metropolitano
Flávia Santana Rodrigues♣ Laumar Neves de Souza●
Palavras-chave: ocupação, RMS, municípios baianos, mercado de trabalho.
Resumo
1O objetivo central deste artigo é caracterizar a ocupação na Região Metropolitana de Salvador (RMS), tomando como substrato o padrão diferenciado e precário de inserção ocupacional que se observa em cada um dos seus municípios. Esta é, por certo, uma postura analítica pouco convencional, tendo em vista que, normalmente, nas análises que investigam os problemas relativos ao modo de funcionamento do mercado de trabalho metropolitano, não são discutidas as evidentes especificidades dos diferentes mercados de trabalho dos municípios que integram esse aglomerado. Ao se trilhar esse caminho interpretativo, acaba-se rejeitando a perspectiva de análise que trata a RMS e, por conseguinte, o seu mercado de trabalho como um bloco monolítico e homogêneo, em que cada um dos seus espaços apresenta características absolutamente similares.
∗ Trabalho apresentado no XVI Encontro Nacional de Estudos Populacionais, ABEP, realizado em Caxambú-
MG – Brasil, de 29 de setembro a 03 de outubro de 2008.
♣
Especialista em Planejamento e Gestão Governamental pela UNIFACS. Economista pela UFBA. Pesquisadora da SEI. [email protected].
●
Doutor em Ciências Sociais pela UFBA. Pesquisador da SEI. [email protected].
1Este trabalho é subproduto de um projeto de pesquisa desenvolvido no âmbito da Coordenação de Pesquisas
Sociais (COPES) da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), denominado Mercados de Trabalho Municipais na Bahia: Perfil dos Mercados de Trabalho em Municípios e Regiões Econômicas e Subsídios para Políticas Públicas, do qual participaram, além dos autores deste texto, José Ribeiro Soares Guimarães, Cláudia Monteiro Fernandes, Daniela Cerqueira Franco e Tiago Oliveira.
Heterogeneidade e precariedade ocupacional no mercado de trabalho
metropolitano
∗Flávia Santana Rodrigues♣ Laumar Neves de Souza●
Introdução
A década dos 1990 foi marcada por mudanças estruturais que redefiniram o modelo de desenvolvimento seguido pelo país desde o segundo pós-guerra e introduziram rápidas mudanças na divisão inter-regional do trabalho, alterando o papel e as possibilidades de desenvolvimento de cada região/cidade. As modificações desse período incluíram tanto a continuidade e o reforço de tendências da etapa anterior de expansão, como também mudanças que afetaram desigualmente as diversas regiões e sub-regiões e os seus respectivos mercados de trabalho.
Todos esses processos já vêm sendo estudados por pesquisadores de diversas áreas — Economia, Sociologia, Geografia, — mas, até o presente, as pesquisas têm priorizado as escalas macroregional, estadual e metropolitana, sendo ainda escassas aquelas que buscam
entender tais processos no âmbito intra-regional2. O preenchimento dessa lacuna investigativa
é importante, sobretudo em estados como a Bahia, que tem passado, nos últimos tempos, por mudanças na sua estrutura produtiva, derivadas e/ou estimuladas por uma “onda” de investimentos patrocinados tanto pelo capital privado quanto pelo poder público. A implantação dessas inversões privadas — atraídas por políticas de incentivo e até de renúncia fiscal temporária, por apoio na construção de infra-estrutura e pela oferta abundante de mão-de-obra barata — tem impulsionado o crescimento de outras áreas dinâmicas, do ponto de vista produtivo, em regiões econômicas baianas como o Extremo Sul, o Baixo Médio São Francisco e o Oeste.
A existência desse desafio interpretativo motivou a elaboração deste trabalho, cujo objetivo
central é caracterizar a ocupação na Região Metropolitana de Salvador (RMS)3, tomando
como substrato o padrão diferenciado de inserção ocupacional que se observa em cada um dos seus municípios. A escolha da RMS deve-se ao fato de ser a mesma, indiscutivelmente, a mais importante do ponto de vista do dinamismo da atividade econômica no estado.
Um estudo dessa natureza parece ser pertinente por, pelo menos, duas razões. A primeira é derivada da inexistência de trabalhos dedicados a investigar a realidade baiana que se aproximem de um diagnóstico do mercado de trabalho no plano municipal e contemplem a
∗ Trabalho apresentado no XVI Encontro Nacional de Estudos Populacionais, ABEP, realizado em Caxambú-
MG – Brasil, de 29 de setembro a 03 de outubro de 2008.
♣
Especialista em Planejamento e Gestão Governamental pela UNIFACS. Economista pela UFBA. Pesquisadora da SEI. [email protected].
●
Doutor em Ciências Sociais pela UFBA. Pesquisador da SEI. [email protected].
2 Isto se explica, em parte, pelo fato de que as informações mais relevantes para as análises na escala intra-regional e municipal são fornecidas pelos Censos Demográficos, cuja periodicidade é decenal. Deste modo, apenas a partir de 2003, com a divulgação dos dados do Censo de 2000 sobre as características da população e a sua participação na atividade econômica, tornou-se possível uma análise mais aprofundada e consistente das transformações na divisão territorial do trabalho com foco em escalas menores, a exemplo dos municípios. 3 Tal região é composta por dez municípios, a saber: Camaçari, Candeias, Dias D’Ávila, Itaparica, Lauro de Freitas, Madre de Deus, Salvador, São Francisco do Conde, Simões Filho e Vera Cruz.
RMS como um espaço heterogêneo, composto por um somatório de municípios com realidades muito distintas. Como bem discutem Franco (et al, 2006, p. 427),
Normalmente, nas análises que investigam os problemas relativos ao modo de funcionamento do mercado de trabalho da Região Metropolitana de Salvador (RMS), ignoram-se as evidentes especificidades dos diferentes mercados de trabalho dos municípios que integram esse aglomerado. Tudo é feito como se a RMS fosse um bloco monolítico e homogêneo, em que cada um dos seus espaços apresentasse características, absolutamente, similares (FRANCO, et al, 2006, p. 427).
A segunda, por sua vez, tem seu fundamento na contribuição que ele, possivelmente, trará para as atividades do planejamento governamental e, mais particularmente, para a formulação, implantação e avaliação de políticas públicas de qualquer natureza, uma vez que estas muitas vezes embutem uma dimensão territorial e/ou repercutem diferenciadamente sobre os diversos espaços, em função das características e da história de cada um deles.
Feitas estas considerações, cabe pontuar que o texto está dividido em três partes. A primeira busca historiar, de forma breve, alguns traços da industrialização baiana, dando ênfase à forma como esse processo privilegiou a RMS e, dentro dela, o município de Salvador. Na segunda, são evidenciadas algumas das principais características sociodemográficas dos municípios dessa região, com o fim de discutir, mais à frente, as condições de funcionamento dos seus mercados de trabalho no tocante aos seus padrões ocupacionais. Na terceira, realiza-se a análirealiza-se do mercado de trabalho metropolitano, com barealiza-se em uma abordagem descritiva que busca acentuar as discrepâncias existentes entre as informações que expressam a realidade do perfil ocupacional dos seus municípios, tomando-se como base os resultados do Censo Demográfico de 2000. Por fim, são sistematizadas as principais conclusões a respeito da análise pertinente ao padrão ocupacional da referida região.
1 A RMS no contexto da industrialização da economia baiana
A RMS constitui-se na mais importante das 15 regiões econômicas do estado da Bahia e muito dessa importância decorre de dois fatores: de ser o espaço em que foi concentrada,
praticamente, toda a indústria do estado4; e de possuir o município de maior porte e mais
desenvolvido, Salvador, que é a capital, o núcleo central e dinâmico do estado.
Antes do processo de industrialização ser impulsionado na RMS, outros municípios baianos,
onde floresceram os primeiros centros urbanos5, se destacavam na economia estadual pelas
atividades econômicas desenvolvidas, ligadas predominantemente à produção agrícola exportadora.
Segundo Teixeira e Guerra (2000), na década de 1950, a estrutura produtiva local da Bahia era fundamentalmente apoiada no setor primário exportador e o desempenho da sua indústria ficava aquém da atuação de Pernambuco. Entretanto, iniciativas isoladas, ocorridas nesse período, como os investimentos da Petrobrás na Refinaria Landulfo Alves (RLAM), em São Francisco do Conde, ajudaram a mudar o perfil da estrutura produtiva local, da produção agrícola para a industrial.
Em função dessa ocorrência, teve início então a concentração setorial da indústria na RMS, o que, de certa forma, direcionou o crescimento econômico para tal região em detrimento das demais. Na visão de Menezes (2000, p. 76), “a economia baiana sofreu de maneira
4 Isso se manteve por diversas décadas do século XX, mais propriamente nos anos de 1950 a 1970. Apenas mais recentemente (a partir do final dos anos 1970) é que começou um esforço das políticas e investimentos direcionados a outras regiões econômicas do estado, visando diminuir o atraso que as separa econômica e socialmente da RMS. Pode-se citar como investimentos descentralizadores de maior porte: o plantio de Eucalipto e a produção de celulose na região do Extremo Sul; a introdução da produção de fruticultura irrigada, voltada para a exportação, no Baixo Médio São Francisco; e a expansão da soja no Oeste baiano.
