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Biblioteca Digital do IPG: Relatório de Estágio Curricular – Casa da Cultura (Ílhavo)

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Academic year: 2021

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RELATÓRIO DE ESTÁGIO / PROJETO

Licenciatura em Animação Sociocultural

Sofia Rodrigues Silva Solá

setembro | 2020

(3)

II

Escola Superior de Educação, Comunicação e Desporto

Instituto Politécnico da Guarda

Relatório de Estágio / Projeto

Casa da Cultura de Ílhavo

Sofia Rodrigues Silva Solá

Para a obtenção do grau académico de licenciatura em Animação Sociocultural

setembro de 2020

(4)

III

F

ICHA DE IDENTIFICAÇÃO

Nome: Sofia Rodrigues Silva Solá

Número de aluna: 1700265

Docente Orientadora: Marisa Filipa Ramos Teixeira

Local de Estágio: Casa da Cultura de Ílhavo

Endereço: Av. 25 de Abril, 3830-044 Ílhavo

Telefone: 234 397 260

E-mail / Website: [email protected] / www.23milhas.cm-ilhavo.pt Supervisor na Instituição: Luís Miguel de Sousa Ferreira

Grau Académico: Licenciatura em Design Industrial

E-mail: [email protected]

Data de Início do Estágio: 02 de março de 2020

Data de Conclusão de Estágio: 09 de março de 2020

Duração: 50 horas e 30 minutos

Nota:O estágio foi suspenso a 10 de março, devido à pandemia COVID-19, sendo que as restantes horas foram vertidas na realização de um projeto.

Data de Início do Projeto: 01 de abril de 2020

Data de Conclusão do Projeto: 17 de setembro de 2020

Duração: 399h e 30 minutos (as restantes em falta)

(5)

IV

A

GRADECIMENTOS

Chegar à Guarda para o início deste percurso foi um grande choque e foi muito difícil de gerir. A adaptação não foi fácil e muitas vezes pensei desistir. Hoje, depois de muitos altos e baixos, de muitas lágrimas e sorrisos, tenho o coração apertado por deixar esta cidade, que tão bem me acolheu e que me deixará para sempre uma marca no coração.

Chegar até aqui não foi fácil, e só foi possível com a força e o apoio das pessoas que me acompanharam durante estes três anos, que me foram conquistando e dando razões para continuar. Por tudo isto, não posso deixar de agradecer aqueles que fizeram de mim uma melhor pessoa e que tornaram possível estar aqui, agora, a escrever este relatório.

Agradeço, primeiramente, ao Instituto Politécnico da Guarda, mais especificamente à Escola Superior de Educação, Comunicação e Desporto, por tão bem me ter acolhido ao longo do meu percurso académico. A todos os professores do curso, pela transmissão de conhecimentos e competências que me enriqueceram tanto, não só a nível profissional, como pessoal também. Um grande obrigada à professora Rosário Santana que, enquanto Diretora de Curso, sempre teve uma palavra amiga e de força nos momentos difíceis e, conseguindo ler-me como poucos conseguem, sempre fez de tudo para que este meu percurso corresse da melhor forma, mais calma, mais realizada e mais feliz. À professora Elisabete Brito, por desde o primeiro dia me ter feito perceber que “não há coincidências” e que se estava ali é porque tinha de estar, e era o melhor para mim – foi mesmo. À professora Simone dos Prazeres, por também ter conseguido conhecer-me de uma forma tão natural e só dela, que me permitiu expressar-me e sentir-me compreendida nos meus medos e receios. À professora Fátima Bento, pela incrível transmissão de conhecimentos e todo o apoio e dedicação que tem pelo curso. À professora Ana Lopes que me fez crescer, me deu a oportunidade de trabalho de campo e me ajudou e apoiou imenso na elaboração do meu projeto na Unidade Curricular (UC) de Programas e Projetos em Animação Sociocultural (PPAS). E por último, mas não menos importante, à professora Filipa Teixeira, minha orientadora de estágio, por não me ter deixado desistir quando a vontade era maior, por me ter motivado e por acreditar e confiar em mim. Por me transmitir confiança e ter feito com que as suas aulas fossem uma das principais razões que me fizeram continuar, para poder explorar a área do teatro que tanto me encantou e me fez crescer. Por me ter permitido ver a luz ao fundo do túnel e por, mesmo às vezes sem saber, ter sido a minha maior força quando mais precisava. Por ter aceitado ser minha orientadora

(6)

V

e por toda a disponibilidade, toda a paciência, todos conselhos e todo o apoio, antes, durante e após este período. Muito obrigada.

À Casa da Cultura de Ílhavo e a toda a equipa do projeto “23 Milhas” por me terem aceite como estagiária, em particular ao diretor Luís Ferreira e à coordenadora de produção Catarina Pereira que tão bem me acolheu. À Catarina Mano e ao João Madaíl da produção, à Calina Porto da mediação e ao António Calisto do secretariado, por toda a simpatia e por me terem feito sentir “em casa” durante o pouco tempo que lá estive.

Agradeço a todos os meus colegas de curso e amigos que partilharam comigo estes três anos, com os quais tive a oportunidade de conviver, de partilhar experiências e de crescermos juntos. Em especial, à Dina Morgado por me ter acompanhado desde o início, por todos os momentos juntas, todos os desabafos, todo o apoio, e por me ter feito crescer profissional e pessoalmente. À Maria Braga que me ensinou a sair da zona de conforto, que me transmitiu confiança para ser eu própria e por todas as partilhas e apoio mútuo nas incertezas e medos de cada uma. À Jéssica Silva e à Filipa Brioso por terem sido também um grande apoio e fonte de energia ao longo do curso e que, por agora partilharmos a mesma orientadora, foram uma grande ajuda também na realização deste relatório.

À Vanessa Marques Oliveira por me ter dado a conhecer este curso e ter sido a principal influência para a minha inscrição, e por todo o apoio e amizade. Ao Eugénio Teixeira que, pela companhia, conversas e bons conselhos, foi um apoio fundamental para a minha adaptação, nos primeiros meses. A todos os meus amigos que de alguma forma contribuíram para uma vida académica mais feliz, e que faziam o regresso a Aveiro valer a pena.

À minha família, mais especificamente aos meus pais, um grande obrigada por acreditarem em mim, por todos os ensinamentos e valores transmitidos ao longo da vida, e por todo o esforço que fizeram para que conseguisse acabar a minha licenciatura nas melhores condições. Por todo o apoio, por todo o incentivo, e por me deixarem voar, muito obrigada. Foram três anos intensos de que nunca me esquecerei. Três anos passados na serra, e como em qualquer montanha, houve uns momentos no cume e outros no vale. Muitos altos e baixos que, no final de tudo, terminaram no alto, no topo da montanha. A cidade mais alta conquistou-me, e sei agora que para sempre, a Guarda esperará por mim.

(7)

VI

R

ESUMO

O presente relatório enquadra-se no âmbito da UC de Estágio, integrada na licenciatura de Animação Sociocultural da Escola Superior de Educação Comunicação e Desporto, do Instituto Politécnico da Guarda.

Devido à pandemia COVID-19 o estágio foi interrompido e, como tal, não foi possível realizar as 450 horas previstas, tendo apenas realizado 50 horas e 30 minutos ao longo de uma semana, de 2 a 9 de março. De forma a perfazer o total de horas, o estágio foi convertido para a modalidade projeto, de acordo com o Decreto-Lei n.10-A/2020, de 13 de março.

Com efeito, o presente relatório tem com finalidade testemunhar em modo reflexivo as atividades realizadas na Casa da Cultura de Ílhavo relativas ao projeto “23 Milhas” - projeto cultural do município – e, a minha proposta de projeto denominado “ABRIG’ARTE” – criado após o término do estágio – sendo a expressão dramática e o teatro os principais instrumentos de ação, na intervenção com a população sem-abrigo. Pretendendo melhorar a autoestima e as relações interpessoais, o “ABRIG’ARTE” tem como principais objetivos, estimular nos sem-abrigo uma maior motivação e um novo rumo para as suas vidas, através da linguagem dramática, valorizando a arte enquanto forma de expressão e desenvolvimento das potencialidades individuais.

