ENCONTROS
entre o
—
—
—
— e o
RURAL
URBANO
OCUPAR, PRODUZIR E
PRESERVAR NA BACIA DO RIO
RATONES
Aluna: Carolina Rodrigues Dal Soglio Orientadora: Thêmis Fagundes Trabalho de Conclusão de Curso Arquitetura e Urbanismo/CTC/UFSC
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO... 5
2. QUESTÕES CONCEITUAIS...6
2.1. PAISAGEM, ESPAÇO E CONFIGURAÇÃO TERRITORIAL... .6
2.2. E A CIDADE CONTINUA...7
2.3 AS CONSEQUÊNCIAS DA MUDANÇA NO PADRÃO DA AGRICULTURA...8
2.4. O ÚNICO QUE PERMANECE É A MUDANÇA...9
2.4.1. A AGROECOLOGIA...10
2.4.2. OS CIRCUITOS CURTOS DE COMÉRCIO...11
2.4.3. A CONTRIBUIÇÃO DOS PARQUES AGRÁRIOS...12
3 A PROPOSTA DE UM PARQUE NA BACIA DO RIO RATONES...14
3.1 A BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO RATONES...15
3.2 O PROCESSO DE OCUPAÇÃO EM FLORIANÓPOLIS...18
3.3 A OCUPAÇÃO AMARILDO DE SOUZA...20
3.3.1 AS CARACTERÍSTICAS DA ARQUITETURA PRODUZIDA NA COMUNA AMARILDO...24
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS...28
5. BIBLIOGRAFIA...30 ESTE MATERIAL É COMPLEMENTAR AO CONTEÚDO ENTREGUE NA PRANCHA,
(...)Pelas ruas de Cecília, cidade ilustre, uma vez encontrei um pastor que conduzia rente aos muros um rebanho tilintante. - Bendito homem do céu - parou para me perguntar - saberia me dizer o nome da cidade em que nos encontramos?
Que os deuses o acompanhem - exclamei. - Como é possível não reconhecer a cidade de Cecília? - Perdoe-me - o outro respondeu -, sou um pastor em transumância. Às vezes ocorre de eu e as cabras atravessarmos cidades, mas não sabemos distingui-las. Pergunte-me o nome dos pastos: conheço todo, o Prado entre as Rochas, o Declive Verde, a Grama à Sombra. Para mim as cidades não tem nome: são lugares sem folhas que separam um pasto do outro e onde as cabras se assustam nas encruzilhadas e debandam. Eu e o cachorro corremos para manter o rebanho unido. Ao contrário de você, afirmei -, só reconheço as cidades e não distingo o que fica fora. Nos lugares desabitados, as pedras e o prado confundem-se aos meus olhos com todas as pedras e prados. Passaram-se muitos anos desde então; conheci muitas cidades e percorri continentes. Um dia, caminhava entre as esquinas de casas idênticas: perdera-me. Perguntei a um passante: -Que os imortais o protejam, poderia me dizer onde nos encontramos? -Em Cecília, infelizmente! - respondeu-me. - Há tanto tempo caminhamos por estas ruas, eu e as cabras, e não conseguimos sair... Reconheci-o, apesar da longa barba branca: era aquele pastor. Seguiam-no umas poucas cabras sem pêlo, que nem mesmo
fediam mais, tão reduzidas a carne e osso estavam. Pastavam papelada nas latas de lixo. -Não pode ser! - gritei. - Eu também, não sei desde quando, entrei numa cidade e continuei a penetrar por suas ruas. Mas como pude chegar aonde você diz se me encontrava em uma outra cidade, muito distante de Cecília, e ainda não tinha saído de lá? Os espaços se misturaram - disse o pastor - Cecília está em todos os lugares; aqui um dia devia existir o Prado da Salva Baixa. As minhas cabras reconhecem as ervas da calçada.” Trecho do Conto “As Cidades Contínuas 04, por Italo Calvino
1. INTRODUÇÃO
Este trabalho é resultado de contatos e vivências que tive com
cenários diversos, Através do AMA (Atelier Modelo de Arquitetura) tive a oportunidade de conhecer a Comuna Amarildo, ouvir histórias de vida muito diferentes da minha e perceber o valor de uma porção de terra para plantar e para levantar uma casa, por mais frágil que esta seja. A Ocupação Amarildo de Souza, em Dezembro de 2013 em Florianópolis, trouxe à tona a discussão sobre inclusão social, direito à cidade, função social da terra e também da função social do arquiteto.
