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Desigualdade de Renda e Funcionalidade dos Idosos no Brasil

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Desigualdade de Renda e Funcionalidade dos Idosos no Brasil

∗∗

Maria Isabel Parahyba♣♣

Palavras-chave: capacidade funcional; idoso; desigualdade socioeconômica; envelhecimento

Resumo

Introdução: diferenças socioeconômicas na prevalência de dificuldade funcional entre os idosos têm sido reportadas nos Estados Unidos, na Europa e, mais recentemente, também no Brasil. O Brasil é caracterizado por uma elevada desigualdade socioeconômica, possibilitando a oportunidade de identificar a existência de grupos de idosos com níveis de renda acima dos quais os ganhos na redução das taxas de prevalência de dificuldade funcional são relativamente pequenos. Objetivo: analisar diferenciais nas taxas de prevalência de dificuldade funcional entre os idosos no Brasil, utilizando a renda familiar per capita, categorizada em percentis de renda e ponderada através de uma escala de equivalência, como um indicador de desigualdade socioeconômica. Metodologia: os dados utilizados neste estudo foram os da PNAD, de 1998, pesquisa realizada pelo IBGE. O estudo envolveu uma amostra representativa nacionalmente de 26.943 pessoas de 60 anos. Os dados foram processados e analisados em SPSS v.10 e o procedimento estatístico utilizado foi a análise multivariada, com a dificuldade para caminhar cerca de 100 metros como a variável dependente, controlando por gênero, grupo de idade, região de residência, educação e residência urbano/rural. Resultados: a prevalência de dificuldade para caminhar cerca de 100 metros, para os idosos abaixo da mediana de renda familiar per capita, é de 23,2% entre os homens (95%IC 21,0-25,4) e 34,5% para as mulheres (95%IC 32,7-36,3), decrescendo no grupo de idosos mais ricos (percentil 90) para 9,9% (95%IC 4,7-15,1) e 18,1% (95%IC 13,6-22,6), respectivamente. Somente para 4,8% dos idosos, que tem uma renda familiar per capita a partir de 14 salários mínimos, a renda deixa de ser um fator de risco para dificuldade funcional. Conclusão: Para muitos dos 16 milhões de idosos de idosos brasileiros o declínio funcional vêm ocorrendo num contexto de pobreza e de extrema desigualdade social. Reduzir a carga de dificuldade funcional da população idosa no Brasil requer redução nas desigualdades de renda e melhoria nas condições de suporte institucional.

Trabalho apresentado no XIV Encontro Nacional de Estudos Populacionais, ABEP, realizado em Caxambú-

MG – Brasil, de 20- 24 de Setembro de 2004.

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Desigualdade de Renda e Funcionalidade dos Idosos no Brasil

∗∗

Maria Isabel Parahyba♣♣

Introdução

O estudo da dificuldade funcional em idosos é importante para o entendimento de como as pessoas estão vivendo os anos adicionais de vida ganhos com o aumento da longevidade. A dificuldade funcional tem sido definida como a dificuldade, devido a uma deficiência, para realizar atividades típicas e pessoalmente desejadas na sociedade (WHO, 1981). É mais um indicador da conseqüência de um processo de doença do que uma medida de incapacidade ou de uma morbidade específica (VERBRUGGE & JETTE, 1994). Vem tornando-se um conceito particularmente útil para avaliar o estado de saúde dos idosos, porque muitos destes têm várias doenças simultaneamente, que variam em severidade e causam diferentes impactos na vida cotidiana.

Este tema tem sido mais estudado nos países desenvolvidos, onde o processo de envelhecimento não é recente, e tem causado impactos importantes na vida cotidiana das pessoas e nos sistemas de saúde e de previdência. Grande parte destes estudos vem dos Estados Unidos, mas existe um número expressivo deles também na Europa.

