Título: O não-formal e o informal em educação: Centralidades e periferias.
Atas do I colóquio internacional de ciências sociais da educação / III encontro de sociologia da educação (3 volumes)
Organização: José Augusto Palhares | Almerindo Janela Afonso
Comissão Organizadora
Almerindo Janela Afonso (Coord.) Carlos Alberto Gomes
Esmeraldina Veloso José Augusto Palhares Maria Custódia Rocha Emília Vilarinho Fernanda Martins Natália Fernandes Cristina Fernandes Carla Soares Comissão Científica
Almerindo Janela Afonso Ana Diogo Alan Rogers Alcides Monteiro António Fragoso António Neto-Mendes Armando Loureiro Carmen Cavaco Fernando Ilídio Ferreira Isabel Baptista
José Alberto Correia José Augusto Palhares Licínio C. Lima Manuel Sarmento Maria da Glória Gohn Mariano Fernández Enguita Paula Cristina Guimarães Pedro Abrantes
Rui Canário
Sofia Marques da Silva Xavier Bonal
Edição: Centro de Investigação em Educação (CIEd) Instituto de Educação
Universidade do Minho Braga - Portugal
Composição e arranjo gráfico: Carla Soares, José Augusto Palhares Capa e design: João Catalão
Formato: Livro Eletrónico, 3 Volumes, 2110 Páginas
Volume I: [pp. 1 – 680] | Volume II: [pp. 681 – 1292] | Volume III: [pp. 1293 – 2110]
ISBN: 978-989-8525-27-7
Este trabalho é financiado por Fundos Nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia no âmbito do Projeto PEst-OE/CED/UI1661/2011
ÍNDICE
VOLUME II
Formação e Aprendizagens em Contexto de Trabalho
A socioeducação no contexto pedagógico | Jacqueline Taveira Lopes, Camila Perin Ribeiro, Rudinei da Silva Soares, Joceli de Fátima Arruda Sousa
688
O lado do tempo e do espaço não-formal de uma formação em busca da acessibilidade | Ariana Cosme, Raquel rodrigues Monteiro, Vânia Cosme
696
Semana de estudos e práticas pedagógicas - SEPP . Encontro de saberes na Faculdade de Ciências Agronômicas - FCA – UNESP de Botucatu | Eliana Curvelo, José Matheus Yalenti Perosa, Márcio Campos, Renata Cristina Batista Fonseca
706
Espaço e tempo no contexto do trabalho da educação infantil | Laís Leni Oliveira Lima, Vânia Ramos Rodrigues, Thaisa Oliveira Lima
716
Ateliê de formação continuada e em serviço de professores: A experiência e sua relação com
o trabalho | Mary Rangel, Jane do Carmo Machado 724
Formacão e cotidiano docente: Diálogos e intervenções no processo de ensino e aprendizagem da criança com paralisia cerebral | Paloma Roberta Euzébio Rodrigues, Solange Maria Mol, Marco Antonio Melo Franco
732
Educação social, espaços não-escolares e formação de professores: Sentidos, fronteiras e apontamentos | Andrezza Maria Batista do Nascimento Tavares, Márcio Adriano Azevedo, Pauleany Simões Morais, Tarcimária Rocha Lula Gomes Silva
741
(Trans)formação de saberes dos educadores/professores principiantes em contexto de trabalho: Das competências adquiridas às competências exigidas | Cândida Mota Teixeira, Elisabete Ferreira
751
Comunidades de aprendizagem, emancipação profissional e mudança educativa | Isabel Sandra Fernandes, Flávia Vieira
757
A ressignificação da vida por meio da educação de jovens e adultos | Ana Ramos, Carlos Alberto Belchior, Felipe Moretti, Gabriela Campelo, Lucas Magno Ramos, Mariana Amaral
765
Educação não-formal e informal nos anos iniciais de trabalho do professor: Desafios e
perspectivas | Joana Paulin Romanowski, Daniel Soczek 773
Estudantes de Animação Sociocultural: Percursos traçados entre a formação e o mundo do trabalho | Carla Cibele Figueiredo, Sandra Cordeiro
782
Aprendizagem e desenvolvimento do professor em contexto de trabalho: O caso de “Ana” na sua narrativa de vida profissional | Conceição Leal Costa, Constança Biscaia
791
Trabalho e prática de ensino na educação infantil: Contexto educativo de aprendizagem | Laís Leni Oliveira Lima
803
Volições num processo de formação contínua em educação de infância | Manuel Neiva, Amélia Lopes, Fátima Pereira
811
Aprendizagem profissional: Um processo educativo na intersecção de contextos de aprendizagem formais, não-formais e informais | Mariana Gaio Alves
819
O educado social, identidade e reptos na aprendizagem da profissão | Esperança Jales Ribeiro 827
A formação em contexto de trabalho: Qual é a realidade atual para os enfermeiros? | Ana Macedo, Rafaela Rosário
Jacqueline Taveira Lopes, Camila perin Ribeiro, Rudinei da Silva Soares, Joceli de Fátima Arruda Sousa
684
A supervisão como parte fundamental da formação continuada do educador social: Uma reflexão necessária | Gerson Heidrich Silva, Teresa Cristina Rego
841
Como se formam os educadores de adultos envolvidos em processos de reconhecimento de competências? Análise do caso dos profissionais de RVC | Catarina Paulos
848
Universidade e aprendizagem ao longo da vida: Efeitos da licenciatura em indivíduos com
prévia experiência profissional” | Cláudia Sousa 856
O jogo do informal e do não-formal nos processos de RVCC: Um olhar sociológico | Daniela Vilaverde e Silva
865
Construção de uma Cidadania Intercultural | Márcia Montenegro 873
A gestão de Paulo Freire frente à secretaria municipal de educação de São Paulo (1989– 1991): Para além da educação formal | Dalva de Souza Franco
880
Programa escola de gestores da Paraíba: Contribuições para a aprendizagem ao longo da vida de gestores de escolas públicas e para a ascensão da gestão democrática escolar | Alba Lúcia Nunes Gomes Costa, Helen Haline Rodrigues Lucena
888
As decisões na escola pública portuguesa: A organização projetada e a organização vivida | Maria João Carvalho
896
Saberes da produção associada: Implicações e possibilidades | Edson Caetano, Camila Emanuella Pereira Neves
902
Autogestão: Possibilidades e limites no contexto da economia solidária no Brasil | Marco Antonio Barbosa
911
O não-formal e informal nos processos educacionais engendrados pela lógica liberal: Apreciação da formação policial a partir do modelo foucaultiano | Antonio Alberto Brunetta
919
Formadores dos processos de RVCC, do ingresso na Iniciativa Novas Oportunidades às expectativas no futuro | Ana Filipa Ribeiro Barros
928
Potencial formativo dos contextos de trabalho numa grande empresa do setor automóvel | Sandra Pratas Rodrigues
936
Génese e caracterização dos dispositivos concebidos para o reconhecimento e validação das aprendizagens não-formais e informais, a nível europeu e mundia | Alexandra Aníbal
945
Dinâmicas da educação e formação em contexto organizacional: A perspetiva dos empregadores | Antónia Távora, Henrique Vaz, Joaquim Luís Coimbra
957
Reconhecimento, validação e certificação de adquiridos experienciais no Alentejo: Resultados e impactos do processo realizado entre 2000 e 2005 | Bravo Nico, Lurdes Pratas Nico, Fátima Ferreira, Antónia Tobias
965
