UNIJUÍ - UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PAULA BATISTA FERREIRA
AS MULHERES NO CÁRCERE:
REFLEXÕES ACERCA DE GÊNERO E DIREITOS HUMANOS
Ijuí (RS) 2016
PAULA BATISTA FERREIRA
AS MULHERES NO CÁRCERE:
REFLEXÕES ACERCA DE GÊNERO E DIREITOS HUMANOS
Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Trabalho de Curso - TC.
UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.
DCJS - Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais.
Orientadora: MSc. Joice Graciele Nielsson
Ijuí (RS) 2016
Dedico este trabalho aos meus pais, Marcelo e Fátima, pelo amor, incentivo, apoio e confiança em mim depositados durante toda a minha jornada acadêmica, e principalmente por jamais terem medido esforços para que meus sonhos se tornassem realidade.
AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente a Deus, que me amparou e me ouviu nos momentos mais difíceis, confortou meu coração e me deu forças para chegar onde estou.
Agradeço aos meus amados pais, Marcelo e Fátima, que não somente nesta ocasião, mas em toda a minha vida estiveram ao meu lado, fornecendo apoio, compreensão e amor. Vocês são minha razão de ser e exemplo de vida, obrigada por sempre me indicarem o caminho correto a seguir.
À minha querida orientadora, Joice Nielsson, com quem tive o privilégio de conviver, que me guiou pelos caminhos do conhecimento com sabedoria e
paciência. Obrigada por sua
compreensão, dedicação e
disponibilidade.
Finalmente, as minhas amigas e a todas aquelas pessoas que fizeram parte da minha formação acadêmica, e que contribuíram para que esse sonho se tornasse realidade.
“A tarefa não é tanto ver aquilo que ninguém viu, mas pensar o que ninguém ainda pensou sobre aquilo que todo mundo vê.” (Arthur Schopenhauer).
RESUMO
O presente trabalho de conclusão de curso destina-se a fazer uma análise da situação das mulheres no cárcere, buscando a partir dessa ótica, verificar de que maneira as desigualdades entre homens e mulheres estão presentes em nossa sociedade e como questões de gênero influenciam a situação de vida das mulheres encarceradas. Para tanto, no primeiro capítulo faz uma breve investigação histórica da evolução do surgimento da pena e do sistema prisional em si, analisando como este processo ocorreu no Brasil, e de que forma ocorrem as violações de direitos humanos dentro do cárcere. No segundo capítulo serão feitas as ponderações referente à situação das mulheres encarceradas, e de que forma se desenvolveu as lutas em busca de igualdade. Finalmente, analisa como estas mulheres estão inseridas dentro do sistema carcerário, uma vez que o número de mulheres encarceradas tem aumentado gradativamente, e sua situação, paralelamente, tem se deteriorado. Nesse sentido, compreende que o Estado proporciona uma dupla violação de direitos humanos das mulheres presas, na medida em que há uma sobreposição de violações e discriminação por questões relacionadas a gênero e pelo próprio sistema prisional que não garante a efetivação de direitos.
Palavras-chave: Cárcere. Desigualdades. Direitos Humanos. Gênero. Mulheres.
ABSTRACT
The present work of course completion is intended to make an analysis of the situation of women in prison, looking from this perspective, to verify how inequalities between men and women are present in our society and how gender issues influence the situation Of women incarcerated. To do so, in the first chapter it makes a brief historical investigation of the evolution of the appearance of the pen and the prison system itself, analyzing how this process occurred in Brazil, and how human rights violations occur within the prison. In the second chapter will be made the weights regarding the situation of imprisoned women, and how the struggles for equality have developed. Finally, it analyzes how these women are inserted inside the prison system, since the number of women incarcerated has gradually increased, and their situation, in parallel, has deteriorated. In this sense, she understands that the State provides a double violation of the human rights of women prisoners, since there is an overlapping of violations and discrimination on issues related to gender and the prison system itself that does not guarantee the realization of rights.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 8
1 SISTEMA PRISIONAL E AS VIOLAÇÕES DE DIREITOS HUMANOS ... 10
1.1 A evolução do sistema prisional brasileiro ... 10
1.2 O sistema prisional hoje ... 14
1.3 As violações de direitos humanos perpetradas no cárcere ... 17
2 A SITUAÇÃO DAS MULHERES ENCARCERADAS: A DESIGUALDADE DE GÊNERO DENTRO DO SISTEMA PRISIONAL ... 22
2.1 A desigualdade entre homens e mulheres ... 22
2.2 As mulheres encarceradas ... 25
2.3 As desigualdades de gênero e as duplas violações de direitos humanos das mulheres dentro do cárcere ... 29
CONCLUSÃO ... 33
INTRODUÇÃO
O presente trabalho denota um estudo acerca das violações dos direitos humanos das mulheres dentro do cárcere, e de que modo tais violações contêm componentes de gênero. Isso porque, o sistema prisional brasileiro vem sendo apontado por diversas pesquisas e estudos como fonte constante e sistemática de uma série de violações de direitos.
Sua estrutura precária, que vai desde superlotação, falta de condições mínimas como higiene, falta de alimentos, colchões, água potável, ao precário relacionamento humano existente, tanto entre os presos, quanto com estes e os agentes penitenciários, responsáveis pela sua “guarda”, quanto com o mundo fora do presídio. Este cenário diz respeito, massivamente à população carcerária masculina, que é a imensa maioria. No entanto, há mulheres presidiárias, e este número vem crescendo muito no Brasil nos últimos anos.
Neste sentido, e na esteira dos avanços obtidos pelas mulheres, principalmente nos últimos 40 anos, com a conquista de uma maior participação em todos os espaços da vida social, principalmente da vida pública, algo que sempre lhes foi negado, as mulheres também estão aumentando sua presença no mundo da criminalidade. E ao fazerem isso, enfrentam um sistema prisional pensado por e para homens, e que, além de tudo, perpetua as relações desiguais entre homens e mulheres que está instalada em toda a sociedade. Desse modo, devemos lançar um olhar sobre as mulheres presas, propondo a identificar de que maneira questões de gênero, ou seja, relações hierárquicas de poderes estruturadas a partir de diferenças biológicas entre homens e mulheres estão presentes também dentro do presídio,
gerando desigualdades e, como não poderia deixar de ser, novas formas de violações de direitos envolvendo a própria condição de ser mulher.