No Brasil há poucos estudos sobre o status funcional dos idosos e os estudos existentes mais abrangentes analisaram as condições dos idosos no município de São Paulo (RAMOS et al., 2001; ROSA et al., 2003). Somente com a publicação dos micro-dados da PNAD 1998 foi possível apresentar resultados ao nível nacional (MELZER & PARAHYBA, 2004; LIMA-COSTA et al., 2003).

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), órgão governamental responsável pelo levantamento das estatísticas oficiais do país, levantou as primeiras informações sobre o status funcional dos idosos em 1996/1997, através da Pesquisa sobre Padrões de Vida (PPV), realizada nas duas maiores regiões geográficas, Nordeste e Sudeste, considerando toda a população residente. Estas informações indicavam apenas se a pessoa deixara de realizar as atividades normais por conta de problema de saúde e o número de dias que as atividades deixaram de ser realizadas. Em 1998, o IBGE levantou informações sobre a mobilidade física das pessoas de 14 anos ou mais através do Suplemento de Saúde da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). Este inquérito, que é a fonte das informações deste estudo, possibilitou o conhecimento sobre o tema da dificuldade funcional entre os idosos em âmbito nacional.

Os estudos realizados no Brasil sobre este tema têm utilizado, de forma geral, a denominação incapacidade funcional como o termo correspondente àquele referido nos

Trabalho apresentado no XIV Encontro Nacional de Estudos Populacionais, ABEP, realizado em Caxambu-

MG – Brasil, de 20- 24 de Setembro de 2004.

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estudos internacionais (disability). Entretanto, a Organização Mundial de Saúde, a partir de 2001, através da International Classification of Functioning, Disability and Health (ICF), propõe a substituição do termo “incapacidade” por “restrição de participação” para classificar o fenômeno de forma mais positiva.

Neste estudo, a denominação "incapacidade funcional" foi substituída por "dificuldade funcional", pois acredita-se que esta expressão reflita mais adequadamente a dinâmica das transformações ocorridas no conceito de funcionalidade. Além disso, no questionário da PNAD todas as questões sobre mobilidade física estão referidas à dificuldade para realizar tarefas por conta de problema de saúde.

Segundo o IBGE, a projeção da população no Brasil mostra a tendência de crescimento do número de idosos, que deve alcançar mais de 25 milhões de pessoas em 2020, a maioria composta por mulheres (aproximadamente 15 milhões). Em estudos de prevalência de dificuldade funcional as taxas são mais elevadas em mulheres do que em homens, embora isso se deva mais provavelmente a diferenças na sobrevivência com limitações, já que as taxas de incidência diferem pouco entre homens e mulheres (STRAWBRIDGE et al.,1993).

Em uma meta-análise de estudos conduzidos principalmente nos Estados Unidos, STUCK et al. (1999) mostraram, como causas de futuras limitações, que há forte evidencia para a importância de fumar, baixos níveis de atividade física, aumento e diminuição do índice de massa corporal, ausência de consumo de álcool (e uso elevado) comparado ao consumo moderado, baixa freqüência de contatos sociais e depressão.

Além destes fatores individuais, numerosos estudos têm reportado uma forte associação entre status socioeconômico e limitação funcional entre os idosos e diferenças socioeconômicas na prevalência de dificuldade funcional têm sido relatadas nos Estados Unidos e na Europa (GURALNIK & KAPLAN, 1989; GURALNIK et al., 1993; MENDES DE LEON et al., 1995; LYNCH & KAPLAN, 1999) e, mais recentemente, também no Brasil (MELZER & PARAHYBA, 2004; ROSA et al., 2003). Um destes estudos, realizado recentemente, mostrou que as disparidades em renda e educação no Brasil aparecem como os mais importantes fatores sociodemográficos para explicar diferenças no risco de dificuldade funcional entre os idosos (PARAHYBA, 2003).

