SANDBOX REGULATÓRIA E OS DESAFIOS DAS FINTECHS
Estéfano Luis De Sá Winter1
Resumo: Este artigo debate de que modo o surgimento e expansão das Fintechs promove uma
grande transformação no setor financeiro e impõe desafios para a regulação bancária nacional e de que modo, nesse novo cenário, os procedimentos utilizados para regular o mercado devem ser revistos de tal forma que sejam capazes de garantir tanto a segurança jurídica/estabilidade quanto fomentar a inovação financeira. Defende-se a tese central de adoção do instrumento do sandbox para construção de normas regulatórias, devido à sua agilidade, flexibilidade e adequação ao contexto operacional das Fintechs.
Palavras-chave: Fintechs. Regulação Bancária. Sandbox.
Abstract: This article discusses how the rise and expansion of Fintechs promotes a major transformation in the financial sector, challenges the national banking regulation and how, in this new scenario, the procedures used to regulate the market must be reviewed in such a way that they are capable of ensure both legal certainty/stability and foster financial innovation. The central thesis here is the adoption of the sandbox mechanism for the construction of regulatory standards, due to its agility, flexibility and adequacy to the operational context of Fintechs.
Keywords: Fintechs. Banking Regulation. Sandbox.
1. INTRODUÇÃO
As dinâmicas sociais e as relações econômicas estão em completa transformação devido às inovações trazidas pelo uso intensivo das novas tecnologias, de tal sorte que estamos presenciando a construção de um novo conceito de sociedade: sociedade passa a ser entendida como uma necessária mediação e interconexão com o mundo eletrônico; passamos a viver uma espécie de cibervida (BAUMAN, 2008) em uma cibersociedade regulada por uma cibereconomia. Não é por outra razão que o último Digital Banking Report, de autoria de Jim Marous - um dos maiores especialistas mundiais em inovações no mercado financeiro -, publicado em 2017, novamente reforçou, de modo uníssono, o movimento global dos bancos e do sistema financeiro quanto à criação de canais de experiência e relacionamento com seus clientes por meio do uso das plataformas digitais e remotas (MAROUS, 2017).
1 Mestre em Filosofia pela UFMG, Especialista em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas, Graduado em
Direito pela UFMG. Professor de Graduação na UNA Barreiro; Professor de Pós-Graduação no IETEC; Coordenador no Departamento de Operações no Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais
Nessa cibersociedade as transações comerciais passam a ser realizadas por meio de novos instrumentos cibereconômicos que estão em constante eclosão, profusão e transformação, tais como: Bitcoins, Chatbots, Blockchain e Fintechs. As Fintechs, em especial, apresentam forte protagonismo nesse complexo emaranhado de serviços financeiros, chamado novo ecossistema financeiro (WINTER, 2017).
As Fintechs - startups voltadas para o design de modelos inovadores de serviços financeiros que utilizam em alto grau os recursos tecnológicos - estão transformando completamente o modelo de banco como conhecemos hoje em dia ao disponibilizarem novos serviços para um número crescente de clientes, tais como: abertura de contas por meio de celulares, sem nenhum envio de documentos físicos; transações financeiras confirmadas por intermédio de biometria e reconhecimento de voz; plataformas de captação coletiva de recursos (crowdfunding); plataformas de concessão de crédito online, cujos documentos são reconhecidos por meio de certificados digitais de segurança; plataformas de controle e gestão de moedas eletrônicas cuja titularidade e propriedade são reconhecidos por meio de registros de dados eletrônicos públicos e universais disponíveis na web; aplicativos integrados com instituições financeiras tradicionais por meio de programações conectadas por APIs que permitem a construção de modelos de negócios através do open banking.
