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Vila Santa Rosa: da ocupação à permanência

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Academic year: 2021

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VILA SANTA ROSA

DA OCUPAÇÃO À PERMANÊNCIA.

ALUNA: IACY SILVA GOTTSCHALK (08131021)

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Trabalho de Conclusão de Curso II Da ocupação à permanência – Comunidade da Vila Santa Rosa

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SUMÁRIO

SUMÁRIO ... 2

1. INTRODUÇÃO... 3

1.1. A HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL NO CONTEXTO DAS CIDADES BRASILEIRAS ... 3

1.2. COMUNIDADE DA VILA SANTA ROSA ... 3

1.3. A IMPORTÂNCIA DA PERMANÊNCIA DA POPULAÇÃO NA ÁREA CENTRAL ... 4

2. A CIDADE CAPITALISTA BRASILEIRA: O CASO DE FLORIANÓPOLIS 5 2.1. PROCESSO DE PRODUÇÃO E ESTRUTURAÇÃO URBANA ... 5

2.2. O NOVO PAPEL DO ESTADO NO DESENVOLVIMENTO URBANO .. 5

2.3. A PROBLEMÁTICA HABITACIONAL ... 6

2.4. O CONCEITO DE MORADIA DIGNA ... 7

2.4.1. JUSTA INSERÇÃO URBANA ... 7

2.4.2. QUALIDADE ARQUITETÔNICA E CONSTRUTIVA DAS UNIDADES HABITACIONAIS ... 7

3. CARACTERIZAÇÃO E ANÁLISE DO OBJETO DE ESTUDO... 8

3.1. O ENTORNO ... 8

3.1.1. CONSEQUÊNCIAS DO PLANO DIRETOR DE 1997 ... 8

3.1.2. CONFIGURAÇÃO ESPACIAL ATUAL ...10

3.1.2.1. SISTEMA VIÁRIO ... 10

3.1.2.2. EQUIPAMENTOS PÚBLICOS ... 10

3.1.2.3. USO E OCUPAÇÃO ... 10

3.1.3. PREVISÃO DE CONSOLIDAÇÃO PELO PLANO DIRETOR PARTICIPATIVO ... 10

3.2. A VILA SANTA ROSA ...10

3.2.1. DELIMITAÇÃO DA ÁREA ... 14 3.2.2. MAPEAMENTO ESPACIAL ... 14 3.2.3. MAPEAMENTO SOCIAL ... 15 3.2.4. ALUGUÉIS E COABITAÇÕES ... 16 4. OBJETIVOS ... 18 4.1. OBJETIVOS GERAIS ... 18

4.1.1. INCLUSÃO SOCIAL DOS MORADORES NA CIDADE FORMAL 18 4.1.2. PROJETO DE REURBANIZAÇÃO ... 18

4.1.3. PROJETO ARQUITETÔNICO ... 18

4.2. OBJETIVOS ESPECÍFICOS... 18

4.2.1. PERMANÊNCIA DE TODOS OS MORADORES NA COMUNIDADE ... 18

4.2.2. COMPROMETIMENTO COM O ESPAÇO EDIFICADO ... 18

4.2.2. PERMANÊNCIA DURANTE AS OBRAS ... 18

4.2.3. INTEGRAÇÃO URBANA E MELHORIA DA AMBIÊNCIA COMUNITÁRIA ... 18

4.2.4. COMPROMISSO COM A SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL ... 18

4.2.5. COMPROMISSO COM A REALIDADE SOCIAL E FINANCEIRA DA COMUNIDADE ... 18 5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 19 6. ANEXO A ... 20 7. ANEXO B ... 21 8. ANEXO C ... 22 9. ANEXO D ... 23

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1. INTRODUÇÃO

1.1. A HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL NO CONTEXTO DAS

CIDADES BRASILEIRAS

No processo de produção do espaço urbano existem diversos aspectos que devem ser considerados para que este ocorra de forma justa e igualitária, sendo um dos principais, a produção de habitações de interesse social. Este tema já possui um longo histórico de discussão, que se iniciou a partir das mudanças provocadas pelo novo sistema que opera a sociedade do século XX, o sistema capitalista.

Com o processo de industrialização e mecanização da produção no campo, consequentes do desenvolvimento deste sistema, as populações que habitavam as áreas rurais não conseguem competir neste novo cenário. Assim, se deslocam para os centros urbanos a procura de novas oportunidades. Esta migração acarretou enormes inchaços urbanos, uma vez que o desenvolvimento e as políticas urbanas da época não acompanharam a nova demanda. A solução encontrada por essas populações foi a aglomeração em locais insalubres, como os cortiços. Este é o cenário que inicia a disputa de classes por terras urbanizadas, um enorme problema social que perdura até os dias de hoje. Porém, esta não é a única problemática que as cidades capitalistas enfrentam.

Atualmente, as metrópoles vivem o colapso causado por este modelo de produção urbana: o caos no trânsito, a falta de mobilidade, a segregação espacial, a especulação de terra urbana e uma sociedade cada vez mais apartada e desigual. As formas que vinham sendo discutidas a produção da cidade e como o seu planejamento se dava não foram suficientes para combater esses problemas, gerando novas discussões e abordagens ao longo do tempo.

No início do século XXI, houve um grande avanço com a regulamentação do Estatuto da Cidade, onde novos instrumentos de política, gestão e reforma urbana foram acionados para tentar controlar e reverter essa situação. Um dos principais conceitos abordados é o de função social da propriedade urbana, que já

consta na Constituição de 1988, porém é reforçado com a normatização desta lei. Esta concepção pode ser garantida de diversas maneiras, sendo a produção de habitações de interesse social uma das principais formas. Isso porque essa produção habitacional está intimamente relacionada com a inclusão social das camadas populares, já que é a localização e o contexto dentro da cidade que poderá dar acesso aos serviços urbanos básicos e equipamentos públicos, às oportunidades de emprego e, assim, consequentemente melhorar a qualidade de vida. Enfim, ter o direito à cidade.

1.2. COMUNIDADE DA VILA SANTA ROSA

Florianópolis apresenta todos os sintomas relacionados à cidade capitalista brasileira: a falta de mobilidade, a desigualdade social, a especulação e a segregação urbana. Todos esses problemas estão em um estado alarmante: o transporte individual domina o sistema de mobilidade transformando-o em um caos; o aumento da desigualdade social faz com que a violência urbana esteja cada vez mais presente no cotidiano da capital; a desigualdade na distribuição espacial de infraestrutura, dos serviços públicos e dos investimentos somados a especulação dos terrenos vazios e das áreas urbanizadas fazem com que o preço da terra seja altamente valorizado acarretando na segregação de classes.

