WEBER, Eugen. França fín-de-siècle. São Paulo:
Companhia das Letras, 1989.
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DECADÊNCIAP
Fim de século escorrega com menos facilidade da língua que
fin de siècle. Talvez seja por isso que o termo permaneça
asso-ciado principalmente à França, onde foi cunhado enquanto o século XIX ainda tinha alguns anos pela f r e n t e / ^ e u significado exato, a princípio, não era inteiramente claro. Podia denotar "moderno" ou "atual".1 Mas a novidade trazia junto
perplexi-dade e uma certa insegurança, e eventualmente um declínio de padrões }/f\Jm sapateiro seria antes elogiado por ser um remendão tradicional que por ser fin de siècle,3 Logo as conotações
nega-tivas do termo eliminaram todas as outras. Quando, em 1891, um juiz descreveu jovens advogados como fin de siècle, a im-prensa achou o julgamento duro demais, muito capaz de provo-car "protestos legítimos".4 Nesse mesmo ano, o ataque de um
jornal provinciano à prefeitura local, taxada de fin de siècle, causou um duelo e uma ação judicial que terminou com uma multa para o jornal difamador.5 Quando um tribunal de Paris
julgou um chantagista que vivia da prostituição da esposa, teve de ouvi-lo explicar que ele não passava de "um marido fin de
siècle".6 As palavras estavam por toda parte; podiam ser
apli-cadas a qualquer coisa, a tudo:
Fin de siècle! partout, partout .. .il sert à désigner tout.7
Fin de siècle! em toda parte, em tudo .. .ele serve para designar tudo.
Como a arte imita a vida, quando não a inspira, a litera-tura logo adotou a visão. Em 1891, Joris Karl Huysmans
ralmente) denunciava "o espetáculo ignóbil deste fin de siècle".8
Mas vozes mais vulgares, e por isso mais audíveis, entoavam o mesmo refrão. Uma peça de 1888 chamada Fin de Siècle gira em torno de negociações duvidosas, adultério e assassinato; um romance monótono com o mesmo título, publicado em 1889, conta a história de um jovem rico a quem o tédio, o jogo e afetos equivocados levam ao suicídio em 325 cansativas páginas.9/No
final de 1890, uma nova revista financeira semanal, Le Fin de
Siècle. prometia revelações picantes de escândalos financeiros.
Saiu de circulação junto com o ano, legando seu título a uma revista mais "literária", sugestivamente ilustrada para funda-mentar seu argumento de que o vício é mais interessante que a virtude^Presumivelmente também mais representativo: "quem quiser agradar hoje em dia tem de ser fin de siècle ou deixar de existir". 10 Quais eram as idéias fin de siècle dessa
publica-ção decididamente fin de siècle?
"Nada de classes, títulos ou raça", explicava o editor, Fran-çois Mainguy, no primeiro número. "Tudo é misturado, confun-dido, indistinto e reembaralhado numa visão caleidoscópica." O caráter fin de siècle na sua forma mais aguda era competição, "luta pela vida" e, sobretudo, esforços para satisfazer les
appé-tits du ventre [os apetites do ventre] .u
/Seriam antes os apetites do baixo ventre que Le Fin de
Siècle se dispunha a satisfazer, competindo com La Vie Pari-sienne e outras publicações, de caráter pornográfico mais ou
menos vago, que podiam se dar ao luxo de alugar autores famo-sos (Émile Zola, Alphonse Daudet, Aurélien Scholl, Octave Mirbeau) por um bom preço / E m 1893, como uma proeza publi-citária, Mainguy decidiu imitar o popular bal des Quatre-z-Arts
[baile das Quatro Artes] dos estudantes de arte, organizando um bal fin de siècle [baile fin de siècle]. Seu plano tornou-se um grande sucesso, quando a modelo que contratou para repre-sentar a Beleza foi presa e levada ao tribunal por não estar usando nada além de (ou embaixo de) uma camisa preta trans-parente, enquanto uma ninfa acompanhante era acusada de dan-çar sem nem mesmo isso para aquecê-la. O outrage public à la
pudeur [ultraje público ao pudor] significou quinze e oito dias
de prisão para as garotas, respectivamente, enquanto Mainguy era condenado a um mês.12 A tiragem aumentou.
S l/A anarquia moral, ou o que era descrito como tal, subvertia idéias e padrões até então tomados como naturais, pelo menos ;era público. Não se acreditava mais em nada, o vício estava por toda parte; não era simplesmente um fin de siècle, escrevia Fin
de Siècle, mas um fin de race [fim de raça]: o final de uma
raça doente (as pessoas), "na qual só um culto sobrevive, o do amor".1 3 Amor significava, é claro, sexo, embora sem
procria-ção./Não é de admirar que um crescente número de pessoas, especialmente dentro da Igreja Católica, acreditasse ver a mão do diabo atrás do declínio acelerado. Em 1891, o abade Jeanin publicara Êglise et fin de siècle, que censurava a decadência dos tempos. No final do século, o fim do mundo parecia próxi-mo. O fim do mundo em breve, prometia Arthur Lautrec em
1901; em 1904 o título mais preciso de Jean Rocroy, O fim do
mundo em 1921 (comprovado pela história), já contava com 20
mil exemplares impressos.14//
Não era preciso ir muito longe para avaliar o interesse de um tempo de mudança acelerada, uma sociedade que parecia a ponto de mudar em essência, como já fizera em aparência — "uma sociedade prestes a desaparecer", já agitada e alarmada "por mil importantes sintomas de degeneração".15 A noção de
fim traz consigo, de alguma maneira, pensamentos de diminuição e decadência. Cem anos antes, Sébastien Mercier, tratando da morte de um século menos vil, também constatara a predomi-nância de miséria, depressão e ansiedade; concluiu que era quase impossível ser feliz em Paris. / A s coisas tinham piorado desde então: derrota e ocupação em 1814-5, nova derrota e ocupação depois de 1870 sugeriam, o que mais tarde se confirmaria, que os dias de conquista da França estavam chegando ao fim, substi-tuídos pela nova e incômoda experiência do declínio./.