Em Julho de 2014 o AMA (Atelier Modelo de Arquitetura) da
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) organizou um mutirão de construção na Comuna Amarildo, com a ajuda dos estudantes que participaram do SENEMAU. Dentro dos planos estava construir um Centro Comunitário, área de brinquedos para as crianças, composteiras, banheiro seco e instalar uma caixa d’água para captar água das nascentes.
Este trabalho é resultado de contatos que tive com cenários diversos, tanto próximos à minha realidade, como os conceitos da Agroecologia e a construção com terra crua, quanto distantes, como a vida no Assentamento da Comuna Amarildo. As vivências e aproximações abriram meu olhar às dinâmicas da cidade e do campo, ao processo de produção da paisagem, à possibilidade da manutenção do caráter rural junto ao urbano e a
importância de se abordar as questões sociais juntamente com as questões ambientais.
2. QUESTÕES CONCEITUAIS
Alguns conceitos contribuíram para a minha compreensão das dinâmicas entre o campo e a cidade, e as possibilidades de encontro e equilíbrio entre estas paisagens e seus atores.
2.1. PAISAGEM, ESPAÇO E CONFIGURAÇÃO TERRITORIAL
A palavra paisagem é definida como o pedaço de território que podemos abarcar com o nosso olhar, mas a maneira como reconhecemos e interpretamos sua dinâmica varia de acordo com nossas vivências culturais e de nossas interações com o espaço. A paisagem nos situa no território, nos dá referência de onde estamos, de que ações acontecem na nossa região e, de alguma forma, constrói nossa identidade.
Entre as disciplinas que estudam estes elementos, existem diferentes definições sobre o que é a paisagem, espaço e território. De acordo com Santos (2012), o que vemos na paisagem é resultado de diversos momentos históricos, representando a relação entre o homem e a natureza. Através desta perspectiva, a paisagem torna-se uma testemunha do passado, um suporte que acumula as diversas alterações feitas ao longo do tempo. Já o espaço é sempre atual, sendo ele uma sobreposição de sistemas: os naturais, os artificiais e a vida que dá significado, valor e utilidade aos objetos, sendo este o sistema de ações.
Ao estudar estes sistemas de objetos e sistemas de ações em conjunto, levando em consideração suas relações com os sistemas naturais, se conforma uma possível compreensão do espaço, da configuração territorial, da paisagem e das relações por trás destes elementos. O modo como estes sistemas estão configurados refletem as necessidades e as ações atuais da sociedade, através de suas formas mais recentes.
Cada sociedade, em cada momento histórico, possui diferentes determinações, e estas intervém diretamente na paisagem, criando formas próprias. Pode se observar que a configuração territorial, que é o conjunto dos sistemas naturais (bacias hidrográficas, cobertura vegetal, solos, topografia) e dos objetos artificiais (estradas, casas, plantações), apresenta cada vez mais a inserção de elementos
2.2 E A CIDADE CONTINUA...
A cidade faz parte da paisagem como objeto artificial, patrimônio construído histórica e socialmente pelo ser humano e, assim como a paisagem, está em
constante mudança (MARICATO, 2013). Como características da expansão urbana, surgem as sequências homogêneas de casas, prédios, ruas, viadutos, indústrias, comércios, podem ser vistas nas periferias de quase qualquer cidade (TARDIN, 2008). O espraiamento das cidades no território é uma das consequências de como os seres humanos vem agindo no espaço, podendo ser observada através das grandes concentrações urbanas (BEL, 2015).
Atualmente, o território apresenta diferentes conformações, com a ocupação humana se espalhando no terreno de forma descontínua, centros compactos se misturando a assentamentos dispersos, avançando de forma fragmentada em direção à áreas naturais e rurais, conectados por uma potente rede viária (TARDIN, 2008).