Neste cenário, a população de baixa renda não consegue adentrar no mercado imobiliário formal e, consequentemente, ocupar áreas centrais e qualificadas, sobrando as áreas de desinteresse das elites, sendo elas normalmente, áreas de preservação ou com risco de ocupação. Pode-se averiguar esse processo ainda nos dias de hoje, pela produção habitacional do Programa Minha Casa, Minha Vida que vem ocorrendo nas periferias da capital e em suas cidades vizinhas.

No entanto, o caso de estudo deste Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) é uma comunidade que ocupa há 25 anos áreas bem localizadas e que se encontram no eixo de desenvolvimento da capital de Santa Catarina.

A comunidade da Vila Santa Rosa está inserida no bairro Agronômica, mais precisamente próxima do nó viário que distribui os fluxos para as localidades mais caras e equipadas da cidade: o

norte da Ilha, a Trindade (UFSC) e o centro antigo e expandido (Mapa 1). Por ser uma área de grande interesse do capital imobiliário e de conexão entre as principais localidades, ela se encontra bem servida de infraestrutura, com diversas linhas de ônibus, vários equipamentos públicos importantes e que se encontra em constante mudança da paisagem e da forma de ocupação do entorno, principalmente em relação a forte verticalização dos últimos anos.

Segundo o relatório desenvolvido pelos próprios moradores, a ocupação da Vila Santa Rosa se inicia na década de 1980, quando a área residual da construção da via de contorno norte-ilha (Av. Beiramar) ainda era totalmente da posse da União. Os primeiros moradores vieram do oeste do estado à procura de melhores condições de vida e trabalho, porém com o passar dos anos a comunidade cresceu também com as famílias que vinham visitar seus familiares presos na Penitenciária Estadual, que fica nas proximidades, e acabavam por ficar na região já que não possuíam condições de realizar viagens constantes.

Comparando as imagens de ocupação da área, percebe-se que este ritmo de crescimento seguiu até o inicio dos anos 2000, quando, logo após, a comunidade começa a perder área para o capital imobiliário (Mapa 2). É facilmente perceptível que a desaceleração começa a ocorrer em um momento em que o entorno

Mapa 1. Bairro onde se localiza a comunidade da Vila Santa Rosa. Google Earth. Elaboração própria.

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já se encontra bastante consolidado e a inserção de novos

equipamentos públicos nas proximidades, como a Policia Federal e o Tribunal de Justiça, renovam a área e valorizam as terras locais. No momento em que a valorização de terras e a disputa da apropriação pelo capital se tornam mais acirradas, a comunidade começa a perder área, onde as residências dos moradores locais começam a ser vendidas para empreendedores que ocupam as terras com grandes empreendimentos de prestação de serviço. Porém, mesmo com a previsão de verticalização da área no Plano Diretor de 1997, o que aconteceu e ainda acontece quando são construídos esses empreendimentos, é que além da expulsão de parte da população, ocorre também a ocupação de terras públicas para empreendimentos privados.

Mesmo com as expulsões, os moradores ainda conseguem garantir a sua permanência com maior segurança, uma vez que a comunidade está inserida em terras públicas. Nos últimos anos, para auxiliá-los nessa disputa de terras, algumas esferas públicas procuraram os moradores e começaram um trabalho em conjunto com a finalidade de chegar à proposta de urbanização e construção de moradias na região. Deste processo participam em parceira a Superintendência do Patrimônio da União (SPU), a Prefeitura Municipal de Florianópolis (PMF), a CAIXA Econômica Federal e os representantes comunitários. Neste processo, foram realizados levantamentos e cadastros e as reuniões entre os atores chegaram até o inicio da discussão sobre a intervenção local, porém, no momento de propor as soluções, acabou por estagnar.

Atualmente a comunidade vive apreensiva, pelo medo de sua expulsão, vendo nas novas edificações cada vez mais altas e caras o próprio poder do capital imobiliário cercando-os. Com o acompanhamento e o estudo sobre a área, não se pode negar que existem chances da expulsão da população local, caso nenhuma atitude seja tomada quanto à garantia de permanência, seja pela regularização fundiária, pela realização de um projeto de inserção urbana e de construção de novas moradias para as famílias que necessitam. No caso de eventual expulsão dos moradores, os problemas sociais apenas se perpetuarão.

1.3. A IMPORTÂNCIA DA PERMANÊNCIA DA POPULAÇÃO NA

ÁREA CENTRAL

Sabendo-se que existe uma real ameaça de expulsão dos moradores devido a pressão do mercado imobiliário, este trabalho pretende atuar de forma contrária a essa tendência que, historicamente, está presente no nosso país. A permanência das famílias na região central traz diversas vantagens, além do acesso à moradia, como: o acesso a serviços e às infraestruturas urbanas adequadas, as possibilidades de fácil deslocamento para diversos pontos da cidade e novas possibilidades de inserção no mercado de trabalho. Ou seja, aborda-se a habitação social não apenas como uma moradia com condições mínimas de habitabilidade e segurança, mas como uma ferramenta de inclusão e justiça social, com a melhoria da qualidade de vida dos moradores, mediante a requalificação do espaço abordado, integrando-o com o seu entorno para que sua ambiência urbana enriqueça e fortaleça as relações sociais internas.

Mapa 2. Imagens aéreas comparando a Vila Santa Rosa em dois momentos. A primeira imagem mostra a área ocupada no ano de 2003. A outra mostra a ocupação dez anos depois e a evolução dos empreendimentos no mesmo período. Google Earth. Elaboração própria.

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2. A CIDADE CAPITALISTA BRASILEIRA: O CASO

DE FLORIANÓPOLIS

Segundo WHITAKER, a cidade constitui-se como uma representação espacial da sociedade no tempo, imprimindo suas expressões políticas, seus interesses econômicos e seus conflitos sociais na espacialização urbana. Abordando o caso das cidades brasileiras, onde existe uma sociedade altamente desigual, os resultados espaciais se dão com este mesmo caráter.

2.1. PROCESSO DE PRODUÇÃO E ESTRUTURAÇÃO URBANA

Para VILLAÇA, as metrópoles brasileiras possuem traços comuns em sua formação urbana, uma vez que seus desenvolvimentos ocorreram em um mesmo período histórico, em uma mesma estrutura social e regido pelas mesmas administrações públicas. O autor demonstra que, praticamente, em todas as cidades brasileiras a expansão urbana se dá de forma desigual, com a existência de um núcleo central bem estruturado e nas regiões mais afastadas, encontram-se áreas com menos infraestrutura, conhecidas como periferias. Além deste processo espacial, o autor evidencia também que o interesse de ocupação das elites em certas áreas do espaço urbano gera o seu deslocamento dentro da cidade. As futuras áreas escolhidas para ocupação se tornam os eixos de desenvolvimento urbano do Estado e com a aplicação dos investimentos direcionados para esta área, o mesmo se torna conivente com essa ocupação e auxilia a abertura de novas frentes para o capital imobiliário.

