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Meandros e labirintos do longeviver

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Academic year: 2021

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Meandros e labirintos do longeviver

E

nvelhecer não tem nada de bom...

Esta afirmação feita a respeito dessa fase natural da vida, por conhecida colunista do país, é o mote do artigo reflexivo - que inicia esta edição de nº 15 da Revista Portal de Divulgação - Parece uma guerra: vivemos para não

envelhecer? Nele, a autora, tomando por base a crônica citada, tece

considerações sobre o “peso e o preço” que nos são impostos por uma sociedade de aparência e consumo, na qual as receitas antienvelhecimento são o grande foco em todas as mídias.

É possível não envelhecer?

Sim. A solução? Não ultrapassar a idade de “ouro” na qual juventude, força e beleza estão no seu apogeu! Aí você pergunta: Como?

Morrendo jovens, assim não ficaremos velhos!

Não podemos negar que longeviver traz fragilidades, e como diz ironicamente a colunista “Envelhecer não é exatamente um passeio no bosque sobre um

manto de margaridas”. Não é! A vida não é um passeio pelo bosque idealizado,

mas é um maravilhoso exercício cotidiano - caminhar em direção a superação e adaptação - árduo labirinto com flores e espinhos - desafio que nos faz ser criativos, mudar, transformar e reinventar a cada dia essa jornada humana, tão fugaz, na Terra.

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Todos os homens desejam alcançar a velhice, mas ao ficarem velhos, se lamentam... Esta é a frase do filósofo Cícero que a autora deste instigante

artigo nos indica como complementar aos comentários da colunista.

Mas, segundo o artigo, a colunista afirma que pior que a morte, são as dificuldades de uma memória em apuros. Este é um dos grandes temas da atualidade – perder a memória / perder-se de si, como nos impõe o temível Alzheimer, medo cruel de todos os que, com o passar do tempo, tem alguma queixa subjetiva ou quadros realmente mais severos. Sobre a memória também devemos pensar que ela é constitutiva dos sujeitos e das sociedades, parte da construção da cultura humana. Afirma o jurista e filósofo Norberto Bobbio (1997)1 “Somos aquilo que pensamos, amamos, realizamos [...] Somos

aquilo que lembramos”. Conclusão semelhante a do respeitado pesquisador, o

neurobiólogo Ivan Izquierdo (2004)2: “[...] nada somos além daquilo que

recordamos”.

Estas afirmações se contrapõem, de certo modo, à frase do poeta Manuel de Barros - “Tudo que não invento é falso” - e mote da reflexão, extremamente bem articulada, que podemos ler em Invenções da velhice. Seguindo este pensamento a autora nos leva ao desafio da dúvida de que a memória do vivido é constitutiva das identidades, já que o termo invenção, utilizado pelo poeta, coloca “sob suspeita qualquer relação da memória com vivências recolhidas de um passado que imprimiriam ao presente a sua marca [pois] inventar é falsear, imaginar, fabular, iludir, [é] uma experimentação de risco”. Partindo destas premissas a autora foca sua reflexão sobre o filme Poesia - com roteiro e direção do coreano Lee Chang-Dong (2010) – destacando como nele surgem os muitos modos de “inventar” este envelhecer confrontando as muitas e naturais perdas, incluindo a de memória. Diante do diagnóstico de Alzheimer a protagonista Mirja se volta para uma reinvenção da própria vida, por meio da poesia não só escrita, mas, principalmente, imaginada e vivida em comunhão com a natureza e com os fatos cotidianos que a cercam. Um movimento de superação.

A ideia de inventar o próprio envelhecimento e, assim, superar as possíveis dificuldades que se apresentam nos parece extremamente interessante e promissora. Esta poderia ser a base de uma “cultura do longeviver”, tema ao qual temos nos dedicado e divulgado em artigos e livros, registrado no Portal do Envelhecimento, há um bom tempo, e que passa pela criatividade, pois por meio dela podemos inventar e superar o pensamento unitário e utilitário em relação à própria vida, ainda de forte prevalência em nosso meio.

