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Periódico Científico Outras Palavras | v.10 | n.2 90

Fortalecimento da autonomia com vistas ao

empoderamento das mulheres vítimas de violência

doméstica atendidas no centro de referência especializado

de assistência social - CREAS Ceilândia

Gracielle Macedo Borges; Maria Suely Rodrigues Sousa; Maria de Fátima dos Santos Silva

Resumo: O presente artigo tem como objetivo analisar as estratégias desenvolvidas pela política pública de assistência social no âmbito do Centro de Referência Especializado de Assistência Social – CREAS Ceilândia, para o fortalecimento da autonomia das mulheres vítimas de violência doméstica atendidas por esta instituição. Para tanto, se analisa a violência doméstica contra a mulher como um fenômeno social complexo numa perspectiva de gênero. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, a partir do método dialético crítico. De modo geral, as ações propostas contribuíram para com o fortalecimento da autonomia por meio dos atendimentos psicossociais. Entretanto, foi possível identificar que os resultados apontam por outro lado, uma desarticulação da rede de políticas públicas, no sentido de proporcionar em sua totalidade, ações voltadas para o empoderamento a partir da inserção das mulheres no mercado de trabalho. Uma vez que o público-alvo do presente projeto apresenta não somente violação de direito, mas grave situação de vulnerabilidade social, visto que as mesmas dependiam financeira e economicamente do agressor. Nessa perspectiva, ressalta-se que há um grande desafio para a atuação do poder público no que diz respeito à criação de políticas de atendimento voltadas para a autonomia financeira das mulheres.

Palavras-chaves: Mulher. Violência. Autonomia. Empoderamento.

Abstract: This article aims to analyze the strategies developed by public social welfare policy

under the Centre of Social Assistance Specialized Reference - CREAS Ceilândia for strengthening the autonomy of women victims of domestic violence served by this institution. For this, it analyzes the domestic violence against women as a complex social phenomenon from the perspective of gender. This is a qualitative research from critical dialectical method. In general, the proposed actions contributed to the strengthening of autonomy through psychosocial care. However, we found that the results point on the other hand, a dismantling of public policy network, in order to provide in its entirety, actions for empowerment from the entry of women into the labor market. Once the target audience of this project presents not only violation of law, but serious situations of social vulnerability because they depended financially and economically aggressor. From this perspective, it is noteworthy that there is a great challenge for the performance of the government in regards to creating care policies aimed at financial empowerment of women.

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Introdução

A violência doméstica contra a mulher é entendida como uma violação dos direitos humanos e é considerada um fenômeno social baseada nas desigualdades de gênero que histórica e culturalmente atribuíram à mulher uma condição de subalternidade durante séculos.

Trata-se de uma expressão abrangente que perpassa todos os níveis sociais, econômicos, étnicos, raciais, de orientação sexual, religião e nacionalidade e manifesta-se de várias formas, como: violência psicológica, violência física, sexual, patrimonial e moral. É um tema instigante, porque afeta não só a mulher, mas toda a família e deixa sequelas que, se não forem tratadas, as consequências são, na maioria das vezes, irreparáveis.

De acordo com estimativa da Anistia Internacional e Organização Mundial de Saúde (OMS), a violência doméstica é a maior causa de morte em mulheres de 16 a 44 anos. Calcula-se que 70% dessa violência vêm ocorrendo dentro do ambiente familiar.

O mais grave é que cerca de 60% dessas mulheres sentem medo, constrangimento, e sofrem caladas, sem tomar qualquer tipo de atitude para sair do círculo de violência. (Jornal de Brasília, 1 de agosto de 2010, apud 1º Juizado Especial de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Ceilândia).

A violência doméstica tem aumentado no Distrito Federal, conforme ocorrências registradas pelo Departamento de Atividades Especiais da Polícia Civil, de janeiro a julho de 2010. Foram registradas um total de 5.770 ocorrências, sendo que Ceilândia teve o maior número de ocorrências, 1.064.

As condições adversas e de inferiorização vivenciadas pelas mulheres historicamente foram transformadas em práticas rotineiras de subordinação. Contudo, foi a partir do movimento feminista que emergiram as lutas coletivas das mulheres contra a desigualdade de gênero (sexismo) e que contribuíram com a emersão de instrumentos de viabilização de direitos. Dentre as políticas públicas, a assistência social caracteriza-se como uma das políticas de proteção social brasileira que oferta serviços especializados, e quando há ocorrências de violações de direitos, o que possibilitou o desenvolvimento da pesquisa através do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) Ceilândia, devido à cidade possuir, segundo dados do SERAV/TJDFT (2010), o maior índice de violência doméstica contra a mulher do Distrito Federal.

A Violência é um Obstáculo aos Direitos Humanos das Mulheres Fala-se muito em violência, mas afinal o que é violência?

Violência é uma relação desigual de poder, onde um domina o outro, seja pela força física ou psicológica, causando danos irreparáveis, como cita Minayo:

Violência é uma noção referente aos processos e as relações interpessoais, de grupos, de classes, gênero, ou objetivadas em instituições, quando empregam diferentes formas, métodos e meios de aniquilamento de

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outrem, ou de sua coação direta ou indireta, causando-lhe danos físicos, mentais e morais (2005, p. 13).

No entanto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu violência como: “o uso intencional da força física ou do poder, real ou ameaça, contra si próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou comunidade, que resulte ou tenha grande probabilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência, desenvolvimento ou privação”. A violência infringe um dos princípios fundamentais da Declaração Universal dos Direitos Humanos1, o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana.

Os direitos humanos podem ser definidos como aqueles direitos que são inerentes à pessoa humana. São universais e aplicam-se a todos sem distinção. O respeito pelos direitos dos indivíduos devem ser garantidos independentemente da raça, cor, sexo, religião, idade, nacionalidade ou qualquer outra condição.

