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Casas cristãs da Taluka de Salsete : Goa

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Academic year: 2021

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Departamento de Ciências e Técnicas do Património

Casas Cristãs da Taluka de Salsete - Goa

Volume I

Lígia Maria Filipe Santos Sampaio

Dissertação de Mestrado em História da Arte Portuguesa, orientada pelo Professor Doutor Manuel Joaquim Moreira da Rocha.

Porto 2011

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1 Casas Cristãs da Taluka de Salsete - Goa

Agradecimentos

Agradeço ao Professor Doutor Manuel Joaquim Moreira da Rocha, pela orientação rigorosa, autêntica, entusiasta e inspiradora que me dispensou ao longo deste trabalho. Reconheço e agradeço também a confiança, os conselhos e os incentivos que me transmi-tiu.

Na impossibilidade de agradecer a todos, expresso os meus agradecimentos aos meus colegas e amigos que me apoiaram ao longo deste trabalho.

Aos funcionários das Bibliotecas, que percorri, durante esta investigação, em especial à Biblioteca Municipal do Porto, à Biblioteca Almeida Garrett e à Biblioteca da FLUP.

Às minhas colegas de trabalho, Lídia Meireles e Sara Azevedo, que muito contribuí-ram com a sua amizade, maturidade e entusiasmo, para a minha serenidade no decorrer deste trabalho. Também o meu muito obrigada à Carla Alves e ao Pedro Loureiro, pela disponibilidade com que me apoiaram. À Helena Almeida agradeço e reconheço o apoio que me concedeu. À Susana Machado os meus sinceros agradecimentos, pelos seus con-selhos, sugestões e pela dedicação que sempre me devotou ao longo deste meu trabalho.

Às minhas companheiras de viagem, Maria Amélia e Teresa Tellechea, a quem agra-deço toda a amizade e cooperação com que me acarinharam durante aquele período de viagem e permanência em Goa, na Índia.

À Carmita Noronha e ao filho Óscar Noronha Sequeira Nazarth, por me terem recebi-do em Goa como se fosse da família, e me fazerem sentir como se estivesse em casa. Ao Óscar Nazarth, a minha gratidão por me ter acompanhado por sua iniciativa em todas as visitas que efectuei às casas da taluka de Salsete. Devo-lhe grande parte da acessibilidade e facilidade com que os proprietários das casas que visitei me abriram as portas, agrade-ço-lhe também por me ter tirado as fotografias com todo o seu empenho e profissionalis-mo.

À Mónica Reis, pela sua constante disponibilidade em me facilitar informações pre-ciosas sobre a viagem a Goa, agradeço-lhe a recomendação do excelente motorista Luís Fernandes que me garantiu todas as minhas deslocações enquanto lá permaneci.

À minha tia Maria da Graça, por me ter proporcionado momentos de profunda tranqui-lidade durante um período em que estive a preparar parte deste trabalho.

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2 Casas Cristãs da Taluka de Salsete - Goa

À minha colega Sofia Vechina, que me acompanhou no decorrer do mestrado, quero agradecer a amizade e todos os conselhos, sugestões e ajudas que me prestou ao longo deste trabalho.

O meu agradecimento às famílias goesas pela atenção e simpatia com que me recebe-ram.

A minha maior gratidão é dirigida à minha família, à minha cunhada Marta Sampaio que sempre me apoiou e em especial ao meu pai que sempre me auxiliou de forma incon-dicional.

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3 Casas Cristãs da Taluka de Salsete - Goa

Resumo

O presente trabalho tem por tema o estudo das “Casas Cristãs da Taluka de Salsete”. Consiste na investigação das residências de arquitectura indo-portuguesa circunscritas à

taluka de Salsete em Goa na Índia. O universo desta pesquisa prende-se a um inventário por nós definido, englobando sessenta e nove casas cristãs visitadas, tendo sido apurado um conjunto de dezasseis casas sobrado e cinquenta e três casas pátio. As casas indo-portuguesas, objectivo deste estudo, inserem-se num período compreendido entre o final século XVII ao século XIX, cujos proprietários são as elites autóctones, os brâmanes e os chardós convertidos ao cristianismo, a quem os portugueses reconheceram direitos e inte-graram na administração do império.

Abordamos de forma genérica os principais acontecimentos marcantes do Estado Por-tuguês da Índia, de forma a facilitar a contextualização do cenário histórico e focamo-nos em evidenciar as interinfluências estéticas entre os costumes enraizados na tradição hindu e a cultura portuguesa travada durante 450 anos. Desenvolvemos de uma forma aprofun-dada uma análise dos aspectos similares e divergentes entre a casa cristã de Salsete e a casa nobre portuguesa.

Área Disciplinar

História da Arte / Arquitectura

Palavras-chave

Arquitectura Indo-Portuguesa / Casa sobrado / Casa pátio / Casa nobre portuguesa / Goa / Salsete / Cristianismo / Brâmanes e Chardós.

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4 Casas Cristãs da Taluka de Salsete - Goa

Abstract

The present work regards the study of ‘Taluka of Salsete’s Christian Houses’. It con-sists in the Indo-Portuguese architecture residences investigation, circumscribed to Sal-sete’s taluka in Goa, India. The focus of the research is an inventory by us defined which include sixty nine visited Christian houses, sixteen of these being townhouses and fifty three being patio homes. The Indo-Portuguese houses, the object of this study, relate to a period between the end of the seventeenth century and the nineteenth century, owned by the local elite, Brahmins and Chards converted to Christianity, to whom the Portuguese had granted rights and had integrated in the Empire’s administration.

Generically, we’ve approached the main events of the Portuguese State in India to fa-cilitate the historical scenario context and focused on highlighting the interconnecting aesthetics influences between the Hindu tradition’s based customs and the Portuguese culture held for 450 years. An in depth analysis was made regarding the similar and di-verging aspect of the Salsete’s Christian house and the Portuguese nobleman’s house.

Disciplinary area: Art History / Architecture

Keywords:

Indo-Portuguese Architecture / Townhouse / Patio home / Portuguese nobleman’s house / Goa / Salsete / Christianity / Brahmins and Chards.

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5 Casas Cristãs da Taluka de Salsete - Goa

Volume I

Sumário

Lista de Abreviaturas e Siglas ... 9

Introdução ... 10

O Estado da Arte... 13

1. Cenário Histórico-Geográfico da Presença Portuguesa em Goa ... 24

1.1. Contextualização das Condições do Território de Goa na Fixação dos Portugue-ses ... 24

1.2. Marcas do Estado Português da Índia ... 28

1.3. A Importância de Goa Enquanto Capital do Estado da Índia ... 30

1.4. O Abandono de Velha Goa e a Ida para Panjim ... 31

1.5. A Sociedade Civil de Goa e a Conversão ao Catolicismo dos Brâmanes e Char-dós ... 34

2. A Arquitectura Doméstica dos Cristãos da Taluka de Salsete - Goa ... 38

2.1. Referências às Primeiras Construções Habitacionais dos Portugueses em Goa38 2.2. Taluka de Salsete: Algumas Notas ... 40

2.3. A Caracterização Morfológica das Casas Cristãs das Elites de Salsete ... 44

2.3.1. Muros e Portões de Entrada ... 44

2.3.2. A Fachada ... 45

2.3.2.1. Alpendres ... 49

2.3.2.3. Janelas ... 52

2.3.3. Elementos que Nobilitam a Fachada ... 55

2.3.3.1. Frontões ... 55

2.3.3.2. Portas e Brasões ... 55

2.3.3.3. Colunas e Pilastras... 56

2.4. O Oratório e a Capela Privada ... 58

2.4.1. O Oratório e a Capela nas Casas da Taluka de Salsete ... 58

2.4.2. O Interior dos Oratórios e das Capelas ... 64

2.4.3. Temas e Invocações ... 65

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6 Casas Cristãs da Taluka de Salsete - Goa

2.4.4. Elementos Estruturais e Decorativos ... 68

2.4.4.1. Tipos de Oratórios ... 68

2.4.4.2. Trono ... 71

2.4.4.3. Colunas ... 71

2.4.4.4. Peanhas ... 73

2.4.4.5. Coroamento ... 74

2.5. A Casa Sobrado e a Casa Pátio ... 76

2.5.1. O Enquadramento Histórico destas Tipologias de Habitação ... 76

2.5.2. Os Pátios das Casas Pátio e das Casas Sobrado ... 79

2.5.3. As Casas Cristãs Sobradadas ... 81

2.5.4. As Casas Pátio Cristãs ... 83

2.6. Os Aspectos Similares e Divergentes entre a Casa Cristã de Salsete e a Casa Nobre Portuguesa ... 84

3. Conclusão ... 89

Glossário ... 91

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7 Casas Cristãs da Taluka de Salsete - Goa

