ARTHUR HENRIQUE PEREIRA
A CONSTRUÇÃO DA REALIDADE EM UMA CENA PSICODRAMÁTICA: ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Psicologia da Universidade Católica de Brasília, como requisito parcial para obtenção do Título de Mestre em Psicologia.
Orientadora: Dra. Ondina Pena Pereira
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 13
Capítulo 1 – ORIGEM E PRIVATIZAÇÃO DA SUBJETIVIDADE ... 15
Capítulo 2 - A ALIENAÇÃO E ADOECIMENTO DA SUBJETIVIDADE... 27
2.1 - A alienação... 30
2.2 - O adoecimento... 33
Capítulo 3 - O IMAGINÁRIO... 37
3.1 - Imaginário segundo Cornelius Castoriadis... 37
3.2 - Imaginário moreniano... 43
3.3 - Um olhar sobre a Gradiva de Jensen... 44
Capítulo 4 - MORENO E O MÉTODO PSICODRAMÁTICO... 51
Capítulo 5 - AS AVENTURAS DO PROTAGONISTA NO MUNDO PSICODRAMÁTICO... 59
5.4 - A revelação do protagonista... 82
5.5 - A trajetória psicodramática do protagonista... 86
CONSIDERAÇÃO FINAIS... 88
Capítulo 4 -Moreno e o método psicodramático
Ensino as pessoas como representar Deus (J. L. Moreno in Naffah Neto, 1997, p. 83)
As massas humanas sofrem de inquietação social e mental. Provavelmente, a catarse virá de novo de instrumentos que combinam a universalidade de método e grande praticabilidade. Um dos métodos mais promissores desenvolvidos (...) que
preencheu essas exigências é o método psicodramático(MORENO, 1997, p. 17).
O método psicodramático citado acima é um método ativo de psicoterapia, de grupo ou individual que foi criado e desenvolvido por Jacob Levy Moreno (1889 – 1974). Médico formado em 1917, Moreno, influenciado por pensamentos religiosos (judaísmo e cristianismo), por filosóficos (existencialismo, fenomenologia e humanismo) e pelo teatro desenvolve um projeto audacioso que tem como pretensão tratar de toda a humanidade, como ele mesmo comenta “um procedimento verdadeiramente terapêutico deve ter por objetivo toda a espécie humana” (MORENO, 1994, p. 119, vol. I).
Como dito anteriormente, Moreno se preocupava com o futuro da humanidade, por isso ele pretendia encontrar uma solução para a sobrevivência humana. Sua esperança só era possível graças a sua visão romântica e positiva, que o levava a crer que o humano é um ser em evolução e que o seu desenvolvimento está em sua capacidade de se relacionar consigo mesmo e com os demais seres humanos, ou seja, com a humanidade (comunidade, coletividade, público). Mas para o ser humano desenvolver a sua capacidade de relacionar, de compartilhar, ele precisa ser espontâneo e criativo, ser livre da automação e da conserva cultural.
Segundo Martín (1996), as conservas surgem da ansiedade do homem, querendo ter assegurada a sua resposta diante do desconhecido. E elas sufocam a espontaneidade, sendo que o esgotamento da espontaneidade, por sua vez, produz a doença psíquica.
O adoecer se expressa através de um papel indevidamente realizado pelo indivíduo, por duas razões: “ou porque a sociedade nos impõe a aceitação de funções vitais que não desejamos cumprir, criando um estado de permanente frustração, ou porque desempenhamos o papel que escolhemos, porém não como o desejaríamos desempenhar” (MARTÍN, 1996, p. 235). Para evitar ou tratar a doença psíquica, Moreno propôs a recuperação e a libertação da espontaneidade e da criatividade.