No caso da cidade de Florianópolis, esse histórico de desenvolvimento urbano reproduz o processo que VILLAÇA descreve. O núcleo central de ocupação da capital se estabelece ao sul da península central no final do século XVII, coexistindo com pequenos aglomerados localizados ao longo de toda a faixa litorânea. Segundo SUGAI, este núcleo urbano era o local de concentração de moradias, comércios e serviços de diferentes camadas sociais, onde já existiam aglomerações por classes, porém de maneira mais branda como a que ocorre atualmente. Porém, no final do século XIX, com a abolição da escravatura, as mudanças do setor produtivo e o aumento das desigualdades, o processo espacial de segregação ganha mais força, onde nesse primeiro momento, as

elites e o interesse do capital imobiliário se direcionam para a parte norte da península central. Com o passar dos anos, esse processo se torna cada vez mais evidente na capital, marcando o século XX com grandes mudanças estruturais na cidade, onde os interesses imobiliários agora seguem em direção as terras do norte da Ilha (Mapa 3 e 4).

A recorrente aplicação de investimentos públicos nas áreas de interesse do mercado imobiliário e das elites acarreta a supervalorização destas terras, que acabam monopolizadas pelas classes dominantes. Isto faz com que as camadas populares sejam expulsas dessas regiões, por não conseguirem pagar o preço estipulado pelo mercado formal. Esse processo de expulsão gera enormes inchaços urbanos nas periferias da Grande Florianópolis, como nas cidades de São José e Palhoça, além do surgimento de diversos assentamentos informais dentro da cidade, tornando essa situação cada vez mais insustentável pelo Estado, já que este não consegue acompanhar seu crescimento.

2.2. O NOVO PAPEL DO ESTADO NO DESENVOLVIMENTO

URBANO

Esse processo que fomenta a segregação urbana e a desigualdade social foi amparado pelo Estado durante muitos anos e ainda continua presente como diretriz na produção da cidade. Durante a primeira década de século XXI, alguns fatos podem ser destacados quanto a esse argumento, como: a transferência de algumas sedes de governo do Estado para a SC-401, rodovia que serve de acesso para a parte norte da Ilha, principal área de expansão das elites; e a alienação de grandes parcelas de terras públicas para a apropriação das camadas de alta renda, principalmente nas orlas da península central da capital. Estes fatos apenas demonstram o grande grau de vinculação que esse ator possuem dentro da produção da cidade. Porém, a predisposição de ações do Estado se encerra quando colocamos em pauta as camadas populares durante todo esse processo. A representatividade dessa população nos investimentos públicos foi ínfima quando comparada às elites, além da falta de políticas públicas que combatessem o modo em que a cidade é produzida. A possibilidade dessa população de ser ouvida só apareceu através de anos de lutas Mapa 3. Localização aproximada do primeiro núcleo urbano

de Florianópolis e sua expansão direcionada para o Norte. Google Earth. Elaboração própria.

Mapa 4. Em destaque no mapa os equipamentos públicos implementados durante o século XX, no bairro da Agronômica. Google Earth. Elaboração própria.

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sociais, em batalhas que profissionais, representantes e movimentos

sociais confrontavam diretamente as classes dominantes e a administração pública.

Nos últimos anos, os movimentos populares e sociais começam a ter algumas vitórias no quadro de políticas públicas. A primeira grande vitória veio em 2001 com a lei n° 10.257 do Estatuto da Cidade, que “pretende definir como regular a propriedade urbana de modo que os negócios que a envolvem não constituam um obstáculo ao direito à moradia para a maior parte da população, visando, com isso, combater a segregação, a exclusão territorial, a cidade desumana, desigual e ambientalmente predatória.” (MARICATO). O que MARICATO comenta está intrínseco ao novo conceito de que toda propriedade territorial deve cumprir sua função social, isto é, os interesses públicos para esta terra devem prevalecer sobre os interesses privados.

“Art.39. A propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano diretor, assegurando o atendimento das necessidades dos cidadãos quanto à qualidade de vida, à justiça social e ao desenvolvimento das atividades econômicas, respeitadas as diretrizes previstas no art.2° desta Lei.”

Claro que apenas uma mudança na legislação não consegue reverter o quadro que foi estabelecido por anos, tanto que atualmente encontram-se diversas cidades que implementaram tardiamente a normativa desta lei, como no caso de Florianópolis. Mesmo tantos anos após a instituição do Estatuto da Cidade, a capital catarinense regulamentou o seu Plano Diretor Participativo apenas no final do ano de 2013.

Alguns anos mais tarde, outro importante ponto foi estabelecido nas políticas públicas com os programas federais de urbanização de assentamentos irregulares e de construção de habitações sociais. Através destes programas sociais, a esfera pública federal disponibilizou enormes recursos financeiros para a regularização, urbanização e construção de habitações em todo o Brasil. Entretanto, somente o recurso não garante a qualidade do projeto e o que se encontra de exemplo, na grande maioria, é a repetição do padrão do BNH, produzido nas décadas de 1960 e

1970, conhecidos pela má qualidade e a falta de inserção urbana das habitações construídas.

Esse cenário também é o encontrada na área de estudo. Na região do município de Florianópolis, não existiu até setembro de 2013 construções do Programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) na Faixa 01 (famílias com salário de até R$1.600). E segundo relatórios da CAIXA, o único conjunto habitacional já executado do MCMV na Faixa 01 está localizado na periferia da Grande Florianópolis, na cidade de Palhoça onde existem terrenos baratos, porém sem proximidade aos serviços básicos para a consolidação de uma grande população na área.

2.3. A PROBLEMÁTICA HABITACIONAL

Assim como a estrutura urbana acompanhou o desenvolvimento dos modelos sociais, políticos e econômicos, a habitação também se transformou para acomodar as novas necessidades urbanas. Observa-se isso com exemplos, como: o homem da caverna que tinha sua moradia com a função de abrigo e proteção ou como o homem medieval onde seu trabalho ocupava o mesmo espaço de convívio familiar. Mas, o modelo que analisar-se-á é o de relação da habitação com a produção e estruturação capitalista da cidade.

A base desse modelo econômico está na especialização do trabalho que transforma seu produto em moeda de troca, em uma mercadoria. Isto é, o que antes era realizado para consumo próprio e dentro do espaço físico da habitação, atualmente se alterou para locais de serviços especializados em uma organização urbana que possui áreas exclusivas para determinado setor. Nesse contexto, para a população poder usufruir ou produzir algum serviço acaba por depender de deslocamentos dentro da cidade, e este fator pode facilitar ou desgastar a vida cotidiana.