Jovens e adultos: Experiência e saberes adquiridos no e pelo trabalho | Adriana Almeida 978
As condições de produção da narrativa autobiográfica nos processos de reconhecimento, validação e certificação de competências | António Calha
987
Tornando-se gente mais gente: A prática do educador social como agente do empoderamento dos educandos | Naiane Andréia Rodrigues Pisoni, Ana Lúcia Souza Freitas
995
Enfermeiros e seus processos de formação/educação para a saúde juvenil: Estudo exploratório realizado nas unidades familiares de saúde da região da grande Lisboa | Maria Rosa dos Santos Pereira Silvestre
1000
Ser professor aprende-se: O conhecimento pedagógico dos professores em contexto de reformas profissionais | Alan Stoleroff, Patrícia Santos, Daniel Alves
1009
Conceções e reflexões sobre o (in)sucesso escolar: O formal e o informal nos discursos de professoras | Romina Reis, Ariana Cosme
1019
Formação não-formal e informal de professores do ensino fundamental em ilhas e regiões ribeirinhas do Rio Amazonas, no Brasil | Ivo José Both
A socioeducação no contexto pedagógico
685
Culturas, Turismo e Lazer
Cultura e diversidade de públicos: Panóias. Um estudo de caso | Rute Teixeira, Isabel Vaz de Freitas, Orlando Sousa
1036
Hegemonias e contra-hegemonia simbólicas na educação para a viagem: Uma análise da interpretação patrimonial à luz da não-formalidade e informalidade educativas | Jorge Freitas
1048
Os pontos de cultura como espaços de educação não-formal | Jorge Roberto Ribeiro Braga Junior
1055
O turismo cultural como propulsor da educação não-formal no meio rural paulista | Lívia Morais Garcia Lima
1064
A educação para o turismo de voluntariado: Reflexões a partir do caso de Natal no Rio Grande do Norte, Brasil | Maria Goretti Alves
1072
Formação informal pelo cinema: Diálogo com os mundos possíveis e/ou diálogos possíveis com o mundo | Rogério Almeida, Louis J. P. Oliveira, Cesar A. Zamberlan
1080
A formação da universidade popular invisível: A irracionalidade da censura em questão | Fábio Zanoni
1088
De mãe para filho: O papel da pessoa adulta na transmissão de crenças, valores e identidade na comunidade quilombola do Abacatal | Brena Camila Lobato Pontes
1096
Futebol, emoção, sociabilidade juvenil: Experiências, aprendizagens e transmissão de saberes no contexto das torcidas organizadas no Rio de Janeiro | Rosana da CâmaraTeixeira
1107
Lazer e participação cívica e política de jovens do estado do Acre/Brasil | Lucicleia Queiroz, Isabel Menezes
1114
Prática cultural e educação não-formal: A experiência da roda de samba em um projeto de
extensão universitária | Eduardo Conegundes Souza 1121
Associativismo e Dinâmicas Educativas Locais
Escotismo: Educação não-formal por tradição | Charlon Silles de Souza Gomes 1130
Associações culturais e recreativas: Dimensões educativas e processos de formação | Teresa Medina, João Caramelo, Carla Cardoso
1141
Escutismo: Desenvolvimento pessoal através do jogo | P. Duarte Silva, C.A. Simões 1150
Associativismos e educação Inter geracional | Gilberto Geribola Moreno 1161
Educação não formal, associativismo e dinâmicas educativas locais: Exemplos de dialética na área metropolitana de Lisboa | Célia Martins
1168
As associações como lugar de educação não-formal: Um estudo exploratório | Élia de Sousa Alves
1176
A educação não formal e o desenvolvimento local | Ana Cristina Gonçalves Figueiredo 1185
Composições pedagógicas: Introdução ao repertório tradicional de banda sinfônica | Rafael Alexandre Silva, Fernando Emboaba Camargo, Silvia Maria Pires Cabrera Berg
1192
Linguagens que (re)tratam o associativismo imigrante no grande Porto: Lugares e percursos educativo | Aline de Lemos Ribeiro
1200
Teatro, educação e cultura: Vivências lúdico-formativas experienciadas em contexto não-formal | Maria José dos Santos Cunha
1208
Adultos, Idosos e Educação
Jacqueline Taveira Lopes, Camila perin Ribeiro, Rudinei da Silva Soares, Joceli de Fátima Arruda Sousa
686
“Não é um adeus, é um até logo!”: Centralidades da cultura na qualidade de vida de idosos com demência | Sónia Mairos Ferreira, Vera Lopes
1225
O discurso da legislação brasileira sobre a educação de jovens e adultos no Brasil e suas produções de sentido | Andrea Silva Domingues, Marilda de Castro Laraia
1239
Ler com Arte. Mudando o mundo com as palavras | Nair Azevedo, Ana Bruno 1247
Programa Novo Tempo e preparação para a aposentadoria (reforma): Uma prática de educação não-formal no Brasil | Thelma Rabelo Pereira
1254
A educação e a aprendizagem ao longo da vida pelos adultos idosos através das TIC: Reflexões e propostas de implementação | Henrique Gil
1263
A intervenção dos futuros animadores socioculturais com o cidadão idoso: Contributos para uma reflexão | Ana Teodoro, Ana Simões, Ana Gama
1272
(In)formação ao longo da vida na sociedade atual: Avós e netos | Sónia Morgado, Anabela Vitorino
FORMAÇÃO E APRENDIZAGENS EM
CONTEXTO DE TRABALHO
Formação e Aprendizagens em Contexto de Trabalho | ISBN: 978-989-8525-27-7
A socioeducação no contexto pedagógico
Jacqueline Taveira Lopes
Núcleo de Estudos e Defesa dos Direitos da Infância e da Juventude/NEDDIJ [email protected]
Camila perin Ribeiro
Núcleo de Estudos e Defesa dos Direitos da Infância e da Juventude/NEDDIJ [email protected]
Rudinei da Silva Soares
Núcleo de Estudos e Defesa dos Direitos da Infância e da Juventude/NEDDIJ [email protected]
Joceli de Fátima Arruda Sousa
Universidade Estadual do Oeste do Paraná-UNIOESTE [email protected]
Trata-se de um estudo bibliográfico referente à presença do pedagogo nos ambientes de socioeducação da cidade de Foz do Iguaçu – Paraná (Brasil). Para tanto, foram utilizadas as legislações de proteção à criança e ao adolescente com enfoque nos aspectos pedagógicos presentes nas leis brasileiras. Aborda-se também o histórico dos atendimentos voltados para esta população visando demonstrar o caráter assistencialista de cunho punitivo que os primeiros atendimentos possuíam. Assim como, apresenta-se a atual legislação para a infância e a juventude (Estatuto da Criança e do Adolescente) e o caráter pedagógico das medidas socioeducativas ali apresentadas. Percebe-se que, nos ambientes de socioeducação, em especial os de Foz do Iguaçu, a presença do pedagogo é restrita ao ambiente de internação, pois pelo que parece não há verdadeiramente práticas educativas de cunho pedagógico. Embora tenham ocorrido mudanças nas leis de proteção à criança e ao adolescente com propostas de cunho socioeducativo em substituição daquelas de cunho punitivo, vê-se que em muitos ambientes de socioeducação ainda há a prevalência de práticas punitiva.
Palavras-chave: socioeducação, pedagogia, legislação.
