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(2) 2. UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO ESCOLA DE COMUNICAÇÃO, EDUCAÇÃO E HUMANIDADES PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO. PARAÍSO TERRESTRE EM UM MUNDO DE MISERÁVEIS: ANÁLISE DA PROPOSTA TEOLÓGICA DA IGREJA MESSIÂNICA MUNDIAL NO BRASIL NA CONSTRUÇÃO DE UM PARAÍSO TERRESTRE E NA ERRADICAÇÃO DA POBREZA, A PARTIR DOS ESCRITOS DE SEU LÍDER-FUNDADOR MOKITI OKADA. ANDERSON DOS SANTOS ANTONIO. Dissertação apresentada em cumprimento às exigências do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, para obtenção do grau de Mestre. Orientador: Dr. Jung Mo Sung.. São Bernardo do Campo 2019.
(3) 3. A dissertação de mestrado sob o título “Paraíso terrestre em um mundo de miseráveis: análise da proposta teológica da Igreja Messiânica Mundial no Brasil na construção de um paraíso terrestre e na erradicação da pobreza, a partir dos escritos de seu líder-fundador Mokiti Okada”, elaborada por Anderson dos Santos Antonio foi apresentada e aprovada em 29 de março de 2019, perante banca examinadora composta por Jung mo Sung (Presidente/UMESP), Lauri Emilio Wirth (Titular/UMESP) e Paulo Roberto Pedrozo Rocha (Titular/Faculdade Messiânica).. __________________________________________ Profº Drº Jung mo Sung Orientador e Presidente da Banca Examinadora. __________________________________________ Profº Drº Helmut Renders Coordenador do Programa de Pós-Graduação. Programa: Ciências da Religião Área de Concentração: Religião, Sociedade e cultura Linha de Pesquisa: Religião e dinâmicas socioculturais.
(4) 4. para Eliza Rosa dos Santos Antônio.
(5) 5. Agradecimentos Certamente, várias pessoas fizeram parte do construto, não só dessa dissertação, mas da pessoa que me tornei nesses últimos anos de formação. Citar sistematicamente os nomes seria uma tarefa muito difícil, pra não dizer impossível. Contudo, quero de antemão deixar registrado, aqui, minha gratidão a todos os que acreditaram e me motivaram a prosseguir nas vezes que o caminho se mostrou intransponível. Iniciarei minha fala de agradecimentos a minha família, que mesmo sem compreenderem bem a funcionalidade dessa formação, me motivaram a não desistir, em especial meu pai: José Vicente Antonio, com quem tenho dividido a vida nos últimos anos e minha rainha/mãe Eliza Rosa dos Santos Antonio (em memória), que, com sua calorosa afirmação: “Deus te crie para o bem, meu filho”, tem me auxiliado a prosseguir a despeito de sua ausência física. Minha gratidão ao professor Claudio de Oliveira Ribeiro, por sua acolhida à Universidade Metodista de São Paulo, com quem tive a oportunidade de manter um diálogo prévio antes que me tornasse aluno regular do programa e tê-lo como orientador até o meu exame de qualificação, tendo sido desligado da instituição, abruptamente, um dia depois a mesma. Fato repugnante. Gratidão ao professor Jung Mo Jung que, desde então, aceitou caminhar comigo, pacientemente, na conclusão desse ciclo de formação, mostrando-me humanidade e comprometimento com suas provocações e reflexões. Compete ressaltar que o professor Jung na condição de coordenador do IEPG me acolheu na casa dos estudantes entre os anos de 2017 e 2018 e subsidiou o último semestre de prorrogação do mestrado, junto a Ana Maria Fonseca, administradora do IEPG, por tudo isso e muito mais minha gratidão. Agradeço a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), que ao longo desse ciclo, fomentou os recursos necessários para que pudesse avançar na pesquisa. Gratidão a Universidade Metodista de São Paulo e a tod@s os professores e amig@s envolvidos, em especial os professores Lauri Emilio Wirth e Paulo Roberto Pedrozo Rocha (faculdade Messiânica), que aceitaram participar da banca examinadora de minha dissertação, sem a participação de vocês nada disso seria possível..
(6) 6. Cabe aqui, um adendo excepcional a minha amiga e irmã Ivna Fuchigami, com quem tive a oportunidade de prosear, não poucas vezes, e receber instruções preciosíssimas para essa dissertação. Um abraço caloroso aos meus amig@s que dividiram a casa dos estudantes comigo, tornando possível uma convivência fraterna e harmoniosa, que resultou no grupo de WhatsApp: “Muro das lamentações”. Sem os ombros de vocês pra chorar a vida teria sido bem mais difícil. Gratidão ao meu amigo/irmão Marco Aurélio Moura que cuidadosamente se debruçou sobre o texto, com o olhar atento, na revisão ortográfica, provando que a conjugação do verbo esperançar é possível em dias nebulosos..
(7) 7. A paz inquieta Dá-nos, Senhor, aquela PAZ inquieta Que denuncia a PAZ dos cemitérios E a PAZ dos lucros fartos Dá-nos a PAZ que luta pela PAZ! A PAZ que nos sacode Com a urgência do Reino. A PAZ que nos invade, Com o vento do Espírito, A rotina e o medo, O sossego das praias E a oração de refúgio. A PAZ das armas rotas Na derrota das armas. A PAZ do pão da fome de justiça, A PAZ da liberdade conquistada, A PAZ que se faz “nossa” Sem cercas nem fronteiras, Que é tanto “Shalon” como “salam”, Perdão, retorno, abraço... Dá-nos a tua PAZ, Essa PAZ marginal que soletra em Belém E agoniza na Cruz E triunfa na Páscoa. Dai-nos, Senhor, aquela PAZ inquieta, Que não nos deixa em PAZ! Pedro Casaldáliga..
(8) 8. “A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riquezas, produz ricos”. Mia Couto “A falta de comida mata o corpo. A falta de olhar mata a alma”. Jung Mo Sung.
(9) 9. ANTONIO, Anderson dos Santos. Paraíso terrestre em um mundo de miseráveis: análise da proposta teológica da Igreja Messiânica Mundial no Brasil na construção de um paraíso terrestre e na erradicação da pobreza, a partir dos escritos de seu líder-fundador Mokiti Okada. São Bernardo do Campo, Universidade Metodista de São Paulo, 2019.. Resumo – Mokiti Okada (1882–1955), líder e fundador da Igreja Messiânica Mundial, após receber uma série de revelações escatológicas (1926), assumiu uma missão estritamente radical. Esta missão consistia em difundir ensinamentos que possibilitem transformar o mundo em um paraíso terrestre, que seria conformado pela verdade, o bem e o belo. Desde então, Mokiti Okada assume o compromisso de transfazer não só a natureza, mas também homens e mulheres em seres paradisíacos. A prática desta missão resultou na construção de três solos sagrados no Japão. Cada um destes protótipos assumiu uma peculiaridade no plano de salvação oferecido pela teologia da Igreja Messiânica Mundial, tornando-se modelos para a construção em outros lugares do mundo, como é o caso do Solo Sagrado do Guarapiranga, em São Paulo. Tais protótipos sugerem um mundo de beleza, arte e felicidade, como um ideal de sociedade. A presente pesquisa se propõe analisar a proposta de construção desse mundo paradisíaco presente no escopo teológico da Igreja Messiânica Mundial nos dias hodiernos, uma vez que o mundo, sobretudo os países subdesenvolvidos, está inserido em uma proposital estratificação social. Ou seja, nos propomos identificar os elementos que influenciaram Mokiti Okada a propor a prática do johrei, da agricultura natural e do belo, entendidos como pilares de salvação para teologia da Igreja Messiânica Mundial e, como essas práticas contribuem com a transformação do mundo atual, em um paraíso terrestre e como eles podem contribuir com a extinção das doenças, da pobreza e dos conflitos. Palavras chaves: Paraíso Terrestre, Pobreza, Teologia da Igreja Messiânica Mundial, Mokiti Okada..
