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Kepler, Cassini e a trajetória dos astros

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Bruno Eduardo Morgado

Kepler, Cassini e a trajetória dos astros

Rio de Janeiro - RJ

Dezembro / 2012 | 1. F. U. F. R. J. l r. « r>l p l D L l vJ i t w rv -• r O T F C A

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Bruno Eduardo Morgado

Kepler, Cassini e a trajetória dos astros

Orientador:

Prof. Vitorvani Soares

INSTITUTO DE FÍSICA

UNIVERSIDADE FEDERAL DO Rio DE JANEIRO

Rio de Janeiro - RJ Dezembro / 2012

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M271k Morgado, Bruno Eduardo

Kepler, Cassini e a trajetória dos astros / Bruno Eduardo Morgado — Rio de Janeiro: UFRJ/IF, 2012.

vii. 43 f.; il.; 30 cm.

Orientador: Vitorvani Soares.

Monografia de final de curso. Universidade Federal Rio de Janeiro / Instituto de Física / 2012.

Referências bibliográficas: f. 42-43.

1. Ensino de Física. 2. Cinemática. 3. Kepler. 4. Cassini. 5. Oval.

I. Soares, Vitorvani. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro / Instituto de Física. III. Gravitação.

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Dedico esse trabalho a todos que, assim como eu, se apaixo-naram pela Física.

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Gostaria de agradecer à minha família, por seu constante auxílio no desenvolvimento deste e de todos os trabalhos que realizei. A todos os meus amigos, que me ajudaram em momentos de trabalho e também em momentos de lazer, permitindo assim o melhor rendimento possível na superação dessa etapa de vida. A todos os professores com os quais tive a honra de partilhar das suas classes e, em especial, ao meu orientador de monografia. Prof. Vitorvani Soares, cuja paciência e dedicação foram incontestáveis durante todo o processo de criação e desenvolvimento deste projeto. Agradeço também à banca de professores que fizeram parte da banca de avaliação deste trabalho e que seus conselhos e críticas possam ampliar meus horizontes para a Física.

(7)

Si TE hujus laboriofx ME THODI pcrcreíiim fuerit, jure tnei te mí-ícreat,qui eam adminimum feptuagicsivi cum plurima cemporisjadhi-rã > & mirari defines hunc quintum jam annum a^ire, ex quo Marrem agereíTus fum, quamvisannusMDCiiipenc totusOpticisinqiiificíoni-bus fiiit traduótus.

Se você achou estes cálculos tediosos ('pertaesum'), então te-nha piedade de mim: Eu os fiz ao menos 70 vezes, com uma grande perda de tempo ('ad minimum septuagies ivi cum plu-rima temporis jactura').

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Resumo

O ensino de Física para o Ensino Médio, ern geral, tem pouca ênfase na descrição do movimento planetário e o pouco que é abordado se limita às três leis de Kepler. Quando um texto ou uma aula se alonga um pouco mais neste tema, ela nos ensina que é no início do século XVII que Johannes Kepler se impõe como tarefa a determinação das tra-jetórias dos planetas vizinhos à Terra em seu movimento translacional em torno do Sol. Desta maneira, ele pode prever as futuras configurações planetárias e, ao mesmo tempo, verificar o modelo heliocêntrico de Copérnico. Para realizar esta tarefa, Kepler analisa geonietricamente as posições em relação ao Sol dos diferentes planetas então conhecidos, determinadas por Tycho Brahe, e conclui que as trajetórias são elipses de muito baixa excentricidade, quase indistinguíveis de circunferências. Entretanto, esta última observa-ção de Kepler tem sido muito pouco enfatizada na literatura contemporânea do ensino de Física. Outro fato ainda menos conhecido é que, do ponto de vista geométrico, a elipse não seria a única possibilidade para a descrição da trajetória planetária. O emprego do telescópio como instrumento astronômico, à partir de 1610, seguido de seu desenvolvi-mento ao longo das décadas seguintes, aumentaram a precisão das medidas astronômicas. Em 1680, estas novas observações vão permitir que Giovanni Dornenico Cassini explore exaustivamente a possibilidade das trajetórias planetárias serem descritas por uma oval, as chamadas ovais de Cassini. Nesta monografia, procuramos chamar a atenção dos pro-fessores para estes aspectos do movimento orbital dos planetas, através da descrição e da discussão das características geométricas destas diferentes formas para a definição da tra-jetória de um planeta ao redor do Sol, quando são conhecidas somente as suas posições em regulares intervalos de tempo ao longo desta órbita. Apresentamos ainda qual o critério a ser empregado para orientar nossa escolha e as suas implicações.