Introdução
A sociedade moderna capitalista, com suas constantes necessidades de acumulação e reserva de capital sugere à população em geral adotar padrões de consumo e, desvalorização do ser em detrimento da valorização do ter. A desigualdade da concentração de renda sugere a constante busca de suprimir necessidades humanas sejam elas, biológicas, históricas ou sociais. Isto decorre desde a Revolução Industrial, com a intensificação dos modos de produção e consequentemente das forças de trabalho. Muitas mudanças têm ocorrido em nossa sociedade após este advento da história humana. Veem-se em particular os movimentos em defesa dos direitos fundamentais, movimentos feministas, expressões de liberdade e etc. Neste contexto, as mulheres ganharam um lugar expressivo na sociedade, consequentemente,
A socioeducação no contexto pedagógico
689 viu-se o crescente número delas envolvidas no processo de trabalho, as quais deixaram as suas
casas e filhos em busca de garantir meios de subsistência.
Ao longo do tempo, a estrutura familiar modificou-se. Cada vez mais as mulheres passaram a assumir o papel de chefes de família devido, muitas vezes pela ausência de seus maridos e pais de seus filhos. Sendo assim, as mulheres viram-se obrigadas a inserir-se no mundo do trabalho, responsabilizando-se pela renda familiar. Em decorrência disso, muitas crianças e adolescentes cresceram e ainda crescem neste novo contexto familiar e social, desassistidos tanto socialmente quanto afetivamente.
Além da desestrutura familiar, outro aspecto importante a ser destacado é o contexto social que muitas dessas crianças e adolescentes encontram-se. Seduzidos por bens de consumo, alguns deles, sem ter acesso a estes objetos, podem tornar-se vulneráveis à criminalidade, envolvendo-se com atos infracionais. Por consequência disso, e envolvidos neste contexto de consumismo, muitos adolescentes não veem a escola como um espaço que lhes propiciará meios de alcançar os seus desejos de consumo. Assim, muitos adolescentes vítimas das mazelas sociais, e, vislumbrados com o poder que o mundo da criminalidade oferece, podem, facilmente envolver-se com atos infracionais.
O crescente número de atos infracionais cometidos por e contra adolescentes demonstram o quanto a população juvenil encontra-se em estado de vulnerabilidade social. Fato é também, que embora haja o aumento da população juvenil envolvida com atos infracionais, poucas são as políticas sociais que garantem sua proteção integral, embora estejam assistidas por aparatos legais.
Grande parte dessa situação é explicada pela construção histórica da proteção à infância e juventude, frequentemente voltadas para repressão e punição e não para práticas de intervenções.
O histórico do atendimento à infância e à adolescência no Brasil
Para a compreensão do atendimento voltado à população infanto-juvenil, faz-se necessário abordar o contexto histórico em que se desenvolveram as legislações de proteção e atendimentos voltados para estas.
Os primeiros atendimentos voltados à criança no Brasil são datados na época imperial, os quais apresentavam caráter caritativo fundamentado na fé e na salvação das almas. Esses atendimentos eram realizados pela Igreja Católica1, por meio da Irmandade Santa Casa de Misericórdia. Suas ações visavam oferecer abrigo às crianças abandonadas ou rejeitadas, oferecendo assim um modo de salvação de suas almas por meio do batismo, porém, logo que completassem sete anos teriam de deixar o abrigo, consequentemente, muitos acabavam em condição de abandono e risco. Essa situação perdurou por séculos.
Após a Proclamação da Independência, mudou-se o caráter dos atendimentos voltados à infância. Neste momento, com os ideais advindos da Europa baseados nas propostas de higienização, e com o aumento da população urbana, vê-se a necessidade da criação de abrigos para criança órfãs e/ou abandonadas que perambulavam pelas ruas. Nesta época houve a promulgação do Código Criminal do Império de 1830. Segundo Alves (2000):
Era a época da promulgação do Código Criminal de 1830, cuja filosofia orbitava em torno do “recolhimento de creanças e orfhãs” e que, posteriormente, eram encaminhadas a algum trabalho precoce e explorado numa tentativa de fazerem-na ressarcir os gastos do Estado
Jacqueline Taveira Lopes, Camila perin Ribeiro, Rudinei da Silva Soares, Joceli de Fátima Arruda Sousa
690 com sua criação. Além disso, estipulava a idade penal em 14 anos e a sua segregação dos
presos adultos, o que representava um avanço, já que até então recolhiam-se crianças de idade ainda mais tenra às prisões comuns (p.6).
Ao que nos parece, de acordo com registros históricos, crianças abandonadas e delinquentes apresentam-se de forma igual na sociedade, dividindo os mesmos ambientes, tal como discorre Alves (2000):
Embora o Código de 1830 já previsse a separação entre jovens delinqüentes e adultos nas prisões, isto não era observado por não haverem instituições com essa finalidade, misturando-se ali presos adultos, crianças delinqüentes, e também aquelas que eram simplesmente abandonadas (p.8).
Assim, viu-se a necessidade de ‘limpar’ a sociedade contra os menores, desassistidos, abandonados e delinquentes. Percebe-se que ao longo da história dos atendimentos à criança e ao adolescente no Brasil os aspectos carcerários e punitivos sempre estiveram presentes. As diversas entidades de atendimento voltadas a esta população, e até mesmo nas legislações anteriores à Constituição de 1988, pôde-se observar este caráter coercitivo e opressor pautados em concepções correcionais.
A primeira legislação exclusivamente “menorista” que vigorou no Brasil, ou seja, o Código de Menores de autoria de José Cândido de Mello Mattos foi regulamentado pelo Decreto 17.943-A de 12 de outubro de 1927. Conforme aponta Hiuri Milhomem Cassimiro (2011), pode-se perceber que o referido Código introduziu no Brasil algumas novidades concernentes aos “menores2”, dentre elas: o estabelecimento de um juízo competente unicamente para julgar questões envolvendo menores; a elevação da idade da irresponsabilidade penal do menor para os 14 anos; deu nova estrutura aos estabelecimentos de internatos dos juizados de menores; previu a internação em uma instituição apropriada, sendo que poderiam ficar internados por um interregno de três a sete anos quando fossem adolescentes que se encontravam em situação de risco.
Posteriormente, a edição do segundo Código de Menores (O Código de Menores de 1979 – Lei 6.697, de 10 de outubro de 1979) trouxe o estabelecimento de um novo termo, “menor em situação irregular”. Este Código fazia referência ao menor de 18 anos de idade que se encontrava abandonado materialmente, vítima de maus tratos, em perigo moral, desassistido juridicamente, com desvio de conduta e ainda autor de infração penal, conforme se depreende do seu artigo 2º, inciso VI.
Ademais, o artigo 41, § 3º, do referido Código, dispunha que se o menor, ao completar 21 anos, ainda necessitasse da medida, a jurisdição sobre o caso passaria para o juízo das execuções penais. Assim, quando se tratava de menor de idade, a aplicação de punição não estava condicionada a prazo fixo, podendo ficar recluso indefinidamente, semelhante a uma prisão perpétua.