Destarte, para a realização deste trabalho foram efetuadas pesquisas bibliográficas e por meio eletrônico, ou seja, a construção da pesquisa se deu pelo meio exploratório, com análises de fontes e sua respectiva leitura, a fim de enriquecer a interpretação de informações e permitir uma investigação aprofundada no estudo do encarceramento feminino, tendo em vista a precariedade do sistema prisional, que vai muito além das questões de violação de direitos humanos.
Inicialmente, o primeiro capítulo tem o condão de abordar o tema historicamente, isto é, analisar a evolução do sistema prisional em si, e as mazelas enfrentadas no sistema carcerário brasileiro na atualidade. Acerca disso, assume relevância um estudo das violações de direitos humanos instauradas nas penitenciarias, o qual acarretam grandes problemas sociais e acabam reproduzindo uma imagem totalmente diferente dos direitos e garantias elencados em nossas legislações, mostrando como o sistema não cumpre com suas finalidades.
No segundo capítulo, objetiva-se compreender de forma mais aprofundada as principais desigualdades ainda existentes entre homens e mulheres perpetradas no âmbito social, isso após todas as lutas e conquistas concretizadas pelas mulheres ao longo dos séculos. Além de abordar a situação das mulheres encarceradas em nossa sociedade, de modo a ser diagnosticado como questões de gênero ainda podem influenciar suas vidas durante o encarceramento, e como interferem nas condições de garantia ou violação de seus direitos dentro do cárcere. Consequentemente, o presente trabalho monográfico tem por objetivo analisar as dificuldades enfrentadas pelas mulheres no cárcere, que vão além das violações de direitos humanos próprias do sistema prisional brasileiro, abrangendo questões de gênero que, acabam por gerar maior discriminação e violações de seus direitos.
1 SISTEMA PRISIONAL E AS VIOLAÇÕES DE DIREITOS HUMANOS
Primeiramente, antes que possamos adentrar na realidade das mulheres no cárcere, é necessário analisar de forma objetiva como se deu a evolução do sistema prisional em nossa sociedade e como este se encontra atualmente em nosso corpo social. Serão abordados os conflitos existentes no cárcere, especialmente sua evolução histórica, e as violações de direitos humanos perpetradas no sistema prisional brasileiro da atualidade.
Dado que só somos capazes de compreender nossa realidade presente, se conhecermos nossa história, corolário se mostra a necessidade de realizar tal resgate histórico da evolução do sistema prisional, para que haja uma melhor compreensão do objeto de estudo, para que no fim, possa ser analisada como ocorrerem às violações de direitos humanos e gênero das mulheres, e que são perpetrados no cárcere.
1.1 A evolução do sistema prisional
Desde os tempos mais remotos, desde o momento em que o homem passou a conviver em sociedade é que se instauraram os primeiros conflitos sociais, porém uma das primeiras explicações para o surgimento da pena se dá muito antes do que podemos imaginar.
Conforme lecionam Garutti e Oliveira (2012, p. 4, grifo dos autores),
Uma das primeiras explicações se fia na ideia de que a pena nasceu quando Adão e Eva foram enganados pela serpente, comeram do fruto da vida, e assim, cometeram a primeira transgressão. Como consequência dessa desobediência foram punidos com a pena de degrado, sendo obrigados a deixarem o „Jardim do éden‟ e a viverem para sempre as consequências de seu pecado que, em tese, seria a vergonha, o sofrimento e a morte. Segundo a Bíblia, foi o próprio Deus que fixou e legitimou a pena aos transgressores.
Nesse mesmo sentido, surgem outras explicações ao longo dos séculos a fim de identificar o surgimento da cominação de penalidades, sendo que a vida no âmbito da coletividade torna necessária a criação de regras e normas com a
finalidade de regular o convívio social. Assim, Garutti e Oliveira (2012, p.4), ressaltam que:
Parece que a explicação científica seja mais sensata, pois, tenta explicar que a pena tenha surgido, quando os primatas obrigados a descerem das árvores, provavelmente, devido à escassez de alimentos, fixaram-se na terra, em pequenos grupos e, após o ataque de algum grupo rival, surgiu à primeira punição, portanto, a primeira pena como ato de defesa e retribuição do mal praticado como vingança.
De acordo com o demonstrado, primitivamente o homem já cria a ideia de penalidade, porém esta é tratada como forma de vingança no meio social, sendo definida de modo aleatório. Assim, a pena “tratava-se da lei do mais forte, ficando sua extensão e forma de execução a cargo da pessoa do ofendido e o transgressor poderia ser morto, escravizado ou banido.” (GARUTTI; OLIVEIRA, 2012, p. 5).
Essa primeira fase da evolução da pena é conhecida como vingança privada, o que caracteriza uma forma de pena praticada por aquele que sofreu o ato, ou seja, o próprio ofendido, sendo que este teria o direito de atacar o seu ofensor, sem limites ou regras. Nesse sentido, Vieira (2008, p. 2) ressalta que:
A fase primitiva caracterizava-se pela vingança privativa, pública ou divina, ou seja, o culpado era punido pela própria vítima e/ou pela família dela, a sociedade muitas vezes também se unia na depreciação do acusado através da representação do Soberano (Príncipe, Rei, Monarca) e ainda acreditava-se que de alguma forma o criminoso atingia, através de seu delito, um ser Superior ou Divino.
Outra referência que temos desse período é o Código de Hamurabi (2000 a.C), representado pela Lei de Talião, sendo possível discernir seu caráter vingativo pela expressão olho por olho, dente por dente, aplicada por Moisés no Antigo Testamento. “A lei de Talião (do latim Lex Talionis; Lex: lei e talis: tal, aparelho), consagrada pelo código, pregava a rigorosa reciprocidade do crime, qual seja, a punição de maneira igual ao dano do acusado.” (VIEIRA, 2008, p. 2, grifo do autor).
Mesmo com todas essas considerações, cabe ressaltar que a antiguidade não conheceu em sua totalidade as formas de privação de liberdade rigorosamente como uma sanção penal, isso porque, mesmo que tenha ficado claro que o
encarceramento do malfeitor existiu desde os primórdios, tal punição não tinha caráter de pena, portanto, “até fins do século XVIII a prisão serviu somente aos objetivos de contenção e guarda de réus, para preservá-los fisicamente até o momento de serem julgados ou executados.” (BITTENCOURT, 2011, p. 28). De igual modo,
Durante todo o período da Idade Média, a ideia de pena privativa de liberdade não aparece. Há, nesse período, um claro predomínio do direito germânico. A privação de liberdade continua a ter uma finalidade custodial, aplicável àqueles que seriam submetidos aos mais terríveis tormentos exigidos por um povo ávido de distrações bárbaras e sangrentas. (BITTENCOURT, 2011, p. 32).