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Sumário

1 Introdução p. 8 2 Um pouco de história p. 10 3 A trajetória de Marte p. 11 3.1 Os eixos de referência p. 14 3.2 A circunferência p. 20 3.3 A elipse de Kepler p. 25 3.4 A oval de Cassini p. 30 Considerações finais p. 35 Referências p. 42

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l Introdução

O estudo dos astros é um dos assuntos abordados pela Física que mais atrai a atenção dos alunos e do público em geral, mas ao mesmo tempo é um dos temas mais negligenciados no ensino da Física. Sua abordagem normalmente se restringe apenas às três leis de Johannes Kepler e a gravitação dos astros estudada por Isaac Newton.

Mesmo sem o conhecimento profundo nessa área, as pessoas, em modo geral, possuem um fascínio natural pelos astros ao ponto de procurarem explicações físicas e espirituais para o movimento das estrelas e dos planetas. Entretanto, os astros mostram ainda uma nova função: ser o ponto de referência necessário para a locomoção em meios onde não há pontos fixos de referência, como por exemplo, em mar aberto. Essas navegações, que visavam a expansão territorial e o comércio com áreas remotas do globo, em relação a Europa, corno Ásia, África e América, precisavam ser rápidas e precisas, então se faz necessário o conhecimento astronômico para se movimentar utilizando os astros como referência.

Desde a Grécia antiga já se sabia que existem corpos celestes que realizam movimento divergente em relação às órbitas circulares observadas para a maioria dos astros. Estes corpos foram denominados planetas, que significa "astro errante" em grego.

Após Nicolau Copérnico e Galileu Galilei, o mundo se convence que as estrelas estão em inércia em relação à Terra, que ela é redonda e possui dois movimentos característicos: a rotação, o movimento em torno de seu próprio eixo e que é relacionada com os dias, e a translação, movimento em torno do Sol para o caso dos planetas do sistema solar, relacionado com os anos.

O movimento translacional dos planetas define uma trajetória em torno de um ponto e Kepler. se impõe a missão de determinar a forma geométrica dessa curva e também verificar o modelo heliocêntrico de Copérnico e assim entender melhor esse movimento. Em 1609, após anos de estudo e com dados obtidos por Tycho Brahe, Kepler observa que na verdade essa curva é uma elipse de baixíssima excentricidade, fato esse que Canalle (2003)

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l Introdução 9

nos chama atenção nos mostrando que esse tema tem sido pouco enfatizado na literatura contemporânea do ensino de Física. Essas elipses são uma alternativa à descrição feita por Copérnico dos movimentos celestes como uma composição de diferentes movimentos circulares uniformes.

Entretanto, Kepler não foi o único a estudar essa trajetória. Cohen (1962, 1983) e Sivardiere (1994) rios lembram que o grande Astrônomo Real francês Giovanni Dornenico Cassini, em 1680, dispõe de dados mais precisos que aqueles determinados por Brahe, devido ao aperfeiçoamento da luneta, e explora exaustivamente a possibilidade dessa curva ser na verdade uma curva oval, conhecida hoje como oval de Cassini, também chamada de falsa elipse (COHEN, 1962, 1983; SIVARDIERE, 1994).