O conceito de espontaneidade nasceu juntamente com o psicodrama, de um ponto de vista psicológico, pois nesta abordagem o conceito de espontaneidade é o elemento catalisador de todo o processo terapêutico. Em psicodrama, o conceito de espontaneidade refere-se “a capacidade de agir de modo adequado diante de situações novas, criando uma resposta inédita ou renovadora ou, ainda, transformadora de situações preestabelecidas” (GONÇALVES, 1988, in PEREIRA, 2003, p. 20). Segundo J. L. Moreno, a espontaneidade, além de ser uma resposta nova a uma situação nova, também é uma resposta nova a uma situação antiga (1997). E Zerka Moreno afirma que:
A palavra “espontaneidade” vem do latim sua sponte, que quer dizer “de dentro de
si, em concordância consigo próprio”. Não deveria ser compreendida como comportamento impulsivo; muito pelo contrário. A espontaneidade relaciona-se com a tele e a reflexão, e também dá à pessoa a sensação de ser livre para agir de acordo com a situação. Ele/ela não se defrontam com uma nova situação com ansiedade, mas com o sentimento de ser capaz de controlá-la (MORENO, 2001, p. 39).
Para o ser humano executar a sua espontaneidade em suas relações, de acordo com Moreno, ele precisa atuar através do “eu-tangível”, ou seja, através do “eu-experimental”, que é o papel que desempenha na sociedade. Para contextualizar melhor sobre o papel, Moreno se inspirou no teatro e desenvolveu a teoria dos papéis. Em uma de suas definições, ele conceitua papel como “a forma de funcionamento que o indivíduo assume no momento específico em que reage a uma situação específica, na qual outras pessoas ou objetos estão envolvidos” (MORENO, 1997, p. 14).
desempenho dos papéis e os papéis surgem no interior da matriz de identidade que, para Moreno, constitui “a base psicológica para todos os desempenhos de papéis” (MORENO, 1997, p. 28).
Para a constituição do eu, juntamente com os papéis vão surgindo os “eus” parciais que vão se unificando. Os papéis que vão surgindo e sendo desempenhados, segundo Moreno, são três: papel psicossomático, papel social e papel psicodramático. E será incluído um quarto papel, sugerido por Naffah Neto (1997), o papel imaginário.
Os papéis psicossomáticos são os primeiros desempenhados pelo ser humano, são também os primeiros dentre os “papéis precursores do ego”. Os papéis psicossomáticos representam padrões de conduta ou funcionamento na satisfação das necessidades fisiológicas, tais como ingeridor, defecador, dormidor e outros. Com o tempo, a criança começa a imitar parte daquilo que observa, sem distinguir entre indivíduos e objetos da realidade e imaginário, e nem representar ou desempenhar papéis. Começa a surgir uma interação entre o indivíduo e os egos-auxiliares.
Na etapa seguinte, a criança começa a diferenciar entre coisas reais e coisas imaginadas, dando início ao que Moreno denominou “brecha entre fantasia e realidade” (MORENO, 1997, p.123). Dessa forma, há duas divisões: o mundo social e o mundo da fantasia; emergindo formas de representar papéis que colocam a criança em relação com pessoas, coisas e metas, no ambiente real, exteriores a ela (papéis sociais) e com pessoas, coisas e metas que ela imagina lhe serem exteriores (papéis psicodramáticos) (RUBINI, 1995).
O papel social é aquele por meio do qual o sujeito se apresenta e se relaciona com o mundo. São os papéis desempenhados na família (mãe, pai, filho, irmão, etc), no trabalho (patrão, empregado, médico, padeiro, etc) e outros. É através da relação desses papéis que surge o vínculo, o contato que torna o ser humano sociável. O não desempenhar bem os papéis sociais adoece o ser humano, pois com isso as relações humanas enfraquecem.
Os papéis psicodramáticos correspondem à “dimensão mais individual da vida psíquica, à dimensão psicológica do eu” (RUBINI, 1995). Ainda, segundo esse autor, os papéis psicodramáticos são personificações de coisas imaginadas, tanto reais quanto irreais, desempenhados no cenário dramático ou criados da imaginação de um indivíduo.
psicodramáticos são aqueles que vão libertar os papéis sociais e os papéis imaginários para que a fantasia possa encarnar-se no espaço real.
Os papéis psicodramáticos surgem na dramatização, sendo desempenhados no momento de criatividade e espontaneidade, libertando o verdadeiro eu.
Para Moreno, segundo Naffah Neto (citado por RUBINI, 1995), os papéis psicodramáticos ora definem a emergência do potencial criativo, ora designam o mundo da fantasia e da imaginação, em oposição aos papéis sociais. Foi pensando nesses dois momentos em que se definiram os papéis psicodramáticos, que consideramos importante definir papel imaginário, pois é através desse conceito que se concretizará a realização do presente trabalho.