Os direitos por serem natos aos seres humanos, confere-os à condição de sujeito de direitos, e assim não nascem fora das relações estabelecidas, conforme Carbonari enfatiza:

nascem do âmago do ser com os outros. Nascem do chão duro das interações conflituosas que marcam a convivência. Mais do que para regular, servem para gerar possibilidades emancipatórias. Os standards e parâmetros consolidados em normativas legais, sejam elas nacionais ou internacionais, neste sentido, não esgotam o conteúdo e o processo de afirmação de direitos. São expressão das sínteses históricas possíveis dentro das correlações dadas em contextos territoriais e temporais (2007, p. 177).

Sendo assim, é imperioso afirmar que a conquista dos direitos não se deu de forma harmoniosa, pelo contrário, foi a partir de relações conflituosas que foi possível atribuir aos sujeitos essa condição.

Dessa maneira, a violência doméstica contra a mulher constitui-se um fenômeno mundial, uma das principais formas de violação dos direitos humanos, que atinge as mulheres nos seus direitos assegurados por lei, como está disposto na Constituição Federal de 1988, em seu artigo 226, que assegura a assistência à família, na pessoa de cada um que a integram, criando mecanismos para coibir a ocorrência da violência no âmbito de suas relações. Isso implica dizer, que de acordo com o Preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, o Estado de direito detém a primazia da responsabilidade da proteção integral às mulheres.

Dessa forma, nota-se que a esfera privada não é isenta de regulação pelo poder público. Almeida (2007, p. 23) afirma que a “família pode ser uma instituição violenta” e destaca ainda que “não há uma cisão entre a esfera pública e privada”.

1A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi adotada e aprovada pela Assembleia Geral das Nações

Unidas em 10 de Dezembro de 1948.

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Diante disso, vale destacar que a Constituição Cidadã reconhece a igualdade de direitos das mulheres, na vida pública e na vida privada. Mas, é importante destacar que tanto as mulheres quanto os homens são vítimas de violações de direitos. Entretanto, cada um sofre de forma diferente e particularizada. Enquanto os homens tendem a sofrer violência predominantemente no âmbito público, a mulher historicamente é vítima de violência praticada na esfera privada (SARTI, 1994).

A Histórica Submissão da Mulher

A violência doméstica contra a mulher é um processo que foi construído cultural e historicamente desde muito antes da idade média e que se perpetua até os dias atuais em todos os países, como relata Teles e Melo (2003, p. 11):

O drama da violência contra a mulher faz parte do cotidiano das cidades, do país e do mundo. É pouco comovente porque é por demais banalizados, tratado como algo que faz parte da vida; tão natural que não se pode imaginar a vida sem sua existência. É um fenômeno antigo que foi silenciado ao longo da história e passou a ser desvendado há menos de 20 anos. A mídia busca fatos novos, e quando se fala de violência contra a mulher, nada é novo.

Desde os tempos mais remotos, nota-se que a relação público-privada presente em todas as civilizações, a partir da não valorização das mulheres e da concepção de que a função da mulher era somente como procriadoras, mães e donas de casa, como cita Teles e Melo (2003, p. 29) “ao serem tratadas como propriedade dos homens, as mulheres perderam, em diferentes níveis, autonomia, a liberdade e o mais básico direito de controle sobre o seu próprio corpo”, ou seja, passando a viver exclusivamente para a família, aniquilando sua própria vontade.

Segundo uma perspectiva funcionalista2, a família desempenha importantes tarefas e

contribuem para as necessidades básicas da sociedade e auxiliam a perpetuar a ordem social.

Entende-se por ordem social no âmbito das relações de gênero, a dominação simbólica que Bourdieu (1998, p. 15) enfatiza:

A força masculina pode ser aferida pelo fato de que ela não precisa de justificação: a visão androcêntrica se impõe como neutra e não tem necessidade de se enunciar, visando sua legitimação. A ordem social funciona como uma imensa máquina simbólica na qual se funda: é a divisão social do trabalho, distribuição muito restrita das atividades atribuídas a cada um dos dois sexos (…).

Dessa maneira, durante várias décadas, a mulher foi vista como mantenedora da ordem, tornando-se responsável pela reprodução/procriação, educação dos filhos, cuidados com o lar e obediência ao marido. Enquanto o homem assumia uma função de “provedor”, a

2Vale ressaltar que as teorias funcionalistas consideram a divisão doméstica das tarefas entre homem e mulher

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mulher desempenhava a função “afetiva”, emocional no âmbito doméstico, conforme Giddens (2005, p. 152) destaca.

Essa especialização das funções – divisão doméstica do trabalho3 – no ambiente familiar,

significa dizer que há relações de poder desigual, ou seja, “certos membros tendem a ter mais benefícios que o outro” (TELES; MELO, 2003, p. 28). A esfera privada pode apresentar-se tanto como um ambiente de conforto, amor e companheirismo, quanto mostrar-apresentar-se como um lugar de exploração e profunda desigualdade (GIDDENS, 2005).

Dessa forma, ao longo da história, a violência doméstica contra a mulher tem sua gênese embricada em um processo de submissão aos homens. Conforme afirma Teles e Melo (2003, p. 29), a “mulher foi obrigada a restringir sua vida às necessidades da família”. Almeida (1998) destaca a ideologia de Rousseau (1789) acerca da família. Ele considera que pelo fato da família ser a mais antiga forma de organização social, esta determina a ordem por meio da própria natureza. Isso implica afirmar que “idosos naturalmente têm precedência sobre os jovens, e homens têm naturalmente autoridade sobre as mulheres” (ALMEIDA, 1998, p. 56), ou seja, se há um idoso no seio familiar, os jovens e homens mais novos devem seguir os costumes, e com isso, os homens detém a supremacia do poder sobre as mulheres, uma vez que a exploração e dominação do homem sobre a mulher datam desde os primórdios. Na idade média, por determinação da igreja, foi instituída a instituição casamento, a maternidade bem como o papel da boa esposa, passando a mulher a restringir-se à exclusiva dedicação ao companheiro e aos filhos.