O Brasil é caracterizado por uma elevada desigualdade socioeconômica, possibilitando a oportunidade de identificar a existência de grupos de idosos com níveis de renda acima dos quais os ganhos na redução das taxas de prevalência de dificuldade funcional são relativamente pequenos. Este estudo tem por objetivo analisar diferenciais nas taxas de prevalência de dificuldade funcional entre os idosos no Brasil, utilizando a renda familiar per

capita, categorizada em percentis de renda e ponderada através de uma escala de

equivalência, como um indicador de desigualdade socioeconômica.

Metodologia

Os dados da PNAD são representativos da população residente no país em setembro de 1998 (excluindo a área rural da região Norte). O inquérito coletou informações sobre demografia, emprego e ocupação, saúde e mobilidade física, educação, rendimento, migração e condições do domicílio. A PNAD é realizada, pelo IBGE, através de uma amostra probabilística de domicílios obtida em três estágios de seleção: unidades primárias municípios; unidades secundárias -setores censitários; e unidades terciárias - unidades domiciliares (domicílios particulares e unidades de habitação em domicílios coletivos). A

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amostra final foi desenhada para ser representativa da população brasileira (BIANCHINI & ALBIERI, 2003).

De 112.434 domicílios amostrados, 80,9% foram entrevistados e 28 943 pessoas de 60 anos ou mais foram incluídas na amostra. Foram entrevistadas todas as pessoas nos domicílios, quando possível. As pessoas em domicílios coletivos foram incluídas na amostra, mas estas representavam 0,1% do total de idosos.

O questionário da PNAD incluiu questões sobre dificuldade funcional para pessoas de 14 anos ou mais. Estas questões foram propostas no seguinte formato - “Normalmente, por problema de saúde, você tem dificuldade para: 1. alimentar-se, tomar banho ou ir ao banheiro?; 2. correr, levantar peso, fazer esportes ou realizar trabalhos pesados?; 3. empurrar uma mesa ou fazer trabalho doméstico?; 4. subir escada?; 5. abaixar-se ou ajoelhar-se?; 6. caminhar mais de 1 km?; 7. caminhar cerca de 100 metros?”. As respostas incluíram as categorias ‘não consegue’, ‘tem grande dificuldade’, ‘tem pequena dificuldade’ ou ‘não tem dificuldade’.

É importante lembrar que a dificuldade funcional não é um atributo que está claramente presente ou ausente, mas muito mais uma questão de grau. Embora os formuladores de política gostem de classificar pessoas como portadoras de alguma deficiência ou não portadoras, na realidade um completo spectrum de limitações está presente, de leve a muito severa (PARAHYBA, 2003).

A dificuldade funcional é freqüentemente avaliada através de auto-declaração ou de necessidade de ajuda em tarefas básicas de cuidados pessoais (atividades básicas da vida

diária, ABVDs) e em tarefas mais complexas, necessárias para viver de forma independente

na comunidade (atividades instrumentais da vida diária, AIVD).

As ABVDs avaliam o grau mais severo de limitação do spectrum funcional e os idosos podem ter uma grande parte de declínio funcional sem apresentar limitações em relação à estas atividades, o que faz com que este indicador tenha limitada utilização na identificação de mudanças através do tempo e no impacto das intervenções. As AIVDs são consideradas mais complexas do que as tarefas no domínio do cuidado pessoal e incluem atividades como fazer compras, preparo de comida, trabalho doméstico, lavar roupas, utilizar transporte, tomar medicação, manusear dinheiro e o uso de telefone.

Em adição às ABVDs e AIVDs, uma ampla variedade de outras medidas de status funcional auto-declarado tem sido desenvolvidas. A avaliação de mobilidade tem sido considerada como uma parte importante da avaliação funcional. Mobilidade pode ser avaliada através de auto-declaração utilizando uma abordagem hierárquica, começando com tarefas simples de mobilidade tais como a transferência de uma cama até uma cadeira e progredindo através de caminhar curtas e longas distâncias, e subir escadas. Resultados utilizando as medidas de mobilidade têm provado sua importância no estudo da relação do status funcional com características demográficas e condições crônicas, comportamentos relacionados à saúde, mudança de peso, e osteoartrite (GURALNIK, 1997).