5 Santo Amaro, com a produção de açúcar; Cachoeira, com o fumo; Nazaré, com a produção de
hortifrutigranjeiros, de farinha de mandioca e de utensílios de cerâmica (SUPERINTENDÊNCIA DE ESTUDOS ECONÔMICOS E SOCIAIS DA BAHIA, 2003).
significativa os efeitos da implantação da RLAM, não apenas em termos de expansão, mas também no que se refere à complexificação das atividades econômicas da RMS”.
Na década de 1960, novos investimentos, agora destinados à implantação do Centro Industrial de Aratu (CIA), em Simões Filho, novamente beneficiaram a RMS. Daí em diante, a trajetória desse estado rumo à industrialização não teve mais volta, tornou-se, por assim dizer, inexorável . A confirmação dessa realidade vem logo na década de 1970, mais precisamente, a partir da sua segunda metade, com a implantação do Pólo Petroquímico de Camaçari, ocorrência essa que fortaleceu ainda mais a economia da RMS.
Esse é de fato o acontecimento que faz com que a economia baiana perca, de maneira
definitiva, o seu perfil agrário-exportador, fortemente apoiado na atividade cacaueira6, e
passe a ser uma referência nacional nos setores químico — notadamente a petroquímica — e metalúrgico. O avanço das atividades relacionadas a esses setores de atividade em território baiano se deveu basicamente, a três motivos: o primeiro, refere-se a existência no estado da Bahia de uma base técnica, fruto do fato desse estado já possuir uma refinaria de petróleo e ser, a essa altura, o maior produtor desse bem no país; o segundo, associa-se à carência no plano nacional de determinados insumos básicos indispensáveis à mobilização da indústria de transformação localizada no Centro-Sul; o terceiro, por seu turno, guarda relação com o fato de que o Governo Federal ter entre seus objetivos prioritários a redução dos desequilíbrios regionais (TEIXEIRA; GUERRA, 2000).
Quem consegue captar muito bem esse verdadeiro processo de conversão da economia baiana — deixando de ser uma economia, como já se disse, tipicamente agrário-exportadora e passando a ter uma feição industrial bem definida e estruturada — é Menezes (2000), na passagem em que diz:
[...] o fato é que, a cada bloco de investimentos industriais, mudava a economia baiana. Uma indústria inicialmente limitada, situada numa economia de base agrário-exportadora, transformava-se estruturalmente à medida que os grandes investimentos, concentrados no tempo, ocorriam. E esses grandes empreendimentos, por sua vez, alteravam não apenas o ritmo de expansão do PIB, como, principalmente, através de seus impactos indiretos, traziam consigo uma demanda derivada que dava origem a novos setores e oportunidades de investimento, modernizando e complexificando a economia baiana — e alterando, dessa maneira, a sua forma de funcionamento e as suas relações com o restante da economia nacional (MENEZES, 2000, p. 75).
A despeito de serem ativadas, como bem disse Teixeira e Guerra (2000), por circunstancias exógenas e espasmódicas — na medida em que dependeu de capitais forâneos e da forte presença estatal, se dando de modo bastante concentrado no tempo — essas mudanças na base produtiva criaram, inequivocamente, um mercado consumidor de novos produtos industriais. Segundo o ponto de vista de Vieira e Souza (2003), o crescimento da classe média urbana — originada a partir das novas oportunidades de trabalho que se criaram — possibilitou o surgimento de shopping centers, lojas de departamentos, hipermercados e centrais de materiais de construção.
Ao fazer esse breve retrospecto de parte da história da industrialização baiana, nota-se que Salvador não se evidenciou por conter nenhum desses grandes empreendimentos industriais da RMS. Os municípios-alvo desses investimentos, entretanto, localizam-se muito próximos ao município de Salvador, o qual se desenvolveu pela intensidade das suas atividades econômicas ligadas aos setores de Serviços e Comércio, justamente os que servem de suporte à produção industrial. Ademais, Salvador se constitui no centro da administração pública e administrativa estadual.
Devido a essas características setoriais, Salvador exerce grande influência nos municípios da sua região; fornece serviços e mão-de-obra especializada para as indústrias, atua como
6
Um outro aspecto importante da economia baiana de ontem e de hoje é a pratica, em quase todas as suas regiões, da economia de subsistência. Quando forem feitos os comentários, mais na frente, em relação as principais características do mercado de trabalho baiano se poderá comprovar a grande relevância que tem as atividades de subsistência no contexto da ocupação estadual.
principal centro de abastecimento comercial e possui o maior mercado de trabalho. O efeito disso é que, por conter o maior mercado de trabalho do estado, Salvador acaba se tornando
um pólo de atração para muitas pessoas que residem no interior7 e procuram oportunidades de
trabalho. Muitas vezes, ao não conseguir ocupação alguma, esses desempregados acabam fazendo parte dos grandes bolsões de pobreza da cidade.
A outra característica de Salvador, que tem rebatimento direto na RMS, é o fato deste município ser a capital do estado, conseguindo captar grandes investimentos, negócios e parcerias com agências e organismos multilaterais. Essa situação é colocada como grande vetor do crescimento da região, bem como do total do estado.
Cabe notar que esse papel de centralidade de Salvador em relação às povoações circunvizinhas é histórico e remonta ao início da colonização portuguesa no Brasil. Desde o período em que era a capital da colônia, Salvador já se constituía no principal centro político e militar do império e os comerciantes ali radicados concentravam grande riqueza. Ademais, o perfil comercial e portuário da cidade, em fins do século XVI e durante o XVII, foram características fundamentais da importância estratégica de Salvador, sendo mantidas até os dias de hoje (SUPERINTENDÊNCIA DE ESTUDOS ECONÔMICOS E SOCIAIS DA BAHIA, 2003).
2 A RMS e alguns dos seus indicadores sociodemográficos
Em virtude dos fatores acima relacionados, a RMS possui a principal dinâmica populacional do estado da Bahia. Essa região se destaca por possuir o maior contingente de pessoas residentes, que se distribuem de maneira bastante desigual entre os seus 10 municípios, com uma acentuada discrepância entre o porte demográfico de Salvador e os demais. Vale pontuar que esta é uma das peculiaridades da RMS em relação às demais regiões metropolitanas do país (SUPERINTENDÊNCIA DE ESTUDOS ECONÔMICOS E SOCIAIS DA BAHIA, 2003). A despeito disso, é preciso salientar que a reorganização espacial na RMS, proporcionada pela criação do CIA e do Complexo Petroquímico de Camaçari, favoreceu o crescimento dos municípios de Candeias, São Francisco do Conde e Camaçari, bem como os de Simões Filho e Lauro de Freitas.
Além do crescimento desses municípios, Salvador tem se expandido além dos limites do seu município, juntando-se a Lauro de Freitas, Simões Filho e Camaçari, consolidando uma ampla malha urbana contínua (SUPERINTENDÊNCIA DE ESTUDOS ECONÔMICOS E SOCIAIS DA BAHIA, 2003).
Se, por um lado, sozinho, o município de Salvador detinha 80,9% da população total da RMS, com a mais elevada participação no ano de 2000, por outro, os municípios de Vera Cruz, São Francisco do Conde, Itaparica e Madre de Deus representavam, juntos, apenas 2,9% e Camaçari, segundo município com a mais elevada proporção de população da RMS, contava com 5,4% do total, conforme pode observar-se na Tabela 1.
É interessante salientar que, embora seja a menor região econômica da Bahia, a RMS é a
mais densamente povoada (1.291,8 hab/km2)8, superando amplamente a média estadual, de
23,2 hab/km2. Do ponto de vista intra-regional, Salvador (7.517,25 hab/km2) e Lauro de
7 Segundo Azevêdo (2000), embora Salvador tenha aumentado a sua concentração populacional, a criação da rodovia Rio-Bahia proporcionou o desenvolvimento de outros centros sub-regionais, reforçando a expansão demográfica em centros urbanos menores.
8 As densidades demográficas das outras regiões, em 2000, em termos de hab/km2, eram: Recôncavo Sul (64,2); Litoral Sul (53,95); Litoral Norte (43,6); Paraguaçu (36,6); Sudoeste (26,8); Extremo sul (21,7); Nordeste (21,0); Serra Geral (17,5); Piemonte da Diamantina (17,0); Irecê (14,3); Chapada Diamantina (12,2); Baixo Médio São Francisco (7,3); Médio São Francisco (7,2) e Oeste (4,3). Pode-se perceber que, dentre essas regiões econômicas, apenas as cinco primeiras estavam acima da média de densidade demográfica do total do Estado e ainda assim a distância que as separava de Salvador era imensa.