//A decadência, esboçada pelos poetas românticos, seria
afir-mada pela descrição naturalista, saudada por aqueles que sabo-reavam seus refinamentos concomitantes, denunciada com amar-ga satisfação pelos que viam seu mundo se esfacelar. / h a metade do século, a pesquisa médica pareceu confirmar sentimentos dessa espécie, quando o dr. Benedict Morei publicou seu
Trea-tise of the Physical, Intellectual, and Moral Degenerations of the Human Race and of the Causes That Produce These Maladive
Varieties (1857). O debate se estabeleceu em torno da tese de
Morei. "No último quarto de século", queixava-se um médico em 1876, só o que se ouve é "Somos degenerados! Estamos em decadência!". Como que para confirmar a tese, os estatísticos dizem que a população está decrescendo, a altura média dos recrutas diminui, o número de recrutas recusados cresce, a mora-lidade definha, o crime prospera, a mente e o corpo tendem à deformidade, ao cretinismo, à idiotia, à sandice, e assim por diante. Algumas dessas declarações eram comprovadamente fal-sas, outras discutíveis. As estatísticas variavam, como sempre. Mas o máximo que os oponentes da tese da Decadência podiam oferecer não chegava a ser uma refutação, apenas argumentos de que a "pretensa degeneração física" dos franceses era relativa-mente pequena se comparada à de outros europeus.16/
A questão não comportava uma abordagem ciéntífica. As provas, assim parecia, estavam por toda parte. Entre os que discutiam esses problemas, ou davam ouvidos à discussão, a de-gradação e a decrepitude da sociedade e de seus valores pare-ciam fora de dúvida. Principalmente quando os sintomas se apresentavam em âmbito mais doméstico: sono perturbado, di-gestões complicadas, má circulação, fadiga, e assim por diante. O dr. de Fleury, descrevendo Os grandes sintomas neurastênicos (1901), só podia deplorar "esta lassidão desanimada, esta impo-tência intelectual e física" que caracterizava a doença. Em uma década, tudo ficou pior./A neurastenia, assegurava o dr. Grel-Iety, era a maladie du siècle [doença do século]. "A neurose está à nossa espera e torna-se cada vez mais grave ] . . . [ O monstro nunca fez tantas vítimas, seja porque os defeitos ances-trais se acumulam, seja porque os estimulantes de nossa civili-zação, mortais para a maioria, nos precipitam numa debilitação ociosa e assustada."/Como Pasteur Vallery-Radot lembra, "era moda, em 1910, comprazer-se na melancolia".17 Isto talvez
ex-plique por que um jornalista contemporâneo, ao considerar as profissões que um jovem brilhante poderia escolher, focaliza a medicina, onde "encontraria uma próspera carreira por causa das ansiedades, neuroses e desordens gerais que reinam entre as classes sociais mais elevadas".18
As classes sociais mais elevadas, ou pelo menos seus filhos sensíveis, sabiam que nervos frágeis eram prova de sensibilidade refinada. Baudelaire admirara o caráter nervoso da escrita de
Edgar Allan Poe e a intensidade nervosa da música de Wagner. Os admiradores de Baudelaire veneravam na sua obra "a magní-fica queixa nervosa que afetaria todas as almas sensíveis depois dele"; procuravam, como ele, "exasperar suas aflições". Félicien Rops, o grande aquafortista, garantia trabalhar com seus nervos. Os poemas de Maurice Rollinat, Les Névroses, datam de 1883. Para Zola, a obra dos irmãos Goncourt era "uma espécie de imensa neurose", e Taine "ajusta-se bem em nossa sociedade de nervos". Edmond de Goncourt considerava Degas um neuró-tico. Art Moderne, de Huysmans (1883), descrevia Berthe Mo-risot como uma colorista nervosa, Guillemet como "um pacote de nervos sob controle" e Gauguin como "uma pele embaixo da qual os nervos vibram", enquanto Mary Cassatt oferece "um redemoinho de nervos femininos transposto para seus quadros".19
Esta ênfase dada aos nervos e à procura de fontes de energia nervosa andava de mãos dadas com uma sensação de abatimento, perda de entusiasmo, lassidão, énervement d'esprit
[enervamento do espírito], uma degradação geral de energia confirmada, aparentemente, pela teoria da entropia, derivada da segunda lei da termodinâmica. Mas não era apenas a energia que se dissipava. O mesmo acontecia com a saúde e a força, fato comprovado pelo miserável desempenho da França nas pa-radas demográficas. Da década de 1880 até a Primeira Guerra Mundial inúmeras vozes se levantaram para avisar que o país corria o perigo de desaparecer. E, enquanto o número dos habi-tantes encolhia, os que restavam apodreciam por dentro.
