Desenho Arquitectónico - Um olhar sobre o pensamento gráfico no Ocidente e

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Texto

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Mário S. Ming Kong

Arquitecto, Professor Auxiliar da F.A.U.T.L mskong@fa.utl.pt

Desenho Arquitectónico - Um olhar sobre o pensamento gráfico no Ocidente e no Oriente.

“ Em todas as coisas, a medida e a proporção constituem a beleza e a virtude Platão, Filebo (64d).

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O homem teve desde sempre a necessidade de ir buscar a ordem, porque ele necessita para sua satisfação de um equilíbrio intelectual. No livro

Los fundamentos de arquitectura en la edad del humanismo, de Rudolf

Wittkower (1901-1971), ele refere: “Nuestra naturaleza psicofísica reclama el

concepto de ordem, en particular de un ordem matemático“. 1

Oiçamos o que Platão dizia a este respeito: “[...] deus quis que todas as

coisas fossem boas e que, na medida do possível, nenhuma fosse má; e assim, tomando tudo quanto era visível, que era desprovido de repouso, mas se movia contra as regras e de forma desordenada, conduziu-o da desordem para a ordem, considerando que esta é de todas as maneiras melhor do que aquela”. 2

De facto, torna-se mais aprazível ao ser humano quando as dificuldades que comportam a vida se suavizam, mediante uma organização adequada das suas diversas actividades e atitudes. Neste sentido, concordamos com a afirmação de Raymond Bayer em como “A ordem é uma regularidade, uma

hierarquia, um ritmo, uma multiplicidade na unidade; logo, pode tornar-se num conceito estético“. 3

A necessidade de ordem, nas diversas manifestações da vida do homem, faz com que a sua busca se reflicta em todas as situações da realidade, material e espiritual, quotidiana.

É assim natural que esta busca da ordem se manifeste também em qualquer expressão de arte, inclusive na arquitectura, fruto da imaginação criadora do homem e transposição em formas plásticas, evocadoras de fenómenos vitais.

1 Rudolf Wittkower, Architectural Pprinciples in the age of humanism, Londres, The British

Architectural Library, Riba, 1949. Existe tradução em espanhol, Los fundamentos de

arquitectura en la edad del humanismo, Madrid, Alianza Editorial, S. A., 1995, p. 207.

2 Platão, Timeu, II, in diálogos IV, Lisboa, Europa América, 1984, p. 261.

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Na arquitectura, a ordem aparece como uma aplicação abstracta, aparentemente distanciada de toda necessidade e de toda realidade. Contudo, a ordem marca presença na construção e distribuição das formas arquitectónicas pela proporção.

Pela proporção (transposição abstracta de uma organização hierarquizada) o homem introduz noções de “medidas” e de “ritmos”. Ambas as noções estão na raiz da ordem que busca constantemente e que encontra no mundo exterior, ao seguir os seus movimentos e as suas leis. Aristóteles a este respeito refere: “As formas supremas do belo são a conformidade com as leis,

a simetria e a determinação, e são precisamente essas formas que se encontram nas matemáticas tratam numa certa medida duma causa que é a beleza”. 4

Contudo, a proporção não aborda somente as noções de medida, ordenação de elementos e a relação de dimensões; supõe também a ideia do ritmo como medida simultânea do tempo e do espaço. Por eles se explica que o homem, conscientemente e constantemente, tenha explorado ao longo da história, entre todas as combinações aritméticas ou geométricas possíveis, aquelas que em razão das suas características particulares permitem uma ordem mais sensível, mais perfeita, porque estas facilitam a criação de formas, ritmos, medidas do tempo e do espaço mais harmoniosas. Platão, no Timeu, partindo da quantidade e do número chega à beleza das formas. Assim se explica a relação entre esses feitos tão diferentes, a expressão dos sentimentos estéticos e o seu apoio nas relações matemáticas.

É lógico que seja assim, porque as relações matemáticas aparecem também na natureza. Ao apoiar-se nelas na criação de formas, o homem consegue a harmonia com a natureza.

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O número, a medida, a relação de dimensões, a proporção numa só palavra, não são mais do que meios que facilitam a harmonia, se se tiver em conta as condições estéticas que as condicionam e o contexto em que se admitem. O lugar, a luz, a sua posição e mesmo a sua configuração, etc., são factores que nunca se apresentam do mesmo modo, levando assim a alterar a sua leitura. É preciso, portanto, que a utilização do número e das proporções se manifeste em cada caso com particular atenção.

No entanto, estes factores não intervêm somente na eleição do sistema de proporções, intervêm também, de modo predominante, no valor “cultural simbólico”. Por outras palavras, as diversas culturas empregam diversos sistemas, que se podem classificar em três grandes grupos: proporções objectivas, técnicas e objectivo-técnicas coincidentes. Todos estes sistemas confluem na busca de uma harmonia, através da proporção e das suas normas.

Na proporção objectiva, associa-se na procura das características de um arquétipo, fazendo referência ao objecto que se quer representar. É como um sistema antropométrico.

