Trabalho de Projecto apresentado para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Cinema e Televisão realizado sob a orientação
AGRADECIMENTOS
Os agradecimentos nunca chegam. Cheguei ao jornal i em abril do ano passado e foi a partir desse dia que ganhei a consciência do que queria fazer para o resto da vida. Saí no dia 17 de Agosto do ano seguinte, depois de ter vivido, de muito perto, o despedimento colectivo de 120 pessoas. Mas neste ano e meio não se guardam só más memórias. Aquilo que aprendi em tão pouco tempo e a liberdade que me foi dada tornaram-me mais homem e isso, hoje em dia, não tem preço. Mas o mais importante foram as pessoas que conheci: extraordinários profissionais e seres humanos sem igual.
A ausência no mundo do cinema de documentários sobre jornalistas levou-me a crer que o momento actual que a minha profissão vive poderia ser um bom ponto de partida para o meu projeto final. Foram longas as conversações para chegar a este grupo ideal de quatro pessoas, a quem agradeço a inteira disponibilidade em sentar-se comigo para ser entrevistado.
Depois agradecer à minha equipa técnica – João Lourenço, Tomás Veríssimo, Afonso Sousa - que, graças a uma longa amizade e a uma entrega constante, me permitiu levar esta ideia até ao fim. Os obstáculos com que me deparei quase que me levaram a desistir de terminar o projeto de mestrado mas, a persistência e sentido de responsabilidade da minha mãe e do meu padrasto não o permitiu. Também a eles o meu sincero agradecimento. Finalmente agradecer ao Professor Doutor Jacinto Godinho, também ele jornalista, que logo à partida me incentivou a não desistir deste projeto, apesar de todas as adversidades que lhe fui transmitindo. O documentário e esta memória descritiva são o resultado de algo que espero não que não fique por aqui.
RESUMO
Os jornalistas portugueses vivem hoje um dos períodos mais difíceis da sua profissão. A falta de recursos, o boom da internet e a imagem negativa associada ao seu trabalho tem construído uma narrativa que pode explicar, em parte, o seu problema. Partindo de uma investigação que se tornou viral – em que os jornalistas têm fortes indícios de se tornarem psicopatas – este documentário procura sentar quatro jornalistas na poltrona, como se de uma consulta de psicólogo se tratasse.
PALAVRAS-CHAVE: jornalismo, psicopatia, internet
ABSTRACT
The portuguese journalist live nowadays one of the most difficult episodes of their profession. The lack of resources, the internet boom and the negative imagem that is associated with journalism has built a narrative that could explain, in part, the crisis in the media. Using an investigation that went viral – where journalists show strong signs of psicopathy – this documentary tries to examine four journalists, like they were having a psychological consultation.
ÍNDICE
1. Introdução ... 6
2. Género ... 11
3. Metodologia ... 13
4. Sintomas de psicopatia como união dos jornalistas. ... 16
5. Referências cinematográficas ... 20 6. Sinopse ... 21 7. A importância da voz-off ... 22 8. Pré-Produção ... 24 8. 1. Entrevistados. ... 25 8. 2. Equipa técnica. ... 27 9. Produção ... 28 10. Pós-Produção ... 29 11. Conclusão ... 31 12. Bibliografia ... 33 13. Filmografia ... 34 14. Anexos ... 35
11. 1. Texto voz off... 36
11. 2. Cartaz ... 37
1. INTRODUÇÃO
Nunca é fácil trabalhar sobre algo que não se conhece. No caso deste trabalho de projeto de mestrado de Cinema e Televisão da Faculdade de Ciências Humanas parti dessa mesma premissa. A vontade de fazer um documentário sobre os jornalistas do jornal i fez com que começasse a desenhar um projeto a partir de abril do ano passado, data onde dei o início à minha carreira jornalística. No entanto, entrar num mundo tão complexo como é o dos jornalistas tem de ser feito sob este ponto de vista:
O jornalista é uma entidade abstrata que não existe; o que existe são jornalistas.1
Foi por isso que me deparei logo com dois problemas iniciais: como posso eu fazer um documentário sobre uma temática que tem pouca ou nenhuma tradição cinematográfica em Portugal e como poderei entender esta tal entidade abstrata de que o sociólogo francês Pierre Bordieu fala. Para acrescentar a estas preocupações, em cerca de ano e meio de experiência profissional este projeto deu muitas voltas.
