Pronunciamento sobre a Transposição de Águas do Rio São Francisco 22-Fev-2007

Texto

(1)

Pronunciamento sobre a Transposição de Águas do Rio São Francisco

22-Fev-2007

O Projeto de Transposição de Õguas do Rio São Francisco segue gerando acalorados debates e sendo objeto de uma profusão de ações judiciais que pretendem impedir sua continuidade. Diversas das audiências públicas agendadas para discutir o projeto não chegaram a se realizar, outras transcorreram sob vigorosos protestos dos opositores dessa dispendiosa, polêmica e pouco debatida obra.

 Parlamentar baiana, que conheceu ainda na infância o Velho Chico, que percorreu suas margens em visitas às cidades ribeirinhas, que viu de perto os perversos efeitos da seca que aflige até mesmo cidades e áreas próximas do rio e que testemunhou as incontáveis iniciativas da sociedade civil em defesa da preservação do São Francisco e do uso racional de suas águas, vejo-me obrigada a participar dessa discussão sobre a transposição, que, aliás, tem se dado de forma precária, com o uso de muitos argumentos falaciosos, dados inconsistentes, informações incompletas, fora do contexto do debate maior sobre o uso racional das águas em um mundo onde a escassez desse bem é cada vez maior.

Não resta dúvida de que o São Francisco é um rio grandioso, como grandiosos são os números a ele relacionados: vazão d'água, declive, evaporação, trecho navegável, área irrigável, população e área de bacia, capacidade de reservatórios, número de cidades ribeirinhas, energia produzida e potencial energético.

O São Francisco é um rio de integração nacional e, para o Nordeste, redentor, de cujas águas o nordestino depende para ter acesso à energia elétrica, beber, pescar, transportar, irrigar, enfim, para assegurar o progresso e

desenvolvimento da mais pobre e mais desassistida região do PaÃ-s. Pelas águas verdes do São Francisco passou e ainda passa parte importante do desenvolvimento do Brasil e, em especial, do Nordeste.

O Velho Chico nasce na Serra da Canastra, em Minas Gerais, e percorre 2.700 quilômetros até atingir o Oceano Atlântico, na divisa dos Estados de Sergipe e Alagoas. Sua bacia possui 640 mil quilômetros quadrados, abarcando vasta área que envolve partes do Distrito Federal e dos Estados de Minas Gerais, Bahia, Goiás, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, onde se distribuem 503 MunicÃ-pios e vivem cerca de 14 milhões de pessoas.

Do total da área da Bacia do São Francisco, 306.000 quilômetros quadrados pertencem ao Estado da Bahia; 237.000 a Minas Gerais; 71.000 a Pernambuco; 14.000 a Alagoas e 8.000 a Sergipe; Goiás e BrasÃ-lia têm, respectivamente, 3.800 e 1.400. Mais de metade da área do vale está compreendida dentro do chamado PolÃ-gono das Secas.

Ao longo de seu percurso, 58% dos quais em solo nordestino, o Rio São Francisco apresenta 2 estirões navegáveis: o médio, com cerca de 1.371 quilômetros de extensão, entre Pirapora (MG), Juazeiro (BA) e Petrolina (PE); e o baixo, com 208 quilômetros, entre Piranhas (AL) e a foz, no Oceano Atlântico.

Rio que corta a mais árida região brasileira, o Velho Chico é carente de afluentes perenes em seus dois terços superiores. Cerca de 75% das águas que o alimentam são provenientes de Minas Gerais, cuja área da bacia ali inserida é de apenas 37% do total. A área compreendida entre a fronteira Minas-Bahia e a cidade de Juazeiro (BA) representa 45% do vale e contribui com apenas 20% das águas depositadas anualmente no curso do rio.

À medida que o São Francisco penetra na zona sertaneja semi-árida, apesar da intensa evaporação, da baixa pluviosidade e dos afluentes temporários da margem direita, tem seu volume d'água diminuÃ-do, mas mantém-se perene, graças ao mecanismo de retroalimentação proveniente do seu alto curso e dos afluentes no centro de Minas Gerais e oeste da Bahia.