Volume II

APÊNDICES

Apêndice A ... 5

Tabelas de Identificação e Imagens das Casas da taluka de Salsete em Goa Tipologia de Casa Sobrado ... 7

Tipologia de Casa Pátio ... 17

Apèndice B ... 39

Elementos de Nobilitação e Decorativos da Fachada Portões de entrada ... 41

Alpendres ... 42

Janelas de carepas dos alpendres ... 45

Janelas de peitoril e de sacada ... 46

Colunas ... 49

Frontões ... 50

Brasões ... 51

Apêndice C ... 53

Oratórios e Capelas em Goa na taluka de Salsete Tabelas de Identificação dos Oratórios e Capelas ... 55

Oratórios de Pousar ... 57 Oratórios de Parede ... 72 Oratórios-Altar ... 74 Capelas ... 84 Imagens devocionais ... 87 Estampas ... 90 Baldaquinos ... 91 Monogramas ... 92

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8 Casas Cristãs da Taluka de Salsete - Goa

Apêndice D ... 93 Imagens de Pátios Pátios fechados ... 95 Pátio em L ... 101 Pátio em U ... 101 Apêndice E ... 103

Seminários Internacionais de história Indo-Portuguesa ... 105

Apêndice F ... 107

Gráfico sobre o Estado de Conservação das casas ... 109

Apêndice G ... 111

Fichas individuais do Inquérito ao Edificado em Goa na taluka de Salsete Tipologia de Casa Sobrado - 17 fichas ... 113

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9 Casas Cristãs da Taluka de Salsete - Goa

Lista de abreviaturas e siglas

A.A.V.V. Vários autores

CNCDP Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses.

c/ com

coord. coordenação

dir. direcção

ed. edição

E.P.I. Estado Português da Índia

f. folha

F.A.U.P. Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto F.B.A.U.P. Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto F.L.U.P. Faculdade de Letras da Universidade do Porto

fasc. Fascículos

ff. folhas

fig. figura

figs. figuras

ISBN International Standard Book Number

Lda. Limitada n.º número n.os números n/s. não sabe obs. observações org. organização p. página pp. páginas s/ sem s/d. sem data

s.l. sem local de edição

sep. separata

vol. volume

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10 Casas Cristãs da Taluka de Salsete - Goa

Introdução

O tema escolhido Casas Cristãs da taluka de Salsete, retrata as residências de arqui-tectura indo-portuguesa, edificadas entre o século XVII e o século XIX tendo como pro-prietários Brâmanes e Chardós convertidos ao cristianismo, a quem os portugueses reco-nheceram direitos, integraram e atribuíram altos cargos no Estado da Índia. Os Brâmanes e os Chardós difundem nas suas casas, por vezes palácios, influências estéticas portugue-sas em associação com a tradição hindu, expressando a convivência travada. Estas caportugue-sas encontram-se dispersas pelas várias talukas de Goa, contudo é em Bardez e Salsete, que se verifica o maior número deste tipo de edificações. Optamos por circunscrever a nossa investigação à taluka de Salsete, localidade que faz parte das regiões das Velhas Conquis-tas, tendo sido adquirida em 1543, compreendendo cidades e várias aldeias, destacando-se Margão, a cidade destacando-sede do distrito de Goa Sul, onde estão situados alguns monumentos antigos, e várias casas apalaçadas de estilo colonial.

Estas casas são, normalmente, propriedade da mesma família durante várias gerações, no entanto, deparamo-nos com algumas dificuldades, por não existirem documentos que nos indiquem quem foram os autores dos projectos e também por não existirem provas que nos forneçam as datas concretas dessas construções.

O objectivo do nosso estudo são as casas indo-portuguesesas, pelo que focamos a nos-sa investigação na contextualização e na divulgação de um conjunto de sessenta e nove casas cristãs da taluka de Salsete, em Goa, na Índia, com um interesse particular para as áreas disciplinares da História da Arte e da Arquitectura. Pretendemos, acima de tudo, analisar os aspectos similares e divergentes entre a casa cristã das elites de Salsete e a casa nobre portuguesa.

A metodologia adoptada numa primeira fase consistiu numa pesquisa em torno da Arte Indo-Portuguesa e de bibliografia específica sobre o império português da Índia, focando o Estado de Goa, com a intenção de compreendermos o Estado da Arte. Seguiu-se um estudo aprofundado sobre as condições históricas, sociais, artísticas e arquitectónicas. Adaptamos o método de abordagem que nos pareceu mais adequado, procedendo-se à leitura de várias obras com a finalidade de se reunirem informações necessárias ao desen-volvimento do trabalho compiladas em fichas de leitura. No decorrer da pesquisa, e com a intenção de adquirirmos conhecimentos específicos sobre a Arte Indo-Portuguesa, con-sideramos necessária a frequência de eventos que nos levassem a enriquecer a nossa

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11 Casas Cristãs da Taluka de Salsete - Goa

investigação, e com esse propósito frequentámos cursos1, colóquios e assistimos a confe-rências e a workshops. Após esta fase, preparámos a nossa viagem e trabalhámos na ela-boração de uma lista de cinquenta potenciais casas, que seriam o nosso ponto de partida e que poderíamos ir visitar, restritas à taluka de Salsete. A circunscrição exacta de uma só

taluka, deve-se à importância de termos conhecimento de aí estarem localizadas várias residências cristãs de estilo colonial e também, como um ponto de segurança face aos nossos objectivos concretos de visitarmos casas sem desperdiçarmos tempo em acessibi-lidades, por vezes difíceis. Antes da nossa partida combinámos com um motorista goês para nos acompanhar durante todo aquele período de estadia em Goa.

Demos início ao trabalho de campo, visitámos um conjunto de sessenta e nove casas cristãs, entre Março e Abril do ano 2011, com permanência em Goa, na Índia, sendo este o universo da nossa pesquisa. Tivemos contacto com sessenta e seis famílias cristãs pro-prietárias e por vezes, com representantes dessas famílias. Pedimos autorização para reu-nir alguns dados de identificação das casas e das famílias e preenchemos uma ficha, rela-tiva a dados exteriores e interiores das habitações que designámos de “Inquérito ao

Edifi-cado”. Solicitamos também permissão para fotografar o interior, nomeadamente o orató-rio, o salão da casa e o pátio, do qual obtivemos licença na grande maioria das residên-cias. Por razões diversas, em alguns casos, não foi possível visitar o oratório. Apuramos um conjunto de dezasseis casas sobrado, e cinquenta e três casas pátio.

Numa segunda fase, iniciámos o trabalho de gabinete, tendo-nos debruçado no estudo da arquitectura doméstica, mais precisamente na caracterização das casas cristãs que visi-tamos durante a nossa permanência em Goa e detivemo-nos na sua análise e no cruza-mento com as casas nobres portuguesas.

A presente dissertação está ordenada em dois volumes. No primeiro volume iniciamos com uma análise do “Estado da Arte” e apresentamos o texto resultante da investigação e a subsequente análise. Organizamos o trabalho em duas partes. Na primeira parte incidi-mos no cenário histórico-geográfico da presença portuguesa em Goa e destacaincidi-mos a

1 Frequentamos o curso “Arquitectura e Arte Indo-Portuguesas” ministrado pelo Professor Paulo Varela Gomes, que teve lugar no Museu do Oriente em Lisboa, realizado em seis sessões, entre os meses de Feve-reiro e Maio de 2010, totalizando dezoito horas. Frequentamos também o Colóquio que foi efectuado em Oeiras no dia 1 de Maio de 2010 intitulado “O Estado Português da Índia – Aspectos Artísticos” sob a coordenação de José Meco e Joaquim Boiça. Entre os dias 23 a 26 de Outubro de 2010, frequentamos na Universidade de Coimbra a II Reunião Internacional “Património Mundial de Origem Portuguesa – WHPO” e assistimos às conferências e ao workshop “Património de Influência Portuguesa: política e ética de memória”, organizado pela Universidade de Coimbra e pela Comissão Nacional Portuguesa da UNESCO, pelo Ministério da Cultura de Portugal, pelo ICOMOS Portugal e pelo Turismo de Portugal.

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12 Casas Cristãs da Taluka de Salsete - Goa

textualização das condições que permitiram a fixação dos portugueses, realçando as mar-cas que os lusitanos operaram na Índia e a importância de Goa enquanto capital do Estado da Índia. Para terminar a primeira parte, explicamos a constituição da sociedade civil de Goa e incidimos nos brâmanes e nos chardós, por serem os proprietários das casas que analisamos. Na segunda parte, fizemos uma referência às primeiras construções residên-cias dos portugueses em Goa, com base nas descrições dos viajantes e historiadores. Também descrevemos a taluka de Salsete e caracterizámos a morfologia das casas cristãs, incidindo no assunto da fachada, dos oratórios e da terminologia e classificação das casas sobrado e das casas pátio, tendo-nos debruçado na comparação com a casa nobre portu-guesa.

