Cuiabá
AFONSO RODRIGUES ALVES
ContoS
© 2017. Alves, Afonso Rodrigues.
Todos os direitos desta edição reservados para Entrelinhas Editora.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Índices para catálogo sistemático: 1. Contos : Literatura brasileira 869.3 Alves, Afonso Rodrigues
Contos do corte / Afonso Rodrigues Alves. -- Cuiabá : Entrelinhas, 2017.
ISBN 978-85-7992-106-3 1. Contos brasileiros I. Título.
17-07939 CDD-869.3
Av. Senador Metelo 3773, Jardim Cuiabá | Cep. 78.030-005 | Cuiabá-MT Tel.: (65) 3624 5294 | 3624 8711
e-mail: [email protected] | www.entrelinhaseditora.com.br
Editora Maria Teresa Carrión Carracedo
Obra da capa e miolo Humberto Espíndola
Arte-finalização Maike Vanni
Revisão Marinaldo Custódio
Produção gráfica Ricardo Miguel Carrión Carracedo
Reprodução fotográfica da capa Protásio de Moraes
Assistente na edição Walter Galvão
Obra da capa:
Formação geológica – Pantanal (1995), de Humberto Espíndola. Óleo sobre tela, 140 x 190 cm, da coleção do artista.
“À minha mãe, Vera Lúcia Rodrigues, por todo carinho, incentivo e amor.”
Há muitas formas de agradecer e de se conectar com outros.
As que aprecio são presença, amor, tempo... A Deus, por oferecer diferentes chaves para os diferentes mistérios encontrados. A Wilson Guerreiro Pinheiro e Jocelda Stefanello pela imensa presença e suporte na construção deste livro.
A presença de amigos torna o caminho de acreditar em si mesmo um pouco mais fácil. À Maria Teresa, da Entrelinhas
Editora, por acreditar na minha escrita e pelos valorosos incentivos.
A todos os amigos que sempre estiveram presentes me ensinando a viver, me corrigindo, e principalmente mostrando que sempre posso aprender mais e mais.
“Um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós.”
Criado em 2015 pela Secretaria de Estado de Cultura, o Prê-mio Mato Grosso de Literatura incentiva a produção literária regional, valorizando escritores mato-grossenses em atividade e estimulando o surgimento de novos talentos.
O Prêmio integra as políticas públicas implementadas pela SEC/MT na área da literatura, previstas no Plano Estadual de Cul-tura (Lei 10.363/2016), que inclui o Plano Estadual do Livro, Lei-tura, Literatura e Biblioteca de Mato Grosso (PELLLB-MT).
As principais metas do PELLLB-MT objetivam a democratiza-ção do acesso ao livro; fomento e valorizademocratiza-ção da leitura, literatu-ra e bibliotecas; formação de mediadores paliteratu-ra o incentivo à leitu-ra; valorização institucional do livro, leitura, literatura e bibliote-cas; desenvolvimento da economia do livro como estímulo à pro-dução intelectual e ao desenvolvimento da economia estadual; fomento à cadeia criativa e produtiva do livro; acesso aos bens culturais e desenvolvimento intelectual e promoção da cidadania.
O corte dos contos
Aclyse de Mattos
1Tenho um amigo português, escritor, que não se
conforma com a escrita de Saramago. “Quando se lê
Saramago, parece que não estamos lendo português”,
disse-me ele. Tamanho é o estranhamento que o modo
de narrar e construir as longas frases que esse
imen-so escritor português engendra que toda uma nova
forma de entender a língua portuguesa se descortina.
Guardadas as devidas proporções, me pergunto se a
forma com que Afonso usa para narrar seus Contos do
corte que rupturas trazem para a percepção que temos
sobre a forma dos contos na literatura brasileira.
Não é uma invenção verbal na forma de
escre-ver (como Guimarães Rosa), nem na forma de
nar-rar (como Dalton Trevisan), mas na
multiperplexida-de que multiperplexida-desperta ao percebermos e questionarmos: são
contos? São crônicas? São ensaios literários
filosófi-cos? Cada leitor responda conforme seu repertório. O
1 Poeta, escritor, professor da Faculdade de Comunicação e Artes da UFMT, mestre pela ECA-USP e doutor pela PPG-COM da UFMG.
caso é que são contos difíceis de enquadrar numa
li-nha literária.
Sendo o primeiro livro de um jovem autor
(Afon-so tinha pouco mais de 22 anos quando o escreveu),
fica a promessa de como se desenvolverá esse estilo e
essa forma de narrar. Sim. Mesmo Saramago começou
menos Saramago até amadurecer seus extensos
pará-grafos.
O enigma que nos propõe Afonso nestes contos
passa macunaimicamente pelos sucessivos cortes
en-tre as partes do livro e a própria diversidade dos
con-tos. Tendo formação em Ciências Sociais com alguns
passeios pela filosofia
2, esse lastro transparece mais em
determinadas seções. Sendo – como eu – um
brasilei-ro do interior do Centbrasilei-ro-Oeste do Brasil, suas
vivên-cias estão também impregnadas em diversas etapas
dos contos. Mas em Afonso tanto a memória como o
conhecimento, tanto a imaginação quanto a
realida-de se imbricam e formam uma escrita realida-densa e ágil que
salta ou segue ao sabor da aventura literária.