Como papéis imaginários, Naffah Neto (citado por RUBINI, 1995) descreve aqueles que são resultantes da fantasia e imaginação do indivíduo, mas não transformados em ação efetiva, não atuados e desempenhados. A partir da definição acima, Merengué (2003) caracterizou os papéis imaginários como “aqueles encenados subjetivamente pelos indivíduos, talvez, representados imaginariamente no co-inconsciente de um grupo ou de uma sociedade”. Os papéis imaginários, segundo Nery (2003), localizam-se no mundo imaginário, surgindo dos sentimentos e desejos que são reprimidos, não realizados ou impedidos de serem expressos em alguns contextos. Também são criados mediante a atividade imaginativa, como os papéis ligados aos delírios e às alucinações. Sendo esses papéis imaginários resgatados ou concretizados por meio do desempenho dos papéis psicodramáticos no palco do psicodrama.
Através desse papel imaginário é que o ser humano atua o seu imaginário, as suas fantasias, como apresentado pelo personagem do filme “Clube da Luta”, e do personagem Norbert Hanold em Gradiva. O papel imaginário ganha força quando os papéis sociais desempenhados pelo ser humano trazem alienação e sofrimento, levando o imaginário a se expressar em momentos inadequados.
O psicodrama opera a partir daí, mas com uma característica que lhe é fundamental: o “como se fosse”. O que significa isso? Significa, primeiramente, uma diferenciação e, concomitantemente, uma superposição de contextos: o real (social, grupal) e o imaginário (dramático). Pois, mesmo quando o sujeito está lançado no ápice do envolvimento dramático, por debaixo da máscara do ator – e coexistindo com o personagem – está “fulano de tal”, que sabe que aquilo é uma representação, que veio ali para atingir uma revelação de si mesmo e que encontra, fora do contexto dramático, a presença de um mundo real que persiste, seja pela presença e pelas intervenções do diretor, pelos olhares e emoções dos membros do grupo (quando o psicodrama é grupal) ou mesmo pelas cadeiras, móveis e paredes da sala que, de uma certa forma, testemunham o seu drama (NAFFAH NETO, 1979, p.117).
Por esse motivo, Moreno dizia que “o psicodrama é a sociedade humana em miniatura, o ambiente mais simples possível para um estudo metódico da sua estrutura psicológica” (1997, p. 231). Através do psicodrama, a sociedade humana é representada e subjetivada através da exploração da “verdade” por métodos dramáticos. Assim, é possível observar que “o objetivo do psicodrama é uma organização genuína de forma, numa auto-realização criativa no ato, numa estruturação de espaço, numa concretização de relacionamentos humanos no âmbito da ação cênica” (MORENO, 1984 in COSTA, 2001, P. 83).
Foi assim que o criador do psicodrama rompeu com o método tradicional de psicoterapia analítica, passando o tratamento do indivíduo isolado para o tratamento do indivíduo em grupo, do tratamento do indivíduo por métodos verbais para o tratamento por métodos de ação.
O método psicodramático assenta na hipótese de que, para oferecer aos pacientes, separadamente ou em grupos, uma nova oportunidade de reintegração psicodinâmica e sociocultural, são necessárias “culturas terapêuticas em miniatura”, em lugar ou além de habitats naturais insatisfatórios. Os veículos para a realização desses programas são: (1) o psicodrama existencial no contexto da própria vida comunitária in situ e (2) o teatro terapêutico, neutral, objetivo e flexível. Este último representa o método de laboratório, em contraste com o método natural, e encontra-se estruturado
para satisfazer as necessidades sócio-culturais do protagonista (MORENO, 1997,
p.48).
Para apresentar melhor o método psicodramático é necessário apresentar seus cinco instrumentos básicos utilizados: o palco, o sujeito (protagonista), o diretor, os egos auxiliares e o público.
experiências e um espaço de extensão da vida para além dos testes de realidade da própria vida” (PEREIRA, 2003, p. 21).