Freitas (1.892,4 hab/km2) são os municípios metropolitanos que possuem as maiores densidades demográficas, superando a média da própria região (Tabela 1).
Tabela 1 — População total e área por ordem decrescente de densidade demográfica, RMS, 2000 Km2 % Salvador 2.443.107 325 13,9 7.517,3 Lauro de Freitas 113.543 60 2,6 1.892,4 Madre de Deus 12.036 11 0,5 1.094,2 Simões Filho 94.066 192 8,2 489,9 Itaparica 18.945 47 2,0 403,1 Candeias 76.783 264 11,3 290,8 Dias D'Ávila 45.333 207 8,9 219,0 Camaçari 161.727 760 32,5 212,8
São Francisco do Conde 26.282 219 9,4 120,0
Vera Cruz 29.750 254 10,9 117,1
RMS 3.021.572 2.339 100,0 1.291,8
Bahia 564.27213.070.250 - 23,2
Municípios metropolitanos População Densidade
(hab/km2) Área
Fonte: Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), 2003.
Essa diferença entre o porte populacional de Salvador e o dos demais municípios da RMS também tem relação com a forma como cada um deles foi criado. Vale ressaltar que toda a área ocupada pelos municípios metropolitanos pertencia originalmente a Salvador, tendo sido paulatinamente desmembrada, à medida que os municípios iam sendo criados. Esse processo de desmembramento teve início em 1693, ainda no período colonial, com a criação do município de São Francisco do Conde. Posteriormente, vieram Camaçari, em 1758, e Itaparica, em 1831.
Mais recentemente, a partir da segunda metade do século XX, foram criados os seis outros municípios integrantes da RMS: Candeias, em 1958; Simões Filho, em 1961; Vera Cruz, em 1962; Lauro de Freitas, em 1965; Dias D’Ávila, em 1985; e Madre de Deus, em 1989. A origem deles está intimamente relacionada com o desenvolvimento industrial e urbano na região e as suas repercussões relativas a: importação de mão-de-obra qualificada, grandes volumes de recursos injetados nas atividades econômicas e demandas de produtos e serviços decorrentes.
Outro aspecto demográfico importante é que a RMS é a região mais urbanizada do estado, com 98,42% da sua população vivendo em áreas urbanas em 2000 (Tabela 2).
Tabela 2 — Grau de urbanização*, Regiões Econômicas da Bahia, 2000
RMS 98,4 Litoral Norte 67,1 Recôncavo Sul 58,0 Litoral Sul 68,0 Extremo Sul 73,3 Nordeste 41,5 Paraguaçu 65,2 Sudoeste 65,3
Baixo Médio São Francisco 59,8
Piemonte da Diamantina 51,2
Irecê 58,6
Chapada Diamantina 36,1
Serra Geral 43,4
Médio São Francisco 43,0
Oeste 53,8
Regiões Econômicas Grau de urbanização (%)
Fonte: IBGE. Censo Demográfico de 2000, Resultados do Universo. * População Urbana / População Total x 100
3 Leitura da ocupação na RMS a partir de uma perspectiva municipal
Todas as considerações encaminhadas a seguir em relação ao mercado de trabalho metropolitano tomam como pano de fundo a idéia de que o seu tamanho e as suas características espelham as circunstâncias diretamente relacionadas às magnitudes de sua população, da sua economia e do seu mercado e, ainda, dos lugares que essa região ocupa na economia nacional e na global, na hierarquia de cidades e nos fluxos de bens, serviços e de força de trabalho (Borges, 2003b). É só a partir do momento que essas idéias estão muito claramente definidas que se pode fornecer o retrato desse mercado de trabalho no alvorecer da presente década.
Feita essa ponderação, cabe assinalar que dentre todas as regiões metropolitanas do país, a RMS se distingue das demais em dois aspectos extremamente negativos, quais sejam, possuir a mais alta taxa de desemprego e congregar um considerável leque de trabalhadores claramente inseridos no âmbito da informalidade. Um conjunto de razões que justificam essa realidade pode ser encontrado nos elementos que conformam à dinâmica da economia local, mais precisamente nos fatores que condicionam sua demanda e oferta de força de trabalho. Com efeito, a economia da RMS há muito se mostra incapaz de responder aos sinais emitidos pela oferta, no sentido de garantir baixas taxas de desemprego. Prova disso é que mesmo no auge do processo de desenvolvimento das forças produtivas da economia metropolitana, nos anos 1970 e 1980 (período no qual ocorreram expressivos investimentos tanto públicos quanto privados), não se conseguiu reduzir os excedentes de força de trabalho. Mesmo nesse período, mantém-se mais ou menos constante a proporção da População Economicamente Ativa (PEA) em atividades de baixa produtividade, associadas ao subemprego ou ao setor
informal, bem como índices de desemprego elevados9 (BORGES; FILGUEIRAS, 1995).
Esse ponto de vista é ratificado por Azevedo (1999). Segundo esse autor, a economia da RMS foi fortemente afetada pelo processo de industrialização acelerado dos finais da década de 1970. Tal fato, conforme o seu relato, contribuiu para acentuar a heterogeneidade e complexidade de suas relações de trabalho, a qual se expressa na conformação de um cenário onde podem ser observadas relações tradicionais semi-escravas do trabalho doméstico, assim como uma miríade de formas particulares de contratos de conta-própria, subempreitadas, comércio ambulante e microempresas, juntamente com relações claramente assalariadas das grandes empresas.
Seguindo a interpretação sugerida por Borges e Filgueiras (1995), os anos 1980 caracterizaram-se como sendo um período de expansão do mercado de trabalho metropolitano. Segundo informam, no transcorrer desse período, houve uma ampliação de vagas na Indústria, no Comércio e, principalmente, nos Serviços. Ao que parece, isso só foi possível graças à ocorrência de dois acontecimentos: 1) o expressivo volume de investimentos movimentado pelo Pólo Petroquímico e 2) o registro de um expressivo número de contratações, particularmente durante a primeira metade da década, na Administração Pública.
Tais autores ainda chamam a atenção para o fato de que a maior parte do aumento da ocupação (60,0%), registrado durante os anos 1980, foi motivado pelo crescimento do emprego no setor formal dessa região. Eles informam também que entre os anos de 1982 e 1989, seguindo uma trajetória de estruturação do mercado de trabalho, a participação dos empregados com carteira assinada no total de ocupados oscilou entre 51,0% e 55,0%.
Um outro elemento importantíssimo que ajuda a explicar o porquê da RMS possuir aqueles dois traços indeléveis é, precisamente, o fato do seu mercado de trabalho ter se constituído, de forma natural, em área de atração dos excedentes de força de trabalho existentes no
9
Na opinião de Santos (1998), tais problemas acabaram por se constituir em características estruturantes desse mercado de trabalho.
interior do estado. Nas palavras de Borges (2003b, p. 76), esse espaço passou a ser “um ponto de referência para o constante ‘ir e vir’ que integra o modo de vida de contingentes numerosos de trabalhadores baianos, há décadas forçados a fazer do nomandismo um ingrediente indispensável na estratégia de sobrevivência da família”.
Nos anos 1990 e seguintes, especialmente até 2003, algumas das referidas fragilidades do mercado de trabalho metropolitano se acentuaram ainda mais. Uma delas é com certeza a insistência na manutenção de um comportamento de ampliação do seu excedente estrutural de força de trabalho, ou seja, do contingente de desempregados. Isso pode ser visualizado nos números fornecidos pela Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED/RMS) para o período de tempo que cobre os anos de 1997 e 2003, bem como pelas informações de outras pesquisas a exemplo da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) e Pesquisa Mensal de Emprego (PME), ambas produzidas pelo IBGE.
Nesse intervalo de tempo, houve, inegavelmente, um aumento considerável do número de pessoas desempregadas. Essa ampliação do contingente de desempregados decorreu do aumento, muito superior, de pessoas na PEA, relativamente ao crescimento verificado no contingente de pessoas ocupadas, situação essa que indica que os mecanismos econômicos, capazes de dinamizar a economia da RMS e, portanto, criarem um ambiente favorável à expansão da renda e da ocupação, esboçaram um desempenho que ficou muito aquém do que foi observado para os mecanismos populacionais, ocasionados pela passagem da inatividade à atividade econômica (MENEZES, 2003).
Depois de ter feito esse breve pano de fundo, realizando esse apanhado histórico das principais características do mercado de trabalho metropolitano ao longo das duas últimas décadas, é chegado o momento de tentar conhecer com maior riqueza de detalhes a verdadeira configuração desse mercado, do ponto de vista ocupacional, retratando a situação dos trabalhadores residentes nos diferentes municípios que integravam esse espaço no ano de 2000.
Dando o pontapé inicial nessa tarefa, vale destacar, de saída, que a RMS notabilizava-se, em 2000, por concentrar a maior parcela — absoluta e relativa — de pessoas em idade ativa (aproximadamente 2,5 milhões de pessoas) no estado da Bahia. Deste total, cerca de 1,5 milhão estavam economicamente ativas, enquanto aproximadamente 1,0 milhão de pessoas
encontravam-se na inatividade (Tabela 3). A sua taxa de participação10, por sua vez, era a
maior dentre todas as outras que eram apuradas para as demais regiões econômicas do estado, situando-se em 60,6%.