Esses serviços têm crescido e ganhado tamanha importância no Brasil que o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em pesquisa recém divulgada - realizada ao longo de 2016 com praticamente 800 empresas de tecnologia financeira da América Latina em 18 países -, apontou que 32,7% de todas as Fintechs da América Latina são brasileiras, comprovando a nossa hegemonia nacional na onda da revolução do sistema financeiro por meio das tecnologias digitais (BID; FINNOVISTA, 2017). Uma das tendências mais importantes nessa onda da revolução financeira, identificada na pesquisa conduzida pelo BID, é a constatação que mais de 40% de todas as Fintechs têm como missão comum a inclusão financeira e expansão dos serviços financeiros para segmentos econômicos até então pouco ou mal atendidos pelos bancos, como as pequenas empresas e as pessoas físicas de baixa renda.
Ora, essa missão de inclusão financeira, além dos claros ganhos sociais, está completamente alinhada com o objetivo do Sistema Financeiro Nacional que visa promover o desenvolvimento equilibrado, conforme estabelecido pela Constituição Federal (art. 193 da CF/88); está alinhada com os objetivos da República Federativa Brasileira de garantia do
desenvolvimento nacional (art. 3º, III da CF/88); bem como cumpre os preceitos constitucionais da ordem econômica ao empregar a atividade econômica como mecanismo de redução da desigualdade social e instrumento que promove o fomento às empresas de pequeno porte de forma diferenciada (art. 170, VII e IX da CF/88).
Pode-se concluir, nesse contexto, que a expansão das Fintechs representa um movimento de efetivação de direitos constitucionalmente garantidos, tais como: a redução da desigualdade socioeconômica, o desenvolvimento regional, a educação financeira e o fomento da previdência por meio da formação de poupança.
Contudo, se por um lado as Fintechs promovem a garantia e ampliação de direitos constitucionais, estando em consonância, por tanto, com os ditames do ordenamento jurídico nacional, por outro lado, diversas inovações trazidas por essas empresas podem conflitar, ao menos em uma primeira leitura, com normas do sistema financeiro nacional: atividades desenvolvidas pelas Fintechs, como plataformas de empréstimos, deveriam se submeter à competência fiscalizatória do Banco Central, disposta na Lei 4.595/1964; o compartilhamento de informações para formação de bancos de dados e desenho de modelos de open banking pode infringir a garantia do sigilo bancário, pois esse compartilhamento está autorizado apenas por meio de expresso consentimento do cliente ou através de centrais de risco regulamentadas pelo Conselho Monetário Nacional e Banco Central, conforme impõe a Lei Complementar 105/2001; aplicativos de gestão financeira devem se submeter aos princípios do Marco Civil da Internet, tais como: a inovabilidade da intimidade, sigilo do fluxo de comunicações, informações claras e precisas sobre a forma de coleta, tratamento, registro e uso dos dados, conforme disposto na Lei 12.965/2014; as atividades de oferta e captação de recursos coletivos por meio de crowdfunding deveriam se sujeitar às normas relativas à oferta pública de Títulos e Valores Mobiliários, regulamentada pela Lei 6.385/1976; diversas atividades de investimento realizadas pelas plataformas das Fintechs devem respeitar o princípio da suitability - análise prévia do perfil dos investidores para que sejam ofertados produtos financeiros adequados ao seu perfil de risco - regulamentado pela Instrução Normativa 539/2013 da Comissão de Valores Mobiliários; as plataformas de pagamentos eletrônicos precisam adotar diversos procedimentos para combate e prevenção à lavagem de dinheiro, financiamento ao terrorismo e ao tráfico ilícito de drogas - Lei 9.613/1998 -, e precisam realizar a identificação dos clientes e destinatários finais de seus pagamentos, por meio da política de KYC (Know Your Customer) regulamenta pela Resolução 2.025/1993 do
Conselho Monetário Nacional, pela Circular 3.461/2009 e pela Carta Circular 3.680/2013 do Banco Central do Brasil; finalmente, a emissão de moedas eletrônicas como os Bitcoins e outros tipos de moedas eletrônicas em circulação - atualmente número superior a 1.300 moedas no mundo - traz grandes controvérsias jurídicas por não se enquadrarem no conceito de moeda eletrônica disposto na Lei que regulamentou os Arranjos de Pagamento, Lei 12.865/2013, permanecendo, até o momento, uma lacuna normativa sobre o tema, situação que tem gerado bastante polêmica, como o entendimento recente da CVM, no começo deste ano de 2018, que proibiu a compra direta de moedas virtuais, tais como o Bitcoin, por fundos de investimento regulados e registrados no país.