Desde a instituição de Roma, onde a família era o epicentro de todas as normas jurídicas (SCALQUETE, 2009), o homem era detentor do poder de decisão sobre a vida e a morte dos membros familiar, o qual era o único que possuía direitos.

Na Grécia Antiga, as situações das mulheres eram semelhantes à daquelas vivenciadas na Babilônia, a partir do Código de Hamurábi (feito entre 1750 a 1700 a. C.), o adultério por exemplo, era considerado crime quando era a mulher casada que o cometia, o homem casado podia sair com mulher solteira que era admitido o concubinato (SCALQUETE, 2009). E a mulher que era repudiada pelo marido, tornava-se escrava da segunda esposa.

No Egito, as mulheres eram colocadas à construir as pirâmides conjuntamente com os escravos. Quando houve o êxodo do Egito para a Palestina, a pena prevista para as mulheres que cometiam adultério, era a lapidação, em forma de apedrejamento.

A partir de 1789, a Revolução Francesa com os ideais de fraternidade, igualdade e liberdade, promulgaram a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, o qual não previa direitos para as mulheres, discriminando-as. Inclusive, por ter se tratado de uma revolução que

3 Entende-se por divisão doméstica do trabalho, o modo como as tarefas são alocadas entre os membros do

núcleo doméstico (o homem provedor e a mulher procriadora). Giddens (2005) ressalta que esse processo se deu por meio do legado patriarcal precedido da industrialização. Acreditamos que esse processo foi resultado do acirramento do capitalismo industrial, onde ocorreu uma distinção acentuada entre a esfera doméstica e a esfera do trabalho, o que ocasionou a discriminação sofrida pelo segmento feminino ao inserir-se no mundo profissional, fortalecendo relações de poder que são sentidas até os dias atuais.

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segundo Martinelli (2008, p. 34), se realizou no “plano político o trânsito para o capitalismo”, isso quer dizer que com o advento do processo de industrialização, havia a exigência de concentração dos trabalhadores nas fábricas, isso inclui a participação de mulheres e crianças que eram exploradas pelos donos do capital. Diante desse fato, somente os burgueses eram detentores dos referidos direitos conquistados na época, e as mulheres permaneciam apartadas da sociedade.

Como bem enfatizado pelos autores Gislane e Reinaldo (2007, p. 243) e Schmidt (2002, p. 78), entre outros, que as mulheres e crianças eram contratadas para trabalhar nas fábricas com uma jornada de trabalho de 15 à 18 horas ininterruptas em condições insalubres, subhumanas, inclusive mulheres grávidas.

Diante do cansaço e da extrema exploração, aconteciam muitos acidentes e muitos dessas mulheres e crianças perdiam membros do seu corpo, como: mãos, olhos, braços, dedos e então eram despedidas, jogadas fora como lixo, sem direito algum.

No Brasil, os homens podiam matar as mulheres que cometiam adultério por volta de 1830, no qual havia o costume de dar chibatadas nos escravos e mulheres adúlteras (TELES; MELO, 2003).

Constata-se por meio de uma visão panorâmica da história que as mulheres foram exploradas e maltratadas pelo simples fato de serem mulheres. Instituídas as leis e códigos, o pensamento e as diretrizes que os respaldavam, justificavam comportamentos que historicamente discriminaram e violentaram os direitos humanos das mulheres. E ainda, destaca-se que esse processo se deu por meio das relações estabelecidas por instituições tradicionais (COSTA, 2008), assim como a partir da cultura, dos costumes e tradições das sociedades, das leis civis criadas pelo Estado conforme enfatiza Teles e Melo (2003, p. 18):

os papéis impostos às mulheres e aos homens, consolidados ao longo da história e reforçados pelo patriarcado e sua ideologia, induzem relações violentas entre os sexos e indica que a prática desse tipo de violência não é fruto da natureza, mas sim fruto do processo de socialização das pessoas. Ou seja, não é a natureza responsável pelos padrões e limites sociais que determinam comportamentos agressivos aos homens e dóceis e submissos às mulheres. Os costumes, a educação e os meios de comunicação tratam de criar e preservar esteriótipos que reforçam a ideia de que o sexo masculino tem o poder controlar os desejos, as opiniões e a liberdade de ir e vir das mulheres.

Assim, as referidas autoras aludem a questão soberana historicamente delegada ao patriarcado, destacando que é condição determinante a submissão da mulher para que o mesmo exerça seu domínio:

a garantia da supremacia masculina dependia única e exclusivamente da inferioridade feminina. Daí a exigência de ataques acirrados à condição feminina, impondo forçosamente ideias acerca da incapacidade e incompetência das mulheres (...), o patriarcado investiu de maneira

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contundente e ambígua, obrigando homens e mulheres a acreditarem na inferioridade feminina (TELES e MELO, 2003, p. 30-31).

Dessa forma, um mecanismo relevante que contribuiu para a cisão do ciclo “incansável de assistência aos filhos e de trabalho doméstico” (GIDDENS, 2005, p. 153), bem como da submissão sofrida pelas mulheres ao decorrer dos séculos, trata-se das abordagens feministas que caracterizaram-se pelos esforços empreendidos por mulheres de diversos países do mundo, em busca de igualdade de direitos.