Com o passar do tempo, considerando as evoluções sociais vividas, tornava-se inviável a aplicação das penas da forma como eram executadas. Através das mudanças e transformações, e com o crescimento da influência da Igreja Católica na sociedade, houve a manifestação do direito canônico que “contribuiu consideravelmente para o surgimento da prisão moderna, especialmente no que se refere às primeiras ideias sobre a reforma do delinquente.” (BITTENCOURT, 2011, p. 35).
Complementa Bittencourt (2011, p. 35, grifo do autor) ao dizer que:
O conceito de pena medicinal (da alma) encontra-se na base das penas canônicas, nas quais a reclusão tinha como objetivo induzir o pecador a arrepender-se de suas faltas e emendar-se graças à compreensão de gravidade de suas culpas. Santo Agostinho, em sua obra mais importante, A cidade de Deus, afirmava que o castigo não deve orientar-se à destruição do culpado, mas ao seu melhoramento.
Nessa seara, o direito canônico é o primeiro a apresentar uma nova forma de pena de prisão, com o intuito de ressocializar aqueles que violam normas, não sendo mais cabível a vingança como forma de punição. Porém, conforme leciona Bittencourt (2011, p. 37)
Não se deve exagerar na comparação entre o sentido e o regime da prisão canônica e a prisão moderna, já que não são equiparáveis. Trata-se de um antecedente importante da prisão moderna, mas não se deve ignorar suas fundamentais diferenças.
Contudo, foi no período denominado humanitário que as principais mudanças formam notadas, isso porque, “tão degradantes e cruéis foram às execuções praticadas que acabaram provocando revolta na população a ponto de muitos se levantarem a combater o espetáculo reinante.” (GARUTTI; OLIVEIRA, 2012, p. 9). Ainda sobre o tema,
No século XVIII, nascia então o período que os estudioso chamaram de Humanitários. Também denominado de „século das luzes‟, este período trouxe profundas modificações para inúmeras áreas do saber: as ciências, as artes, a filosofia, não tendo o direito permanecido indiferente nesta verdadeira revolução mundial do bem. (GARUTTI; OLIVEIRA, 2012, p. 9).
Sobre o movimento Iluminista,
Foi dessa confluência de ideia que em 1764, aos 27 anos Cesare Bonessana (1738-1794), também conhecido como Marquês de Beccaria, inspirado por Montesquieu, Rousseau, D‟ Albert, Diderot e Hume, publica em Milão um opúsculo que mudaria os rumos do Direito Penal mundial. (GARUTTI; OLIVEIRA, 2012, p. 9).
Cesare Beccaria compõe sua obra mais conhecida, intitulada como “Dos delitos e Das penas”, esta surge em um momento conturbado, porém vem com o intuito de revolucionar as formas de execução das penas, a fim de combater o crime, alegando que o juiz não pode impor penalidades que não estiverem previstas na lei, devendo estas ser interpretadas, para que não haja abusos (GARUTTI; OLIVEIRA, 2012).
Destarte, Cesare Beccaria foi o grande precursor do movimento humanitário, e a partir de suas criticas e pensamentos, a pena passou a ser usada de forma proporcional e humanizada, buscando que fosse aplicada na medida correta a fim de garantir a segurança social. Ao defender a humanização do sistema penal, o autor também ressaltou o caráter utilitário, destacando que a prisão deveria influenciar sobremaneira a conduta humana, conforme referem Garutti e Oliveira (2012).
Não se pode deixar de olvidar que, conforme acentuam Barros e Jordão (2016), da passagem da pena de suplício à pena privativa de liberdade, o crime, enquanto instrumento de desagregação social, sempre teve seu papel político. Punir
rigorosamente os criminosos, no espetáculo das praças, ou nas torturas nas prisões, consistia em ritual “normal”, aceito pela sociedade.
1.2 O sistema prisional brasileiro
Feitas tais considerações, foi possível observar como eram feitas as resoluções dos conflitos nos séculos passados, e como se dava a aplicação do direito penal. A pena não respeitava os princípios inerentes à dignidade da pessoa humana, e seu caráter vingativo era baseado no confronto, onde a lei era estabelecida pelo mais forte, sendo que somente no período denominado humanitário é que a pena passou a ser aplicada de maneira mais adequada.
Com a evolução de tal estrutura buscou-se uma maior segurança dentro da vida em sociedade, sendo o Estado o grande responsável por exercer a efetivação das novas garantias impostas pela sociedade, uma vez que, como já dito, não se admitia a imposição de penas tão cruéis. Isso porque, segundo Bittencourt (2011, p. 25),
A prisão é uma exigência amarga, mas imprescindível. A história da prisão não é a de sua progressiva abolição, mas de sua reforma. A prisão é concebida modernamente como um mal necessário, sem esquecer que guarda em sua essência condições insolúveis.
Nessa conjuntura, o Brasil durante os séculos XVI a XIX por ser colônia de Portugal, ficava submetido às leis correspondente do direito português. Conforme ensina D‟Oliveira (2014, p. 30):
Ressaltamos que o Direito Português exerceu em sua amplitude uma enorme influência na forma aplicada à legislação penal brasileira, pelo motivo de sua grande importância influenciadora, pois somente no meado de 1830 veio a surgir o primeiro conjunto de normas penais sistematizadas e reduzidas em um único código.
Sobre o Código Criminal de 1830, sancionado por D. Pedro I, D‟Oliveira (2014, p. 31) ensina que:
Podemos observar que durante a fase explicativa do surgimento da norma penal brasileira pelo Código Criminal de 1930, é notado que foi agregado a esta norma o princípio da reserva legal, o da anterioridade da lei penal, o da irretroatividade da lei, o da cominação das penas, o da individualização da pena, o da culpabilidade, o da fixação da qualidade e quantia de penas.
Porém, somente anos mais tarde, mais precisamente em 1889, quando foi proclamada a República dos Estados Unidos do Brasil, trazendo junto à abolição da escravatura, é que houve a necessidade da criação de um novo Código, diante de tantas mudanças e impactos na legislação penal (D‟ OLIVEIRA, 2014).