Nesse trabalho, no Capítulo 2, fazemos um resumo histórico do problema. No Ca-pitulo 3, descrevemos geornetricamente como a elipse de Kepler e a oval de Cassini se comportam utilizando dados das posições pontuais do planeta Marte (MORGADO; SOA-RES, 2012, 2013). Concluímos esta monografia revelando que a hipótese de Cassini não é muito discutida na atualidade e nem mesmo muito divulgada porque ela ocorre na mesma época da consolidação da mecânica newtoniana. um fator determinante para aceitação do modelo de Kepler e suas implicações na Física.

Utilizamos como referências para o presente trabalho a monografia de final do curso de licenciatura em Física, UFRJ, de Lucas (2007) e também o livro Book of Curves, de Lockwood (1961).

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2 Um pouco de história

E comum estudarmos em diversos livros de história — como, por exemplo, Cotrim (2003) e Piletti e Jobson (2003) — que o Brasil foi descoberto em 1500, quando os portu-gueses e espanhóis se lançaram ao mar em busca de novas rotas para comércio com a Ásia oriental. Essa busca se fez necessária devido a tomada de Constantinopla pelos Turcos, fechando, assim, o comércio pelo mar mediterrâneo que unia a Europa com a Ásia.

Devido a essa busca por novas rotas marítimas, novas terras também foram encon-tradas e, como exemplo, podemos destacar o continente americano. A nobreza européia percebeu uma nova oportunidade para o seu próprio lucro e colonizaram essas novas ter-ras. Não apenas o Brasil, mas diversos países da América, da África e da Ásia se tornaram colônias de reis europeus por séculos.

Nesse período, o comércio marítimo domina o mercado global, a troca de matéria bruta exportada pelas colônias e as matérias manufaturadas pelos colonizadores precisam de velocidade e confiabilidade nas rotas comerciais. Então, não é exagero imaginar que o mundo se voltou para o mar aberto.

Esse período se alonga por séculos e esse é o cenário global na época. As grandes navegações demandam um grande investimento de todos os grandes países na busca por melhores meios de navegação. Junto com toda a gama de conhecimento que foi criada nessa época também se incluía o estudo dos astros.

Já era conhecido desde a antigüidade que o céu é um ponto fixo importante para aqueles que, em alto mar, não possuem nenhum outro referencial. Todo o peso comercial que essas viagens possuem nos revela a importância em se conhecer com precisão os movimentos celestes, desde suas medidas às previsões dos posicionamentos dos planetas.

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3 A trajetória de Marte

Devido à sua excentricidade elevada, o planeta escolhido para a estruturação desse trabalho foi Marte. Nos sítios eletrônicos tais como o do Institut de Mécanique Celeste et de Calcul dês Éphcméridcs (IMCCE, 2012), podemos encontrar as posições para o planeta escolhido num momento específico, como observado na Fig. 1.

Observamos, então, doze posições do planeta situadas no intervalo de um ano marci-ano, que possui 687 dias terrestres, aproximadamente dois anos terrestres, e essas posições foram escolhidas de maneira a se ter o mesmo intervalo de tempo entre elas, rio caso 57 dias e 6 horas. Colocando as coordenadas obtidas no papel milirnetrado, ou em programa de similar função como por exemplo o GeoGebra® (2012), temos a Fig. 2 como resposta. Sabendo também que o sistema utilizado é o heliocêntrico, logo o Sol está na origem dos eixos. Para o nosso propósito, também podemos utilizar uma elipse de excentricidade 1/11, igual à órbita de Marte, dividida em doze posições em intervalos regularcs. Es-tas posições, com precisão de até três casas decimais, são similares às determinadas pelo IMCCE.

Partindo do pressuposto de que não conhecemos a curva que representa o movimento dos astros — e apenas conhecemos estas posições em intervalos regulares de tempo —, nossa primeira tarefa é então determinar qual é curva mais adequada para descrever esse conjunto de posições dentro da precisão exigida na época.

(14)

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Figura 2: Doze posições do planeta em intervalos regulares de tempo.