(10) 10. ANTONIO, Anderson dos Santos. Paradise terrestrial in a miserable world of: analysis of the theological proposal of the World Messianic Church in Brazil in the construction of paradise terrestrial and the eradication of poverty, from the writings of its founder-leader Mokiti Okada. São Bernardo do Campo, Methodist University of São Paulo, 2019.. Abstract – Mokiti Okada (1882 – 1995), leader and founder of Mundial Messianic Church, after receive a serie of scatologic revelations (1926), assumed a mission strictly radical. This mission consists in disseminate teaching that can change the world in a earthly Paradise, that was conformed with the truth, the good and beautiful. Since when, Mokiti Okada assumes the commitement to transform the nature and men and women in paradisiacal individuals. The practice of this mission resulted in na construction of three sacred soil in Japan. Each one of these prototypes assumed a pecualiarity in the salvation plan offered by the theology of Mundial Messianic Church, changing itselves in models to the construction in other places of the world, as in the case of Solo Sagrado do Guarapiranga, in São Paulo. This prototypes suggests a world of attractiveness, art and happiness, as a ideal Society. This search proposes to analyse the proposal of construction of this earthly Paradise that is in the theological scope of the Mundial Messianic Church nowadays, once that the world, above all the undeveloped countries is in the social strafication. In other words, we purpose to identify the elements that influenced Mokiti Okada to purpose the practice of the johrei, of the natural agriculture and beautiful, understanding as the pillars that contribute to the transformation of the world, actual, in a earthly Paradise as they could contribute with the extinction of the diseases, the poverty and conflits. Key words: Earthly Paradise, Poverty, Mundial Messianic Church Theology, Mokiti Okada.
(11) 11. Sumário Introdução ................................................................................................ 14 1.. Sociedade, cultura e religião uma experiência simbiótica ............... 18 1.1 Contextualizando a história – Xogunato Tokugawa (Era Edo) ..... 18 1.1.1 Restauração Meiji (1868 – 1912) ........................................... 19 a. Aspectos Políticos e Militares ..................................................... 20 b. Aspectos Econômicos ................................................................. 21 c. Aspectos Educacionais ............................................................... 23 d. Aspectos Religiosos .................................................................... 24 1.1.2 Era Taisho (1912 – 1926) ............................................................ 24 1.1.3 Era Shôwa (1926 – 1989) ............................................................ 25. 1.2. O cenário religioso no Japão na Era Meiji ....................................... 28. 1.2.1 Xintoísmo ................................................................................... 29 1.2.2 Budismo ..................................................................................... 31 1.2.3 Cristianismo ............................................................................... 33 1.2.4 Novas Religiões Japonesas ...................................................... 33 a. Tenrikyô ...................................................................................... 34 b. Oomoto ....................................................................................... 37 1.3. Mokiti Okada: do nascimento a sua conversão ............................... 39. 1.3.1 Nascimento de Mokiti Okada ..................................................... 39 1.3.2 Educação de Mokiti Okada ........................................................ 42 1.3.3 Juventude de Mokiti Okada ....................................................... 44 1.3.4 Vida adulta de Mokiti Okada – Trabalho e Casamento.............. 48 1.3.5 Saúde de Mokiti Okada ............................................................. 50 1.3.6 A conversão religiosa de Mokiti Okada...................................... 52 2.. Mokiti Okada e a Sekai Kyusei Kyo (Igreja Messiânica Mundial) .... 55 2.1 Japão: crises nacionais e internacionais ...................................... 55.
(12) 12. 2.2 A Oomoto e sua influência a teologia da IMM .............................. 59 2.3 Inicio das atividades religiosas de Mokiti Okada .......................... 64 2.3.1 Dai Nipon Kannon Kai (Associação Kannon do Grande Japão) 66 2.3.2 Mokiti Okada: Religioso ou Terapeuta? ................................. 69 2.3.3 A instituição da Sekai Kyusei Kyo (Igreja Messiânica Mundial) 71 2.4 Por uma compreensão da proposta messiânica de Paraíso Terrestre. 73 2.5 Protótipos do paraíso terrestre ..................................................... 78 2.5.1 Protótipo de Hakone – Shinsen-Kyo (Terra Divina) ............... 79 2.5.2 Protótipo de Atami – Zuiun-Kyo (Terra Celestial) ................... 79 2.5.3 Protótipo de Kyoto – Heian-Kyo (Terra da Tranquilidade) ..... 80. 3.. Igreja Messiânica Mundial no Brasil (IMMB) e suas peculiaridades. na proposta do paraíso terrestre ............................................................................... 81 3.1 Inicio das imigrações nipônicas em solo brasileiro ....................... 81 3.2 Introdução das religiões japonesas no Brasil ............................... 84 3.2.1 Primeiro Período (1908 – 1920) ............................................. 84 3.2.2 Segundo Período (1920 – 1930) ............................................ 84 3.2.3 Terceiro Período (1930 – 1950) ............................................. 85 3.2.4 Quarto Período (1950 até os dias atuais) .............................. 86 3.3 Lançando luz a discussão: uma proposta peculiar ....................... 87 3.4 Igreja Messiânica Mundial no Brasil (IMMB) e sua proposta de paraíso terrestre .................................................................................................... 89 3.4.1 Proposta de paraíso terrestre da IMMB ................................. 95 3.4.2 O problema da pobreza na teologia da IMM .......................... 99 3.5 Teologia da Libertação – Um modelo de ação preferencial pelos pobres. 103.
(13) 13. 3.5.1 Por uma definição de pobreza: lançando luz à temática. ..... 104 3.5.2 Contextualização e apontamentos da Teologia da Libertação 107 3.5.3 Quais são as possíveis convergências políticas da Teologia da Libertação?. 112. Considerações finais .............................................................................. 115 Referencial Bibliográfico ......................................................................... 117.
(14) 14. Introdução A Igreja Messiânica Mundial no Brasil (IMMB) e/ou simplesmente Igreja Messiânica Mundial (IMM) faz parte das novas religiões japonesas (NRJ). A mesma foi fundada por Mokiti Okada (1882 – 1955) em “1º de janeiro de 1935, com a denominação Dai Nippon Kannon Kai – tradução literal: Associação Kannon do Grande Japão”1. A época foi marcada pela oposição e perseguição do governo a qualquer expressão de fé distante do xintoísmo. Logo, houve a necessidade de um nome genérico que não caracterizasse as atividades institucionais como religiosas. Posteriormente, teve seu nome alterado para Igreja Messiânica Mundial, oficializado em 4 de fevereiro de 1950. Na maioria dos textos institucionais e nas principais obras literárias da IMM, 1º de janeiro de 1935 figura, geralmente, como a data oficial de fundação da Igreja Messiânica Mundial. Entretanto, a Igreja Messiânica Mundial (Sekai Meshiya Kyo) só foi instituída, de fato, em 4 de fevereiro de 1950, sendo que, em 1957, finalmente, tivera seu nome modificado para Sekai Kyusei Kyo, permanecendo inalterado até hoje. A data 1º de janeiro de 1935 se refere, na verdade, ao ano de instituição da Dai Nippon Kannon Kai (literalmente, Associação Kannon do Grande Japão), a primeira instituição de cunho religioso fundada por Mokiti Okada. Tal abordagem, por parte da IMM, sobre estas datas, parece ser intencional e didática. No entanto, do ponto de vista histórico-crítico, tal recurso pode causar nos leitores menos atentos a falsa impressão de que a IMM já nasceu “pronta”. Todavia, essa noção de “acabado” é uma das ideias menos apropriadas para caracterizar a obra de Mokiti Okada em qualquer tempo, pois ela é marcada pelo dinamismo e pela evolução2. O principal objetivo da Igreja Messiânica Mundial é o de transfazer o mundo num lugar paradisíaco.. Entendendo-se. por paradisíaco. um mundo. extremamente civilizado, onde as pessoas são elevadas na sua vida material, ou seja, livres de pobreza. Profissionalmente, livres das desigualdades escandalosas. E em sua saúde, livres de enfermidades. 1. TOMITA, Andréa Gomes Santiago. Religiões Japonesas e a Igreja Messiânica no Brasil: integração religiosa e cultural. São Paulo: Fonte Editorial, 2014. pg. 25. 2 RAFFO, Geórgia Branquinho de Oliveira. A “localização” institucional da Igreja Messiânica Mundial: uma abordagem a partir da teoria da mundialização [recurso eletrônico]. São Paulo: FFLCH, 2014. pg. 30..