No segundo volume apresentamos o Apêndice Fotográfico, relativo às imagens das tipologias de arquitectura, a casa sobrado e a casa pátio, as quais surgem expostas em tabelas, organizadas alfabeticamente, em primeiro lugar pelas terras da taluka de Salsete e posteriormente pelo nome dos proprietários das casas. Demos um especial destaque ao levantamento fotográfico das casas indo-portuguesas, aos pormenores da fachada, aos portões de entrada, aos alpendres e às janelas de carepas, às janelas de peitoril e de saca-da, às colunas, aos frontões, aos brasões, às capelas privadas, aos vários tipos de orató-rios, às imagens devocionais, às estampas, aos baldaquinos e aos monogramas patentes nesses oratórios e capelas. Também apresentamos um apêndice fotográfico dos pátios, expomos uma informação em tabela sobre os vários seminários internacionais de história indo-portuguesa, mostramos um gráfico sobre o “Estado de conservação das casas” e terminamos com o levantamento levado a cabo durante a permanência em Goa, o

“Inqué-rito ao Edificado”.

Informamos que as fotografias e os mapas apresentados, que não indicam a fonte são da responsabilidade do autor.

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13 Casas Cristãs da Taluka de Salsete - Goa

O Estado da Arte

São vários os autores portugueses e estrangeiros que abordam o conceito da Arte Indo-Portuguesa, neste contexto focamo-nos em diversas obras e constatamos que a arquitectu-ra religiosa é o principal alvo desses tarquitectu-rabalhos, encontarquitectu-ramos algumas obarquitectu-ras sobre arqui-tectura militar e estudos sobre as artes decorativas e em menor escala surgem trabalhos sobre a arquitectura civil, propósito do nosso estudo. O objecto da nossa atenção, análise e reflexão foi direccionado para as obras gerais sobre Goa, as teses e dissertações sobre o Estado Português da Índia, a catálogos de exposições de carácter histórico entre Portugal e Índia, a periódicos que retratam aspectos do E.P.I. e a seminários e colóquios sobre a História Indo-Portuguesa.

Ainda que seja tão diversa a natureza de assuntos que vemos expostos nas obras que consultamos, optamos por apresentar aqui, sumariamente o conteúdo de algumas obras de carácter relevante, sobretudo temas abordados sobre a arquitectura doméstica e os aspectos relacionados com o conceito de arte indo-portuguesa e também, por vezes, evidenciamos alguns elementos sobre arquitectura religiosa e algumas observações que nos pareceram importantes para o desenvolvimento deste trabalho. Este capítulo “Estado da Arte” consta de um levantamennto efectuado entre Outubro de 2010 a Janeiro de 2011. Foi no âmbito das celebrações dos 500 anos da descoberta do caminho marítimo para a Índia que surgiram diversas obras e exposições que evocaram o relacionamento entre o Ocidente e o Oriente, entre Portugal e a Índia e a arte Indo-portuguesa, com publicações apoiadas na sua grande maioria pela Comissão Nacional para as Comemorações dos Des-cobrimentos Portugueses.

São as descrições dos viajantes e por vezes os testemunhos gráficos que nos denun-ciam a época esplendorosa dos portugueses, assim mencionamos os famosos viajantes, Jan Huygen Van de Linschoten2 que viveu em Goa no século XVI e François de Laval Pyrard3, no século XVII.

2 De origem holandesa, viveu em Goa de 1583 a 1588, tendo sido secretário particular do arcebispo D. Vicente da Fonseca. Através do contacto diário que estabeleceu em Goa com os portugueses e os autóctones, recolheu diversas informações e gravuras, as quais expôs na sua obra, o Itinerário, publicado em Amesterdão em 1596. Também constam 36 gravuras coloridas que faziam parte da versão original presente na Biblioteca Real de Haia e no Museu Marítimo em Roterdão. LINSCHOTEN, Jan Huygen Van – Itinerário, Viagem ou navegação de … (1ª edição 1596), edição de Arie Pos & Rui Loureiro. Lisboa, 1997.

3 PYRARD, François de Laval - Voyage de… Paris, 1679. Tradução de Cunha Rivara para língua portuguesa, Nova Goa, 1905.

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14 Casas Cristãs da Taluka de Salsete - Goa

Detectamos que nos últimos anos têm surgido vários trabalhos de historiadores, histo-riadores de arte e arquitectos, os quais evidenciam diversos estudos sobre Goa, necessá-rios para o nosso trabalho.

Mencionamos Gaspar Correia4 que no exercício da sua função de secretário do gover-nador Afonso de Albuquerque escreveu sobre a a actuação dos Portugueses no Oriente, em forma de lendas.

A primeira vez que temos conhecimento da utilização do termo “Indo-Portuguesa” foi no século XIX, mais precisamente em 1883, por parte de Francisco Marques de Sousa Viterbo5. Ainda no mesmo ano, Joaquim de Vasconcelos e Marques Gomes no âmbito da Exposição Distrital de Aveiro6, fazem referência à “Arte Indo-Portuguesa”.

Ao longo do século XIX, há outros autores que interpretam a arte indo-portuguesa, entre os quais mencionamos o arquitecto alemão Albrecht Haupt7 de formação filosófica

4 Apesar de sabermos pouco sobre a vida de Gaspar Correa, temos conhecimento que embarcou para a Índia em 1512 com Jorge de Melo Pereira e foi secretário do governador Afonso de Albuquerque até 1515. A sua obra consiste na transmissão de informações sobre a actuação dos Portugueses no Oriente. Está estruturada em lendas e cada “len-da”corresponde ao período de acção de um governador, desde o período da descoberta do caminho marítimo para a Índia até ao exercício da governação de Jorge Cabral em 1550, destacando o governo de vários vice-reis e governadores como D. Francisco de Almeida, Afonso de Albuquerque, Lopo Soares de de Albergaria, D. Diogo Lopes de Sequeira, D. Duarte de Meneses, D. Vasco da Gama, D. Henrique de Meneses, Lopo Vaz de Sampaio, Nuno da Cunha, D. Garcia de Noronha, D. Estevão da Gama, Martim Afonso de Sousa, D. João de Castro, Garcia de Sá até Jorge Cabral. CORREA, Gaspar – Lendas da Índia. Typographia da Academia Real das Sciencias, 1858.

5 Sousa Viterbo, o médico-historiador refere que durante todo o século XVI os portugueses tiveram o exclusivo domí-nio nos mares das Índias e Lisboa tendo-se tornado o império de todo o comércio oriental, também salienta que os estrangeiros só conhecem os portugueses pelas suas descobertas marítimas. “A notícia da descoberta da Índia

produzi-ra em Portugal um alvoroço extproduzi-raordinário”. Destaca como D. Manuel no século XVI se manifestou junto do papa. Realça o facto de os poetas da época descreverem com deslumbramento o aspecto que teria a então conhecida “Veneza

do Oriente”. Considera que daquela triunfal Lisboa do século XVI apenas restara a tradição eternizada nas narrativas dos historiadores, nos diários náuticos nos cantos dos poetas e nos arquivos, contudo encara como um testemunho notável a Torre de Belém. O monumento de influência oriental e com aspecto grandioso que remonta à audácia daquele período áureo dos portugueses. Garante que esta opinião é compartilhada por estrangeiros, viajantes e artistas. Sousa Viterbo refere que os marinheiros e os homens de armas eram aqueles que sentiam uma maior atracção pela Índia. Também os aventureiros e homens de tráfico, os artistas e os operários (em número reduzido). Informa que as fortale-zas levantadas pelos portugueses exigiam engenheiros para as delinear e operários para a construir, havendo assim em diversas cidades estaleiros e depósitos de armas que requeriam trabalhadores com experiência. Em relação à arquitectu-ra religiosa Farquitectu-rancisco Sousa Viterbo menciona que o cristianismo se expandiu e efectuou as suas conquistas, refere a apropriação da maior parte dos templos indianos. Menciona que se ergueram as igrejas católicas, e no entendimento de Sousa Viterbo influenciadas pelos padrões barrocos. A arte indiana por sua vez não parece ter causado a admiração por parte dos navegadores portugueses. Em face do conceito de arte indo-portuguesa, colocou a questão, se os objectos seriam realizados na Índia por artífices autóctones, ou seriam fabricados em Portugal com influência indiana, acabando por considerar ambas as hipóteses válidas. VITERBO, Francisco Marques Sousa – A Exposição D’ Arte Ornamental. Lisboa, Imprensa Nacional, 1883. pp. 35-44. Sousa Viterbo refere que Portugal no século XVI seria “infalivelmente,

um vasto e precioso museu oriental”. Menciona que os viajantes que passavam em Lisboa destacavam os estabeleci-mentos da Rua Nova, como uma rua fascinante, com produtos de arte oriental. Alude que as especiarias não eram os produtos exclusivos oriundos da Índia, havendo riquezas de toda a espécie. Refere a importância da notícia, que chega-va a Portugal através das naus vindas da Índia. Expõe um episódio pela parte do monarca português D. Manuel que por intermédio da embaixada de Tristão da Cunha, enviou ao papa Leão X um elefante e uma onça, «que tanta admiração

causou […] um e outro engenhosamente domesticados», D. Manuel mandava também notáveis espécies de fauna do oriente. VITERBO, Francisco Marques Sousa – O orientalismo em Portugal no século XVI. Imprensa Nacional, Lis-boa, 1893.