O domínio da Igreja enfraquecera, mas as dívidas do pe-cado, a serem pagas neste mundo e não no próximo, conti-nuavam terríveis para culpados e inocentes. Oprimido, explo-rado, o povo reagia através de suas mulheres, que transmitiam ^a sífilis aos machos burgueses. Apanhada na rua, no bordel ou no quarto da empregada, a degradação afetava necessariamente a "raça". A convicção de que o vício traz consigo seu próprio castigo, por meio da doença venérea que arruina o portador e seus descendentes, associava-se a um darwinismo vulgarizado para sugerir que, como as famílias, sociedades e grupos sociais estavam sujeitos à degeneração. "A degeneração da raça", escre-via André Derain a seu amigo Vlaminck, "jorra de todos os
nossos poros [. . . ] Somos os cogumelos de antigos montes de es-terco".20/
—i)N a versão francesa apresentada pelo teatro avant-garde de
Antoine, Fantasmas, de Ibsen, não falava mais sobre os efeitos hereditários da sífilis, mas sobre os do alcoolismo.21 Porém, o
vício ou o álcool que minava as classes dominantes depravava e brutalizava as mais baixas. Se a raça se deteriorava, o resul-tado era mais corrupção: a degeneração física favorecia o crime;
dégénérescence [degenerescência] e criminalité [criminalidade]
eram associadas em mais de um título, como na saga de Zola sobre o clã Rougon-Macquart.^E não demorou para que uma conclusão lógica fosse tirada: o homem moderno estava indo contra o princípio da seleção natural. Algumas das próprias ins-tituições que uma sociedade avançada gera causam o declínio da raça./Ò homem moderno cuida dos fracos, dos retardados, dos degenerados. A assistência pública, asilos, clínicas e
hospi-tais prolongam a vida de pessoas — idiotas, imbecis — que vão gerar outros degenerados, cuja sobrevivência contribui para o desastre social. Essa seleção às avessas deveria terminar: crimi-nosos, degenerados e deficientes mentais deveriam ser esterili-zados — por livre e espontânea vontade ou, se fosse preciso, "por pressão fraternal". De outro modo, como preservar a socie-dade?2 2^
Veremos que o crime tinha uma participação tão grande nas inseguranças do fim do século XIX quanto nas de nossa época; e também figurava com freqüência nos argumentos sobre dete-rioração social. No entanto, a noção de decadência, estreitamente associada à de fin de siècle, não era uma preocupação intensa das classes vulgares, mas antes de uma minoria culta / U m tema deste livro será a discrepância entre a preocupação das classes superiores com a decadência (moral, material, social) e a melho-ria efetiva dos padrões de vida, do equipamento intelectual e
das oportunidades sociais que as massas populares começavam a perceber, às vezes até a experimentar/Uma questão que atraía tanta atenção, ainda que só em esferas limitadas, não pode ser descartada levianamente. As dificuldades refletiam problemas /
feais — mesmo que nem sempre aqueles a que eram atribuídas. Cem anos atrás, assim como hoje em dia, a sociedade movia-se aos arrancos. Enquanto as condições de vida melhoravam para
muitos, outros achavam que a vida se tornava mais difícil. Como os últimos expressavam-se em geral muito bem, suas opiniões marcaram a época — e nossas memórias dela/ Não obstante, como fin de siècle, decadência não era um termo desprovido de ambigüidade.
A noção de decadência (do latim cadere, cair) não é pe-culiar à virada do século xix, com a qual é freqüentemente asso-ciada. Não era desconhecida para Platão, quanto menos para Gibbon, e pelo menos uns poucos a viam como realidade pre-sente bem antes da Revolução Francesa. Em abril de 1770, Vol-taire conceituou-a em termos que continuariam a ser usados du-rante os próximos dois séculos. Isso teria acontecido, escreveu a la Harpe, "pela facilidade com que fazemos as coisas e a pre-guiça que nos impede de fazê-las bem, por um excesso de beleza e um gosto pelo bizarro. Não espere que o bom gosto seja
res-tabelecido. Estamos, sob todos os aspectos, numa época da mais horrível decadência". Facilidade, preguiça, saciedade, o desa-parecimento do bom gosto e a inclinação pelo bizarro: a rebe-lião de um menino gordo, expressa em grande parte segundo gosto e maneiras apropriadas a uma pequena classe culta e ociosa, demonstra "a mais horrível decadência".
i/k sensação de que a qualidade e os padrões dos produtos
^literários e artísticos tinham declinado podia ampliar-se até che-gar à convicção de que o declínio nestes domínios refletia cor-rupção mais profunda e mais significativa, literatura, arte ou política incoerentes constituindo meros reflexos de tempos in-coerentes/No fin de siècle, homens como Charles Maurras, e até certo ponto Georges Sorel e Charles Péguy, passaram da crítica literária para a social: mentes confusas ou deterioradas, argumentavam eles, criavam produtos corruptos. Esse era um lado da moeda: descrição ou denúncia do declínio em certas esferas ou em todas.
/ O outro lado era a glorificação de coisas ou atitudes iden-tificadas com a decadência: as artificialidades enervantes da civilização e do refinamento; os gestos que demonstram nosso triunfo sobre a natureza e suas leis constritivas, ou sobre a não-menos-constritiva sociedade e seus credos convencionais./Esse era o culto da decadência, um outro pessimismo, cada vez mais articulado com o passar do século, mas que reservava
cia" para fins que acreditava ou fingia acreditar serem positivos. Deste ponto de vista, a corrupção, longe de ser destrutiva, era uma experiência redentora e revigorante, um passo em direção à transcendência da mediocridade sufocante das convenções de todos os dias.
Estudos da decadência inclinaram-se a descrevê-la como o final do romantismo e às vezes a relacionar os tons queixosos dos decadentes com a sensação de desgraça material que se seguiu às derrotas militares francesas de 1814-5 e 1870-1. A primeira geração (ou a pequena fração de um grupo etário, pois não
de-vemos esquecer que essas pessoas não eram numerosas) a mostrar os sintomas característicos certamente confirma esses
argumen-tos. Théophile Gautier nasceu em 1811, Alfred de Musset em 1810. Nos seus vinte anos, o primeiro enunciou a noção de deca-dência, o outro a expressou em termos memoráveis. Em sua
Confession d'un enfant du siècle (1836), Musset falou de um
jovem ansioso contemplando um mundo arruinado, vivendo "de restos como se o fim do mundo estivesse próximo". Nascidos cedo demais num mundo velho demais para eles, achavam que "tudo o que havia cessou de existir, tudo o que vai haver ainda
não existe".