(15) 15. Para compreender melhor a missão da IMM, considera-se importante o contexto socioeconômico, político e cultural de seu líder fundador a fim de descobrir os elementos que o influenciaram na construção de seu arcabouço teológico. Para isso, utilizar-se-á a coleção Luz do Oriente3, que se propõe a discorrer sobre a história de Mokiti Okada, não só na vida religiosa, mas nela como um todo. Como ele mesmo havia previsto, em breve será iniciada a pesquisa sobre Mokiti Okada, segundo testemunho de sua filha, Itsuki Okada, no prefacio do primeiro volume da Luz do Oriente. Nesse sentido se propôs a percorrer rapidamente os períodos que Mokiti Okada viveu, a saber: Era Meiji (1868 – 1912), Era Taisho (1912 – 1926) e Era Shôwa (1926 – 1989). Posteriormente, entende-se necessária a discrição do cenário religioso da época – onde o Japão começou a experimentar aquilo que estamos chamando de modernização, ficando conhecida como Restauração Meiji – composto por uma série de variantes que irá, desde as religiões tradicionais, ou mais antigas em termos de difusão nacional, a saber: o xintoísmo e o budismo, tendo acrescido, posteriormente, o cristianismo, até chegarmos as NRJ da qual a IMM também faz parte. Finalizar-se-á o primeiro capítulo, retomando a história de Mokiti Okada, fundador da IMM, desde seu nascimento, até sua conversão religiosa, fato que ele chamou de segundo nascimento. Isso no esforço de resgatar os principais elementos que o influenciaram a propor em seu arcabouço teológico a construção de um paraíso terrestre. No segundo capítulo, nos propôs-se a compreender a formação da IMM, desde seu contexto socioeconômico, político, militar e cultural. Uma vez que Mokiti Okada encontrou muita resistência por parte das autoridades da época, se tornando alvo de intensas perseguições, chegando a ficar recluso de sua liberdade. Interessa saber como um homem que até a meia idade se declarava ateu, assumiu a liderança de uma instituição religiosa com uma proposta tão arrojada? Sem dúvidas houve outras religiões que o influenciaram, sendo a principal, a Oomoto, fundada por Nao Deguchi,. 3. A coletânea de livros Luz do Oriente tratasse de um conjunto de textos didáticos de memórias dos discípulos de Mokiti Okada sobre sua vida, obra e missão. A IMM é de suma importância, mas não tem o rigor metodológico da academia..
(16) 16. Como se observou acima, a IMM não nasceu pronta, passou por um longo período de experimento e maturação até poder ser reconhecida como Sekai Kyusei Kyo (Igreja Messiânica Mundial). Frente aos dissabores com as autoridades da. época, o fundador da IMM, encontrou a alternativa de desenvolver suas atividades como terapeuta, uma vez que sua principal atuação estava relacionada ao Johrei. Decorrido os anos, pouco a pouco Mokiti Okada foi construindo aquilo que compreendemos por arcabouço da teologia da IMM. Cuja principal finalidade é transformar o mundo num paraíso terrestre, não só o mundo mais as pessoas em seres paradisíacos. Isso se mostra possível, segundo a teologia da IMM, por meio dos três pilares de salvação, a saber, o Johrei, a agricultura natural e o belo. Convicto da missão recebida, Mokiti Okada começou a trabalhar na construção de protótipos que representassem tudo aquilo que, ideologicamente, compreendia como características do paraíso terrestre, sendo os três primeiros construídos por ele, no Japão, como descritos a seguir: Protótipo de Hakone (Terra Divina); Protótipo de Atami (Terra Celestial) e Protótipo de Kyoto (Terra da tranquilidade). Por fim, no terceiro capitulo, se propôs a compreender a atuação da IMM no Brasil. Desde a chegada dos primeiros membros em solo brasileiro, que migraram na condição de camponeses, afim de trabalharem nos cafezais brasileiros. Isso em 1955, ano que marca o falecimento do líder fundador da IMM, Mokiti Okada. Com isso, nosso esforço é compreender como que essa imigração nipônica se deu, e as peculiaridades dos diferentes períodos constituintes, a começar por 1908. Nesse ponto, interessa não só o contexto migratório dos japoneses ao Brasil, de onde ocasionou a chegada dos primeiros membros da IMM, responsáveis por difundir os pensamentos de Mokiti Okada em solo brasileiro, mas também compreender as peculiaridades que a IMMB assumiu nessa proposta de construção do paraíso terrestre. Por fim, apresentar-se-á outro modelo teológico que se propõe, não só a pensar, mas estimular seus crentes a construírem uma sociedade diferente, na qual as diferenças sejam dirimidas e os oprimidos tenham suas vozes ouvidas, no grito incessante por equidade. Essa corrente teológica se propõe a caminhar ao lado dos pobres – teologia latina americana da libertação – assumindo o compromisso de rezar por um reino de paz, saúde e justiça, a saber, o Reino de Deus..
(17) 17. É interessante o fato de como duas correntes teológicas, relativamente novas no contexto latino americano, podem contribuir e/ou influenciar, uma à outra, nesse refazer social, uma vez que ambas entendem uma obscuridade num sistema que trata as pessoas como coisas e degraus para uma pequenina massa abastada. A esperança é que esse trabalho possa contribuir minimamente com a reflexão dos que se propõem a pensar outro mundo, que não esse, onde todos tenham o que comer e possam viver dignamente..
(18) 18. 1.. Sociedade, cultura e religião uma experiência simbiótica. 1.1. Contextualizando a história – Xogunato Tokugawa (Era Edo). Durante o período Edo, conhecido também como regime Tokugawa (1603 – 1868), o país conheceu a paz durante mais de dois séculos, devido ao xogunato4 Tokugawa. Enquanto a revolução industrial se configurava em países como Inglaterra, França, Espanha e Portugal em meados do século XVIII, o Japão manteve fechados os portos para nações estrangeiras e proibiu a difusão do cristianismo – reinvindicação dos sacerdotes xintoísta e monges budistas – seguindo um estilo de vida peculiar, sem intervenções externas, principal característica do governo Tokugawa. A família Tokugawa adotou medidas rígidas e conservadoras para seu plano de governo, tendo como uma das principais medidas, a classificação feudal – entendendo-se por senhores feudais: “samurais com feudos superiores a 10 mil koku – medida para indicar a receita obtida pelos daimiôs (senhores feudais) em sacas de arroz”.5 Tal classificação foi estabelecida na seguinte ondem: Shinpan (daimiôs que tivessem ligação consanguínea com a família Tokugawa); Fudai (daimiôs que se mantiveram fiéis aos serviços à família Tokugawa por gerações) e os Tozama (daimiôs que se constituíram oposição – inimigos – da família Tokugawa). Por outro lado, foi estabelecido aos súditos dos daimiôs, outra subdivisão, sendo ela: os hatamoto (samurais que tinham acesso aos xoguns) e os gokenin (samurais que não tinham acesso aos xoguns). Dessa forma, o período Edo ficou dividido em classes sociais distintas, a saber: samurais, agricultores, artesões e comerciantes. A queda do xogunato Tokugawa foi provocada por uma série de fatores sucedidos, paulatinamente, pelas inúmeras administrações dos xoguns que nem sempre foram eficazes. Dificuldades internas – como o aumento do número de. 4. Sistema de governo predominantemente no Japão de 1192 a 1867, baseado na crescente autoridade do xógum, supremo líder militar, que terminara por submeter até mesmo a autoridade do imperador. A retomada do poder imperial determinou o enceramento do feudalismo japonês baseado no xogunato, a abertura do país ao exterior e o inicio de sua ocidentalização. 5 KURIHARA, Akiko; NISHIZAWA, Hiroko. Breve história do Japão. São Paulo, Press Brasil, 2009. pg. 156..