O protagonista é aquele que vai desempenhar a ação, explorando os seus conflitos no palco, sendo solicitado a ser ele mesmo no palco (espaço terapêutico), a retratar o seu próprio mundo privado (MORENO, 1997, p.18). “O protagonista, sendo a encarnação do drama, é a condensação da subjetividade e da objetividade, do particular e do coletivo” (PEREIRA, 2003, p. 19).
O diretor é o que dirige e facilita toda a dramatização do protagonista. É o psicoterapeuta que possui habilidades psicodramáticas para conduzir o ser humano a explorar o seu mundo privado e coletivo.
Os egos auxiliares são aqueles que auxiliam na representação do drama, como atores terapêuticos que guiam o protagonista. Eles representam o “outro” requerido pelo mundo interno do indivíduo que representa o mundo social.
O público refere-se aos outros membros do grupo envolvidos não diretamente na dramatização. Para Moreno, o público reveste–se de uma dupla finalidade, ele pode servir para ajudar o paciente ou pode ser ajudado pelo sujeito no palco, convertendo-se então em paciente (1997).
Com esses instrumentos, o cenário está montado. Para que ocorra, a partir disso, o processo psicodramático, são requeridas três etapas essenciais: aquecimento, dramatização e compartilhamento.
Aquecimento é a preparação do organismo para uma ação, estimula a criatividade e espontaneidade dos membros do grupo, facilita as interações dentro do grupo e auxilia os membros a focalizar problemas pessoais.
intervenções terapêuticas até alcançar o entendimento ou o insight psicodramático por parte do protagonista. Para ajudar o protagonista, o diretor tem, à disposição, técnicas como:
Inversão de papéis: o protagonista representa o papel do “outro” e o ego auxiliar representa o protagonista. Essa técnica “habilita o protagonista a vivenciar o mundo a partir do ponto de vista do outro e, nessa posição, receber o seu próprio impacto (agora representado pelo ego auxiliar), tal como vivenciado pelo mundo”.
Duplo: é uma técnica em que o protagonista é dublado pelo psicodramatista ou por outro membro do grupo através de uma ligação empática, expressando sentimentos e pensamentos que o protagonista “esteja reprimindo ou censurando em cena”.
Solilóquio: é uma técnica em que o protagonista diz em voz alta o que está pensando no momento da dramatização.
Espelho: um processo em que o protagonista é imitado por um outro membro do grupo, o que permite que ele permaneça de fora e observe o desenrolar da cena. “Isso possibilita ao protagonista ter uma percepção mais objetiva de si mesmo nas interações com os outros”.
Interpolação de resistência: Essa técnica funciona quando o diretor modifica a cena proposta pelo protagonista para romper a resistência e tornar a cena mais próxima ao que vivenciou em sua vida.
Compartilhamento: é o estágio final do processo psicodramático. Nessa etapa, todos são estimulados a participar, compartilhando seus pensamentos e sentimentos, assim como suas semelhanças e identificações com o protagonista. Nesse momento, abre-se o espaço aos comentários do psicodramatista e dos membros do grupo (ou de um só indivíduo, como no caso do psicodrama individual), permitindo expressar os sentimentos e pensamentos, sem julgamentos, justificativas, nem interpretação; só compartilhamento.
Esse processo constitui o método psicodramático desenvolvido por Moreno. Método que se ocupa das formas de relacionamento do ser humano consigo mesmo e do inter-relacionamento com os demais, onde é proposto um espaço de reconstrução das dificuldades, colocando-as em movimento, a fim de tentar resolvê-las.
E é com o método psicodramático que será mostrado no próximo capítulo, como o ser humano conseguiu sair das amarras da alienação, da individualização e do sofrimento presente.
exclusivamente recursos da linguagem verbal e precisa “traduzir” em palavras, interpretar sentidos e significados expressos em outros modos de comunicar. Focalizando a ação em sentido amplo. Moreno nos legou uma metodologia que permite transitar entre os números, as palavras, os silêncios e os movimentos, sem ignorar as posições estáticas e as expressões gráficas. Podemos fazer pesquisa empregando todas as possibilidades de interação humana, inclusive as imaginárias (MONTEIRO, MERENGUÉ & BRITO, 2006, p. 38-39).
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