Dentro desta região, o município de Salvador, principal força econômica da Bahia, detinha, no mesmo período, por volta de 2,0 milhões de pessoas em idade ativa, das quais, aproximadamente 1,2 milhão eram economicamente ativas e cerca de 800 mil não se encontravam economicamente ativas, registrando uma taxa de participação de 61,2%. Os municípios de Camaçari e Lauro de Freitas, por seu turno, possuíam, respectivamente, perto de 127 mil e 91mil pessoas em idade ativa.
No município de Camaçari, especificamente, a PIA congregava quase 74 mil pessoas ativas economicamente e 53 mil pessoas inativas economicamente, fato que implicava em uma taxa de participação que alcançava o patamar de 58,0%. Já em Lauro de Freitas, cerca de 58 mil pessoas eram economicamente ativas e próximo de 33 mil pessoas eram não economicamente ativas, do que resultava a maior taxa de participação registrada em um município da RMS (63,7%)11.
Tabela 3 — População em idade ativa, por condição de atividade, segundo os municípios da RMS 2000
10
(Total da PEA/ total da PIA)*100.
11 Na RMS, o município que detinha a menor taxa de participação era, precisamente, Vera Cruz (51,0%), valor esse bem inferior ao que foi medido para o conjunto da região (60,6%).
Bahia / Região Econômica / Município PIA (1) Economicamente ativas (PEA) Não economicamente ativas BAHIA 10.389.118 5.613.089 4.776.030 Metropolitana de Salvador 2.485.733 1.507.057 978.676 Representação no Estado (%) 23,9 26,8 20,5 Camaçari 127.363 73.925 53.438 Candeias 61.837 34.154 27.683 Dias d'Ávila 35.382 19.472 15.910 Itaparica 14.989 8.266 6.723 Lauro de Freitas 90.585 57.740 32.845 Madre de Deus 9.745 5.442 4.303 Salvador 2.028.377 1.242.191 786.186
São Francisco do Conde 20.617 11.331 9.286
Simões Filho 73.421 42.588 30.833
Vera Cruz 23.417 11.948 11.469
Fonte: IBGE. Censo Demográfico - 2000 - Microdados da Amostra
Estrutura ocupacional da RMS segundo as formas de inserção
Antes de descrever as informações referentes a estrutura ocupacional metropolitana, deve-se ter em mente que as mesmas expressam e/ou sintetizam um conjunto de transformações ocorridas no mercado de trabalho baiano, sobretudo, na década de 1990. Durante esse período, os trabalhadores baianos, além de enfrentarem elevação do nível de desemprego, também tiveram que conviver com algumas mudanças na forma de inserção da população ocupada que os conduziram para uma condição de maior fragilidade. Isso pode ser visto, por exemplo, na diminuição relativa do emprego assalariado no total da ocupação (de 41,3% para 40,9%) ocorrida entre os anos de 1992 e 1999, que foi acusada pela PNAD.
Cabe notar que esses números se revelavam preocupantes por pelo menos dois motivos. Em primeiro lugar porque evidenciavam o quanto o mercado de trabalho baiano encontrava-se em uma posição de atraso frente ao padrão ocupacional observado tanto nos países ditos desenvolvidos — onde as relações de assalariamento são predominantes, atingindo, em média, a mais de 80,0% da população ocupada —, quanto no Brasil. Em segundo porque encerravam uma situação de redução das relações de trabalho reguladas pelo crivo do Estado que foi contrabalançada pela expansão das relações que ocorrem no espectro da informalidade.
Cabe indicar que esse movimento de compressão do assalariamento espelhou a contração da proporção dos empregados com carteira assinada (de 18,0% para 15,7%) e a ampliação das proporções dos empregados sem carteira (de 21,0% para 21,7%) e dos funcionários públicos/militares (de 2,4% para 3,5%).
A essa altura, 1999, em conseqüência desse cenário, conforme assinala Borges (2003b), eram elevadíssimos os contingentes de trabalhadores em situação de total desproteção social. Segundo informações disponibilizadas pela PNAD/1999, pouco menos de ¼ dos ocupados (24,1%) contribuíam para a previdência. Como muito bem pontua essa autora, isso não significa que os ¾ restante dos ocupados estivessem, todos, desprotegidos, haja vista que em virtude do próprio peso das atividades agropecuárias na ocupação, uma parte desses trabalhadores tem direito à aposentadoria rural, condição essa que dispensa contribuição prévia para a Previdência Social.
Contrastando com a realidade dos anos 1990, na primeira metade dos anos 2000 as relações assalariadas ganharam mais espaço no contexto da ocupação estadual. Como mostram as informações apuradas pela PNAD para o ano de 2004, 46,1% de todos os ocupados baianos encontravam-se na condição de empregados. Durante esse período, todas as três categorias de empregados aumentaram a sua representatividade no âmbito da ocupação baiana.
Porém, quem, em termos relativos, mais contribuiu para que esse esquema de ampliação da participação do assalariamento se efetivasse foram, precisamente, os funcionários
públicos/militares e os empregados que possuíam carteira de trabalho assinada. No caso dos primeiros houve um crescimento de representatividade de 2,4%, em 1999, para 3,5%, em 2004, situação essa que significou uma variação percentual de 37,8%. Já para os segundos, a representatividade expandiu-se de 15,7%, em 1999, para 18,0%, em 2004 (movimento esse que corresponde a uma variação percentual de 14,5%).
Esses números quando conjugados com aqueles que revelam diminuições, no período 1999/2004, nas participações de contas-próprias e trabalhadores não remunerados no âmbito da ocupação sinalizam o estabelecimento de uma situação de menor precarização do mercado de trabalho baiano.
Depois de ter sido fornecido todo esse panorama, que marca o comportamento mais geral do mercado de trabalho metropolitano nos últimos tempos, pode-se, agora, descrever as principais características da ocupação na RMS. Nesse sentido, a primeira informação que se tem para comentar é que tendo em vista ser essa região o centro mais dinâmico da economia baiana, o seu mercado de trabalho reunia quase ¼ de toda a ocupação do estado, o que correspondia, em termos absolutos, a, aproximadamente, 1,1 milhão de trabalhadores.
Isso significa dizer, em outras palavras, que na RMS estavam concentrados 30,8% dos trabalhadores baianos que se encontravam na condição de empregados, 35,6% dos empregadores, 19,7% dos conta-própria, 4,1% dos trabalhadores não remunerados em ajuda a membro do domicílio e 0,9% dos trabalhadores na produção para o próprio consumo (Tabela 4).
Tabela 4 — Pessoas de 10 anos ou mais de idade, ocupadas na semana de referência, por posição na ocupação e no trabalho principal, segundo os municípios da RMS, 2000
Empregados Empregadores Conta própria Não remunerados em ajuda a membro do domicílio Trabalhadores na produção para o próprio consumo BAHIA 4.581.585 60,4 2,1 25,0 5,8 6,7 Metropolitana de Salvador 1.126.792 75,8 3,1 20,0 1,0 0,3 Representação no Estado (%) 24,6 30,8 35,6 19,7 4,1 0,9 Camaçari 54.544 76,0 1,9 20,0 1,3 0,7 Candeias 24.278 75,3 1,3 20,6 1,7 1,0 Dias d'Ávila 13.487 77,7 1,7 17,9 2,0 0,7 Itaparica 6.000 63,7 1,3 28,4 3,7 3,0 Lauro de Freitas 44.219 73,9 4,8 19,5 1,6 0,1 Madre de Deus 3.641 73,2 1,4 22,9 1,5 1,1 Salvador 934.488 76,0 3,2 19,8 0,8 0,1
São Francisco do Conde 7.739 76,9 0,4 17,5 2,4 2,9
Simões Filho 29.538 76,1 1,6 20,0 1,6 0,8
Vera Cruz 8.858 62,2 1,5 33,8 0,8 1,7
Bahia / Região Econômica / Município Total
Posição na ocupação no trabalho principal
Fonte: IBGE. Censo Demográfico - 2000 - Microdados da Amostra
Esses trabalhadores da RMS estavam distribuídos da seguinte forma, segundo a posição na ocupação no trabalho principal: 75,8% eram empregados, 3,1% empregadores, 20,0% conta-própria, 1,0% trabalhadores não remunerados em ajuda a membro do domicílio e 0,3% trabalhadores na produção para o próprio consumo. O município que mais se destacava dentro dessa região, em termos absolutos, do ponto de vista da ocupação era, indiscutivelmente, Salvador, com perto de 934 mil trabalhadores ocupados. Esse número representava 82,9% de toda ocupação da RMS e 20,4% de toda a ocupação estadual.