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3.1 Os eixos de referência 14

3.1 Os eixos de referência

Antes de definir a trajetória deste corpo celeste, é interessante estabelecer o eixo de referência para traçarmos as curvas. Primeiramente é importante realçar que Kepler conhecia as medidas das distâncias durante os solstícios de verão e de inverno. Como ilustrado na Fig. 3, essas medidas nos remetem aos valores da menor distância entre o Sol e o planeta (o periélio) e da maior distância (o afélio). Sabendo disso, precisamos apenas somar esses dois segmentos de retas e assim construirmos um dos eixos, como indicado na Fig. 4.

Uma vez estabelecido um dos eixos, devemos apenas determinar o seu centro e a sua rnediatriz, o que pode ser feito com a ajuda de um compasso. Construindo uma circunferência de raio igual ao eixo já determinado e com centro em uma das extremidades e, após isso, uma segunda circunferência de mesmo raio, mas centro na outra extremidade, Fig. 5. Os pontos onde esses arcos se interceptam pertence a uma reta, Fig. 6, esta reta determina o segundo eixo e o seu centro O, Fig. 7.

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Figura 6: Construção do eixo menor da órbita do planeta.

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Figura 7: Eixos de referência. O Co Co a. a>

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3.2 A circunferência 20

3.2 A circunferência

Observando apenas a Fig. 2 e a Fig. 7, a escolha natural para a trajetória do planeta é uma circunferência. Uma das maneiras mais elementares de se construir geometrica-inente uma circunferência é escolhermos três pontos adjacentes Pí; P j e Pk quaisquer da

trajetória.

Construímos, em seguida, dois segmentos de reta PiPj e PjPk, como ilustrado na Fig. 8. O próximo passo é a construção das mediatrizes — utilizando o mesmo processo que o utilizado para se determinar os eixos de referência — desses segmentos e as prolongarmos até que elas se interceptem no ponto O, como indicado ria Fig. 9. A Figura 10 mostra que este ponto define o centro da circunferência que passa pelos pontos considerados.

Ao analisarmos a curva construída, percebemos três fatores importantes: (i) a curva não se comporta da maneira esperada. Várias posições do planeta estão fora da circun-ferência obtida; (ii) se escolhermos três diferentes pontos adjacentes para construirmos a circunferência teremos diferentes circunferências. A Figura 11 ilustra esta observação; e (iii) por fim, o Sol não se encontra em nenhuma posição de destaque.

Esse procedimento demonstra geometricamente que não pode ser uma circunferência a curva que define a trajetória dos planetas em torno do Sol.

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3.2 A circunferência 21

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Figura 9: Retas mediatrizes dos segmentos de reta traçados entre duas posições adjacentes.

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Figura 10: A construção da circunferência de centro dado pela interseção das mediatrizes dos segmentos de reta traçados entre duas

posições adjacentes.

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3.3 A elipse de Kepler 25

3.3 A elipse de Kepler

Em 1609, Kepler promove a elipse para a curva que melhor representa o movimento dos astros com a postulação de suas duas primeiras leis. Nesse período ele utilizou de dados pontuais para a trajetória de Marte, obtidos por Tycho Brahe e explora geoirie-tricarnente as diversas possibilidades, chegando a essa conclusão. Nessa segunda etapa visamos conjecturar o caminho utilizado por Kepler para a formação de sua primeira lei. A construção geométrica dessa elipse começa, como descrito em LOCKWOOD, com a utilização do conjunto de eixos montado anteriormente e a construção de um arco de circunferência qualquer utilizando três pontos da curva, assim como fizemos na construção da circunferência. Esse arco é utilizado para determinar uma reta tangente a ele em um dos pontos utilizados para sua construção, como ilustrado na Fig. 12.