O São Francisco é responsável pela geração de 95% da energia elétrica do Nordeste e seu potencial instalado é de 10.800 MW, quase integralmente explorado pela CHESF. Sua vazão média é de 2.800 m3/segundo. A mÃ-nima

garantida para produção de energia elétrica é de 2.060 m3/segundo, e a quantidade que se perde com a evaporação chega a 200 m3/segundo. Outros 200 m3/segundo são usados para abastecer os projetos de irrigação existentes e em pleno funcionamento. Conta, pois, com apenas 340 m3/segundo para ampliar a capacidade instalada de produção de energia elétrica do Nordeste, aumentar o perÃ-metro irrigado da Bacia do São Francisco e "outros usos". Tanto é assim que, no Plano de Recursos HÃ-dricos da Bacia Hidrográfica do São Francisco, aprovado pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco, consta que, de um total alocável de 360 m³/s, 335 m³/s já se encontram outorgados, restando apenas 25 m³/s para os múltiplos usos, tanto na bacia como externamente.

"Só a área da Bacia do São Francisco potencialmente irrigável é de 3 milhões de hectares, sendo que o último plano de desenvolvimento do Vale do São Francisco a reduz para 2,5 milhões de hectares. O Ã-ndice de cálculo aceito para irrigação nesses casos é de meio litro por segundo por hectare, o que significa que a irrigação prevista para os 2,5 milhões ou 3 milhões de hectares demandaria 1.250 m3/segundo ou 1.500 m3/segundo. A água disponÃ-vel nas

condições atuais é, assim, um quinto da necessária à irrigação da área prevista na própria bacia", constata o ex-Deputado Haroldo Lima em criterioso estudo sobre o uso das águas do Rio São Francisco.

A Bacia do São Francisco é uma região muito complexa tanto do ponto de vista ambiental, caracterizado por uma imensa variedade climática, com secas e enchentes periódicas; por grande variedade de ecossistemas naturais, com lagoas marginais, e biodiversidade, estando várias espécies de mamÃ-feros, peixes e pássaros ameaçados de

(2)

extinção; quanto do social, econômico e polÃ-tico, caracterizado por graves problemas de pobreza, má nutrição, doenças e concentração de renda devido à perversa história do desenvolvimento econômico-polÃ-tico e de dominação da elite ruralista ao longo da bacia. Cerca de 15 milhões de habitantes residem na Bacia do Rio São Francisco, com alta taxa de migração e êxodo rural.

Historicamente, a urbanização, projetos de irrigação e ações/planos não integrados ajudaram a transformar os tributários da Bacia do Rio São Francisco em esgotos a céu aberto, com represas e lagos contaminados por efluentes municipais e industriais, como esgotos sanitários e metais pesados vindos de mineração; e poluição dispersa originada na agricultura irrigada, tais como pesticidas, agrotóxicos e fertilizantes. A Bacia do Rio São Francisco ainda enfrenta problemas sérios de qualidade da água e de saneamento porque, em parte, sua resolução exige alto investimento com baixo retorno financeiro.

Dado alarmante sobre a degradação do Rio São Francisco pode ser constatado em Alagoas, onde, após todas as barragens, a vazão do rio sofreu uma queda de quase 15% nos últimos 20 anos, em relação à média do perÃ-odo entre 1926 e 1973. Com a instalação das barragens de Sobradinho e de Xingó, a vazão do Rio São Francisco ficou reduzida de tal modo que o mar, sem encontrar a resistência da antiga força das águas do São Francisco, vem aos poucos penetrando rio acima com a preocupante possibilidade de salinização de suas águas.

Uma prova evidente dessa realidade é que na cidade de Penedo, distando aproximadamente 42 quilômetros da foz do Velho Chico, já se consegue capturar peixes de espécies marinhas, como camurim, xaréu e tainhas, fato novo e altamente preocupante, além da presença de grande quantidade de sargaços, alga feofÃ-cea dos mares. Ora, se o peixe e a vegetação de água salgada conseguem adentrar a uma distância de 42 quilômetros de seu hábitat natural, é porque os nÃ-veis de sal no São Francisco, presume-se, estão tão elevados que possibilitam a formação de um ambiente favorável à sobrevivência de tais espécies em suas águas.

O desmatamento, que seca muitas nascentes, acaba com as matas ciliares, amplia a erosão e assoreamento do rio torna-se questão menor na voz dos que vendem a redenção do Nordeste Setentrional com a chegada das águas do Velho Chico. O mesmo se dá com os problemas causados pela mineração, que atingem não apenas o São Francisco, mas todos seus principais afluentes.