Mas, o que isto tem a ver com o problema habitacional? A seguir irá se dissertar sobre três fatores que irão correlacionar o tema da organização urbana e o da habitação, sendo eles: a nova função da moradia e a cidade como local de viver; disputa de classes pela melhor localização dentro do espaço urbano; e a importância do deslocamento na procura de terras.

Conforme o modelo econômico capitalista se estabeleceu, a vida deixou de acontecer dentro das habitações para acontecer na cidade, reduzindo a moradia a apenas o local de repouso de várias famílias. Essa grande mudança alterou profundamente a forma, o tamanho e as relações sociais que estabeleciam dentro deste ambiente.

“Hoje a cidade é o local de reprodução da força de trabalho. A cidade é o local de viver.” (VILLAÇA)

Sendo a cidade, com sua produção e estrutura baseadas em interesses privados e na gestão pública omissa, o novo local onde se realizam as trocas sociais acaba com diferentes cenários para essas atividades. WHITAKER analisa e crítica muito bem esses cenários urbanos. Num primeiro momento, o autor critica o abandono do Estado em frente às famílias que não conseguem entrar no mercado formal. Uma vez sem alternativas, a solução dessas populações são a de construir informalmente suas próprias casas em áreas inseguras, proibidas ou distantes dos serviços, locais estes que a elite não possui interesse de ocupação. No outro lado, está a classe dominante em bairros bem infraestruturados, porém com soluções urbanísticas e arquitetônicas questionáveis que geram áreas de péssima qualidade que se isolam do restante da cidade. Este isolamento acontece, pois o modelo vendido de condomínios privados que oferecem serviços e lazer de forma exclusiva e privativa são repetidos em massa, produzindo uma malha urbana fragmentada e pouco fluída. Com o ímpeto de ocupar novas áreas, o mercado pode acabar por expulsar outros usos que possuem configurações urbanas ricas, como o pequeno comércio de rua, massificando-as em enormes áreas mal aproveitadas.

Tem-se que deixar claro que esses dois modelos de ocupação não existem separadamente, mas eles “interagem e se autoalimentam, numa dinâmica de codependência, para o bem ou para o mal” (WHITAKER). A interação entre esses dois padrões de ocupação acontece quando percebemos que eles não são produzidos aleatoriamente, mas que são produtos de relações e disputas sociais do espaço urbano. Estas relações criam novos sentidos a terminologias já conhecida, como o perto e longe. VILLAÇA consegue elucidar como esta produção social dos termos

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está intrinsecamente ligada com a produção de terras valorizadas,

isto é, localização. Muitas vezes estes conceitos são utilizados de forma a relacionar o „perto‟ com o centro urbanizado e o „longe‟ com as periferias. Nessa linha de pensamento, o autor vai ainda mais além: ele evidencia que a palavra „cidade‟ muitas vezes é utilizada para delimitar apenas o núcleo ocupado pela classe dominante, refletindo como a segregação urbana consegue romper os limites urbanos com conceitos que utilizamos cotidianamente.

Florianópolis não foge a regra e seu atual contexto urbano compreende todas as problemáticas apontadas. Sua configuração urbana se dá por essa antítese de espaços formados por diferentes camadas sociais e as áreas públicas acabam sendo as áreas que sobram da ocupação privada. Isto faz com que o espaço para a vivência urbana não possua fluidez e acaba por gerar espaços não humanizados. Isto é, os espaços públicos são as sobras da construção privada, se resumindo principalmente às vias de transporte público que não possuem um desenho convidativo para o pedestre se transformando apenas em um espaço de passagem.

Uma vez entendido que o processo de formação urbana não é algo igualitário, mas que existe um monopólio de acesso e um direcionamento de investimentos públicos para certas áreas, percebe-se que algumas irão facilitar os deslocamentos e outras não. Resumindo: enquanto a classe dominante monopoliza as regiões „bem localizadas‟ da cidade, isto é, as áreas melhores servidas de infraestrutura e serviço que, por esse motivo, acabam por ter seus deslocamentos com tempos mais curtos e com menores custos; em contrapartida, as camadas populares ocupam as periferias „mal localizadas‟, onde o tempo de percurso e os custos são enormes comparados à primeira região, onde além da real distância, as populações ainda são reféns da ineficiência transporte público. E com tudo isso, vemos que a problemática da habitação é muito maior que apenas a construção de novas moradias, mas principalmente como estas novas habitações irão se inserir no contexto urbano. É preciso transformar a visão quantitativa em qualitativa, tendo como forma de tornar nossas cidades mais humanas e igualitárias.

2.4. O CONCEITO DE MORADIA DIGNA

Tentando reverter todo o processo de urbanização segregativo e estigmatizado, o termo „moradia digna' surge para exemplificar como toda e qualquer habitação deveria ser produzida no país. Representando a defesa dos direitos básicos de moradia, este conceito coloca em discussão a melhoria da qualidade de vida e da vitalidade urbana através da construção de habitações que obedeçam a certos requisitos:

2.4.1. JUSTA INSERÇÃO URBANA

Fazendo com que o direito à cidade seja assegurado aos moradores dos conjuntos habitacionais através do acesso a serviços públicos essenciais como: saúde, educação, trabalho, segurança e lazer. Dessa forma, eles estariam não apenas incluídos espacialmente no tecido urbano, enriquecendo o mesmo, mas também estariam sendo incluídos socialmente na dinâmica urbana.

2.4.2. QUALIDADE ARQUITETÔNICA E CONSTRUTIVA DAS UNIDADES HABITACIONAIS

Onde a importância das decisões arquitetônicas não tenha como única justificativa o valor de custo; mas que seja levado em consideração o conforto e a qualidade do desenho do espaço com a finalidade do enriquecimento das trocas sociais.

“O que é moradia digna?

A moradia digna não é apenas um abrigo formado por

paredes e telhados. Significa também que a família deve

morar perto do trabalho e de equipamentos públicos como

escola, creche, posto de saúde, além de ter acesso a opções

de lazer. Assim, todos devem ter uma moradia com boa

estrutura física, localizada próxima à infraestrutura urbana e,

fundamentalmente, dispor da documentação do imóvel.”

(retirado do artigo Moradia é Central – Lutas, Desafios e

Estratégias, do Instituto Pólis)

Conjunto habitacional Jardim Edith, do escritório MMBB. Imagem de Nelson Kon, 2013.