Abordagens Feministas

O feminismo é fundamentalmente um movimento, que segundo Tiefer (1993, p. 37), é uma “análise política que visa compreender e modificar a situação subordinada das mulheres através do mundo”. Ou seja, foi por meio da mobilização de mulheres dos vários continentes do mundo, que se deu o primeiro passo para o rompimento da opressão feminina. Ou ainda conforme afirma Costa (1998), o feminismo trata-se da consciência que as mulheres adquiriram sobre a situação de subalternidade na sociedade, bem como de iniciativas empreendidas por parte do Estado para modificar tal situação.

Betty Freidan – feminista norte-americana – foi uma ativista que contestou a visão da família como um domínio harmonioso e igualitário, movimentando debates e pesquisas que direcionaram às atenções para o papel das mulheres no âmbito doméstico.

Vale destacar a conquista do dia 8 de março, o que foi resultado de expressivos movimentos coletivos das ativistas feministas. Segundo Bandeira e Melo:

A memória coletiva das mulheres tem um dia especial para revisar seu legado, refletir sobre o presente e projetar o futuro – dia 8 de março. E que a idéia de estabelecer um dia de luta pela transformação da vida das mulheres teve ínicio com a II Conferência Feminina da Internacional Socialista de Mulheres, realizada na Dinamarca, em 1910 (2010, p. 8) Ressalta-se dessa maneira, a importância da Socialista Feminista Alemã, Clara Zetkin (1857-1933), como sendo a mulher que propôs a definição de um dia de luta pela emancipação feminina.

Conturbados fatos políticos e históricos como a I Guerra Mundial e a Revolução Russa de 1917, contribuíram para a determinação desse dia, para comemorar as lutas das mulheres pela cidadania e igualdade e para relembrar uma tragédia: o incêndio da fábrica têxtil Tringle Shirtwaist Company em 1911, em Nova York, onde foram mortas 125 operárias e em homenagem à greve das trabalhadoras russas em 8 de março de 1917 (BANDEIRA; MELO, 2010, p. 9).

Essa data foi esquecida por um tempo e só em meados do século XX, nos anos 1970, o dia 8 de março – Dia Internacional da Mulher, foi incluído na agenda oficial das organizações internacionais.

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No Brasil, o Dia Internacional da Mulher, teve sua origem vinculada às mulheres trabalhadoras, de partidos de esquerda nos anos 1950 e a primeira comemoração aponta para o dia 08 de março de 1947, organizada pelo Instituto Feminino de Serviço Construtivo dirigido por Alice Tibiriçá4.

Atualmente esse dia é comemorado5 pela sociedade em todo o mundo, graças à resistência

e determinação de mulheres empenhadas em buscar o reconhecimento de seus direitos. Entre as lutas das mulheres pela cidadania e igualdade de direitos estava incluído o direito ao voto e de ingressarem na carreira política. Essa participação feminina do direito ao voto, foi possível graças ao Partido Republicano Feminino, fundado em 1910 por um grupo de mulheres da Capital Federal – Rio de Janeiro – composto por diversas feministas que militavam em prol do direito ao voto.

Destaca-se nesse período, a contribuição da professora Leolinda de Figueiredo Daltro (1860 – 1935), eleita presidente pelo grupo. Participou da elaboração do estatuto do partido e neste constava a busca pela “emancipação da mulher brasileira, despertando-lhe o sentimento de independência e de solidariedade patriótica, e extinguir toda e qualquer exploração relativa ao sexo” (BANDEIRA; MELO, 2010, p. 14).

A emancipação eleitoral conquistada resultou da organização das mulheres com vistas à exercerem a cidadania, a legitimar a escolha de seus legisladores, assim como objetivavam pleitear acesso à educação e melhores condições de vida e de trabalho, sob a influência da primeira mulher a atuar arduamente para conquistá-la: a jornalista Josefina Alváres de Azevedo (1851–?), e posteriormente pela mobilização da advogada Mirtes Campos (1875-?), entre várias outras feministas6 que participaram de movimentos constitucionalistas e sociais.

Conquistas estas que só foram concretizadas no governo Presidente Getúlio Vargas em 1932, quando foi instituído o Código Eleitoral Brasileiro, pelo Decreto nº 21.076, que sinalizava os eleitores que eram aptos a exercerem o sufrágio universal.

E então as mulheres começaram a marcar presença e participar ativamente da política e do processo eleitoral, inclusive como candidatas a vários postos: prefeitas, deputadas estaduais e federais, senadoras e mais recentemente à presidência do Brasil, ampliando assim a democracia brasileira.

Cabe ressaltar o nome da primeira mulher a ocupar uma cadeira na Câmara Federal, Carlota Pereira de Queiroz7 (1892-1982), que se destacou como deputada federal por ter elaborado

4 Alice Tibiriçá (1886-1950), criadora do dia das mães no Brasil. Foi a primeira presidente da Federação de

Mulheres do Brasil, entidade fundada em 1949 (DICIONÁRIO..., 2000, p. 31).

5 No ano de 2010, comemorou-se 100 anos do dia Internacional da Mulher. É nítido os avanços alcançados pelas

mulheres. Entretanto, é fundamental resgatar os acontecimentos que marcaram essa trajetória de luta, mas devemos reconhecer que a igualdade ainda é um processo em permanente construção.

6Mulheres feministas que contribuíram para o direito à participação no processo de decisão de escolha de seus

governantes. Vale destacar que Mirtes Campos ao conseguir aprovar uma emenda constitucional de sua autoria, afirmava que “a mulher não é, moral nem intelectualmente, inapta para o exercício dos direitos políticos” (BANDEIRA; MELO, 2010).

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o primeiro projeto brasileiro sobre a criação de serviços sociais no país (BANDEIRA; MELO, 2010).

Outra participação importante foi da deputada federal Bertha Lutz8, que apresentou o

Projeto Estatuto da Mulher, que propunha a reformulação da legislação brasileira quanto ao trabalho feminino e a criação do Departamento Nacional da Mulher.