Segundo a ONU, a América Latina possui a taxa de urbanização de 80%, a mais elevada do planeta. Uma das razões para este fenômeno é de que o êxodo do meio rural para o meio urbano se deu em menos de 40 anos (1950 a 1990), a chamada explosão demográfica (ONU-Habitat, 2012). No Brasil, o êxodo para as cidades é motivado, entre outras razões, pelo descaso com a questão da terra no país. Ao mesmo tempo que a urbanização vai se interiorizando, se aceleram os processos de desigualdade sócio-econômica e espacial (MARICATO, 2013).
A intensa migração para às cidades, somada à falta de infra-estrutura, estabelece um cenário de crise urbana (BEL, 2015). Como consequência, grande parte de nossas cidades é construída pelos próprios moradores em áreas ocupadas, muitas vezes em locais de fragilidade ambiental (MARICATO, 2013). Neste processo, a cidade invade o campo e cria uma nova visão, um novo território onde estas duas paisagens estão presentes, simultaneamente. Imagem superior: “Christina’s World
(1948). de Andrew Wyeth (MOMA, NY).
8
2.3 AS CONSEQUÊNCIAS DA MUDANÇA NO PADRÃO DA AGRICULTURA
Após a Segunda Guerra Mundial, os países mais desenvolvidos adotaram uma prática de produção agrícola com uso intensivo de insumos químicos, de melhoramento genético, da irrigação e da mecanização, a chamada Revolução Verde, com objetivo de aumentar a produção de alimentos (ALMEIDA, 2004). Na segunda metade do século XX, diversos países da América latina se esforçaram para implementar este sistema, que aconteceu sem a distribuição das terras.
Os benefícios destas medidas foram extremamente desiguais, tendo os maiores e mais ricos agricultores sido beneficiados em detrimento aos pequenos agricultores. Para além do êxodo rural, a Revolução Verde também contribuiu para o aumento de problemas ambientais, como erosão do solo, desertificação, poluição e perda de biodiversidade (ALTIERI, 2004).
As consequências da Revolução Verde tornam-se visíveis para a sociedade urbana à partir da década de 80, quando surgem diversas manifestações sociais contra o sistema agrícola adotado e a concentração de terras. Com o crescimento da luta e da organização,
os trabalhadores rurais entram no cenário político através das lutas populares e organizações como o MST e demais movimentos camponeses (VAINER, 2013).
2.4 O ÚNICO QUE PERMANECE É A MUDANÇA
Ao final do século XX, as áreas agrícolas e naturais deixaram de ser vistas somente como um vazio suscetível de ser ocupado ou explorado, mas como um espaço tão importante quanto o urbano, a ser preservado. A manutenção das áreas ricas em vegetação e biodiversidade é importante para o equilíbrio dinâmico dos sistemas. Elas devem ser mantidas no estado mais natural possível, com diversidade de usos e, em situações estratégicas, com áreas de proteção complementares (BEL, 2015).
Visto que há uma demanda de moradia digna, de empregos, de alimentos saudáveis, da manutenção dos ecossistemas de forma sustentável, é necessária uma mudança na configuração territorial, de modo que passe a preservar o meio-ambiente e as comunidades, articulando os sistemas de produção “artificiais” com os naturais. Esta mudança seria em direção a um sistema complexo, diverso, multipolar, rico em relações entre as partes do território. Uma rede, em que cada nó é singular e tem um papel no conjunto, pensando-se estratégias de acordo com sua potencialidade (BEL, 2015).
A distribuição das terras agriculturáveis através da Reforma Agrária, a produção de alimentos com os princípios da Agroecologia, a
construção de moradias através das Cooperativas de Habitação e as trocas comerciais por meio dos Circuitos Curtos de Comércio são exemplos de gestão que se baseiam em redes de cooperação e promovem a diversidade no território.
Também em alguns países, como maneira de preservar cultural, economicamente e ecologicamente áreas agrícolas próximas ao meio urbano, houve a implementação de parques agrários, promovendo os usos da agricultura, preservar o entorno natural e melhorar a qualidade de vida das pessoas que trabalham na terra, das que consomem seus alimentos e seus recursos e das que contemplam sua paisagem.