Convém destacar que o Código Penal da República de 1890, foi o primeiro a incorporar a pena de prisão de forma principal, afastando as práticas de punição utilizadas na época do Império, outra grande inovação foi no sentido de que a prisão perpétua foi abolida, limitando a pena em 30 anos e adotando o sistema de progressão de regime (ALMEIDA, 2014). Entretanto, o Código Penal de 1890, “desde o seu surgimento, foi alvo de severas críticas, da comunidade jurídica, visto que era considerado antiquado e em descompasso com as novas realidades, aquém dos anseios sociais e jurídicos da época” (ALMEIDA, 2014, p. 29). Contudo, em 1940, em decorrência das críticas e do surgimento do grande número de leis, foi promulgado o novo Código Penal.
Sobre o Código, disserta D‟Oliveira (2014, p.36):
A parte geral dos princípios básicos do direito penal foi totalmente reformada no ano de 1984, através da lei 7209 de 11 de junho, sendo que esta reformulação se deu com o acréscimo de novos conceitos, e a nova consolidação do sistema de cumprimento de penas, progressão de regime, regressão, penas alternativas, prestação de serviços à comunidade e restrição de direitos, e ainda a lei 7.210, com a mesma data de aniversário reformulou amplamente e positivamente a lei de execução penal – LEP.
Sobre a Lei de Execução Penal, leciona Beneti (1996, p. 31 apud ALMEIDA, 2014, p. 34):
A Lei de Execução Penal – Lei 7.210/1984 encerrou um longo ciclo de esforços doutrinários e legislativos, no sentido de dotar o país de um sistema de execução penal. A Lei surge como resposta aos reclamos de quase toda a totalidade da comunidade jurídica, pela revogação da Lei 3.274/195 e a consolidação de uma execução pena jurisdicionalizada, mais humana, responsável e alinhada com o Estado de Direito.
Nesse sentido, a LEP contribuiu muito para os avanços do direito penal, isso porque passou a conferir tratamento individualizado aos detentos respeitando suas necessidades: “Art. 1º A execução penal tem por objetivo efetivas as disposições ou decisão criminal e proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado e do internado.” (BRASIL, 1984).
Conjuntamente com a Lei de Execução Penal, podemos citar como grande marco pela busca da humanização em nosso direito, a Constituição da República Federativa de 1988 que “incorporou várias matérias já estabelecidas, preocupando-se principalmente, com o princípio da humanidade, ou preocupando-seja, a dignidade da pessoa humana, e demais fundamentos trazidos pelo art. 5º desta Carta.” (DULLIUS; HARTMANN, 2016, p. 5). Dessa forma, o artigo 1º da Constituição Federal define:
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel
dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
I - a soberania; II - a cidadania;
III - a dignidade da pessoa humana;
IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V – o pluralismo político. (BRASIL, 1988, grifo nosso).
Destarte, mesmo que os avanços em relação à legislação penal tenham evoluído com o passar dos séculos, a realidade que enfrentamos dentro dos sistemas prisionais é bem diferente dos direitos e garantias elencados nas legislações.
Bittencourt (2011, p. 164-165) analisa que:
A manifesta deficiência das condições penitenciárias existentes na maior parte dos países de todo o mundo, sua persistente tendência a ser uma realidade quotidiana, faz pensar que a prisão se encontra efetivamente em crise. [...] As deficiências da prisão, as causas que originam ou evidenciam sua crise podem ser analisadas em seus mais variados aspectos, tais como pelas perturbações psicológicas que produz, pelo problema sexual, pela subcultura carcerária, pelos efeitos negativos sobre a pessoa do condenado etc.
Isso se dá porque, “o sistema penal está estruturalmente montado para que a legalidade processual não opere e, sim, para que exerça um poder com altíssimo
grau de arbitrariedade seletiva dirigida aos setores vulneráveis.” (ZAFFARONI, 2010, p. 27).
No Brasil, a situação não é diferente, conforme menciona Silva (2013, p. 4):
É importante destacar que além dos presos serem negligenciados no fator saúde, eles não tem direito a educação. Com isto, o objetivo de ressocializar é ferido. Presos acabam saindo da cadeia piores do que entraram por viverem em condições sub-humanas. É notório que a reincidência dos presos é uma variável que depende do tipo de tratamento para com os mesmos. A superlotação traz, além do calor Insuportável, falta de ventilação e falta de privacidade, doença, sujeira e estresse. Algumas vezes a revolta com essas condições leva os detentos a cometerem atos violentos e desumanos. Trata-se apenas de um reflexo do modo como eles estão sobrevivendo.
Feitas tais considerações, conclui-se que no Brasil os avanços em relação ao sistema punitivo se deram de maneira tardia, mesmo assim, houve a preocupação com o bem estar dos seres humanos, e a busca por garantias dentro do cárcere. Porém, a realidade que enfrentamos nos dias atuais é totalmente avessa às ideias propostas na lei, o sistema de execução penal falhou, e hoje podemos dizer que vivemos o caos do sistema prisional, isso porque, não existe qualquer tipo de respeito às condições de vida de quem se encontra segregado.
Nesse viés, pode-se observar que o Estado falhou em sua gestão, e a grande dificuldade encontrada em nossa sociedade é a efetivação dos direitos e garantias inerentes aos que se encontram segregados, da forma como a prisão está imposta em nossa sociedade ficará cada vez mais difícil de alcançar os principais objetivos da pena, todavia no tópico seguinte serão abordadas as violações de direitos humanos cometidos dentro do sistema prisional.
1.3 As violações de direitos humanos perpetradas no cárcere
Conforme podemos analisar, o sistema carcerário brasileiro há muito tempo não cumpre com sua principal função, a ressocializadora, muitos são os casos de violações de direitos encontradas dentro das prisões, a superlotação, suas estruturas precárias, todas essas questões contribuem de forma negativa para a nossa sociedade.
De acordo com Copetti (2000, p. 63),
A violência do sistema penal viola os mais elementares princípios constitucionais de garantia, notadamente o respeito à vida e á própria igualdade dos cidadãos, ao dirigir-se intencionalmente aos „não cidadãos‟, aqueles que não têm direito aos direitos, e que estão à margem dos direitos humanos. Os esgualepados são duplamente atingidos: por um lado, por não terem acesso aos direitos sociais, encontram-se constantemente numa luta de sobrevivência, o que muitas vezes leva ao cometimento de delitos, especialmente contra o patrimônio; por outro, porque, não possuindo qualquer capacidade de articulação frente ao sistema ao cometerem delitos, são vitimas fáceis da repressão estatal, que deles se vale para justificar sua imprescindibilidade à sociedade. Com isso, a prática do sistema tem colocado em „xeque‟ a disposição Constitucional relativa á ordem pública, constante no artigo 144 da Constituição Federal, no que se refere à sua manutenção e à incolumidade das pessoas.