Esse projeto foi aprovado em outubro de 1937, mas em novembro do mesmo ano, o Congresso foi fechado e a discussão foi perdida, o Brasil passava por um processo chamado de Estado Novo, no qual os Poderes Legislativos nacional, estadual e municipal foram extintos por quase uma década até ser restaurada a democratização brasileira.

Outra conquista que merece destaque, trata-se do acesso das mulheres ao ensino superior, que foi consolidado na década de 1940, bem como o ingresso das mesmas em carreiras universitárias.

Na década de 1960, período do regime militar, a sociedade brasileira foi silenciada, seja pela histórica relação senhor/escravo, marido/mulher, seja pela coerção do poder autoritário – relações de poder.

Conforme Faleiros (2007, p. 88) “nas relações de poder há dominantes e dominados, há um poder hegemônico. A relação de força – ela é uma relação de poder”. É nesse contexto relacional de gênero, que acontece a dominação do homem sobre a mulher, pois muitos deles se acham donos da mulher, fazendo delas sua propriedade particular, submetendo-as a uma situação de exploração e subordinação tolhendo sua autonomia em todas as áreas: sentimental, pessoal, econômica, entre outras.

As relações de poder estabelecidas durante séculos resultaram na mobilização das mulheres que desempenharam um papel importante no processo de redemocratização do país. Foram ativistas na resistência aos governos militares, participaram de organizações de esquerda contra a opressão e perseguição sofrida. Conforme Bandeira e Melo (2010), muitas mulheres foram mortas ou exiladas, sendo que, somente nos anos de 1970, com a repercussão da luta internacional das mulheres europeias e norte-americanas, que as brasileiras emergiram suas vozes, paralelamente à vários movimentos sociais.

No Brasil ao final dos anos 70 e início dos 80, a mídia, através do seriado Malu Mulher9,

provocou a discussão latente daquela época na sociedade brasileira, ou seja, a emancipação feminina. O seriado veiculava temas como mercado de trabalho e dupla jornada de trabalho feminino, divórcio, aborto, a condição secundária da mulher na sociedade, violência contra a mulher, entre outras abordagens pautadas nas lutas feministas (CORRÊA, 2001).

8Bertha Lutz: Bióloga, feminista, defensora do voto feminino.

9“Malu Mulher” foi intitulado dessa maneira porque Malu era o apelido da protagonista, representada por Regina

Duarte, como Maria Lúcia Fonseca, e mulher representava um adjetivo de qualificação. Malu, uma mulher de classe média, mãe de uma menina de doze anos, casada, socióloga, professora universitária, que enfrentava em seu dia a dia problemas sociais e pessoais que exigiam um posicionamento acerca dessas questões. (MALU..., 19--)

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Ressalta-se ainda que os discursos presentes em cada capítulo representavam um olhar feminino, com ênfase ao domínio privado mesmo quando abordava temas diversos do âmbito público que atravessavam ideais de igualdade social e política, fortemente imbricados pela necessidade de empoderamento feminino (PERROT, 2007). A argumentação utilizada em um espaço na televisão brasileira aberta sustentava o necessário reconhecimento da mulher como sujeito e não como “a-sujeitado”, como mulher e como sujeito de direitos. Isso implica afirmar que o seriado adotou o “sujeito-mulher de voz e vez”, fato que usurparam das mulheres em gerações (MOTA; SILVA, 2011, p. 12).

As lutas sociais que agitaram durante a década de 1980, “a nossa velha e nunca resolvida questão social10, foi colocada nos centros das promessas que acenavam com a construção de

uma sociedade capaz de conciliar maior liberdade e maior igualdade”, conforme Telles (2001, p. 80-81) afirma. Esse processo só foi possível porque houve uma intensa participação e mobilização por parte de movimentos sociais que buscavam evidenciar a situação vivenciada por milhares de brasileiras.

Vale destacar a criação do primeiro grupo de combate à violência contra a mulher, considerado um marco importante do movimento de mulheres (BANDEIRA; MELO, 2010), com o SOS Mulher, na cidade de São Paulo, em outubro de 1980.

O SOS Mulher diante da vasta demanda para acolhimento de mulheres em situação de violência, forçou o Estado a dar resposta à sociedade, conforme destaca Iamamoto (2001, p. 25), “a universalidade no acesso nos programas e projetos sociais abertos a todos os cidadãos só é possível no âmbito do Estado”, portanto, os direitos inerentes à mulher devem ser assegurados pelo Poder Público.

Delegacias Especializadas de Atendimento às Mulheres (DEAM)

Partindo da percepção de que é responsabilidade do Estado assegurar proteção às mulheres, foram criadas as Delegacias Especializadas de Atendimento às Mulheres (DEAM), sendo que a primeira foi inaugurada em São Paulo no ano de 1985. De acordo com Godinho e Costa (2006, p. 49), a criação das delegacias especializadas foi “uma iniciativa pioneira no âmbito das políticas públicas de combate à violência contra as mulheres”, ou seja, responderam a uma demanda emergente que recai sob cerca de uma a cada cinco brasileiras (VENTURI; RECAMÁN, 2004, p. 24).

A função designada para as DEAMS, trata-se de uma referência de local para a realização da denúncia, bem como a investigação e apuração dos fatos registrados pelas vítimas da violência doméstica. Além disso, inovou em relação ao papel de deslegitimar a violência e de evidenciar a necessidade de instrumentos públicos para o combate à violência contra a mulher que assumiu um “caráter endêmico” (GODINHO; COSTA, 2006, p. 48).

Acerca do papel das DEAMS, Godinho e Costa (2006, p. 51) enfatizam:

10Segundo Iamamoto (2001, p. 16), questão social diz respeito ao “conjunto das expressões das desigualdades

sociais engendradas na sociedade capitalista madura, impensáveis sem a intermediação do Estado”. É importante salientar que a violência doméstica contra a mulher é uma manifestação da questão social.