6 GOMES, Marques e VASCONCELOS, Joaquim de – Exposição Distrital de Aveiro em 1882. Aveiro, 1883. p. 12. 7 Arquitecto alemão (nasceu em 1852 e faleceu em 1932) com o objectivo de dar a conhecer ao povo alemão, a arte e as realizações artísticas portuguesas. «Assistimos assim ao modo como a arquitectura de um pequeno país envolve o

mundo então conhecido, como os mensageiros do primeiro colonizador da Idade Média divulgaram a Arte da sua terra natal pela Índia e China, até às margens do La Plata. Em troca , treouxeram consigo […] recordações dos

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encantado-15 Casas Cristãs da Taluka de Salsete - Goa

que fez um levantamento da Arte do Renascimento de Portugal, com o objectivo de dar a conhecer ao povo alemão, a arte e as realizações artísticas portuguesas. Também Lopes Mendes8 esteve na Índia Portuguesa durante nove anos, tendo desempenhado cargos ao serviço do conselheiro Mendes Leal, então ministro e secretário de estado dos negócios da marinha e ultramar de várias comissões oficiais. Durante o período de horas livres recolheu informação que expôs numa edição de dois volumes, movido pelo desejo de ser útil ao país que para além da escrita, perpetua através dos desenhos que delineou dos monumentos que considerou serem gloriosos e que testemunhavam a grande eloquência dos portugueses na Índia e que naquela altura estavam em ruínas.

No século XX, o Padre M. J. Gabriel de Saldanha9 dedica uma obra com dois volumes à história de Goa, sendo o primeiro volume dirigido à história política e o segundo desti-nado à história arqueológica de Goa. Entre 1931 a 1949 foram várias as obras que surgi-ram a abordar assuntos ligados à Índia, mais concretamente a Goa, mencionamos Alberto Carlos Germano da Silva Correia e JeanCaparat10, Reynaldo dos Santos11, João Couto12,

res países longínquos, e com elas alimentaram o velho mundo. […] Naqueles vinte e cinco anos do reinado de D. Manuel, em que se criou uma das mais peculiares orientações no domínio da arquitectura e da decoração, que arras-tou também consigo a pintura e a escultura, essa arte tão característica do povo colonizador. Uma Arte que salienta e define a situação de um povo no limiar entre o velho e o novo mundo, e que por isso não pode ser medida pelos padrões habituais inspirados nas realizações clássicas da velha Europa». Em relação à arquitectura religiosa refere a Sé de Goa, como sendo um grande edifício ao estilo de S. Roque de Lisboa. Também alude sobre o colégio Jesuíta de São Paulo em Goa. Em face do conceito de arte indo-portuguesa reflecte sobre as repercussões das influências do Oriente sobre os portugueses e a sua arte. Considera que os navegadores portugueses ficaram com uma profunda impressão de deslumbramento de magnificência, de esplendor e de luxo em relação às construções da Índia. Natural-mente viriam então mais tarde a imitar nas construções portuguesas os «aspectos esplendorosos» dos edifícios no Oriente. Refere que se distinguem em vários e importantes edifícios portugueses esses pormenores, imitados não só da Índia, mas do Oriente. Também relaciona o facto de numerosos arquitectos e canteiros terem partido nas armadas para executar obras no Oriente tendo por lá permanecido por vários anos e aí recebessem “impressões perduráveis desses

monumentos”. As actividades dos artífices recrutados por artistas de várias áreas, como pintores de igrejas e mais tarde empregados ao serviço dos jesuítas. Refere Tomás Fernandes que foi para a Índia como arquitecto e fortificador no reinado de D. João III, também João de Castilho, como estando sob a influência da Arte Oriental nas suas obras, tal como Alcobaça, Tomar e Belém. Destaca exemplos, como a Sala do Capítulo de Tomar, Torre de Belém (explicada pela actividade arquitectónica que o rei promoveu em terras coloniais, em especial a Índia). HAUPT, Albrecht – A arquitectura do Renascimento em Portugal. Presença, Lisboa 1985 (ed. original 1890-95). pp. 16-17.

8 Este livro foi editado pela primeira vez em 1886. MENDES, Lopes – A Índia Portuguesa. Lisboa, volume I. Fundação Oriente, 1992. MENDES, Lopes – A Índia Portuguesa. Lisboa, volume II. Fundação Oriente, 1992.

9 Obra dividida em dois volumes sobre a História de Goa. No primeiro volume, destaca a primeira parte referente a História de Goa antes da chegada dos portugueses. Numa segunda fase faz uma análise à chegada de Vasco da Gama em 1498 à Índia ao estabelecimento dos portugueses neste território até à tomada de Goa por Afonso de Albuquerque em 1510 desenvolvendo a acção política deste governador e dos seus sucessores. Refere o auge do florescimento de Goa entre 1550-1600 e o anúncio dos sinais de decadência do poderio português no oriente e a fase progressiva dessa decadência. Expõe a entrada dos ingleses em Goa e a sua retirada (1794-1813). Menciona a implantação do regime constitucional em Goa (1807-1887). Descreve a extinção do exército da Índia o tratado Luso-britânico e a construção da linha de ferro de Mormugão. Alude sobre o Padroado Português no Oriente, também faz referência à divisão admi-nistrativa, judicial e eclesiástica do Estado da Índia. SALDANHA, M. J. Gabriel de Saldanha – História de Goa –

Política e Arqueológica – ISBN: 81-206-0590-X / 81-206-0591-8 – volume I, História Política – Casa Editora – Livra-ria Coelho, Nova Goa, 1925. O segundo volume é direccionado à históLivra-ria arqueológica de Goa, referindo-se à Cristia-nização e a construção de igrejas fora da cidade. Faz alusão às Ordens religiosas e aos seus edifícios. Também há a referência a vários edifícios civis, a ruas, praças, colégios, pelourinhos, monumentos e a fortificações. SALDANHA, M. J. Gabriel de – História de Goa – Política e Arqueológica – ISBN: 81-206-0590-X / 81-206-0592-6 – volume II, História Arqueológica – Casa Editora – Livraria Coelho, Nova Goa, 1926.

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Alfred Keil13 o qual, na sua obra faz uma análise à confluência da arte portuguesa com a indiana, explicando-a como uma pretensão dos artistas autóctones, como forma de lison-jearem os portugueses, também refere a assimilação através dos casamentos mistos, que levam a um contributo equivalente às duas culturas. Mencionamos Agostinho de Carva-lho14 que enuncia no campo da cultura, que a Índia se trata de “civilização milenária”, que se impôs em vários domínios, tal como na arte, nas ciências na literatura e no direito. Menciona a origem de um brâmane e conjecturas que envolvem a sua vivência. Também Maria José de Mendonça15 como conservadora do Museu Nacional de Arte Antiga con-tribuiu para a divulgação da arte indo-portuguesa.

A partir da segunda metade do século XX destacam-se vários autores com obras rela-cionadas com a arte indo-portuguesa, conforme John Irwin16 na qualidade de director do Departamento de Arte Oriental no Museu Vitória e Alberto, também destacamos Mário Tavares Chicó17 que se refere a Goa como um importante centro artístico tendo-se distin-guido mais tarde, após a primeira época da arte indo-portuguesa. Essa época compreende o início da nova catedral em 1562 até à fundação do Convento das Mónicas em 1606, período em que a cidade se alargou e se enriqueceu com novos monumentos. Maria Madalena Cagigal e Silva18 ligou-se no estudo da arte indo-portuguesa, conforme alude Maria Cristina Osswald19 “(…) autora dedicada à arte indo-portuguesa (…)”, em face do conceito da arte indo-portuguesa, encarou como uma confluência composta de

11 SANTOS, Reynaldo dos – A influência do Império nas Artes. Alta Cultura Colonial, Agência Geral do Ultramar, Lisboa, 1936. SANTOS, Reynaldo dos – O Espírito e a Essência da Arte em Portugal, in Conferências de Arte. Lisboa, Sá da Costa, 1943. SANTOS, Reynaldo dos – A Índia Portuguesa e as Artes Decorativas, Belas Artes, 2ª Série, nº 7, 1954.

12 COUTO, João – Alguns Subsídios para o Estudo Técnico das Peças de Ourivesaria no Estilo denominado

Indo-Português, Primeiro Congresso da História da Expansão Portuguesa no Mundo. 2.ª secção: Portugueses no Oriente. Lisboa, Ministério das Colónias, 1938. pp. 35-49.

