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Academic year: 2021

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PADRÃO 75 –A FAMÍLIA

Referência: Christopher Alexander (1977) – A Pattern Language. Towns. Buildings. Construction. Nova York: Oxford University Press.

Tradução: Prof. Frederico Flósculo Pinheiro Barreto.

APRESENTAÇÃO: ESTAS NOTAS DE AULA COMPÕEM UM BLOCO DE TEXTOS DA AUTORIA DE CHRISTOPHER ALEXANDER E SUA EQUIPE, NA UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA, BERKELEY. TODOS ESSES TEXTOS FORAM RETIRADOS DO IMPORTANTE LIVRO “LINGUAGEM DE PADRÕES”, E SE ARTICULAM COMO “ESPECIFICAÇÕES PARA UM PROJETO DE

COMUNIDADE”. VAMOS AO TEXTO:

… suponhamos agora que você decidiu construir uma casa para você mesmo.

Se situá-la adequadamente, essa casa pode contribuir para a formação de um grupo, de uma fila, de um monte de casas - ver os Padrões GRUPO DE CASAS (37), CASAS ALINHADAS (38), MONTE DE CASAS (39) – ou pode ajudar a manter viva uma comunidade de trabalho – A HABITAÇÃO INTERCALADA (48) -.

Este é um padrão que nos oferece informações vitais sobre o caráter social do próprio lar.

Se você se ajusta a ele, ajudará a reparar o CICLO VITAL (26) e a MESCLA FAMILIAR (35) de sua comunidade.

ËËË

A família nuclear não é, por si mesma, uma forma social viável.

Não há muito tempo passado, a sociedade humana estava baseada na família extensa: uma família que reunia pelo menos 3 gerações, com pais, filhos, avós, tios, tias e primos, que viviam todos numa mesma casa, ou em várias casas próximas, flexivelmente unidas. Nos dias hoje andamos quilômetros para nos casarmos, para nos educarmos, para trabalharmos. Nas atuais circunstâncias, as

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únicas unidades familiares que permanecem são as chamadas famílias nucleares: pai, mãe, filhos. Apoiadas em si mesmas, muitas se dissolvem no divórcio e na separação.

Inafortunadamente, tudo parece indicar que a família nuclear não é uma forma social viável. É pequena demais. Em uma família nuclear, cada pessoa está vinculada de forma por demais estreita aos seus demais membros. Qualquer enfrentamento, mesmo que transitório, se torna um problema sério. É impossível recorrer aos tios, às tias, aos netos, aos primos, aos irmãos. A escassez de ajuda imediata pode jogar a unidade familiar em uma espiral de crescente inquietação; as crianças são presa mais fácil de vários tipos de dependências e de neuroses edipianas; os pais dependem tanto um do outro que acabam por separar-se, ao final, em tantos casos.

Philip Slater descreve essa situação no caso de famílias norte-americanas, e chega à conclusão de que os adultos, especialmente as mulheres, sofrem uma sensação latente de privação. Não há muitas pessoas ao redor, não há suficiente ação em comum, não há uma diversidade de experiências cotidianas em torno do lar para que se tenha profundidade e riqueza (Philip E. Slater, The Pursuit of

Loneliness, Beacon Press, Boston, 1970, pg. 67 e toda a obra).

Parece essencial que pelo menos uma dezena de pessoas rodeiem a qualquer dos membros de uma família, para que seja possível contar com o sossego e as relações necessárias para que nos amparemos ao longo dos altos e baixos dos estados de ânimo. E como as velhas famílias extensas, sobretudo baseadas nos laços de sangue, praticamente desapareceram, somente poderemos remediar essa situação se as pequenas famílias, se os casais, e ainda os adultos solteiros, se unirem entre si, em famílias voluntárias, de convívio, formadas por dez ou mais pessoas.

Em seu último livro Island, Aldous Huxley oferecia uma amável versão dessa perspectiva:

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- quantos lares tem uma criança insulana ?

- uns vinte, em média. - Vinte ? Meu Deus !

- Todos nós pertencemos – explicou Susila – a um MAC, um clube de adoções mútuas. Mutual Adoption Club. Cada MAC tem entre 15 e 25 pares de relações familiares diversificadas, mas bem identificadas. Há noivos e noivas recém-compromissados, há a classe dos veteranos que possuem filhos, avós e bisavós... todo mundo adota um ao outro. Além de nossos parentes consangüíneos, todos temos uma cota de mães adotivas, de pais adotivos, de tias e tios adotivos, de irmãos e irmãs adotivas, de pais adotivos, de filhos bebês que começam a andar em nossa volta, de filhos adolescentes a conversar conosco.

Ele balançou a cabeça.

- Desse modo, há aqui uma vinte famílias onde antes havia apenas uma... - Bem, o quehavia antes era o vosso tipo de família – e encena uma leitura de um livro de receitas – tome-se um escravo, mas assalariado, sexualmente inepto, com uma mulher insatisfeita, e ainda dois ou, se preferir, três filhos viciados por televisão; misture com o tempero de um freudianismo e de um cristianismo algo diluídos; tampe com força em um apartamento de quatro cômodos, e deixe tudo isso à sua própria sorte por uns quinze anos. Bem, por outro lado, a nossa receita é bem diferente: tome vinte pares sexualmente satisfeitos, e sua descendência; junte ciência, intuição e humor em quantidades iguais; ponha um suculento molho de budismo tântrico, e cozinhe indefinidamente, em fogo baixo, sem pressa, numa panela aberta ao ar livre, sobre uma chama viva de afeto.

- E o que o que sai da panela ? – ele perguntou.