Determinamos, então, os pontos onde essa reta tangente intercepta a circunferência centrada na origem do eixo de referência e de raio igual à metade do eixo maior. Esse eixo é composto pelos segmentos que definem o afélio e o periélio. Estes dois pontos onde a reta corta a circunferência serão os pontos Q e Q'. A partir desses dois pontos traçamos duas retas paralelas entre si e perpendiculares à reta tangente antes utilizada. Essas retas cruzam o eixo maior em dois pontos distintos e eles definem os focos da elipse procurada, como descrito na Fig. 13.

Nota-se, de imediato, que o Sol se localiza em um dos focos. Ao fazermos o processo inverso, a partir dos focos até a circunferência de raio igual a metade do eixo maior, pode-mos determinar diferentes pontos Q e Q' de maneira a terpode-mos diferentes retas tangentes às diferentes posições do planeta, como indicado na Fig. 14. Essas retas tangentes envelopam a curva elíptica desejada, como descrito na Fig. 15.

Essa curva, em contraste com a circunferência, consegue atingir todos os pontos da trajetória dentro da precisão exigida e, um dos fatores mais importantes para a aceitação dessa curva por Kepler, é esta elipse manter o Sol em uma posição privilegiada, um dos focos da elipse.

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Figura 12: Arco de circunferência c sua reta tangente.

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Figura 14: Rotação da reta tangente que envelopa a trajetória procurada.

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Figura 15: Construção da elipse de Kepler.

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3.4 A oval de Cassini 30

3.4 A oval de Cassini

Em aproximadamente 1680 Cassini se apodera de pontos diferentes para as posições dos planetas do que os estudados por Kepler ao utilizar o telescópio. Com esses novos dados ele propõe uma curva diferente para o movimento translaciorial dos astros. Essa curva recebe o nome de oval de Cassini (LOCKWOOD, 1961).

De maneira similar ao que foi feito na seção anterior, a Figura 2 representa a posição do planeta Marte ao longo da sua trajetória. Como podemos observar da figura, empregamos o mesmo sistema de coordenadas e os mesmos pontos focais da elipse para a construção geométrica da oval de Cassini.

A oval de Cassini possui quatro focos, diferente da elipse que possui apenas dois. Primeiramente devemos definir os quatro focos e dois deles já foram obtidos através da elipse, os outros dois podem ser encontrados ao construirmos uma circunferência cen-trada no centro do eixo e com raio igual à distância entre esse centro e um dos focos já encontrados. A Figura 16 representa os quatro focos determinados pela interseção da circunferência corri os eixos de referência.

O próximo passo é, segundo LOCKWOOD, a construção de uma reta tangente a essa circunferência, perpendicular ao eixo menor. Determinaremos assim o ponto D perten-cente a essa reta tangente, localizado, para baixas excentricidades como é o caso, no ponto onde essa reta tangente se encontra com a circunferência centrada em O e de raio igual a metade do eixo maior, como representado na Fig. 17.

Após a determinação desse ponto D, devemos traçar uma reta qualquer que passa por D e corte a circunferência que contém os pontos focais em dois pontos distintos S e 5". As distâncias D S e D S' serão os raios de duas circunferências centradas nos focos Fi(Sol) e F2 respectivamente. A Figura 18 mostra os pontos onde estas duas circunferências se

encontram. Estes pontos são pertencentes à curva oval procurada.

Definindo inúmeras retas oriundas do ponto D que cortem a circunferência, teremos então diferentes pontos S e S' e assim diferentes pontos R e R'. Podemos assim, como ilustrado na Fig. 19, completar a construção da curva desejada.

Observamos que, também nesta curva oval, o Sol possui uma posição privilegiada e que, aparentemente, essa curva descreve satisfatoriamente a curva do movimento trarisla-cional dos planetas, passando com certa precisão nos pontos estudados.

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Figura 17: Determinação do ponto D.

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Figura 18: Pontos pertencentes à curva procurada.

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Figura 19: Construção da oval de Cassini.