A dificuldade em mobilidade é freqüentemente uma manifestação inicial do processo de dificuldade funcional e é altamente preditiva do processo de progressão da disfuncionalidade. LAN et al. (2002) relataram que 90% ou mais das mulheres com dificuldade funcional, entrevistadas em dois estudos – Women’s Health and Aging Study

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(FRIED et al., 1999) e 1984 Supplement on Aging (NCHS, 1987), reportaram problemas com mobilidade.

Neste estudo, as medidas de dificuldade funcional moderada (‘dificuldade para caminhar cerca de 100 metros’) e leve (‘dificuldade para caminhar mais de 1 quilômetro’), ambas medidas de mobilidade, apresentaram, também, prevalência mais elevada em mulheres. Entretanto, a escolha do indicador de dificuldade funcional recaiu sobre a variável ‘dificuldade para caminhar cerca de 100 m’, tendo em vista que os estudos vêm apontando as medidas de mobilidade física, principalmente àquelas relacionadas à médias distâncias, como uma boa marca prognóstica do processo de falência em pessoas idosas (GURALNIK et al., 1995; LAN et al., 2002). A medida de dificuldade funcional severa (‘dificuldade para alimentar-se, tomar banho ou ir ao toalete’) tem sido apontada como um indicador de um estágio muito adiantado do processo, pouco útil quando se pensa em prevenção e intervenção (GURALNIK, 1997), e a medida de dificuldade funcional leve como sendo mais adequada para avaliação de padrões de envelhecimento ativo (STRAWBRIDGE et al., 1996).

A renda familiar mensal per capita - expressa em percentis de renda - foi o total da renda familiar no mês que precedeu a entrevista dividido pelo número de pessoas na família, ponderado pela escala de eqüivalência utilizada. A utilização da escala de eqüivalência deveu-se ao pressuposto de que as necessidades das pessoas como membros da família não são as mesmas e existem economias de escalas no consumo familiar. Assumiu-se que as crianças necessitam de um montante menor para satisfazer as mesmas necessidades, como por exemplo, de alimentação e de vestuário. As escalas de eqüivalência são índices que mostram o custo de vida relativo entre famílias de diferentes tamanhos e composição. A escolha recaiu sobre a escala proposta pela Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico, denominada ‘OECD modificada’, onde se atribui o valor 1 para o chefe do domicílio, 0,5 para cada adulto adicional e 0,3 para cada filho menor de 14 anos (CEPAL, 1999).

A educação foi acessada em anos de escolaridade e, das 28 943 pessoas incluídas na amostra, foram excluídas da análise (missing values): 14 em educação e 1161 na renda familiar.

Os micro-dados da PNAD 1998, em CD-ROM, foram processados e analisados em

SPSS v.10. A análise estatística utilizou as informações da amostra, e não as expandidas

através do peso da pessoa, pois o tamanho e a auto-representatividade da amostra fizeram com que as diferenças das estimativas, ponderadas e não ponderadas, fossem inexpressivas. Além disso, foram realizados testes utilizando as informações do Censo Demográfico de 2000 e os resultados, segundo o sexo e a idade, foram muito similares àqueles obtidos com a amostra.

O procedimento de regressão logística foi utilizado para a construção de um modelo, com a dificuldade para caminhar cerca de 100 metros como a variável dependente, e as variáveis de renda familiar, idade, educação, região de residência e residência rural/urbana como covariáveis. O modelo logístico mostrou o odds “multivariado” ajustado para todas as demais variáveis incluídas no estudo. Idade, região de residência, residência urbano/rural e educação foram tratadas como variáveis de “confundimento”, e os resultados são apresentados para homens e mulheres, separadamente.