Comentando as duas primeiras legislações pertinentes aos infantes no Brasil, Patrícia Marques Cavalcante (2008) salienta que:
O Código de Menores, promulgado em 1927, surgiu pela necessidade de uma lei específica para a infância e juventude. O tempo que vigorou a legislação foi marcado por arbitrariedades, violência, humilhações, vividas pelas crianças e adolescentes em
A socioeducação no contexto pedagógico
691 reformatórios e, mais tarde, após o golpe militar, nas tão conhecidas Fundações Estaduais de
Bem-Estar do Menor (FEBEMs) (p.13). Ainda sobre o tema:
No ano de 1979, surge um novo Código de Menores, fundamentado na Doutrina da Situação Irregular, que veio corroborar a violência aos direitos da infância e juventude. A legislação preconizava a divisão de tratamento aos menores, discriminando a criança e adolescente abandonado ou infrator, como sendo culpados por sua situação, denominando-se uma fase de “criminalização” da pobreza (Cavalcante, 2008, p.8).
É em um contexto de lutas pela redemocratização do País (que vivia as mazelas do regime militar autoritário instaurado no ano de 1964), que surgiram vários movimentos sociais que lutavam pela mudança de concepções até então existente frente ao trato das questões envolvendo as crianças e os adolescentes. Assim:
O papel desempenhado pelos movimentos sociais organizados no Brasil, a partir de meados da década de 1970, foi essencial no sentido da luta pela redemocratização do país, que vivia os efeitos do Regime autocrático-burguês instalado a partir de 1964. Um dos setores da sociedade que emergiu naquele contexto, se fazendo ouvir por intermédio de contundentes denúncias e de um sem número de propostas, foi o da militância em prol de crianças e adolescentes. Reivindicava, principalmente, o status de sujeitos de direitos e, consequentemente, mudanças na concepção do atendimento a eles dirigido (Francischini e Campos, 2005, p. 267).
Como resultado da luta desses movimentos sociais, houve o enfraquecimento do regime militar e, consequentemente, o fortalecimento do ideal de redemocratização do país. Foi neste contexto que em 07 de outubro de 1988 foi promulgada a Constituição Federal. Constituição esta que amparou em seu texto, várias das reivindicações levantadas pelos movimentos sociais, inclusive, aquele que sentia a necessidade conferir às crianças e aos adolescentes maior proteção, rompendo, assim, com a Doutrina da Situação Irregular.
O rompimento com a supracitada Doutrina foi, sem dúvidas, um avanço legislativo considerável, porquanto, com a promulgação da Constituição Federal de 1988 – CF/88 e, posteriormente, o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, o Brasil se alinhou com as diretrizes internacionais e, por que não, foi além do que internacionalmente era concebido. Desse modo, Silva e Cury (2010) salientam que:
Ao romper definitivamente com a doutrina da situação irregular, até então admitida pelo Código de Menores (Lei 6.697, de 10.10.79), e estabelecer como diretriz básica e única no atendimento de crianças e adolescentes a doutrina de proteção integral, o legislador pátrio agiu de forma coerente com o texto constitucional de 1988 e documentos internacionais aprovados com amplo consenso da comunidade das nações (p.17, grifos do autor).
O Estatuto da Criança e do Adolescente apresenta avanços quanto à proteção integral da criança e do adolescente, assim como apresenta procedimentos referente ao amparo, proteção e garantias de direitos constitucionais.
Um ponto de grande relevância para o atual Estatuto é a adoção do critério cronológico objetivo para a distinção entre criança e adolescente. Conforme disciplina o artigo 2º da Lei 8.069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA), é considerada criança a pessoa até doze anos de idade incompletos e é considerada adolescente aquela entre
Jacqueline Taveira Lopes, Camila perin Ribeiro, Rudinei da Silva Soares, Joceli de Fátima Arruda Sousa
692 doze e dezoito anos de idade. Ainda,estabelece que a criança e o adolescente são sujeitos em
condição peculiar de desenvolvimento, sendo assim, são penalmente inimputáveis, pois não respondem completamente por seus atos.
Conforme preconiza o artigo 105 do ECA, aos atos infracionais praticados por criança serão aplicadas medidas protetivas dispostas no artigo 101 e, os adolescentes cumprirão medidas socioeducativas que são enumeradas no artigo 112 do referido Estatuto.
A distinção entre “criança” e “adolescente”, como etapas distintas da vida humana, tem importância no Estatuto. Em geral, ambos gozam dos mesmos direitos fundamentais, reconhecendo-se sua condição especial de pessoas em desenvolvimento, o que pode ser percebido principalmente no decorrer do Livro I. O tratamento de suas situações difere, como é lógico, quando incorrem em atos de conduta descritos como delitos ou contravenções pela lei penal (Solari, 2010, p.21).
Portanto, são suscetíveis de aplicação de medidas socioeducativas somente os adolescentes. Conforme mencionado acima, é o artigo 112 do ECA que elenca quais medidas socioeducativas poderão ser aplicadas aos adolescentes que cometerem algum ato infracional, sendo elas: advertência; obrigação de reparar o dano; prestação de serviços à comunidade; liberdade assistida; inserção em regime de semiliberdade; internação em estabelecimento educacional; qualquer uma das previstas no art. 101, I a VI.
As medidas socioeducativas tal qual apresentadas no Estatuto, propõe-se a busca de ressocialização e não de sansão penal. Assim, verifica-se que o Estatuto, com seus limites, ainda apresenta um grande avanço na legislação, especialmente no que concerne à punição, pois diferentemente do Código de Menores, apresenta uma proposta pedagógica e não meramente procedimentos carcerários.
Atualmente o adolescente que cometer ato infracional poderá cumprir medidas socioeducativas como forma de ressocialização. Considerando o adolescente como ser inconcluso e em desenvolvimento, o Estatuto prevê que “a medida aplicada ao adolescente levará em conta a sua capacidade de cumpri-la, as circunstâncias e a gravidade da infração” (Lei n. 8.069, 1990, p. 57).
Na perspectiva de proteção integral à criança e ao adolescente, apresenta-se a Socioeducação como forma de ressocialização dos adolescentes que cometem atos infracionais. A palavra “Socioeducação” traduz a ideia de educação social, fundamentada na filosofia de resgate social.
É neste aspecto que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) apresenta medidas socioeducativas com bases pedagógicas.
Qualquer tipo de educação é, por natureza, eminentemente social. O conceito de Socioeducação ou educação social, no entanto, destaca e privilegia o aprendizado para o convívio social e para o exercício da cidadania. Trata-se de uma proposta que implica em uma nova forma do indivíduo se relacionar consigo e com o mundo (Cadernos do IASP, 2007, p.19).
Ainda sobre medidas socioeducativas, a Lei nº12.594 de 18 de janeiro de 2012 Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE) que regulamenta a execução das medidas socioeducativas prevê por objetivos:
I- a responsabilização do adolescente quanto às consequência lesivas do ato infracional, sempre que possível incentivando a sua reparação;
A socioeducação no contexto pedagógico
693 II- a integração social do adolescente e a garantia de seus direitos individuais e sociais,
por meio de cumprimento de seu plano individual de atendimento; e
III- a desaprovação da conduta infracional, efetivando as disposições da sentença como parâmetro máximo de privação de liberdade ou restrição de direitos, observando os limites previstos em lei (Sinase, 2012, p.137).
Os objetivos elencados acima refletem a ideia de educação/formação e intervenção de possíveis atos delinquentes. O SINASE apresenta também, a obrigatoriedade dos Planos de Atendimento Socioeducativo (Capt.II), no Art. 8º lemos:
Os Planos de Atendimento Socioeducativo deverão, obrigatoriamente, prever ações articuladas nas áreas de educação, saúde, assistência social, cultura, capacitação para o trabalho e esporte, para os adolescentes atendidos, em conformidade com os princípios elencados na Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente) (Sinase, 2012, p.141).