13 KEIL, Alfred – A arte portuguesa e a Arte Oriental, in “Congresso do Mundo Português”. Vol. V, tomo III, Lisboa, 1940. p. 161.

14 CARVALHO, Agostinho de – Índia misteriosa. Povos e costumes Indus. Coimbra, 1948.

15 MENDONÇA, Maria José de – Alguns tipos de Colchas Indo-Portuguesas na colecção do Museu de Arte Antiga. Boletim do Museu, vol. II, facc. II, 1949Janeiro-Dezembro. pp.1-21.

16 IRWIN, John – Reflection on Indo-Portuguese Art. Burlington Magazine, December 1955. pp. 386-388.

17 CHICÓ, Mário Tavares – “A Igreja dos Agostinhos de Goa e a Arquitectura da Índia Portuguesa. Um problema de

reconstituição conjectural”. vol. II. n.º2, Garcia da Horta, Lisboa, 1954. CHICÓ, Mário Tavares - Algumas

observa-ções acerca da arquitectura da Companhia de Jesus no distrito de Goa. Lisboa: Junta das Missões Geográficas e de Investigações do Ultramar, 1956. Em relação à arquitectura religiosa Chicó refere-se a determinadas igrejas como à Igreja de S. Francisco de Assis – “hoje uma das mais belas igrejas barrocas da Índia”. Refere-se à Igreja de Santa Catarina – século XVI (segundo decénio) – desaparecida, da qual resta apenas a porta de uma construção civil fronteira à Sé Nova. Também se refere a outras igrejas, tal como a Igreja do Rosário – situada entre Pangim e Velha Goa, inicia-da em 1543, construíinicia-da por artistas reinois, com motivos de decoração do gótico final e do Renascimento, com elemen-tos da arte hindu à arte muçulmana. Menciona a Nova Catedral – iniciada em 1562. Reporta-se à Igreja de Bom Jesus – edificada 1594, refere-se à Igreja dos Agostinhos (Santa Maria da Graça), com. 1587 e ao Convento da Mónicas – fundado em 1606. CHICÓ, Mário Tavares – A Igreja do Priorado do Rosário de Velha Goa, A Arte Manuelina e a Arte

do Guzarate. Academia Nacional de Belas Artes, Separata de Belas Artes n.º7, Lisboa, 1954.

18 CAGIGAL E SILVA, Maria Madalena de – A Arte Indo-Portuguesa. João Barreira (dir.) Arte Portuguesa: As Artes

Decorativas. II vols. Lisboa, Edições Excelsior, 1951, vol. I, pp. 245-264.

19 OSSWALD, Maria Cristina Trindade Guerreiro - O Bom Pastor na imaginária Indo-Portuguesa em Marfim. 1.º vol. Porto, 1996.

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mentos portugueses e indianos, dirigidos pelos encomendantes que interferiam na escolha dos motivos e decoração. José de Freitas20 na sua obra anuncia Pangim como uma capital de Estado, como tendo sido uma cidade de ruas e avenidas asfaltadas e com muitas casas de dois andares, alude que na Índia Portuguesa há “três Goas”, referindo-se à Goa Velha como pequena aldeia de pescadores ao Sul da ilha perto do rio Zuari, a Velha Goa como sendo a primeira grande cidade portuguesa cristã do Oriente, que em tempos foi a antiga Goa e que restavam apenas ruínas e a terceira Goa seria Panjim como a capital do Estado. Menciona que na Velha Goa havia a Rua dos Ourives, a Rua dos Alfaiates e palácios des-lumbrantes assim como igrejas e conventos. Informa que os jornais da Índia pertencem a famílias com influência maior ou menor na vida pública do país e herdeiros de dignifi-cantes tradições, como “O Heraldo” de Santa Rita Vaz, “O Diário da Noite”da família Menezes, “Índia Portuguesa” de Margão chefiado por Leonor de Loyola Furtado.

O americano Boies Penrose21 efectuou uma síntese escrita sobre Goa durante a perma-nência do E.P.I. criticando os portugueses e salientando o terceiro quartel do século XVI como brilhante para a história militar e política de Goa, como também sendo marcado por um desabrochamento das artes. Focou alguns aspectos relacionados com a arquitectura civil e doméstica, tendo-se referido aos edifícios de Goa, tanto as lojas como as casas particulares, sendo constituídas por dois andares com uma construção de argamassa e cal vermelho, pintadas com uma aguada a vermelho, a ocre ou a branco, referiu-se às janelas e à pouca utilização do vidro, sendo este substituído pelas conchas de ostra bem polidas. Salientou o uso das grades e gelosias as quais permitiam, que as senhoras vissem de casa quem passava, sem serem notadas, também se referiu às espaçosas varandas do andar superior, apetecíveis no tempo quente, alude que embora as casas estivessem juntas umas às outras, tinham jardins e pomares no logradouro. Ficou a referência aos palácios que

20 Refere que a Velha Goa tinha mais de três km de Este para Oeste, quase a mesma largura de Norte a Sul e consolida-va uma área de mais de dez km. Era combinada com quatro portas, a de Ribandar, onde se ergeu o arco dos Vice-Reis, a do Mandovi, no “Terreiro dos Mantimentos”, a de Nossa Senhora da Serra ou dos condenados, que ficava junto ao largo do Pelourinho e a porta de S. Pedro. FREITAS, José de – Terras Portuguesas no Oriente. Agência Geral do Ultramar, Lisboa, 1953.

21 Penrose destaca a Rua Direita, como uma avenida apontada a sul por cerca de dois quilómetros, entre o Terreiro do Paço e a Misericórdia, designada por “O Leilão”. A maior parte dos monumentos já tinham sido construídos no ano de 1600. Salienta que o forte de Adil Xá fora construído para proteger o porto, contudo em 1554 foi completamente reconstruído e mais tarde o vice-rei D. Pedro de Mascarenhas voltou a alterá-lo e mudou-se para lá, tendo assim deixa-do o Palácio deixa-do Sabaio (perto da Catedral). Linschoten e Pyrard passsaram a designar ao antigo forte de Adil Xá, o edifício do Mascarenhas, que descreveram como «… um belo e sumptuoso edifício, erigido em volta de dois pátios e

célebre pela sua galeria de pintura […] Adjacente havia uma magnífica sala de audiência com retratos de cortpo inteiro de cada um dos Vice-reis e Governadores; era aqui que os Vice-reis não só reuniam os seus conselhos, como

também recebiam os embaixadores dos príncipes do Oriente». Citou a famosa Rua Direita, a Misericórdia, o Hospital de S. Lázaro, o Convento de S. Francisco, o Colégio de S. Paulo, como sendo da mesma época. PENROSE, Boies –

Goa – Rainha do Oriente. Comemorações do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique, Comissão Ultramarina, Lisboa, 1960.

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com a sua grandeza concediam aos Vice-reis um elevado nível de magnificência que competiam com os do Grão Mogol ou do Sofi da Pérsia.

Encontramos outras referências ligeiras à arquitectura doméstica, desta vez através da obra de Jaime Cortesão22, precisando que as casas de habitação eram mais baixas, beira-das por alpendres, rasgabeira-das para a rua janelas e ladeabeira-das de varanbeira-das corribeira-das em galeria de madeira sobre o jardim, do qual descia uma escada exterior de pedra. Refere que os materiais de construção utilizados eram a areia e a cal de ostras, também salienta que em vez de vidros usava-se escamas de ostras designadas por “janelas de carepas”. As casas eram normalmente pintadas de branco ou de vermelho alaranjado e davam geralmente para um jardim com figuras de pedras alinhadas, com fontes, mirantes e frutas tropicais que emanavam um certo aroma perfumado. Geralmente junto às casas havia uma árvore que espalhava uma boa sombra, de espécie que havia sido trazida pelos portugueses, aquando da sua passagem por Malaca. Jaime Cortesão, em 1968, faz referência a Goa como sendo uma cidade resplendorosa nos finais do século XVI, reconhecendo-a como a criação urbana colonial que melhor expressa o carácter dos portugueses, nas suas virtudes e defeitos. Esclarece que a cidade se expandiu na margem esquerda do rio Mandovi, pelo facto de ter características naturais mais defensivas.