É interessante observar que esses valores, não obstante serem bastante significativos, não
faziam do município de Salvador aquele com a maior taxa de ocupação12 da RMS. O
município que ocupava essa posição de liderança era, notadamente, Lauro de Freitas, com uma taxa de ocupação que se situava no patamar de 76,6%. Logo em seguida, nesse ranking, vinham os municípios de Salvador e Vera Cruz, com taxas de ocupação da ordem de,
12
respectivamente, 75,2% e 74,1%. Vale notar também que os municípios de Camaçari e Lauro de Freitas eram aqueles que, depois de Salvador, congregavam o maior número aproximado de trabalhadores ocupados dentro da RMS, respectivamente, 54 mil e 44 mil.
Detalhando ainda mais essa questão da ocupação, é importante mencionar que Dias D’Ávila, dentre todos os municípios da RMS, distinguia-se por ser aquele que possuía a maior proporção de trabalhadores na condição de empregados (77,7%). Já o município de Lauro de Freitas, por sua vez, notabilizava-se por ter a maior proporção de empregadores de toda essa região (4,8%). A maior proporção de conta-própria da RMS era encontrada no município de Vera Cruz (33,8%). No caso dos trabalhadores não remunerados em ajuda a membro do domicílio e dos trabalhadores na produção para o próprio consumo, as maiores concentrações relativas da RMS eram registradas no município de Itaparica, respectivamente 3,7% e 3,0%. Desses trabalhadores que estavam na condição de ocupados na RMS, quase meio milhão desempenhavam as suas atividades no âmbito da informalidade. O município de Vera Cruz era aquele que mais se destacava negativamente quanto à questão da informalidade, ou seja,
possuía a maior taxa (65,1%)13. No sentido oposto, quem mais se sobressaía era o município
de Salvador, registrando uma taxa de informalidade que se situava no patamar de 43,0%14.
Em 2000, a RMS reunia um contingente de quase 854 mil trabalhadores que se encontravam na condição de empregados. Deste total, 62,7% eram empregados com carteira de trabalho assinada, 6,8% eram militares e funcionários públicos estatutários e 30,5% eram empregados sem carteira de trabalho assinada (Tabela 5). A taxa de assalariamento medida para essa
região alcançava o patamar de 75,8%15. Cabe ressaltar que esse valor superava todas as outras
taxas de assalariamento, medidas para as demais regiões econômicas do estado. Tal constatação era perfeitamente compreensível, visto que o assalariamento da força de trabalho tende a se tornar hegemônico em espaços econômicos com um acentuado grau de desenvolvimento do capitalismo, como é o caso da RMS.
Tabela 5 — Pessoas de 10 anos ou mais de idade, ocupadas na semana de referência, por categoria do emprego no trabalho principal, segundo os municípios da RMS, 2000
Total Com carteira de trabalho assinada (1) Militares e funcionários públicos estatutários
Outros sem carteira de trabalho assinada (2) BAHIA 2.768.377 42,2 7,3 50,6 Metropolitana de Salvador 853.549 62,7 6,8 30,5 Representação no Estado (%) 30,8 45,8 29,0 18,6 Camaçari 41.468 56,7 4,2 39,1 Candeias 18.275 61,6 5,3 33,1 Dias d'Ávila 10.486 62,6 2,5 34,9 Itaparica 3.820 52,1 6,9 41,0 Lauro de Freitas 32.681 56,4 6,0 37,7 Madre de Deus 2.664 50,1 18,9 31,1 Salvador 710.215 63,8 6,9 29,2
São Francisco do Conde 5.952 40,3 22,9 36,8
Simões Filho 22.475 60,8 5,6 33,5
Vera Cruz 5.513 41,1 12,6 46,3
Bahia / Região Econômica / Município
Empregados por categoria do emprego no trabalho principal
Fonte: IBGE. Censo Demográfico - 2000 - Microdados da Amostra (1) Inclusive os trabalhadores domésticos.
(2) Inclusive os aprendizes ou estagiários sem remuneração.
13 (Empregados sem carteira assinada + Conta-própria + Trabalhador não-remunerado em ajuda a membro do domicílio + Trabalhador na produção para o próprio consumo) / Pessoas ocupadas x 100.
14 A despeito do seu dinamismo, do ponto de vista da ocupação, a RMS contava com um grande número de trabalhadores na condição de desocupados (cerca de 380 mil). Em termos médios, sua taxa de desocupação era da ordem de 25,2%. Os dois municípios, dentro da RMS, em que essa taxa encontrava-se em um patamar mais elevado eram: Madre Deus (33,1%) e São Francisco do Conde (31,7%). Já os dois em que ela se situava nos níveis mais reduzidos eram: Lauro de Freitas (23,4%) e Salvador (24,8%).
Analisando os principais pólos econômicos da RMS — Salvador, Camaçari e Lauro de Freitas — constatava-se, em 2000, que 63,8%, 56,7% e 56,4% dos ocupados localizados nesses três municípios constituía-se, respectivamente, de empregados com carteira de trabalho assinada; 6,9%, 4,2% e 6,0% de militares e funcionários públicos estatutários e 29,2%, 39,1% e 37,7% de empregados sem carteira, respectivamente.
Ocupação por conta-própria
De um total de 1,1 milhão de pessoas que se encontravam na condição de ocupados na RMS, em 2000, um contingente da ordem de quase 225,1 mil eram trabalhadores por conta própria, o que significava dizer que, em termos percentuais, tais trabalhadores representavam 20,0% de toda a ocupação existente nessa região econômica. É interessante observar que essa proporção é inferior àquela que é medida quando são levados em consideração o total de pessoas ocupadas e o total de trabalhadores por conta-própria no estado (25,0%) (Tabela 6).
Tabela 6 — Pessoas de 10 anos ou mais de idade, ocupadas na semana de referência, trabalhadores ocupados por conta própria no trabalho principal — total e proporção
entre os ocupados, segundo os municípios da RMS, 2000
Conta própria Proporção no total de ocupados (%) BAHIA 4.581.585 1.143.386 25,0 Metropolitana de Salvador 1.126.792 225.148 20,0 Representação no Estado (%) 24,6 - 19,7 Camaçari 54.544 10.935 20,0 Candeias 24.278 5.012 20,6 Dias d'Ávila 13.487 2.410 17,9 Itaparica 6.000 1.706 28,4 Lauro de Freitas 44.219 8.639 19,5 Madre de Deus 3.641 833 22,9 Salvador 934.488 185.370 19,8
São Francisco do Conde 7.739 1.351 17,5
Simões Filho 29.538 5.897 20,0
Vera Cruz 8.858 2.995 33,8
Bahia / Região Econômica / Município Total de ocupados
Trabalhadores por Conta Própria
Fonte: IBGE. Censo Demográfico - 2000 - Microdados da Amostra
É digno de nota que, do conjunto de municípios que integram essa região econômica, cabia a Vera Cruz o título de ser o município em que se apurava a maior proporção de trabalhadores por conta-própria no total dos ocupados (33,8%). Na seqüência desse ranking localizava-se o município de Itaparica, com nada menos do que 28,4% do total de trabalhadores ocupados engajados ao mercado de trabalho na condição de conta-própria. O município de São Francisco do Conde, por sua vez, notabilizava-se, dentro do conjunto dos municípios que compõem a RMS, por ser aquele que apresentava a menor representatividade relativamente à participação dos trabalhadores por conta-própria no contexto da ocupação.
No caso dos três municípios mais importantes do ponto de vista ocupacional, que integravam a referida região econômica — no caso Salvador, Camaçari e Lauro de Freitas —, tem-se que os valores das proporções de trabalhadores por conta-própria no total da ocupação, encontrados em cada um deles, eram muito próximos entre si e alcançavam patamares coincidentes (situação prevalecente no município de Camaçari) ou se situavam em níveis muito próximos do valor apurado para a RMS.
Presença do trabalho precário
Ao se analisar a questão do emprego na RMS, percebe-se que, no ano 2000, havia um total de 853,5 mil trabalhadores que se vinculavam ao mercado de trabalho na condição de empregados. Para se ter a dimensão do quão significativo é esse número, basta dizer que ele correspondia, nesse momento, a 18,6% de toda a ocupação estadual e pouco mais de ¾ de
toda a ocupação da RMS. Ademais, vale assinalar também que ele equivalia a 30,8% do total de empregados existentes no âmbito estadual (Tabela 7).