A partir desse ponto, frente a todo descaso que encontramos dentro do sistema prisional brasileiro, imprescindível se faz a análise das condições de vida enfrentadas por aqueles que acabam segregados, a fim de analisar de que forma ocorrem as violações de direitos humanos dentro do sistema prisional.
Tendo em vista tudo que foi discutido, podemos apontar que mesmo que a sociedade acredite que com a prisão dos delituosos a questão estaria resolvida, cada vez mais as noticias tem apontado para o contrário, afirmando que a ressocialização não é um fato concreto perante a sociedade (SILVA, 2013).
Os dados do sistema prisional são alarmante, segundo o último levantamento Nacional do Sistema de informações das Penitenciarias dos estados brasileiros – INFOPEN (2016), publicado pelo Ministério da Justiça em 2016, o número de presos no Brasil é de 622.202, o que fez com que o Brasil alcançasse o quarto lugar no ranking dos países com pessoas privadas de liberdade.
Embora o número da população carcerária tenha aumentado de forma devastadora ao longo dos anos, pouco tem sido feito em relação a superlotações das prisões, sendo que sobre o tema, leciona Leal (2001, p. 58, grifo nosso):
Prisões onde estão enclausuradas milhares de pessoas, sem nenhuma separação, em absurda ociosidade, carentes de assistência material à saúde, jurídica, educacional e religiosa, prisões infectadas, úmidas, por onde transitam livremente ratos e baratas, onde a falta de água e luz é
rotineira; prisões onde vivem em celas coletivas improvisadas dezenas de presos, alguns seriamente enfermos, como tuberculosos, hansenianos e aidéticos.
Não obstante, além do problema referente à superlotação nas prisões, aqueles que estão segregados ainda enfrentam grandes dificuldades com questões relacionadas à salubridade, “sanitários coletivos e precários são comuns, piorando as questões de higiene. A promiscuidade e a desinformação dos presos, sem acompanhamento psicossocial, levam a transmissão de AIDS entre outros presos.” (DROPA, 2004, p. 2).
Em relação às situações desumanas encontradas dentro do sistema prisional brasileiro, Carvalho (2003, p. 228) refere que:
Do quadro demonstrado, não precisamos reiterar que as condições de espaço e higiene das celas brasileiras são subumanas, configurando verdadeiros depósitos de pessoas. A lacuna existente entre as normas e tratativas nacionais e internacionais referente às condições de permanência no cárcere e a realidade nacional tornou a questão carcerária brasileira um dos principais problemas de violações de direitos no mundo.
É importante destacar que diante de um quadro tão desanimador, é inviável que a aplicação da pena privativa de liberdade cumpra-se de maneira correta, o que se vê é, na verdade, um sistema falho que não cumpre com suas funções. Lemgruber (1999, p.149) compreende ser “absolutamente contraditório esperar que alguém aprenda, de fato, a viver em liberdade, estando privado de liberdade.”
Ainda sobre a crise do sistema penitenciário, lecionam Barros e Jordão (2016, p. 7):
A crise do Sistema Penitenciário do Brasil reflete a incapacidade dos governos em assumir o gerenciamento das unidades prisional como ambientes de reeducação e recuperação social. Ao contrário, são espaços da desumanização dos indivíduos forçados a conviver com as condições insalubres: espaço físico limitado, ausência de higiene, inúmeras doenças, e a precariedade de acesso à Justiça e aos direitos fundamentais, previstos nos tratados internacionais, na Constituição Brasileira de 1988 e na Lei de Execução Penal.
Outro grande problema relacionado ao sistema carcerário e que não cumpre com sua função é o da ressocialização, tal pressuposto está diretamente ligado com a função da pena, porém diante de tantos problemas enfrentados dentro do cárcere, este é mais um objetivo que acaba por não ser alcançado. Isso porque, conforme ensina Lemgruber (1999, p. 153):
O ex-presidiário volta à sociedade marcado por um estigma irreversível; despreparado, porque nada lhe foi ensinado durante seus dias ou anos de confinamento; experiente, porque o meio prisional forneceu-lhe subsídios para aprimorar suas técnicas e talvez, quem sabe, evitar a ação da justiça quando novamente infringir alguma regra, revoltado, porque sua detenção serviu para lhe mostrar que a lei protege, tão-somente, os mais abastados.
Inclusive “para tudo agravar, o estigma da prisão acompanha o egresso, dificultando seu retorno à vida social, longe de prevenir delitos à prisão convida a reincidência, e assim acaba sendo um fator criminogênico.” (HERKENHOFF (1998, p. 37).
Marcão (2004, p. 2) complementa:
Conforme é vontade da Lei e está expresso, a assistência ao preso e ao internado tem por objetivo prevenir o crime e orientar o retorno à convivência em sociedade, Até aqui resta evidente que referidos objetivos ficaram apenas na frieza do papel, que tudo aceita. A Lei não cumpre o seu destino; não se presta à sua finalidade é inócua; uma simples „carta de intenções‟ esquecida. A realidade prática uma vergonha.
Feitas tais considerações em relação à evolução do sistema prisional e como estão perpetradas as violações de direitos humanos dentro do cárcere, foi possível constatar que a pena privativa de liberdade não está cumprindo com seus objetivos previstos inclusive na Lei de Execução Penal. Isso porque, segundo Carvalho (2003, p. 169):
Apesar do processo formal de jurisdicionalização instaurado pela LEP em 1984, criando alguns instrumentos e canais para a tutela do apenado, as reivindicações da massa carcerária são totalmente sufocadas ou desprezadas pelas autoridades administrativas e judiciárias, sob a alegação de necessidade de manutenção da ordem, representada neste universo pelos signos da disciplina e da segurança.
As violações de direitos humanos dentro das prisões são visíveis, a superlotação acaba desencadeando tantos outros problemas, como por exemplo, a falta de condições mínimas de higiênica, saúde e saneamento básico, além de não cumprir com sua principal função, a de reinserir o ex-detendo na sociedade, isso porque o sistema não cumpre com sua função de recuperação, e impede que sua finalidade preventiva seja alcançada, pois o numero de reincidentes também aumenta gradativamente.