As agressões que sofre o rio podem ser verificadas na região metropolitana de Belo Horizonte (MG), que abarca 30% da população de toda a bacia e compreende apenas 1% de sua área total, mas é responsável por cerca de 26% da poluição das águas do Velho Chico, principalmente pelo lançamento de dejetos urbanos e industriais nos afluentes do São Francisco, como o Rio das Velhas. Nas grandes áreas de agricultura irrigada, a poluição tende a se agravar também por causa do lançamento crescente de agrotóxicos no rio.

É em meio a esse quadro de degradação do Rio São Francisco, de devastação de suas margens, de assoreamento de seu afluentes e de miséria reinante entre seus ribeirinhos que o Governo pretende dar prosseguimento ao Projeto de Transposição de Õguas do Rio São Francisco, vendido como uma necessidade para "equilibrar as oportunidades para a população residente na região semi-árida, com a oferta de água doce (abastecimento humano), como alimento ao corpo, higiene pessoal e ambiental, e fonte de renda necessária a um padrão de vida digno" e para "prover a

população de sua área de influência direta, nos Estados do Ceará, ParaÃ-ba, Rio Grande do Norte e Pernambuco de fontes hÃ-dricas mais seguras para o abastecimento público e a produção de alimentos, especialmente nas várzeas fluviais próximas, ocupadas com a pequena produção agrÃ-cola".

A cega defesa do projeto de transposição ignora dados e informações inconvenientes, despreza números e fecha os olhos para a gravidade dos problemas enfrentados pelo Rio São Francisco ao longo de seus 2.700 quilômetros de

extensão.

Argumentam que a disponibilidade hÃ-drica garantida pela barragem de Sobradinho, mesmo nos anos secos, é de 1.825 m³/s e que, entre os múltiplos usos da água, que alcançam 1.300 m3/s (geração/meio ambiente), e o consumo na Bacia, que chega a 1562 m³/s, há uma folga de 263 m3/s. Chegam ao absurdo de considerar

desperdÃ-cio o volume de água que o Velho Chico despeja no Oceano Atlântico, como se essa água não estivesse cumprindo importante papel por onde passa ao longo de seu percurso até o mar.

Dados cientÃ-ficos relacionados com o volume de água perdido com a evaporação dos lagos de Itaparica e

Sobradinho, por exemplo, não constam sequer nos inúmeros estudos disponibilizados pela CODEVASF e pela Agência Nacional das Õguas acerca da transposição.

Tais dados mostram que, na cota normal de operação, a área do lago de Sobradinho é de cerca de 4.200 quilômetros quadrados, e a do lago de Itaparica de cerca de 800. Usando o método criado em 1948 por Howard Penman

(1909-1984) para estimar a evaporação da superfÃ-cie dos lagos (com considerações sobre o balanço de radiação e de energia na região), obtém-se uma perda média de 8 mm/dia, ou seja, 8 litros/m2/dia por evaporação. Aplicando-se essa taxa à soma da área dos 2 lagos (cerca de 5 mil quilômetros quadrados) obtém-se uma perda média por evaporação de 460 m3/s, valor teórico muito próximo do decréscimo de vazão (450 m3/s) registrado, entre os 2 perÃ-odos estudados, em Pão de Açúcar.

(3)

Para dar uma idéia do que significa essa perda por evaporação, basta citar que o Rio Colorado, que fez da Califórnia, nos Estados Unidos, o maior pomar do mundo, tem vazão média de 528 m3/s. Portanto, os 2 lagos perdem, por

evaporação, quase um Rio Colorado inteiro. Com relação ao potencial hidrelétrico, essa vazão permitiria gerar por ano mais 750 MW ou 6,6 TWh (que valem US$220 milhões anuais).

Embora o projeto de transposição ainda não tenha obtido a licença ambiental do IBAMA, o Orçamento da União para o ano de 2005 já conta com a previsão de recursos da ordem de R$624 milhões para o inÃ-cio das obras civis, cujos custos totais são estimados em R$4,5 bilhões. Já para tocar o programa de revitalização do São Francisco, o Orçamento de 2005 dispõe de apenas R$120 milhões, recursos estes comumente contingenciados e não efetivamente investidos ao longo dos anos.

O programa de revitalização do Rio São Francisco exige gastos continuados de R$6 bilhões e prevê a adoção de imediatas ações de recuperação do rio, entre elas a regularização do São Francisco, com 11 barragens, o repovoamento de peixes, a despoluição e o tratamento de esgoto em todas as regiões, a recuperação de áreas degradadas, reflorestamentos e ações de educação ambiental. Mas essas ações devem demorar pelo menos uma década para surtir grandes efeitos. Só a parte de regularização, por exemplo, tem condições de aumentar em 500 m³/s a vazão do rio, mas ainda está em estudos e as obras não começam em menos de 6 anos, segundo confirma a própria CODEVASF.