A possibilidade de viver mais e da melhor forma possível - mesmo que esta fase não seja um “bosque de margaridas” – pode ter nas artes uma grande aliada. Pois as diferentes expressões artísticas ilustram, concretamente, as

1 BOBBIO, Norberto. O Tempo da Memória - de senectude e outros escritos autobiográficos.

Rio de Janeiro: Campus, 1997.

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experiências sensíveis de conhecimento, suas interações e formas de comunicação. Expressas por meio das palavras – poesia, crônica, romance, etc. - na música, no cinema, nas fotos, nas artes plásticas, nas esculturas e instalações - incompreensíveis para muitos, mas que nos inquieta e faz pensar. A obra expressiva - realização humana - traz em si uma carga de emoções e latências – modos, materiais e autores – que reverbera e pode ser captado por todos. Cria um canal de comunicação pela escuta, pelo olhar, e pelo silêncio, pois não só as palavras falam... o silêncio também comunica.

Esta é a perspectiva trazida no artigo A Importância da Musicoterapia para o

Envelhecimento Ativo no qual a autora afirma a importância da música aplicada

à prevenção objetivando melhor qualidade de vida. Afirma que “a musicoterapia vem atuando em diversas áreas da saúde e na prevenção das doenças do envelhecimento, não só pelo poder terapêutico da música, mas também pelos resultados dos estudos investigativos da neurociência da música. A música é capaz de estimular o físico, emocional e a vida social do idoso”.

Se a música enquanto expressão artística tem este potencial – unindo corpo e espírito por meio do belo – para um melhor longeviver, o mesmo se pode dizer da leitura como proposto em El valor de la Biblioterapia em la vejez. O autor nos ensina os significados da palavra “[...] biblioterapia proviene del griego, “biblon” que designa todo tipo de material bibliográfico o de lectura, y “therapein” que significa tratamiento, cura o restablecimiento.

A investigação por ele aqui apresentada teve como objetivo resgatar o potencial dos livros nos trabalhos com idosos, ainda carentes de atividades que suscitem reflexão mais profunda, pois podemos, por meio da literatura, vivermos situações sonhadas e imaginadas, tomar contato com universos diferenciados, escutar o riso, a voz, o choro do narrador, como espelho da condição humana comum, cada um de nós. Como afirma García Pintos(2003), citado pelo autor:

Por “biblioterapia” debemos entender la utilización terapéutica del libro, pero tomando por tal (libro) no sólo y estrictamente “un libro” sino extendiendo la idea a toda “letra escrita”, sea prosa, poesía, canciones, aforismos y reflexiones.

Tomamos a liberdade de trazer, a este respeito, uma perspectiva que também desenvolvemos em nossas pesquisas e práticas docentes, com idosos e profissionais: - a articulação dos temas Arte e Gerontologia. Unindo estas, e outras, (in) disciplinas podemos originar o desvelamento das subjetividades, por meio da interlocução dos diferentes atores - idosos, profissionais, docentes, os artistas, as obras, os materiais.

Existe a possibilidade de um diálogo entre os observadores, as obras e entre si, do qual surjam significados inesperados que renovam e exercitam um novo olhar – despreconceituado. Exercício que favorece também um original e criativo modo de entender o envelhecimento e a longevidade.

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Neste sentido podemos articular a Gerontologia e o fazer artístico por apresentar, de modo concreto, através da obra, a possibilidade de um conhecimento ampliado – multidimensional - tão necessário à compreensão dos diferentes modos de viver a vida, e nela a longevidade. A observação deve considerar a parte expressa e a latente, com uma atitude ativa do observador, e por meio da análise destes trabalhos os participantes podem abrir-se criativamente na busca dos sentidos maiores da vida.

Voltando ao artigo citado, trazemos as palavras do autor:

En síntesis, la aplicación de talleres de biblioterapia en adultos mayores es una herramienta más para enfrentar la problemática de la vejez, ya que favorece el autoconocimiento, estimula el despliegue de los recursos noéticos, permite descubrir modos para enfrentar las nuevas limitaciones propias de la edad, y promueve la búsqueda del sentido, más allá de la edad que uno tenga y los mitos que haya en la sociedad.

Combater os mitos sobre esta fase da vida e ultrapassar preconceitos é uma atitude a ser desenvolvida por toda a sociedade. Mas onde e como iniciar um trabalho que informe, valorize e promova este encontro de gerações que conduza a visão renovada sobre a velhice? Na escola.