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Trabalho de Conclusão de Curso II Da ocupação à permanência – Comunidade da Vila Santa Rosa

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3. CARACTERIZAÇÃO E ANÁLISE DO OBJETO DE

ESTUDO

O objeto de estudo deste trabalho será a comunidade da Vila Santa Rosa, localizada em Florianópolis/SC (Mapa 5). Ao contrário dos exemplos que normalmente são encontrados para assentamentos irregulares, esta comunidade está inserida na área central da capital, no bairro Agronômica (Mapa 6).

3.1. O ENTORNO

3.1.1. CONSEQUÊNCIAS DO PLANO DIRETOR DE 1997

A área de estudo possui uma configuração espacial resultante de ideais de planejamento atrasados. Isto ocorreu pois o último Plano Diretor (PD) de Florianópolis, de 1997, adotava como visão os ideais da década de 70, onde especialistas e técnicos tomavam as decisões urbanísticas para si e as soluções eram dadas a partir de suas 'compreensões' de problemáticas urbanas por meio da observação superficial da cidade em um plano bidimensional. Durante anos, este PD tornou as decisões de planejamento da cidade reféns de um modelo que desconsidera a história, a forma de ocupação, a topografia local e, principalmente, as desigualdades e conflitos espaciais e sociais; entre outros fatores de grande importância para que se consiga escolher a melhor solução para cada setor da cidade. Agregando a esses problemas, os interesses privados que correm por trás de cada decisão, o resultado que se obtém é uma cidade formada por retalhos (Mapa 7), de zonas urbanas que mudam conforme a pressão das classes dominantes e acabam por não possuir uma costura de suas formas de uso e ocupação.

Esse é o cenário que encontramos na área de estudo, onde os retalhos urbanos já aparecem no próprio mapa de zoneamento. Utilizando-o como diretriz de ocupação, a produção dos espaços urbanos acaba por não possuir fortes relações de usos, fluidez de desenho e hierarquias de paisagens e vias. Além disso, já ocorreram algumas mudanças de zoneamento no entorno, como no caso da inserção da AMC-3 e da criação da ARP-0, que possui a função de preservar a ocupação da comunidade da Vila Santa Rosa. Porém, como dito anteriormente, as decisões relacionadas ao planejamento acaba por sofrer influências de interesses privados e o perímetro original que delimitava a ARP-0 e que consta no mapa de zoneamento apresentado, já foi alterado para que ocorressem as construções de novos empreendimentos.

Mapa 5. Mapa de Florianópolis destacando a localização do bairro Agronômica. Google Earth. Elaboração própria.

Mapa 6. Destaque da localização do bairro Agronômica. Google Earth. Elaboração própria.

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3.1.2. CONFIGURAÇÃO ESPACIAL ATUAL

3.1.2.1. SISTEMA VIÁRIO

Bem abastecido quanto à infraestrutura viária, este trecho urbano é localizado em uma área de grande importância para o escoamento do trânsito de toda a Grande Florianópolis.Inserido entre duas vias de grande importância inter e intramunicipal (Av. Gov. Irineu Bornhausen e Rua Delminda Silveira) e próxima a uma importante articulação (o elevado em frente ao Centro Integrado de Cultura), a região acaba por ter um fluxo intenso de transporte público e individual, chegando a passar cerca de 60 linhas de ônibus com destinos para todos os cantos da cidade. Porém, como as demais cidades brasileiras produzidas pela ordem capitalista, com o desequilíbrio na distribuição de investimentos e da priorização do transporte individual, o caos do trânsito em horários de pico congestiona as ruas da região, que sem previsão de novas vias, alargamentos e, principalmente, modelos de transportes alternativos estarão cada vez mais afogadas.

3.1.2.2. EQUIPAMENTOS PÚBLICOS

Diversos são os equipamentos públicos encontrados na região sendo este um dos principais fatores que faz com que a área seja tão valorizada, uma vez que não é necessário grandes deslocamentos para usufruir de importantes funções urbanas. Na região são encontradas escolas públicas e privadas, postos de saúdes, hospitais, equipamentos de segurança, gestão pública, lazer e recreação, entre outros (Mapa 8).

3.1.2.3. USO E OCUPAÇÃO

Com duas grandes áreas de uso Comunitária/Institucional limitando a região de estudo, a oeste os usos da Polícia Federal, Tribunal de Justiça e Palácio d‟Agronômica e a sudeste o Centro Integrado de Cultura e a Penitenciária, a região onde está a comunidade se torna um pequena centralidade, sem continuidade ao longo da rua interna que distribui os fluxos para os bairros. Este núcleo local abastece a população de moradores com pequenos

serviços e comércios e se encontra principalmente nos limites da R. Delminda Silveira e nas quadras entre esta e a Av. Gov. Irineu Bornhausen.

Já na borda da Av. Gov. Irineu Bornhausen, são encontrados equipamentos comerciais e de prestação de serviço de grande porte que abastecem tanto a demanda local, como a dos bairros vizinhos, podendo ser considerada até mesmo a região metropolitana. Ali estão localizados edifícios empresariais, o supermercado Angeloni, lojas de decoração para um grupo seleto e concessionárias para venda de carros (Mapa 9).

O uso residencial também é bastante evidente na área em questão, sendo que os portes das edificações deste uso variam conforme sua localização. Nas quadras de interligação entre as duas principiais vias e conforme se adentra o Morro da Cruz, a ocupação residencial é basicamente de residências unifamiliares de até dois pavimentos. Porém, nos últimos anos, a região do bairro Agronômica vem sofrendo uma grande mudança de paisagem e na forma de ocupação das edificações locais. Nas bordas das duas principais vias locais, estão surgindo cada vez mais novos empreendimentos verticalizados, sendo que para dentro do bairro estão localizados, principalmente, os de uso residencial e nas bordas da Av. Gov. Irineu Bornhausen estão os de prestação de serviços.

3.1.3. PREVISÃO DE CONSOLIDAÇÃO PELO PLANO DIRETOR PARTICIPATIVO

O Estatuto da Cidade traz novos parâmetros para a elaboração dos Planos Diretores. Este regulamenta o Plano Diretor Participativo (PDP) que possui diversos novos instrumentos de políticas urbanas relacionadas à elaboração, fiscalização e implementação das leis de planejamento urbano, sendo o principal deles a participação popular na gestão, fiscalização e decisões urbanas. Infelizmente, na prática não é tão simples.

Em Florianópolis, durante as etapas de discussões do PDP entre os grupos, a sociedade civil começou a se organizar lentamente. Pode-se ver que mesmo com um inicio mais frágil, vários avanços foram conquistados, e durante essa fase de discussões ocorreram diversas audiências publicas com adesão de grupos organizados e da população em geral. Porém, no

fechamento do PDP, o Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (IPUF) acabou por suprimir o Grupo Gestor (responsável pela garantia de representação dos interesses comunitários) das discussões e acabou por concluir os termos finais dentro da própria esfera pública. Percebe-se que essa organização que se formou timidamente se manifestou com força contra essa ação da Prefeitura.