Na proporção técnica, relaciona-se com todo os processos esquemáticos necessários para a representação do objecto.

E, por último, a proporção objectivo-técnica, é um sistema “misto” simultaneamente métrico e esquemático. Métrico, porque pressupõe uma observação objectiva das medidas; esquemático, porque se apoia em esquemas para a sua construção. 5 A sua expressividade nasce da utilização simultânea de ambos os sistemas.

Este sistema de proporções varia consoante as características conceptuais e culturais diferentes. Podemos verificar esta forma de abordagem

5 Cf. Ignacio Araujo, La forma arquitectonica, Espanha, Ediciones Universidadde Navarra,

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no desenvolvimento teórico dos manuais práticos mais antigos, o do Marcos Polius Vitrúvio (século I a. C.) e o de Li Kiai (1065-1110).

Vitrúvio, no seu tratado, reúne e preserva para nós uma imensa quantidade de conhecimentos tradicionais sobre a construção. Baseado nas suas observações das edificações existentes antigas, explica a construção através de um conjunto de fórmulas canónicas que resumiriam em si toda a virtude arquitectónica. Será nesta obra que se apoiam muitas das teorias filosóficas e ideológicos da arquitectura a partir do Renascimento.

No que diz respeito ao manual de Li Kiai é fruto de levantamento objectivo junto de técnicos e pesquisa bibliográfica. 6 Destinado a ser utilizado

como manual técnico e prático, reflecte na sua essência todo um saber ancestral, desenvolvido sob pressupostos rígidos de organização espacial, de acordo com um conjunto de rituais sociais, políticos e religiosos. Por esta razão, a obra assume a dimensão de cânon no desenvolvimento da história da arquitectura chinesa.

Assim, compreende-se que a proporção assenta na relação harmónica: das dimensões entre os diversos elementos que constituem a obra; e entre cada um deles e o total. O sistema de proporção trata, portanto, de conseguir uma unidade de visão, ao longo de uma unidade hierarquizada, nas partes e no todo. Desta forma, as relações mútuas dispõem-se em vista à sua actuação conjunta e a uma unidade formal.

Tratamos agora de abordar, em linhas gerais dos sistemas de proporção renascentistas, dada a sua influência na nossa cultura.

Se entendermos por proporção a “disposição ou correspondência devida de umas partes com o todo, ou entre coisas relacionadas entre si”, e se considerarmos a arquitectura como ciência, verificamos que existem “leis” matemáticas que podem orientar-nos na procura das proporções.

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Estas leis aparecem ao considerar a ordem de criação: Deus, que é o sumo arquitecto, organizou o mundo segundo determinadas leis. O Renascimento procura conciliar a fé com a ciência. Isto é, através da procura de leis matemáticas pretendem determinar a harmonia do macrocosmos e do microcosmos. Nesse propósito os pensadores da Renascença vão secundar-se nas ideias de Pitágoras e Platão.7 Platão define no Timeu a harmonia, dizendo que: “o término médio supera a um extremo e é superado pelo outro por a mesma fracção dos dois extremos”. 8 O que se depreende desta reflexão é que

Platão seria da opinião que se se tiver em conta as proporções entre diferentes dimensões, o conjunto será harmonioso.

Segundo os humanistas renascentistas, tomando como base as ideias dos filósofos gregos, a música e a arquitectura respondem à mesma unidade de proporção que as leis da criação. Refere neste sentido Wittkower: “de todo

lo dicho hasta ahora se desprende que la analogía renacentista entre las proporciones audibles y las visuales no era una mera especulación teórica, sino el testimonio de una solemne creencia en la estructura matemática y armónica de toda la creación”. 9 A unidade que se alcança é somente um caminho. Através da música, descobre-se a razão universal da harmonia, as relações, as leis com que Deus fez o mundo. Logo, estas leis são complexas.

Alberti, na sua obra De re aedificatoria libri decem, refere-se a Pitágoras quando afirma que: “os números que fazem que as concordâncias sonoras

produzem prazer nos nossos ouvidos são exactamente os mesmos que deleitam nossas vidas e nossa mente”. 10 Logo de seguida, formula uma teoria aritmética da proporção, inspirada nos intervalos de harmonia da escala musical. Entende-se assim que, para Alberti, a música e a aritmética são basicamente uma mesma coisa: a música é o número traduzido em sons, e

7 Cf. Platão, la armonia de las esferas, no Timeu e o Filebo. 8 Ibidem

9 Cf. Rudolf Wittkower, Op. cit., 1995, pp. 159-184. 10 Leon Bapttista Alberti, De re aedificatoria, Livro IX,

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que através dos números que fazem a concordância dos sons, se fazem audíveis as mesmas harmonias que regem a geometria dos edifícios.

Se as leis dos números harmoniosos regem todas as coisas, desde as esferas celestes até às mais humildes formas de vida sobre a Terra, então as nossas próprias almas devem ajustar-se a esta harmonia.