Começou por ser um filme sobre o despedimento colectivo que ocorreu em novembro do ano passado onde o administrador da Newsplex, Mário Ramires,- ex-jornalista da agência Lusa e do semanário Expresso - viu-se obrigado a despedir 120 pessoas num só dia, tanto do jornal i como do semanário Sol, ambos detidos pela mesma empresa com capital angolano. Só 66 dos jornalistas é que transitariam para uma nova empresa, que iria unir uma redação muito pequena para fazer dois títulos da imprensa portuguesa, com cortes salariais brutais, diminuição das despesas – de
1 Bordieu, Pierre, “Sobre a Televisão”, The New Press [online], 1996, p.23. Acedido a 20 de setembro de 2016. Disponível em: <https://books.google.pt/books?id=8EO6JMZw5KIC&pg=PA23&lpg=PA23&dq=the+journalist+is+an+abs tract+entity+pierre+bourdieu&source=bl&ots=NHe8tc3xbJ&sig=nLW1G7Twuijr3NSWM74DYuv4BdQ&hl =pt-PT&sa=X&ved=0ahUKEwi3sY6YmYPQAhVIPBoKHYTTBTkQ6AEIHjAA#v=onepage&q=the%20journalist%2 0is%20an%20abstract%20entity%20pierre%20bourdieu&f=false>
deslocação, alimentação, etc. - e a consequente redução naquilo que diz respeito à agenda mediática de Portugal. O novo modelo negócio seria então assim definido por Mário Ramires, que passaria a ser o diretor de ambos os jornais:
O princípio clássico era que a circulação (os jornais vendidos em banca) pagava a impressão (papel e gráfica) e a distribuição (desconto da distribuidora e comissão dos pontos de venda), e toda a estrutura de pessoal e custos operacionais eram indexados às receitas de publicidade. A Newsplex parte exactamente do princípio contrário. A circulação (deduzido o desconto da distribuidora e as comissões dos pontos de venda) paga a estrutura de pessoal (vencimentos e obrigações fiscais e sociais) e a publicidade pagará a impressão e demais custos operacionais.2
Ora a lógica será então não depender exclusivamente da publicidade, mas para isso os cerca de 5 mil jornais do i e os 21 mil do Sol vendidos na altura terão de aumentar muito para que o modelo se torne sustentável. Para além disso, os 66 jornalistas que transitaram para a nova empresa, passariam a trabalhar de segunda a sexta-feira – incluindo Domingos – em media 9/10 horas por dia, tendo também de fazer dois jornais, mais alimentar individualmente com uma notícia, ambos os sites destes dois meios de comunicação.
Mas se muito ainda há por explicar, tanto a nível da gestão danosa como da própria relação da antiga, e nova, empresa com Angola – Álvaro Sobrinho continua a ser acionista – aquilo que me interessava para o meu projecto eram os jornalistas e como é que este novo modelo de negócio iria afectar o seu método de trabalho e a sua vida.
As conversas com os jornalistas estavam delineadas, as autorizações para filmar no interior da redação também. A própria estrutura do filme, que estaria intercalado
2 Ramires, Mário, Administrador da Newsplex e agora da Newshold, diretor do jornal i e semanário SOl no primeiro editorial dos dois títulos, dezembro de 2014. Consultado a 9 de setembro de 2016. Disponível em: <http://www.meiosepublicidade.pt/2015/12/nova-empresa-de-comunicacao-social-newsplex-assume-titulos-da-newshold/>
entre entrevistas individuais e planos fly-on-the-wall3 – um movimento de câmara de
observação omnipresente -, muito utilizado na estética dos filmes do documentarista Frederick Wiseman, autor de filmes como National Gallery (2014) ou Hospital (1970), ajudar-me-ia a construir uma narrativa que partisse de um passado recente que abalou a dinâmica profissional dos intervenientes para um presente que tem, constantemente, obstáculos por ultrapassar.
Mas a minha situação laboral não me permitiu iniciar o projeto. A minha saída em agosto deste ano obrigou-me, ainda mais, a reformular este documentário porque já não seria filmar no interior das instalações dos dois diários. Foi nessa altura que dei de caras com mais uma daquelas notícias virais com que somos bombardeados todos os dias, a toda a hora, amplamente comentada nas redes sociais – Facebook e Twitter, principalmente. O livro The Wisdom of Psychopaths: What Saints, Spies, and Serial
Killers Can Teach Us About Sucess (2012) do psicólogo Kevin Duttom lançava um
ranking de profissões com o potencial de existirem pessoas com indícios de psicopatia: os jornalistas apareciam em sexto lugar.
Claims like these are admittedly hard to believe. But they’re true. Psychopaths are fearless, confidente, charmismatic, ruthless and focused. Yet, contrary to popular belief, they are not necessarly violent. Far from its being na open-and-shut case- you’re either a psychopath or you’re not – there are, instead, inner and outer zones of the disorder: a bit like the fare zones on a subway map. There is a spectrum of psychopathy along which each of us has our place, with only a small minority of A-listers residente in the “inner city”. Think of a psychopathi traits as the dials on a studio mixing deck. If you turn all of them to max, you’ll have a soundtrack that’s no use to anyone. But if the soundtrack is graded, and some are up higher than others- such as fearlessness, focus, lack of empathy and mental toughness, for exemple – you may well have a surgeon who’s a cut above the rest.4
3 Movimento de câmara em que o realizador observa os intervenientes à distância, sem os interpelar. 4 Dutton, Kevin, The Wisdom of Psychopaths, 2012, Scientific American, Available from:
O psicólogo usa sete traços – impiedade, charme, acção, força mental, falta de medo, atenção plena, concentração – para avaliar profissões como a de CEO, juíz, vendedores ou jornalistas, que podem ser usados pelos mesmos para seu próprio benefício. No entanto, os resultados vieram de um inquérito patrocinado pelo próprio – com cerca de cinco mil respostas – como questionou a revista norte-americana The
Atlantic, o que levanta dúvidas sobre a base científica desta teoria lançada:
They key, he also says, is context – people who have too many of these traits dialed upa t once are the makings of Hannibal Lecter, not business tycoons. Unfortunately, Dutton said the survey didn’t leave him with any way of understaind how his respondets were calibrated. We can only speculate about which traits are making it possible for the people on the list to do their specific jobs well. And we can onlye pray that none of them scored too highly for all seven.5
Contudo, considerei que este estudo poderia servir de base para o meu projeto servindo como metáfora para a relação que existe em Portugal entre os jornalistas do jornal i e o público que os lê – basta fazer uma rápida pesquisa pelas caixas com comentários negativos da página de Facebook oficial do jornal para ter uma ideia – para lançar um desafio a estes mesmos profissionais: sentá-los na poltrona e entrevistá-los para falar sobre os mais variados assuntos. Porque decidiram abraçar esta profissão, os seus obstáculos, as suas vantagens, como olham para as críticas que lhes são lançadas e que futuro preveem para o jornalismo. Dar a conhecer homens e mulheres com quem convivi que, por força das circunstâncias, muitas das vezes foram forçados a seguir um caminho mas a não desistir daquilo que mais gostam de fazer: escrever para os outros.
