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COMENTÁRIO À ACÓRDÃO

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Academic year: 2021

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Universidade de Brasília – Faculdade de Direito. Teoria Geral do Processo 2 – Vallisney Oliveira. Gizelia Barros 12/0119366 – Julia Teixeira 12/0123282.

COMENTÁRIO À ACÓRDÃO

Princípio predominante em análise: PUBLICIDADE DOS ATOS JUDICIAIS.

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AG.REG. NO HABEAS CORPUS 119.538 SÃO PAULO

RELATOR :MIN. CELSO DE MELLO

AGTE.(S) :GILBERTO CARDOSO LINS

ADV.(A/S) :CLAUDIO DA SILVA

AGDO.(A/S) :SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

E M E N T A: “HABEAS CORPUS” – SUPOSTA ILEGALIDADE DA PRISÃO CIVIL POR DÍVIDA ALIMENTAR – NOTÍCIA DA EXPEDIÇÃO DE CONTRAMANDADO DE PRISÃO E DE SEU EFETIVO CUMPRIMENTO – AUSÊNCIA, EM TAL SITUAÇÃO, DE QUALQUER OFENSA AO “STATUS

LIBERTATIS” DO PACIENTE – PERDA SUPERVENIENTE DE OBJETO –

PREJUDICIALIDADE DA AÇÃO DE “HABEAS CORPUS” CARACTERIZADA

– A QUESTÃO DO REGIME DE SIGILO (“SEGREDO DE JUSTIÇA”) NOS PROCEDIMENTOS JUDICIAIS – EXCEPCIONALIDADE DESSA MEDIDA –

RELAÇÃO ENTRE PROCESSOS JUDICIAIS E A CLÁUSULA

CONSTITUCIONAL DA PUBLICIDADE – RECURSO DE AGRAVO IMPROVIDO.

A C Ó R D Ã O

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, em Segunda Turma, sob a Presidência do Ministro Celso de Mello (RISTF, art. 37, II), na conformidade da ata de julgamentos e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de agravo, nos termos do voto do Relator.

Ausentes, justificadamente, a Senhora Ministra Cármen Lúcia e o Senhor Ministro Ricardo Lewandowski.

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O Senhor Ministro Celso de Mello inicia sua argumentação em seu voto acerca do pedido de decretação de sigilo na ação penal de habeas corpus, citando o artigo 155, II, do Código Processual Civil, que coloca: "Os atos processuais são públicos. Correm,

todavia, em segredo de justiça os processos: II. Que dizem respeito a casamento, filiação, separação dos cônjuges, conversão desta em divórcio, alimentos e guarda de menores”. Por conseguinte, tal pedido de segredo de justiça é considerado

injustificável, uma vez que a tramitação em sigilo configura exceção á cláusula de publicidade dos atos públicos e é cabível apenas nos casos previstos no dispositivo supracitado. Uma vez que a ação penal não se enquadra em tais preceitos, sua publicidade é presumida.

O voto é embasado nas garantias constitucionais de uma República fundada em bases democráticas. A própria Constituição Federal coloca, no artigo 93, IX “todos os

julgamentos dos órgãos do poder judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes e a seus advogados, ou somente a estes, em casos nos quais a preservação do direito á intimidade do interessado no sigilo não prejudique o interesse público á informação”. Celso de Mello escreve, como transcrito aqui, em seu voto:

“Na realidade, a Carta Federal, ao proclamar os direitos e

deveres individuais e coletivos (art. 5º), enunciou preceitos básicos cuja compreensão é essencial à caracterização da ordem democrática como um regime do poder visível, ou, na expressiva

lição de NORBERTO BOBBIO (“O Futuro da Democracia”, p.

86, 1986, Paz e Terra), como “um modelo ideal do governo público

em público”.

A Assembleia Nacional Constituinte, em momento de feliz inspiração, repudiou o compromisso do Estado com o mistério e com o sigilo, tão fortemente realçados sob a égide autoritária do regime político anterior.

(...)

Ao dessacralizar o segredo, a Assembleia Constituinte restaurou velho dogma republicano e expôs o Estado, em

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em sua expressão concreta, em fator de legitimação das decisões

e dos atos governamentais.”

Bobbio expõe em sua obra reflexão acerca não apenas da publicidade dos atos, mas também de sua ligação direta com o modelo democrático representativo, iniciando sua explanação acerca do assunto em sua obra com um trecho de M. Natale:

“Não existe nada de secreto no Governo Democrático? Todas as operações dos governantes devem ser conhecidas pelo Povo Soberano, exceto algumas medidas de segurança pública, que ele deve conhecer apenas quando cessar o perigo”. (M. Natale, Catechismo

repubblicano per l’istruzione dei popolo e la rovina de' tiranni, na recente edição organizada por G. Acocella e apresentada por F. Tessitore, Viço Equense, 1978, p. 71.)