(19) 19. rônins (samurais sem senhores); a insatisfação com a ordem social conservadora; a instabilidade emocional da população; a alta no preço dos alimentos – e a principal dificuldade externa, que consistia na pressão dos países vizinhos forçando o Japão a abrir seus portos e fazer alianças comerciais e, consequentemente, política com nações. estrangeiras.. Todos. esses. fatores. foram. responsáveis. para. o. desencadeamento da onda de revoltas em todo Japão, resultando na renúncia do décimo quinto xogum, Yamauchi Tokugawa6. 1.1.1 Restauração Meiji (1868 – 1912). Mokiti Okada nasceu em uma fase de transições nacionais, a saber: a restauração Meiji. Por restauração Meiji entende-se à grande reforma política, econômica, militar e educacional, que com a pressão das grandes potências capitalistas, derrubou o sistema feudal e instaurou o sistema capitalista japonês originando uma nação imperial moderna que durou de 1868 a 1912. A expressão ‘revolução’ foi evitada, porque a reforma foi realizada por militares, samurais do sistema feudal pertencentes a categorias inferiores, e não pelas camadas populares. Essa modernização, influenciada pelo Ocidente, provocou alterações sociais, econômicas e culturais em todo o Japão. A restauração Meiji marca o início da história moderna do Japão, fechando o ciclo medieval que durara 655 anos. O Japão expande suas alianças com outros países buscando aceleradamente atualizar-se com as conquistas culturais do Ocidente, do qual se manteve distante por mais de dois séculos. Embora a ocidentalização tenha sido constatada no Japão em Meiji devido às pressões de países externos, como vimos a pouco, não podemos desconsiderar as estratégias do governo Meiji em preservar princípios da cultura japonesa, através da figura do imperador e sua linhagem oligarca. Pois, ao se apropriarem da sacralidade imperial, utilizaram um importante elemento para a formação do sentimento de pertencimento da coletividade, uma vez que estavam próximos das crenças elementares da sociedade mítica japonesa7. 6. Ibid. pg. 156 – 187. OMENA, Luciane Munhoz; SILVA, Altino Silveira. O Estado Meiji e a religião shintô: As dimensões políticas contidas nas crenças e valores xintoístas para a formação da estrutura do Estado e do patriotismo japonês. Revista Nures nº 9 – Maio/Setembro 2008 – http://www.pucsp.br/revistanures. Núcleo de Estudos Religião e Sociedade – Pontifícia Universidade Católica – SP. 7.
(20) 20. a.. Aspectos Políticos e Militares Uma boa parte “dos historiadores que se ocuparam da Restauração Meiji. são unânimes em torná-la, ao pé da letra, como ela de fato foi, uma devolução do governo à família imperial”8. Logo, uma das principais características do novo modelo de governo, na restauração Meiji, foi a centralização política em torno da figura do imperador, reorganizando a estrutura do país em províncias com seus respectivos governadores. Sendo assim, é possível entendê-la – restauração Meiji – em paralelo às realidades que outros países haviam vivido, como a descrição a seguir nos sugeri:. Muitos a comparam e tentaram aproximá-la de acontecimentos análogos da história ocidental, às grandes revoluções que caracterizaram a Idade moderna, pondo fim ao medievalismo e trazendo para o primeiro plano o Estado central unificado, o nacionalismo, a democracia e a urgência de atualização cultural, como imperativo de sobrevivência em um mundo de aproximações, confrontos e conflitos cada vez mais amplos e mais decisivos9.. A Restauração Meiji pode ser sintetizada – mas não diminuída de sua importância e valor a história japonesa – rapidamente em alguns aspectos históricos, que se tornaram marcadores desse período. Talvez o principal fator a contribuir com a Restauração Meiji tenha sido a ameaça do poder militar estrangeiro ao regime, forçando as autoridades japonesas a assinarem o tratado de Kanagawa. Com a assinatura do tratado de Kanagawa em 31 de março de 1854 10, o xogunato que tinham como definição literal: “o general que expulsa os bárbaros 11”, perde completamente a credibilidade diante do povo ao fazer alianças com os EUA e posteriormente com a Europa. Em 1853 o almirante Matthew Calbraith Perry ancora em águas territoriais do Japão e, a partir de 1854, o país é forçado a se abrir pelos. 8. BARROS, Benedicto Ferri de. Japão a harmonia dos contrários: uma experiência humana singular. São Paulo, T. A. Queiroz, editor, 1988. pg. 37 – 39. 9 Ibid, pg. 37. 10 KURIHARA, Akiko; NISHIZAWA, Hiroko. Breve história do Japão. São Paulo, Press Brasil, 2009. pg. 175. 11 ZIERER, Otto. Pequena história das grandes nações: Japão. São Paulo, Circulo do Livro, 1988. pg. 87..
(21) 21. “acordos” impostos pelos ocidentais e, torna-se evidente para os japoneses que o xogunato se achava impotente para preservar o Japão das ameaças externas12. Simbolicamente o imperador se transfere de Kyoto, que fora a sede da corte desde o século VIII, para Tokyo, que era a sede do governo do Xogunato. Inicia-se então a Restauração Meiji, que tem o objetivo, por meios de tratados políticos, de enriquecer o país e fortalecer o exército; levar a ilustração nacional, enfatizando entre os intelectuais o estudo e a difusão das tradições nacionais, especialmente o xintoísmo; e motiva um maciço esforço nipônico de absorção de conhecimentos técnicos, intelectuais e filosóficos ocidentais. Tudo isso sinaliza o esforço da política nacional, simbolizada pela figura do imperador e pelos valores nipônicos, apontando para o esforço japonês de colocar o país a altura do mundo moderno, sem perder sua identidade. O grande esforço do governo Meiji em atingir esses objetivos fica nítido nos ofícios dirigidos às forças armadas japonesas e aos envolvidos nos processos de formações técnicas e educacionais13. Toshimichi Ôkubo – imperador – em 14 de março de 1868, inspirado no modelo americano, decidiu instituir no país os três poderes civis, a saber, o judiciário, o executivo e o legislativo, estabelecendo assim diretrizes introdutórias a seu governo, como: a) a promoção de assembleias frente às questões de interesses públicos; b) a busca por acordos que atendessem comumente as decisões governamentais; c) incorporação de responsabilidade individual de todos os cidadãos frente suas obrigações, afim de não sobrecarregar ninguém; d) encorajamento ao abandono dos costumes restritivos, a fim de estimular novos hábitos; e) a procura de referências (internas e externas) para o crescimento e enriquecimento do país14.. b.. Aspectos Econômicos. Segundo José Yamashiro, a principal fonte de giro econômica japonesa sempre foi o plantio. Tanto no governo dos Tokugawas (período Edo), como no novo modelo que se inicia a partir de 1868, a saber, a Restauração Meiji, a lavoura 12. KURIHARA, Akiko; NISHIZAWA, Hiroko. Breve história do Japão. São Paulo, Press Brasil, 2009. pg. 174 – 176. 13 BARROS, Benedicto Ferri de. Japão a harmonia dos contrários: uma experiência humana singular. São Paulo, T. A. Queiroz, editor, 1988. pg. 37 – 39. 14 KURIHARA, Akiko; NISHIZAWA, Hiroko. Breve história do Japão. São Paulo, Press Brasil, 2009. pg. 209 – 211..