Tentei, de certa forma, ser o psicólogo dos meus antigos colegas, inverter os papéis, dar-lhes um espelho e esperar para perceber que visão têm eles do mundo que habitam, que opinião têm eles sobre uma profissão que parece que está sempre em
5 Abrams, Lindsay, Most Journalists Not Psychopaths, The Atlantic, 9 de janeiro de 2013. Acedido a 19 de Outubro. Disponível em: <http://www.theatlantic.com/health/archive/2013/01/most-journalists-not-actual-psychopaths/266953/>
cheque. Tal como Dutton fez com os estudantes que entrevistou, eu usei alguns dos sintomas da psicopatia para desmascarar uma série de ideias pré-feitas e preconceitos que existem sobre os jornalistas.
Mas também tal como o britânico, eu próprio não consegui ter certezas, apenas lançar o debate. Até porque a minha amostra é demasiado pequena e seria cientificamente reprovável eu admitir que a realidade apresentada por estes jornalistas é a mesma que os restantes em Portugal – mesmo que o número de profissionais desta área tenha vindo a diminuir nos últimos anos. Segundo a Comissão da Carteira Profissional, por exemplo, Portugal perdeu 1218 jornalistas entre 2007 e 2014. O cenário fica mais grave quando percebemos que os jornalistas estão mais velhos e são cada vez menos, como apontou o Observatório Europeu de Jornalismo o ano passado. Esta diminuição associada à quebra de vendas e aos despedimentos colectivos e encerramento de títulos da imprensa – o Diário Económico encerrou este ano, por exemplo – pode levar a crer que as pessoas que aqui entrevistei poderão ter muito em comum com outros dos seus pares em Portugal E como o cenário é negro, não seria indicado auscultar quem faz do lápis, do computador e da voz a suas forma de comunicar com o mundo?
O meu comportamento é absurdo: não sei defender-me, entrego-me a cada entrevista como se tivesse a vida em jogo. Às vezes parece-me surpreender na cara dos jornalistas uma expressão de assombro. Imagino que estarão a pensar: “porque tomará ele isto tão peito?”.6
2.GÉNERO
Fazer um filme sobre jornalismo recorrendo à ficção nunca foi uma das opções. A minha primeira escolha sempre foi filmar a realidade tal como ela é – mesmo que o limbo entre realidade e ficção no cinema seja muito linear, como se sabe. Por isso, optar pelo documentário foi mais do que óbvia. Com filmes como Spotlight (2015),
Citizen Kane (1941), ou Homens do Presidente (1976) para usar como referência,
tornou-se demasiado difícil encontrar um gancho que me permitisse adaptar o meu projeto à realidade portuguesa para produzir uma ficção. Foi ainda mais difícil optar pela ficção quando percebi que o cinema português nunca quis explorar muito o jornalismo. Por exemplo, ao perguntar a uma das jornalistas do jornal i, e uma das grandes referências femininas nesta área em Portugal, a Ana Sá Lopes – que ficou por ficar de fora deste documentário – sobre filmes portugueses que se referissem à nossa profissão, a única lembrança foi o Lugar do Morto (1984).
Bazin confirms that film is always a social documentary in that it is “the recognition of our collective dreams, illusions, and, I daresay, worst thoughts”7
Optar pelo documentário abriu-me portas a tornar o projeto o mais pessoal possível, já que cada documentarista parte sempre de uma premissa e pode, até, usar a sua parcialidade para transmitir uma mensagem – tal como eu queria fazer, dar o lado b de uma profissão que está sob escrutínio todos os dias. Ao contrário do jornalismo, onde isenção e a imparcialidade são uma regra, neste projeto quis dar voz aos jornalistas, esperando que o contraditório possa surgir doravante. As grandes referências para mim do documentário – Robert Flaherty, Serguei Eisenstein, Frederick Wiseman ou John Grierson – só me deram mais motivação para me atirar de cabeça para dentro deste género.
7 Grosoli, Marco, André Bazin: Film as a Social Documentary, 2012, p. 7. Acedido a 18 de Agosto de 2016. Disponível em: < http://ojs.cf.ac.uk/index.php/newreadings/article/viewFile/41/92>
We believe that the cinema’s capacity for getting around, for observing and selecting from life itself can be exploited in a new and vital art form8.
3. METODOLOGIA
Observar, conhecer, recolher informação. São princípios básicos da profissão que escolhi e que está intimamente relacionado com o documentário que, muitas das vezes, vai beber dos ensinamentos da reportagem, apesar das diferenças visíveis.
O documentário fala na primeira pessoa, confessa a sua subjetividade, enquanto a grande-reportagem ou o inquérito escondem esta subjectividade sob uma pretensão à universidade9
Queria dar ao espectador a possibilidade de conhecer de perto, com planos aproximados, os jornalistas, longe do distanciamento de um ecrã de televisão, de uma rádio ou de um pedaço de papel. E como o método principal eram as entrevistas – deitando por terra a minha ideia inicial de também filmar o ambiente de redação, tive de recorrer a uma leitura obrigatória no que diz respeito aos perfis sociológicos dos jornalistas. O livro Ser Jornalista em Portugal: perfis sociológicos (2011) de José Rebelo, um projeto financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, depois acolhido pelo Centro de Investigação e Estudos de Sociologia – Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), serviu de base para consolidar as minhas perguntas. Porquê? Nesta obra encontramos entrevistas a 47 jornalistas – entres os quais José António Saraiva, ex-diretor do Expresso e do Sol ou o falecido Emídio Rangel, fundador da TSF – utilizando um método semelhante ao de Bourdieu em França, onde foram escolhidos em função de perfis-tipo previamente traçados.