Ora, esse conjunto de ponderações apresentadas impõe um grande desafio para sistema jurídico brasileiro e para o modelo regulatório das atividades financeiras no país. A capacidade e velocidade de inovação do novo ecossistema financeiro, demanda do Direito nacional instrumentos e mecanismos de regulação mais ágeis, eficazes e até mesmo transitórios, caso contrário se instalará uma imensa insegurança jurídica no país, um alto risco de lesão à direitos e ao mesmo tempo uma diminuição no potencial de inovação de negócios.
Entretanto, essa revolução tecnológica e econômica, que está a plano vapor construindo o novo ecossistema financeiro nacional, está apenas começando a se refletir no modus operandi do sistema regulatório nacional e no mindset dos operadores do Direito, ainda muito presos aos modelos tradicionais e cristalizados. Como as normas jurídicas visam a estabilidade, normalmente, tendem a cristalizar a inovação de negócios. Por isso, uma questão muito importante a ser debatida, problematizada e analisada, objeto desse artigo, se volta para a busca de soluções de regulamentação mais versáteis que permitam e estimulem a inovação no sistema financeiro.
Nesse sentido, o problema teórico-prático aqui pesquisado tenta responder a seguinte pergunta: como o direito nacional pode construir instrumentos que garantam ao mesmo tempo estabilidade e segurança jurídica, fomentando a expansão e ampliação de inovações no sistema financeiro promovido pelas Fintechs? Os objetivos com esse estudo são, portanto: analisar e identificar, no sistema nacional e internacional, experiências e modelos regulatórios que consigam conciliar esses dois objetivos; discutir e avaliar a sua efetividade; propondo sugestões sobre a forma de regulamentação das atividades das Fintechs. A regulação adequada desse sistema financeiro virtual que está em formação - altamente complexo, incerto
e mutável – é essencial para evitar crises sistêmicas, razão pela qual nos parece ser vital a presente discussão sobre os desafios quanto aos modelos regulatórios das Fintechs.
2. METODOLOGIA
A escolha metodológica de qual procedimento científico adotar revela-se central para a obtenção de respostas válidas e racionalmente demonstráveis (LAKATOS; MARCONI, 1992), bem como é um norte importante para o desenvolvimento de pesquisas futuras.
Tendo em vista que a temática em discussão ainda é muito pouco debatida e bastante recente, tanto na literatura jurídica quanto na literatura financeira, a abordagem metodológica adotada nesse estudo será uma pesquisa exploratória, por ser a escolha procedimental mais adequada para problemas que estão pouco explorados (BABBIE, 1986), especialmente porque permite realizar uma análise mais abrangente da temática e atua como paradigma para avaliação quanto à viabilidade de novos estudos mais específicos. Quanto à sua natureza, essa pesquisa tem natureza aplicada, uma vez que se volta para análise de uma situação fático-concreta (VERGARA, 1998), tentando encontrar respostas para um problema real do sistema regulatório nacional frente a rápida expansão das Fintechs.
Por isso, tendo em vista essa natureza e objetivo expostos, os procedimentos e meios metodológicos recomendados para realizar a análise científica desse problema de pesquisa são: levantamento bibliográfico, análise de fontes secundárias e revisão da literatura; bem como a análise de exemplos concretos que possam ampliar e estimular a compreensão do fato em estudo (GIL, 2007).
Como toda pesquisa detém de forma explícita ou implícita uma hipótese que direciona o método investigativo (GIL, 2007), passa-se aqui a explicitar as bases nas quais as hipóteses dessa pesquisa se sustentam.