2.4.1 OS CIRCUITOS CURTOS DE COMÉRCIO
O processo atual de consumo dentro das cidades desconecta as pessoas, havendo cada vez mais intermediários entre os produtores e os
consumidores. O comércio ético significa valorizar a qualidade do produto, e, sobretudo, suas dimensões sociais. Ao consumir considerando estas dimensões, se valoriza o território onde foi produzido o produto, sabe-se quem o produziu, como foi produzido, quais os impactos ambientais provocados por aquela atividade. Isto se dá através dos circuitos curtos de comércio, ou seja, a proximidade do produtor e do consumidor.
Através das feiras de bairro, do mercado que vende produtos da região, a compra direto do produtor ou com o mínimo de intermediários possível, é possível saber que tipo de paisagem e de relações sociais que estão por trás do produto adquirido. Saber a origem dos alimentos e produtos que se consome é essencial para um consumo consciente, que incentive boas relações no território. Outro ponto positivo desta proximidade é de se ter uma maior qualidade, pois se não há necessidade de longos transportes nem de grande estocagem, permitindo que o alimento seja orgânico e fresco.
Neste sentido, a aproximação entre quem produz e quem consome deve ser estimulada, através da criação de mercados locais que visem o comércio justo, transparente e co-responsável, que respeite os direitos humanos de cada ator da cadeia produtiva e reconheça o valor do conhecimento das comunidades que produzem o que se consome a cada dia.
2.4.2 A AGROECOLOGIA
Como uma forma de reconectar a agricultura à ecologia, a Agroecologia surge nos anos 70, buscando novas formas de relacionar-se com a natureza, apoiando uma agricultura sustentável, e propondo soluções para problemas de ordem sócio-ambiental, que se refletem no campo e na cidade (EMBRAPA, 2006). Tem por objetivo desenvolver agroecossistemas que dependam minimamente de insumos químicos, manter as tradições e conhecimentos dos agricultores e trabalhar com sistemas complexos, onde a fertilidade do solo, a produtividade e a proteção das culturas sejam frutos das numerosas interações que se estabelecem entre o solo, as plantas e os animais (ALTIERI, 2004).
O aproveitamento destas interações são benéficos, pois criam cobertura vegetal contínua para a proteção do solo, ideal para uma produção de alimentos constante, fecha os circuitos de nutrientes e propõe o uso eficiente dos recursos locais, contribuindo para a conservação do solo e dos recursos hídricos. A Agroecologia considera que preservação e ampliação da biodiversidade é o primeiro passo para produzir auto-regulação e sustentabilidade.
2.4.3 A CONTRIBUIÇÃO DOS PARQUES AGRÁRIOS
Os parques agrários surgem como meios de institucionalizar a produção de alimentos próximo a áreas de
preservação ambiental em grandes, médios ou pequenos centros urbanos. Também envolvem atividades turísticas, de educação ambiental e social, ao permitir que todos visitem os parques e aprendam sobre o modo de vida rural, de onde vêm os alimentos que consomem e sobre modos de conservação dos recursos naturais. Também exercem uma importante função ao envolver as pessoas do local, suas tradições e práticas coletivas.
A ressignificação visual dos espaços livres degradados permitem que seja possível requalificar o ambiente e incentivar uma vivência coletiva com propostas de usos sustentável (TARDIN, 2008). Sistemas de parques naturais com atividade agrícola podem ser encontrados na França, na Itália, na Espanha, e, entre outros países, no Brasil, sendo configurados por zonas de plantio agrícola próximas urbanas próximas de áreas protegidas ambientalmente e de zonas urbanas. Reconciliando o meio urbano e o natural, estes parques colaboram com a delimitação das áreas de proteção permanente ao colocar práticas de agricultura nos seus limites (BRAGA, 2011).
Com esta possibilidade, as áreas agrícolas nas bordas das cidades não precisam desaparecer, e podem se tornar espaços de conservação e de educação, além de fornecer alimentos para as cidades. O estabelecimento de um modelo de conservação, desenvolvimento e gestão do território mais coerente permite que estas áreas possam alimentar a cidade, ao mesmo tempo que são alimentadas por ela, estabelecendo uma rede de relações diversas no território.