A Confession de Musset, escrita na esteira de seu caso frustrado com George Sand, era menos um comentário sobre o mundo que via do que sobre sua própria frustração. Não que isso torne esses sentimentos menos representativos — bem ao contrário —, mas insere-os no contexto das atividades de um grupo bastante restrito, que se achava em posição de poder entre-gar-se a suas emoções e de reivindicar para sentimentos pessoais, e às vezes fugitivos, um significado universal — isto é, signifi-cativo para pessoas como eles. Antes de escrever a Confession, Musset já tinha expressado o âmago de sua frustração em peças como Fantasio (1834), em que a principal queixa do jovem herói era tédio, a indisposição específica daqueles cujo tempo livre é maior que seus meios de preenchê-lo/Pode-se argumentar que as noções e atividades da decadência estão intimamente rela-cionadas ao crescimento de uma classe ociosa que era sócio-economicamente irresponsável, frustrada e disponible. Entremen-tes, não deve ser esquecido o simples fato do tédio em si, de tão
grande vulto na experiência da classe média do século xix. De Schopenhauer, para quem o tédio é o terror onipresente da hu-manidade, a Huysmans, cujos heróis morrem de tédio (e que talvez tenha se filiado à Igreja porque "spleen não tem poder sobre as almas piedosas" cujo tempo é preenchido com as de-voções), o tédio é um leitmotiv de uma era em que o lazer desa-brochava, enquanto os modos de preenchê-lo continuavam raros) Em abril de 1909, o jovem François Mauriac, recém-chegado a Paris de Bordeaux para conquistar o ambiente literário, anota: "Cansaço, cansaço. . . Que se dê à minha aflição seu verdadei-ro nome: tédio".23
//Educação no século x i x significava uma educação clássica; e uma educação clássica oferecia não apenas um senso de história — tão importante para a noção de decadência quanto a mais recente experiência da ascensão e queda de Napoleão — mas também uma riqueza de referências literárias, não menos abun-dantes no campo do erótico e do obsceno^ A Monarquia de Julho (1830-48) parece ter sido um apogeu de traduções e retraduções ^dos clássicos latinos, especialmente daqueles que versavam sobre libertinagem e declínio. Novas ou renovadas versões de Suetônio, Petrônio e Juvenal apareceram na década de 1830, Ovídio e Horácio, Catulo, Propércio e Tibulo entre 1840 e 1845. Os apre-ciadores de histórias indecentes viam seu prazer materializado, e os moralistas encontravam suas referências todas à mão/Esta combinação de moralismo e diversão teve sua culminância sim-bólica em "Os romanos da decadência", de Thomas Couture. Este grande quadro, exposto no Salon de 1847 (do qual foi o grande sucesso), tinha sido adquirido pelo governo um ano antes de ser terminado. Sua feérica e ostensiva exibição de anatomias e atividades, ao mesmo tempo excitantes e moralizadoras, foi tomada como uma denúncia do declínio social contemporâneo e saudada como poderosa crítica social por conservadores, liberais e radicais — a melhor espécie de arte social reformadora.
Segundo o catálogo, o quadro foi inspirado por dois versos da Sexta Sátira de Juvenal: "Sofremos hoje os resultados fatais de uma longa paz, mais nociva que a guerra, / O luxo se preci-pitou sobre nós e vinga o universo escravizado".24 Reconhecia-se
imediatamente, é claro, que a pintura se referia a seu próprio tempo bem como ao século n da Era Cristã. Em "Romanos da
decadência", insistia Arsène Houssaye em suas memórias, Cou-ture "pintou os franceses da decadência. Não se vê a orgia francesa?".2 5
Esta impressão seria confirmada durante as duas décadas do Segundo Império, intensificada pela desilusão que se seguiu a
1848. Como Charles Maurras observou, o sufrágio universal tem um defeito: é conservador. Conserva o bom e o ruim. Foi exa-tamente o que o sufrágio universal (ou semi-universal) fez após
1848, bem como após 1871, fornecendo desculpas para a cons-ternação, em seguida para o cinismo, entre seus partidários mais sensíveis^Depois de 1848, até mesmo depois de 1851, a França dera um grande passo em direção à liberdade constitucional; mas ficou demonstrado que a liberdade constitucional (isto é, formal) tem pouco a ver com a liberdade pessoal (isto é, real), não apenas para a maioria, mas também para muitos membros de uma minoria mais privilegiada. Seu símbolo mais visível na metade do século parecia confirmar a opinião de Gibbon de que a corrupção e as constituições andavam de mãos dadas pro-gresso material, angustiosamente incômodo em algumas de suas manifestações imediatas, também podia parecer revoltantemente vulgar. A repulsa contra um materialismo simbolizado pela cobiça e pelo dinheiro pode ser avaliada tão-somente pelo contraste en-tre os padrões dispendiosos e ostentativos da brilhante corte do Segundo Império e de seus satélites ("fui convidada para Com-piègne", diz uma dama preparando-se para um fim-de-semana na corte, "vou vender uma fazenda") e a permanente aversão aristocrática por atividades lucrativas.2^ Em 1853, a
correspon-dência de Gustave de Beaumont e Alexis de Tocqueville ilustra a "repugnância extrema, para não dizer insuperável", que um cavalheiro sente pelo trabalho, mesmo que este seja o cargo de diretor de uma companhia ferroviária: "Quem assumir o cargo se diminui". Meio século depois, a jovem Pauline de Broglie recebe um cheque de 20 francos de uma revista acadêmica, que acabara de publicar um artigo seu sobre algumas escavações que realizara: "Fiquei consternada! [ . . . ] Como não saía sozinha, não podia descontá-lo num banco; por outro lado, confessar que recebera dinheiro era impensável! O cheque ficou na gaveta". De forma ainda mais explícita, um decidido doutor do campo,
num romance fin de siècle, detesta ir a seu banco e "pegar com dedos limpos o abominável metal, motivo de todos os crimes".27
Reais ou fictícias, nenhuma dessas personagens era deca-dente. Mas suas ressalvas refletiam um preconceito antigo e familiar contra o dinheiro ganho, muito difundido entre os que o usufruem, e contra um interesse manifesto pela sua aquisição, expresso com muita eloqüência por aqueles que dele menos ne-cessitam. Com mais oportunidades para satisfazer a cobiça e sair à procura de posses, os lamentos sobre valores morais em declínio tornaram-se mais altos. Os que andavam atrás de di-nheiro com muita avidez e os que o tinham procurado com tanto sucesso, que agora podiam se dar ao luxo de descansar concordavam a respeito de seus males e deploravam a sua posse. O dr. Bianchon, de Balzac, uma personagem da sociedade pari-siense de Cousine Betíe (1846), criada por um dos romancistas contemporâneos mais atentos ao problema do dinheiro, é claro a respeito: "Antes, o dinheiro não era tudo [ . . . ] . Hoje, a divi-são perpértua das propriedades força todo mundo a pensar em si mesmo, a partir dos vinte anos".