A navegação pelo São Francisco, que no passado se fazia, sem dificuldades, no trecho entre Pirapora (MG) e Juazeiro (BA) - totalizando quase 1.500 quilômetros -, atualmente se restringe aos 100 quilômetros anteriores a esta última cidade, exclusivamente em território baiano. Além disso, os comboios, que transportavam até 2 mil toneladas de grãos de cada vez, não passam de mil toneladas. A situação é tão crÃ-tica que a Companhia de Navegação do São Francisco (FRANAVE) se desfez de suas embarcações. O assoreamento que impede a navegação vem do desmatamento, principalmente em Minas Gerais, onde o rio recebe mais de 70% de suas águas. O engenheiro

agrônomo e pesquisador João Suassuna, da Fundação Joaquim Nabuco, estima já terem sido destruÃ-dos 75% da vegetação e 95% das matas ciliares do rio. Segundo ele, a maior parcela de culpa cabe à s siderúrgicas mineiras, consumidoras de 6 milhões de toneladas de carvão vegetal por ano, quase a metade delas retirada das matas nativas. Por outro lado, o avanço da fronteira agrÃ-cola para o oeste baiano extinguiu os Rios Capão, Sucuriú e Cabeceira Grande, que alimentavam tributários do São Francisco. Com base nos estudos já feitos, Suassuna estima que 18

milhões de toneladas de solos sejam carreados anualmente para a calha do rio. É como se, a cada dia, 5.480 caminhões-caçamba cheios de terra despejassem essa carga em suas águas, calcula o pesquisador.

A lentidão que é regra quando se trata de adotar ações de revitalização do São Francisco não se repete quando se trata de medidas relacionadas com a transposição. Embora o IBAMA nem tenha começado as audiências públicas para avaliar, ainda de forma preliminar, a viabilidade da transposição do São Francisco, o Ministério da Integração Nacional reuniu empreiteiros e anunciou que serão divididos em 14 lotes os 700 quilômetros de canais de concreto que quer construir na caatinga para levar as águas do rio a 4 Estados fora da bacia.

O inÃ-cio das obras, segundo cláusula incluÃ-da no edital para compra de equipamentos e que também constará do edital para escolher as empreiteiras, dependerá do aval do IBAMA. A estratégia do Ministério da Integração Nacional, porém, é seguir com as licitações. Cada empreiteira ou consórcio de empreiteiras poderá ganhar, no máximo, 2 trechos da obra, segundo o modelo definido pelo Ministério. Os lotes, a serem disputados simultaneamente, têm valores próximos, de cerca de R$300 milhões cada um.

O Diário Oficial do dia 14 de janeiro de 2005 traz uma nota discreta da União que torna pública a escolha do consórcio Logos-Concremat para gerenciar e dar apoio técnico ao projeto, ao custo de R$62,6 milhões.

Curiosamente, embora o Governo tenha gasto R$2,79 milhões para que o consórcio internacional Jaakko Pöyry-Tahal realizasse um estudo avaliando o impacto ambiental da transposição, o resultado de tal estudo permanece

engavetado. No relatório apresentado, prevêem-se 38 impactos negativos, dos 49 fatores de risco analisados. Entre eles, a extinção de algumas espécies de peixes, a proliferação de piranhas, o aumento da erosão e do assoreamento, a redução da geração de energia e os danos a sÃ-tios arqueológicos.

Mesmo se considerarmos a existência de água suficiente para realizar a transposição pretendida, o grande problema é garantir qualquer sustentabilidade futura. Especialistas reforçam que o projeto do Governo representa uma real ameaça para a sobrevivência do São Francisco, o que implica afirmar que toda uma geração futura corre o risco de pagar um alto custo, principalmente as comunidades ribeirinhas, que serão as maiores vÃ-timas da perpetuação da miséria, hoje realidade em diversos MunicÃ-pios banhados pelo Velho Chico.

A transposição do Rio São Francisco também não oferece em seus propósitos segurança hÃ-drica para as populações mais necessitadas do semi-árido. O projeto atinge apenas 5% do semi-árido. Mesmo ignorando todos os problemas ambientais, sociais e técnicos que permeiam o projeto, ele sequer se propõe a resolver os problemas de sede

(4)

e insegurança hÃ-drica de nossa população mais necessitada de água. Essa população está espalhada pelo semi-árido, muitas vezes a milhares de quilômetros dos eixos da transposição.