Nesse projeto, que também deu origem a um livro, o La Misère du monde (1993) as entrevistas não directivas originaram representações construídas pelos próprios jornalistas através de histórias de vida narradas na primeira pessoa, como por exemplo, imagens guardadas da época quando desempenhavam a sua actividade
profissional, mas também sobre as referências, crenças, opiniões, modelos de comportamento e aspirações 10.
Mas quem são afinal, estes jornalistas? Uma questão que a equipa de investigação que dirigiu este livro lançou como ponto e partida. Foi exactamente a mesma pergunta que coloquei para este projeto, cinco anos depois. É interessante perceber como o cenário não mudou:
O jornalismo português foi palco, durante o último quarto de século, de profundas transformações das quais avultam uma acentuada feminização e uma considerável elevação do nível de habilitações académicas. A uma primeira fase de expansão, traduzida pela escalada do número de jornalistas, seguiu-se uma fase de estagnação e de recessão marcada pela diminuição do emprego e pela instabilidade das relações de trabalho. Assiste-se, então, à crescente exploração do estagiário, a quem se acena com a promessa, mais ou menos remota, de uma integração nos quadros da empresa, e à multiplicação de contratos a título precário.11
A equipa responsável por conduzir as entrevistas queriam então, para além desta pergunta base, responder às seguintes questões:
1. Qual a origem social dos jornalistas portugueses?
2. Quais as estratégias de promoção social que desenham, num mercado particularmente saturado?
3. Como olham para a profissão? 4. E o futuro dos jornalistas?
5. Como gerem as relações hierárquicas?
6. Como lidam com a hierarquia no interior das empresas onde trabalham? 7. Como são as relações com os colegas dentro da redação?
10 Rebelo, José, Ser Jornalista em Portugal: perfis sociológicos, Gradiva, 2011, p.20 11 Rebelo, José, Ser Jornalista em Portugal: perfis sociológicos, 2011, Gradiva
8. Quais as normas ético-deontológicas que perfilham? 9. Como se posicionam face à política? E face à religião?
Pegando neste modelo de entrevista e encontrado o conteúdo para o meu documentário, seria essencial estruturar a forma do filme de uma forma sóbria e directa. E aí, a minha opção foi uma junção de um programa televisivo feito por jornalistas e uma série de televisão, que ainda este ano teve a sua versão em português. Unir os dois mundos para procurar a reflexão que ambicionava, basicamente.
Vamos ao primeiro. O Bilhete de Identidade, programa de entrevistas sem voz-off, que utilizava só as respostas, que passava na RTP1 nos anos 90, onde o programa era feito de forma a centrar toda a filmagem no entrevistado, com um plano fixo. Curiosamente, um dos jornalistas entrevistados no meu filme, Nuno Ramos de Almeida, fazia parte da equipa desta programa, ao lado de Paula Mascarenhas, João Paulo Cotrim e Ana Madalena Queirós.
Esta foi precisamente a estrutura que usei nos quatro jornalistas que entrevistei. Dois planos fixos intercalados entre si onde só se dá voz ao entrevistado, nada mais. Este é um exemplo de como o jornalismo e o cinema podem unir forças, ou, por outras palavras, onde a reportagem/entrevista podem ajudar a construir uma narrativa cinematográfica mais sólida.
Em relação à série, escolhi a Terapia, que passou na RTP1 este ano, um produto adaptado da série original norte-americana In Treatment. Ao longo dos episódios conhecemos várias histórias de personagens que abrem o seu coração ao psicólogo. Cada personagem representa um dia de semana, ou seja, existe uma sequência lógica na sua narrativa apesar de, em relação ao décor, essa narrativa realizar-se exactamente no mesmo espaço: a casa do psicólogo.
4. Os sintomas da psicopatia como união entre os jornalistas
Depois era necessário perceber como é que poderíamos encaixar os sintomas de psicopatia com o conteúdo das entrevistas. Decidi utilizar quatro dos sintomas de dois dos especialistas na área da psicopatia, Hervey Clekley – autor do livro The Mask
of Sanity (1941) e Robert Hare, autor do livro Without Conscience (1993):
1. Ausência de ilusões ou outros sinais de pensamento irracional. 2. Ausência de ansiedade ou outros sintomas neuróticos.
3. Desprendido de obrigações, nenhum sentido de responsabilidade. 4. Falta de sinceridade, distanciado da realidade e dos factos.
5. Mau julgamento e incapacidade de aprender com a experiência.
O contraste entre os sintomas e aquilo que estas quatro personagens é evidente. No primeiro sintoma, todos apresentam os motivos que os levaram ao jornalismo. Quando a Cláudia diz:
O que acontece às tantas é que, eu quis ser jornalista com essa coisa que eu tinha, um bocado estúpida, de pensar que vamos mudar o mundo de alguma forma. E às tantas começas a questionar-te se isso faz algum sentido. Que diferença estás aqui a fazer. Estás como se aquilo fosse uma fábrica de notícias a reproduzir o mesmo que toda a gente está fazer, e isso leva-te a questionar sobre o que estás aqui a fazer.
É notório que não existe aqui qualquer tipo de discurso ilusório ou de pensamento irracional. A Cláudia foi ganhando a consciência dos obstáculos do jornalismo com o passar dos anos, percebendo que era necessário encontrar o seu lugar para desempenhar a sua profissão.