/Onde os bens importavam era no domínio da arte. Como Flaubert disse a um amigo, afligir-se por causa de dinheiro sobre-carregava o cérebro com preocupações vis. Uma renda privada significava "não ter de cuidar de coisas materiais". Desprezo por ganhar dinheiro e alguma fonte de fundos não provenientes de trabalho fornecem a característica comum dos literatos e das personagens literárias associados com a decadência, desde os dias de Fantasio aos de Des Esseintes/Eram, ou aspiravam a ser,
rentiers [pessoas que vivem de rendas].
^Ninguém escreveu a história do rentier, mas sua figura é certamente tão importante para a história cultural do século x i x quanto a do burguês para a história econômica e social. Ambos os termos representam noções amplas, a ponto de cobrirem um largo espectro de indivíduos, que podia abarcar, no primeiro caso, jovens vivendo de uma mesada, pequenos fidalgos ou gente medíocre tirando seu sustento de uma renda proveniente de investimentos, terra ou propriedades urbanas (quase sempre ad-quiridas pelo casamento ou por herança), até soldados e civis aposentados com uma pensão, ou profissionais e negociantes aposentados mantendo-se com suas poupanças. Prerrogativa de
uma pequena casta social anteriormente, a vida ociosa se tornava acessível para um crescente número de pessoas, especialmente moços que não se encontravam mais presos a um trabalho exaus-tivo. Poupados da necessidade de ganhar a vida, passavam mais tempo na crisálida indefinida e pouco exigente da vida estudantil. As energias não concentradas na sobrevivência podiam ser dis-persadas nas atividades da "decadência": mostrar a língua para os mais velhos; endireitar ou desprezar o mundo; perpetuar a poesia (considerada menos árdua que a prosa); e levar a pro-cura por um pouco de divertimento até os excessos que pudes-sem se dar ao luxo de provar^
/ D a í o aspecto novidadeiro da cultura da nova geração dos privilegiados; daí a discrepância marcante entre a versão literária da decadência e o progresso material e político com que as afir-mações ou aspirações decadentes entravam visivelmente em cho-que. Algumas delas foram atribuídas a uma cascata de desilusões: depois de 1815 e 1830, depois de 1848 e 1851, depois de 1871 e a partir dos últimos anos da década de 1880, velhas revo-luções e novos regimes fracassaram em introduzir o admirável mundo novo que tinham precipitadamente prometido/ Essa vul-nerabilidade aos acontecimentos em ebulição incutia um sentido mais agudo de história, que, diante dos fatos, favorecia pontos-de-vista cínicos que se prestavam a interpretações pessimistas. De qualquer modo, o domínio da política era exigente demais para agradar aos frívolos e imperfeito demais para satisfazer puristas incomodados com os jiilemas éticos suscitados por toda iniciativa política não frívola.yÒs perigos de fracassar e de sujar as mãos bastavam para desencorajar a maioria e introduzir o desprezo pela ação política manifestado por Flaubert, Baudelaire e Valéry^Do santuário "acima da lama onde os mortais comuns chapinhavam", eles contemplavam o que Eugène Sue descrevera como "esse terrível oceano popular cuja maré engoliria toda a sociedade". Em setembro de 1855, Jules de Goncourt anotava no seu diário: "Agora que a Europa não tem mais selvagens, os trabalhadores realizarão a tarefa de revitalizar a civilização em mais cinqüenta e poucos anos. Será a Revolução Social".28
Um outro fator complicava este conjunto de energias im-produtivamente concentradas. Como Tocqueville constatou na América, as instituições sociais democráticas sugerem (e são
sugeridas por) uma crença no aperfeiçoamento humano. Isto ficava evidenciado não apenas pela fé republicana na educação, mas também pelo ideal, lançado na década de 1790, de que todas as carreiras estavam abertas ao talento individual. Era um fato que a mobilidade econômica e social aumentava, modera-damente, é verdade, mas o bastante para mobilizar uma tropa educada ou parcialmente educada de aspirantes a carreiras. Os jovens que cantavam a "Marseillaise" tinham aprendido a acre-ditar que
Nous entrerons dans la carrière Quand nos aínés n'y seront plus.*
Entretanto, além do fato de que os mais velhos levavam freqüen-temente tempo demais para cederem o lugar (um problema que piorou com o passar do século), muitos aspirantes não tinham o capital financeiro ou social para satisfazer desejos que se tinham tornado muito mais exigentes que na década de 1790. O emprego figurado de deserdação (Oxford English Dictionary: "privar alguém de uma herança ou desfazer-se de uma herança") e deserdado em escritores do século x i x como Balzac e Renan, no sentido de prejudicado, miserável ou despojado — um uso não reconhecido até mesmo na edição mais recente do Oxford
English Dictionary (1961) e raramente encontrado em francês
mais antigo —, lança alguma luz sobre a importância da herança na economia moral da França, mas também sobre as opiniões pós-revolucionárias a respeito do que os seres humanos comuns poderiam esperar. Como a miséria, a mediocridade não era mais um estado a ser tolerado, mas a privação de algo melhor a que se tinha direito.