Palavras-chave: Animação Sociocultural; Expressão Dramática; Teatro; População em situação de sem-abrigo.

(8)

VII

A

BSTRACT

This report falls within the scope of the UC Internship, integrated in the degree of Sociocultural Animation of the Escola Superior de Educação, Comunicação e Desporto of the Instituto Politécnico Guarda.

Due to the COVID-19 pandemic, the internship was stopped and, as such, it wasn’t possible to carry out the 450 hours as originally planned, having only carried out 50 hours and 30 minutes over the course of a week, from 2 to 9 March. In order to make up the total hours, the internship was converted into a project, according to Decree-Law no. 10-A / 2020, of March 13.

In effect, the purpose of this report is to testify in a reflexive way, to the activities carried out at the “Casa da Cultura de Ílhavo” related to the “23 Milhas” project – cultural projecto f the city – as well as my proposal for a project called “ABRIG'ARTE” - created after the end of the internship – being dramatic expression and theater, the main instruments of action in the intervention with the homeless population.

Intending to improve self-esteem and interpersonal relationships, the “ABRIG'ARTE” has as its main objectives: to stimulate the homeless people and give them a greater motivation and a new direction for their lives, through dramatic language, valuing art as a form of expression and development of potential individual.

(9)

VIII

Í

NDICE

Ficha de identificação ... III Agradecimentos ... IV Resumo ... VI Abstract ... VII Índice de figuras ... XI Índice de tabelas ... XIII Índice de gráficos... XIII Glossário de SIGLAS ... XIV

Introdução ... 1

Capítulo I – Casa da Cultura de Ílhavo ... 4

1. Introdução ... 5

1.1. Enquadramento histórico-geográfico ... 5

1.2. Casa da Cultura de Ílhavo: características ... 6

1.3. Projeto “23 Milhas” ... 9

1.4. Identidade gráfica ... 13

1.5. Visão ... 15

1.5.1. A imaterialidade ... 15

1.5.2. Não centralidade ... 16

1.6. Objetivos estratégicos e operacionais ... 16

1.7. Linhas de orientação pragmática ... 18

1.8. Práticas artísticas e eventos ... 20

1.9. Equipamentos culturais... 25

Capítulo II – Contextualização Teórica ... 26

2. Introdução ... 27

(10)

IX

2.2. Perfil do Animador ... 29

2.3. Animação Cultural ... 30

2.4. Animação Teatral: conceito e importância ... 33

2.4.1. O Teatro como meio de Animação Sociocultural: características e potencialidades ... 35

2.4.2. Teatro com e para comunidade ... 37

2.4.3. A Expressão Dramática ... 40

Capítulo III - Estágio ... 44

3. Introdução ... 45

3.1. BackOffice “23 Milhas” ... 45

3.2. “Palheta – Robertos e Marionetas” ... 46

3.2.1. “O João e o Pé de Feijão” ... 47

3.2.2. Percursos artísticos pelo comércio local ... 48

3.2.3. Base de dados ... 51

3.2.4. “Discursos – O Triunfo da Palavra” ... 52

3.2.5. “L’Après-midi D’un Foehn” ... 53

3.2.6. “Dom Roberto” ... 54

3.2.7. “Contraventos” ... 56

3.2.8. “Error 404” ... 58

3.2.9. Fanfarra Kaústika & “Radar 360º” ... 59

3.2.10. Catering “Contraventos” ... 61

3.3. Atividades previstas mas não implementadas ... 62

3.3.1. Ateliê de Expressão Musical: “Xilofone d’Água” ... 62

3.3.2. Artes Performativas no quotidiano ... 64

3.3.3. Festival de Cenografia: cenografar é preciso! ... 65

3.3.4. Desenhos em cena ... 67

(11)

X

4. Introdução ... 71

4.1. Projeto “ABRIG’ARTE” ... 71

4.1.1. Fundamentação e justificação do projeto ... 71

4.1.2. Metodologia de projeto ... 72

4.1.3. Objetivos gerais e específicos... 73

4.1.4. Diagnóstico das necessidades ... 74

4.1.5. Operacionalização ... 79

4.1.6. Recursos humanos e parcerias ... 86

4.1.7. Avaliação ... 87

Reflexão crítica final ... 88

Bibliografia ... 91

Webgrafia ... 95

(12)

XI

Í

NDICE DE FIGURAS

Figura 1 – Casa da Cultura de Ílhavo (antigo Centro Cultural) ………..……… 7

Figura 2 – Auditório da Casa da Cultura de Ílhavo ………..…..…….… 7

Figura 3 – Foyer da Casa da Cultura de Ílhavo ………...…… 8

Figura 4 – Sala de exposições da Casa da Cultura de Ílhavo ………...…...…… 8

Figura 5 – Sala de ensaios da Casa da Cultura de Ílhavo ……….…...…… 9

Figura 6 – Casa da Cultura de Ílhavo ………....…… 10

Figura 7 – Fábrica das Ideias da Gafanha da Nazaré ……… 11

Figura 8 – Cais Criativo da Costa Nova ……… 12

Figura 9 – Laboratório das Artes da Vista Alegre ……… 12

Figura 10 – Farol da Barra ……… 14

Figura 11 – Logótipos dos quatro espaços do “23 Milhas” ………..……… 14

Figura 12 – Logótipo global do “23 Milhas” ……… 15

Figura 13 – Cartaz “Territórios Públicos” 2020 ……… 21

Figura 14 – Cartaz “Palheta – Robertos e Marionetas” 2020 ………...… 22

Figura 15 – Cartaz “Ilustração À Vista” 2019 ………..…… 23

Figura 16 – Cartaz “Rádio Faneca” 2019 ……….……… 23

Figura 17 – Cartaz “MILHA – Festa da Música e dos Músicos” 2019 ……… 24

Figura 18 – Cartaz “LEME – Festival de Circo Contemporâneo” 2019 …..……… 24

Figura 19 – Bondlayer – Painel de controlo ……….……… 46

Figura 20 – Panfletos do festival “Palheta” ………..……… 46

(13)

XII

Figura 22 – “João e o Pé de Feijão” ………..………… 48

Figura 23 – Percursos artísticos ….………...……… 49

Figura 24 – Sala “Volta ao Mundo em 80 minutos” ………….……… 50

Figura 25 – Base de dados ……….…...…… 51

Figura 26 – “Discursos – O Triunfo da Palavra” ………..…… 52

Figura 27 – “L’Après-midi D’un Foehn” ……….…….… 53

Figura 28 – “Dom Robertos” – Mãozorra ……….……… 55

Figura 29 – “Dom Robertos” – Valdevinos ………..……… 55

Figura 30 – “Contraventos” ………...………… 56

Figura 31 – Participante do “Contraventos” ……….……… 57

Figura 32 – Caixas decoradas por crianças ………...…… 57

Figura 33 – Roda de dança final ………... 58

Figura 34 – “Error 404” ………...……….… 59

Figura 35 – Fanfarra Káustika ………...………... 60

Figura 36 – Fanfarra Káustika com “Radar 360” ………..…...… 60

Figura 37 – Mesa do lanche “Contraventos” ……… 61

(14)

XIII

Í

NDICE DE TABELAS

Tabela 1 – Eventos culturais do “23 Milhas” ……….………...……… 21

Tabela 2 – Cronograma do Festival de Cenografia: cenografar é preciso! …..….……… 67

Tabela 3 – Cronograma das sessões de expressão dramática …..…………..……… 84

Tabela 4 – Cronograma da fase de preparação e ensaios para o espetáculo final ………. 85

Í

NDICE DE GRÁFICOS

Gráfico 1 – Divisão característica dos sem-abrigo de Aveiro ……...……… 75

Gráfico 2 – Divisão característica dos sem-abrigo da Figueira da Foz ……….………… 76

Gráfico 3 – Divisão característica dos sem-abrigo de Coimbra ……… 78

(15)

XIV

G

LOSSÁRIO DE

SIGLAS

UC – Unidade Curricular

PPAS – Programas e Projetos em Animação Sociocultural

CIEMar – Centro de Investigação e Empreendorismo do Mar

CMI – Câmara Municipal de Ílhavo

CIRA – Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro

IPSS – Instituição Particular de Solidariedade Social

CASA – Centro de Apoio aos Sem-abrigo

CAE – Centro de Artes e Espetáculo

TAGV – Teatro Académico Gil Vicente

(16)

1

I

NTRODUÇÃO

O presente relatório de estágio/projeto é parte integrante da avaliação final da UC de Estágio, orientado pela Professora Filipa Teixeira, no âmbito da licenciatura em Animação Sociocultural, do Instituto Politécnico da Guarda.