E, naResolução nº113, de 19 de abril de 2006 elaborada pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, sobre os Programas de Execução de Medidas Socioeducativas § 2º dispõe (p.208): “I – prevalência do conteúdo educativo sobre os sancionatórios e meramente de contenção, no atendimento socioeducativo”.
Enfim, lemos que, no Estatuto da Criança e do Adolescente e em outros instrumentos normativos de proteção integral da criança e do adolescente verificamos em seus textos que de fato existe a prevalência dos aspectos educativos. Por outro lado, verifica-se ausência de políticas públicas que assegurem essa prática.
A prática do sistema de proteção integral da criança e do adolescente – O caso de Foz do Iguaçu
Como abordado anteriormente, de fato existe teoricamente a prevalência dos aspectos pedagógicos sobre os aspectos punitivos nas medidas socioeducativas. No entanto, isto não significa que na prática essa proposta pedagógica efetiva-se.
Tomando como estudo de caso os locais de cumprimento de medidas socioeducativas na cidade de Foz do Iguaçu, observa-se a falta de especialista da educação (pedagogo) em alguns destes ambientes. Sendo assim cabe questionar, como pode haver processos pedagógicos sem o profissional da educação?
A cidade de Foz do Iguaçu está situada no extremo oeste do estado do Paraná-Brasil, fazendo fronteira com os países: Paraguai e Argentina. Nesse contexto fronteiriço, a cidade destaca-se pelo alto índice de violência contra adolescentes e o envolvimento destes com o crime, especialmente com o tráfico de drogas.
Grande parte destes adolescentes envolvidos com atos infracionais acabam por cumprir medidas socioeducativas, tanto em meio aberto (liberdade assistida, prestação de serviço à comunidade, advertência e obrigação de reparar o dano) quanto em meio fechado (inserção em regime de semiliberdade e internação em estabelecimento educacional). Os locais de cumprimento em regime fechado da referida cidade são: o Centro de Socioeducação (CENSE-FI) para internação e Casa de Semiliberdade, ambas administradas pelo governo estadual.
O Cense-FI é composto por equipes multidisciplinares: assistentes sociais, terapeuta ocupacional, psicóloga, pedagogas, educadores (equivalentes à função de agentes
Jacqueline Taveira Lopes, Camila perin Ribeiro, Rudinei da Silva Soares, Joceli de Fátima Arruda Sousa
694 penitenciários), professores, técnicos administrativos e outros. Dentre este quadro profissional
destaca-se a presença das pedagogas assim como de professores. Estes profissionais encontram-se inseridos neste contexto devido ao fato de que no sistema de internação há um programa de escolarização para os adolescentes que ali se encontram, pois, enquanto estiverem cumprindo medida socioeducativa devem frequentar as aulas que o estabelecimento oferta.
Embora haja a presença das pedagogas no ambiente de internação, observa-se que estas exercem funções meramente administrativas e não de promoção de ações de cunho pedagógico. Suas ações restringem-se à coordenação pedagógica junto aos professores no exercício das atividades escolares, obedecendo ao sistema regular de ensino do Estado.
Vinculado ao Cense-FI está a Casa de Semiliberdade, tal como descrito pelo Instituto de Ação Social do Paraná [IASP] (2006):
O espaço físico destinado ao programa é caracterizado como uma moradia e deve reproduzir o modelo de uma residência. Sua concepção visa proporcionar um ambiente socioeducacional que permita, ao educando, desenvolver um novo código de convivência, mas que também lhe ofereça garantias quanto a sua segurança pessoal, com limites espaciais definidos que lhe garantam proteção (p.35).
Diferentemente do quadro profissional do Cense-FI, a Casa de Semiliberdade não contempla a presença de vários profissionais, dentre eles, o pedagogo. Talvez isso se dê, devido ao reduzido número de adolescentes cumpridores de medida de semiliberdade comparado ao de sistema de internação, assim como, devido a este regime não apresentar a necessidade de uma educação regular visto que os adolescentes podem sair para frequentar a escola.
As medidas em regime aberto que são administradas pelo poder público são: prestação de serviço à comunidade e liberdade assistida. No caso de Foz do Iguaçu, ambas são regidas pelo Serviço Auxiliar à Infância e à Juventude (SAIJ) financiado pelo município. O quadro funcional desta entidade é formado por assistentes sociais e psicólogos, evidenciando assim, mais uma vez, a ausência de propostas pedagógicas por meio do profissional da educação para as medidas socioeducativas.
O profissional da educação, ou seja, o pedagogo ainda está passando por um processo de reconhecimento de sua atuação para além do espaço escolar. Isto é, quando se pensa em educação, muitas vezes pensa-se que ela acontece apenas nos ambientes regulares de ensino, ou seja, a escola. Porém, outros espaços contemplam a possibilidade de práticas pedagógicas que podem ser melhores articuladas pelo profissional da educação.
Mesmo nos cursos de graduação de Pedagogia, as universidades não comtemplam a socioeducação na matriz curricular do curso. Este é um fator que evidencia o quanto a temática referente à socioeducação de adolescentes em conflito com a lei não está presente nas discussões entre os acadêmicos de Pedagogia. Além disso, o próprio ECA dificilmente é inserido na grade curricular do mesmo curso. Dessa forma, os pedagogos recém-formados, em sua maioria, não possuem o domínio desta temática e, muitos deles, desconhecem o papel que podem desempenhar nestes ambientes.
Para que o profissional da educação seja inserido neste contexto, faz-se necessário que haja uma conscientização das equipes técnicas envolvidas nos programas de socioeducação referente à importância de práticas pedagógicas desenvolvidas pelo pedagogo, visto que, a pedagogia é a ciência da educação, portanto, o processo educativo deveria ser articulado por um profissional desta área.
A socioeducação no contexto pedagógico
695 Referências bibliográficas
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Formação e Aprendizagens em Contexto de Trabalho | ISBN: 978-989-8525-27-7
O lado do tempo e do espaço não-formal de uma formação em
busca da acessibilidade
Ariana Cosme
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, Porto, Portugal [email protected]
Raquel Rodrigues Monteiro
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, Porto, Portugal [email protected]
Vânia Cosme
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, Porto, Portugal [email protected]
A presente comunicação, pretende apresentar o projeto “A Cidadania Universal: As Acessibilidades” que teve a sua origem no estabelecimento de um protocolo entre a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto e a empresa ProAsolutions.pt. Durante cerca de 18 meses, foram desenvolvidos e trabalhados através da formação contínua de professores e da criação e aplicação prática de um Curso de Formação acreditado pelo Conselho Científico-Pedagógico de Formação Contínua os aspetos e pilares de uma sociedade que conhecemos por democrática e inclusiva, ou seja, conceitos como Cidadania, Cidadania Universal, Acessibilidade, Mobilidade e Diversidade apresentaram-se como o núcleo conceptual e teórico do programa de formação elaborado.
O contato direto com 16 municípios do norte ao sul de Portugal e com 705 professores/formandos, fizeram jus ao universo académico das Ciências da Educação, bem como às dinâmicas de trabalho inerentes ao “habitus” daquela que é a formação contínua de professores em Portugal. Tendo sido em simultâneo trabalhado e aprofundando, por intermédio, precisamente, da formação contínua de professores, a rede de relações conceptuais existentes entre a Cidadania, a Educação e a Acessibilidade.