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Resultados

A Figura 1 mostra a prevalência de dificuldade para caminhar cerca de 100 m em idosos, segundo o sexo e os grupos de idade. Diferenças de gênero entre os idosos brasileiros são importantes, e as mulheres reportam maior dificuldade do que os homens, o que também ocorre em outros países (as taxas de prevalência de dificuldade funcional são de 18,9% para os homens idosos e de 24,9% para as mulheres).

Os estudos têm mostrado que as mulheres não desenvolvem dificuldades funcionais com maior freqüência do que os homens, mas sobrevivem mais tempo do que eles com as suas limitações. Este fato pode ser explicado, segundo GURALNIK et al. (1997), pelo menos em parte, devido às diferenças nas doenças associadas aos homens e às mulheres que relatam dificuldades funcionais. Intervenções que podem reduzir a carga de dificuldade funcional na população idosa estão sendo exploradas e torna-se extremamente importante desenvolver novas estratégias de prevenção e tratamento que amenizem as conseqüências funcionais das doenças crônicas na população de mulheres que vive, cada mais, até idades mais avançadas. Observa-se, também, o caráter progressivo da dificuldade funcional entre os idosos em relação ao aumento da idade.

FIGURA 1

Fonte: Tabulações especiais da PNAD 1998/COPIS/IBGE

Prevalência de dificuldade para caminhar cerca de 100 m em idosos, segundo o grupo de idade e sexo

0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 60-64 65-69 70-74 75-79 80-84 85+ grupos de idade % Homens Mulheres

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À medida em que a idade aumenta, cresce significativamente a proporção de idosos com algum tipo de dificuldade, mas os dados mostram que a dificuldade funcional, qualquer que seja o tipo, não é um resultado inevitável do envelhecimento per se. Seja em relação às atividades básicas (ABVDs), às atividades da vida cotidiana (AIVDs), ou às atividades relacionadas à mobilidade, verifica-se a existência de um grupo de idosos, mesmo entre aqueles de idade mais avançada, que não relataram dificuldade em realizar as tarefas.

FIGURA 2

Fonte: Tabulações especiais da PNAD 1998/COPIS/IBGE

A Figura 2 mostra os diferenciais nas taxas de prevalência de dificuldade funcional, entre os idosos, quando considerados os percentis de renda familiar per capita. Os percentis de renda familiar foram elaborados de forma a permitir a avaliação do comportamento das taxas de prevalência de dificuldade funcional entre os idosos nos grupos de renda mais alta, supondo que as diferenças tendessem à diminuir, ou até mesmo desaparecer, entre os idosos nestes grupos. Entretanto, não é isto o que mostra a Figura 2. A prevalência de dificuldade para caminhar cerca de 100 metros, para os idosos abaixo da mediana de renda familiar per

capita, é de 23,2% entre os homens (95%IC 21,0-25,4) e 34,5% para as mulheres (95%IC

32,7-36,3), decrescendo no grupo de idosos mais ricos (percentil 90) para 9,9% (95%IC 4,7-15,1) e 18,1% (95%IC 13,6-22,6), respectivamente.

Prevalência de dificuldade para caminhar cerca de 100 m em idosos, segundo o sexo e a renda familiar per capita (em percentis)

0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100

Renda familiar per capita em percentis

% Homens Mulheres Homens 23,2 16,8 15,4 15,8 9,9 Mulheres 34,5 27,9 25,3 23,3 18,1 até 50% +de 50% a 70% +de 70% a 80% +de 80% a 90% +de 90% a 100%

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Incluindo a idade na análise destas informações, as diferenças tornam-se ainda mais visíveis. A Tabela 1, abaixo, mostra a prevalência de dificuldade para caminhar 100 m em idosos, segundo a renda familiar per capita (em percentis), o sexo e os grupos de idade. Em todos os grupos de idade, as taxas de prevalência diminuem à medida em que a renda aumenta, tanto para os homens quanto para as mulheres.