Nesta perspectiva, para os artistas e arquitectos do Renascimento, a concepção é de um postulado metafísico que responde à ideia de que o corpo humano é a criação divina e em consequência as suas obras reflectem, idealmente, a harmonia celeste. Em outras palavras, responde a um postulado que significa, simultaneamente cosmologia harmoniosa e estética normativa.

Durante o Renascimento, a busca da harmonia das proporções do corpo humano assume uma grande importância. Igualmente triunfa a utilização das proporções aritméticas na idealização das obras de arte, o que não significa que na Antiguidade este assunto não tenha sido tratado. 11

De acordo com Rudolf Wittkower, na Antiguidade as matemáticas converteram-se em uma ciência teórica, e cabe agora aos artistas do Renascimento tentar interpretar a terminologia matemática e aplicá-la à pintura, à escultura, à arquitectura. 12

No Renascimento, quem mais estudou as proporções, a sua relação métrica absoluta entre as partes e entre cada parte e o todo mediante o estabelecimento de um padrão de medida, como a cabeça e a cara, foi o grande investigador artista, Leornardo Da Vinci. 13 Este trabalho não foi somente teórico, aplicava o seu estudo à prática. Inclusive, preocupava-se em adequar os modelos às proporções ideais, ver Fig. 1.

11 Cf. Rudolf Wittkower, Op. cit., 1995, pp. 159-184 12 Ibidem

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Fig. 33

Estudo da proporção geométrica aplicada a figura Humana, executado por Leonardo da Vinci. Desenho retirado; Claudio Pescio, Leonardo arte e scienza, Frienze Giut Grupp Eitorial, 2000, fig.3, p. 80.

Sobre esta base de pensamento filosófico e ideológico, grande parte dos edifícios renascentistas, por exemplo, dos arquitectos Alberti (1404-1472), Miguel Ângelo e Palladio (1508-1580), expressam, tanto no interior como no exterior, esta ordem de harmonia da proporção cósmica, como demonstra o estudo de Witkower sobre este assunto. 14

Estas ideias tiveram que esperar até o século XVIII, para que a tradição do sistema de proporção renascentista começasse a descomprometer-se. Até este momento, nada havia posto em causa o pressuposto de que as normas objectivas das proporções eram um requisito básico em qualquer obra de arte.15

Na nossa era, a harmonia e a proporção já não se consideram atributos universais, a não ser como fenómenos psicológicos que se originam e se produzem na mente do artista. Deste modo, a harmonia e a proporção vinculam-se a espécie de necessidade criativa. 16

Esta foi a resposta que os artistas da nova geração deram à concepção do universo de leis, de harmonias, de proporções.

14 Cf. Rudolf Wittkower, Op. cit, 1995.

15 Cf. Rudolf Wittkower, in “la búsqueda de la proporcion”, New York, 1953, p. 10. 16 Cf. Rudolf Wittkower, Op. cit., 1995, p. 218.

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Muito contribuiu para o renovado interesse neste campo de estudo a obra de Matila Ghyka, Le nombre d’or. 17 Esta obra inspirou, entre outros, Le Corbusier a desenvolver o seu modelo do Modulor, ver Fig. 2. 18 Wittkower refere existirem “otros ejemplos de un renovado interés por el orden se

presentan fuera de la esfera del arte. Varias disciplinas como la filosofía, la física, las ciencias naturales, las matemáticas y la psicología, están abordando la misma cuestión fundamental desde diferentes ángulos. [...] Todo elle no hace más que reforzar nuestra convicción de que la búsqueda de un orden y armonía básicos es una característica fundamental de la naturaleza humana”. 19

Fig. 2

Modulor, Estudo da proporção, por Le Corbusier. Desenho retirado; William J. R. Curtis, Le Corbusier, ideas y formas, Madrid, Hermann- Blume, 1987, p. 164.

BIBLIOGRAFIA

ARAUJO, Ignacio, - La forma arquitectonica, Espanha, Ediciones Universidadde Navarra, 1976.

BAYER, Raymond, - História da Estética, Lisboa, Editorial Estampa, Lda., 1978. CURTIS, William J. R., - Le Corbusier, ideas y formas, Madrid, Hermann- Blume, 1987.

17 Matila C. Ghyka, El número de oro. I los ritmos – II los ritos, Barcelona, Editorial Poseidon,

S.L., 1978.

18 Cf. William J. R. Curtis, Le Corbusier, ideas y formas, Madrid, Hermann- Blume, 1987, p. 164. 19 Cf. Rudolf Wittkower, Op. cit, 1995, pp. 218-219.

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GHYKA, Matila C., - El número de oro. I los ritmos – II los ritos, Barcelona, Editorial Poseidon, S.L., 1978.

PLATÃO, - Timeu, II, in diálogos IV, Lisboa, Europa América, 1984. VINCI, Leonardo da, - Tratado de Pintura, Madrid, Ediciones Acal, 1998.

WITTKOWER, Rudolf, - Los fundamentos de arquitectura en la edad del humanismo, Madrid, Alianza Editorial, S. A., 1995.

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