Tabela 7 — Pessoas de 10 anos ou mais de idade, ocupadas na semana de referência, total e por posições selecionadas na ocupação na semana de referência, segundo os
municípios da RMS, 2000 Total de Empregados Proporção de Empregados no Total de ocupados (%) Empregados sem carteira de trabalho assinada Proporção de empregados sem carteira de trabalho assinada (%) (1) BAHIA 4.581.585 2.768.377 60,4 1.399.684 50,6 5,8 6,7 Metropolitana de Salvador 1.126.792 853.549 75,8 260.478 30,5 1,0 0,3 Representação no Estado (%) 24,6 30,8 18,6 4,1 0,9 Camaçari 54.544 41.468 76,0 16.217 39,1 1,3 0,7 Candeias 24.278 18.275 75,3 6.050 33,1 1,7 1,0 Dias d'Ávila 13.487 10.486 77,7 3.661 34,9 2,0 0,7 Itaparica 6.000 3.820 63,7 1.565 41,0 3,7 3,0 Lauro de Freitas 44.219 32.681 73,9 12.309 37,7 1,6 0,1 Madre de Deus 3.641 2.664 73,2 828 31,1 1,5 1,1 Salvador 934.488 710.215 76,0 207.565 29,2 0,8 0,1
São Francisco do Conde 7.739 5.952 76,9 2.191 36,8 2,4 2,9
Simões Filho 29.538 22.475 76,1 7.538 33,5 1,6 0,8
Vera Cruz 8.858 5.513 62,2 2.554 46,3 0,8 1,7
Bahia / Região Econômica / Município Total de ocupados
Posição na ocupação no trabalho principal Empregados no trabalho principal
Não remunerados em ajuda a membro do domicílio Trabalhadores na produção para o próprio consumo
Fonte: IBGE. Censo Demográfico - 2000 - Microdados da Amostra. (1) Inclusive os aprendizes ou estagiários sem remuneração.
Não obstante toda essa representatividade do emprego na RMS, não se pode dizer, em absoluto, que nessa região econômica só tenham sido observadas, em 2000, situações de trabalho que estariam em conformidade com aquilo que se conhece como relação formal de trabalho, ou seja, aquela que é regida por uma legislação específica. Com efeito, uma parte considerável dos empregados da RMS (30,5%) estava sujeita, no ano em foco, a uma relação de trabalho precária, na qual não tinha garantia alguma, tendo em vista não possuir carteira de trabalho assinada pelo empregador.
No plano dos municípios que compõem a RMS, cabia a Vera Cruz o título de campeã no que tange à questão do desrespeito à legislação trabalhista. Do total de empregados que lá existiam (cerca de 5,5 mil), no ano de 2000, 46,3% caracterizavam-se como empregados sem carteira de trabalho assinada. Em sentido oposto, tem-se que o município de Salvador era o local onde essa proporção assumia o menor valor, situando-se no patamar de 29,2%.
Essa categoria de emprego, sem registro em carteira, era disparada a principal forma de manifestação da precarização do trabalho, ocorrida no plano do mercado de trabalho metropolitano. As outras duas posições na ocupação (trabalhadores não remunerados em ajuda a membro do domicílio e trabalhadores na produção para o próprio consumo), que também, no contexto conceitual e metodológico desta análise, informam e/ou caracterizam uma situação de trabalho precário, assumiam, em 2000, um peso bastante diminuto no plano da ocupação metropolitana total, alcançando valores percentuais pouco expressivos, da ordem, respectivamente, de 1,0% e 0,3%.
Os únicos dois municípios dentro da RMS em que essas duas formas de inserção no mercado de trabalho possuíam, em 2000, certa importância relativa, sobretudo quando comparada ao padrão que era observado nos seus outros municípios, eram Itaparica (onde os trabalhadores não remunerados em ajuda a membro do domicílio e os trabalhadores na produção para o próprio consumo, representavam, respectivamente, 3,7% e 3,0% do total da ocupação existente) e São Francisco do Conde (onde os trabalhadores não remunerados em ajuda a membro do domicílio e os trabalhadores na produção para o próprio consumo, representavam, respectivamente, 2,4% e 2,9% do total da ocupação existente).
Padrão quanto à concentração setorial da ocupação
Antes de perseguir, mais diretamente, o propósito de tecer alguns comentários a respeito do padrão setorial da ocupação presente na RMS, em 2000, cabe fazer alusão às situações que o condicionaram, no plano mais geral da economia baiana. Caminhando nessa direção, deve-se pontuar, de imediato, que as várias mudanças por que passou a economia nacional, nas duas
últimas décadas, não se apresentaram de forma homogênea em todos os recantos do país16.
O grau com que se manifestaram respeitou, evidentemente, como não poderia deixar de ser, as particularidades de cada local. Desse modo, vislumbrou-se o seguinte quadro: naqueles recantos mais dinâmicos do ponto de vista econômico, elas, de pronto, se fizeram presentes. Já naqueles que apresentavam menor dinamismo, fato associado à sua reduzida articulação ao desenvolvimento das forças produtivas no plano nacional, as mudanças vêm se manifestando paulatinamente.
Esse é, sem dúvida, o cenário que se pode constatar ao analisar-se a economia baiana. Esta, a despeito de possuir no seu interior um espaço (a RMS) razoavelmente desenvolvido e articulado ao que há de mais moderno e complexo no capitalismo brasileiro, apresenta, nos dias de hoje, espaços em que ainda são raros os sinais que informem a presença de elos com
os centros mais dinâmicos do país e de outras partes do mundo17.
Dentro dessa perspectiva de exposição, tem-se que referenciar que os anos de 1990 constituem um período fundamental na história da Bahia, tendo em vista que nele acontece o “reencontro” desse estado com o crescimento econômico. No referido intervalo de tempo, a economia baiana foi palco de inúmeros investimentos privados em áreas e atividades até então inexploradas, os quais acabaram conduzindo a um movimento de expansão e de diversificação da sua economia.
Entretanto, esse movimento não foi de molde a transformar a realidade social desse estado. Infelizmente, o seu quadro social espelha as vicissitudes originadas em função do padrão de desenvolvimento econômico que adotou — o qual embora tenha trazido mudanças inequívocas do ponto de vista econômico, permitindo, inclusive, a constituição de uma nova composição do PIB estadual, conserva, na sua essência, praticamente intocada, a sua excessiva concentração nos setores de bens intermediários, intensivos em tecnologia e com reduzida capacidade de absorção de mão-de-obra, conforme revela os Gráficos 1 e 2.
Gráfico 1 — Estrutura setorial do PIB, Bahia, 2004*
16 Em termos sintéticos, pode-se dizer que nesse intervalo de tempo foram implantadas algumas políticas macroeconômicas que trouxeram para a economia nacional, mesmo que em circunstâncias diferentes, um significativo e intolerável custo social, posto que comprimiram o seu nível de atividade e, por conseguinte, o emprego e a renda. Nunca é demais relembrar, por exemplo, que os anos 1990 constituíram uma espécie de divisor de águas no que tange à inserção do Brasil no plano internacional, bem como em relação ao modo que o Estado brasileiro passou a se relacionar com a sociedade. Na realidade, esse período marcou um certo descompasso na condução das possibilidades futuras do país, pois, desde então, a economia brasileira, assim como já o faziam outras economias latino-americanas, buscou se reinserir na economia internacional por meio da órbita financeira e de um processo de abertura externa abrangente. É precisamente após esse momento que a economia nacional passa a estar sob a influência decisiva da reestruturação produtiva, da globalização e do avanço das políticas neoliberais, fenômenos esses que mudaram as suas feições, impactando, inclusive, as relações que passaram a se estabelecer no seu mercado de trabalho.
17 Deve-se pontuar que esta característica é observável nos mercados de trabalho dos demais estados brasileiros, sendo as diferenças entre suas respectivas regiões metropolitanas e as demais regiões internas mais ou menos acentuadas.
Terciário 40,0% Secundário 49,0% Primário 11,0%
Fonte: SUPERINTENDENCIA DE ESTUDOS ECONOMICOS E SOCIAIS DA BAHIA. * Dados sujeitos a retificação.
Isso significa dizer, em outras palavras, que o setor da atividade econômica que mais se expandiu nos últimos anos e que é responsável, por conseguinte, pela geração do produto de valor mais elevado, no caso a indústria de transformação, não é também aquele que mais abre oportunidades de trabalho. Ou seja, na Bahia observa-se um padrão que contraria, de forma categórica, a idéia de que quem mais gera PIB é, necessariamente, quem mais cria ocupações.
Gráfico 2 — Pessoal ocupado, segundo os setores de atividade econômica, Bahia, 2004
Atividade agrícola e exploração florestal
40,0% Atividades mal definidas
0,3%
Indústria e Construção
13,2% Serviços
46,5%
Fonte: IBGE/ Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios-PNAD.
De acordo com informações levantadas pela Superintendência de Desenvolvimento da Indústria e Comércio (SUDIC), no começo da década de 1990, na área do Complexo Petroquímico de Camaçari, as empresas em operação e em implantação representavam um investimento de quase US$ 8 bilhões e empregavam, de forma direta, cerca de 24 mil trabalhadores. Tais números expressam uma elevadíssima relação capital/trabalho, ou seja, para se abrir um posto de trabalho era necessário, nessa época, desembolsar uma quantia de cerca de US$ 321 mil. Nessa medida tem-se que para cada US$ 1 milhão investido três novos postos de trabalho eram criados.