Estudo realizado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) concluiu que 70% dos açudes públicos do Nordeste não estão disponÃ-veis para a população. Ou seja, assim como no que se refere à repartição da terra, a influência polÃ-tico-econômica na distribuição da água certamente exercerá grande influência.

Levantamentos realizados por especialistas mostram que a transposição de águas do Rio São Francisco é uma obra cara, de viabilidade duvidosa, tecnicamente incapaz de resolver a problemática da seca que atinge vastas regiões do Nordeste Setentrional. Ela não beneficiará a população que mais sofre com o perÃ-odo da estiagem, pois da água que o Governo quer transpor, 70% irá para irrigação e 26% para o abastecimento de grandes cidades, restando 4% para o consumo humano difuso, os incontáveis sertanejos que passam sede no meio da caatinga.

A população potencialmente beneficiada não ultrapassaria 0,28% de todos os habitantes do semi-árido brasileiro, em não mais que 5% dessa sub-região. E a água será levada para a segunda região mais açudada do mundo, ou seja, para onde existe mais água, pois o Ceará é suprido por açudes em toda a sua extensão.

Aliás, é preciso deixar claro que o atual projeto de transposição prevê que 26 metros cúbicos serão transportados do Rio São Francisco. Desses, 5 irão para o Rio Grande do Norte e ParaÃ-ba e os outros 21 para o Ceará, mais

especificamente para o Castanhão, o maior açude do Brasil. Leve-se em conta ainda que o Ceará tem

aproximadamente 18 bilhões de metros cúbicos de estoque de água; o Rio Grande do Norte, em torno de 5 bilhões, e a ParaÃ-ba, cerca de 2 milhões. Os 2 primeiros Estados utilizam aproximadamente 50% da água, e o último, cerca de 65%. Esses dados revelam que o problema nesses locais não é carência de água, mas falta de investimentos para permitir seu aproveitamento.

Segundo o hidrólogo João Abner, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a água da

transposição seria das mais caras do mundo, inviabilizando qualquer projeto econômico que nela se baseasse, pois chegaria entre o dobro e o quádruplo do que custa hoje às margens do São Francisco - R$0,023 por m³ -, nos projetos de irrigação de Juazeiro e Petrolina. No EIA/RIMA (Estudo de Impacto Ambiental - Relatório de Impacto Ambiental), o custo estimado é de R$0,11 por m³. "Mas esse valor não contempla os gastos com bombeamento das fontes de abastecimento até as propriedades: se computados, podem chegar ao seu destino final a uma cifra entre 4 a 7 centavos de real o m³", calcula o hidrólogo.

O professor acredita que se água e irrigação fossem soluções, não haveria seca nem fome a poucos quilômetros do Rio São Francisco, nem tanta insegurança em Juazeiro e Petrolina, "mecas da irrigação", com Ã-ndices de violência entre os piores do interior do Nordeste. "Ou repensamos o modelo de agricultura, de desenvolvimento e de sociedade, ou todas as tentativas de solução serão, ao cabo, agravamento do problema", diz.

"Apenas a transposição de vazão, porém, não resolveria os problemas do Rio São Francisco, pois o seu vale vem sofrendo impactos ambientais severos, em função das atividades humanas desregradas, ao longo de 500 anos. É necessário adotar medidas complementares, como recuperação do ambiente e dos ecossistemas, particularmente das matas ciliares, fundamentais no controle da erosão e do assoreamento da calha do rio. Uma proposta complementar a essa seria a redução - em 1 metro - da atual cota de operação do lago de Sobradinho, o que reduziria em 120 m3/s a perda de água por evaporação. Assim, a perda atual, de 450 m3/s, somados os lagos de Sobradinho e Itaparica, cairia para 330 m3/s", diz o Prof. Luiz Carlos Baldicero Molion, da Universidade Federal de Alagoas.