O EXEMPLO DO PARQUE AGRÁRIO DO BAIXO LLOBREGAT O parque agrário do Baixo Llobregat se encontra na zona periurbana de Barcelona, e é composto pelas terras agrícolas das zonas baixas do Rio Llobregat, segundo maior rio da Catalunha. Seu entorno é considerado um patrimônio agrícola, pois as zonas mais antigas e férteis do país se encontram ali. Compreendendo uma superfície de 2.938 hectares, com solos de 14 municípios da região, o parque é a principal “horta”da cidade de Barcelona, provendo alimentos frescos e contribuindo para a sustentabilidade de um local tão densamente povoado. Terras com alto valor imobiliário, esta zona sempre sofre uma forte pressão urbanística, por isso a importância da figura do parque agrário, do desenvolvimento do seu plano de gestão e de proteção, como ferramentas de preservação dos solos agrícolas e da paisagem, que é a principal protagonista (AGROTERRITORI, 2015).
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Foto do Parque Agrário de Sabadell, na Espanha. (fonte: agroterritori.org)
3. UM PARQUE AGROECOLÓGICO NA BACIA DO RIO RATONES
A implementação de um parque voltado a práticas agrícolas aliadas a preservação ambiental na planície da Bacia Hidrográfica do Rio Ratones surge como resposta à
demandas sócio-ambientais de Florianópolis. A aproximação do ambiente rural ao urbano busca diversificar o processo de ocupação, integrando as questões de inclusão social com proteção ambiental. Para tal proposta, foram estudados alguns temas essenciais, como a Bacia Hidrográfica do Rio Ratones, o processo de ocupação em Florianópolis e a Ocupação Amarildo de Souza.
PARQUE
AGROECOLOGICO
do RIO RATONES
Desenho da Paisagem do Bairro de Ratones, sendo envolvido pelos morros e permeado pelo Rio Ratones. As estradas que cortam este local são Rodovias Estaduais, e conectam o Centro da cidade com o Norte da Ilha de Santa Catarina.
3.1 A BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO RATONES
Estudar a bacia hidrográfica é uma abordagem que permite delimitar um ecossistema e levar em consideração suas estruturas complexas. As bacias são conformadas pelas nascentes, pelos braços de rio, pelos canais de água maiores e pelo seu estuário, ao final chegando ao mar para iniciar novamente o processo. Neste caminho, as águas percorrem uma grande extensão do território, conectando e dando suporte a diversos ecossistemas, que por sua vez contribuem para a
manutenção da bacia.
A Bacia do Rio Ratones encontra-se na porção Noroeste, sendo a mais extensa da Ilha, ocupando uma área de 61 km2. Está entre os morros da Barra do Sambaqui, o morro do Forte, o morro entre Jurerê e Canasvieiras e os morros da dorsal Norte. Possui diversos cursos de água que nascem nos morros adjacentes a ela, que caem pelas encostas e vales e percorrem a planície, formando o Rio Ratones e seus afluentes.
Próximas à Bacia do Rio Ratones, estão as áreas de proteção ambiental da Estação Ecológica Carijós(1), Desterro (2) e o Parque Estadual do Rio Vermelho. (3) A ESEC Carijós encontra se no estuário do Rio Ratones e no Saco Grande, protegendo uma área de 7,18 km2 de manguezais. É administrado pelo IBAMA e as únicas atividades que podem ser desenvolvidas são pesquisas científicas e educação ambiental (ALENCAR, 2006). A área protegida era utilizada pelas comunidades do entorno para a atividade de pesca, porém hoje está atividade é proibida.
A proteção apenas do estuário do Rio não é suficiente para a consevação dos ecossistemas ali presentes, sendo que a ocupação em seu entorno, o despejo de resíduos ao longo do rio e as demais ações antrópicas no entorno da ESEC também afetam as áreas protegidas. Recomenda-se a criação de uma Área de Proteção Ambiental (APA) na região da zona de amortecimento da ESEC Carijós (SILVA, 2007).
1
3 2
Floresta Ombrófila Densa Estágio InicialManguezal
Restinga
Outros: Águas interiores, área marinha, urbanização, solo exposto, praia, cultivo e silvicultura.