Este plano trouxe os índices de ocupação de forma mais detalhada e com maior coerência. Como dito anteriormente, a proposta deste planejamento traz praticamente a mesma densidade habitacional já estipulada pelo Plano de 1997. O gabarito da zona que conforma o espaço entre a Av. Gov. Irineu Bornhausen e a Rua Delminda Silveira (a zona AMC) (Mapa 10), possuía o máximo seis pavimentos, e com a compra de índices passava para nove, agora o limite será de oito pavimentos. Porém, mesmo não tendo gabaritos mais altos, a possível densificação de todo o entorno da Vila Santa Rosa, pode acarretar em sérios problemas quanto a conforto ambiental e salubridade para os moradores da comunidade, além do agravamento dos problemas de mobilidade.

3.2. A VILA SANTA ROSA

Com a consolidação da comunidade negligenciada pelas esferas públicas e privada, que transformou a vila em um miolo de quadra segregado do tecido urbano, são facilmente encontradas diversas problemáticas relativas à sua configuração espacial atual. Para entender estes problemas da Vila Santa Rosa, foi realizada uma análise por etapa: em um primeiro momento foi delimitada a área interna da comunidade e sua relação com o entorno, procurando levantar os problemas e potencialidades existentes; e em um segundo momento, foi montado o quadro social dos moradores, feito a partir dos cadastramentos realizados e disponibilizados pela Prefeitura Municipal de Florianópolis e pela Superintendência do Patrimônio da União, com o objetivo de descobrir quem são os moradores dessa comunidade e quais seus interesses. Com os resultados obtidos foram traçados as principais problemáticas, as potencialidades da área e os objetivos da intervenção.

Mapa de usos da região de estudo. Google Earth, elaboração própria.

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3.2.1. DELIMITAÇÃO DA ÁREA

A delimitação da área de intervenção deste trabalho abrange: - toda a área da comunidade da Vila Santa Rosa (16.000m²), isto para que todas as 164 famílias sejam incluídas na área de intervenção e tenham a garantia de permanência na região (Mapa 11);

- e as terras que continuam em posse da União (3.120m²), isto porque esta área possui grande influência sobre a comunidade e, uma vez que os lotes já estão destinados a implantação de novos equipamentos públicos de grande porte (Prédio da Advocacia da União), influirá diretamente sobre a forma de organização do espaço interno da Vila Santa Rosa. A própria SPU percebeu a importância da intervenção e estipulou que parte das terras podem ser utilizadas para abertura de um novo acesso a comunidade, desde que esta proposta não fragmente a área do conjunto de lotes, para que ainda seja possível edificar os futuros equipamentos. Além disso, como a proposta será norteada pela construção em etapas com a permanência da população, o terreno da União terá grande importância, uma vez que ele será utilizado para solução do inicio das obras, onde serão localizadas as moradias provisórias.

3.2.2. MAPEAMENTO ESPACIAL

Este mapeamento tem por objetivo a compreensão da espacialidade da comunidade, isto é, entender como ela se configura e funciona espacialmente. Para se alcançar esse objetivo, são traçados alguns itens importantes para a análise, tais como: a situação das edificações encontradas no local, a forma com que elas estão implantadas, como está conformado o sistema viário e seus acessos, além da relação de usos que existem na área e seu funcionamento urbano.

Acessos e sistema viário interno: atualmente, existe apenas um acesso (automotivo e de pedestres) para adentrar o espaço da Vila Santa Rosa. Este está localizado na R. Dr. Antônio Carlos Corrêa, na frente do supermercado Angeloni, passando pela R. São João Batista, onde se encontram edifícios com usos que geram fluxo intenso na região, tal como a CAIXA Econômica Federal e os edifícios da família Daux. É facilmente perceptível que, além da inadequação de possuir apenas um acesso, este ainda se encontra saturado pelo fluxo de pessoas e veículos gerado pelos serviços desses grandes edifícios.

Também bastante defasado para atender a população local, o desenho do sistema viário interno não configura trajetos contínuos que possibilitem uma interligação das regiões da comunidade entre si e com o acesso existente (Mapa 12). Este possui duas servidões sem saídas, sendo a principal a Serv. Nossa Senhora de Lourdes e a menor a Serv. Santo Antônio, além de uma alça de contorno na quadra a oeste, a Serv. Zumbi dos Palmares. Todas as vias possuem, inteiramente ou um trecho delas, a largura mínima para passar um veículo pequeno, sem espaço para calçadas e limitadas pelos muros das construções, inexistindo a hierarquia e divisão dos usos viários (calçadas, faixas de rolagem, vias compartilhadas).

Limites da comunidade: praticamente todo o entorno da comunidade se encontra edificado e mesmo os pequenos vazios que o tecido ainda possui são impossibilitados de conectar a Vila com a malha urbana, uma vez que todos são murados e estão em processo de liberação para a construção de novas edificações.

Como visto anteriormente, o uso e ocupação limítrofe a Vila Santa Rosa é basicamente de residências, comércios e serviços numa escala pequena (dois pavimentos), porém que se encontra em

valorização e transformação, onde já coexistem com edifícios em altura que tendem a ser o cenário dos próximos anos da área.

Mapa 12. Sistema viário do entorno da comunidade. As setas indicam o sentido das vias. Google Earth. Elaboração própria. UNIÃO

Mapa 11. Delimitação da área da comunidade Vila Santa Rosa e a área de posse da união. Elaboração própria.

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Situação construtiva das moradias: com a visita ao local, foi

averiguado que a Vila Santa Rosa possui edificações em diferentes situações quanto à qualidade construtiva.

Para realizar a análise da situação das moradias, foi levado em consideração alguns parâmetros visuais nas fachadas que auxiliaram a diferenciar as situações de cada edificação, uma vez que não havia a possibilidade de adentrar todas as moradias e analisar sua condição interna. Os pontos observados foram: o material construtivo da edificação; a situação do acabamento externo e a presença de problemas visíveis na estrutura das edificações.

Além disto, foi também analisado como cada residência se conecta a rede de infraestruturas, através do levantamento realizado pela Secretaria Municipal de Habitação e Saneamento Ambiental, com o CADúnico.

A seguir está o mapa de levantamento realizado a partir das informações obtidas pelos dados da Prefeitura Municipal de Florianópolis e da Superintendência da União (Mapa 13). É importante ressaltar também, que foram encontradas algumas situações onde a sujeira e o mal cuidado podem ser confundidos com precariedade, sendo que estes fatores foram desconsiderados para a análise do estado das edificações. É importante separar estes aspectos, uma vez que as moradias que estão nessas situações podem remediar esses fatores com ações mais diretas (tais como uma grande limpeza e/ou pequenas reformas), não necessitando de uma demolição parcial ou total da residência.