TABELA 1

Prevalência de dificuldade para caminhar 100 m em idosos, segundo a renda familiar

per capita (em percentis), o sexo e os grupos de idade

Percentis de renda mensal familiar per capita

Grupo1* Grupo2* Grupo3* Grupo4* Grupo5*

*Grupo1 (até 50%); Grupo2 (+de 50% a 70%); Grupo3 (+de 70% a 80%); Grupo4 (+de 80% a 90%); Grupo5 (+de 90% a 100%)

Fonte: Tabulações especiais da PNAD 1998/COPIS/IBGE

Mesmo ente os mais idosos, acima de 80 anos, que por conta do envelhecimento progressivo estão sujeitos à suportar uma maior carga de declínio funcional, a renda aparece como uma condição importante para a redução de dificuldade funcional, pois observa-se uma redução expressiva nas taxas de prevalência nos grupos de renda familiar mais elevada. Desta forma, entre os idosos de 85 anos ou mais de idade, a prevalência de dificuldade funcional é de 53,1%, entre os homens, e de 72,0%, entre as mulheres, no grupo dos idosos mais pobres (percentil 50), decrescendo esta taxa para 39,2% e 48,3%, respectivamente, no grupo com renda mais alta (percentil 90).

Homens 60-64 65-69 70-74 75-79 80-84 85+ Mulheres 60-64 65-69 70-74 75-79 80-84 85+ 13,7 19,1 23,8 30,7 41,5 53,1 21,2 26,8 37,1 44,7 56,3 72,0 10,6 14,5 17,3 24,7 32,6 44,0 17,1 22,9 30,1 40,1 45,0 65,2 9,1 12,6 18,8 21,5 24,6 52,4 12,6 20,4 34,1 34,8 51,0 59,4 8,6 16,2 19,0 16,2 32,8 48,7 12,4 15,9 23,6 31,5 52,2 64,0 6,5 5,5 9,9 12,9 32,1 39,2 7,1 12,1 18,2 28,1 40,5 48,3

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TABELA 2

Prevalência e "odds ratios" (OR) ajustados para dificuldade de caminhar 100 m em idosos

O modelo de regressão logística, apresentado na Tabela 2, foi desenvolvido para explorar a importância da renda familiar para diminuição no risco de dificuldade funcional em homens e mulheres idosos, utilizando educação, idade, região de residência e residência rural/urbana como variáveis de confundimento.

Os motivos para assumir estas variáveis como controles foram: i) educação e renda são variáveis correlacionadas e um coeficiente de correlação de Pearson de 0.48 e de 0,46

Prevalência para dificuldade de caminhar

(%) ORa Multivariado

Indicadores Homens Mulheres Homens Mulheres

Renda familiar per capita

Percentis: até 50% + de 50% a 70% + de 70% a 80% + de 80% a 90% + de 90% a 95% + de 95% a 100% Região Nordeste Norte Sudeste Sul Centro-Oeste Situação de domicílio Urbano Rural

Educação (em anos)

Analfabetos 1 a 3 4 a 7 8 ou mais Grupos de idade 60-64 65-69 70-74 75-79 80-84 85+ 23.2 16.8 15.4 15.8 12.1 8.0 18.7 23.2 19.6 17.0 17.7 19.6 16.3 23.6 18.3 16.4 12.7 11.1 15.7 20.1 25.9 37.4 50.0 34.5 27.9 25.3 23.3 19.5 16.5 31.9 32.1 28.9 25.8 25.5 29.9 27.0 37.8 27.4 23.7 16.7 17.1 22.8 32.1 39.6 51.9 66.3 1 0.68 (0.59-0.76)* 0.60 (0.50-0.71)* 0.62 (0.51-0.74)* 0.43 (0.33-0.57)* 0.28 (0.21-0.39)* 1 1.34 (1.10-1.64)* 1.39 (1.23-1.57)* 1.17 (1.01-1.36)* 1.18 (0.99-1.42) 1 0.62 (0.55-0.70)* 1 0.83 (0.73-0.94)* 0.81 (0.71-0.93)* 0.82 (0.68-0.99)* 1 1.45 (1.27-1.67)* 1.96 (1.69-2.26)* 2.67 (2.29-3.13)* 4.46 (3.73-5.34)* 7.68 (6.25-9.44)* 1 0.80 (0.72-0.88)* 0.77 (0.67-0.88)* 0.69 (0.60-0.79)* 0.56 (0.45-0.68)* 0.50 (0.40-0.62)* 1 1.00 (0.85-1.18) 1.05 (0.96-1.15) 0.94 (0.84-1.01) 1.0 (0.86-1.17) 1 0.65 (0.58-0.72)* 1 0.74 (0.67-0.81)* 0.63 (0.56-0.69)* 0.46 (0.40-0.54)* 1 1.39 (1.25-1.55)* 2.20 (1.97-2.45)* 3.05 (2.71-3.45)* 4.85 (4.22-5.57)* 8.97 (7.60-10.57)* a