Sobre as mazelas enfrentadas dentro do cárcere, Sica (2002, p. 48):
O panorama do sistema carcerário ratifica o entendimento de ser a prisão, notadamente uma pena sem finalidade. Ou sem nenhuma finalidade construtiva. Se é um mal necessário, cabe ao homem esvaziá-la o máximo possível de funções maléficas. E a prisão apenas reafirma e reforça a disseminação de valores negativos e destrutivos tanto na sociedade, quanto no condenado.
Nesse viés restou comprovado de que forma ocorrem as violações de direitos humanos dentro do cárcere, e como as condições subumanas que os presos se encontram contribuem de forma negativa para a concretização dos objetivos da pena, uma vez que violam direitos e garantias daqueles que se encontram segregados.
2 A SITUAÇÃO DAS MULHERES ENCARCERADAS: A DESIGUALDADE DE GÊNERO DENTRO DO SISTEMA PRISIONAL
No decorrer da evolução social, foram grandes as buscas pela possibilidade de exercício do direito pleno, em prol da cidadania, esse processo geralmente se estabeleceu pelas lutas, o que contribuiu significativamente para o aspecto evolutivo da sociedade. Neste contexto, a luta das mulheres em busca de igualdade sempre mereceu destaque.
Desde a antiguidade construções de gênero diferenciadas consideravam a mulher um ser inferior, jamais igualada aos homens. Na maioria dos povos antigos as mulheres viviam em situações penosas. Nessa época as mesmas ocupavam um lugar negativo na sociedade, e seu papel se restringia ao confinamento às esferas domésticas, enquanto aos homens cabia o monopólio das relações públicas e da política.
Nesse plano, as mulheres sempre foram vistas como seres inferiores, aonde deviam obediência àqueles que se julgavam superiores, sendo inclusive na maioria das vezes submetidas à violência física e moral. Esta desigualdade perpassa todas as esferas da vida humana, e como não poderia deixar de ser, atinge diretamente o sistema punitivo e o sistema carcerário, de modo que, elo fato de serem mulheres, as presas convivem com violências e violações de direitos.
Feitas tais colocações, esclarece-se que o presente capítulo tem por objetivo analisar o tema historicamente, ou seja, observar como se deu o surgimento das desigualdades entre homens e mulheres. E como tais questões perpassam até os dias de hoje, incidindo de maneira intensa na questão do encarceramento.
2.1 A desigualdade entre homens e mulheres
No mundo todo, a mulher começou a sua luta para libertar-se de tal submissão, com o objetivo de garantir o reconhecimento de sua própria identidade, admitindo seus valores perante a sociedade. Nesse processo democrático grandes vitorias foram observadas, principalmente entre os séculos XX e XXI.
Nesse plano, Carbonari (2012, p. 22) aduz que:
O contexto geral que marca a luta pelos direitos humanos é plural e complexo. Nele novos sujeitos de direitos aparecem ao espaço publico e configuram compreensões e agendas, além de novas lutas que, de alguma forma, se somam àquelas permanentes. Isto porque, em direitos humanos, a diversidade de sujeitos em luta, seja por reconhecimento, seja por bens, é marca estruturante e se traduz em agendas que radicam na exigência de condições e oportunidades para que a dignidade humana seja efetivada no cotidiano da vida de cada uma e de todas as pessoas.
Nesse sentido, sobre as desigualdades entre homens e mulheres Silva (2016, p. 1) afirma que:
A mulher por muitos anos teve uma educação diferenciada da educação dada ao homem. A mulher era educada para servir, o homem era educado para assumir a posição de senhor todo poderoso. Quando solteira vivia sob a dominação do pai ou do irmão mais velho, ao casar-se, o pai transmitia todos os seus direitos ao marido, submetendo a mulher à autoridade deste. A mulher nada mais era do que um objeto.
Nesse aspecto, trouxemos marcas dessa história até os dias atuais, a mulher continua sendo vista como ser inferior. O próprio Direito Romano, berço de nossa cultura jurídica, já desprovia a mulher de sua capacidade jurídica.
Nessa época, a mulher ocupava um lugar negativo na sociedade, seu papel se restringia apenas ao cuidado do lar e da família. “A mulher era vista como um mero objeto era posse do pai enquanto menina, posse do marido enquanto jovem e se porventura ficasse viúva passava a ser posso da família do pai do marido morto.” (PIMENTEL, 1993, p. 157).
Corroborando com tal entendimento, Rousseau (1995, p. 424) complementa que “se a mulher é feita para agradar e ser subjugada, ela deve tornar-se agradável ao homem ao invés de provocá-lo. Sua violência está nos seus encantos; é por eles que ela deve constrange-lo a encontra sua força e empregá-la.”
Constata-se que tal contexto histórico, refletiu para a construção da imagem feminina, que por muitos anos foi explicada pela forma biológica, por sua natureza mais frágil. Bourdieu (2012, p. 82) descreve de forma esclarecedora a situação:
A dominação masculina, que constitui as mulheres como objetos simbólicos, cujo ser (esse) é um ser-percebido (percipi), tem por efeito colocá-las em permanente estado de insegurança corporal, ou melhor, de dependência simbólica: elas existem primeiro pelo, e para, o olhar dos outros, ou seja, enquanto objetos receptivos, atraentes e disponíveis. Delas se espera que sejam „femininas‟, isto é, sorridentes simpáticas atenciosas submissas, discretas, contidas ou até mesmo apagadas.
Cabe ressaltar que tais desigualdades entre homens e mulheres são consequências de questões ligadas diretamente ao gênero. E quando falamos de tais relações, estamos falando também de poder, pois, como já observado, as relações entre o mundo feminino e masculino são constituídos de relações desiguais e assimétricas, mantendo a mulher como submissa ao homem e ao domínio pátrio (COSTA, 2008). Já para Vassal (2016, p. 104):
Diferentemente do que ocorre com a diferença entre os sexos, que é apenas biológica, a diferença de gênero é resultado da construção social e sofre interferência histórica, de tempo e espaço. Assim, gênero é o conjunto de diferenças entre homem e mulher, definidas no tempo e no espaço.