3.2.3. MAPEAMENTO SOCIAL

Em 2010, houve um resgate na discussão sobre a localidade entre as esferas públicas, onde foram realizados trabalhos de parceria entre a Prefeitura Municipal de Florianópolis, a Superintendência do Patrimônio da União, a CAIXA e os próprios moradores da Vila Santa Rosa, com a finalidade de alcançar uma proposta de regularização e de intervenção na área. Nesta época, foram realizados os cadastros familiares, os levantamentos topográficos e algumas reuniões entre as parceiras, porém na hora da proposição de intervenção, o processo acabou se estagnando. Com a disponibilidade do material levantando na ocasião, cedidos pela PMF e pela SPU, conseguiu-se traçar um mapeamento social que tem, entre outros, os principais itens a renda familiar, as coabitações e as situações de aluguel.

Sobre as características da população, a PMF realizou uma síntese dos dados feita a partir dos seus cadastramentos, sendo importante observar que as famílias que pagam aluguel são excluídas destas sínteses, porém ainda dão um bom parâmetro de como o perfil do morador da comunidade da Vila Santa Rosa. Os resultados deste levantamento são apresentados nos gráficos abaixo:

Gráfico 1. Resultado do levantamento, em relação a faixa etária, realizado com as famílias que viviam na comunidade Vila Santa Rosa em 2010.

Gráfico 2. Resultado do levantamento, em relação a composição familiar, realizado com as famílias que viviam na comunidade Vila Santa Rosa em 2010.

Mapa 13. Situação física das moradias encontradas na comunidade. Elaboração própria.

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Gráfico 3. Resultado do levantamento, em relação a situação

profissional, realizado com as famílias que viviam na comunidade Vila Santa Rosa em 2010.

Renda familiar: é um importante parâmetro para o desenvolvimento deste trabalho, uma vez que é a partir da renda que os programas sociais para habitação distinguem as formas de financiamento. Nenhum dos levantamentos realizados pela PMF ou SPU conseguiu obter este dado de todas as famílias, mas segundo a compatibilização foi conseguido a renda de 46% das 164 famílias. São 45 famílias que possuem renda menor que 3 salários mínimos (27% das 164 famílias), 22 com renda entre 3 a 5 salários mínimos (13% das 164 famílias) e 9 famílias com renda superior a 3 salários mínimos (6% das 164 famílias) onde o salário mínimo considerado para estipular esses padrões foi o salário mínimo da época dos cadastramentos (Mapa 14). Para este trabalho foi considerado que as famílias que não deram informações sobre sua renda estarão dentro da faixa de até 3 salários mínimos.

Gráfico 4. Resultado do levantamento, em relação a renda familiar, com as famílias que viviam na comunidade Vila Santa Rosa em 2010.

Com base nos resultados obtidos no mapeamento social nota-se que o morador da comunidade Vila Santa Rosa é, na sua maioria, trabalhador com renda de até três salários mínimos (salário mínimo de R$ 510,00) e com composição familiar de até quatro membros.

3.2.4. ALUGUÉIS E COABITAÇÕES

A prática de coabitações e aluguel tem se tornado cada vez mais presente nos assentamentos irregulares, principalmente quando localizados próximos a centros urbanos. Isto acontece, pois a procura pelas as áreas urbanizadas, com acesso a serviços básicos e equipamentos públicos, é enorme já que apenas estas conseguem garantir uma melhor qualidade de vida. Porém com a ocupação da cidade formal delimitando bruscamente as áreas que estas comunidades conseguem ocupar, as famílias acabam por sacrificar sua privacidade e se aglomeram em pequenos cômodos com a finalidade de poder usufruir dessa inserção. Além disso, com o objetivo de aumentar a renda familiar, muitos moradores ampliam quartos ou mesmo constroem novas edificações com o objetivo de alugar (Mapa 15).

Sobre a distribuição espacial das famílias nas moradias, são distribuídas 164 famílias em 103 moradias. Com esse dado, já se percebe a existência de casos de coabitações e aluguéis (Mapa 16). Das 103 moradias, 28 possuem alguma forma de coabitação. São 89 famílias nessa situação, onde 43 estão em situação de aluguel e as restantes configuram residências que estão em parte doadas, emprestadas, ou até mesmo compradas. A divisão espacial da residência por famílias ocorre, normalmente, por pavimentos, porém também podem ser no formato de quitinetes, principalmente quando as famílias estão em situação de aluguel.

Mapa 14. Distribuição das casas conforme a renda familiar.

Elaboração própria.

Mapa 15. Habitações alugadas e coabitações na comunidade Vila Santa Rosa. Elaboração própria.

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Mapa 16. Composição e distribuição familiar na comunidade Vila Santa Rosa. Elaboração própria.

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4. OBJETIVOS

4.1. OBJETIVOS GERAIS

A temática da Habitação de Interesse Social e da sua localização, além de socialmente necessária, tem uma enorme importância para garantir uma cidade mais justa e igualitária. Os objetivos deste trabalho devem ser entendidos como componentes que procuram compor e qualificar a proposta de intervenção, sendo eles:

4.1.1. INCLUSÃO SOCIAL DOS MORADORES NA CIDADE FORMAL Garantir com os projetos de reurbanização e de arquitetura, a inclusão social dos moradores da comunidade na cidade formal, a partir da criação de novos espaços que visam aumentar as possibilidades de trocas sociais e diminuir os estigmas que cercam este espaço.

4.1.2. PROJETO DE REURBANIZAÇÃO

Elaborar o projeto reurbanização que adeque as infraestruturas e acessos existentes, além de qualificar os espaços públicos e coletivos para convivência dos moradores.

Este projeto deverá adequar as vias, permitindo o acesso de serviços básicos, como a passagem do caminhão de lixo, além de humanizá-las com a inserção de calçadas e travessias de pedestres. Os espaços públicos e coletivos são qualificados a fim de garantir o fortalecimento das trocas sociais e, consequentemente, da integração urbana com a cidade.

4.1.3. PROJETO ARQUITETÔNICO

Elaborar o projeto de arquitetura de Habitação de Interesse Social e de equipamentos comunitários intrínsecos ao fortalecimento da comunidade. Estes deverão obedecer a parâmetros ambientais e econômicos para a sua viabilização.

4.2. OBJETIVOS ESPECÍFICOS

4.2.1. PERMANÊNCIA DE TODOS OS MORADORES NA COMUNIDADE Garantir a permanência de todos os moradores locais, incluindo as famílias que pagam aluguel. Este é o principal ponto que pode assegurar o direito à cidade para os moradores locais, onde se desconsiderar parte da população para a permanência o problema habitacional e da estigmatização continuarão.