O estágio curricular foi realizado na Casa da Cultura de Ílhavo - integrada no projeto cultural do seu município, “23 Milhas”. Devido à suspensão provocada pela pandemia COVID-19, o estágio decorreu apenas entre 2 a 9 de março, com a duração total de 50 horas e 30 minutos, não me permitindo realizar as 450 horas estipuladas inicialmente. Deste modo, de acordo com o Decreto-Lei n. 10-A/2020, de 13 de março, que estabelece as medidas excecionais temporárias de resposta à atual pandemia, foram definidas algumas alterações. No que concerne ao funcionamento da UC de Estágio, o seu ponto 2 refere que “os estágios desenvolvidos em contexto real de trabalho, que não puderem ser realizados na modalidade de teletrabalho, devem ser convertidos para a modalidade de projeto, com o acompanhamento do orientador, implementando metodologias para a realização de exercícios de simulação e reflexão partilhada, escrita de monografia ou elaboração de artigo, entre outras metodologias igualmente importantes para a construção de competências profissionais”. Com efeito, após a suspensão do estágio, e na impossibilidade por parte da instituição de o realizar na modalidade de teletrabalho, o mesmo foi convertido para um projeto que se encontra descrito no decorrer deste relatório.

Para uma melhor compreensão e organização do presente relatório, o mesmo divide-se em quatro capítulos. O primeiro intitula-se “Casa da Cultura de Ílhavo” e engloba toda a caracterização da instituição que me acolheu enquanto estagiária. Desde o seu enquadramento histórico-geográfico às diferentes valências existentes, o referido capítulo apresenta a caracterização da instituição e do projeto “23 Milhas”, criado por Luís Ferreira - diretor artístico e meu supervisor no decorrer do estágio - bem como dos seus valores, missão e objetivos, explicitando quais os seus recursos físicos e humanos/administrativos, para que toda a programação ecléctica e multidisciplinar que os caracteriza decorra da melhor forma.

O segundo capítulo, “Contextualização Teórica”, visa o enquadramento teórico referente à minha área de estudo e de atuação, não só em contexto de estágio, mas principalmente no desenvolvimento do meu projeto.

(17)

2

A Animação Sociocultural, sendo uma área tão abrangente e com diversas áreas de atuação, torna-se primordial trazê-la à discussão, apresentando os seus diversos conceitos, processos, objetivos, âmbitos e as principais características que devem primar num animador. Entre os diversos âmbitos que a Animação Sociocultural engloba, a Animação Cultural e a Animação Teatral ganharam especial destaque neste relatório, por terem sido o ponto de partida para a realização do meu estágio/projeto e por serem âmbitos do meu interesse, com os quais mais me identifico. Além do que já foi referido, o segundo capítulo contempla também a importância da Animação Teatral e do teatro na e com a comunidade, bem como uma especial abordagem à Expressão Dramática, vertente da arte teatral e que se tornou fundamental para a criação do projeto apresentado no último capítulo.

O terceiro capítulo, “Estágio”, visa a descrição das atividades nas quais colaborei durante a minha permanência enquanto estagiária na Casa da Cultura de Ílhavo, bem como as atividades pensadas por mim que não foram implementadas. Na semana que comecei o estágio, decorria o festival de marionetas do município, o festival “Palheta”, e como tal, nessa fase inicial, ainda de adaptação a toda a dinâmica, permaneci enquanto observadora que, julgo ser um papel também de grande importância, dado que consegui assim, perceber os diferentes papéis de cada membro da equipa e quais as fases de ação a ter em conta para fazer um evento acontecer, o que me ajudará no meu futuro profissional. No entanto, no decorrer do festival, por ter adoptado uma postura atenta e disponível, acabei por conquistar algumas funções, descritas no decorrer do capítulo. De forma imprevisível, a primeira semana acabou por ser também a única, uma vez que o estágio foi suspenso, pelas razões já mencionadas anteriormente.

Assim, o quarto e último capítulo merece destaque por apresentar o projeto que veio substituir as restantes horas de estágio. O projeto “ABRIG’ARTE”, sendo um projeto de cariz sociocultural destinado ao público sem-abrigo, tem o seu foco na expressão dramática e no teatro e, apresenta como principais objetivos: proporcionar aos sem-abrigo uma maior motivação e um novo sentido de vida, bem como valorizar a arte enquanto forma de expressão e desenvolvimento das potencialidades individuais. Inicialmente idealizado no âmbito da UC de PPAS, o referido projeto foi integrado neste relatório, comportando um maior desenvolvimento e aprofundamento no que se refere ao seu enquadramento teórico e planificação prática. Face ao exposto, para uma melhor clarificação do projeto, deste

(18)

3

capítulo fazem parte pontos tais como: a fundamentação e justificação do projeto; a metodologia; os objetivos gerais e específicos; o diagnóstico das necessidades; a operacionalização; os recursos humanos e parcerias necessárias, e a sua referida avaliação. Como finalização deste relatório de estágio/projeto, culmino com uma reflexão crítica, onde apresento o balanço de toda a experiência, bem como os resultados alcançados e, todos os conhecimentos e competências adquiridas no decorrer dos últimos meses, que me irão complementar futuramente a nível pessoal e profissional.

(19)

4

(20)

5

1.

I

NTRODUÇÃO

A Casa da Cultura de Ílhavo está localizada na cidade de Ílhavo, sede de um município com o mesmo nome, que é constituído por 4 freguesias, Ílhavo (São Salvador), Gafanha da Nazaré, Gafanha do Carmo e Gafanha da Encarnação.

Preparada para acolher espetáculos, congressos, seminários, convenções, eventos corporativos e sociais, cursos, workshops, ações de formação, exposições, catering e showrooms, a Casa da Cultura de Ílhavo, juntamente com a Fábrica das Ideias da Gafanha da Nazaré, o Cais Criativo da Costa Nova e o Laboratório das Artes da Vista Alegre, integra o projeto “23 Milhas”. Todos os espaços integrantes deste projeto cultural acolhem todas as principais produções artísticas, nomeadamente teatro, música, dança, cinema, atividades do serviço educativo municipal, exposições e outras atividades multidisciplinares.1

Assim, o capítulo I engloba o enquadramento histórico-geográfico da Casa da Cultura de Ílhavo, bem como a caracterização da instituição e do projeto “23 Milhas”, indicando ainda os seus valores, missão e objetivos. É um capítulo que introduz a instituição e o seu projeto cultural, explicitando quais os seus recursos físicos e humanos/administrativos, e as diferentes valências existentes.

1.1.