No segundo sintoma, encontramos, por exemplo, o caso do Nuno. O jornalista faz uma longa explicação, de forma calma e responsável, do estado do jornalismo:
Neste momento a comunicação social e o jornalismo no modelo industrial que criaram não são rentáveis. Ao entrar a internet, confunde-se aquilo que é algo que estou a fazer com outra coisa que tem valor zero. As notícias têm um valor de uso elevado, mas têm um valor de troca igual ao oxigênio que é zero.
O Nuno consegue, desta forma, fazer um desenho do estado actual da comunicação social, apresentando os seus principais problemas. Obviamente que todos nós sofremos de ansiedade mas, neste caso, o Nuno consegue dar ao espectador uma visão directa e sincera sobre o jornalismo.
No terceiro sintoma, o Carlos fala de como é importante acompanhar as novas tendências, graças à internet, e não ficar preso ao jornalismo de antigamente. Descreve como é necessário não desistir de um determinado assunto, trabalhar horas extra e permanecer focado:
Se nós queremos, de facto ser jornalistas, o melhor é tentarmos muitas vezes não nos preocuparmos com o rumo que isto está a levar, e sermos nós a fazer esse rumo. O jornalista tem de ser 24 horas por dia, como me diziam nos tempos de faculdade. E se calhar é isso.
Com esta opinião, será difícil dizer que o Carlos é uma pessoa desprendida de obrigações e com pouco sentido de responsabilidade. Perceber que existem formas de ultrapassar a crise do jornalismo revela um sentido de responsabilidade que faz com que Carlos seja hoje um dos jornalistas jovens com maior notoriedade no país.
No antepenúltimo sintoma, o melhor exemplo de como nenhum destes jornalistas estava distanciado da realidade que presencia, foi o Miguel. Esteve desde o
início neste diário e no último verão decidiu sair porque já não estavam reunidas as condições para continuar no projeto jornalístico:
Eu só posso quase dizer coisas boas do i. Formou-me, fez-me não ser um daqueles gajos que não pode fazer um título menos directo porque isso está a enganar o leitor. Agora, cheguei àquele momento em que estava a ser demasiado incorrecto com quem estava a trabalhar comigo. Antes de eu sair do i eu senti que não queria estar ali. Eu acho que eu percebi o meu limite e que já não dava mais.
Ao ter feito uma reflexão sobre si mesmo e sobre como o estado em que se encontrava contaminava o ambiente profissional e pessoal onde estava inserido, o Miguel tomou a decisão de sair do jornal que o formou enquanto jornalista. Foi uma decisão dura, sincera – e até mal compreendida por alguns dos seus colegas – mas, segundo o próprio, foi a atitude certa.
No último dos sintomas, tomamos novamente como exemplo o caso do Nuno. A sua militância política é conhecida na sociedade portuguesa, porém o próprio nunca fez jornalismo político. Com os vários anos que já tem de carreira no jornalismo, o Nuno revela não só uma capacidade de aprender com a experiência, tentando sempre chegar à verdade – mesmo sabendo que isso nunca acontece, segundo o próprio – mas também revela que é necessário saber distinguir aquilo que são as suas convicções e valores do que aquilo que escreve nos seus textos, todos os dias, que se têm de reger pela imparcialidade:
Quando eu faço uma peça, eu tento contar uma história e dividir aquilo que é as minhas opiniões e os meus valores, daquilo que é mais ou menos factual. Sei que nunca chego a verdade mas esforço-me bastante para que aquilo seja real e verdadeiro. Esforço-me bastante para isso.
O Nuno acaba por desconstruir este último sintoma porque o seu bom julgamento do meio onde está inserido levou-o sempre a tomar decisões ponderadas enquanto os assuntos eram sobre política.
Portanto, as conversas nunca batem no mesmo tema mas sim no mesmo sintoma. O que os une são os supostos sintomas de psicopatia que, segundo Dutton, seriam evidentes. O que importa neste filme, é comprovar a veracidade dos tais traços de psicopatia. Ainda que valha a pena relembrar que neste documentário não existe qualquer base científica da minha parte – principalmente porque sou jornalista e não tenho formação em psicologia.
O mundo dos jornalistas é um mundo dividido, onde há conflitos, concorrências, hostilidades.12
O mundo dos jornalistas é, de facto, dividido e com conflitos, tal como Bordieu defendia. E para resolver os problemas desse mundo, é preciso conhecê-lo intimamente: as suas tensões, angústias, preocupações e obstáculos.
5. REFERÊNCIAS CINEMATOGRÁFICAS
Descobri três filmes importantíssimos que me ajudaram a conceber tanto a ideia do projeto inicial bem como o final, que me ajudaram bastante a entender a melhor forma de falar sobre jornalistas em cinema. O Mercado das Notícias (2014), o
Page One Inside New York Times (2011) e o Contre-Pouvoirs. O primeiro vem do Brasil
e é baseado numa peça de teatro, The Staple of The News (1626) de Bem Jonhson, o segundo, que acompanhou durante um ano um dos mais importantes jornais dos Estados Unidos da América – e como é que esse meio de comunicação acompanhou a evolução tecnológica – e, finalmente, um filme argelino lançado o ano passado que conta a história, por dentro da redação, de um jornal “contra-poder”, o diário El Watan, que luta para conservar a liberdade de imprensa – diariamente os jornalistas deste diário têm de lidar com pressões, frustrações e ameaças por viverem num regime autoritário. No seu conjunto são três obras que me ajudaram a tirar um retrato daquilo que têm sido as constantes alterações na imprensa mundial, e como todos os profissionais da área acabam por partilhar da mesma crise.