4 a visão essencialmente estática da sociedade e de seus valo-res, característica de uma sociedade tradicional que enfatizava o cumprimento adequado de deveres na posição social em que se nascia, tinha sido abandonada junto com qualquer ideal de perfeição geralmente aceito. Émile Durkheim reconhecia que o principal problema da sociedade contemporânea era a erosão do
( * ) Uma tradução livre poderia ser: Começaremos a trabalhar/ Quando os mais velhos cederem o lugar.
consenso moral. Opiniões sobre direito, virtude, sucesso tinham se tornado relativas — não eram mais que "opiniões". Mas a noção de sucesso permaneceu e, nos seus aspectos sociais e ma-teriais, continuou a ser de muito difícil realização para aqueles que viviam de pequenas rendas e que, pior ainda, tinham acesso duvidoso às vantagens cruciais de relações sociais, tradição fa-miliar e uma sólida base sócio-econômica. Muitos romances tra-çam a trajetória descendente de jovens "desarraigados", com educação superior à de sua posição social e ambições acima de seus meios. Muitas carreiras também se mantinham fora do alcance. Tentativas para resolver essas discrepâncias, quando não acabavam numa aceitação melancólica de um destino medíocre, podiam levar à crítica social, à revolta social ou a uma rejeição desesperada de toda a sociedade./
Tudo isso foi reforçado na segunda metade do século pelas idéias darwinianas de pré-seleção biológica. Não se tratava sim-plesmente de os homens não serem iguais, mas de as desigual-dades serem hereditárias^Não era o mérito, mas um elitismo predeterminado que traçava os destinos dos homens e das socie-dades. Então para que se esforçar? A degeneração estava à espera do predestinado, e o problema social confirmava a amea-ça pessoal. Aversão e medo: de massas "democratizadas e sifilí-ticas",29 da democracia assimilada à mediocridade, à mestiçagem
p eventualmente à "degeneração".30 Interpenetravam-se como se
estivessem em vasos comunicantes./'
A década de 1840 tinha visto a popularização de estudos sociais que documentavam e dramatizavam a miséria difundida e suas causas patológicas: doença e crime. Como a má-formação e a mortalidade, a delinqüência e a loucura tornaram-se altas prioridades no debate público, ainda mais desafiadoras por serem tratadas como doenças contagiosas para as quais tinha de haver uma cura. O que Roger Williams chama fontes médicas do desespero afetava outros além de seus heróis excepcionais. A culpa e a ansiedade que produziam tinham conseqüências so-ciais, simbolizadas pelas novas cátedras criadas para estudar a insanidade (1878) e as doenças do sistema nervoso (1882), e reafirmadas pelos dados que, a partir da década de 1880, a escola primária obrigatória impunha à atenção do público.31 Hordas
estatís-ticas, atestavam uma sociedade anormal, prestes a ser dominada pelos seus desajustados, condenada como degeneração. Nem a escala inesperada de desgraça física, revelada pela atividade febril no domínio da educação e higiene públicas, atingia apenas os deserdados.
Era natural e fácil a confusão entre a histeria das classes mais baixas, estudada e divulgada pelo professor Charcot da Faculdade de Medicina — "la question palpitante du jour" [a questão palpitante do dia], como a chamava um jornalista con-temporâneo3 2 — e neuroses mais elegantes. Uma reforçava a
outra. Em 1880, um médico americano, dr. George Miller Beard, publicara um estudo sobre "Exaustão nervosa (neurastenia)", que, suplementado com capítulos adicionais em American
Ner-vousness (Nova York, 1881), foi logo traduzido para o francês
(1882). Esta "fraqueza dos nervos", a que donas-de-casa e jovens pareciam especialmente sujeitos, manifestava-se por uma lassidão física e mental, distração, falta de energia e entusiasmo, e uma sensação geral de cansaço. O que os ingênuos e os
desinforma-dos talvez tomassem por traços familiares de tédio estava sendo promovido a uma neurose, peculiar aos que tinham melhores condições de vida, uma neurose cujos sintomas se ajustavam admiravelmente à patologia da década.
•—Responsabilizava-se a vida moderna, especialmente a urba-na, pela deterioração física e psíquica. Se a sociedade era um organismo vivo, as desordens sociais eram expressões de doença, relacionadas com uma patologia de corrupção material e moral: a infecção de corpos e mentes, bem como da água e do ar. Cons-cientes da desgraça que os circundava, os habitantes das cidades atribuíam-nas às mudanças rápidas e altamente visíveis operadas pelo crescimento industrial e pela atividade especulativa: "uma espécie de neurastenia coletiva [ . . . ] . Um desarranjo da cons-ciência coletiva".331
A nova exigência de uma melhor qualidade de vida, até para os pobres, era prova de progresso. Entretanto, expectativas mais elevadas, em todos os níveis, tornavam a anormalidade mais deprimente, melhores informações pintavam-na mais sinistra, e a aceitação tradicional ficava mais difícil de ser mantida. Co-meçando com as grandes nódoas como a sífilis e o alcoolismo, passando para considerações mais gerais como limpeza e
ção adequada, a solicitude (ou ansiedade) social provocava ini-ciativas como as cruzadas pioneiras do fin de siècle em prol das cidades-jardins, remoção urbana, loteamentos, ou até diminuição "do barulho./A moderna tradição ecológica, a preocupação com a poluição e seus efeitos sociais nocivos, adotada pela esquerda 'e direita radicais na virada do século, depois pelo fascismo e nacional-socialismo, para só ser herdada pela Nova Esquerda, Liberais e Verdes do final do século XX, descobriu suas fontes nas sensibilidades de uma sociedade "decadente" que temia a "degeneração "./j