E

NQUADRAMENTO HISTÓRICO

-

GEOGRÁFICO

O Município de Ílhavo, desde sempre ligado à Ria e voltado para o Mar e para a pesca do bacalhau, é constituído por quatro freguesias: Ílhavo (São Salvador), Gafanha da Nazaré, Gafanha do Carmo e Gafanha da Encarnação, sendo que as duas primeiras já são consideradas cidades desde 1990 e 2001, respetivamente.2

Em 2008, durante a comemoração dos 110 anos da restauração da Câmara Municipal de Ílhavo, realizaram-se durante 12 meses importantes iniciativas, tais como a inauguração do Centro Cultural de Ílhavo, das Ciclovias da Ponte e da Praia da Barra e a renovação do espaço do Jardim Oudinot, que acolhe o famoso Festival do Bacalhau.

1 Informação adaptada do website do 23 Milhas, acedido a 02 de março de 2020, consultado em

https://www.23milhas.pt/.

2 Informação adaptada do website da Câmara Municipal de Ílhavo, acedido a 28 de fevereiro de 2020,

(21)

6

Desde então, o Município de Ílhavo tem criado diversas iniciativas em diversos espaços, em que cada um completa a sua história de forma diferente. São exemplos disso,

 o Museu Marítimo de Ílhavo e as suas subunidades:  Navio-Museu Santo André;

 Centro de Investigação e Empreendedorismo do Mar (CIEMar)  o Centro Cultural de Ílhavo - atual Casa da Cultura

 o Centro Socio-Cultural da Costa Nova - atual Cais Criativo  o Centro Cultural da Gafanha da Nazaré - atual Fábrica das Ideias

 e o Teatro da Vista Alegre - atual Laboratório das Artes - sendo estes últimos, os quatro espaços pertencentes ao projeto “23 Milhas”.3

1.2.

C

ASA DA

C

ULTURA DE

Í

LHAVO

:

CARACTERÍSTICAS

O Centro Cultural de Ílhavo4 [Figura 1, p.7] foi criado pelo arquiteto Ilídio Ramos e inaugurado em março de 2008. Criado para acolher espetáculos, congressos, seminários, workshops, exposições, etc, o Centro Cultural de Ílhavo conta com um auditório de 500 lugares [Figura 2, p.7], um foyer com cafetaria e bengaleiro [Figura 3, p.8], sala de exposições [Figura 4, p.8], sala de ensaios [Figura 5, p.9] e camarins.

Após o nascimento do projeto “23 Milhas”, em 2018, de forma a acabar com os centros culturais, foram modificados todos os nomes, tornando-se o Centro Cultural na atual Casa da Cultura de Ílhavo.

3 Informação adaptada do website da Câmara Municipal de Ílhavo, acedido a 28 de fevereiro de 2020,

consultado em https://www.cm-ilhavo.pt/

4 Informação adaptada do website do 23 Milhas, acedido a 02 de março de 2020, consultado em

(22)

7

Figura 2 – Auditório da Casa da Cultura de Ílhavo Fonte: Website 23 Milhas

Figura 1 – Casa da Cultura de Ílhavo (antigo Centro Cultural) Fonte: Website Terra Nova

(23)

8

Figura 3 – Foyer da Casa da Cultura de Ílhavo Fonte: Website 23 Milhas

Figura 4 – Sala de exposições da Casa da Cultura de Ílhavo Fonte: Website 23 Milhas

(24)

9

1.3.

P

ROJETO

“23

M

ILHAS

O “23 Milhas”, projeto cultural do Município de Ílhavo, criado por Luís Ferreira, diretor artístico do mesmo, além de uma vasta programação em diversas áreas artísticas, promove também a criação artística, a formação e o pensamento crítico, sempre na procura de cultivar a relação entre artistas e espetadores, bem como ativar o território e a comunidade. Maria Inês Santos, do departamento de comunicação do “23 Milhas” define poeticamente cada um dos espaços pertencentes ao projeto: “Um espaço de pensamento, um espaço de experimentação. Do passado de comunidade, nasce o Laboratório das Artes. Um espaço de criação, um espaço de oficina e residência. Do novo centro cívico, nasce a Fábrica das Ideias. Um espaço de acolhimento, um espaço de programação. Uma casa tanto para artistas como para o público: a Casa da Cultura. Um espaço de intercâmbio, um espaço alternativo. Deste lugar imersivo, à beira mar construído, desembarca o Cais Criativo” (Santos, 2017)5.

5 Retirado do vídeo promocional do projeto, “23 Milhas – a cultura do dia a dia”, acedido a 28 de fevereiro

de 2020, consultado em https://www.youtube.com/watch?v=a9xL133htDk

Figura 5 – Sala de ensaios da Casa da Cultura de ílhavo Fonte: Website 23 Milhas

(25)

10

O projeto “23 Milhas” engloba então, estes quatro espaços do município: a Casa da Cultura [Figura 6], a Fábrica das Ideias [Figura 7, p.11], o Cais Criativo [Figura 8, p.12] e o Laboratório das Artes [Figura 9, p.12].

A Casa da Cultura de Ílhavo é especializada numa programação ecléctica e multidisciplinar e tem uma forte aptidão para apresentar espetáculos exclusivos, estreias e antestreias (Sousa, 2020). Sendo o espaço principal do projeto “23 Milhas” foi onde estive durante a maior parte do tempo do meu estágio.

A Fábrica das Ideias é especializada em residências de criação vocacionadas para as artes visuais e performativas. Com os objetivos de promover a permanência dos artistas, potenciar o seu cruzamento com os públicos e conceber projetos em parceria com a comunidade, a Fábrica das Ideias tem as condições necessárias para acolher residências artísticas: quartos, salas de ensaio e multiusos, auditórios, galerias e oficinas (madeira, pintura, têxtil e metais) (Sousa, 2020).

A sua programação, bastante ecléctica e generalista, procura intensificar a sua apropriação pela comunidade, cruzando-se e tirando partido do caráter menos formal de alguns momentos das referências locais, como a apresentação de projetos em residência. Além de

Figura 6 – Casa da Cultura de Ílhavo Fonte: Website Câmara Municipal de Ílhavo (CMI)

(26)

11

ocupar os espaços mais convencionais, como os auditórios e as galerias, a sua programação estende-se ao Convés e ao Jardim 31 de agosto6 (Sousa, 2020).

O Cais Criativo é também um equipamento de programação e residências, mas de caráter sazonal.

Na primavera e no verão, a programação é marcadamente mais jovem, focada na música, moda, arquitectura, fotografia e design, e tirando partido dos fluxos turísticos, cria um conteúdo complementar à praia. No outono e no inverno, o Cais Criativo fica disponível para acolher residências artísticas, uma vez que a sua localização e arquitetura apresentam as condições ideais para projetos que procuram uma abstração quase total das dinâmicas urbanas (Sousa, 2020).

6 O Convés é o espaço que corresponde à área do foyer de entrada da Fábrica das Ideias. O Jardim 31 de

agosto é o jardim contíguo ao espaço cultural.

Figura 7 – Fábrica das Ideias da Gafanha da Nazaré Fonte: Website CMI

(27)

12

O Laboratório das Artes é especializado nas áreas da experimentação, pesquisa, investigação e formação. Dedicado ao pensamento e à exploração nos domínios da criação artística, das ciências sociais e das práticas do setor cultural, o Laboratório das Artes tem um conjunto de espaços que reúnem as condições para o desenvolvimento de atividades de pesquisa, investigação e formação: auditório, salas multiusos e estúdios.

De acordo com o que já foi referido, junta-se ainda uma programação de espetáculos que sublinha o caráter reflexivo e empírico deste equipamento, com especial vocação para projetos de cariz mais experimental e manifestações mais eruditas, clássicas e contemporâneas (Sousa, 2020).

Figura 8 – Cais Criativo da Costa Nova Fonte: Website CMI

Figura 9 – Laboratório das Artes da Vista Alegre Fonte: Website 23 Milhas

(28)

13

De acordo com Maria Inês Santos, do departamento de comunicação do “23 Milhas”, o projeto pretende “trabalhar todas as fases dos processos criativos e transformar Ílhavo num território plural e dinâmico. Se por um lado a Fábrica das Ideias vai germinar no mundo as suas criações, a Casa da Cultura será um terreno fértil do mundo. O Laboratório funde projetos mais eruditos, clássicos e experimentais, enquanto o Cais Criativo inquieta com movimentos jovens, efervescentes e descontraídos. Criação em comunidade, criação em espaço público, criação de roteiros, apoio aos processos artísticos, interdisciplinares e transdisciplinares” (Santos, 2017)7

.