(22) 22. mostrou-se eficaz no estimulo econômico do país. Contudo, o surgimento das primeiras indústrias – das quais os principais seguimentos iniciais foram fiação e tecelagem – e as mineradoras de carvão, ferro, ouro e prata, com suas respectivas fundições também contribuíram significativamente com o desenvolvimento da economia do país em Meiji. Com essas novas realidades que se formam no cenário nacional e são introduzidas no Japão, as indústrias ganham impulso novo com a introdução de maquinas e técnicas ocidentais”15. O. imperador. e. seus. governantes. visando. a. segurança. e. o. reconhecimento nacional dos países vizinhos apostam significativamente no processo de industrialização para a modernização do país, bem como o crescimento da economia. A mão de obra industrial torna-se com isso indispensável frente a esses objetivos, sendo alimentadas pelo deslocamento das áreas rurais para as cidades que recebiam essas novas indústrias. O capital se movimenta em sua grande parte de poupanças existentes nos meios agrícolas (dos lavradores abastados), comerciais e financeiros, e também se obtém através de empréstimos estrangeiros e financiamentos oficiais. Com isso, o reordenamento das classes sociais – que dado aos infortúnios econômicos, baniu inclusive os samurais de classes inferiores, mas manteve a aristocracia da corte, que recebiam tributos em mantimentos e dinheiro do povo; inicialmente mensais, e depois, dado às dificuldades financeiras, anuais – se mostrou indispensável. A crise econômica fez com que o imperador, como medida emergencial, autorizasse aos camponeses a compra e venda de terras, recolhendo 3% do valor como imposto. Muitos, por não conseguirem pagar, perdiam-nas16. No exercício de modernização, o imperador contou com a experiência administrativa dos samurais (senhores feudais do período Edo). Deles surgem as pessoas mais abastadas da população nipônica em Meiji, os políticos, funcionários administrativos dos órgãos públicos, bem como os fundadores e diretores das grandes empresas privadas. Acreditava-se que não havia uma classe mais competente para tais atribuições do que os samurais, por causa do seu elevado grau. 15. YAMASHIRO, José. História dos Samurais. São Paulo, Massao Ohno, 1982. pg. 217. KURIHARA, Akiko; NISHIZAWA, Hiroko. Breve história do Japão. São Paulo, Press Brasil, 2009. pg. 196 – 198. 16.
(23) 23. educacional e a habilidade com o sistema financeiro, considerado, em épocas anteriores à Restauração Meiji, como adiantadas para época, tendo papéis como títulos de créditos e letras de câmbios ou equivalentes. Coube ao imperador recorrer a auxílios externos – com a abertura dos portos, ouro e prata escoam em boa quantidade para mercados externos. Ao mesmo tempo, os japoneses adquirem e desenvolvem um irresistível gosto por artigos importados – fazendo-se necessário a imigração de vários profissionais para transferirem a tecnologia e o conhecimento humanístico ocidental, resultando na construção de fábricas com administração estatal, ampliando suas atividades para os ramos da indústria de fiação, ferrovia e comunicação. A soma de todos esses fatores corroborou para o aumento do crescimento da proletarização da população. Essas medidas foram importantes tanto para o propósito de fomento do capitalismo internacional, quanto também para preservarem as tradicionais indústrias artesanais da destruição, diante da invasão dos produtos fabricados pelos poderosos polos fabris do ocidente17. Uma vez que a modernização se mostrou em trânsito no governo Meiji, principalmente com a expansão da indústria nacional, fizeram-se necessárias novas técnicas, não só na industrialização do país, mas em outros seguimentos como a agricultura, a pesca e a cultura. Para tal era necessário a adesão das tecnologias alheias. O custo de tal investimento só poderia ser pago pelos cofres estatais, que traziam especialistas de vários seguimentos, como também enviava nativos para outros países a fim de adquirirem suas expertises.. c.. Aspectos Educacionais A influência ocidental europeia – Alemanha, França e Inglaterra – não se. deu simplesmente nas corporações empresariais, mas abrangeu a reestruturação da segurança pública e educacional da nação, sendo instituindo o serviço militar obrigatório aos homens e educacional a todas as crianças a partir dos seis anos. Essa medida educacional foi um divisor de águas às mulheres japonesas, que também experimentavam das desigualdades de gênero da época, uma vez que “as leis civis da Era Meiji eram de patriarcado absoluto”. Isso fez com que diversas. 17. YAMASHIRO, José. História dos Samurais. São Paulo, Massao Ohno, 1982. pg. 217 – 219..
(24) 24. mulheres fossem estimuladas a lutar pela libertação do jugo masculino. Através da literatura, diversas mulheres – como: Hideko Fukuda (1865 – 1927), Raichô Hiratsuka (1886 – 1971) entre outras – começaram a denunciar os abusos ao mesmo tempo em que se empoderavam, lutando pela igualdade social das mulheres.. d.. Aspectos Religiosos. Talvez uma das medidas mais radicais do governo Meiji na preservação da tradição japonesa tenha sido oficializar o xintoísmo como religião oficial do Estado18, silenciando outras expressões de fé, inclusive o budismo, ocasionando perseguições sistemáticas e a queima de inúmeros templos e imagens búdicas.. A política de se congregar o xintoísmo e o budismo, existente desde a Era Edo, resultou no xintoísmo estatal (kokka shintô). Por isso, os adeptos do budismo foram perseguidos, inúmeros templos incendiados ou destruídos e imagens búdicas históricas danificadas ou vendidas. Por outro lado, estes acontecimentos proporcionaram uma chance de o budismo renascer como uma religião moderna. A partir de 1873, com o fim da proibição do cristianismo, e de 1889, com a liberdade religiosa reconhecida legalmente, muitas religiões se empenharam em sua modernização19.. Analisar-se-á com mais cuidado a efervescência religiosa que se mostrou uma crescente na Restauração Meiji, na segunda parte deste capitulo, quando nos debruçaremos sobre as novas religiões japonesas. 1.1.2 Era Taisho (1912 – 1926). Com a morte do imperador Meiji, o príncipe Yoshihito torna-se o novo imperador do Japão, dando início à era Taisho, que significa: “O Céu aceitará as palavras do povo e a política será conduzida com correção”20, sinalização de uma pretensa democracia.. 18. ZIERER, Otto. Pequena história das grandes nações: Japão. São Paulo, Circulo do Livro, 1988. pg. 96. 19 KURIHARA, Akiko; NISHIZAWA, Hiroko. Breve história do Japão. São Paulo, Press Brasil, 2009. pg. 199. 20 Ibid, p. 224.