Desta forma, a presente comunicação pretende anunciar e explicitar a problemática, os objetivos, as metodologias de trabalho e os resultados alcançados por uma equipa de investigação, que encontrando-se integrada no Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE) da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, foi capaz de unir a investigação à formação, sustentando-se sempre no universo académico e profissional das que hoje são as especificidades e necessidades da formação contínua de professores e daquele que se pode apresentar como “um currículo” mais acessível a toda uma comunidade educativa. Ao mesmo tempo, que objetiva enfatizar a importância da essência das aprendizagens e dos tempos não-formais e informais, quer do processo de formação desenvolvido, como igualmente do quotidiano profissional dos professores envolvidos no projeto, cujo tempo e espaço fora do cumprir de um currículo e de um programa, possibilitaram trabalhos inspiradores no que concerne à Acessibilidade, e acima de tudo a confirmação de uma consciência crítica de quem já reclama a igualdade e acessibilidade de todos e para todos nas suas escolas e agrupamentos diariamente e que vai além do espaço formal que a sua profissão requer e demanda.
O lado do tempo e do espaço não-formal
697 Introdução
A ideia génese da construção e do desenvolvimento do Projeto “A Cidadania Universal: As Acessibilidades”, assenta na necessidade e no dever de se ler e interpretar a diversidade e a diferença, enquanto idiossincrasias da vida social e democrática das sociedades que hoje conhecemos. Este mesmo projeto foi acolhido pelo Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE) da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, numa parceria com a empresa de arquitetura, gestão de acessibilidade e mobilidade, ProAsolutions.pt. Tendo sido dinamizado por uma equipa coordenada cientificamente pelos Professores Doutores Ariana Cosme e Rui Trindade e que integrou três bolseiras de investigação. Sendo que, o trabalhar as Acessibilidades, a partir do vínculo que se estabelece entre a Educação e a Cidadania, impregnou neste projeto a possibilidade de trabalhar de acordo com um elemento inovador de perscrutação do que é necessário e essencial para o bem-estar não de alguns/algumas, mas de todo e qualquer cidadão/cidadã, seja ele/ela detentor (a), ou não, de todas as suas capacidades físicas, sociais e cognitivas.
O enfoque deste projeto em parceria com os municípios partiu da vontade local de quem labora em prol do apoio e da melhoria das condições de vida das suas populações, desenvolvendo, nas próprias comunidades locais, o princípio da construção da acessibilidade para todos. O programa formativo inerente a este projeto realizado em parceria com os diferentes municípios, pretendeu conhecer a realidade local e, através deste conhecimento, perceber o que se pode transmitir para que cada comunidade educativa aprenda a reconhecer as incapacidades físicas não como um obstáculo, mas sim como um modo real de vida que não tem de ser diferenciado pelos olhos da diferença, mas aproximado à verdade de uma igualdade real de vida para todos/todas.
Segundo e seguindo esta vertente de operacionalização conceptual, a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto desenhou este projeto de formação, em articulação com a empresa ProAsolutions.pt, e no âmbito do programa RAMPA – Regime de Apoio aos Municípios para a Acessibilidade, que é correspondente à segunda geração de planos de promoção de acessibilidade apoiados pelo POPH, no âmbito da tipologia de intervenção 6.5 – Ações de Investigação, Sensibilização e Promoção de Boas Práticas no campo da ação da Deficiência.
Ao terem sido pensados como aliados, a Educação e a Cidadania, infletiram neste projeto as dinâmicas de leitura e reflexão do social e do educativo, essenciais para o impacto real deste projeto de formação e de investigação. O trabalho, o diálogo e a colaboração com educadores/as de infância e professores/as, objetivam, em primeira e última instância o trabalho, o diálogo e a colaboração com toda a comunidade educativa, na qual alunos/as, auxiliares de educação, encarregados/as de educação e pais podem entrar em contacto com os conhecimentos, reflexões e trabalhos que são devolvidos por intermédio da mensagem formativa que este projeto pretende passar.
Apresentou-se, desta forma, como elemento imperativo, a consciência plena de que a Educação para a Cidadania se afirma como uma contínua meta e um contínuo desafio de e para toda e qualquer instituição educativa portuguesa, sustentando esta afirmação na verdade concetual que Sousa & Pintasilgo colocam em relevo ao enfatizarem precisamente que o trabalho em prol de uma Educação para a Cidadania tem sido dinamizado nas escolas todo um vasto conjunto de iniciativas, que vão da experimentação de práticas inovadoras no micro contexto da sala de aula, até ao desenvolvimento de projetos de parceria entre as escolas e as comunidades envolventes, passando pelas tentativas de criação, no âmbito das organizações
Ariana Cosme, Raquel Rodrigues Monteiro, Vânia Cosme
698 escolares, de um ambiente educativo potenciador de uma vivência democrática.” (Sousa &
Pintasilgo, 2005, p. 5-6).
Ao serem encaradas como pedras basilares, das dinâmicas de desenvolvimento e crescimento do projeto em causa, a Cidadania, a Democracia e a agência inovadora e empoderante das ações que podem ser levadas à cabo em contexto escolar e formativo, permitiram a constituição da relação mais próxima e diretiva entre conceitos e noções transversais a todas as etapas que corresponderam aos cerca de 24 meses de vida deste projeto de formação, sensibilização e investigação.
Em simultâneo com esta postura e perfil de ação em prol de uma cidadania ativa, universal e transversal a todos os momentos da vida em sociedade, este projeto, ao enraizar-se no elemento inovador da Acessibilidade de todos a todo, sem focagem exclusiva nos itens físicos e estéticos, olhou a formação contínua de professores e os tempos e espaços dessa formação, como uma oportunidade potenciadora da visão positiva e real daquele que também se entende por educação não-formal e que circunda o quotidiano de todo e qualquer profissional educativo.
Os tempos e os espaços, de tais possibilidades e potencialidades, colocaram no papel de formadoras o privilégio de um contato, que foi tanto ou mais formativo, para quem organizou e dinamizou o curso de formação, como para quem o frequentou. Assim, durante, quase dois anos, o conhecer e explorar as idiossincrasias das escolas, localidades e agrupamentos portugueses, só veio reforçar a ideia afirmada de que as instituições devem ser olhadas enquanto
espaços permanentes de educação, procurando, no seu trabalho, agir tendo em consideração aqueles que são reconhecidos como fatores fundamentais de uma participação educativa mais alargada: a vivência de um trabalho comunitário persistente; a criação de um ambiente de acolhimento e formação agradável e estimulante; a construção de dispositivos de reconhecimento e valorização dos diferentes percursos pessoais e profissionais; a existência de relações fortes com as diferentes instituições que marcam a vida local; a realização de um trabalho educativo ancorado num conhecimento profundo da realidade social. (Rothes, et al, 2006, p. 187).
O curso de formação e a metodologia de trabalho
As narrativas deste projeto encontram-se sempre conectadas com o que se entendeu por ser e fazer formação. Desta forma, visionou-se, desde o primeiro momento aa formação contínua de professores como uma valorização das práticas pedagógicas dos educadores e dos professores nos respetivos estabelecimentos de educação e de ensino e a garantia de condições de acesso a uma formação de qualidade, com especial destaque para modalidades formativas que possam dar o devido relevo a uma formação centrada na escola e nos projetos aí desenvolvidos” (Ministério da Educação, 1998, p. 1), valida e afirma os objetivos e as projeções de requalificação, validação e aquisição de saberes que se apresentam como formas reais do trabalho dos educadores/as e dos professores/as no seu quotidiano profissional, bem como no dia-a-dia da própria comunidade educativa e, assim, da própria Escola.