Carlos de Azevedo23, em face ao conceito de Arte Indo-Portuguesa alude que a partir das influências portuguesas e indianas, resultou uma arte original, a Arte

22 Em relação à arquitectura religiosa, Jaime Cortesão faz paralelismos de semelhanças entre o estuário do Mandovi e o estuário do Tejo, exemplificando com o “Largo na foz entre o Cabo hoje chamado de D. Paula, e a ponta da Aguada

na ilha de Bardez (…) a saliência de Pangim na ilha de Goa e as alturas dos Reis Magos na mesma ilha”, embora Lisboa esteja assente na margem direita do Tejo e Goa na margem esquerda do Mandovi. Refere «Filipe Sassetti,

sem-pre um pouco desdenhoso com os Portugueses, comparava em 1584 a extensão de Goa à de Pisa. Mas o circuito da cidade, poucos anos volvidos, era duplo, segundo Linschoten (1590), e triplo, segundo Pyrard (1609), do que fora antigamente. Do lado norte, o conjunto dos edifícios e muralhas formavam uma defesa ininterrupta. A leste a Albu-querque, além do baluarte de Pangim, mandara construir a fortaleza da cidade, que se alargou e transformou em residência dos vice-reis, e a de Benastarim. Mais tarde construíram-se muralhas, cingindo a cidade pela banda do rio, defesa que se alargou a todo o canal de Combarjua – obra terminada em tempo do grande vice-rei D. Luís de Ataíde». Há a referência às grandes portas em túneis abaluartadas que se destinavam à passagem dos indígenas entre Bardez e Salsete, a cidade e as ilhas, designados de “passos”, assim o passo de Pangim a Bardez, o de Daigin a Norva, a Bardez, o de Passo Seco, o de Benastrim a Salsete. Em cada porta estava um funcionário que tinha como função cobrar o imposto de passagem, “um bazaruco” por pessoa, e à saída de cada indígena imprimiam no braço a tinta um sinal, que ao regressar serviria de salvo-conduto, fiscalizando-se assim o trânsito das pessoas. Pelo rio acostavam as “naus, as

carraças os galeões de Portugal, as champanas, as cotias, as paléguas indostânicas, as naus de Cambaia e de Ormuz, os juncos chins e javaneses com os mercadores e tráfico mais rico». CORTESÃO, Jaime – O Império Português no

Oriente. Lisboa. Edições Portugália, 1968.

23 Nesta obra Carlos de Azevedo aborda a arquitectura militar e as várias fortalezas de Goa, Damão e Diu. Refere a Fortaleza de Diu, o Forte de Mormugão, a Planta da cidade de Damão, o Forte dos Reis Magos e o Forte do Tiracol. Ao nivél da arquitectura religiosa, indica-nos que a partir de meados do século XVI se iniciou um novo projecto de cons-trução de igrejas que viria a engrandecer várias regiões da costa do Malabar, tendo contado com a mão-de-obra local. Albuquerque levanta a Igreja de Santa Catarina em Goa, em 1514 a Igreja do Priorado do Rosário que teve início das obras em 1543, e construída por mestres “reinóis”, vindos do reino, de Portugal continental, marcando o final da pri-meira época de construção. No final do século XVI é Goa é marcada por edifícios religiosos monumentais. Resta ainda deste período: o portal manuelino de S. Francisco de Assis em Velha Goa e as ruínas da Igreja da fortaleza de Diu. AZEVEDO, Carlos de - A Arte de Goa, Damão e Diu. Agência Geral do Ultramar, Lisboa, 1969.

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Portuguesa. Salienta que perante a análise de um edifício religioso, se deverá ter sempre em conta a interpretação própria dos artistas locais.

Pearson24, dedica uma obra aos portugueses da Índia fazendo parte de um novo estilo das histórias de Cambridge University Press. M. N. Pearson define, em 1897, a Velha Goa como uma cidade idêntica a qualquer cidade indiana, diferenciando-se apenas na Rua Direita.

Mencionamos Teotónio de Souza25, nascido em Goa, mas que em 1994 optou pela nacionalidade portuguesa, vivendo em Portugal, e que tem abordado obras relacionadas com Goa enquanto capital do Estado Português da Índia.

Emergem catálogos de exposições sobre a Arte Indo-portuguesa dos quais destacamos alguns que nos parecem ser relevante para o desenvolvimento do nosso trabalho. Sobres-saem nomes como, Maria Helena Mendes Pinto, João Paulo Oliveira e Costa, ligados à Exposição “De Goa a Lisboa”26, realizada para o Festival Europália Portugal, em 1991, apresentada em Bruxelas na sede da Barque Bruxelas Lambert, entre 24 de Setembro e 15 de Dezembro de 1991, e mais tarde patente entre 29 de Junho a 30 de Outubro de 1992, no Museu Nacional Machado de Castro em Coimbra, manifestando a história e a diáspora portuguesa em terras do Oriente. Em 1994 temos referência de um catálogo “Indo-Portuguesmente”27 no âmbito das comemorações dos descobrimentos portugueses. Em 1998 realizou-se a exposição “Vasco da Gama e a Índia”28, entre 11 de Maio a 30 de

24 Pearson alude que a Velha Goa estaria dividida pelos portugueses por diversas zonas fixas, conforme a classe da população. PEARSON, M. N. – Os Portugueses na Índia. Editorial Teorema, Lda., 1987.

25 O trabalho “Goa Medieval” deste autor, em termos gerais, pretende acima de tudo instaurar uma corrente de pesqui-sa de forma a dar lugar a uma discussão que nos leve a deixar de ser medievais. Deixando-nos claro de que ainda existe muito a fazer na forma de entendermos o nosso passado, e que deveremos avançar com prudência, com celeridade e sem receio de expormos os nossos passos. SOUZA, Teotónio R. de - Goa Medieval – A cidade e o Interior no Século

XVII. Lisboa, Editora Estampa, 1994. SOUZA, Teotónio R. de – Goa. Roteiro Histórico – Cultural, Lisboa,

26 Há um destaque às obras expostas na exposição, exaltando pinturas da autoria de Manuel Henriques, André Reinoso e Escola Portuguesa, relatando momentos da vida de S. Francisco Xavier na Índia. Também surgem outros elementos relativos à arte indo portuguesa, como os relicários, os crucifixos de altar, os calvários, as cruzes, a sacra, os retábulos de oratório, os rosários, os cofres, os oratórios relicários, a Árvore de Jessé em marfim esculpido em baixo relevo, a virgem em majestade, várias imagens esculpidas em marfim da Nossa Senhora, outras imagens esculpidas em marfim do Menino Jesus, várias imagens de Santos esculpidas em marfim, o porta-paz em madeira esculpida, vestes litúrgicas, véu de cálice, pano de esquife, a alva, o godrim, panos de armar, as colchas bordadas, o guarda-porta, o cofre de reser-va do Santíssimo com motivos de madrepérola, Sacramento, as estantes de missal, os púlpitos, os oratórios em madeira de teca entalhada, as cadeiras de braços, as arcaz, as estantes, os escritório com tampa e com motivos embutidos carac-terísticos em marfim e osso, os baús, as arca-escritório, as gaveta-escritório, o altar com retábulo, pedras votivas e panos de frontal de altar. De Goa a Lisboa - A Arte Indo Portuguesa dos séculos XVI a XVIII. Secretaria de Estado da Cultura, Museu Nacional de Machado de Castro, Coimbra, 1992.

27 Indo-Portuguesmente. Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos portugueses, Lisboa, 1994. 28 A exposição realça as Artes Decorativas Indo-Portuguesas, incidindo nos manuscritos, ordenações, gravuras (códice, plantas, mapas, pergaminhos, ilustrações), retratos de famosos, pinturas anónimas (que salientam os usos e costumes), desenhos das embarcações, livros de marinha. Também realça as figuras mitológicas, as estelas indianas, as esculturas, os azulejos, os objectos em bronze (moedas, armas, astrolábios), objectos em madeira, a faiança, os crucifixos, os cal-vários de cal-vários materiais, as esculturas religiosas em madeira, os cofres, os oratórios, as estantes de missal, as salvas com pé, o marfim esculpido, os vários tipos de adornos (colares, pendentes, rosários, laços) as colchas, as telas borda-das, os panos de porta, os contadores, as mesas, os escritórios de banca, as gavetas de escrivaninha, as mesas de fechar, as arcas, as janelas (em madeira) e as tapeçarias decoradas. PINTO, Maria Helena Mendes; GARCIA, José Manuel;

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20 Casas Cristãs da Taluka de Salsete - Goa

Junho na Capela de Sorbonne por ocasião das conferências internacionais em Paris nos dias 11, 12 e 13 de Maio 1998, havendo um catálogo a registar este momento, o qual evoca o relacionamento entre o Ocidente e o Oriente, entre Portugal e a Índia e comemo-ra a celebcomemo-ração dos 500 anos da descoberta do caminho marítimo pacomemo-ra a Índia que deu origem à Carreira da Índia, desta exposição destacam-se Maria Helena Mendes Pinto e José Manuel Garcia, na qualidade de comissários científicos. Em 1988, no âmbito da exposição “Os Construtores do Oriente Português”29, realizada no Edifício da Alfândega do Porto em estreita colaboração entre a Câmara Municipal do Porto e a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos, resultou um catálogo o qual realça as comemorações dos Descobrimentos Portugueses com textos alusivos à Índia Portugue-sa, abordando questões culturais, artísticas, costumes, religião, mártires do cristianismo, sociedade, elites, estrutura política e administrativa, a corte cerimonial, tumularia régia, os missionários na Índia, a arquitectura Chã no interior das igrejas portuguesas no Orien-te, tendo tido como comissário geral António Manuel Hespanha.