Marx nos disse com lógica tautológica que as idéias dominantes de uma época são as idéias da classe dominante. Neste caso, parece que estamos falando sobre os membros mais em evi-dência das classes dominantes, ou, antes, sobre suas realizações em evidência, e sobre um fenômeno que chegaria ao auge du-rante uma crise do sistema econômico (as décadas finais do século xix) e se beneficiaria com essa crise. Fixando o valor 100 para 1913, o índice francês de preços no atacado caiu de 124 em 1873 para 71 em 1896. Durante o mesmo período, títulos de renda variável tiveram seu valor duplicado, e os de renda fixa (por exemplo, obrigações do Estado) triplicaram de valor.34
Desse modo, enquanto mercadorias e serviços se tornavam mais baratos, aqueles cidadãos que os consumiam sem ter de produ-zi-los encontraram oportunidades inusitadas para fazer o que mais sabiam fazer: nada em particular. Um bom caso para se dizer que a economia sustenta a cultura como a corda que segura um enforcado. A idade dourada da decadência também foi (e por boas razões) a idade dourada daqueles que viviam de rendas: um sistema econômico em crise, que alguns grupos dominantes desfrutavam, mesmo ao partilhar o clima geral de depressão, demonstrava uma aversão fastidiosa pelo materialismo burguês e denunciava "a competição da cobiça".35
Os que não se sufocavam com o materialismo desenfreado, nem se rebelavam contra ele, ou contra as injustiças sociais que parecia agravar, eram atingidos por outro extremo. Por exemplo, o enérgico e americanizado Frédéric-Thomas Graindorge, perso-nagem de Hippolyte Taine cujas opiniões começaram a aparecer em 1863 e que achava os franceses refinados demais,
supercivi-lizados, artificiais e decadentes: "Paris é uma estufa superaque-cida, aromática e infectada". Como Théophile Gautier, os Gon-courts, Huysmans e Henri Rochefort, que em 1866 publicou
Les Français de la décadence, todos igualavam modernidade com
artificialismo e decadência. Esta não era inteiramente ruim — ou necessariamente considerada ruim; uma questão de perspectiva. Pois o fim do século foi também a época em que cientistas como o dr. Joseph Moreau (de Tours) — autor de De L'influence du
physique sur le moral (1830) e Les Facultés morales (1836) —
adotaram a noção romântica de gênio como desarranjo dos sen-tidos. Moreau passou os vinte anos seguintes discutindo a natu-reza hereditária da degeneração, uma noção que inspirou a saga de Zola sobre os Rougon-Macquarts e provocou uma longa série de trabalhos equiparando gênio e loucura, como Gênio e Follia (1863), de Cesare Lombroso. O ápice foi Entartung [Degene-ração] (1892), de Max Nordau, logo traduzido para o francês (1893), que descrevia "degenerados na literatura, música e pin-tura" e proclamava Paris a capital da "decadência".3 6
Mais uma vez a noção de decadência parece ter vários fato-res determinantes: inspirações românticas, reforçadas pela expe-riência social, misturam-se com as desilusões encolerizadas de mais uma derrota. Em 4 de setembro de 1870, observando os republicanos tomarem o poder enquanto o Império entrava em colapso, Edmond de Goncourt tinha cunhado a palavra "me-diocracia". Meses mais tarde, Jules Ferry escrevia a este irmão lamentando o destino de um país sempre condenado a descobrir que seus homens não estão à altura das situações que precisam enfrentar: "Aí está o sinal implacável, a revelação crônica de nossa decadência!".37
//A depressão da derrota foi agravada por comparações
des-favoráveis com o Império Alemão recentemente formado. Mesmo depois de Waterloo, os franceses tinham continuado a se julgar os principais representantes da civilização mundial. Agora viam razões para questionar esta suposição, como outros faziam; e notícias deprimentes a respeito de sua evolução demográfica agu-çavam as dúvidas. Já inferiores em número aos alemães agora unidos, a população francesa crescia numa proporção que
che-gava apenas a um terço da taxa alemã de crescimento, e o nú-mero de casamentos declinava constantemente (cerca de 2 0 %
entre 1872 e o final dessa década).3 8/Taine, que já tinha
com-parado desfavoravelmente o torpor francês com o vigor primi-tivo dos americanos, também acentuara os fatores posiprimi-tivos (físi-cos e psicológi(físi-cos) do desenvolvimento social e cultural: raça e meio ambiente.39 Decidiu então aplicar seus princípios no
estudo de As origens da França contemporânea (1875-94), que apresentava o Ancien Régime, a Revolução e Napoleão como os três agentes da "decomposição" do país. Admitindo que tudo estivesse mal, Taine consolava seus leitores com o pensamento de que jamais estivera melhor, mas que, mesmo assim, as pes-soas conseguiram viver, algumas bastante bem. O pessimismo histórico de Taine (para ele a decadência romana começou quan-do Rômulo assassinou Remo) era um pouco geral demais para a discussão política contemporânea, mas refletia um estado de ânimo potencial e afetou figuras literárias e políticas significa-tivas: não apenas Émile Zola (que colocou em Thérèse Raquin
[1867] uma epígrafe tirada de Taine), mas também Bourget, Maurice Barrès e Charles Maurras.