Este trecho é de importante relevância ao enunciar, de forma simples - mas não menos significante - um dos princípios fundamentais do estado constitucional: o caráter público dos autos constitui a regra, e o segredo enseja a exceção. Exceção esta que não deve diminuir o valor da regra, uma vez que o segredo é justificável apenas se limitado no tempo, não diferenciando-se, portanto, de todas as medidas de exceção. Bobbio ainda coloca que, mesmo quando abandonado o modelo de democracia direta, a publicidade dos atos ainda permanece como um dos critérios fundamentais para diferenciar o estado constitucional do estado absoluto, visando assinalar o nascimento ou o renascimento daquilo que o teórico chamou do "poder público em público", como expressão supracitada pelo Ministro em seu voto.

Schmitt corrobora a conexão colocada por Bobbio entre princípio de representação e caráter público de poder, como se pode ver nos trechos:

"A representação apenas pode ocorrer na esfera do público. Não existe nenhuma representação que se desenvolva em segredo ou a portas fechadas... Um parlamento tem um caráter representativo apenas enquanto se acredita que a sua atividade própria seja pública. Sessões secretas, acordos e decisões secretas de qualquer comitê podem ser muito significativos e importantes, mas não podem jamais ter um caráter representativo (...) Representar significa tornar visível e tornar presente um ser invisível mediante um ser publicamente presente. A dialética do conceito repousa no fato de que o invisível é pressuposto como ausente e ao mesmo tempo tornado presente."

Logo, o texto constitucional e a fundamentação teórica de Repúblicas de governos democráticos respaldam como regra o princípio da publicidade dos atos que se mostra como uma garantia imprescindível do próprio indivíduo no tocante ao exercício

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da jurisdição. De forma geral, a possibilidade do exame dos autos de forma pública, podendo ser apreciados por qualquer pessoa, representa o mais seguro instrumento de fiscalização popular sobre a obra dos magistrados, advogados e promotores públicos, garantindo assim o respeito e a observação aos preceitos processuais justos e corretos.

Entretanto, a publicidade como garantia política - que visa o controle da opinião pública nos serviços de justiça - não pode ser confundida com qualquer tipo de sensacionalismo que afronte a dignidade humana ou formas de violação ao direito à intimidade. No entanto, cabe ao magistrado encontrar o justo equilíbrio e apreciação de causas onde o limiar da publicidade deve ser limitado devido à razões de exceção. No caso em análise, além de não configurar hipótese relacionada á regra constitucional e do Código Processual que poderia permitir o segredo de justiça e de não possuir fundamentação sólida quanto a razões que configurassem tal pedido em uma exceção; o sigilo em razão de habeas corpus, caso conferido, poderia ainda ensejar um tratamento diferenciado e constituir um privilégio, duas premissas completamente incompatíveis com a orientação disposta em um Estado Republicano de base democrática.

O Ministro ainda cita exemplo de isonomia quanto à publicidade no julgamento de todas as causas apreciadas pelo judiciário:

“É por tal razão que o Supremo Tribunal Federal tem conferido visibilidade a procedimentos penais originários em que figuram, como acusados ou como réus, os próprios membros do Poder Judiciário (como sucedeu, p. ex., no Inq 2.033/DF e no Inq 2.424/DF), pois os magistrados, também eles, como convém a uma República fundada em bases democráticas, não dispõem de privilégios nem possuem gama mais extensa de direitos e garantias que os outorgados, em sede de persecução penal, aos cidadãos em geral.

Essa orientação nada mais reflete senão a fidelidade desta Corte Suprema às premissas que dão consistência doutrinária, que imprimem significação ética e que conferem substância política ao princípio republicano, que se revela essencialmente incompatível com tratamentos diferenciados, fundados em ideações e práticas de poder que exaltam, sem razão e sem qualquer suporte constitucional legitimador, o privilégio pessoal e

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que desconsideram, por isso mesmo, um valor fundamental própria configuração da ideia republicana que se orienta pelo vetor axiológico da igualdade.”

Diante do exposto, encontramo-nos em acordo com o posicionamento e argumentação do Sr. Ministro Celso de Mello. De fato, faz-se necessário frisar – como o Ministro bem fez ao longo de seu voto – que o princípio da publicidade só pode ser restringido a título de exceção.