Concomitantemente, a formação contínua de professores e todo o trabalho que lhe é inerente, foi encarada, pela equipa de formação e investigação deste projeto, como sendo mais do que um veículo de informação ou transmissão de conhecimentos. Esta representou um motor impulsionador do indagar, do interpretar, do refletir, do partilhar e do questionar, tendo, de igual modo, representado, precisamente, os tempos e os espaços, que desde da introdução
O lado do tempo e do espaço não-formal
699 vimos a referir, que dentro da profissão docente, são, também eles, capazes de promover não
o peso de mais uma horário a cumprir, mas a soma positiva do reconhecimento de uma profissão que todos os dias tem o poder de transformar mentalidades e atitudes de alunos/as face a todas as representações que estes/estas detém de um “eu” e de um “nós” educativo e social.
Orientada por um sentido de polivalência tanto da profissão e ação docente, como do campo de trabalho da formação contínua, a equipa deste projeto equacionou “o reconhecimento da heterogeneidade dos alunos, entendida como um fator de gerir e de valorizar, mais do que um acontecimento negativo ou um facto a aceitar de forma condescendente e resignada” (Cosme, 2009, p. 7), o que por sua vez, tornou possível, que tanto a Educação como a Cidadania ocupassem um lugar central nas origens do programa formativo construído, isto, sem nunca negligenciar o estado de consciência, que nos deve ser sempre presente e que aponta, de forma reflexiva, para as exigências profissionais que educadores/as e professores/as possuem no seu dia-a-dia profissional, sendo estas cada vez mais e mais complexas, indica-nos, em particular, Ariana Cosme, que as transformações das sociedades e das escolas no mundo contemporâneo a isso obrigam quer porque os professores não poderão fugir a essa realidade profissional quer, ainda, porque o trabalho a realizar passa, eventualmente, a poder ser objeto de uma maior gratificação pessoal e social, decorrente quer dos novos sentidos que os próprios professores poderão atribuir ao trabalho que realizam quer do reconhecimento explícito, ou assumido, de forma diferida, por parte dos alunos face a esse trabalho e a esses resultados (Cosme, 2009, p. 7).
Ao ser pensada, em simultâneo, esta noção de complexidade da ação e da profissão docente (Formosinho et al, 2010, p. 77) perante a, também, cada vez maior complexidade do que se entende pelo social e desafios a ele inerentes, o próprio registo do pacote formativo elaborado não poderia ficar-se pelo vago e pelo redundante, ou seja, acreditamos que a “formação de professores deve associar-se a processos de mudança nos contextos de trabalho” (Formosinho et al, 2010, p. 74). Trabalhou-se, assim, seguindo a necessidade da incrementação de “uma nova perspectiva e uma nova filosofia para a formação contínua de professores que tenham sobretudo em conta a valorização dos docentes em estreita articulação com o trabalho que desenvolvem nas suas escolas” (Ministério da Educação, 1998, p. 31), uma vez que temos, como ponte essencial de ligação ao nosso trabalho enquanto formadoras, a verdade de que “o desenvolvimento de novas modalidades de formação contínua, nomeadamente projectos, círculos de estudos e oficinas de formação, assume particular relevância como instrumento estratégico na construção da qualidade educativa” (Ministério da Educação, 1998, p. 31).
Assim sendo, a colaboração direta entre a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto e a empresa ProAsolutions.pt, tornou o equacionar da Acessibilidade como conceito-agente que tem e deve ser refletido, colocado em prática, ao estar implicado no quotidiano de todo e qualquer cidadão (ã), mais precisamente neste caso no quotidiano de todos os elementos constituintes de uma comunidade educativa. Foi elaborado um programa dentro dos trâmites necessários para um Curso de Formação, aprovado pelo Conselho Científico Pedagógico da Formação Contínua, de modo, a que este mesmo curso, de 25 horas, fosse capaz de se reverter em 1 crédito na carreira docente dos/as profissionais que frequentassem as ações de formação dinamizadas.
O Curso de Formação intitulado de “Acessibilidade para a Diversidade e Mobilidade Humana no séc. XXI”, tal como foi agora mencionado teve a duração de 25 horas, e ao ter surgido de um protocolo entre a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto e a empresa ProAsolutions.pt, encontrou-se integrado no âmbito do
Ariana Cosme, Raquel Rodrigues Monteiro, Vânia Cosme
700 Programa RAMPA – Regime de Apoio aos Municípios para a Acessibilidade e que é
correspondente à segunda geração de planos de promoção de acessibilidade apoiados pelo POPH, no âmbito da Tipologia de Intervenção 6.5 – Ações de Investigação, Sensibilização e Promoção de Boas Práticas no campo de ação da Deficiência. Os destinatários deste curso foram educadores/as de infância e docentes dos diferentes ciclos de ensino básico e secundário, tendo sido a carga horária de 25 horas, sendo que 17 horas corresponderam a sessões presenciais e 8 horas foram de trabalho autónomo. As sessões presenciais conjuntas eram divididas entre vários dias de trabalho de 7 horas, com deslocação aos agrupamentos integrados no Curso de Formação, sendo que os diferentes momentos de calendarização eram definidos consoante a disponibilidade de concelhos/autarquias e destinatários (as).
Os objetivos deste curso de formação passaram por: sensibilizar e informar para as questões da Acessibilidade, Diversidade e Mobilidade, promovendo o (re)conhecimento de conceitos e saberes sobre as temáticas em questão; promover a interação e partilha de saberes dos (as) formandos (as) em questão, criando igualmente bases de racionalização teórica para que num momento seguinte seja passível uma aplicação prática por intermédio de diferentes vias de ação, dessa mesma, teoria transmitida e partilhada; construir, por intermédio, da interação face a materiais e dispositivos formativos e informativos, meios de ação prático-pedagógica no que concerne a temática e a realidade teórica-prática do hoje é Acessibilidade, por com relação à Mobilidade e à Diversidade; refletir sobre a funcionalidade no quotidiano prática de ação dos (as) professores (as) e restante comunidade educativa, de tais materiais e dispositivos de ação disponibilizados e acionados por via do Curso de Formação, quando equacionados no que infere a intervenção educativa.
Tendo sido equacionados como efeitos esperados tanto, a aquisição de competências técnico-pedagógicas face a estratégias a serem aplicadas no âmbito da Acessibilidade numa perspetiva multidisciplinar, como a realização de atividades e dinâmicas por intermédio das vias de ação a serem instituídas e trabalhas no Curso de Formação, de modo a que os/as destinatários/as fossem capazes de desenvolver e aplicar estas mesmas competência técnico-pedagógicas no contexto de trabalho.
Deste modo o Curso de Formação teve por base o trabalhar da temática da Acessibilidade para todos/as e assim da igualdade de oportunidades no contexto educativo das autarquias e concelhos envolvidos, abordando conteúdos de áreas curriculares disciplinares e não disciplinares; como também colocou a ênfase em três vias de ação, através das quais os trabalhos finais dos (as) formandos (as) seriam desenvolvidos. O que neste caso incidiu na colaboração com os/as formandos (as) na criação de um portefólio de atividades e ações curriculares e não curriculares dentro da temática da Acessibilidade, que foram avaliadas e certificadas, com a possibilidade da comunicação pública das mesmas, num terceiro momento presencial por parte da equipa de formativa do Curso de Formação. Os conteúdos das ações de formação passaram pelo trabalhar dos conceitos e noções de Acessibilidade, Mobilidade e Diversidade, tendo em conta as vias de ação definidas e elaboradas neste curso, como: a Música; a Expressão Oral e a Escrita; o Audiovisual e o Teatro. Não podendo ser esquecido que as metodologias constituintes deste curso de formação dividem-se em 3 fases. A fase 1 e 3 corresponderam às sessões presenciais conjuntas de carácter teórico-prático. A fase 2 fez-se constituir pelo trabalho autónomo, que era acompanhado pelas formadoras em regime de tutoria, quando necessário.