Ajustado para todas as variáveis na tabela * Estatisticamente significativo para p<0.05 Fonte: Tabulações especiais da PNAD 1998/COPIS/IBGE

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(nível de significância=0,01), para homens e mulheres, respectivamente, mostra que cerca de 25% da variação na renda é explicada pela educação; ii) a progressão da idade é um componente intrínseco do próprio processo de envelhecimento e do declínio funcional em idosos, o que é evidenciado pelo aumento expressivo do risco de dificuldade funcional à medida em que a idade aumenta, 7.68 entre os homens (95%IC 6.25-9.44) e 8.97 para as mulheres (95%IC 7.60-10.57) de 85 anos ou mais. iii) os diferenciais de renda são elevados entre as cinco regiões no Brasil, bem como o rendimento auferido nas áreas urbanas e rurais.

Após o ajuste para todas as variáveis, embora menor entre as mulheres do que entre os homens2, a diminuição do risco de dificuldade funcional é expressiva entre os idosos nos grupos de renda mais alta, evidenciando a associação entre baixa renda e aumento no risco de dificuldade funcional, associação esta já relatada nos estudos sobre diferenças socioeconômicas na prevalência de dificuldade funcional entre os idosos. Desta forma, observa-se que, comparando os homens idosos situados abaixo da mediana da renda familiar com aqueles situados no grupo de renda familiar per capita acima (percentil 50-70), o odds

ratio para dificuldade funcional é de 0.68 (95%IC 0.59-0.76), decrescendo para 0.28 (95%IC

0.21-0.39) entre aqueles no grupo de renda mais elevada, ou seja, no grupo dos idosos 5% mais ricos. Entre as mulheres estas razões foram de 0.80 (95%IC 0.72-0.88) e de 0.50 (95%IC 0.40-0.62), respectivamente.

O que chama a atenção no caso dos idosos brasileiros é a magnitude desta associação e o fato de que, mesmo entre os idosos nos percentis de renda mais alta, parece não haver um valor de renda a partir do qual as taxas de prevalência de dificuldade funcional se mantenham estáveis, deixando a renda de ser um importante fator para diminuição de risco de dificuldade funcional.

O Brasil tem uma das piores distribuições de renda do planeta e, como mostra a

Figura 3, os valores mais elevados da renda familiar per capita dos idosos, bem como a da

população como um todo, estão concentrados no topo da distribuição da renda.

2

Estudo anterior sobre a associação entre fatores sociodemográficos e dificuldade funcional em idosos mostrou evidência de que a educação é um fator de risco mais forte em mulheres e a renda um indicador mais expressivo

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FIGURA 3

Fonte: Tabulações especiais da PNAD 1998/COPIS/IBGE

Embora com intervalos de confiança cada vez mais amplos, foi elaborado um novo modelo de regressão logística com a variável de renda familiar per capita mais desagregada. Comparando o odds ratio para dificuldade funcional no grupo dos idosos dos 4% mais ricos (percentil 95 a 99) com o do grupo do percentil 99 (1% mais ricos), nota-se que o risco se mantém estável (p<0.05): entre os homens o odds ratio é de 0.29 (95%IC 0.20-0.41) e de 0.26 (95%IC 0.14-0.52), respectivamente; entre as mulheres o odds ratio é de 0.48 (95%IC 0.38-0.62) e de 0.56 (95%IC 0.34-0.92), respectivamente.