Fonte: Silva, 2007
Hidrografia ESEC Carijós
Linha da Costa
Área Bacia Rio Ratones
Vias
Praia do Forte Jurerê Daniela Ponta do Sambaqui Canasvieiras Baía Norte Barra do Sambaqui Ratones Rio Ratones Vargem Pequena Vargem Grande Cachoeira do Bom Jesus Rio Papaquara 0.5 0 0.5 1 1,5 Km LEGENDA
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Floresta Ombrófila Densa Estágio InicialManguezal
Restinga
Outros: Águas interiores, área marinha, urbanização, solo exposto, praia, cultivo e silvicultura.
Fonte: Silva, 2007
Hidrografia ESEC Carijós
Linha da Costa
Área Bacia Rio Ratones
Vias
Praia do Forte Jurerê Daniela Ponta do Sambaqui Canasvieiras Baía Norte Barra do Sambaqui Ratones Rio Ratones Vargem Pequena Vargem Grande Cachoeira do Bom Jesus Rio Papaquara 0.5 0 0.5 1 1,5 Km LEGENDA VEGETAÇÃO A vegetação presente na Bacia é variada com predomínio da manguezal, arbustos,
pequenas árvores que se
desenvolvem nos solos alagados e salgados, espécimes de
restinga, pastagens abandonadas em recuperação, diversos
estágios de capoeira e porções reflorestadas com plantas exóticas (pinus e eucaliptus), que cobrem os antigos campos comunais (BUENO, 2006). As encostas e os cumes apresentam mata atlântica em diversos estágios de regeneração, com poucas partes de vegetação primária.
No século XXI, pode ser observado em Florianópolis um acelerado crescimento urbano, aumentando a demanda sobre a infra-estrutura de saneamento, de fornecimento de água, de mobilidade urbana, educação, saúde.
O adensamento das casas atinge também o entorno das Bacias Hidrográficas e das Áreas de Preservação, muitas vezes sem respeitar a legislação ambiental e o plano diretor.
Ao final do século XX, os vazios urbanos deixados pela ocupação dispersa da ilha eram propriedades com características rurais, com manejo de gado ou ainda áreas de preservação, como reservas florestais, parques, mangues e dunas (SUGAI, 2015).
Fundada em 1672, Florianópolis começa a receber os primeiros imigrantes dos açores em meados do Séc XVII, Os locais escolhidos pelos açorianos para se assentar foram de acordo com as formações físicas da ilha e levando em consideração o transporte marítimo, assim surgem vilas dispersas.
Na década de 1940, o potencial turístico move o processo de expansão
residencial para o Norte. Logo após, a Rodovia estadual SC-401 é construída, conectando o centro da cidade com as praias no Norte.
3.2 Estudo sobre o pocesso de ocupação da Ilha de Santa Catarina
Fundação de Desterro 1672 Chegam os primei-ros imigrantes açorianos ocupam o centro, lagoa da conceição, santo antônio, ribeirão da ilha
primeiras famílias aço-rianas se estabelecem em Ratones
1748
criação das áreas comunais atividades agrícolas e de pesca.
1823
séc XVII séc XIX
desterro torna-se capi-tal de SC FLORIANÓPOLIS RATONES melhorias nos portos e primeiras edificações de grande porte. séc X X décad a d e 40
processo de expansão residen-cial no Norte da lha (turismo).
1949
Ações antrópicas na Bacia do Rio Ratones
décad a d e 60 Implantação da UFSC, UDESC, ELETROSUL décad a d e 7 0 décad a d e 80 décad a d e 90 ano s 2000 construção da SC-401 e das comportas no Rio Ratones
chegada de grandes construto-ras na Ilha
Destacam-se movimentos campesinos a favor da Reforma Agrária no Brasil.
Criação da ESEC Carijós
1987
2013
ocorre a Ocupação Am-arildo de Souza, na SC-401
chegada de atividades comerciais e industrias em Ratones.
Linha do Tempo De Florianópolis
3.3 A OCUPAÇÃO AMARILDO DE SOUZA
Terra, trabalho e teto foram as motivações que levaram cerca de 60 famílias a ocupar o terreno às margens da SC-401, no 16 de Dezembro de 2013. Entre estas famílias estavam pessoas provenientes da ocupação Palmares, na Serrinha, que havia recebido ordem de despejo. Nos dias que se seguiram a ocupação foi aumentando, a cada dia chegando mais famílias e também alcançando maior força política. Após 20 dias, já eram 400 famílias, Em abril já se contava com 725 famílias cadastradas (ROSA, 2014), sendo considerada a maior ocupação rururbana do Estado de Santa Catarina (MACHADO, 2013).