6. SINOPSE
Em Psicopatas de Papel não se procura falar de jornalismo mas sim sobre jornalistas. A internet veio afastar a relação entre o público e os jornalistas, fabricando uma ideia negativa do jornalista em Portugal – tão negativa que, hoje em dia, quem exerce esta profissão pode vir a tornar-se psicopata, ditou uma investigação viral com pouco rigor científico. Essa perceção levou este documentário a procurar auscultar quatro jornalistas do Jornal i, sem filtros, como se de uma consulta de psicólogo se tratasse, para perceber se evidenciam algum traço de psicopatia.
7. A IMPORTÂNCIA DA VOZ-OFF
Para mim era importante colocar voz-off neste filme, porque eu, como jornalista, também fiz parte deste documentário que, por um lado, acaba por ser autobiográfico por partilhar muito do que os quatro entrevistados pensam sobre a sua profissão.
Através de um texto escrito por mim na parte inicial do filme, decidi inspirar-me nos filinspirar-mes do realizador Terrence Malick, autor de filinspirar-mes como The Tree of Life (2011) ou Voyage of Time (2016) um especialista em utilizar a voz do narrador como veículo principal de uma narrativa para demonstrar o verdadeiro eu das suas personagens.
Malick uses the voiceover in order to give voice to the internal struggles and existential dilemmas of his characters. However abstract there voiceovers may seem, they more often than not provide instante and recognizasble acess to the challenging philosophical themes and questions that hisfilms ponder. He uses them to instantenously transport vieweres to the heart of his films, and to ask questions that otherwise might not have been asked.13
Porém, a voz-off não está em todo o filme. A primeira que se houve pertence ao administrador Mário Ramires naquele plenário do ano passado. A intenção é dar um ponto de partida ao espectador que os coloque cronologicamente naquele dia fatídico, para depois partir, de forma particular, para as quatro pessoas entrevistadas, através de uma apresentação, em loop, das personagens, com a minha voz a fazer uma descrição dos quatro jornalistas, da sua situação laboral e da imagem negativa que está associada ao jornal.
13HARDY, Robert, How Terrence Malick Wins at Existencial Voice Over Narration, FIlmaker Magazine,
2014, Acedido a 6 de setembro de 2016. Disponível em <http://nofilmschool.com/2014/10/terrence-malicks-voiceovers-video-essay>
Na fase de pré-produção o meu objetivo principal era escolher os jornalistas que queria entrevistar dos 66 que iniciaram este novo projeto editorial. O meu único guião foram as minhas perguntas – que não eram impostas nem explícitas antes sugeridas, para que os entrevistados se sentissem confortáveis a explorar, todos, os mesmos temas -, faltando, porém, definir quais os locais ideias para filmar. Foi também a fase em que decidi com que equipa técnica gostaria de trabalhar e aí, só fez sentido escolher três nomes: Afonso Sousa, João Lourenço e Tomás Veríssimo. Porquê? Porque o primeiro trabalha com conteúdo audiovisual (realização, edição) e os dois últimos são designers. Uma equipa curta que servia as pretensões do meu projeto.
A escolha dos meus entrevistados não foi fácil. Dos 66 iniciais muitos, até agosto deste ano, acabaram por sair, tal como eu. Por isso reduzi a minha lista para doze entrevistados – da área da Economia, Cultura, Sociedade, Desporto. Não pretendia entrevistar as pessoas no topo da hierarquia do jornal. O intuito era escolher, exclusivamente, aqueles que permitem que este meio de comunicação saísse todos os dias, com aquilo que escrevem nele. E que, de certa forma, viveram comigo este ano e meio.
A questão é esta e precisa de ser colocada já à cabeça: o entrevistador vai evocar acontecimentos e experiências que partilhou com o entrevistado.14
Reduzi, no entanto, o grupo para quatro. Posto isto, escolhi o Carlos Diogo Santos, de 29 anos, - que trabalha na área da justiça desde que começou no Diário de
Notícias com apenas 21 anos - o Nuno Ramos de Almeida, - de 53 anos – que trabalha
no internacional, tendo passado por diversos meios de comunicação como a SIC e a
RTP1 - o Miguel Branco de 25 anos – que iniciou a sua carreira aos 19 anos
precisamente no Jornal i e a Cláudia Sobral, de 27 anos – que, depois de passar pela revista Sábado, pelo semanário Expresso e pelo jornal Público, encontrou no i a sua verdadeira vocação jornalística. O que mais me interessou foi o contexto profissional que os levou ao i e a forma diferente de como pensam o jornalismo e o que é ser jornalista.
Como será notório no filme, existem pontos em comum em relação ao discurso destas quatro pessoas, mas, o mais interessante, será analisar as diferenças. O principal das entrevistas seria percorrer um pouco a história de vida profissional destes quatro intervenientes, demarcando um antes e depois do i.
Destes quatro, um deles já não está neste diário: o Miguel, que saiu pouco tempo depois da minha saída. O Nuno e a Cláudia mantêm-se e o Carlos vai agora fazer um MBA dividindo entre Angola, Porto e Brasil. Esta foi outra das premissas importantes para mim, especialmente porque numa das entrevistas decidi juntar dois dos intervenientes: o Miguel e a Cláudia. Trabalharam ambos juntos na secção de cultura e, os dois, tiveram opiniões diferentes na altura da saída do Miguel. Juntá-los foi uma espécie de terapia de casal, que, por outras palavras, se concretizou numa terapia de amigos jornalistas.
No caso do Nuno, o que queria verdadeiramente era a sua imagem enquanto jornalista tradicional – uma conotação que detesta – para que me ajudasse a entender as principais diferenças do jornalismo que se faz hoje e o do que se fazia há vinte anos atrás.