Assim, a mata brasileira e sua fauna (insetos,
bi-chos, cutias) ganham um enfoque mítico no qual o
ta-tu-canastra seria o grande ente criando buracos,
tú-neis, passagens secretas e salvo-condutos mágicos
para libertar os diversos animais e até os sonhos do
menino narrador. O elemento água perpassa vários
contos (impossível não lembrar o rio da filosofia em
2 Fez algumas disciplinas com Maurília Valderez e Silas Borges Monteiro. Daí a sua familiaridade com a filosofia grega ou antiga.
seu eterno transcorrer), mas esse rio tanto pode ser
o mitológico Lethes quanto o rio de Cáceres. Eros e
criatividade se entrelaçam no ato da escrita e fica o
halo e o hálito das relações e correlações tanto do
pen-samento quanto da memória afetiva. Sempre
transfor-mada pela estrutura narrativa de Afonso.
Serão contos? Serão crônicas ou ensaios
literá-rios filosóficos? Mas não foi interessante quando os
poetas e escritores simbolistas embaralham tudo que
existia antes ao inventarem o poema em prosa? Como
um bom filósofo, Afonso nos faz pensar sobre a vida.
Como um bom escritor, Afonso nos faz pensar sobre a
escrita e a literatura.
Sumário
Infância ... 23
Mãos noturnas ...25
Infante fazenda ...27
Ledo Ivo e o diário de um poeta ...31
Caçar ...33
Atração pelo DNA ...37
Em pé na moto: ombros retos ...39
Duração de si...41
Terra matinal ...43
Cobra no bananal ...45
Outro nascimento ...47
Fios esticados pelo corpo deitado ...49
Horas urbanas ...51
Homem e natureza ... 55
O sonho...57
Lethes ou o rio do esquecimento ...59
O marroquino e o deserto ...61
Queda-d’água ...63
Mandíbulas pregadas ...65
Fonte doce e ágil ...67
Caramanchão ...69
Fruta-cor ...71
Erótico ... 77
Divino olhar ...79 Fumaça formadora ...81 Soluço ...83 Inclinado olhar ...85 Cáceres esticada ...87Música para trópicos ...89
Lambida matemática do corpo ...91
Falar estéril ...93 Todas as vidas ...95 Exangue medida ...97 Homenagem ao encontro ...99 Orgasmo encantatório ...101
Morte e violência ...103
Visão de morte ...105Seixo que exprime ...107
Confusão selecionada ...109
Fechar de olhos ...111
Caderno quadriculado ...113
Dia tumular: veredas ...115
O que olho? ...117
Ar retido nos pulmões ...119
Lembrança porosa ...121
Sangue que grita...123
Mãos adaptadas...125
Devaneio novelar ...127
Rastro de si ...131
Carvalho e o início da música ...133
O trompete ...135
Viagens e misticismo ...139
Serpente do cerrado ...141 Lembranças de um feiticeiro ...143 Cipó curare ...145 Chamas ...147 Pantaneiro negro ...149 Ayahuasca ou a união rápida ...151 Sapere Vedere ...153 Frágil percepção ...155A que dimensão pertence a quietude? ...157
Escrita – Criação ...161
Hostil toque ...163
Heráclito arredio ...165
Conto do cárcere ...167
Receita sedenta ...169
Carne cercada de procura...171
Dionisíaco ...173
Terra em transe ...175
Conto sobre a prisão ...177
Pequeno esboço ...181
Estamos cansados do homem ...183
Encontro de Nietzsche e Vilém Flusser ...185
23
25
Mãos noturnas
Nunca juntos, os membros não desidratam com o
olhar alheio.
Minha avó usava um creme de sebo de carneiro
para hidratar as mãos, principalmente a esquerda,
so-fredora de uma velhice mais adiantada. Dizia eu:
— Essa é a parte mais experiente do seu corpo. É
onde se transfere mal-estar.
— Filho, os entornos da minha mão são o
desen-canto que sofro. Se meus anéis de prata estão negros é
porque trazem consigo a melancolia de um corpo que
se debilita mais rápido.
— Por que não tira os anéis, vó?
— Na cidade em que você nasceu, numa guerra
familiar, seu avô invadiu uma casa alheia. Os duelos
eram frequentes e a honra, instrumento da palavra
so-cial. E para tanto, um tem de morrer. Na hora da
mis-sa, chegaram seu avô e o ofendido. Telúrico e
tranqui-lo, o atirar trouxe, de chofre, a morte vaidosa de um.
— Quem foi?
— Seu avô.
— Mas ele está vivo!
— É. Vivo para nós! O vingador ficou satisfeito
com o corpo exposto no chão. Não foi verificar, e eu
26