4.2.2. COMPROMETIMENTO COM O ESPAÇO EDIFICADO

Considerar o espaço edificado como condição para o desenvolvimento da proposta. Isto é, a abertura de novos espaços dentro da comunidade deverá levar em consideração o espaço já edificado e suas características, sendo as principais delas, as rendas familiares e as condições de precariedade das habitações.

4.2.2. PERMANÊNCIA DURANTE AS OBRAS

Garantir a permanência dos moradores durante a fase de execução de obras através da construção em etapas. Isto assegurará o processo de regularização e permanência final dos moradores na área, proporcionando maior segurança e controle frente as mudanças.

4.2.3. INTEGRAÇÃO URBANA E MELHORIA DA AMBIÊNCIA COMUNITÁRIA

Melhorar a integração urbana entre a comunidade e o seu entorno com a criação de novo acesso viário e a qualificação dos espaços públicos. Sem costura com a malha urbana e sem usos que possam interagir com os usuários do entorno, a comunidade se encontra estigmatizada e isolada da cidade formal. A abertura de um novo acesso viário deverá evitar a ruptura do tecido urbano já existente, ou seja, garantir a ambiência residencial da área, porém qualificando com novas áreas e usos para convívio.

4.2.4. COMPROMISSO COM A SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL

Assegurar a sustentabilidade ambiental frente aos fatores naturais e construídos quanto a insolação, ventilação, luminosidade e visibilidade das áreas projetadas.

4.2.5. COMPROMISSO COM A REALIDADE SOCIAL E FINANCEIRA DA COMUNIDADE

Assegurar que a proposta cumpra com os aspectos da realidade social e financeira da comunidade. Isto é, evitando os estigmas sociais, o gueto e o isolamento através da inserção de novos usos e configurações espaciais; evitando também a ruptura do processo de lutas sociais travadas pela comunidade, procurando ainda fortalecer a união entre moradores; e garantir as condições de financiamento dentro do alcance das rendas familiares, tentando trabalhar com o menor custo de execução e com formas de reduzir os gastos de manutenção do projeto.

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5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BONDUKI, Nabil.Origens da habitação social no Brasil:arquitetura moderna, lei do inquilinato e difusão da casa própria.3ª ed. São Paulo (SP): Estação Liberdade, 2002.

CAMPOS FILHO, Candido Malta. Cidades brasileiras: seu controle ou o caos: o que os cidadões devem fazer para a humanização das cidades no Brasil. 2a ed. São Paulo (SP): Studio Nobel, 1992.

CARVALHO, Celso; ROSSBACH, Anaclaudia (org.). O Estatuto da Cidade: comentado. São Paulo: Ministério das Cidades: Aliança das Cidades, 2012.

FERREIRA, João Sette Whitaker (coord.). Produzir Casas ou construir cidades? Desafios para um novo Brasil urbano. Parâmetros de qualidade para a implementação de projetos habitacionais e urbanos. São Paulo, LABHAB; FUPAM, 2012.

FLORIANÓPOLIS. Lei Complementar n° 001, de 03 de outubro de 1997. Dispõe sobre o zoneamento, o uso e ocupação do distrito sede de Florianópolis, e dá outras providências.

FLORIANÓPOLIS. Lei Complementar n° 207, de 20 de dezembro de 2005. Altera em caráter emergencial o Plano Diretor do Distrito Sede no Maciço do Morro da Cruz e dá outras providências.

FLORIANÓPOLIS. Lei Complementar n° 229, de 25 de abril de 2006. Define como zona especial de interesse social (ZEIS) área localizada na UEP-2; Agronômica e dá outras providências.

FLORIANÓPOLIS. Lei Complementar n° 262, de 28 de dezembro de 2006. Altera zoneamentos aprovados pela Lei Complementar n° 001/97, pela Lei Complementar 080/04, e pela Lei Complementar n° 166/05 e dá outras providências.

INSTITUTO PÓLIS. Moradia é Central: Inclusão, Acesso e Direito à Cidade. São Paulo, 2009.

INSTITUTO PÓLIS. Moradia é Central: Lutas, desafios e estratégias. São Paulo, 2012.

MARICATO, Ermínia. Brasil, cidades: alternativas para a crise urbana. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.

MARICATO, Ermínia. A produção capitalista da casa (e da cidade) no Brasil industrial. 2a ed. São Paulo (SP): Alfa-Omega, 1982.

MASCARÓ, Juan Luis. O custo das decisões arquitetônicas. São Paulo (SP): Nobel, 1985, p.100.

PLANO DIRETOR PARTICIPATIVO (proposta preliminar). Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis - IPUF, Prefeitura Municipal de Florianópolis, 2013.

PRINZ, Dieter. Urbanismo I Projecto Urbano. Lisboa: Presença, 1984, p.189.

PRINZ, Dieter. Urbanismo II Configuração Urbana. Lisboa: Presença, 1984, p.150.

SAULE JÚNIOR, Nelson; FONTES, Mariana L. P. (org.). Manual de regularização fundiária em terras da União. São Paulo: Instituto Pólis; Brasília: Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, 2006.

SUGAI, Maria Inês; VILLAÇA, Flavio. As intervenções viárias e as transformações do espaço urbano. A via de contorno norte-Ilha. 1994. Dissertação (Mestrado) - Universidade de São Paulo, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo.

VILLAÇA, Flávio. O espaço intra-urbano no Brasil. São Paulo: Studio Nobel: FAPESP: Lincoln Institute, 1998.

VILLAÇA, Flávio. O que todo cidadão precisa saber sobre habitação. São Paulo, Global Editora, 1986.

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6. ANEXO A

CONFIGURAÇÃO ESPACIAL ATUAL DAS PRINCIPAIS RUAS E AVENIDAS NO ENTORNO DA COMUNIDADE VILA SANTA ROSA

Avenida Governador Irineu Bornhausen: em processo de

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7. ANEXO B

O ISOLAMENTO DA COMUNIDADE VILA SANTA ROSA

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8. ANEXO C

VISTAS GERAIS DA COMUNIDADE

Sequência de fotos mostrando a estrutura física atuais da Vila Santa Rosa. Arquivo pessoal.

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9. ANEXO D

CONDIÇÕES FÍSICAS DAS MORADIAS DA COMUNIDADE VILA SANTA ROSA

As imagens mostram as diferentes condições físicas classificatórias utilizados neste estudo. A coluna a esquerda apresenta dois exemplos de moradias em condições precárias, a coluna do meio moradias em condições regulares e, a coluna da direita apresenta condições físicas de moradia boas. Fotos cedidas pela Secretaria Municipal de Habitação e Saneamento Ambiental de Florianópolis.

Referências

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