No Brasil, as mulheres têm provocado diferentes formas de organizações para responder as exigências postas em cada momento histórico, a presença crescente da mulher no mercado de trabalho, os debates realizados dentro e fora de salas e aula, as mobilizações por seus direitos, as delegacias especializadas, são conquistas que buscam aos poucos tentar trazer a mulher novamente ao mesmo patamar de igualdade de condições que são oferecidas aos homens. Porém, como bem observado por Piovesan (2016, p. 21),
O maior desafio é introjetar e propagar os valores igualitários e democratizantes consagrados na Constituição e nos tratados internacionais de proteção dos direitos humanos das mulheres, compondo um novo paradigma, emancipatório, capaz de assegurar o exercício da cidadania civil e política das mulheres brasileiras, nos espaços público e privado, em sua plenitude e com inteira dignidade.
Ainda sobre o tema, enfatiza Vassal (2016, p. 105):
O combate ao machismo deve ser feito com instrução, informação, de preferência na escola. Só com muita informação é possível neutralizar séculos de dominação masculina exteriorizada em diversos aspectos da cultura, inclusive na música, como no tango e no samba. Nem mesmo as leis são capazes de, por si sós, neutralizar e combater a violência contra as mulheres. Isso porque existe uma cultura machista também na formulação
das leis, como também na aplicação delas, nas sentenças, na doutrina. É preciso levantar o véu da ignorância e tentar impedir a reprodução desta cultura machista, através de reflexão e sensibilização.
O ponto principal que precisar ser analisado é que grandes e valiosas vitórias foram conquistadas pelas mulheres, se lembrarmos de que esta situação de suposta inferioridade arrastava-se há séculos. Hoje, a mulher tem plena consciência de seu potencial, dos seus direitos e demonstra seu grande valor como cidadã, como mãe, como trabalhadora. Tem quebrado barreiras, conceitos e preconceitos e a sociedade como um todo precisa se engajar nessa luta, a fim de acabar com toda e qualquer diferença entre gêneros, garantindo principalmente o respeito a todos, na busca do equilíbrio social.
2.2 As mulheres encarceradas
Feitas tais considerações foi possível analisar de que forma ocorreram às lutas das mulheres em busca da igualdade de gênero, e como essas conquistas foram importantes para que as mulheres pudessem buscar o seu lugar dentro da sociedade.
Segundo Kanan (2010, p. 245),
Para que tal fato ocorresse, alguns fatores foram contributivos, tais com: modificação do ideal da mulher do lar, o fato de poder controlar e decidir a quantidade de filhos (descoberta dos anticoncepcionais); o direito ao voto, a maior liberdade sexual; a necessidade de compor a renda familiar; os novos modelos de células familiares, a promulgação das leis que protegem as mulheres trabalhadoras, a busca pela qualificação em remos culturais, e a legitimidade ao acesso ao estudo.
Nessa perspectiva, a mulher alcança novos lugares na sociedade e também no mundo do crime, porém, acaba enfrentando grandes dificuldades ao entrar no sistema prisional, principalmente por este ser pensando por e para homens, não estando apto a receber essas mulheres, o que vem a causar um grande retrocesso no que diz respeito a direitos humanos.
Nessa seara, diante da nova realidade enfrentada pelas mulheres, e por terem aumentado o seu envolvimento no mundo do crime, as mulheres dentro do
cárcere acabam enfrentando diversos obstáculos, sendo que “ser mulher implica uma série de dificuldades adicionais nem sempre detectadas em prisões masculinas com a mesma intensidade.” (LEMGRUBER, 1999, p. 96). É nesse ponto que o sistema carcerário falha mais uma vez, no momento que não garante esse tratamento diferenciado as mulheres que se encontram segregadas.
Conforme elucidado por Queiroz (2015, p. 19):
É fácil esquecer que mulheres são mulheres sob a desculpa de que todos os criminosos devem ser tratados de maneira idêntica. Mas a igualdade é desigual quando se esquecem das diferenças. É pelas gestantes, os bebês nascidos no chão das cadeias e as lésbicas que não podem receber visitas de suas esposas e filhos que temos que lembrar que lembrar que alguns desses presos, sim, menstruam.
O relatório do Infopen (2016), relativo ao mês de junho de 2014, mostra o crescente número de mulheres privadas de liberdade. Segundo o relatório, a população feminina subiu de 5.601 para 37.380, entre 2000 e 2014, estimando um crescimento de 567% em 15 anos. Comparado a outros países, o Brasil apresenta a 5ª maior população feminina.
Referente aos crimes cometidos, o Infopen (2016) destaca que as mulheres que se encontram no sistema prisional estão ali por ter cometido crimes de tráfico de drogas. Conforme explica Angotti (2015, p. 2):
A política da guerra às drogas tem atingido cada vez mais mulheres, e a maioria das presas em Estados com cenários de encarceramento em massa foi condenada ou está sendo processada por situações envolvendo o uso problemático ou a venda de drogas.
Ainda sobre o tema, Queiroz (2015, p. 36) destaca que:
Dados comprovam a teoria, os delitos mais comuns entre mulheres são aqueles que podem funcionar como complemento de renda. [...] tráfico de entorpecentes lidera o ranking de crimes femininos todos os anos no Censo Penitenciário. Os próximos da lista, e para os quais vale o mesmo raciocínio, são os crimes contra o patrimônio, como furtos e assaltos. Os crimes cometidos por mulheres são, sim, menos violentos, mas é mais violenta a realidade que as leva até eles.
Outra informação importante que o relatório apresenta, diz respeito aos estabelecimentos prisionais que as mulheres se encontram, o Infopen (2016) destaca que o Brasil conta com 1.420 unidades prisionais, e apenas 103 são exclusivamente femininas, enquanto 1.070 são masculinos e 239 considerados mistos, abrigando homens e mulheres ao mesmo tempo.
Podemos observar que as dificuldades das mulheres no cárcere começam no momento em que são colocadas em um mesmo estabelecimento que os homens, isso porque aumenta o numero de violências, inclusive no âmbito sexual.
Conforme aduz Queiroz (2015, p. 133),
O que eles chamam de presídios mistos são, na verdade, presídios masculinos mistos, se não tem onde colocar mulheres as botam no castigo, ou seja, no pior lugar da cadeia. Até a estrutura dos prédios é feita para homens. Os banheiros, por exemplo, são os chamados „bois‟, ou seja, os buracos no chão.
Como se não bastasse, “as mulheres encarceradas também são submetidas à recorrente violência sexual praticada tanto por funcionários das próprias penitenciarias quanto por presos masculinos em cadeias mistas.” (RELATÓRIO SOBRE MULHERES ENCARCEIRADAS NO BRASIL, 2007, p. 24).