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Considerações finais

Observando separadamente as curvas estudadas por Kepler e Cassini percebemos corno são semelhantes suas aparências para a excentricidade de Marte e quão não óbvia é a tarefa de escolher uma ou outra curva para representar o movimento trarislacional dos planetas. Para mostrar essa dificuldade podemos sobrepor as três figuras, a circunferência centrada no centro dos eixos e de raio igual a metade do eixo maior, representada na cor azul, a elipse na cor vermelha e a oval na cor amarela, como indicado na Fig. 20.

Analisando essa sobreposição, na Fig. 20, é possível ver uma pequena diferença nas três curvas na região dos pontos Pü e P6, sobre o eixo menor. Para melhor percebemos

essa diferença podemos nos aproximar de um desses dois pontos para melhor quantificar essa diferença. Ilustramos este procedimento na Fig. 21, utilizando o mesmo programa empregado para a construção das imagens deste trabalho.

Desta figura, podemos concluir inicialmente que, de fato, só a elipse se superpõe perfeitamente às posições do planeta e, deste modo, é a curva mais apropriada para definir esse movimento. Entretanto, é importante ressaltar que essa diferença não é óbvia, é preciso uma precisão de quatro casas decimais para percebermos alguma diferença entre essas curvas. Por exemplo, para a órbita de Marte, é necessário um eixo maior de dois metros para notarmos uma discrepância de quatro milímetros entre a curva estudada por Cassini e a por Kepler. Notamos também que esta é a mesma discrepância entre a elipse de Kepler e a circunferência (SIVARDIERE, 1994).

Outra conclusão que podemos chegar é que essas curvas só são semelhantes dessa maneira devido à baixa excentricidade do planeta que estamos estudando. Se mudarmos de objeto de estudo e observarmos a trajetória de Mercúrio, por exemplo, que possui excentricidade de 1/5, ilustrado na Fig. 22. Está diferença se torna mais acentuada do que na curva para Marte que possuiu 1/11 de excentricidade, como observamos na Fig. 23.

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s-Figura 20: Superposição das curvas estudadas para a órbita de Marte.

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Figura 11: Aproximação na posição P0. Todas as curvas possuem o mesmo centro. A curva superior é a circunferência, a do meio é a elipse de Kepler e a inferior é a oval de Cassini.

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Figura 22: Superposição das curvas estudadas para a órbita de Marte.

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s-Figura 23: Superposição das curvas estudadas para a órbita de Mercúrio.

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Considerações finais 40

Considerando que Cassini já dispõe da luneta para auxiliá-lo na aquisição de seus dados, ele possivelmente tinha medidas mais precisas que as medidas utilizadas por Kepler. Portanto, com todas essas informações, não é possível alegar que a curva estudada por Cassini fosse uma escolha errada. A diferença entre as duas curvas requer urna precisão nas medidas que, a olho nu, como anotado por Brahe, é muito difícil de ser realizada.

Com o nosso trabalho queremos ressaltar a facilidade ilusória, adotada na literatura do ensino de Física para o ensino médio, na determinação da trajetória planetária a partir somente da análise das posições dos planetas ao longo de suas órbitas e, deste modo, estabelecer a primeira lei de Kepler. Mostramos a dificuldade dessa percepção através da construção geométrica destas curvas e de como a precisão das medidas é um fator importante para orientar a escolha.

Somente com a consolidação da Mecânica Newtoniana, em 1687, com a publicação da teoria da gravitação de Newton (1999) no Principia Mathematica , onde ele obtém as três leis observadas experimentalmente por Kepler, relativas ao movimento planetário, é que a curva elíptica será consagrada. Assim, citando Laplace (1829, vol. l, p. 256), "ser aceita como a curva a representar o movimento translacional dos astros e que qualquer diferença experimental se dá por perturbações de outros corpos celestes na órbita considerada".

Com este trabalho, seguindo os modelos dos PCNs (BRASIL, 1996, 1998, 2000) e dos PCN+ (BRASIL, 2002a, 2006, 2002b), esperamos inicialmente ilustrar para o aluno do ensino médio esse período histórico de grande importância para a ciência, um momento considerado por muitos como a primeira das grandes revoluções cientificas, a revolução copernicana. Com essa revolução a Física começa a desenvolver uma linha de pesquisa a partir de dados obtidos experimentalmente.