Assim como o Ministro, não entendemos esse caso como uma exceção, nos termos da lei, uma vez que o habeas corpus é uma garantia constitucional do indivíduo perante uma violência ou ameaça de constrangimento ilegal da sua liberdade de ir e vir por parte de uma autoridade legítima. Ou seja, em última instância o habeas corpus é um instrumento de proteção contra o abuso de uma ação do Estado. Nesse sentido, seria ilógico ou, no mínimo, controverso permitir que uma ação contra o Estado fosse tratada como um assunto sigiloso (termo não muito preciso, o que se quer dizer aqui seria uma publicidade restrita às partes, excludente de terceiros, isto é, excludente da sociedade). Uma vez que é o próprio Estado quem julga seus atos, o deferimento ou não do habeas

corpus deve sim ser feito às claras, já que as justificativas do Estado frente suas ações

são matéria de interesse público.

O princípio da publicidade dos atos processuais é fundamental à democracia, é o princípio que torna de conhecimento geral os atos, decisões e atividades estatais – permitindo que os indivíduos, a partir desse conhecimento, tenham certo controle em relação a um Estado em que se pretende governar em nome do povo. A transparência, a publicidade dos atos é justamente o que diferencia um Estado Democrático de Direito de um autoritário. Nas palavras do jurista Canotilho:

“[...] O Estado de Direito garante a segurança e a liberdade. É isso. Através de um conjunto de princípios jurídicos procura-se estruturar a ordem jurídica de forma a dar segurança e confiança às pessoas. A experiência comum revela que as pessoas exigem fiabilidade, clareza, racionalidade e transparência aos atos dos poderes públicos, de forma a poder orientar a sua vida de forma segura, previsível e calculável.”

Além disso, o princípio da publicidade funciona como uma garantia dos dois lados. Se pelo viés do povo funciona como uma prestação de contas do Estado; pelo viés do Estado pode funcionar como uma maneira de assegurar que foi cumprida

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determinada tarefa, ou que alguma ação foi tomada em conformidade com a lei. No caso do judiciário, por exemplo, um juiz que tenha uma decisão do passado questionada pode alegar, por meio dos documentos publicizados, o porquê de sua deliberação. É, portanto, uma segurança para ambos os lados, o que só corrobora com a importância desse princípio na atual conjuntura politica.

Cabe retomar aqui o cerne da controvérsia em questão: o alegante pleiteava a declaração de sigilo dos autos, afirmando que a matéria versava sobre a intimidade dele e de sua família, contrapondo-se, então, ao princípio de publicidade. Acontece, entretanto, que conforme o art. 93, já citado neste comentário, dar-se-á prioridade ao direito à intimidade desde que não prejudique o interesse público à informação. Em outras palavras, o direito à intimidade cede ao interesse público. E isso é justificado, pois, pelo entendimento de que o princípio da publicidade dos atos judiciais é não só essencial ao nosso regime democrático como um fundamento para sua existência. Além disso, nesse caso concreto, pode-se colocar a explicação dada por Celso de Mello em seu voto:

“De outro lado, quanto ao pedido de decretação de sigilo, tenho para mim que não se justifica o acolhimento desse pleito, eis que o “segredo de justiça”, em caso de alimentos, somente se legitima em face do respectivo processo de natureza civil (CPC, art. 155, II).

No caso, trata-se de ação penal de “habeas corpus”, onde se

controverte em torno do “jus libertatis” do devedor alimentante, valendo destacar, ainda, que a decretação do regime de sigilo assume caráter absolutamente excepcional, considerado o que dispõe a própria Constituição da República no inciso IX do art. 93.”

Em conclusão, o caso contempla a controvérsia acerca do embate entre o princípio de publicidade e o direito à intimidade, e concordamos com a decisão proferida pelo Ministro Celso de Mello – no sentido em que deve predominar a publicidade dos atos sobre o sigilo. Acreditamos que esse princípio deve prevalecer, nesse caso, primeiramente uma vez que a lei expressamente postula tal orientação; segundo por não haver nenhuma lei que configure exceção que possa ser aplicada á este caso concreto; terceiro por este se configurar como um princípio-base da democracia,

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sem o qual esse regime não poderia existir, sendo assim, afinal, um controle do povo sobre um Estado feito – pelo menos em tese – para o povo. A democracia como regime político é a base válida de sustentação á defesa de diversos outros direitos fundamentais, portanto, acreditamos que esse princípio da publicidade, que enseja a transparência na gestão democrática, deve ter prioridade em sua defesa.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

SCHMITT, Carl; Verfassungslehre, Duncker & Humblot, München-Leipzig (1928, p. 208.)

BOBBIO, Norberto; “O Futuro da Democracia”, (p. 86, 1986, Paz e Terra).

Antonio Carlos Araújo CINTRA, Cândido Rangel DINAMARCO, Ada PELLEGRINI; “Teoria Geral do Processo”, (p. 75, 22ª edição).

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