Além desse fato, existem outros motivos que ajudam a explicar porque o crescimento da indústria não se fez acompanhar, ou melhor, não resultou em um processo de ampliação do emprego. Em primeiro lugar se pode fazer referência às adversidades enfrentadas por esse
setor — cuja produção centrava-se, fundamentalmente, na produção de bens intermediários — que se originaram em função do esquema de abertura econômica instalado na economia nacional logo no início do governo Collor. Tal fato, evidentemente, trouxe uma nova realidade concorrencial, na medida em que o mercado nacional se viu abastecido por uma enxurrada de produtos importados com preços muito competitivos.
Com o consumidor nacional podendo acessar produtos importados com grande facilidade, os produtos produzidos internamente perdem espaço. Com efeito, a ocorrência dessa situação atingiu, frontalmente, os interesses da indústria nacional, de uma forma geral, e da baiana, de modo particular. Prova maior que esses tempos foram efetivamente de grande dificuldade é encontrada no fato de que em um único ano, 1991, a indústria de transformação baiana contraiu a sua produção em cerca de 8,9%.
No caso especifico da indústria baiana essa situação só é revertida na segunda metade da década de 1990, quando a sua produção se recupera, passando, então, a registrar taxas positivas de crescimento.
Esse não é, por razões óbvias, o cenário perfeito para que as oportunidades de trabalho sejam ampliadas nesse setor. Tanto é assim que enquanto a participação do setor secundário no PIB estadual cresce cerca de 3,2 pontos percentuais (de 36,4% para 39,6%) entre 1992 e 1999, a absorção de mão-de-obra expande-se somente 0,3 pontos percentuais (saltando de 12,8% para 13,1%) (Gráfico 3 e Tabela 14).
Gráfico 3 — Participação dos setores produtivos no PIB, Bahia, 1992/1999
9,7% 36,4% 54,1% 9,4% 39,6% 51,1% 0,0% 10,0% 20,0% 30,0% 40,0% 50,0% 60,0% Primário Secundário Terciário 1992 1999
Fonte: SUPERINTENDENCIA DE ESTUDOS ECONOMICOS E SOCIAIS DA BAHIA.
Tabela 8 — Pessoas ocupadas de 10 anos ou mais de idade, segundo os setores e ramos de atividade do trabalho principal, Bahia, 1992-1999
Absoluto Relativo (%) Absoluto Relativo (%) Total 5.118.035 100,0 5.827.624 100,0 Primário (agropecuária) 2.434.464 47,6 2.572.461 44,1 Secundário 653.086 12,8 761.926 13,1 Indústria de Transformação 294.382 5,8 349.345 6,0 Construção 271.176 5,3 347.942 6,0
Outras atividades indústriais 87.528 1,7 64.639 1,1
Terciário 2.030.485 39,7 2.493.237 42,8
Comércio de mercadorias 583.085 11,4 686.691 11,8
Prestação de serviços 718.672 14,0 823.416 14,1
Serv. auxiliares da atividade econômica 83.466 1,6 130.574 2,2
Transporte e comunicação 127.643 2,5 171.125 2,9
Social 309.874 6,1 413.931 7,1
Administração pública 144.314 2,8 203.195 3,5
Outras ativ., ativ. mal definidas ou não declaradas 63.431 1,2 64.305 1,1
1999
Setores e ramos de atividade 1992
Fonte: IBGE/ Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios -PNAD.
É importante destacar que no começo da década de 1990, mais precisamente no ano de 1992, segundo as informações disponibilizadas pela PNAD, o setor de atividade onde se processam as atividades ditas primárias respondia por 47,6% de toda a absorção de mão-de-obra no estado da Bahia. Nessa oportunidade, tal setor era, disparadamente, aquele que mais mobilizava os trabalhadores baianos para o trabalho. No final desse período, ou seja, em 1999, a despeito de ter perdido espaço, tanto no que se refere à capacidade de agregar valor ao PIB estadual quanto no aspecto relativo à geração de postos de trabalho, o setor Primário continuava sendo aquele que mais ocupava produtivamente a População em Idade Ativa (PIA) no estado (Tabela 14).
Na percepção de Santana (2003), essa posição destacada do setor Primário na ocupação estadual é decorrente
[...] de uma estrutura agrária na qual ainda se mantém uma proporção elevada de pequenas propriedades rurais, nas quais a produção para a subsistência envolve parcela significativa dos indivíduos que nelas vivem, o que contribui de maneira evidente para inflar o contingente de pessoas ocupadas em atividades agrícolas (embora à margem do circuito econômico propriamente dito) (SANTANA, 2003, p. 47) 18.
Essa informação está em perfeita sintonia com os resultados que constam de um estudo produzido pela SEI, em 2005, no qual se investiga a situação dos 417 municípios baianos no que diz respeito às condições de operação e funcionamento dos seus respectivos mercados de trabalho. Nesse trabalho é possível constatar que na maioria esmagadora dos municípios baianos (315) — o que corresponde, percentualmente, a 80,7% do total de municípios existentes no estado —, a taxa de ocupação é igual ou superior a 80,0% (Figura 1).
Entretanto, a conformação desse quadro só é possível graças ao fato de que a inserção no mercado de trabalho baiano de uma parte significativa dos trabalhadores se dá por vias bastante precárias, tais como, por exemplo, trabalhadores não remunerados em ajuda a membros dos domicílios e como trabalhadores na produção para o próprio consumo. Esse é notadamente o padrão que se verifica naqueles municípios que registram as taxas de ocupação mais elevadas, as quais, em muitos casos, indicam, inclusive, situações que se aproximam e/ou expressam o pleno emprego da força de trabalho local.
Figura 1 — Taxa de ocupação da PEA, Bahia, 2000
18
Essa realidade prevalece, sobretudo, na região semi-árida do estado. Como destacam Rocha (et. al., 2003, p. 12-13), “nessa região, a unidade produtiva geralmente é destinada ao autoconsumo enquanto que as demais necessidades são supridas com outras atividades, normalmente precárias e de baixa qualificação técnica”.
Fonte: IBGE/Censo Demográfico.
Elaboração: SUPERINTENDENCIA DE ESTUDOS ECONOMICOS E SOCIAIS DA BAHIA.
Esse é o caso, por exemplo, de Municípios como Biritinga, Érico Cardoso, Lamarão, Aracatu, Cabaceiras do Paraguaçu, Adustina, Matina, Barro Alto, Santanópolis, São Miguel das Matas, Dom Basílio, Tabocas do Brejo Velho, Elísio Medrado, Sebastião Laranjeiras, Banzaê, Heliópolis, Sítio do Quinto, Paripiranga, Crisópolis e Barra da Estiva, os quais registravam, em 2000, taxas de desocupação menores do que 5%.
Feito referência a essas questões, não se pode deixar de comentar que as influências negativas advindas dos ajustes macroeconômicos levados a cabo no plano nacional, nos últimos anos, especialmente os mais recentes que datam da década de 1990, também exerceram, assim como em outros espaços, um papel fundamental na definição das principais características do panorama social baiano. Basta olhar, por exemplo, para o mercado de trabalho desse estado para verificar que a sua dinâmica foi fortemente condicionada pela política de abertura econômica iniciada no governo Collor e reforçada no governo FHC e pelo programa de estabilização econômica tocado por esse último governo.
É sempre bom destacar que as influências, há pouco referidas, não provocaram implicações apenas de natureza conjunturais. Seus efeitos tiveram uma amplitude bem
mais vasta, na medida em que induziram as unidades produtivas a introduzirem um rápido processo de racionalização produtiva. Destarte, é obrigatório ao se retratar a realidade do mercado de trabalho baiano fazer alusão a esses movimentos da economia, os quais, como muito bem indica Santana (2003, p. 45), “na maioria dos casos, derivaram de processos que ultrapassam em muito os limites estaduais, mas que acabaram afetando, direta ou indiretamente, a geração, a eliminação ou a qualidade dos postos de trabalho no estado”. Depois de todas essas colocações, que permitiram a visualização de algumas mudanças estruturais da economia baiana, de uma forma geral, e por conseguinte, da RMS, no decorrer, principalmente, das últimas duas décadas, já se pode começar a detalhar o quadro que espelha o padrão ocupacional dos trabalhadores da RMS segundo o recorte de setor de atividade. Nessa medida, tem-se que os três setores de atividade mais representativos da RMS, do ponto de vista da ocupação, eram, em 2000, precisamente: comércio, reparação de veículos e objetos (19,4%), intermediação financeira (11,1%); e indústria (10,2%). No comércio, com exceção de Vera Cruz e São Francisco do Conde, que apresentavam as menores participações de ocupados, os outros municípios que integram essa região tinham proporções próximas. No caso do setor de atividade intermediação financeira, Salvador e Lauro de Freitas apresentavam os maiores percentuais de ocupados, ao passo que o município de São Francisco do Conde tinha uma participação bastante diminuta.
Embora o município de Camaçari fosse o mais importante no contexto metropolitano em relação ao PIB e ao valor da produção industrial, eram os municípios de Dias D’Ávila e Simões Filho aqueles que apresentavam as maiores proporções de ocupados no setor industrial. As cidades de Vera Cruz, Itaparica e São Francisco do Conde, por sua vez, apresentavam os menores percentuais de ocupados nesse setor de atividade.