Já o Carlos representa os jornalistas com mais notoriedade do país, que têm de lidar com grandes casos mediáticos – como a Operação Marquês ou a Operação Lava Jato – para perceber se aquilo que rodeia os restantes jornalistas também afecta quem está um pouco acima na hierarquia. Ele é também um exemplo daquilo que hoje em dia já não se faz, por motivos financeiros: o jornalismo de investigação.
The press is a gang of cruel faggots. Journalism is not a profession or a trade. I tis a cheap catch-all for fuckoffs and misfits – a false doorway to the backside of life, a filthy piss-ridden little hole nailde off by the building inspector, but just deep enough for a wino to curl um from the sidewalk and masturbate like a chimp in a zoo-cage.15
8.2 Equipa técnica
Para fazer este documentário eu sabia que precisaria de ajuda, já que não domino as áreas de realização e edição. Escolhi, para me ajudar a realizar o filme, o Afonso Sousa, colega dos tempos da licenciatura em comunicação social da Universidade Católica de Lisboa, e que actualmente trabalha na Herdade do Esporão, e é responsável pela área multimédia. Com um grande conhecimento no que diz respeito às técnicas de filmagem, foi ele que me ajudou a entrevistar os quatro jornalistas e a escolher os décors. Para a pós-produção, escolhi uma dupla com quem já estou habituado a trabalhar noutros projetos: dois grandes amigos, o João Lourenço e o Tomás veríssimo, ambos licenciados em Design pelo IADE. Foram eles que me ajudaram a editar o filme e a fazer o cartaz final.
Na fase de produção aquilo que mais me preocupou, depois de ter definido os quatro entrevistados, era escolher os décors. Queria que se sentissem confortáveis, relaxados e prontos, como se estivessem mesmo num consultório de um psicólogo – como acontece na série Terapia -, para responder a todas as minhas perguntas sem qualquer restrição. O Nuno optou pela sua casa, rodeada de livros, algo que tanto gosta, para fazer a entrevista. O Carlos escolheu a Avenida da Liberdade, antiga casa do Diário de Notícias, onde iniciou a sua carreira. E a Cláudia e o Miguel escolheram, em conjunto, filmar em casa da Cláudia, um espaço onde os dois passavam bons momentos de descontração, mas também a trabalhar nas horas extra.
Depois, durante uma hora, entrevistei-os em três dias diferentes. Até porque não queria ficar viciado na estrutura das perguntas ou ser influenciado por uma entrevista anterior que poderia ter feito no mesmo dia. A ideia era que a conversa fosse fluída.
No que diz respeito ao transmitir da minha mensagem, esta era a fase mais importante. Porquê? Se a minha crítica à imagem negativa que o público tem hoje em dia sobre os jornalistas não fosse visível, o objetivo do filme não seria alcançado. O contraste entre os sintomas da psicopatia com as respostas dos meus entrevistados, por isso, a montagem teria de seguir a minha ideia, sem falhas. Até porque se Serguei Eisenstein, um dos pais do documentarismo, conotava a montagem como um dos aspetos essenciais do cinema, seria pouco inteligente desprezar esta fase. Foi por isso que me inspirei na tradição soviética e montagem, que dá total prioridade a esta fase.
Shot and montage are the basic elements of cinema. Montage has been established by the soviet film as the nerve of cinema.16
O Adobe Premiere foi o programa escolhido porque os meus dois editores já o sabiam manusear anteriormente e porque eu próprio também sabia trabalhar no
Adobe Audition, programa utilizado para edição de áudio.
Não existe banda sonora no meu filme. Apenas uma nota de piano e o tempo a decorrer nos planos iniciais de apresentação dos entrevistados. Considerei que daria ritmo nesta parte do documentário e que captaria mais a atenção do espectador.
Optei por uma montagem rítmica, dando um ideia de continuidade em que o plano é quem comanda o tempo da edição. No início e no final do filme é possível ouvir a voz do administrador Mário Ramires durante o plenário que durou quase três horas. As últimas palavras, em que Ramires fala de um barco que está a afundar serve de ponto final para o meu documentário. Uma metáfora que considerei interessante para lançar o debate que pretendo que seja feito.
Este filme é um exercício de reflexão. Algo que parece estar em decadência na relação entre os jornalistas, o seu local de trabalho, a hierarquia a que pertencem e o público. Estes quatro jornalistas do Jornal i demonstraram que são pessoas como outras quaisquer. Têm preocupações, insatisfações mas também uma visão daquilo que deve ser a sua profissão daqui para a frente. Hoje a realidade das redações traça um destino negro: o trabalho precário associado à diminuição de custos no que diz respeito aos recursos dos jornalistas que parece estar a ditar o fim, cada vez mais próximos, dos jornais em Portugal. Mas todas estas considerações só podem ser discutidas se nós compreendermos quem são os jornalistas. Se nós percebermos que o avanço tecnológico provocou um distanciamento tal daquilo que é verdade ou não, que damos como adquirido que se um autor nos diz que os jornalistas podem tornar-se em psicopatas, é porque provavelmente isso pode acontecer.
Colocando-me no lugar de entrevistador, de psicólogo e, principalmente, de pessoa que se preocupa com a actividade que desempenha, tentei converter em filme aquilo que Pierre Bordieu fez – depois adaptado por José Rebelo e a sua equipa de investigação em 2011. Até porque é muito diferente falar sobre jornalismo utilizando a escrita ou utilizando o cinema. Bastará olhar para o sucesso mediático do filme
Spotlight (2015), que fala de uma equipa de jornalistas de investigação que descobriu
um dos maiores escândalos no seio da Igreja Católica em Boston, para perceber que as pessoas ainda se importam com o papel do jornalismo, apesar da realidade que o filme apresenta, ser hoje quase uma miragem.