(25) 25. Por se aliar a Inglaterra, em 1914, o Japão se envolve na guerra, que se consagraria como a primeira guerra mundial. Tendo como motor o grande aumento das exportações para a Europa – na construção naval, têxtil, férrea e de aços em geral – a situação econômica do Japão tornou-se extremamente estável, sendo incluso às cinco maiores economias mundiais, transformando-se numa potência imperialista. A indústria de construção naval desenvolveu-se pela escassez mundial de navios para o transporte de materiais de guerra, alcançando o Japão a terceira posição nesse setor, atrás da Inglaterra e dos EUA. Em 1920, o Japão começou a fazer parte da Liga das Nações. Desde a Era Meiji, o governo assumiu medidas coercitivas com relação aos movimentos pelos direitos civis, proibindo reuniões e censurando jornais e semanários. Com o surgimento dos movimentos socialistas na segunda metade da Era Meiji, a repressão mudou seu alvo. Em 1922, o Partido Comunista Japonês formou-se clandestinamente. Temendo a infiltração do comunismo, o governo, em 1925, instituiu a Lei de Segurança Pública que penalizava os que criticavam o sistema de propriedade privada. O terremoto de Kanto (que abrangia Tóquio e províncias vizinhas) de 1923 assumiu uma singularidade por deixar 140 mil mortos e desaparecidos e 700 mil residências destruídas. Em toda a região, foram 3,4 milhões de vítimas. Muitos bancos foram à falência por causa da crise econômica. O medo provocado pela crise econômica marcou o início da ascensão do exército que levaria o país à Guerra da Manchúria e à passagem para período militarista até 1945, dando passagem para o envolvimento dos japoneses a segunda guerra mundial. 1.1.3 Era Shôwa (1926 – 1989) A era Shôwa que se compreende como os anos (1926 – 1989) foi marcada por dois grandes acontecimentos sociais – externos e internos ao Japão. O primeiro marco foi econômico, a crise que ficou conhecida mundialmente como: O Craque de Wall Street e/ou Grande Pânico afetando todos os países capitalistas, inclusive o Japão. Muitas empresas foram à falência, o número de pessoas desempregadas aumentou exponencialmente, tanto o meio urbano como o rural experimentaram dissabores irreparáveis, dado a queda de valores. Como se não bastasse, em 1931, um fenômeno natural assolou o campo: o frio excessivo causou.
(26) 26. baixa na colheita e a situação agravou-se de tal modo que pais chegaram a venderem suas filhas em troca de comida. Enquanto isso, as grandes corporações financeiras, como Mitsui, Mitsubishi e Sumitomo, dado a influência e poder monetário, desfrutavam de uma ascensão política e econômica. O segundo marco nasce dos descontentamentos socioeconômicos em que os japoneses estavam inseridos. Com isso os militares convenceram o povo de que deveriam expandir seus territórios geográficos, invadindo a China. Esse duelo sino-japonês seria só o início de um longo período de guerra que, a princípio, envolvia os dois países, mas posteriormente ganharia fôlego com a expansão de outras potencias como a Alemanha, Itália e os EUA, chegando finalmente à segunda guerra mundial21. Em 1º de setembro de 1939, a Alemanha de Hitler invade a Polônia. Dois dias depois, a Inglaterra e a França declaram guerra à Alemanha, transformando, novamente, a Europa em campo de batalha. Inicia-se dessa forma a Segunda Guerra Mundial que causou sequelas estarrecedoras à humanidade. Enquanto isso, as tropas japonesas enfrentavam dificuldade na China devido à resistência do povo. Sob suspeita de que a força de resistência chinesa estivesse recebendo apoio dos EUA e da Inglaterra via países do Sudeste Asiático, o governo japonês passa a cogitar em dominar toda essa região, aliandose à Alemanha e Itália – potencias do Eixo22.. Dado essas alianças – por um lado os chineses aliados com os americanos, ingleses, franceses e russos; por outro, os japoneses aliados com a Alemanha e Itália – o Japão passou a ser alvo de constantes ataques aéreos, resultando na morte de milhares de pessoas diariamente. O ataque americano culminou com a bomba atômica lançada sobre a cidade de Hiroshima e de Nagasaki em 6 e 9 de agosto, respectivamente, induzindo a rendição japonesa no dia 15 de agosto de 1945. Os ataques americanos em Hiroshima e Nagasaki resultaram na morte de 200 mil e 140 mil pessoas, respectivamente. Já perto do fim da guerra, muitos morreram vítimas das bombas lançadas pela aviação B-29 do exército americano sobre as cidades de Tóquio e Kobe.. O número de órfãos, segundo levantamento de 1948 do Ministério da Assistência Social e Saúde, são de 123.511 pessoas (excluindo 21. RAFFO, Geórgia Branquinho de Oliveira. A “localização” institucional da Igreja Messiânica Mundial: uma abordagem a partir da teoria da mundialização [recurso eletrônico]. São Paulo: FFLCH, 2014. pg. 45. 22 KURIHARA, Akiko; NISHIZAWA, Hiroko. Breve história do Japão. São Paulo, Press Brasil, 2009. pg. p.230 – 231..
(27) 27. Okinawa). Em 1954, Okinawa registrava 3 mil órfãos. Diz-se que 87% deles tinham idade entre 8 e 20 anos e que foram adotados por parentes ou encaminhados a orfanatos. Mas, como o número dessas instituições era insuficiente, muitos se tornaram errantes, passando a viver nas ruas, chegando a 35 mil em 1947. Não há família que não tenha sido atingida pela guerra. Todas sofreram algum dano material ou psicológico23.. As consequências desses fatos foram realmente estarrecedoras, atingindo várias famílias, inclusive a de Mokiti Okada. Em sua bibliografia, encontrase a informação de que esses ataques foram responsáveis pela morte de seu filho primogênito do seu segundo casamento. A criança, que tinha apenas um ano e nove meses, foi uma das vítimas do surto de cólera infantil da época24. Ao findar a guerra, o território japonês fica restrito às ilhas de Hokkaidô, Honshû, Shikoku e Kyûshu, sendo que os demais arquipélagos ficaram subjugados aos EUA, como foi o caso das mais de 30 ilhas de Ogasawara que, posteriormente, foram devolvidas ao Japão em 1968 e atualmente pertencem ao distrito de Tóquio. Os países da Ásia, num esforço descomunal, começam campanhas para sua independência. Medidas como a desmilitarização e a democratização japonesa começaram a ser impostas pelo EUA e os países aliados. Autoridades – políticas e militares – foram julgadas pelo tribunal internacional, resultando na destituição de alguns e a condenação de outros à prisão e/ou pena de morte. Um marco significativo se deu na promulgação da nova constituição em 1946 – após o imperador, negar sua divindade, crença que era mantida ao longo do tempo desde a instituição da corte Yamato no século IV – que foi responsável pela criação de novas leis que asseguravam a igualdade de direitos a homens e mulheres frente ao código civil. Com isso, adotou-se medidas significativas em relação à educação, não só como garantia de direitos, mas como condicionamento compulsoriamente da educação primária a ginasial, bem como a educação colegial e superior a todos indistintamente. As mulheres passaram a ter um novo posicionamento social, tanto pela reformulação da nova constituição, como também pela reestruturação do sistema familiar conservador. Na primeira eleição em que as mulheres também puderam votar, em 1946, foram eleitas 39 deputadas. 23. Ibid. pg. 237. FMO – MOA (Ed.). Luz do Oriente: biografia de Mokiti Okada – Vol.1. São Paulo, Fundação Mokiti Okada, s/d (a). pg. 250. 24.