A ocupação se deu no bairro de Ratones, às margens da SC-401, importante via de conexão entre o centro da cidade as praias do Norte da Ilha, como Jurerê e Canasvieiras, que possuem grande importância turística. Aderiu a esta ocupação uma população com hábitos urbanos, mas que ainda possui os conhecimentos de agricultura e criação de animais (MACHADO, 2013). A propriedade do terreno era atribuída ao Empresário Artêmio Paludo, porém após a denúncia da Ocupação Amarildo, esta área entrou em processo de litígio e a Secretaria de Patrimônio da União (SPU) iniciou o processo de demarcação das terras. Após este processo, foi determinado que o terreno em questão se encontra em área de marinha (SPU, 2016).
Na história urbana, calma e civilidade são as exceções. No campo, os movimentos sociais apresentam pautas contra a destruição dos seus meios de subsistência e modos de vida. No espaço urbano, reivindicam terras urbanizadas para garantir seu acesso à cidade (HARVEY, 2013).
Acima: Passeata da Ocupação Amarildo em 2013. fonte: Hora de Santa Catarina. Ao lado: Assentamento na SC-401. fonte: Diário Catarinense.
Com o lema “terra, trabalho e teto”, 60 famíli-as ocupam o terreno às margens da SC-401
2013 2014
16/12
Após 1 mês, a ocupação já con-tava com mais de 400 famílias.
Recebem do Juiz Agrário a ordem de despejo, para o dia 15.04
Contando com 725 famílias ca-dastradas, há uma tentativa de ocupação em outro terreno, no Rio Vermelho.
Saída das famílias do terreno na SC-401 para ficar de forma temporária nas terras indígenas em Maciambu, na Palhoça.
15/04
Após ocuparem o prédio do INCRA, os Amarildos São as-sentados no município de Águas Mornas, no bairro de Queçaba.
05/06
OCUPAÇÃO AMARILDO DE SOUZA (SC-401)
01 e 02/08 Ocorre um mutirão junto a Estudantes de Arquitetura do Encontro de Escritórios Modelo. 2015 05/06 Comuna Am-arildo completa 1 ano em Águas Mornas.
COMUNA AMARILDO DE SOUZA
LINHA DO TEMPO DA OCUPAÇÃO AMARILDO
Após passar por diversas instâncias judiciais, inclusive com algumas vitórias, como a demarcação das terras da união, a Ocupação Amarildo recebe ordens para deixar o terreno até 15 de abril de 2014 (HUMERES, 2014). Antes dessa data, houve ainda uma tentativa de ocupar outro terreno, no Rio Vermelho, e ocorreu um conflito com moradores do local. Das poucas alternativas possíveis para onde ir, foram realocados para terras Indígenas na Palhoça, no bairro Maciambu pequeno, de forma temporária.
Depois de pressionar o INCRA, por meio da ocupação do prédio público, os Amarildos foram finalmente assentados em um terreno da SPU, em Águas Mornas, no bairro Quesaba, no dia 05 de julho de 2014, como um de três terrenos para comportar as famílias cadastradas. Depois de um largo percurso com vários conflitos Ao serem assentados, a Ocupação passa a denominar-se Comuna Amarildo de Souza.
1 - Ratones
2 - Rio Vermelho
3 - Maciambu
4 - Comuna Amarildo
ÁGUAS MORNAS
PALHOÇA
FLORIANÓPOLIS
23
3.3.1. CARACTERÍSTICAS DA ARQUITETURA PRODUZIDA NA COMUNA AMARILDO
Para compreender melhor as relações sociais no modo de morar dos assentados da Comuna Amarildo, através de visitas ao local, conversas com os moradores, fotos e vivências, sintetizo as características que percebi como determinantes da forma como se relacionam com o espaço construído e o espaço natural. Na espacialização do assentamento, foi possível analisar três relações distintas: as familiares, as comunais e as de produção. As familiares se dão no núcleo familiar, composto pela habitação e por uma pequena horta ou produção de animais próxima. As relações comunais se dão através da rede comunal, sendo esta conformada pelas áreas comunitárias e do centro comunitário.