Esse é o pano de fundo da década de 1880, que viu a reen-carnação do Jeunes-France da década de 1830 em uma multidão de grupos excêntricos — Hidropatas, Hirsutos, Zutistes,
Incohé-rents [Indiferentes, Incoerentes] —, com nomes que
representa-vam um "programa" de marginalidade e mistificação.40 Por fim,
alguns meses antes da publicação do Manifesto Simbolista, ocor-reu a fundação do próprio Le Décadent, anunciando que
"Reli-gion, moeurs, justice, tout décade. . . A sociedade se desintegra
sob a ação corrosiva de uma civilização deliqüescente [ . . . ] , refinamento de apetites, sensações, gosto, luxo, prazeres; neu-rose, histeria, hipnotismo, morfinomania, impostura científica, extremo schopenhauerismo, esses são os sintomas premonitórios de evolução social".41 Le Décadent nunca vendeu muitos
exem-plares, mas a atenção que atraía em círculos intelectuais levou Edmond de Goncourt a reclamar que por dias a fio esse jornal fornecia a único papel que ele conseguia encontrar em banhei-ros.42 Seu estilo bombástico e extravagante não era diferente do
empregado por muitos predecessores — nem por alguns de seus sucessores. Referia-se, em todos os casos, a impressões sobre a sociedade e a persistentes realidades sociais — as últimas me-lhor refletidas no criador do Décadent, Anatole Baju (na
verda-de, Adrien Bajut, 1861-1903). Baju, o filho de um moleiro abas-tado, abandonara a escola secundária e encontrara trabalho como
professor substituto em Saint-Denis, nos subúrbios de Paris. Este prolongamento de tendências anteriores foi marcado pela transformação do adjetivo em substantivo, que começou a ser usado, não para descrever algo pejorativamente, mas para reivindicar uma identidade artística e intelectual até então des-conhecida ou evitada. De ser decadente, passou-se a ser um deca-dente. O grande Dicionário Littré da década de 1860 tinha igno-rado a palavra; o Suplemento de 1877 listava décadent como um neologismo (fora usado num discurso parlamentar de 1874). Em 1895, quando o jovem Paul Valéry passou no exame de admissão a um cargo no Ministério da Guerra, seu examinador praguejou contra o ensaio de Valéry em uma nota rabiscada: "Este [can-didato] é um decadente vulgar [. . . ] ruim para a
Adminis-tração".43
Como antes, os decadentes de estilo próprio refletiam uma abundância de paixões contraditórias: uma reação contra a so-ciedade cada vez mais democrática com suas massas vorazes e suas limitações intelectuais; um horror à banalidade, "o bicho-papão deste fin de siècle"; um desejo de liberação, às vezes expresso por uma rebarbarização, mas, com maior freqüência, contra os "bárbaros" circundantes. Este último tipo de atitude encontraria sua voz mais eficaz num jovem nascido só uns meses depois de Baju, também na província; e que, como Rastignac e Baju, embora com mais êxito que este último, procurava obter sucesso literário em Paris. Em 1888, Maurice Barrès publicou
Sous l'oeil des barbares, o primeiro romance de uma trilogia
que expressava seu "culto do eu" contra "o vulgar, isto é, na verdade toda a humanidade, excetuando-se alguns poucos". Em uma década o cultivo do eu, que recomendava a fuga da huma-nidade sufocante, levara Barrès a um culto do eu-dentro-do-grupo definido por la terre et les morts [a terra e os mortos], as fun-dações orgânicas de afinidades inevitáveis.
/Por essa época, a nova República, confirmada apenas no final da década de 1870, começou a enfrentar mau tempo. A prosperidade das décadas de 1850 e 1860 estava se transfor-mando na longa depressão que só diminuiria pouco antes da Primeira Guerra Mundial. Os salários, que tinham aumentado
constantemente entre 1851 e 1880, caíram ou estagnaram a partir de então, assim como a maior parte das rendas, especialmente as provenientes do campo. A política de investimento nacional, projetada como remédio, funcionou bastante bem a longo prazo; a curto prazo, enquanto o barulho da insegurança econômica se espalhava, contribuiu para o descontentamento geral.fPubli-cados por uma nova imprensa popular que, liberta do controle governamental por uma lei de 1881, conseguiu atingir extraor-dinária circulação, escândalos e corrupção políticos ilustravam o tema familiar da decadência moral.#Jma reação a esse estado de coisas, que teve grande influência a longo prazo, foi a fun-dação de movimentos e o desenvolvimento de ideologias especi-ficamente destinados a combater a degeneração, a decadência e o declínio. Homens como Charles Maurras e Georges Sorel, obcecados pela decomposição da energia e da vontade, da coe-rência social e individual, concluíam que só a ação (e reorgani-zação) poderia revitalizar a sociedade, tornar a moralizá-la e estruturá-la. Suas insólitas análises políticas, baseadas na per-cepção que tinham da decadência, mas também em procedimen-tos desmistificadores e não simplistas característicos da época, não passariam despercebidas por jovens como Lênin e Mus-solini.
/ E n t r e 1886 e 1888, outro francês, Pierre de Coubertin, reagira aos medos da degeneração física e moral defendendo a introdução na França da ginástica, exercícios atléticos e esportes, que pareciam favorecer o progresso na Inglaterra e nos Estados Unidos que ele admirava. Seu objetivo, declarado numa confe-rência de 1887, era "fortalecer, numa juventude fraca, distraída, confinada, seu corpo e seu caráter".44 Em 1888, fundou-se a
Ligue Nationale de L'éducation Physique [Liga Nacional da
Educação Física]; no seu conselho estavam Marcelin Berthelot, Georges Clemenceau, Louis Pasteur e Jules Verne. Em 1894, Léon Bourgeois, ministro em vários governos passados e prestes a tornar-se primeiro-ministro (em 1895), declarou no 14.° Con-gresso da Ligue Française de L'enseignement [Liga Francesa do Ensino] que "as mentes precisam de higienistas e médicos assim como os corpos". Seguiu-se uma enxurrada de leis para reeducar as crianças delinqüentes, abandonadas ou mentalmente retarda-das. Em 1895, Coubertin organizou o Comitê Olímpico
Inter-nacional, prelúdio dos primeiros Jogos Olímpicos dos tempos modernos, realizados em Atenas em 1896./'
Barrès não dava muita importância a jogos. Em 1897, seu
Déracinés (Os Desarraigados) descrevia as fontes da decadência
nacional e prescrevia para sua cura uma nova consciência de compromisso com a nação. Mais uma trilogia (de que Les
Déra-cinés era a primeira parte) tornou-se Le Roman de Vénergie nationale, terminado em 1902. A procura árida de excitação, a
busca romântica de afirmação individual, a preocupação honesta com a regeneração moral, o anseio social por igualdade e pros-peridade, o interesse "científico" pelo bem-estar (ou declínio) físico e psíquico que afetava a todos, até então raramente rela-cionados, começavam a se associar. O que acabaria realmente por acontecer no revivescimento nacionalista que precedeu a Pri-\ meira Guerra Mundial e que tirou sua justificativa dos
dicioná-rios da decadência, declínio e degeneração.