Tema de relevância, abordado em O envelhecimento na sala de aula: a

importância de atividades educativas intergeracionais na educação básica.

Apoiada em Morin (2000) a autora declara que: Cidadania, respeito mútuo,

ética, afeto, transmissão e aquisição de conhecimentos, resgate da autoestima, valorização da história de vida são benefícios mútuos para os que se aventuram no convívio intergeracional.

Pensar o contato e esse convívio como estratégias educativas, para compreensão da heterogeneidade das formas de envelhecer, é pensar na construção de uma sociedade democrática, onde as diferenças não são extintas e sim incorporadas. “Crianças, adultos e velhos todos cidadãos, produtores de democracia e de cidadãos”.

A autora afirma ainda que marcos legais já apontam para a necessidade destas práticas, mas o que se observa é uma baixa adesão a elas. Educar o cidadão do futuro implica em ampliar horizontes e construir uma cultura de inclusão, solidariedade e paz. E sim, isto se aprende na escola desde da tenra infância. A mudança para uma sociedade justa e igualitária passa pela educação, e formação continuada para todos.

Entre outros benefícios, a educação para solidariedade e bem comum poderia transformar o quadro assustador da violência contra os idosos, especialmente no meio familiar, como nos indica o artigo Violência contra os idosos: um ato

que deve ser combatido por todos nós. Ele indica que existe amparo legal para

coibir estes descasos e maus tratos – físicos e psíquicos, aos quais os idosos são submetidos, mas “não existe a efetivação das medidas de prevenção por

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parte do poder público, e nem conscientização e mais amor por parte das famílias. Assim, nos casos apresentados pela ‘violência doméstica’, vítimas e acusados são vistos como cidadãos falhos, incapazes de exercer os seus direitos adquiridos”.

Vale aqui destacar que, segundo os estudos mais atuais, fica evidenciado que as famílias, consideradas legal e prioritariamente cuidadoras principais dos idosos mais fragilizados, não tem, na maior parte das vezes, estrutura financeira, de moradia e de preparo para este que é um ato de desprendimento em benefício de outro.

A falta de tempo, ocasionada pelas mudanças das estruturas familiares e de trabalho, a baixa escolaridade e renda, aliadas a certo “apagamento” da ação pública de apoio às famílias acaba gerando este quadro. Como finaliza o autor: “Coibir a violência é um ato de cidadania, é um ato de valorização da vida humana, é um ato de respeito para com os idosos”.

Mas muitas coisas podem ser feitas, mesmo para os idosos com múltiplas fragilidades físicas e emocionais e apartados por longos anos do convívio familiar, como indica Intervenção odontológica domiciliar em paciente idoso

cego institucionalizado – relato de caso.

O campo da odontogeriatria vem se ampliando, e este relato de atendimento realizado com paciente e condições adversas pode ser um exemplo deste “cuidar”, respeitando as diferenças individuais e promovendo, dentro do possível, um “bem estar”, com repercussões positivas em vários níveis.

Neste número apresentamos os caminhos – diríamos mais meandros e labirintos – que se multiplicam e desdobram quando o tema é a longevidade crescente da população mundial, e no caso específico do Brasil. Neste contexto de crise econômica, desemprego e instabilidade geral, finalizamos com um debate que deixamos em aberto à participação de nossos leitores:

Para pensar ou achar engraçado: A idade, a aposentadoria e o mercado de trabalho.

A informalidade na escrita aliada a uma análise crítica do ‘mundo real”, nos coloca em contato com o não-lugar dos mais velhos no mercado de trabalho, apesar de reconhecida competência e pleno vigor. A autora nos relata sua peregrinação em busca da manutenção do direito e dignidade no trabalho, e mesmo diante do preconceito, luta! E seu desabafo nos faz pensar e terminar na entrada do labirinto proposto pela frase “afirmativa” que abre esta edição

Envelhecer não tem nada de bom, com outra que indaga e expressa, como

vimos até aqui, novas possibilidades: Envelhecer não tem nada de bom? Aberto o Debate! Participem!

Beltrina Côrte e Vera Brandão Editoras

Referências

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