A alternativa defendida por muitos especialistas de interligar as bacias dos Rios Tocantins e São Francisco para aumentar o volume de água desse último não é sequer mencionada nos documentos oficiais que tratam da transposição. Essa alternativa, objeto de estudos de respeitados especialistas, parte do pressuposto de que, ao contrário do Rio São Francisco, existe abundância de águas na Bacia do rio Tocantins, que se interliga naturalmente com a Bacia do Velho Chico na Lagoa do Veredão, situada perto da divisa entre os Estados da Bahia e do Tocantins, onde nascem os Rios do Sono e Novo (afluentes do Tocantins) e Sapão, Preto e Grande (afluentes do São Francisco). Por canais existentes no subsolo, no divisor de águas, estima-se que, durante o perÃ-odo de cheia do Tocantins, ocorra a transposição natural de cerca de 80 a 110 m³/s de água para afluentes do São Francisco, segundo mostra estudo do professor Carlos Botelho, da Universidade Federal do Ceará.

Um canal com cerca de 150 quilômetros de extensão, ligando os Rios do Sono e Sapão, e obras hidráulicas apropriadas seriam suficientes para tornar contÃ-nua e controlada a transferência de água do Tocantins para o São Francisco. Nessas circunstâncias, seria possÃ-vel pôr em prática os planos de levar água do Rio São Francisco (cerca de 70 m3/s) para amenizar a deficiência hÃ-drica de outros Estados da região, como Ceará, ParaÃ-ba, PiauÃ- e Rio Grande do Norte, sem afetar a geração de energia elétrica ou a agricultura irrigada da Bacia do Velho Chico.

Trata-se, obviamente, de uma obra de elevado custo, como é o caso da transposição pretendida, mas que permitiria dotar o Rio São Francisco e o árido Nordeste de água suficiente para a resolução de seus graves problemas. E o Nordeste carece de investimentos de maior vulto por parte da União, que ao longo dos anos concentra no Centro-Sul a maior parte de suas grandes obras, duplicando estradas, ampliando portos, construindo gasodutos, instalando usinas,

(5)

enfim, concentrando na região mais rica do PaÃ-s os investimentos provenientes dos impostos pagos por todos os brasileiros.

Pelas razões expostas, manifesto-me contra o projeto de transposição do Rio São Francisco nos moldes em que está sendo tocado e faço um apelo aos Srs. Deputados, ao povo de Minas Gerais, Goiás, do Distrito Federal e do Nordeste, Unidades Federativas que têm áreas incluÃ-das na Bacia do São Francisco, para que cerremos fileiras na defesa do Velho Chico, para que empunhemos com determinação a luta por sua revitalização e asseguremos a adoção imediata de medidas como o replantio de matas nas nascentes do rio, o aumento de sua navegabilidade, disciplina e

proteção da pesca, melhora no tratamento de água e esgotos das cidades ribeirinhas e a implementação de ações de apoio às comunidades do Vale.

Encerro meu pronunciamento com louvação ao Velho Chico, da lavra do poeta maior, Castro Alves. "O São Francisco

Castro Alves

Longe, bem longe, dos cantões bravios, Abrindo em alas os barrancos fundos; Dourando o colo aos perenais estios, Que o sol atira nos modernos mundos; Por entre a grita dos ferais gentios,

Que acampam sob os palmeirais profundos; Do São Francisco a soberana vaga Léguas e léguas triunfante alaga! Antemanhã, sob o sendal da bruma, Ele vagia na vertente ainda,

- Linfa amorosa - co'a nitente espuma Orlava o seio da Mineira linda; Ao meio-dia, quando o solo fuma Ao bafo morto de u'a calma infinda, Viram-no aos beijos, delamber demente As rijas formas da cabloca ardente. Insano amante! Não lhe mata o fogo O deleite da indÃ-gena lasciva... Vem - à busca talvez de desafogo Bater à porta da Baiana altiva. Nas verdes canas o gemente rogo Ouve-lhe à tarde a tabaroa esquiva... E talvez por magia... à luz da lua Mole a criança na caudal flutua. Rio soberbo! Tuas águas turvas Por isso descem lentas, peregrinas... Adormeces ao pé das palmas curvas Ao músico chorar das casuarinas! Os soltos - retesando as curvas -, Ao galope agitando as longas crinas, Rasgam alegres - relinchando aos ventos - De tua vaga os turbilhões barrentos. E tu desces, ó Nilo brasileiro,

As largas ipueiras alagando, E das aves o coro alvissareiro Vai nas balsas teu hino modilhando! Como pontes aéreas - do coqueiro Os cipós escarlates se atirando, De grinalda em flor tecendo a arcada São arcos triunfais de tua estrada!..."

 *Dep. Alice Portugal

Imagem

Referências

temas relacionados :