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No dia-a-dia, o direcionamento fundamental da atuação das delegacias é para os casos de violência, em particular a violência doméstica (...). É um equipamento de natureza policial, vinculado à área da segurança pública e que liga, portanto, com casos ou situações que se espera sejam solucionados pela via policial, ou pelo menos, cuja solução também passa por aí.

Um aspecto fundamental da intervenção realizada nas DEAMS, corresponde ao padrão de atendimento. Por mais que sejam especializadas, há um déficit de capacitação dos profissionais da segurança pública, que necessitam de qualificação quanto a humanização do atendimento às vítimas de violência doméstica, pois quando essas mulheres decidem realizar a denúncia, muitas vezes passam por um novo processo de vitimização. Além disso, Ferreira (2007) acrescenta que pelo fato que são poucas as unidades da federação que contém essas delegacias, e que não há instrumentos padronizados que garantam que todos os casos de crimes sejam contabilizados e registrados, destaca que num futuro próximo, a existência das DEAMS podem ser descartadas em todas as cidades do Brasil, uma vez que “mesmo uma padronização nacional dos registros nas DEAMS parece distante, e além disso, a subnotificação, pelas desconfianças à polícia e pelos constrangimentos existentes para o registro destes casos, continuaria altíssima” (FERREIRA, 2007, p. 216).

Concorda-se com Ferreira (2007) que as DEAMS não possuem um sistema de coleta de dados das ocorrências registradas de forma unificada. Há um grande desafio para a criação de uma uniformização de base nacional. Entretanto, não podemos considerar a alusão da inexistência de um mecanismo que atende às vítimas que resolveram fazer a denúncia, bem como deixar de ser referência para as mulheres atendidas e encaminhadas por unidades prestadoras de serviços públicos e privados para a população, tais como Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) e unidades hospitalares e ambulatoriais de saúde, dentre outras.

A existência desse instrumento de viabilização de direitos, torna-se imperioso paralelamente às áreas com um grande percentual de demandas, como é o caso da saúde. Segundo a Organização Pan-americana da Saúde (OPAS), a saúde constitui a encruzilhada para onde confluem todos os corolários da violência. Destacando-se todas as formas de violência sofrida pelas vítimas que necessitam de atendimento em todos os setores, caracterizando-se assim como um objeto intersetorial.

Ainda nessa perspectiva, destacam-se os centros de referências e atendimento à mulher, que caracterizam-se como locais destinados a resolução do conflito, atuando diretamente em ações capazes de proporcionar o fortalecimento da autonomia, ou possibilitar ainda em um estágio anterior, o reconhecimento e discussão acerca da violência doméstica contra a mulher. A partir da análise realizada por Godinho e Costa (2006, p. 52-53), faz-se necessário ampliar o quantitativo de espaços direcionados ao atendimento às mulheres:

É preciso multiplicar os locais a que as mulheres possam recorrer no caso de violência sexista nas suas mais diversas formas e fases (violência doméstica em geral; violência sexual – dentro ou fora do âmbito doméstico; manifestação física da violência ou de caráter psicológico, ameaças e

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constrangimentos, etc.), sem que se vincule, necessária e

automaticamente, a um encaminhamento jurídico ou policial.

Dessa maneira, vale destacar que muitas vezes as mulheres não realizam a denúncia, não apenas pelo medo dos agressores, mas também pela vergonha que se manifesta ao buscar atendimento nas delegacias. Sendo assim, o centro de referência e atendimento à mulher é um serviço de atenção que a mulher possa recorrer sem que lhe reste somente a opção do encaminhamento policial. Busca apoiar, orientar e responder à dinâmica das relações de gênero de forma diferenciada, buscando oferecer um aparato psicológico e social.

Instrumentos de Viabilização de Direitos a partir das Lutas Feministas

De acordo com os eixos de ações de atendimento às mulheres em situação de violência doméstica, na década de 1980, foram criados os primeiros Conselhos Estaduais, em Minas Gerais e em São Paulo, principalmente no tocante às políticas públicas nessa área.

O Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), foi criado em 1985 e pautou-se no compromisso de criar mecanismos de representação dos interesses do movimento de mulheres, contribuindo através da sua atuação com a consolidação das mudanças na legislação no que tange à temática.

Vale ressaltar que somente em 1988 com a promulgação da Constituição Federal Brasileira que foi conferido proteção especial aos direitos fundamentais e a dignidade da pessoa humana, inclusive os direitos humanos que passaram a ocupar uma posição de supremacia no ordenamento jurídico brasileiro, dando maior visibilidade à condição feminina.

Na década de 1990, o Plano Collor (combate à inflação), retirou a autonomia financeira e administrativa e o poder de executar políticas públicas de forma direta do CNDM. Somente em 1994 que o Conselho foi reativado através do movimento feminista que elaborou uma proposta para à Presidência da República, passando a lutar pela criação de mecanismos para resgatar o controle da execução de políticas públicas específicas.

É nesse contexto que, em 2003, o movimento feminista colocou na agenda pública as principais demandas no que se refere a institucionalização da temática no âmbito do executivo brasileiro. À exemplo disso, temos: Órgãos de Defesa da Mulher, como a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) – Lei 10.683/2003, inspirada no princípio de igualdade de condições entre homens e mulheres, com a proposta de desenvolver políticas para as mulheres, vinculada à Presidência da República e dotada de autonomia ministerial e de orçamento.

A criação da SPM legitimou a elaboração e implementação de políticas públicas para as mulheres no aparelho do Estado e tem como objetivo a eliminação de todas as formas de discriminações e desigualdades de gênero, assim como a consolidação dos direitos humanos e o pleno exercício da cidadania para as brasileiras.