Também pretendemos mostrar aos alunos que a Física é construída com base nos dados obtidos experimentalmente e em modelos distintos a partir da análise de dados, e que esses modelos se modificam com o passar do tempo. Outro objetivo deste trabalho é ensiná-los a usar a geometria como ferramenta, assim como desenvolver a aptidão com ferramentas simples como esquadros e compassos, ferramentas que são fundamentais para a construção de diversas curvas estudadas ao longo do ensino médio não somente na área da Física, mas também nas outras ciências.

Apresentamos assim uma estratégia que pode ser utilizada por professores para moti-var o aprendizado do aluno para este tema que é objeto de fascínio para a grande maioria dos estudantes. Essa atividade pode ser empregada para facilitar a abstração necessária para a aprendizagem na astronomia quantitativamente, a partir de dados observados, sem

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Considerações finais 41

se utilizar de noções algébricas que poderiam dificultar o aprendizado do conteúdo físico pelo aluno.

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Referências

BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: Editora do Congresso Nacional, 1996. Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996.

BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília: MEC/SEF, 1998.

BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais - Ensino Médio. Brasília: SEMTEC/MEC, 2000.

BRASIL. PCN+Ensino Médio: orientações educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais; Ciências da natureza, Matemática c suas Tecnologias. Brasília: MEC/SEMTEC, 2002.

BRASIL. PCN+Física: orientações educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais: Ciências da natureza, Matemática e suas tecnologias. Brasília: MEC/SEMTEC, 2002.

BRASIL. PCN+Ensino Médio:orientações educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais - Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias. Brasília: MEC/Semtec, 2006.

CANALLE, J. O problema do ensino da órbita da Terra. Física na Escola, v. 4, n. 2, p. 12-16, 2003.

COHEN, I. B. Leibniz on elliptical orbits: As seen in his correspondence with the Académie Royale dês Sciences in 1700. Journal of the History of Medicine and Allied Sciences, v. 17, ri. l, p. 72-82, 1962.

COHEN, I. B. The Newtonian Revolution. Cambridge: Cambridge University Press, 1983.

COTRIM, G. História global - Brasil e Geral. 1. ed. São Paulo: Saraiva Editora, 2003. GEOGEBRA®. 2012. Disponível em: <http://www.geogebra.org/cms/>. Acesso em: Outubro de 2012.

IMCCE. Institui de Mécanique Celeste et de Calcul dês Ephémérides. 2012. Disponível ern: <http://www.imcce.fr/en/ephemerides/formulaire/form_ephepos.php>. Acesso ern: Outubro de 2012.

LAPLACE, P. S. M. de. Mécanique Celeste. Boston: Hilliard, Gray, Little, and Wilkins, PubL, 1829.

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Referências 43

LUCAS, C. de S. Uma abordagem alternativa para as leis de Kepler no Ensino Médio. Dissertação (Monografia de final de Curso de Licenciatura) — Instituto de Física — UFRJ, Rio de Janeiro, Maio 2007.

MORGADO, B. E.; SOARES, V. Determinação da órbita planetária segundo Kepler e Cassini. In: Resumos do X ENLIF — Encontro de Licenciatura em Física. Rio de Janeiro: Instituto de Física, 2012.

MORGADO, B. E.; SOARES, V. Kepler, Cassini e a determinação da órbita planetária. In: Resumos do XX SNEF — Simpósio Nacional de Ensino de Física. São Paulo: Sociedade Brasileira de Física, 2013.

NEWTON, L Principia Mathematica. Berkeley: University of Califórnia Press, 1999. PILETTI, N.; JOBSON, J. Toda a História — História Geral e do Brasil. 12. ed. São Paulo: Ática Editora, 2003.

SIVARDIERE, J. Kepler ellipse or Cassini oval? European Journal of Physics, v. 15,

Referências

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