A primeira hipótese está alicerçada na tese de Maria Cristina Penido de Freitas segundo a qual a regulamentação financeira prudencial é fundamental para o correto equilíbrio do sistema financeiro, razão pela qual não se vislumbra que a atividade de regulação bancária deva ser reduzida ao mínimo ou não ser buscada pelo Estado. Conforme explica a autora:
[...] o espaço da concorrência bancária é circunscrito pela regulamentação, que pretende assegurar que a busca de lucros pelos bancos individuais seja feita nas condições as mais seguras possíveis, sem ameaçar a estabilidade do sistema de pagamento e de crédito. Os bancos, impulsionados pela lógica de valorização, procuram escapar aos controles e ampliar os espaços de ação através da inovação. Existe, assim, uma tensão dinâmica entre o processo competitivo inovador dos bancos (e de outras instituições financeiras) e a necessidade de aperfeiçoamento contínuo da regulamentação, dado que o comportamento dos bancos pode contribuir para o aumento da instabilidade financeira da economia. Como destaca Minsky (1986), a flexibilidade das finanças necessária ao desenvolvimento da economia não pode existir fora dos procedimentos bancários. Isso torna a atividade bancária e financeira indispensável ao dinamismo do capitalismo. Contudo, a ação dinâmica e inovadora dos bancos pode ser igualmente uma importante força perturbadora, dado que afeta tanto o volume e a distribuição das finanças como o comportamento cíclico dos preços, das rendas e do emprego [...] A atividade bancária é, desse modo, marcada por uma tensão permanente entre os objetivos de estabilidade do sistema e a procura de novas e maiores fontes de lucros pelos bancos individuais. [...] Esse ambiente condiciona igualmente as formas de concorrência bancária, cujo espaço é definido pela regulamentação prudencial com o propósito de preservar a convenção monetária e a solidez do sistema bancário (FREITAS, 2010, pp. 241-252).
Portanto, a desregulamentação tem maior potencial de geração de instabilidade financeira e econômica, como se constata com o ocorrido na crise dos subprime nos Estados Unidos em 2008. Por esse motivo, defende-se a tese segundo a qual atividade regulatória é necessária e benéfica para o sistema financeiro, especialmente devido a própria natureza do Banco Central como lender of last resort. O sistema financeiro, se não for devidamente regulado, pode causar danos sociais elevados, razão pela qual necessita de um arcabouço jurídico e normativo que alinhe os objetivos de lucratividade com segurança jurídica e estabilidade.
A segunda hipótese desse estudo se refere a forma de realizar essa regulação prudencial do sistema financeiro. O alto potencial de inovação promovido pelas Fintechs não deve ser tolhido por regulações rígidas que cristalizem as regras de negócio e as relações no ambiente concorrencial, pois isso irá reduzir de forma significativa o potencial de ganhos econômicos e sociais que a expansão mais acelerada do novo ecossistema financeiro pode promover. Por isso, advoga-se em favor de um novo modelo de construção das normas de regulação prudencial, mais ágil, flexível e participativo.
Nesse contexto, ao ser avaliada a experiência internacional, é possível encontrar um modelo que atenda a todos esses requisitos: o instituto jurídico regulatório do sandbox. Conforme explicam Ivo Jenik e Kate Lauer:
A regulatory sandbox is a framework set up by a financial sector regulator to allow small scale, live testing of innovations by private firms in a controlled environment (operating under a special exemption, allowance, or other limited, time-bound
exception) under the regulator’s supervision. The concept, which was developed in a time of rapid technological innovation in financial markets, is an attempt to address the frictions between regulators’ desire to encourage and enable innovation and the emphasis on regulation following the financial crisis of 2007–2008. A regulatory sandbox introduces the potential to change the nature of the relationship between regulators and financial services providers (regulated or aspiring) toward a more open and active dialogue. It may also enable the regulator to revise and shape the regulatory and supervisory framework with agility […] Regulators establish sandboxes for various reasons, but the most common reason is to promote competition and efficiencies in financial services markets through innovation. (JENIK; LAUER, 2017, p. 1)
O mecanismo de sandbox nasceu originalmente na área de tecnologia da informação, sendo utilizando quando se busca isolar a execução de um software dentro de um espaço virtual delimitado, permitindo a testagem e sua operacionalização sem gerar impacto ou interferência no sistema operacional como um todo. Logo, esse mecanismo limita os danos potenciais ao sistema porque restringe o processamento lógico do programa apenas àqueles privilégios de acesso necessários para executar sua função, como também garante a sua rápida descontinuidade quando da retirada desses privilégios no momento em que não sejam mais necessários (HERWIG, 2017).