A Secretaria Especial de Políticas Públicas para as Mulheres conjuntamente com o Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres mobilizaram amplos debates e discussões. Surgindo

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dessa maneira instrumentos de luta política, como os Planos Nacionais de Políticas Públicas para as Mulheres (PNPM), por meio da realização de Conferências Nacionais com a participação direta e democrática da sociedade civil.

Diante do cenário brasileiro atual, vale direcionarmos uma visão crítica sobre os avanços alcançados a partir da égide libertária das condições femininas evidenciando mudanças expressivas na cultura legislativa, política, econômica e social voltadas para a igualdade entre homens e mulheres.

O que cabe destacar a inserção das mulheres na política, não somente como deputadas, ministras, senadoras, sobretudo Mulher Chefe de Estado, como a Presidenta Dilma Rousseff, eleita em 2010. Entretanto, devemos evidenciar ainda que essas alterações não se desenvolveram de forma harmoniosa, foram conquistadas por meio de confrontos às estruturas tradicionais que moldaram durante séculos as dimensões de gênero.

Reconhece-se que o movimento feminista foi um dos movimentos sociais mais importantes da segunda metade do século XX, conforme afirmam Bandeira e Melo (2010, p. 41):

esta atuação modificou a vida de gerações de mulheres, dos mais diversos segmentos sociais e raciais. No século XXI, o feminismo consolida-se como política de Estado, ao mesmo tempo em que se ampliaram os mecanismos de consulta e participação social na formulação de políticas públicas. Portanto, o desenvolvimento do movimento de mulheres se constituiu como um fator crucial de desconstrução das desigualdades históricas estabelecidas. Resultados concretos adquiridos por essa atuação e de mulheres anônimas que enfrentam no dia a dia as dificuldades impostas por uma sociedade que ainda precisa caminhar para o desenvolvimento de um Brasil sem desigualdades de gênero, são determinantes para rompermos com os valores sexistas que insistem em relegar as mulheres a um nível inferior na sociedade.

Maria da Penha: Uma História a se Contar

Um exemplo concreto de mulheres que lutaram e lutam diariamente para sairem da condição de subalternização, trata-se da senhora Maria da Penha Fernandes – biofarmacêutica, casada, mãe de três filhas – que denunciou publicamente as violações de direitos que o companheiro exercia.

Essa mulher foi vítima de violência doméstica pelo esposo, o então colombiano, professor universitário de economia, Marco Antônio Herredia Viveiros, que por duas vezes tentou assassiná-la. Na primeira vez, no ano de 1983, deferiu um tiro contra ela enquanto dormia, o qual a deixou paraplégica. Na segunda tentativa, duas semanas depois, ele tentou eletrocutá-la e afogá-la enquanto tomava banho11.

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Onze anos depois do fato ocorrido, ainda não havia decisão definitiva no processo e o agressor continuava em liberdade. Foram longos anos de sofrimento, agressões e intimidações durante todo o tempo.

Contudo, após as tentativas de assassinatos sofridas por ela, Maria da Penha criou coragem e resolveu denunciar. No momento da denúncia, os crimes de violência doméstica contra a mulher eram julgados pela Lei nº 9.099/95. Esta lei previa trabalhos voltados para a reconciliação da vítima com o agressor.

A intencionalidade da Lei 9.099/95 tratava-se de buscar uma “solução” rápida para o conflito familiar, permitindo sua composição sem a interferência punitiva direta do Estado, onde havia a previsão de pagamento de cestas básicas (penas alternativas), e quando o fato ocorrido não fosse superior a dois anos, o agressor não perdia sua condição de réu primário, sendo ainda proibida a sua identificação criminal, como citado na cartilha Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/06) comentada:

No JECRIMs –Juizados Especiais Criminais os atos são informais, as mulheres eram estimuladas a conciliar em nome da harmonia familiar e o Ministério Público podia oferecer um acordo para o agressor para ele não ser processado. Além disso, o crime de lesão corporal leve passou a depender da representação da mulher para que o agressor fosse denunciado pelo Ministério Público, o que constrangia as mulheres e contribuía para a retirada da “queixa”. Desta forma, mais de 70% dos processos ficavam arquivados e, quando julgados, os agressores recebiam como “punição’ o pagamento de cesta básica ou prestação de serviços comunitários. Isso acabou contribuindo para um sentimento de impunidade (DE OLHO..., 2009, p. 11).

Dessa maneira, considerando-se que a natureza do conflito e as relações de poder presentes nos casos de violência contra a mulher, essa lei incentivava a desistência das mulheres em processar seus agressores, e com isso, estimulava a ideia de impunidade presente na sociedade.

Em 1998, a situação legal da senhora Maria da Penha, permanecia a mesma, nada havia sido feito para punir o agressor. Com isso, a vítima alegou morosidade da Justiça perante o processo, e mencionou que o Estado brasileiro estava violando as normas internacionais de direitos humanos, em Especial da Convenção de Belém do Pará (1994), e que o descaso da Justiça nos processos por violência doméstica contra a mulher quase sempre resultava na impunidade do agressor (BRASIL, c2008).

Em decorrência da situação vivenciada por essa mulher, mais uma vez reagiu com coragem diante da impunidade, injustiça e violações sofridas, não só pelo o esposo, como também pelo Estado, e recorreu à instâncias superiores.

Em 2001, a Comissão Interamericana declarou que o Estado brasileiro foi negligente e omisso em se tratando de violência contra a mulher. Acatou pela primeira vez, denúncia de violência doméstica. Fez uma série de considerações, recomendando ao Brasil que tomasse providências no sentido de minimizar esse tipo de violência (BRASIL, 2006).