1.4.

I

DENTIDADE GRÁFICA

A cidade de Ílhavo é portadora do maior farol marítimo de Portugal [Figura 10, p.14], com um alcance luminoso de 23 milhas náuticas8. Por esse motivo, de forma a honrar o seu monumento concelhio e nacional, este projeto ganhou o nome de “23 Milhas”9.

O farol compõe-se por quatro luzes fixas e o “23 Milhas” por quatro espaços de atuação. Partindo da ideia da circunferência luminosa, com a identificação de quatro espaços, correspondentes às quatro luzes fixas do farol, o círculo separa-se em quatro partes iguais, cada uma representativa de cada um dos espaços culturais [Figura 11, p.14]. Já o logótipo do projeto global, “23 Milhas” [Figura 12, p.15], remete-nos para a representação estilizada de elementos ligados à navegação: um quadrante, uma embarcação ou o feixe luminoso de um farol (Sousa, 2020).

7 Retirado do vídeo promocional do projeto, “23 Milhas – a cultura do dia a dia”, acedido a 28 de fevereiro

de 2020, consultado em https://www.youtube.com/watch?v=a9xL133htDk

8 Informação adaptada do website da Câmara Municipal de Ílhavo, acedido a 28 de fevereiro de 2020,

consultado em https://www.cm-ilhavo.pt/

9 Informação adaptada do website do 23 Milhas, acedido a 02 de março de 2020, consultado em

(29)

14

Figura 10 – Farol da Barra Fonte: Website Litoral Magazine

Figura 11 – Logótipos dos quatro espaços do “23 Milhas” Fonte: Dossier 23 Milhas

(30)

15

1.5.

V

ISÃO

A visão de uma empresa é explicada pelos objetivos que a mesma pretende alcançar, é a conquista dos sonhos e a conquista do seu público-alvo. É o que orienta as suas ações e aspirações para o futuro (Marques, 2018).

No caso do “23 Milhas”, o projeto visa contrariar a distância entre os espaços e a comunidade expõe-se em dois pontos de vista: a imaterialidade - que explica a função da cultura no quotidiano – e a não-centralidade – que explica qual o papel dos centros culturais.

1.5.1.

A

IMATERIALIDADE

O projeto “23 Milhas”, como já referido anteriormente, foi criado para que houvesse uma maior interação do público com a cultura. Dessa forma, e porque o projeto defende que os lugares e a cultura só sobrevivem com a fórmula “gente, tempo e vontade”, a sua missão não pode deixar de equacionar o património cultural das suas comunidades (Sousa, 2020). O “23 Milhas” visa, portanto, uma identidade coesa que crie uma relação mais próxima com as pessoas, para que dessa forma, se torne possível oferecer uma experiência de lugar

Figura 12 – Logótipo global do “23 Milhas” Fonte: Website 23 Milhas

(31)

16

única, não só a quem nele habita, mas também a quem o observa do exterior (Sousa, 2020).

1.5.2.

N

ÃO CENTRALIDADE

De forma a atingir todos os seus objetivos, o“23 Milhas”, defende que “um projeto cultural não deve apenas circunscrever os seus desígnios ao território de ação mais próximo. Nem tão-pouco deve restringir as suas ambições à atração de públicos limítrofes ou ao eclectismo de uma programação que importa o que de melhor se faz. Deve constituir-se como uma mais-valia para o setor cultural, contribuindo para a concretização de estratégias locais e globais” (Sousa, 2020). Por esse motivo, o projeto cultural pretende relacionar-se com as comunidades que lhes estão geograficamente mais próximas mas também promover a circulação de públicos de forma a favorecer o encontro e a valorizar uma ideia de conjunto.

1.6.

O

BJETIVOS ESTRATÉGICOS E OPERACIONAIS

Os objetivos de uma empresa representam o que esta pretende alcançar num determinado período de tempo e no caso do “23 Milhas”, estes dividem-se em objetivos estratégicos e objetivos operacionais.

No começo de uma empresa ou projeto, são delineados objetivos que simbolizam os desafios que, neste caso, o projeto terá de ultrapassar para conseguir implementar as suas estratégias. Neste sentido, o projeto “23 Milhas” projeta-se em três objetivos estratégicos: 1 – promover as práticas e a participação cultural da comunidade;

2 – contribuir para o desenvolvimento do setor cultural; 3 – reforçar a coesão e a atratividade do território.

O primeiro objetivo visa a captação, a formação, o envolvimento e a união de vários públicos, assim como provocar encontros, valorizar o património e potenciar o espírito crítico e reflexivo, sendo por isso também alguns dos princípios do “23 Milhas” para a criação da arte e do pensamento.

Neste sentido, importa também referir que existe uma lógica para a programação dos quatro equipamentos culturais, pois esta foi desenhada para promover a circulação, o

(32)

17

encontro e o cruzamento de criadores e de públicos, potenciando um funcionamento em rede, valorizando a ideia de conjunto e de complementaridade.

O segundo objetivo visa, além de promover as práticas e a participação cultural da comunidade, que o “23 Milhas” seja um agente ativo no desenvolvimento e na afirmação do setor cultural, contribuindo para as suas estratégias e políticas e envolvendo-se ativamente na construção de projetos, estimulando e apoiando a criação, o pensamento, a formação, a produção e o trabalho em rede.

O terceiro objetivo, ambicionando servir a construção de uma experiência de lugar única, valorizando e fortalecendo a identidade da comunidade, visa a vontade do “23 Milhas” querer ajudar a fixar população e a estimular a economia do conhecimento, assim como atrair artistas, públicos, turistas e investidores. Deste modo, como é também objetivo do “23 Milhas” que a sua atuação contribua para uma comunidade mais coesa, torna-se também importante apoiar e capacitar estruturas associativas do concelho, bem como criar sinergias com instituições, agentes locais, regionais e intersectoriais (Sousa, 2020).

De forma a concretizar os seus objetivos estratégicos, o “23 Milhas” definiu um conjunto de objetivos operacionais que orientam o uso dos equipamentos culturais e as ações a desenvolver (Sousa, 2020). São eles:

1 – dar prioridade aos projetos que estabelecem uma relação com a comunidade local, através da criação, da pesquisa e/ou da formação;

2 – diversificar a programação, promovendo as várias práticas artísticas e o pensamento contemporâneo;

3 – apostar na transversalidade programática das atividades de formação e de mediação, enquanto peças fundamentais da ação cultural de proximidade;

4 – fomentar o uso da memória local coletiva como inspiração para a criação e para o pensamento contemporâneos;

5 – intensificar a relação dos criadores e outros agentes culturais com o território de Ílhavo, através da sua permanência;

6 – apoiar e acolher projetos dedicados à criação, ao pensamento, à pesquisa, à experimentação e à formação, nos domínios artístico e cultural;

(33)

18

7 – integrar ou estabelecer redes de suporte à criação, à produção, à programação, à investigação e à inovação, nos domínios artístico e cultural;

8 – articular a sua estratégia e ação com as estratégias e políticas regionais e nacionais para a cultura;

9 – articular-se em parceria com instituições culturais municipais, criando sinergias e ampliando a sua capacidade de intervenção;

10 – contribuir para a capacitação das estruturas associativas e apoiar as iniciativas culturais de base locais;

11 – estabelecer parcerias com instituições de ensino, tendo em vista o envolvimento em processos de criação, formação e/ou de investigação;

12 – estabelecer e diversificar as parcerias sectoriais e intersectoriais, criando sinergias e procurando ampliar as condições necessárias à implementação e desenvolvimento da sua estratégia (Sousa, 2020).