O termo, que significa literalmente uma caixa de areia, simboliza a metáfora de uma caixa de areia com uma criança brincando na praia: a caixa de areia permite isolar um punhado da areia da praia em um quadrado delimitado para que criança construa um castelo ou outro objeto que sua imaginação mandar, sem influenciar o restante da areia da praia, representando um local seguro para que ela brinque e experimente novas ideias. Por tanto, a hipótese teórica desse trabalho se apoia no modelo de sandbox como instrumento capaz de conciliar consistentemente segurança com inovação, razão pela qual o seu uso como o instrumento jurídico parece o mais indicado para gerenciar o ambiente regulatório das Fintechs no Brasil.
Portanto, considerando esse quadro interpretativo, métodos e hipóteses teóricas expostas, será feita analisa dos dados colhidos nessa pesquisa, discutidos os resultados identificados e apresentadas as principais conclusões obtidas.
3. RESULTADOS
O modelo jurídico de regulação das atividades financeiras das Fintechs é bastante polêmico devido à um problema hermenêutico sobre a interpretação da Lei 4.595/1964 que regulamenta o Sistema Financeiro Nacional. Como demonstra Fabio Kupfermann Rodarte:
O artigo 17 da Lei n°4.595, de 31 de dezembro de 1964, considera instituições financeiras “as pessoas jurídicas públicas ou privadas, que tenham como atividade principal ou acessória a coleta, intermediação ou aplicação de recursos financeiros próprios ou de terceiros, em moeda nacional ou estrangeira, e a custódia de valor de propriedade de terceiros.” Como se vê, a instituição financeira define-se pela prática de atividades privativas. A definição legal de instituições financeiras é demasiado ampla: sua interpretação literal poderia levar a resultados absurdos. Por exemplo, todas as empresas que aplicam no mercado financeiro os recursos obtidos a partir de suas atividades como forma de se protegerem contra perda de valor de seu capital de giro (ou seja, quase todas as empresas brasileiras) estariam praticando atividades privativas de instituições financeiras e precisariam de autorização para operar. Por essa razão, a doutrina tem conferido interpretações mais restritivas ao texto legal. Entende-se que a caracterização de instituição financeira exige cumulativamente (i) a captação de recursos de terceiros em nome próprio, (ii) seguida de repasse financeiro através de operação de mútuo, (iii) com o intuito de auferir lucro derivado da maior remuneração dos recursos repassados em relação aos recursos coletados, (iv) desde que a captação seguida de repasse se realize em caráter habitual. Em outras palavras, a caracterização da atividade privativa de instituição financeira depende da ocorrência concomitante de três operações: captação, intermediação e aplicação (RODARTE, 2017, pp. 1-2).
Além disso, na literatura jurídica e financeira não foi encontrado nenhum trabalho mais aprofundado, além de artigos esparsos e muito pontuais, que tenham detido sobre a temática da regulamentação das Fintechs, especialmente porque essa temática é objeto de estudo da também nova área do Direito Digital, a qual ainda está em processo de formação e consolidação.
O Direito Digital, conforme explica Patrícia Peck Pinheiro, é uma evolução do próprio Direito, abrangendo os princípios fundamentais e institutos que estão vigentes e são aplicados até hoje, assim como introduzindo novos institutos e elementos para o pensamento jurídico, decorrentes da natureza da internet e das necessidades regulatórios dos contratos e negócios totalmente virtuais, tendo como características principais: a celeridade, o dinamismo, a auto-regulamentação, baixa quantidade de leis, base legal calcada na prática costumeira, o uso de analogia e soluções de arbitragem (PINHEIRO, 2010). Esses elementos típicos do Direito Digital, em especial a auto-regulamentação e celeridade são dois eixos importantes que reforçam que o instituto jurídico do sandbox é o mais adequado para resolver o problema da regulamentação das Fintechs.