No que diz respeito à avaliação dos (as) formandos (as), esta foi feita de forma, o mais possivelmente, continuada pelas formadoras, em conjunto com os (as) próprios (as) formandos (as), com base nos conteúdos e efeitos a produzir e através do apoio tutorial tanto presencial, como por outra via de comunicação (internet e via telefónica). Foi dada especial
O lado do tempo e do espaço não-formal
701 atenção ao: nível de participação dos formandos nas sessões presenciais; nível de realização
das atividades durante as sessões presenciais; nível de realização e aplicação das atividades propostas pelos formadores nas sessões de trabalho autónomo e a reflexão crítica sobre o contributo da ação para o desenvolvimento profissional. Concomitantemente, os conteúdos teóricos-pedagógicos e programáticos das Vias de Ação “Expressões Acessíveis ao Ensino”, constituintes do Curso de Formação, confluíram no trabalho dos conceitos de Cidadania, Acessibilidade e Educação.
Resultados
Partindo do princípio já consagrado, e tal como nos indica Phillippe Perrenoud de que
as nossas sociedades fizeram da criança um valor central, deram-lhe direitos, transformaram-se em pessoa, em indivíduo, até mesmo em ator. Os que transformaram-se preocupem com a educação propõem o desenvolvimento da participação dos alunos na vida escolar. As pedagogias cooperativas preconizam a instituição de um conselho de turma ou de conselhos de escola, como espaços de partilha do poder. (Perrenoud, 2002, p. 142)
Olhar para a educação e para as escolas de hoje, obriga-nos a pensar em sociedade, em coletivo, em cidadania, que mais do que participada é agente, ativa e autora tanto no que respeita à existência do individual, como da implicação dessa mesma parte numa dada coletividade.
Educar para Cidadania, passa não somente pela centralização direta dos focos de interesse nos/as alunos/as, mas também, pelo respeito da bandeira académica e social de que:
em qualquer circunstância é fundamental que alunos e professores sejam sujeitos ativos em todas as etapas do processo. De contrário, tornar-se-iam consumidores passivos de simulacros de projetos educativos que mais não são do que atividades vazias impostas por alguém. O verdadeiro projeto educativo deve partir de necessidades individuais e coletivas sentidas como tal. Só assim terão valor formativo e alcance educacional (Medeiros, 2006, p. 37).
O projeto “A Cidadania Universal: As Acessibilidades”, ao fazer uma aposta concreta naquela que é a formação da profissão docente, tanto pessoal como profissional, quis tal como indica Nóvoa (2002), reafirmar a necessidade nuclear de delinear a formação contínua de professores como uma real contribuição “para a mudança educacional e para a redefinição da profissão docente” (p. 38) pois que, atualmente é urgente equacionar o espaço e o lugar da formação contínua como não sendo o do
professor isolado, mas sim o [do] professor inserido num corpo profissional e numa organização escolar. Por isso, é importante ultrapassar a “lógica dos catálogos” (ofertas diversificadas de curso e ações de formação a frequentar pelos professores) e construir dispositivos de partenariado entre todos os atores implicados na formação contínua. (Nóvoa, 2002, p. 38).
A possibilidade de até ao dia de hoje, ter trabalhado com 16 municípios de Norte ao Sul do país (cf. Tabela 1),
Ariana Cosme, Raquel Rodrigues Monteiro, Vânia Cosme
702 Tabela 1 Municípios com quem o trabalho foi desenvolvido
Municípios N.º Formandos Total N.º Formandos
Satão 23
705
Viana do Castelo 225 Cadaval 39 Pinhel 24 Seia 88 Sabugal 19 Alcanena 24 Penalva do Castelo 24 Penacova 19 Penedono 9 Celorico de Basto 35 Viana do Alentejo 41 S. Brás de Alportel 15 Macedo de Cavaleiros 54 Vizela 59 Mangualde 7Assentado sempre na existência da formação contínua como um processo, um elemento e um instrumento que “deve estimular uma perspetiva crítico-reflexiva, que forneça aos professores os meios de um pensamento autónomo e que facilite as dinâmicas de autoformação participada” (Nóvoa, 2002, p. 38-39) tornou possível a conquista de um lugar colaborativo e real nas aprendizagens com cada grupo de trabalho com quem nos foi possível contactar e estar implicadas com. Pois que nunca nos podemos esquecer de nos lembrar que o estar e ser “em formação implica um investimento pessoal, um trabalho livre e criativo sobre os percursos e os projectos próprios, com vista à construção de uma identidade, que é também uma identidade profissional.” (Nóvoa, 2002, p. 38-39).
Foi segundo esta linha de orientação formativa e formadora que este projeto trabalhou com os mais variados municípios portugueses detendo sempre grandes níveis de adesão por parte das populações dos mesmos municípios, como ao mesmo tempo, tendo continuamente, uma apreciação global das ações de formação dadas sempre acima do nível satisfatório (cf. Tabela 2).
O lado do tempo e do espaço não-formal
703 Tabela 2 Avaliação do Curso de Formação por município
Estabelecendo agora, um momento analepse entre o trabalho já realizado e o momento atual que o projeto vivência, parece-se não só perentório, como nuclear apontar na direção mais colaborativa da formação contínua de professores e das consequências positivas que podem advir desta, revelando-se como raciocínio diapasão a afirmação de que “parece assim justificar-se uma formação contínua alicerçada na experiência profissional” (Nóvoa, 2002, p.39), ou seja, “falar de formação contínua de professores é falar de criação de redes de (auto)formação participada, que permitam compreender a globalidade do sujeito, assumindo a formação como um processo interativo e dinâmico.” (Nóvoa, 2002, p. 39).
Conclusões
Ao conseguir objetivar a realidade de que a formação existe muito para além de tudo o que é pensado, planeado e elaborado entre quatro paredes por uma equipa de formadores e fazendo justiça à centralidade que atualmente deve ser atribuída à Cidadania e ao conceito de Acessibilidade por com relação direta com a noção de uma Cidadania Universal, este projeto, não colocou somente ênfase num trabalho de afirmação pessoal e cidadã, corroborando assim o pensamento de Carvalho e Baptista, autores estes, que nos informam que «por parte dos indivíduos, o direito de inserção deve corresponder ao dever de implicação. O lugar da educação junto do chamado trabalho social explica-se pela prioridade reconhecida a esta linha de intervenção. Os projetos pedagógicos visam, justamente, responder, às situações de rutura e de crise através de processos potenciadores de uma superação divina.» (Carvalho e Baptista, 2004, p. 52).
Ao querermos equacionar o lugar e a importância do espaço não –formal no decorrer do desenvolvimento do curso de formação elaborado, abordamos a existência de um tempo e
Municípios Escala de avaliação global de 1-5 por município
Apreciação geral da avaliação decorrente das ações de formação dadas
Viana do Castelo 4