(28) 28. A sociedade japonesa levou um tempo para se recompor das catástrofes resultantes dos confrontos americanos da Segunda Guerra Mundial. A população sofreu com a escassez de alimentos e outras provisões, devido à situação de destruição das instalações de produção pelos bombardeios e ataques aéreos. A militarização ocasionada pela eclosão da Guerra Coreana em 1950 foi responsável pela reestruturação econômica japonesa. A fim de se preparem para o conflito, os japoneses criaram a força policial de reserva que, posteriormente, teve seu nome substituído para forças de autodefesa, chegando a recrutar em 4 anos 70 mil e 139 mil, respectivamente. A situação econômica melhorou com a demanda especial em função da guerra e empreendimentos públicos como a hidrelétrica de Sakuma que favoreceram a recuperação e fizeram a economia japonesa entrar nos eixos. Em 1951, dado a conferência internacional de paz, realizada em San Francisco, com a participação de 49 países, o Japão retoma a comunicação internacional, sendo que as imigrações japonesas ao Brasil foram retomadas no ano posterior, fato que contribuiu com a chegada da IMM ao Brasil em 1955, como veremos mais adiante25.. 1.2. O cenário religioso no Japão na Era Meiji A crença de que religião é uma questão apenas de fé não pode ser. plenamente aplicada ao Japão, pois no país os fenômenos religiosos têm muitas dimensões que nem sempre dizem respeito à fé. “A dimensão social é a mais importante já que a religião no Japão está intimamente ligada com os ciclos de vida e tem uma natureza intensamente social. Festivais xintoístas, ritos fúnebres budistas, casamentos cristãos não são geralmente considerados como fazendo parte da religião pessoal”26. A múltipla pertença religiosa nunca foi um problema em culturas orientais. “No Japão é possível alguém ser ao mesmo tempo budista e xintoísta, o que é chocante para quem está habituado com religiões cujo dogma essencial exige. 25. CLARKE, Peter B. As Novas Religiões Japonesas e suas Estratégias de Adaptação no Brasil. Revista de Estudos da Religião – Rever. pp 22 – 45. São Paulo, Pontifícia Universidade Católica de SP. 2008. pg. 38. 26 CARVALHO, Daniela de. Religião, sociedade e cultura: O caso do Japão. Psicologia, Educação e Cultura, 2002, VI, 2. pg. 380..
(29) 29. fidelidade a uma única fé”27. Esse sincretismo, que se desenvolveu ao longo da história japonesa, se mantém no comprometimento de funções e deveres sociais, e acabam por ser responsável pela produção e reprodução da cultura japonesa. O esforço de construir um panorama religioso no Japão é algo bastante complexo, se é que é possível, e esse não constitui o esforço principal deste trabalho. Contudo, faz-se necessário discriminar, ainda que sucintamente, os períodos sociais e suas representatividades religiosas que constituíram o Japão ao longo dos séculos até chegarmos à modernidade – e/ou Restauração Meiji. Seguindo o modelo de Reid, talvez consigamos compreender o panorama religioso do país da seguinte forma: “Período Xintoísta (até séc.VI), Xintoísta-Budista (5381549), Xintoísta-Budista-Cristão (1549-1802), e Xintoísta-Budista-Cristão-Outras [Novas Religiões, etc.] (1800- atualidade)”28.. 1.2.1 Xintoísmo. Como discriminado no esquema de Reid acima, o xintoísmo merece nossa atenção ao estudar a estrutura religiosa japonesa, uma vez que assume sua nacionalidade. Logo, o xintoísmo passa a ser compreendido como uma religião cósmica e étnica, centrada na unidade social. “O xintoísmo é, antes de mais nada, produto da tomada de consciência da mentalidade mítica japonesa que se defronta, pela primeira vez, com uma religião-filosofia poderosa, elaborada e estrangeira, chamada budismo”29. Diferente das religiões monoteístas, o xintoísmo não tem um fundador. É tipicamente uma religião nacional, que ao longo dos séculos adotou tradições de várias outras religiosidades. Não conta com nenhum credo ou código ético expressamente formulado. Sua essência está embasada em cerimonias e rituais que mantém o contato com o divino. Acredita-se que o xintoísmo possui milhares de kamis – deuses – que se manifestam sob a forma de árvores, montanhas, rios, animais e seres humanos. O 27. NAKAGAWA, Hisayasu; tradutora Estela dos Santos Abreu. Introdução a cultura Japonesa: ensaio de antropologia recíproca. São Paulo, Martins, 2008. pg. 31. 28 Reid, D. (1991). New Wine: The Cultural Shaping of Japanese Christianism. Berkeley: Asian Humanities Press. 29. OSHIMA, Hitoshi; tradução de Lenis G. de Almeida. O pensamento japonês. São Paulo, Escuta, 1991. pg.47..
(30) 30. culto aos kamis – que também são concebidos como espíritos – naturais e ancestrais sempre foi fundamental para o xintoísmo, desde os dias em que o Japão ainda era uma sociedade agrária. A partir do século VI, o xintoísmo teve que lidar com a introdução do budismo, e ambos acabaram por influenciar um ao outro. Como citado anteriormente, não é estranho no Japão o uso alternado de várias religiões. Assim uma criança pode receber as bênçãos pelos deuses num ritual xintoísta e ser sepultada num ritual budista, tendo a celebração de casamento – caso atinja a vida adulta – num ritual cristão30. Sendo assim é impossível negar a importância que o xintoísmo exerceu nos aspectos sociais dentro da cultura japonesa ao longo dos séculos.. Os templos xintoístas funcionavam como centros da comunidade e, embora esta função se tenha vindo a esbater com as mudanças sociais do pós-guerra, continua a dar continuidade às atividades culturais tradicionais. As várias estações do ano são celebradas de acordo com ritos xintoístas. Os festivais religiosos xintoístas (matsuri) unem as pessoas com o kami e têm tido uma grande importância social no Japão. O kami é representado por um objeto e transportado num altar aos ombros de um grupo de jovens pela aldeia ou localidade, e realizam-se em todo o país mesmo numa cidade cosmopolita como Tóquio. O ambiente geral é de festa com muita bebida. Sendo uma religião animista sem doutrinas ou dogmas, o Xintoísmo não tem preocupações de ordem ética. Os ‘maus’ atos humanos são considerados como desastres naturais e para evitá-los é preciso realizar atos de purificação (purificação física feita pelo próprio lavando a boca e as mãos, e purificação interior feita pelo sacerdote)31.. É interessante notar o quanto o xintoísmo se mostra intrinsicamente posto, não só na cultura japonesa, como também em sua estrutura étnica, uma vez que o mito de origem japonês assume a descendência de uma linhagem divina: Amaterasu, deusa do sol. No princípio, segundo a mitologia japonesa, um casal divino, Izanagui e Izanami, desceu do céu e gerou as ilhas japonesas. Depois o resto do mundo e tudo o que há nele. Por último uma série de deuses, os Kamis. Destes, o mais importante era a deusa do sol, Amaretasu. Os outros kamis se estabeleceram na terra e conceberam os primeiros seres humanos. Todavia, a sociedade humana precisava de ordem e comando, e por isso o neto da Amaterasu foi enviado à terra. Um de 30. Ibid. pg. 47 – 54. CARVALHO, Daniela de. Religião, sociedade e cultura: O caso do Japão. Psicologia, Educação e Cultura, 2002, VI, 2. pg. 381. 31.
(31) 31. seus descendentes se tornou o primeiro imperador do Japão. Assim, todos os japoneses têm origem divina, mas em especial o imperador que é descendente da própria deusa do sol. ”A crença na origem divina da linha imperial legitimou a autoridade do Imperador ao longo da história do Japão até 1946, quando o Imperador Hirohito anunciou aos Japoneses que não era divino”32.. 1.2.2 Budismo. Embora o Budismo se proponha a tratar da liberação total e, consequentemente, da salvação, ele não pode ser tratado simplesmente como um sistema religioso. Isso por não se submeter a crença em divindades ou seres transcendentes. O caminho da liberação e da salvação que eles acreditam passa pelo autoconhecimento, logo, muito mais que religião o budismo pode ser tratado como uma filosofia de vida.. De onde vêm a guerra e a disputa? De onde vêm a melancolia, a tristeza, o orgulho, a calúnia, a avareza etc.? Digo-vos que tudo isso vem daquilo que gostamos. Ora, de onde vem o gostar? O gostar vem pelo ou através do desejo. E de onde vem o desejo? O desejo nasce pelo agradável e pelo o desagradável. O agradável e o desagradável surgem do contato; pelo nome, e pela forma. Ora, como é possível o desaparecimento da forma? Como podemos livrar-nos da dor e do prazer? Aquele que não pensa como os demais, que não pensa torpemente, e que não é um homem que nem pensa nem apaga o seu pensamento, somente ele está livre da forma, pois a forma, a noção da extensão, nasce pelo pensamento (...)33.. Acredita-se que, entre a origem dos pensamentos budistas e sua chegada ao Japão, tenha transcorrido mais de mil anos. Certamente esses períodos foram marcados por diversas mudanças sistemáticas e conceituais. “O tipo de budismo que entrou no Japão, chamado ‘Budismo Mahayana ou o grande veículo’, cujas teorias foram elaboradas por Nagardyuna e Vaspandu, por volta dos séculos II e III, busca também a libertação por meio da teoria do conhecimento”34. A tônica desse pensamento é o vazio, que significa a não substancialidade inseparável dos. 32. Ibid. pg. 381. OSHIMA, Hitoshi. O pensamento japonês. São Paulo, Escuta, 1991. pg. 34. 34 Ibid. pg. 35. 33.