Portanto, há sugestão nos dados indicando que a renda deixa de ser um fator de risco para dificuldade funcional entre os idosos com uma renda familiar per capita a partir de 14 salários mínimos (valor de Setembro de 1998, ano de realização da pesquisa), o que afeta 4,8% da população total de idosos. Para os demais, principalmente em relação aos homens, pois nas mulheres a educação parece ter um efeito independente sobre a dificuldade funcional mais importante do que o da renda, reduzir ou não o risco de declínio funcional dependerá, em grande medida, da renda da família.

Mediana da renda familiar per capita dos idosos no Brasil, em salários mínimos, segundo os percentis de renda

0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50

Renda familiar per capita em percentis

salários mínimos em valores de Setembro de 1998

Homens Mulheres Homens 1,10 2,31 6,06 10,26 18,63 18,63 44,81 Mulheres 1,00 3,74 6,09 10,26 18,90 18,90 43,85 até 50% +de 50% a 70% +de 70% a 80% +de 80% a 90% +de 90% a 95% +de 95% a 99% +de 99% a 100%

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Considerações finais

O aumento da expectativa de vida adulta e o número cada vez maior de pessoas sobrevivendo com idade avançada é um fenômeno global, afetando os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento. A chave para compreender e responder ao processo de envelhecimento populacional é a informação sobre a dificuldade funcional em pessoas idosas, já que esta traz poderosos efeitos sobre o bem-estar dos indivíduos, a necessidade de ajuda informal e de assistência de saúde, e a necessidade de cuidados de longo prazo e os custos envolvidos neste processo.

Estudos anteriores mostraram que as disparidades socieconômicas, no Brasil especialmente as de renda e de educação, aparecem como importantes fatores para explicar as diferenças no risco de dificuldade funcional entre os idosos.

Nos países desenvolvidos há evidência de uma gradual redução nas taxas de prevalência de dificuldade funcional entre os idosos nas décadas recentes. As causas apontadas para este declínio são multifatoriais: i) melhoria da tecnologia médica; ii) mudanças comportamentais; iii) desenvolvimento de aparelhagem específica para pessoas com problemas de saúde; iv) melhoria do status socioeconômico e, v) mudanças no padrão epidemiológico da população, com diminuição substantiva das doenças infecciosas, que muitas vezes ocorriam na infância e determinavam limitações e dificuldades funcionais na fase adulta da vida do indivíduo (CUTLER, 2001).

Muitas destas condições ainda estão longe de acontecer para a maioria da população no Brasil, e a questão do desenvolvimento da funcionalidade entre os idosos ocorre dentro de um contexto de instituições frágeis, pobreza, desigualdade social e processo de envelhecimento acelerado. Nos países desenvolvidos, o processo de envelhecimento ocorreu depois que eles alcançaram altos padrões de vida, reduzidas desigualdades sociais e implementaram mecanismos compensatórios para minimizar desigualdades residuais, como por exemplo, em relação ao acesso a serviços de saúde e aos programas assistenciais.

Aqui, ocorreu justo o contrário: o processo de envelhecimento se deu dentro de um cenário econômico de fragilidade, aumento dos níveis de pobreza da população, expansão em vez de retração das desigualdades sociais, e contração em vez da expansão do acesso aos recursos e aos serviços financiados coletivamente.

Para muitos dos 16 milhões de idosos de idosos brasileiros o declínio funcional vêm ocorrendo num contexto de pobreza e de extrema desigualdade social. Reduzir a carga de dificuldade funcional da população idosa no Brasil requer redução nas desigualdades de renda e melhoria nas condições de suporte institucional.

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Referências

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