos seus respectivos recursos, observada a isenção legal de que goza o Estado e a concessão dos benefícios da justiça gratuita aos autores.
DES. MOREIRA DINIZ - De acordo com o(a) Relator(a).
DES. DÁRCIO LOPARDI MENDES - De acordo com o(a) Relator(a).
SÚMULA: "NÃO CONHECERAM DO REEXAME NECESSARIO E NEGARAM PROVIMENTO AOS RECURSOS"