No final do século XX surgem artigos, várias obras e é sobretudo no âmbito académi-co que oacadémi-correm variadíssimas referências à Arte Indo-Portuguesa. Destacamos José Manuel Fernandes30, Maria Cristina Osswald31, João Paulo Oliveira e Costa32, Rafael Moreira33 e Walter Rossa34.

AAVV - Vasco da Gama e a Índia. Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, Lisboa, 1998.

29 O catálogo também regista os objectos patentes na exposição de origem oriental, como: a esfera armilar, cruz de Cristo, atlas, livro das plantas das fortalezas, mapas topográficos de Goa, os escritórios, cofres, gaveta-escritório, arca-escritório, falconete, esmeril, quartos de canhão, espingarda com o símbolo da paixão de Cristo, tsubas, vários retratos de monarcas de vice-reis e nobres portugueses, esculturas, porcelanas da dinastia Ming, vários documentos, moedas, elefantes trabalhados em pedra, frontais de altar, dalmática, vários objectos de carácter religioso, como a estola o mani-pulo os oratórios, os oratórios portáteis, a vara processional, os calvários, as cruzes processionais, a Nossa Senhora com o Menino de proveniência Chinesa da Dinastia Quing, o bostiário, o rosário, as taças, as estantes de missal, as placas de marfim religiosas, várias esculturas religiosas em marfim e madeira alusivas aos Santos e ao Menino Jesus, alguns trabalhos sino-português como a Meridiana de bolso. Também, as colchas e os contadores. HESPANHA, Antó-nio Manuel; AAVV. – Os Construtores do Oriente Português. Ciclo de Exposições, Memórias do Oriente. Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, Porto, 1998.

30 FERNANDES, José Manuel – Vestígios do Manuelino na arquitectura religiosa de influência portuguesa na Índia:

Malabar, Coromandel, Goa. Oceanos 19/20, 1994.

31 Trata-se de uma dissertação de Mestrado em História da Arte apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto. OSSWALD, Maria Cristina Trindade Guerreiro – O Bom Pastor na imaginária Indo-Portuguesa em Marfim. 1.º vol. Porto, 1996. OSSWALD, Maria Cristina Trindade Guerreiro – O Bom Pastor na imaginária Indo-Portuguesa em

Marfim. 2.º vol. Porto, 1996.

32 COSTA, João Paulo Oliveira e, “A Nobreza e a Fundação do Estado Português da Índia”, in Vasco da Gama. Homens, Viagens e Culturas. Actas do Congresso Internacional, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2 vols., pp. 39-73, 2001. COSTA, João Paulo Oliveira e, “Os capitães mores da

Carreira da Índia no reinado de D. João III”, in A Carreira da Índia. Actas do V Simpósio de História Marítima, Aca-demia da Marinha, Lisboa. pp. 213-231, 2003. COSTA, João Paulo Oliveira e, “O conde de Tentúgal e a linhagem dos

Melos na política ultramarina manuelina” in A Alta Nobreza e a fundação do Estado da Índia. Actas do Colóquio Internacional, CHAM, Lisboa. , 2004. pp. 9-32. COSTA, João Paulo Oliveira e Costa; PINTO, Maria Helena Mendes; MACEDO, Jorge Borges de – De Goa a Lisboa - A Arte Indo Portuguesa dos séculos XVI a XVIII. Secretaria de Estado da Cultura, Museu Nacional de Machado de Castro, Coimbra, 1992.

33 MOREIRA, Rafael – From Manueline to Renaissance in Portuguese Índia. Mare Liberum 9, 1995. MOREIRA, Rafael – As formas artísticas., História dos Portugueses no Oriente. Fundação Oriente, Lisboa, volume 1, 1998.

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Distinguimos autores que desenvolveram trabalhos de carácter relevante no âmbito da arquitectura doméstica indo-portuguesa de Goa objecto do nosso estudo, tal como Ângelo Silveira, Hélder Carita, Pedro Dias, Heta Pandit e Annabel Mascarenhas e algumas comunicações dispersas, das quais destacamos Carolina Ifeka.

Hélder Carita35, face do conceito da Arte Indo-Portuguesa realça haver um profundo intercâmbio entre as duas culturas. No início da sua obra começou por identificar dois ciclos na arquitectura civil Indo-portuguesa, o primeiro ciclo, relativo às construções das residências por parte dos colonos portugueses, a que designa arquitectura colonial e o segundo ciclo, relativo às construções de habitações por parte das famílias autóctones, brâmanes e chardós a qual designa de arquitectura indo-portuguesa, considera que ambos os ciclos são indo-portugueses contudo com ênfases diferentes. Incide na arquitectura civil indo-portuguesa com uma análise do modelo de arquitectura chã como o primeiro exemplo estético de referência nos palácios de Goa, também menciona o maneirismo de influência italiana e explica o modelo tradicional de casa hindu, aborda aspectos da arqui-tectura civil Indo-portuguesa e destaca a consolidação e o poder das famílias brâmanes e chardós entre os séculos XVII a XVIII, incidindo no desenvolvimento de algumas casas de famílias autóctones das castas mais altas da sociedade goesa. Dedica um capítulo à análise das quintas de Panjim no século XVIII e à divulgação do tardo-barroco. Caracte-riza o modelo de casa de pátio e classifica o neogótico e gosto fin de siécle na arquitectu-ra Indo-portuguesa.

Ângelo Silveira36 incide a sua investigação na arquitectura doméstica de Goa, na tipo-logia da casa pátio. Numa primeira fase, define os princípios da casa pátio tendo distin-guindo a casa hindu da casa pátio cristã, universo do seu estudo. Numa segunda fase, avalia o estado de conservação das casas e analisa as particularidades e potencialidades dos materiais, concluindo que o modelo cristão de casa pátio corporiza pela primeira vez ao nível morfológico e ao nível decorativo um modelo de arquitectura doméstica indo-portuguesa.

Pedro Dias37 enuncia na sua obra que o princípio basilar da composição da família era o feminino, sendo a casa o seu local predominante, daí que geralmente se preservava o sistema estrutural da morada hindu, moldada às funções utilitárias a que a mulher estava

34 ROSSA, Walter – Cidades Indo-Portuguesas. Lisboa, CNCDP, 1997. ROSSA, Walter; HESPANHA, António Manuel – Indo-Portuguesas - Contribuições para o estudo do urbanismo português no Hindustão Ocidental. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1997.

35 CARITA, Hélder – Palácios de Goa – Modelos e Tipologias de Arquitectura Civil Indo-Portuguesa. Livros Quetzal S.A., Lisboa, 1996.

36 SILVEIRA, Ângelo Costa – A casa pátio de Goa.

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22 Casas Cristãs da Taluka de Salsete - Goa

acostumada no entanto a fachada normalmente apresentava um registo ocidental. Tam-bém refere que as casas particulares de Goa, na Rua do Leilão, se dispunham alinhadas e com as fachadas a abrirem directamente para a rua. Explica que “As casas eram

reboca-das e pintareboca-das, e tinham telhados com forte inclinação, cobertos por telha vermelha”38 também refere que a grande parte das casas tinha dois pisos, um térreo que poderia ser de comércio e um andar sobradado que poderia ter janelas ou varandas com portadas com gelosias de madeira de carepas. Alude que os construtores destas residências eram locais e “sem formação erudita mas com capacidade técnica e prática. Só nos palácios públicos

intervieram os mestres reinóis, portugueses e italianos”39. Aponta duas fases divergentes na arquitectura doméstica indo-portuguesa, na primeira em que imperaram os valores ocidentais e na segunda fase “… em que se deu a ascensão de formas e modos locais,

desenvolvendo-se estruturas espaciais onde é patente o modelo da casa hindu”40.

Heta Pandit e Annabel Mascarenhas41 expõem como ponto de partida a arquitectura das residências de Goa, assim como o modo de vida e sociedade anterior e posterior à chegada dos portugueses. Mencionam o estilo de vida do final do século XIX e analisam os elementos arquitectónicos de diversas casas de Goa.

Caroline Ifeka42 refere que a estrutura da casa na história Indo-Portuguesa de Goa, está ligada a determinados factores, quer pelo grupo de carácter religioso como também pela casta em que se inserem. Distingue os aspectos exteriores e interiores da casa e caracteri-za a aparência exterior com um maior cuidado pelas dimensões físicas pelos materiais de construção, as varandas, a orientação dos quartos, mencionando que todas estas particula-res estão muito relacionadas com o estilo de vida das pessoas que vivem na casa. O espa-ço interior está relacionado com as áreas da cozinha, área de descanso, área de recepção, do culto religioso, estas divisões estão muito ligadas a determinadas atitudes, bem como a preparação de alimentos, a relação entre homens e mulheres e a variação entre grupos religiosos e as castas. Considera a autora que as casas podem ser uma relevante fonte de informação sobre o desenvolvimento das castas.