1.7.

L

INHAS DE ORIENTAÇÃO PRAGMÁTICA

O projeto “23 Milhas” procura um constante encontro entre as necessidades e interesses locais e a pertinência e validade das propostas artísticas, procurando cultivar a relação entre criadores e espetadores. Estando sempre atento às produções e aos consumos das comunidade, o “23 Milhas” procura sempre criar uma programação que vá ao encontro dos interesses da comunidade local.

Uma das principais características do projeto é a sua ação cultural que se deve à mediação, pois com ela pretende-se criar uma relação de sensibilização para com os diferentes públicos em cada atividade realizada, sendo elas dirigidas a famílias, jovens, seniores, escolas ou outros públicos.

Por essas razões, o “23 Milhas”, além da sua programação diária de música, artes performativas e artes visuais, desenvolve outros quatro programas de ação específicos: 1 – programa de residências artísticas e apoio à criação;

(34)

19

3 – programa práticas da cultura; 4 – programa de formação.

O primeiro programa é sediado na Fábrica das Ideias e destina-se ao desenvolvimento de projetos artísticos, colectivos ou individuais, nas áreas da arquitectura, artes digitais, artes plásticas, design, fotografia, dança, música, teatro e cruzamentos disciplinares.

Privilegia as residências que tenham por base o trabalho com a comunidade e o património local, assim como os projetos disponíveis para realizar atividades formativas ou que tenham uma relação de proximidade com a população.

No final de cada residência criam-se espaços de apresentação, dando total liberdade aos artistas para propor um formato pertinente para o seu trabalho, sendo estreias, antestreias, ensaios, oficinas abertas, conversas, ou outros (Sousa, 2020).

O segundo programa é sediado no Laboratório das Artes e destina-se ao desenvolvimento de projetos de investigação e de inovação, nos domínios dos estudos artísticos, culturais e sociais.

É seu objetivo tirar partido da relação de proximidade com a Universidade de Aveiro, mas também potenciar a ligação do “23 Milhas” a centros de investigação de outros pontos do país e do estrangeiro. Relativamente aos projetos de investigação, são privilegiados os projetos que contribuam para a descentralização da produção de conhecimento e envolvam a realização de atividades públicas como masterclasses, oficinas, debates, conferências ou outras. Já nos projetos de inovação, são lançados desafios a profissionais da cultura e das ciências sociais para criarem e testarem abordagens, usando o território de ação do “23 Milhas” como laboratório (Sousa, 2020).

O terceiro programa, à semelhança do projeto referido anteriormente, é também sediado no Laboratório das Artes, no entanto, este destina-se ao desenvolvimento de ações que promovam a partilha de conhecimento entre os profissionais do setor cultural e a sua capacitação técnica. Essas ações desenvolvem-se através da reflexão – seminários, encontros ou outros eventos que promovam o debate – e da formação – cursos, oficinas, escolas de verão ou outras ações que criem momentos de formação especializada (Sousa, 2020).

(35)

20

O quarto programa, tal como os dois anteriores, é sediado no Laboratório das Artes. Destina-se ao desenvolvimento de ações que capacitem as estruturas de criação local não profissionais, em áreas-chave do seu trabalho e potenciando a criatividade, o espírito crítico e a formação do público em geral.

O programa abrange formações teóricas e/ou práticas de diversas áreas, como sonoplastia, técnicas vocais, expressão dramática, movimento coreográfico, ilustração, entre outros. Nesta sequência existem dois principais projetos: “+ Palco” - um projeto de formação contínua em teatro para 20 jovens dos 13 aos 18 anos – e “Clube dos Espetadores” – um grupo de reflexão sobre programação e práticas culturais que pretende desafiar os espetadores mais atentos e interessados a conversar, questionar e desenhar programas culturais (Sousa, 2020).

1.8.

P

RÁTICAS ARTÍSTICAS E EVENTOS

O “23 Milhas” tem uma dinâmica multidisciplinar e reforça e aprofunda as práticas artísticas programadas, explorando o seu cruzamento (Sousa, 2020).

São algumas das muitas práticas artísticas que podemos encontrar na programação anual do “23 Milhas”, as artes visuais, a dança, o design, a arquitectura, o cinema, a música, o circo contemporâneo e o teatro de rua, e o teatro. No entanto, para além da programação diária, fazem parte do Município de Ílhavo e do “23 Milhas”, uma série de eventos fixos ao longo de cada mês do ano como festivais, mostras ou encontros [Tabela 1, p.21].

(36)

21

Tabela 1 – Eventos culturais do “23 Milhas”

Fonte: Própria

Territórios Públicos

Um dos eventos denomina-se “Territórios Públicos” [Figura 13]. Este é um encontro nacional de serviços educativos e de mediação incluído no Programa Práticas da Cultura. São debatidos temas característicos dessas áreas de trabalho e são apresentados projetos nacionais e internacionais, sendo que alguns deles são aprofundados em oficinas, quando têm uma componente mais prática (Sousa, 2020).

10 O festival “Marolas” é um evento do Município de Ílhavo e não do projeto “23 Milhas”. 11 O “Festival do Bacalhau” é um evento do Município de Ílhavo e não do projeto “23 Milhas”.

Meses Eventos

Fevereiro Territórios Públicos

Março Palheta – Robertos e Marionetas

Maio Ilustração À Vista

Junho Rádio Faneca

Julho Marolas10

Agosto Festival do Bacalhau11

Novembro MILHA – Festa da Música e dos Músicos

Dezembro LEME – Festival de Circo Contemporâneo

Figura 13 – Cartaz Territórios Públicos 2020 Fonte: Facebook 23 Milhas

(37)

22

Palheta – Robertos e Marionetas

Em 2013 criou-se a “Mostra de Robertos e Marionetas” e daí surgiu o festival “Palheta” [Figura 14] que tem como mote o trabalho e espólio de Armando Soares Ferraz, bonecreiro da Gafanha da Nazaré. Inclui espetáculos, formações, animações de rua, exposições, conversas e oficinas de criação. O nome “Palheta” surgiu pelo facto de que a voz dos típicos Robertos é feita através de uma palheta envolta em fios que o bonecreiro coloca na boca e através da sua vibração produz a sua voz aguda e característica (Sousa, 2020).

Ilustração À Vista

Com uma programação de teatro de rua, concertos, dança, oficinas, arte urbana, exposições e outros, este evento [Figura 15, p.23] surge de uma parceria entre o Município de Ílhavo e a Vista Alegre que, enquadrado nos projetos de programação da CIRA (Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro) e envolvendo o Museu Marítimo e a Biblioteca Municipal, tem como seu principal foco as artes visuais, mais concretamente, a ilustração (Sousa, 2020).

Figura 14 – Cartaz Palheta – Robertos e Marionetas 2020 Fonte: Facebook 23 Milhas

(38)

23

Rádio Faneca

O festival “Rádio Faneca” [Figura 16] é um cruzamento de artes performativas, visuais e musicais. É um evento que convida a comunidade a ser co-criadora e co-produtora, tornando-se parte da preparação, execução e implementação do projeto. Tem como principal característica a invocação de memórias da vivência do centro histórico de Ílhavo, dando-lhes um novo sentido ao recontar histórias e aumentar memórias (Sousa, 2020).

Figura 15 – Cartaz Ilustração À Vista 2019 Fonte: Facebook 23 Milhas

Figura 16 – Cartaz Rádio Faneca 2019 Fonte: Facebook 23 Milhas

(39)

24

MILHA – Festa da Música e dos Músicos

Desde bandas filarmónicas, grupos corais, ranchos, grupos de cantares, bandas e músicos profissionais, vários são os grupos musicais que integram este festival [Figura 17] tendo todos em comum o facto de pertencerem ao município (Sousa, 2020).