Sim, foi necessário largar o código deontológico da Comissão da Carteira Profissional que sigo para poder finalizar este projeto e vestir a pele de cineasta. Porquê? A minha experiência profissional no i fez-me crescer como homem, mas permitiu que nascessem variadas dúvidas sobre o mundo do jornalismo. Daí ter tido tanta dificuldade a entender o rumo que queria dar a este projeto, juntando também as visíveis dificuldades na produção do mesmo, já que em agosto tive de sair do diário. Em suma, o meu ponto de vista neste filme nunca poderia ser imparcial, no entanto, era preciso ser o mais equilibrado possível.
Estive quase a mudar o nome do filme para “Dantes é que era bom”, inspirado no editorial da jornalista Bárbara Reis do jornal Público, aquando da comemoração dos 25 anos deste título editorial. A conversa com Nuno Ramos de Almeida, onde me disse que os jornalistas foram sempre os bodes expiatórios para a crise dos média mas também cúmplices por não se terem mobilizado como antigamente – foi assim que surgiu a TSF ou o O Jornal -, pega precisamente nesta ideia que a Bárbara Reis falou, apesar de estar em desacordo. É interessante que eu também estou em desacordo. O dantes, que não vivi e não sei como é, já não volta e, portanto, resta-me olhar em frente.
Resta-me confiar que o meu filme possa, eventualmente, servir de base para diversas leituras entre os jornalistas espalhados por este país. Até porque o Congresso de Jornalistas, que se realiza em janeiro de 2017, está aí, e seria importante para mim mostrar o meu projeto final. Mostrá-lo num evento que não acontecia há 19 anos, o que serve de exemplo para perceber que a ausência de debate entre os profissionais também pode ter sido uma das causas para termos chegado a este ponto.
Mas no fim de tudo, Psicopatas de Papel é o meu pequeno contributo para a esclarecer o que é verdadeiramente a minha profissão. Uma forma de agradecimento aos jornalistas que me acompanharam, mas também uma crítica às pessoas que os leem e a eles próprios. Porque se o jornalista não existe, os jornalistas, no seu tal mundo dividido, precisam de encontrar um caminho que não os deixe, levianamente, ser comparados a psicopatas.
12.BIBLIOGRAFIA
BOURDIEU, Pierre, Sur La Télevision, 1996 Paris, Liber.
DUTTON, Kevin, The Wisdom of Psychopaths, 2012, Scientific American EISENSTEIN, Serguei, Film Form: Essays in Film Theory, 1969, Mariner Books GRIERSON, John, First Principles of Documentary,
GROSOLI, Marco, André Bazin: Film as a Social Documentary, 2012.
HARDY, Robert, How Terrence Malick Wins at Existencial Voice Over Narration, FIlmaker Magazine, 20 de Outubro de 2014, Acedido a 6 de setembro de 2016. Disponível em http://nofilmschool.com/2014/10/terrence-malicks-voiceovers-video-essay
JESPERS, Jean-Jaques, Jornalismo Televisivo, 1998, Minerva
REBELO, José, Ser Jornalista em Portugal: Perfis Sociológicos, 2011, Gradiva SARAMAGO, José, Cadernos de Lazarote Diário I, 1994, Editorial Caminho
13.FILMOGRAFIA
DE ALMEIDA, Nuno Ramos, João Paulo Cotrim, Paula Mascarenhas e Ana Madalena Queirós (1992), Bilhete de Identidade, PORTUGAL, RTP1
GARCIA, Rodrigo, Hagai Levi e Nir Bergman (2008-2010) In Treatmet, EUA, HBO
FURTADO, Jorge (2014), Mercado de Notícias, BRASIL, Casa de Cinema de Porto Alegre BENSMAIL, Malek (2016), Contre-Pouvoirs, Argélia, Syndicat des Distributeurs Indepéndants
14.ANEXO
Anexo 14.1 - Texto da voz-off Anexo 14.2 – Cartaz
14.1 Anexo
A Cláudia resolveu ficar, as emoções deixaram de ser um problema porque só a distanciavam do seu foco principal.
O Miguel não duvidou destas palavras, pelo menos até chegar ao seu limite, depois, o melhor, foi saltar do barco, ou a loucura levaria o melhor de si. O Carlos já podia ter saído, há muito, muito tempo para tantos outros sítios. Optou por permanecer, a frieza assim o ditou.
O Nuno foi obrigado a habituar-se, porque tem de ser, porque o dantes já não existe e já nem sequer faz sentido.
Estas quatro pessoas podiam ser o que quisessem. Escolheram a objectividade e a razão. Escolheram a pressão e a crítica constante. Muitos chamam-lhes loucos, outros criticam sem sequer os perceberem.
A compreensão talvez seja o primeiro passo para outro rumo. Para que o barco para de se afundar, para que as dúvidas deixem de existir. E para que o marinheiro deixe de ser só um marinheiro. Foram cúmplices sim, mas também fomos bodes expiatórios. De algo que se tornou numa treta e que não devia ser treta nenhuma. O papel que já tivemos pode voltar. O novo, o velho, tudo.
O melhor é começar por ouvir e deixe os preconceitos de lado. No fim, pode ser que os possa entender. Mas se não os perceber, ao menos sabe, que do outro lado não estão nem marinheiros, nem psicopatas, nem máquinas. Está alguém que falha e alguém que acerta, isso fica nas suas mãos. Avaliar os sintomas e fazer o seu diagnóstico.