No início do século XXI emergem diversas obras, algumas no âmbito da Arte Indo-Portuguesa, dos quais seleccionamos alguns autores que passamos a referenciar, como

38 DIAS, Pedro – Arte de Portugal no Mundo; Índia – Arquitectura Civil e Religiosa. 1ªedição, Editor Publico, 2009. p. 48.

39 DIAS, Pedro – Arte de Portugal no Mundo; Índia – Arquitectura Civil e Religiosa. p. 49. 40 IDEM, Ibidem, p. 49.

41 PANDIT, Heta; MASCARENHAS, Annabel – Houses of Goa. Architecture Autonomous, India, 2006.

42 Apresentou uma comunicação no IV Seminário Internacional de Arte Indo-Portuguesa.sobre “A casa na história de

Goa” do século XVIII até meados do século XX. IFEKA, Caroline - IV Seminário Internacional de Arte

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23 Casas Cristãs da Taluka de Salsete - Goa

David M. Kowal43, José Pereira44, Fátima Eusébio45, Jorge Flores46 e Nuno Vassalo e Silva47, Paulo Varela Gomes48, Mónica Reis49 e Alice Santiago Faria50.

43 KOWAL, David M. – The evolution of ecclesiastical architecture in Portuguese Goa. India and Portugal Cultural Interations, ed. José Pereira and Pratapaditya Pal, Marg Publications, Mumbai, 2001.

44 PEREIRA, José – The evolution of the Goa Hindu Temple. India and Portugal Cultural Interations. PEREIRA, José –

Churches od Goa. New Delhi, Oxford University Press, 2002.

45 EUSÉBIO, Fátima “O intercâmbio de formas na arte indo-portuguesa: o caso específico da arte da talha” 2003. 46 FLORES, Jorge; VASSALO e SILVA, Nuno – Goa e o Grão – Mogol, Fundação Caloustre Gulbenkian, catálogo 2004.

47 VASSALO e SILVA, Nuno – Tesouros da Terra da Promissam: a ourivesaria entre Portugal e a Índia. Oceanos, 19/20, 1994.SSALO e SILVA, Nuno – A herança de Rauluchantim. Catálogo, Santa Casa da Misericórdia de Lisboa E CNCDP, 1996.

48 GOMES, Paulo Varela – 14.5 Ensaios de História e Arquitectura. Almedina, Coimbra, 2006. pp. 159-228. GOMES, Paulo Varela – Bombay Portuguese – ser ou não ser português em Bombain no século XIX. Revista Portuguesa de História das Ideias, n.º 28, 2007.

49 Em face do conceito da arte indo-portuguesa, a autora menciona que entre Portugal e a Índia havia uma grande dis-tância, sendo as viagens demoradas, como tal era inexecutável levar os artesãos especializados portugueses para actuar nos retábulos da Índia, e por sua vez, para levar constantemente retábulos de Portugal para a Índia, corriam-se grandes riscos de danificar essas obras, sobretudo no que diz respeito às condições da viagem, de carácter rigoroso. A forma encontrada foi produzir esses retábulos por artesãos locais. Artesãos esses, que já haviam utilizado as formas hindus e passaram a laborar formas cristãs, conhecedores da linguagem artística mas desconhecendo a linguagem religiosa. Refere o estudo das relações artísticas entre Portugal e a Índia incidindo na arte religiosa, tendo como objecto do seu trabalho os retábulos. A autora explica as diferentes formas, as diferentes gramáticas artísticas e acima de tudo, uma interacção na religiosidade de carácter diferente e no seu entender também admirável. Como consequência deste estu-do, surgirá a criação de um inventário artístico do retábulo indo-português, nas cidades da antiga província do Norte e Goa. REIS, Mónica – A Arte Retabular da Companhia de Jesus em Damão: focando o retábulo de Nossa Senhora com

o Menino na sacristia da igreja de Nossa Senhora dos Remédios. Revista de História da Arte e Arqueologia, UNICAMP, Brasil. n.º 11, 2009. pp. 37-54.

50 Arquitecta e investigadora, publicou um artigo sobre a evolução de Panjim, desde o plano urbano de 1776 até o século XX, apoiada em documentos inéditos dos arquivos de Goa e Lisboa. Com doutoramento sobre “A arquitectura e o planeamento urbano em Goa no século XIX e início do século XX”. FARIA, Alice Santiago – O Estado da Índia e os

Desafios Europeus - Actas do XII Seminário Internacional de História Indo-Portuguesa. Centro de História de Além-Mar (CHAM) e Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa (UCP), Lisboa, 23-27 de Outubro 2006.

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24 Casas Cristãs da Taluka de Salsete - Goa

1.Cenário histórico-geográfico da presença Portuguesa em Goa

1.1. Contextualização das condições do território de Goa na fixação dos Portugueses

Goa ocupa uma facha estreita de território no meio da costa ocidental da União india-na, com um comprimento de cerca de 105Km, e uma largura máxima de 65Km, com uma área aproximada de 3600 Km². O território de Goa está situado na costa do Malabar entre Maharashtra, a norte, e Karnataka a leste e a sul, na costa do Mar da Arábia, a cerca de 400 km a sul de Bombaim, 15º de latitude Norte, e 73º de longitude leste, e integra três regiões: o litoral, intermédia51 e interior52. No litoral localizam-se as regiões pertencentes às «velhas conquistas», estes territórios são: Bardez, Ilha de Tiswadi, Mormugão e Salse-te, caracterizadas por planaltos lateríticos e maior densidade populacional. A Ilha de Tis-wadi foi conquistada em 1510 por Afonso de Albuquerque, enquanto que Bardez, Mor-mugão e Salsete foram cedidos em 1543. As regiões pertencentes às «novas conquistas» foram adquiridas na segunda metade do século XVIII e compreendem as regiões de Pér-nem, Bicholim, Satari, Pondá, Sanguém, Quepém e Canácona.

Os principais rios do território de Goa são nove, o Mandovi, o Zuari, o Terekhol, o Chaporá o Sal ou Betul, o Bága, o Sinquerim, o Talapóna e o Calisbága. Goa, situada entre o trópico de Câncer e o Equador, com o seu clima de característica tropical, situada em zona de monções. O período seco, de ardentíssimo sol, decorre entre Dezembro e Maio, e o período húmido vai de Junho a Novembro, inicialmente anunciado pela passa-gem de ciclones e formalizado por chuvas torrenciais que ocorrem durante cinco a seis meses. A variação térmica do Verão para o Inverno é de 32ºC para 20ºC e a humidade média está normalmente acima dos 75%, estimulando ventos alísios. A pluviosidade média anual de Goa é de 270 cm e a aproximação das chuvas é anunciada pelos pirilam-pos, à noite, e por insectos, como as formigas voadoras e outros, que saem das suas tocas subterrâneas e no começo das monções surgem os sapos e as cobras para os eliminarem, permanecendo assim a harmonia da natureza.

51 A região intermédia de Goa pertence às zonas de «estreitamento dos vales entre troços de planaltos mais elevados ou

de alinhamentos de relevo de dureza; pelas precárias condições naturais, a densidade da população é muito mais baixa […] no limite com o rebordo dos Gates». BRITO, Raquel Soeiro de - IV Seminário Internacional de Arte

Indo-Portuguesa. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian, Instituto de Investigação Científica Tropical, 1985. p. 35. 52 A região interior de Goa «é constituído pelo rigoroso rebordo do planalto do Decão, que em queda brutal de 600

metros de altura, penetra em rogolfos pela terra baixa de Goa». Não havendo capacidade de fundação de povoamento.

«a barreira dos Gates constitui uma fronteira natural do território de Goa». BRITO, Raquel Soeiro de - IV Seminário

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25 Casas Cristãs da Taluka de Salsete - Goa

Mapa da Índia

Figura 1 Mapa da Índia

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26 Casas Cristãs da Taluka de Salsete - Goa

Mapa de Goa – Velhas e Novas Conquistas

Legenda:

Ilhas Tiswadi – Território de Velhas Conquistas.

Conquistado em 1510

Bardez, Mormugão e Salsete – Território de Velhas Conquistas. Adquiridas em 1543

Território de Novas Conquistas – Adquiridas na segunda metade do século XVIII

Figura 2

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27 Casas Cristãs da Taluka de Salsete - Goa

Mapa de Goa – Distritos – Goa Norte e Goa Sul

Legenda: Goa Norte Goa Sul Goa Sul - Salsete

Figura 3

Mapa de Goa, distinguindo as 11 talukas

Imagem

Figura 1  Mapa da Índia

Referências

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