A natureza dinâmica dos mercados on-line exige a adoção de métodos mais eficazes e inovadores e, por esse motivo, pautado na principiologia do Direito Digital, defende-se que o mecanismo do sandbox é um instrumento que deveria ser importado para o ordenamento jurídico nacional, especialmente para auxiliar na regulamentação das atividades financeiras
das Fintechs. O regime regulatório do sandbox foi criado nos Estados Unidos pelo Consumer Financial Protection Bureau (CFPB) in 2012; em 2015 no Reino Unido o modelo foi utilizado pela FCA (“Financial Conduct Authority”), órgão regulador do mercado financeiro britânico, e desde então está em desenvolvimento em mais de 20 países, o que demonstra que está em fase de plena expansão (JENIK; LAUER, 2017).
Aqui no Brasil já há sinais claros que apontam que o instituto tem possibilidades reais de se concretizar no futuro próximo: no final de dezembro do ano passado, durante o Seminário FinTech Brasil: Tecnologia e Inovação no Setor Financeiro, a CVM anunciou a criação de um novo grupo de trabalho dentro do Laboratório de Inovações Financeiras - projeto conjunto da Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) - para discutir modelos e possibilidades de aplicação do instituto do sandbox para regulamentar a atuação das Fintechs no país. Além disso, no ano passado foi aberta uma consulta pública pelo Banco Central do Brasil para colher percepções dos atores de mercado quanto a regulamentação das Fintechs de crédito - Consulta Pública 55/2017 que criou duas novas figuras jurídicas no sistema creditício das Fintechs: a Sociedade de Crédito Direto (SCD) - instituição financeira que realiza empréstimos a partir de capital próprio e exclusivamente por meio de plataforma eletrônica; e a Sociedade de Empréstimo entre Pessoas (SEP) - intermediadora de empréstimos entre credores e devedores, peer to peer lending. Essa consulta pública, que obteve cerca de 85 sugestões e considerações, já denota uma nova atitude do regulador de maior diálogo com o segmento das Fintechs para construção da regulamentação do setor e poderá se configurar, a depender de como for implementada, como um exemplo concreto do uso da metodologia do sandbox no sistema financeiro brasileiro.
A grande vantagem do modelo de sandbox para a regulamentação financeira das Fintechs se deve ao fato desse modelo permitir que as empresas validem e testem seus serviços, modelos de negócios, produtos financeiros em um ambiente real de interação com seus consumidores finais, mas ao mesmo tempo de forma controlada e administrado pela autoridade reguladora.
Ora, essa proposta é uma verdadeira adaptação do Direito Digital ao universo conceitual e metodológica das startups, na medida em que o sandbox é uma forma de concretização do MVP (Produto Minimamente Viável) jurídico. O MVP, conceito criado por
Eric Ries na obra Lean Startup, é um método de desenvolvimento e lançamento primário de um produto, o mais cedo o possível, gastando o mínimo de esforço necessário para seu lançamento, um protótipo muito básico que pode ser testado e validado pelos clientes, para serem coletadas informações e experiências dos usuários e gerado aprendizado com essas experiências para posteriormente ser tomada uma decisão definitiva sobre o produto final (RIES, 2012).
O uso dessa metodologia, concretizada no instituto do sandbox, promove uma mudança de mindset nos operadores do Direito, alinhada, mais uma vez, a principiologia do Direito Digital, contribuindo para a construção de uma regulação mais justa, equânime, adequada e aberta às inovações do mercado. Como argumenta Daniel Alvarenga, em matéria recentemente divulgada no mês de abril desse ano no Jornal “Valor Econômico”:
São muitos os benefícios a serem verificados com a implementação do “Sandbox” regulatório no Brasil: 1-permitir que o órgão regulador trabalhe próximo as fintechs para compreender melhor o mercado e garantir que proteções adequadas ao consumidor sejam incorporadas aos novos produtos e serviços; 2- permitir que mais produtos sejam previamente testados e, assim, garantir que sejam disponibilizados produtos ao mercado em conformidade regulatória; 3- reduzir o tempo e, potencialmente, o custo de colocar ideias inovadoras no mercado; e 4- viabilizar maior acesso ao financiamento para os inovadores, vez que a redução de incerteza regulatória atrai investimentos. Assim, além de salvaguardar os consumidores e o mercado, a obtenção ou validação perante o órgão regulador para operar via “Sandbox” regulatório, auxiliará as fintechs a darem mais segurança aos possíveis parceiros, bem como a terem acesso a novos financiamentos. Sem dúvidas, são significativos os benefícios a serem verificados pelo mercado e pelos consumidores com a implementação deste projeto inovador no Brasil (ALVARENGA, 2018).