Considerando, especificamente, o setor de atividade saúde, o município de Salvador se destacava, entre os demais municípios da RMS, como aquele que tinha a maior proporção de trabalhadores ocupados (5,6%). Na segunda posição nesse ranking estava o município de São Francisco do Conde, posto que reunia uma proporção de ocupados no referido setor de atividade da ordem de 3,7%. Para os outros municípios dessa região, observava-se percentuais menores ou iguais a 2,5%. Essa situação constituía um forte indicativo das dificuldades de atendimento médico-hospitalar da população residente nesse espaço, cujo resultado tem sido, entre outras coisas, a migração para Salvador de pacientes que necessitam de tratamento especializado.
Outro setor de atividade que merece ser destacado quando se discute a questão da ocupação na RMS, em 2000, era o de outros serviços coletivos, sociais e pessoais (40,4%). O peso da RMS, nesse particular, com certeza se deve ao tamanho da sua população, que requer do estado tanto um sistema de limpeza urbano mais complexo quanto uma maior rede de esgotamento sanitário e tratamento de água.
Padrão de rendimento dos ocupados
Também aqui optou-se não apenas por descrever as informações relativas ao padrão de rendimento dos ocupados da RMS, em 2000. Achou-se conveniente, da mesma forma que se procedeu em estágios anteriores neste trabalho, tecer breves comentários acerca do comportamento do rendimento dos trabalhadores baianos nos anos 1990. Seguindo esse intento, pode-se dizer, de modo geral, que também nesse quesito os trabalhadores baianos enfrentaram uma condição deveras adversa durante esse período.
Prova disso é que quando essa década se encerra, em 1999, o valor do rendimento real médio do trabalho principal era cerca de 4,1% inferior ao que os trabalhadores haviam recebido em 1992, recuando de R$ 462,4 para R$ 444,1 (Gráfico 4). Conforme se pode atestar nesse gráfico, passado o efeito de regeneração do rendimento patrocinado pelo Plano Real entre 1995 e 1996, o que se viu na seqüência foi a instalação de um processo de sistemática queda
do rendimento dos trabalhadores que teve solução de continuidade, inclusive, na primeira
metade da década seguinte19.
Gráfico 2 — Valor do rendimento real médio do trabalho principal das pessoas de 10 anos ou mais de idade, ocupadas na semana de referência e com rendimento no trabalho principal,
Bahia, 1992-2004 0 100 200 300 400 500 600 1992 1993 1955 1996 1997 1998 1999 2001 2003 2004 R e n d im e n to (R $ )
Fonte: IBGE/ Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios -PNAD.
Nota: Exclusive as pessoas que receberam somente em benefícios ou sem declaração de rendimento no trabalho principal. Inflator utilizado: IPCA/IBGE.
Fornecer essa noção evolutiva de como se comportou o rendimento dos trabalhadores baianos na referida década revela-se por demais importante, posto que a mesma ajuda a determinar os tons da fotografia que permite avaliar o padrão de rendimento dos trabalhadores metropolitanos.
Pontuada essa questão, cabe assinalar que o conjunto da RMS reunia, em 2000, 16,1% de todos os trabalhadores do estado que se encontravam na condição de ocupados e recebiam pelo seu trabalho um rendimento que somava no máximo o valor correspondente a 1 salário mínimo. Do ponto de vista absoluto, isso significa dizer que nessa região econômica existia um contingente em torno de 309,5 mil trabalhadores que ganhavam o referido rendimento. É interessante observar que tais trabalhadores encontravam-se distribuídos da seguinte forma, segundo algumas classes de rendimento: 4,8% ganhavam até 0,25 do valor do mínimo; 12,7% auferiam rendimentos que eram maiores do que 0,25 do valor do mínimo indo até 0,50; 16,5% encontravam-se na classe de rendimento subseqüente, ou seja, ganhavam mais do que ½ salário mínimo, porém os seus rendimentos não ultrapassavam 0,75 de tal salário; e 66,2% recebiam exatamente um salário mínimo (Tabela 9).
Tabela 9 — Pessoas de 10 anos ou mais de idade, ocupadas na semana de referência por
classes de rendimento, segundo os municípios da RMS, 2000
19
Para não faltar com a veracidade dos fatos, é possível perceber que de 1999 a 2001 o rendimento dos trabalhadores apresenta uma elevação extremamente modesta, da ordem de 0,9%.
BAHIA 1.925.316 145.982 7,6 368.894 19,2 463.697 24,1 946.743 49,2 Metropolitana de Salvador 309.453 14.375 4,6 39.424 12,7 50.923 16,5 204.731 66,2 Representação no Estado (%) 16,1 9,8 10,7 11,0 21,6 Camaçari 18.044 1.070 5,9 3.101 17,2 3.459 19,2 10.414 57,7 Candeias 9.049 937 10,4 1.634 18,1 1.427 15,8 5.051 55,8 Dias d'Ávila 4.369 190 4,3 744 17,0 881 20,2 2.554 58,5 Itaparica 2.648 178 6,7 346 13,1 432 16,3 1.692 63,9 Lauro de Freitas 13.412 424 3,2 1.623 12,1 1.516 11,3 9.849 73,4 Madre de Deus 1.001 59 5,9 186 18,6 253 25,3 503 50,2 Salvador 243.731 10.547 4,3 28.936 11,9 39.600 16,2 164.648 67,6
São Francisco do Conde 2.274 168 7,4 462 20,3 455 20,0 1.189 52,3
Simões Filho 10.480 566 5,4 1.520 14,5 1.993 19,0 6.401 61,1
Vera Cruz 4.445 236 5,3 872 19,6 907 20,4 2.430 54,7
Bahia / Região Econômica /
Município Total
Classes de rendimento em salários mínimos
Até 0,25 Mais de 0,25 a 0,5 Mais de 0,5 a 0,75 Mais de 0,75 a 1
Fonte: IBGE. Censo Demográfico - 2000 - Microdados da Amostra.
Dentro da RMS, Candeias era o município que possuía a maior proporção de trabalhadores que ganhavam até 25,0% do valor do mínimo. Na classe de rendimentos que englobava os trabalhadores que recebiam entre mais de 0,3 até 0,5 do valor do mínimo, o município que mais se destacava era São Francisco do Conde. Madre de Deus, por sua vez, era o município que, proporcionalmente, mais possuía trabalhadores que auferiam rendimentos superiores a 50,0% do valor do salário mínimo e que iam até 75,0% deste valor. Já Salvador era aquele que mais se destacava quando se levava em consideração a presença de trabalhadores que ganhavam entre mais do que 75,0% do valor do salário mínimo até o valor integral desse salário.
Considerações finais
A primeira coisa a dizer nessa parte do trabalho é que esse olhar pormenorizado, que privilegiou a esfera municipal, e que buscou descrever, em linhas gerais, o padrão de ocupação prevalecente na RMS, caminha numa perspectiva analítica muito pouco explorada. Por certo, ele serviu para explicitar o quão frágil e insegura é a base de operação do mercado de trabalho metropolitano. Esse foi, sem sobra de dúvida, um exercício importante que precisava ser realizado, uma vez que tornou evidente o seu precário padrão de funcionamento, confirmando assim as suspeitas levantadas por outros estudiosos, a exemplo de Souza (et al, 2006).
A fotografia que nele foi feita da ocupação nos diferentes municípios que integram a RMS serviu para mostrar, com boa nitidez, o elevado grau de heterogeneidade e precariedade do mercado de trabalho metropolitano. Isso porque, a realidade ocupacional encontrada no mercado de trabalho dos municípios que integram esse espaço revelou-se muito díspare para
a maioria dos indicadores, com apenas Salvador20, Camaçari e Lauro de Freitas apresentando
perfis ocupacionais mais estruturados e semelhantes. Outros municípios, a exemplo de Vera Cruz e Itaparica, encontram-se, por seu turno, em condições de extrema fragilização em termos de padrão ocupacional. A rigor, no caso desses últimos municípios o mais correto seria admitir a completa inexistência de um padrão ocupacional, uma vez que, em boa medida, o referido termo encerra, mesmo que de modo implícito, a noção de estruturação, isto é, a verificação de uma certa ordem que traz consigo, nas suas entrelinhas, a observância de determinadas características que freqüentemente se associam à idéia de algo que é positivo.
A despeito dessas diferenças mais gritantes nos seus perfis ocupacionais, chamou atenção a generalizada precariedade ocupacional existente nos municípios metropolitanos. Dado esse cenário adverso, o que esperar, relativamente a padrão ocupacional, do mercado de trabalho dos municípios que estão situados em áreas menos dinâmicas do ponto de vista da atividade
20
O município de Salvador destacava-se na região pelo porte expressivo de seu mercado de trabalho, cujos impactos são tão relevantes que acabam por interferir também na dinâmica econômica estadual.