LEME – Festival de Circo Contemporâneo

O “LEME” [Figura 18] define-se como um festival de circo contemporâneo e criação artística em espaços não convencionais. Procurando novas abordagens no confronto com a experimentação, o “LEME” chegou a Ílhavo para criar a mudança, mostrando novas perspetivas e diversidade, acabando por ser uma forma do “23 Milhas” oferecer ao seu público uma programação ousada e repleta de novidade e criatividade (Sousa, 2020).

Figura 17 – Cartaz MILHA – Festa da Música e dos Músicos 2019 Fonte: Facebook 23 Milhas

Figura 18 – Cartaz LEME – Festival de Circo Contemporâneo 2019 Fonte: Facebook 23 Milhas

(40)

25

1.9.

E

QUIPAMENTOS CULTURAIS

Como já referido anteriormente, o projeto “23 Milhas” engloba quatro espaços: a Casa da Cultura [Figura 6, p.10], a Fábrica das Ideias [Figura 7, p.11], o Cais Criativo [Figura 8, p.12] e o Laboratório das Artes [Figura 9, p.12]. Estes quatro espaços culturais, complementam-se com a ajuda dos parceiros internos e externos do projeto, sendo os internos o Museu Marítimo, a Biblioteca Municipal e o Centro de Documentação localizado no CIEmar. Como parceiros externos, o “23 Milhas” conta então, com a CIRA (Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro), o Centro Comunitário da Gafanha do Carmo, o Porto de Aveiro, o Teatro Municipal do Porto, a Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, a Universidade de Aveiro, entre muitos outros (Sousa, 2020).

(41)

26

(42)

27

2.

I

NTRODUÇÃO

A Animação Sociocultural, sendo uma área tão abrangente e com diversas áreas de atuação, torna-se primordial a sua abordagem neste capítulo, trazendo para discussão os seus diversos conceitos, processos e objetivos, bem como as características do perfil do animador.

Se considerarmos os diversos âmbitos da Animação Sociocultural, não podemos descurar que dois deles foram os nossos principais âmbitos de atuação, no que se refere ao contexto de estágio e à conceção do projeto. Assim, apresentamos nos capítulos seguintes uma revisão da literatura centrada na Animação Cultural e na Animação Teatral que, aborda essencialmente o Teatro e a Expressão Dramática.

Conquanto, além do que já foi referido, este capítulo contempla também uma contextualização teórica acerca da Animação Sociocultural e do perfil do animador.

2.1.

A

NIMAÇÃO

S

OCIOCULTURAL

A Animação Sociocultural distingue-se em primeiro lugar por um conjunto de práticas, atividades e relações que coincidem com os interesses manifestados pelos indivíduos na sua vida cultural e mais particularmente nos seus tempos livres. A participação coletiva, implicando a participação ativa, é por isso, uma das principais características da Animação Sociocultural, tal como a vida associativa, que tem como base o associativismo e o voluntariado sem fins lucrativos, que proporciona estimular a criatividade em sociedade (Batista, 2014).

A Animação Sociocultural, procurando intervir em todas as idades, torna-se também uma área global que atinge todas as faixas etárias e que visa a relação entre os mesmos, promovendo a qualidade de vida dos indivíduos e dos grupos dentro da sociedade. Assim sendo, esta área pode, por isso, dividir-se em dois tipos de funções, sendo elas sociais e culturais, sendo que dentro das sociais, existem as funções de adaptação e integração, funções recreativas, funções educativas, críticas e culturais. Surge assim, por isso, como uma estrutura intermediária entre a criação cultural e a transmissão dela para o público.

(43)

28

Ander-Egg (1981, citado por Barbosa, 2006, p. 122) afirma que a Animação Sociocultural reflete “… um conjunto de práticas sociais baseadas numa pedagogia participativa e que têm por finalidade atuar em diferentes âmbitos de desenvolvimento da qualidade de vida, com a finalidade de promover a participação das gentes no seu próprio desenvolvimento cultural, criando espaços para a comunicação interpessoal”, e partindo desta definição pode-se entender a Animação como uma atividade educativa, que pretende promover a transformação pessoal e que leva a modificações sociais.

A Animação Sociocultural tem portanto, diversos campos de atuação e segundo Monera (1992) implica três processos em conjunto:

- processo de desenvolvimento: procura criar condições/informações para que os indivíduos e grupos se relacionem;

- processo relacional: procura instalar o diálogo/comunicação/participação entre os grupos; - processo criativo: procura facilitar os aspetos criativos dos grupos dando opções para a iniciativa e o compromisso.

Ora, tendo como finalidade a transformação da realidade social de forma a melhorar a qualidade de vida da comunidade, o desenvolvimento comunitário, social e cultural, a Animação Sociocultural divide-se em três grandes modalidades: a dimensão social que está acentuada no trabalho comunitário, a dimensão cultural que põe em ênfase as atividades culturais e a dimensão educativa, focando-se na educação como processo de intervenção, como por exemplo os centros de educação em tempo livre, as escolas de adultos e as universidades populares.

A Animação Sociocultural aparece assim, essencialmente como um método de integração e de participação, tendo por intermédio um animador, a melhorar a comunicação social, visto que segundo Labourie (1979) esta área é um método de adaptação, terapia social e ideologizada da libertação pela participação.

Neste sentido, a Animação Sociocultural é também a ocasião para muitas pessoas descobrirem dimensões desconhecidas da sua personalidade; contribuírem para que determinados coletivos possam pensar, decidir e agir por eles próprios; mobilizarem a cidadania; e um método de intervenção que obriga os trabalhadores sociais a ultrapassarem

(44)

29

a intuição, o olfato e a dispersão como forma mais normalizada da intervenção social (Arnanz, 1988).

À luz dos pressupostos de Simpson, “todas as formas de vida e de legítimas atividades serão respeitadas se permitirem a expressão e realização pessoal bem como a comunicação social” (Simpson, 1980, p. 53). Neste sentido, a Animação Sociocultural é como um “esforço endógeno de dinamização das capacidades criativas dos homens e dos grupos sociais, na procura do seu progresso social e cultural, no quadro de uma sociedade pluralista e democrática” (Lopes, 2000, p. 50).

Existem portanto, diversos âmbitos da Animação Sociocultural: Animação Socioeducativa, Animação Cultural, Animação Teatral, Animação dos Tempos Livres, Animação Sociolaboral, Animação Comunitária, Animação Rural, Animação Turística, Animação Terapêutica, Animação Infantil, Animação Juvenil, Animação na Terceira Idade, Animação de Adultos, Animação de Grupos de Situações de Risco, Animação em Hospitais, Animação em Prisões, Animação Económica, Animação Comercial, Animação Termal, Animação Desportiva, Animação Musical, Animação Cinematográfica, Animação de Bibliotecas, Animação de Museus, Animação Escolar, e muitas outras (Lopes, 2006).

2.2.

P

ERFIL DO

A

NIMADOR

Segundo Pérez (2006), o traço comum que caracteriza o panorama da Animação Sociocultural na Europa é a heterogeneidade. Esta variedade constata-se não somente quanto a posturas, mas também nas dimensões que influenciam a mesma: terminológica - quando se tem de designar os agentes intervenientes (animadores socioculturais, culturais, sociais, sociocomunitários, socioeducativos, juvenis…); funcional - no que diz respeito aos âmbitos em que tem de interceder e às funções a executar (cultural, social, educativo, comunitário, tempos livres, socio-laboral…); populacional - de acordo com o tipo de recetores a que a ação se destina (infância, juventude, adultos, idosos…); infraestrutural - em conformidade com o tipo de instituição, equipamento ou recurso através do qual se conclui a Animação Sociocultural (centros de férias, tempos livres, casas da juventude, bibliotecas, museus, animação escolar…); formativa - relativamente ao nível formação, título académico ou categoria (regulada/não regulada, profissional, universitária…); dedicação e determinação quantitativa (tempo completo ou parcial); e qualitativamente

(45)

30

(voluntária ou profissional). No que se refere às variáveis básicas para a constituição do perfil do animador sociocultural, o autor considera que os destinatários constituem o fator relevante nesta distinção do perfil de um animador, seja através dos próprios ou através das entidades onde trabalham: em função da idade, do género, da funcionalidade das problemáticas setoriais, como animação de grupos com problemática social (inadaptação social, minorias étnicas, grupos de alto risco, …), pessoas com necessidades educativas especiais (física, psíquica e sensorial) e outras necessidades especiais e/ou específicas (pessoas com patologias, vítimas de violência, estudantes, soldados, reclusos…); conforme o nível educativo (analfabetismo total ou funcional, grupos de níveis médios ou superiores, universitários…); e relativamente à condição laboral.