Assim, esse modelo traz ganhos para ambos os atores (regulador e mercado), devendo ser buscado como uma nova metodologia para implementação dos normativos de regulação prudencial. Especialmente devido ao custo operacional para adequação ao compliance regulatório, se forem adotadas as mesmas exigências normativas de um banco tradicional para uma Fintech o modelo de negócio dessas startups tecnológicas não será viável, devido a falta dos benefícios decorrentes da economia de escala. Além disso, a lentidão de atualização normativa dos procedimentos tradicionais não é capaz de alcançar a velocidade de transformação do setor, deixando diversos temas sem qualquer definição regulatória mínima, situação a qual encontra-se o tema no Brasil nesse presente momento.
Finalmente, recomenda-se, para a utilização do sandbox de forma coerente com seus princípios e finalidade, a observância de alguns critérios específicos para solicitar a adoção de uma regulação específica. Utilizando os guidelines e standards do Autoridade Monetária de
Singapura2 como inspiração bem como as boas práticas do país na construção de normativos de regulação do setor financeiro, defende-se que os critérios mínimos para construção de um sandbox especifico sejam, pelos menos, os seguintes:
o serviço financeiro promove uma inovação genuína ou utiliza tecnologias emergentes de forma a promover ganhos reais para o sistema financeiro;
traz benefício direito para os consumidores ou para o setor financeiro;
há interesse em implantar o serviço em escala ampliada após a sua saída do sandbox; iv) ampla discussão e debate com mercado para implementação e delimitação do
sandbox, por meio de consultas públicas;
sejam priorizadas regras autorregulatórias, baseadas em princípios e numerus apertus;
definição clara dos limites do sandbox de forma a garantir a segurança do setor e dos consumidores;
mitigação de riscos decorrentes da atividade financeira e testes sobre os impactos da atividade;
definições claras de prazos e estratégia para encerramento, atualização e saída do sandbox.
Esse conjunto de requisitos garantem a ampla regulamentação do setor de forma mais proativa, eficaz e ágil, contribuindo para a inovação no mercado de forma segura, razão pela qual podem ser implementados no país nos temas mais prementes do setor nesse momento: regulamentação dos Bitcoins, regulamentação das parcerias para desenho de modelos de open banking; crowdfunding e Fintechs de crédito.
4. CONCLUSÕES
A nova realidade cibereconômica e cibersocial impôs uma mudança radical nos modelos de atuação de todos os ramos de negócios. Como discutido, a emergência e expansão das Fintechs remodelou toda estrutura do mercado e está promovendo a formação de um novo ecossistema financeiro, mais justo, inclusivo e orientado às necessidades dos consumidores. Contudo, dadas as características desse novo mercado, caso não haja uma regulação prudencial há forte risco sistêmico que trará impactos sociais negativos.
Por isso, deve-se buscar um equilíbrio entre segurança jurídica e inovação financeira, o qual pode ser obtido por uma mudança de postura do regulador ao começar a construir normas temporárias, delimitadas a temas específicos e provisórias, se valendo do instituto do sandbox, já utilizado em vários países do mundo.
Pautado na principiologia do Direito Digital esse instituto traz diversos benefícios para a regulamentação do sistema financeiro nacional, razão pela qual recomenda-se seu uso no país, especialmente porque garante direitos de forma eficaz, eficiente, fomentando a livre iniciativa econômica, valores de alta relevância constitucional.
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