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Um ano depois, Antônio Viveiros foi condenado por dupla tentativa de homicídio, pegou uma pena de oito anos de reclusão. Porém, após vários recursos de apelação, ficou preso apenas por dois anos e foi beneficiado com o regime aberto (VIOLÊNCIA..., 2009, p. 11). Maria da Penha, no entanto, estava presa a uma cadeira de rodas pelo resto de sua vida. Com a intervenção internacional, o debate foi colocado em pauta com as atenções voltadas à necessidade de formulação de uma legislação e sistema de garantia de direitos dedicados à proteção as mulheres. Diante disso, o ex Presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva, sancionou a Lei 11.340/06, conhecida como Lei Maria da Penha.

A promulgação da referida lei representou uma conquista de todos os brasileiros, por meio da promoção de uma legislação que visa além da proteção à mulher, provocar uma efetiva mudança nos valores sociais que naturalizam a violência nas relações domésticas e familiares em que o padrão de dominação masculina aceito pela sociedade durante séculos, veio causando muito sofrimento e consequências danosas para a família (DE OLHO..., 2009, p. 9). E, conforme a Delegacia Especializada de Apoio a Mulher ressaltou: “quem agride a Mulher machuca a família inteira” (DEAM/DF, 2012, p. 18).

A Lei Maria da Penha inovou em diversos aspectos, conforme salienta folder explicativo da Secretaria Psicossocial Judiciária (TJDFT, 2011):

 Define e estabelece quais são as formas de violência doméstica e familiar contra a mulher.

 Assegura a toda mulher, independentemente de classe, raça, etnia, orientação sexual, renda, cultura, nível educacional, idade, religião, as condições para o exercício efetivo dos seus direitos à vida, segurança, saúde, entre outros.

 Estipula que a renúncia à representação só pode dar-se perante o juiz.  Proíbe penas pecuniárias como pagamento de multas ou cestas básicas.  Garante à mulher assistência judiciária e exige a presença de advogado ou

defensor público em todos os atos processuais.

 Possibilita a decretação de prisão preventiva do agressor em qualquer fase do inquérito policial ou instrução criminal.

 Faculta ao juiz decretar comparecimento obrigatório do agressor a programas de reeducação e recuperação;

 Estipula pena de três meses a três anos de detenção.

 Agrava a pena em um terço se a violência for cometida contra pessoa com deficiência.

 As medidas protetivas de urgência poderão ser concedidas pelo juiz a requerimento do Ministério Público ou a pedido da ofendida, no prazo de 48.  Estabelece os Juizados de Violência doméstica e Familiar contra a Mulher

como órgãos competentes para o processo, julgamento e execução das causas decorrentes e práticas de violência doméstica e familiar contra a mulher.

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 Prevê a possibilidade de atendimento por equipe multidisciplinar a ser integrada por profissionais das áreas psicossocial, jurídica e de saúde.

Sendo assim, a Lei Maria da Penha atribui a responsabilidade à família, ao Estado e a sociedade pela garantia dos direitos da mulher, prevendo ainda a elaboração de políticas públicas para resguardá-las, no âmbito das relações doméstica e familiar, “de toda forma de negligência, exploração, violência, crueldade e opressão” (BRASIL, 2006).

Conclusões

Parte-se da proposição de que se a mulher encontra apoio psicossocial, há uma probabilidade maior de superação da situação vivenciada devido à separação, conforme denominado pelas entrevistadas, do que se não houvesse esse atendimento, pois as ações e as estratégias desenvolvidas pelo CREAS Ceilândia através de orientações e encaminhamentos realizados pela equipe interdisciplinar contribuem para a melhoria da autoestima, corrobora no sentido de motivá-las para sair da condição de fragilização. E ainda despertando-as no sentido de empoderá-las na busca de novas perspectivas.

Reconhecemos os avanços alcançados em termos de políticas públicas para o combate à violência doméstica contra a mulher, a partir das diversas influências que impactaram o Brasil para buscar estratégias de ações para o enfrentamento da violência doméstica contra a mulher. As políticas públicas voltadas à defesa de seus direitos passaram a ser ampliadas e integradas de maneira a viabilizar a criação de normas e padrões de atendimento, aperfeiçoamento das legislações voltadas à mulher, incentivo à instauração de redes de serviços, apoio a projetos educativos e culturais de prevenção a violência, bem como ampliação do acesso das mulheres à justiça.

Contudo, ainda há muito que se fazer em relação à efetivação na aplicação da lei, que não há uma efetiva preocupação por parte do judiciário em punir o agressor, e ainda qualificam os casos de violência doméstica contra a mulher como lesão leve, bem como o aparelhamento do Estado, quanto à falta de treinamento de recursos humanos para o atendimento à mulher que sofreu violência.

Nessa direção, conforme as considerações das entrevistadas, para que elas se sintam na condição de empoderadas, faz-se necessário a inserção das mesmas no mercado formal de trabalho, uma vez que precisam ser superadas as condições adversas enfrentadas para o próprio sustento e o de seus filhos. Além da acirrada competição, a baixa classificação profissional, é preciso avançar no sentido de superar as desigualdades de gênero que permeiam as relações presentes no mundo do trabalho em termos de acesso, oportunidades e diferenças salariais.

Conclui-se que diante dos dados apresentados, faz-se necessário o reconhecimento e relevância das ações desenvolvidas pelo Estado, o que conferiu maior visibilidade à temática. Entretanto, percebe-se que é um campo acentuadamente fragmentado, com ações e financiamentos descontínuos, com quadros reduzidos de profissionais especializados na área e de parcos investimentos. Apesar da banalização e das relações culturais permissivas e naturalizadas que permeiam o fenômeno da violência doméstica contra a mulher, é preciso

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o fortalecimento das políticas já existentes, a articulação entre elas, a mobilização da sociedade e dos atores sociais, para que de fato haja uma política pública eficaz para essas mulheres, visando a autonomia e o empoderamento delas.

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