Larrazábal (2004, p. 124), por sua vez, afirma que “a profissão do animador como começa a perfilar-se, situa-se entre a do educador e a do agente social. Por esse motivo, em muitos casos a sua formação transformou-se numa especificação da educação social ou pedagogia social”. Para a autora, o animador sociocultural é um educador, pois intenta estimular a ação, o que presume uma educação na modificação de atitudes. A Animação Sociocultural supõe assim, uma ação educativa que não se executa com pessoas individuais, mas com grupos ou coletivos maiores. Por este motivo, o animador sociocultural pode ser apelidado de educador social, conceito que já predomina em países como em Espanha.

2.3.

A

NIMAÇÃO

C

ULTURAL

A cultura, não sendo um enfeite optativo da vida, composto pelas belas-artes, é uma estrutura de comportamentos e pautas de expressão específicas de cada comunidade. Nesse sentido, pode concluir-se que “a experiência ativa é melhor do que a passiva, e participar criticamente nos problemas da comunidade é melhor do que ocupar-se dos problemas familiares e dos interesses privados. Do mesmo modo, nas artes e no espetáculo, tudo o que evocar a participação da psique, o coração e a alma é melhor do que aquilo que simplesmente diverte ou distrai” (Simpson, 1991, p. 282).

O teatro e a cultura - como práticas coletivas em que também se refletem processos-chave para a animação social e o desenvolvimento comunitário – situam grande parte das suas inquietações na abertura de novos horizontes teóricos, metodológicos e axiológicos (para

(46)

31

além de formativos, políticos, económicos, legislativos, etc) para a iniciativa dos cidadãos, sobretudo numa tripla e complementar orientação:

- afirmar os significados que conferem um sentido democrático e emancipatório às expressões “animação” e “desenvolvimento” no processo socioeconómico, político e cultural duma sociedade sujeita a rápidas e incessantes mudanças;

- reivindicar vias inovadoras para imaginar e “conduzir” o desenvolvimento humano, com critérios que se fundamentam numa perceção equitativa, solidária e sustentada da atenção às necessidades sociais, e dos processos que favorecem o bem-estar social e a qualidade da vida de todas as pessoas;

- transferir este discurso e os seus projetos implícitos ao teatro e às comunidades, entendidas como texto, contexto e pretexto de dimensões tão relevantes, como o protagonismo dos públicos, a comunicação e a interação grupal, a integração e a inserção sociais, os tempos livres e o lazer como direitos da cidadania, o conhecimento e a educação como valores, a estima pelo território e as paisagens, etc. (Gómez, 2000).

No que concerne à Animação Cultural, segundo Calvo (2002), há três grandes modalidades da Animação Sociocultural:

- modalidade da Animação acentuada na dimensão social; - modalidade da Animação acentuada na dimensão educativa; - modalidade da Animação acentuada na dimensão cultural.

Esta última aborda ações que põem ênfase nas atividades culturais que permitem a participação da população. Assim sendo, a Animação Cultural é um dos âmbitos da Animação Sociocultural e uma das designações das suas múltiplas atualizações e formas concretas de atuação.

A Animação Cultural abrange portanto, profissionais cuja competência plural, versatilidade e flexibilidade do seu perfil se adapte, quer à iniciativa privada, quer ao desempenho de funções em autarquias, museus, bibliotecas, empresas de produção artística e cultural, coletividades de ocupação de tempos livres, serviços educativos, empresas turísticas, instituições particulares de solidariedade social, centros de educação e formação

(47)

32

de adultos, associações culturais e recreativas, de desenvolvimento local e comunitário (ESEV, 2020).

O animador cultural pode então, ter diversas funções, entre elas: - organizador e coordenador de eventos culturais;

- organizador e coordenador de exposições; - programador artístico;

- produtor de eventos culturais;

- diretor artístico, comissário, curador de exposições; - produtor de artes performativas (ESEV, 2020).

Como cultura, importa referir que, no sentido comum, se entende a música, o teatro, a dança, a literatura, o desenho, a pintura, a escultura, o desporto e também a culinária, já considerada uma forma de arte através da gastronomia.

No entanto, a cultura define um povo, as suas tradições, e mais do que aquilo que parecemos ser, define quem realmente somos.

No sentido antropológico, o termo cultura pode ser usado em, pelo menos, dois sentidos diferentes. Pode referir os aspetos não biológicos da humanidade no seu conjunto, ou pode dizer respeito apenas à forma de vida de um determinado grupo de homens e mulheres (Titiev, 1982).

Devido a nenhuma sociedade humana existir sem uma forma padronizada de vida ou cultura, e uma vez que nenhum padrão de cultura pode existir sem uma sociedade de homens ou mulheres, a distinção entre antropólogos culturais e sociais é muitas vezes impossível de manter. No entanto, sabe-se que os respetivos profissionais culturais dão especial importância aos padrões de comportamento seguidos pelas pessoas quando vivem em conjunto (Titiev, 1982).

Sem olhar aos seus próprios interesses especiais, todo o antropólogo cultural deve aprender a nunca deixar de tomar em consideração as forças biológicas que desempenham um papel fundamental na modelação da conduta do homem, sendo que o seu principal desejo é

(48)

33

compreender os costumes dos homens e mulheres primitivos e não julgá-los ou modificá-los (Titiev, 1982).

No caso do progresso do homo sapiens relativamente ao vestuário, à habitação, às ferramentas, à linguagem, à religião, à ética e à estética, o homem difere de todos os outros animais. Só ele parece ter a capacidade e o desejo de praticar aquelas formas extrabiológicas de comportamento que, os antropólogos denominam de culturais. À luz dos valores, código moral e ético e, das formas de conduta aprovadas e condenadas que prevalecem em cada sociedade, a cultura não tem de ser retida para toda a vida, podendo, pelo contrário, ser modificada ou abandonada de acordo com o desejo de cada indivíduo (Titiev, 1982).

2.4.

A

NIMAÇÃO

T

EATRAL

:

CONCEITO E IMPORTÂNCIA

A vontade comum de abrir os teatros e de implicar as pessoas numa dinâmica cultural ascendente, permite conceber a Animação Teatral não só como uma derivação ou especialização da Animação Sociocultural para o teatro e as suas múltiplas formas de se representar, mas também como uma via privilegiada para a comunicação social e o desenvolvimento das comunidades (Gómez, 2000).

A Animação Teatral, constituída por uma componente prática, cultural e social que, através do teatro e de outras técnicas se vai desenvolvendo pelas coletividades amadoras, pode ser considerada como um marco de referência na qualidade educativa (Sousa, 2011).

Coenen-Huther aborda-a sob uma perspetiva mais teórico-concetual do que metodológica e aponta-a como uma alternativa ao teatro popular e de elite, numa justa coincidência em que consegue os objetivos de uma autêntica democracia cultural (Coenen-Huther, 1977). Afirma que o teatro, enquanto instrumento de Animação Sociocultural, desencadeia um duplo e complementar processo centrípeto de consciencialização e, centrífugo, de provocação, na medida em que coincide com o duplo sentido e função da animação: subjetiva, de dar sentido (anima), e objetiva, de incitar à ação (animus).

Referências

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