- Um tipo inteiramente novo de família. Nada em exclusividade, como nas vossas famílias, nada predestinado, nada coercitivo. Uma família inclusiva, sem

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obrigatoriedades, voluntária. Vinte pares de pais e mães, mais uns oito ex-pais e ex-mães, mais umas quarenta ou cinqüenta crianças, de todas as idades.

(Aldous Huxley, Island, Bantam, Nova Iorque, 1962, pp. 89-90).

Fisicamente, a concepção de uma grande família voluntária deve caracterizar-se pelo equilíbrio entre privacidade e comunalidade. Cada família pequena, cada pessoa, cada par de pessoas relacionadas necessita de um domínio privado, quase um pequeno lar privado e próprio, de acordo com suas necessidades territoriais. A experiência nos diz que, no movimento de organização de comunas (como em assentamentos de comunidades alternativas), seus organizadores não parecem ter tomado a sério, como deveriam, essa necessidade de privacidade. Ao contrário, têm-se descuidado da necessidade de privacidade justamente por também acharem que se trata de algo a ser superado. Contudo, essa é uma necessidade profunda e básica; se a organização física não favorece a cada pessoa e a cada pequena família a satisfação dessa necessidade, que regulem essa importante dimensão do convívio, com toda a certeza teremos problemas. Por isso propomos aqui que os indivíduos, os pares de relacionamentos, os jovens e os idosos – cada subgrupo possível – tenham seu próprio espaço de convívio, tenham seu lar formalmente independente e, em alguns casos, que esses espaços sejam definidos por edificações efetivamente separadas ou, pelo menos, por apartamentos e quartos e pavimentos fisicamente separados.

Os domínios privados se contrapõem ao espaço comum e às funções comuns. Os domínios comuns e mais vitais são a cozinha, o lugar onde sentamos para comer, e um jardim. O hábito de comer na companhia dos familiares, pelo menos por algumas noites por semana, parece ser de grande importância na coesão do grupo. Essas ocasiões, associadas ao tempo em que as pessoas também acabam por passar juntas na própria cozinha, proporcionam esses episódios de encontro casual, nos quais tudo pode ser discutido comodamente: o

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cuidado das crianças, a manutenção da casa, os projetos comuns, as preocupações, etc. – ver o padrão COMER JUNTOS (147).

Tudo isso nos sugere uma grande cozinha familiar, do tipo que encontramos nas casas rurais, essas cozinhas que ficam no coração da casa, onde tudo se cruza, até onde todos acabam por ir no final do dia de trabalho ou de estudos. Também nesse caso, em função dos costumes de cada família, a cozinha por chegar a ser concebida como um espaço separado, um edifício de encontro e trabalhos, com jardins e áreas para estar e trabalhar, ou mesmo como uma ala especial da casa, ou ainda como todo um pavimento de uma casa de dois ou três pavimentos.

Comprova-se que em meio às sociedade contemporâneas estão em plena ação os processos que geram essas grandes famílias coletivas e voluntárias (vejam o artigo de Pamela Hollie, More Families Share Houses With Others to

Enhance Life Style, publicado no Wall Street Journal, de 7 de julho de 1972).

Há pelo menos um modo de estimular o crescimento das famílias voluntárias: quando alguém se muda ou vende a sua casa, seu apartamento, sua habitação, deveria comunicar essa intenção aos vizinhos e amigos dos arredores. Feita essa comunicação, os vizinhos poderiam ajudar a encontrar um comprador de confiança, amigos que também estejam em mudança, e que venham a ocupar aquele lugar. É mais uma peça que se encaixa no mosaico da vizinhança, e assim se estende a família dos que moram e se comunicam em proximidade. Se esses amigos realmente se mudarem, ocupando a habitação disponibilizada, novas transformações nos domínios comuns estará a caminho, novos aspectos são adicionados à família estendida, novas formas de ocupação dos espaços comuns podem surgir. Antevemos até mesmo a construção de conexões entre os lares, a derrubada de velhos muros, o aumento das edificações. Se, eventualmente, as pessoas que habitam no entorno imediato do lugar não são capazes de ajudar a que essa venda ocorra de forma a fortalecer a família estendida e voluntária, é claro que a venda ocorrerá, a seguir, como qualquer outra no âmbito do mercado imobiliário.

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Portanto:

Desencadeie processos que estimulem a formação de grupos de 8 a 12 pessoas que estabeleçam habitações comunitárias. Os aspectos morfológicos mais importantes são:

1. domínios privados para os grupos e os indivíduos que integram a

família extensa: domínios dos pares de relações familiares, cômodos privados, sub-divisões adequadas para as famílias menores;

2. espaços comuns para as funções compartilhadas: cozinha, oficina,

jardim, cuidado das crianças;

3. nos cruzamentos mais importantes entre os domínios desse lugar,

deve haver um espaço em que todo o grupo se encontre e permaneça reunido.

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Dentro da família estendida, cada lar individual deve possuir, necessariamente, um território próprio, claramente definido, que esteja sob seu controle – ver o padrão UM LAR PRÓPRIO (79) -; esses territórios individuais deve ter um tratamento que corresponda à natureza dos lares individuais – ver os

padrões CASA PARA UMA PEQUENA FAMÍLIA (76), CASA PARA UM PAR (77),

e CASA PARA UMA PESSOA (78) -; entre esses territórios deve-se ter espaços comuns em que os membros das diferentes famílias menores se reúnam e comam em comunidade – ver os padrões ÁREAS COMUNS NO CENTRO (129), COMER JUNTOS (147). Quanto à forma dos edifícios, dos jardins, dos pavimentos e do entorno, examine o padrão COMPLEXO DE EDIFÍCIOS (95)...

Referências

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