Os primeiros equipamentos construídos pelos Amarildos foram de forma coletiva, sendo estes as habitações, o centro comunitário e, posteriormente, os espaços de produção. Estes três espaços são fundamentais enquanto estrutura para abrigar-se, organizar-se, reconhecer-se enquanto grupo sustentável, capaz de produzir e gerar recursos necessários para sua vivência, com respeito aos recursos naturais que o ambiente local disponibiliza.
AS HABITAÇÕES
Os principais elementos observados nas habitações foram os telhados em águas, as presença de varandas, o uso do fogão à lenha para produção de alimentos e aquecimento da casa, e a proximidade da horta de uso familiar. Estes elementos apresentavam o uso de materiais reciclados, abundância de madeira para distintas funções (vedação e estrutural), e abundância de cores, escolhidas pelas famílias. A cozinha possui uma função central, sendo na maioria das vezes diretamente conectada com a varanda, onde são servidas as refeições. As divisões internas contavam com um ou dois quartos, dependendo da quantidade de moradores, muitas vezes havendo mais de um morador em um quarto.
Todas as construções foram feitas pelos próprios assentados, a maioria em regime de mutirão. Com os materiais de construção provenientes de outras ocupações, reciclados e materiais disponíveis no próprio terreno, e alguns comprados, ocorre um processo de bricolagem. A construção da própria habitação parte de uma necessidade, e é algo a ser valorizado. Muitas soluções eficientes e criativas partem de situações onde não se tem muito à disposição, além de ser um processo que dota cada casa de identidade.
ESPAÇOS DE PRODUÇÃO
Os espaços de produção na Comuna contam com diversas estufas, abrigando pés de salsinha, alface,
cenouras, beterrabas, entre outras espécies, produzidas de forma orgânica. Há também a estufa para a produção de mudas e um galinheiro da cooperativa. Além destas estruturas, cada família possui uma pequena horta perto de sua casa, produzindo diversos alimentos e alguns pequenos animais, como galinhas.
Como ainda não há a presença de energia elétrica no assentamento, outros tipos de produção são inviáveis, mas no momento de serem assentados em Águas Mornas, foi demonstrado o interesse de construir um local de beneficiamento de alimentos, entre outras possibilidades de renda para as famílias. Atualmente a Comuna vende seus produtos através de listas e e-mail, entregando cestas com produtos orgânicos.
A REDE COMUNAL
O Centro Comunitário tem um caráter agregador, um espaço de encontro para trabalho e lazer. Também
desempenha um papel importante como cozinha comunitária, local para armazenar doações e alimentos, espaço de reunião e congregação, onde são realizadas as trocas e experiências entre as famílias, em um processo de sinergia comunal. É um ambiente de extrema importância para a estrutura da Comuna.
Os ambientes que compõe o Centro Comunitário são: Cozinha coletiva, espaços para reunião, espaços de estar com sofás, depósito para doações e alimentos e varanda. Ali também são estocados os alimentos para a venda, e é onde acontecem as festas e reuniões. Percebe-se a importância do espaço coberto e aberto como área de socialização, da cozinha como polo agregador em torno do fogão à lenha e do espaço para armazenamento dos produtos associado à organização da produção local.
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4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O processo de aprendizado com este trabalho foi muito interessante. Aprender a lidar com sistemas complexos como são as dinâmicas do ser humano sobre o espaço é essencial para os Arquitetos e Urbanistas, para que seja possível modificar o processo de produção atual e encontrar novas maneiras de relacionar-se com os recursos que a terra nos oferece.
No morro nasço, vindo do mato.
Feito criança, crio jeito brinco, corro e deito Filho da fenda da pedra, me oferto ao mundo. Ao longo do meu curso
faço-me beira, margem e leito parte alargo, parte afundo. e por onde pulso, fecundo. Chove e choro
me desmancho em mágoa, aflora água, esconde o solo Espelho efêmero na paisagem. Qual cobra de vidro,
passeio às margens de meninos e de garças.
No mar, morro.
E durante meu caminho,
Não me questiono, nem me defino, pois nunca passo duas vezes por mim. Sou Rio
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