(32) 32. fenômenos. Dito de outra maneira, a ideia dos fenômenos, sem referência à realidade ou substância, é a ideia do vazio. Esse pensamento comparado ao pensamento mítico japonês, originário da tradição xintoísta, são definitivamente diferentes, uma espécie de água e óleo, que ao que parece não podem se fundir, pois enquanto o Budismo Mahayana propõe significados aos fenômenos vazios, a mentalidade mítica japonesa vai nos sugerir um mundo onde tudo é real e/ou não há fenômeno livre de sentidos e/ou significados. O Budismo Mahayana ensina que o mundo é inexistente, enquanto que a mentalidade mítica nos diz, como também nos disse Tales de Mileto: “O mundo está cheio de deuses”. Mesmo tendo essas questões colocadas sobre as dificuldades conceituais de o Budismo se estabelecer no Japão, a partir do século VI, o trato é que o Budismo no Japão é uma arquitetura construída sobre a base estrutural da mentalidade mítica. E ele não teria florescido sem sua incorporação à essa estrutura mental, tendo sido recebida como uma religião que se pautava em técnicas magicas, uma espécie de budismo esotérico que mais tarde vai substituir a divindade em Buda35. Tendo considerado as questões introdutórias para a chegada do Budismo no Japão, é importante destacar que sua posição nem sempre foi tão confortável. No século XVI, com a proibição da pregação cristã, que começara a incomodar as autoridades Japonesas por sua difusão, as três religiões oficiais passaram a ser o Xintoísmo, o Budismo e o Confucionismo36. Resultando mais tarde na ordenação estatal que estabeleceu que “todos os Japoneses ficaram obrigados a registar-se como membros de uma comunidade budista. O Budismo passou a ser religião oficial com o estabelecimento de um sistema que exigia que cada família japonesa se registasse no templo local e o financiasse”37.. Já no século XIX, no início da Restauração Meiji, o Budismo passa a sofrer fortes perseguições estatais, tendo templos queimados e sua membresia perseguida. A partir de então o Xintoísmo passa a ser a religião estatal e em 1873 o. 35. Ibid. pg. 36 – 39. NAKAGAWA, Hisayasu; tradutora Estela dos Santos Abreu. Introdução a cultura Japonesa: ensaio de antropologia recíproca. São Paulo, Martins, 2008. pg. 35. 37 CARVALHO, Daniela de. Religião, sociedade e cultura: O caso do Japão. Psicologia, Educação e Cultura, 2002, VI, 2. pg. 382. 36.
(33) 33. Cristianismo volta a ter a liberdade de culto, não só eles – os cristãos – como muitas outras religiões se empenham na difusão de sua mensagem38.. 1.2.3 Cristianismo. O Cristianismo marca a introdução das religiões ocidentais no Japão muito antes do período de modernização nacional, a saber: a restauração Meiji. A chegada dos missionários da companhia de Jesus – os jesuítas – é marcada no século XVI: “o Japão encontrava-se na época dilacerado por guerras internas e estas guerras aliadas à oposição dos monges budistas e sacerdotes xintoístas ao Cristianismo dificultaram a expansão da doutrina cristã39”. Junto com a Restauração Meiji datada no século XIX, temos a chegada dos missionários – protestantes – Anglo-saxões. Nessa fase, os missionários da companhia de Jesus encontraram alguns obstáculos na difusão de sua mensagem. As principais foram em relação as diferenças conceituais do catolicismo e da tradição japonesa, sendo as principais: a onipotência do Deus cristão; sua posição criadora de toda a criação e a intolerância dos missionários católicos, resultando na resistência por parte do governo japonês da época40.. 1.2.4 Novas Religiões Japonesas As chamadas Novas Religiões Japonesas – NRJ – exerceram sua importância no cenário Japonês, marcado pela modernização. A maioria delas surge no pós-guerra e mantém uma peculiaridade muito emblemática, pois suas preocupações estão relacionadas ao mundo presente ao invés do mundo escatológico e/ou futuro. Os estudiosos das NRJ entendem que as grandes diversidades religiosas do Japão refletem o interesse e/ou procura da população japonesa por atividades religiosas – sendo um reflexo da modernização que marca esse período – sem, 38. KURIHARA, Akiko; NISHIZAWA, Hiroko. Breve história do Japão. São Paulo, Press Brasil, 2009. pg. 199. 39 CARVALHO, Daniela de. Religião, sociedade e cultura: O caso do Japão. Psicologia, Educação e Cultura, 2002, VI, 2. pg. 383. 40 OSHIMA, Hitoshi; tradução de Lenis G. de Almeida. O pensamento japonês. São Paulo, Escuta, 1991. pg. 55 – 60..
(34) 34. contudo, anular os compromissos sociais que a população mantinha com as religiões tradicionais, como por exemplo, levar crianças recém-nascidas aos ritos dos templos xintoístas e sepultar seus mortos com rituais budistas41. Passar-se-á a descrever, ainda que sucintamente, duas dessas NRJ com a finalidade de entender suas mensagens e/ou contribuições para a sociedade da época – Restauração Meiji – e a proposta que introduziram como respostas para os infortúnios sociais, uma vez que a maioria delas nasceu exatamente como uma resposta e/ou sinalizador de esperança para a sociedade de então. Embora haja alguns momentos distintos que serviram de molas propulsoras para a proposta de conversão e salvação dessas NRJ. Ater-se-á ao primeiro, que marcou início no século XIX, estando o Japão submerso na crise do regime feudal, tendo como marco principal o fracasso de suas políticas econômicas. Desse momento da história Japonesa nos interessa analisar a formação religiosa da Tenrikyô e da Oomoto42. Contudo, nossa principal atenção estará voltada para a Oomoto, responsável por influenciar os pensamentos de Mokiti Okada na construção de seu arcabouço teológico e de sua proposta de salvação, não só na sociedade de seus dias, mas para toda humanidade, após ter experimentado a conversão, aquilo que chamou de segundo nascimento43. Debruçar-se-á sobre essas duas linhas por se entender a singular importância delas nesse cenário em que se configuraram e se instituíram no Japão moderno. A relevância delas é importante por vários motivos, talvez o principal deles seja o fato de serem instituições fundadas por duas mulheres – Mike Nakayama e Nao Deguchi – respectivamente em um Japão marcado pelo forte sistema patriarcal, como era o Japão xogunal, em Edo.. a.. Tenrikyô. Iniciar-se-á resgatando a história da líder fundadora da Tenrikyô, Miki Nakayama (1798 – 1887), procurando encontrar os principais elementos que a. 41. WARAGAI, Eliane Satiko. As interferências culturais nas traduções de textos das religiões de origem japonesa. 2008, 109f. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2008. pg. 42 – 45. 42 Ibid. pg. 43 43 FMO – MOA (Ed.). Luz do Oriente: biografia de Mokiti Okada – Vol.1. São Paulo, Fundação Mokiti Okada, s/d (a). pg. 231..
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