Sobre o tema, Mirabete (2000, p. 232) defende que:
Entretanto, comum é a afirmação de que a fraqueza física e a superior afetividade da mulher explicam as atenuantes que lhe são concedidas no regime das penas. A Ciência Penitenciária tem sustentado sempre que as prisões de mulheres devem ser separadas daqueles destinadas aos homens, pois a presença daqueles exacerba o sentimento genésico dos sentenciados, aumentando-lhes o martírio da forçada abstinência.
Para tanto, a legislação se preocupou em proteger os direitos das mulheres encarceradas, como prova disso, podemos citar as Regras Mínimas para o Tratamento do Preso da Organização das Nações Unidas (ONU), criada em 1985, que traz a tona referências bem nítidas a questões ligadas ao gênero feminino, e determinou em seu artigo 7º,§ 1º “que as mulheres devam cumprir a pena em estabelecimentos próprios.” (FRANÇA, 2014, p. 220).
Do mesmo modo, a Constituição Federal de 1988 especificou em seu artigo 5º, XLVIII: “A pena será cumprida em estabelecimentos distintos, de acordo com a natureza do delito, a idade e o sexo do apenado.” (BRASIL, 1988).
Na Lei de Execuções Penais, em seu artigo 82, §1º, também consta regramento referente à separação dos apenados:
Os estabelecimentos penais destinam-se ao condenado, ao submetido à medida de segurança. Ao preso provisório e ao egresso.
[...].
§ 1º A mulher e o maior de sessenta anos, separadamente, serão recolhidos a estabelecimento próprio e adequados à sua condição pessoal. (BRASIL, 1984).
Conforme foi visto, o aumento do número das mulheres encarceradas preocupa isso porque, mais uma vez a lei buscou implementar em seus textos os direitos e garantias das mulheres segregadas, porém mais um vez, não cumpriu com o principal objetivo, a efetivação dos mesmos.
Sobre as disposições legais, Ramidoff (2005, p. 116) afirma que:
Proposições afirmativas que evidenciam o conteúdo fundamentais de tais direitos individuais das mulheres que se encontram privadas de suas liberdade, por certo, é uma importante mutação que não se restringe ao mero âmbito conceitual, mas, sobretudo, proporcionam maior reflexão, quando, não, uma série e profunda mutação nos processos políticos de formação do jurídico.
Não há de fato garantias à dignidade humana das mulheres presas, isso porque ao serem colocadas no mesmo ambiente que homens, acabam sofrendo violações de ordem sexual e moral, isso porque, mesmo depois de tantas lutas e progresso em relação à busca de efetivação dos direitos das mulheres, ainda vivemos em uma sociedade que perpetua a cultura machista e preconceituosa.
De fato não são somente essas violações que sofrem as mulheres no cárcere, porém o assunto será abordado no segundo tópico a fim de que sejam analisadas de que forma se perpetuam as violações de direitos humanos das mulheres segregadas.
2.3 As desigualdades de gênero e as duplas violações de direitos humanos das mulheres no cárcere
Após compreender como as mulheres estão inseridas dentro do sistema carcerário, corolário se faz a análise das condições de desigualdades de gênero e as violações de direitos humanos enfrentadas pelas mulheres no sistema prisional brasileiro.
O Estado impõe sanções para quem comete crimes, porém também lhe confere garantias. Dessa forma, conforme explicam Silva e Sousa (2014, p. 2, grifo dos autores):
O ordenamento jurídico brasileiro garante que devem ser respeitados todos os direitos que não são atingidos pela privação da liberdade, resguardando, deste modo, a integridade física e moral dos condenados. De modo a assegurar esses direitos, a Lei de execução penal estabelece um rol de assistências que devem ser garantidas aos presos, incluindo-se a assistência médica, jurídica, educacional, social, religiosa e material. Além disso, a referida lei dispõe que a execução penal busca proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado ou internado. O reconhecimento da necessidade de separação dos encarcerados por gênero fez com que fossem incluídos na legislação direitos específicos das mulheres presas, e algumas especificidades no período de execução da sua pena.
Porém, esta não é a realidade que encontramos em nosso sistema prisional, em relação ao cárcere feminino, isso porque “as mulheres encarceradas enfrentam diversos problemas relacionados ao desrespeito ao tratamento diferenciado que deveriam receber devido ao seu gênero.” (SILVA; SOUSA, 2014, p. 2). Inclusive, “as prisões femininas brasileiras ainda não foram suficientemente estudadas, especialmente no que se refere aos danos psicológicos que elas podem causar para as internas em virtude do isolamento que promovem.” (LOPES, 2004, p. 147). Sendo assim, o encarceramento feminino também começa a apresentar problemas referentes à superlotação, e a falta de condições mínimas de higiene e saúde, conforme aduz Espinoza (2004, p. 78) isso ocorre porque “o cárcere é uma instituição totalizante e despersonalizadora.” Sobre as presas gestantes, Queiroz (2015, p. 42) refere que:
A maioria das detentas grávidas já chega grávida na cadeia. Alguma, já no fim da gestação, nunca passaram por um obstetra pois eram pobres e desinformadas demais. Como em todo país só existem 39 unidades de saúde e 288 leitos para gestantes e lactantes privadas de liberdade, na maioria dos presídios e cadeias públicas elas ficam misturadas com a população carcerária e, quando chega a hora do parto, geralmente alguém leva para o hospital. Já nasceu muita criança dentro do presídio porque a viatura não chegou a tempo, ou porque a polícia se recusou de levar a gestante ao hospital.
Nesse viés, a mulher durante a gestação e o período da amamentação merece tratamento diferenciado, há uma “exigência de uma atenção diferenciada às mulheres nessas situações específicas, decorre, portando, das condições inerentes à gestação e lactância, e deve ser observada nos estabelecimentos carcerários.” (SILVA; SOUSA, 2014, p. 4).
Conforme o Relatório Sobre Mulheres Encarceradas no Brasil (2007, p. 32),
Atendimento pré-natal é um direito tanto do nascituro quanto da mãe, que amiúde não é respeitado nos cárceres do Brasil. Há presas sem qualquer atendimento pré-natal e acabam descobrindo serem soropositivas e portadoras de outras doenças transmissíveis, como sífilis, só na hora do parto. Essa situação, além de coloca em risco a saúde do neonato, causa um impacto psicológico profundo na mãe.
Em relação às crianças que nascem no cárcere, Queiroz (2015, p. 166) refere que:
Viver os primeiros meses de vida numa prisão certamente não é o ideal, mas é menos maléfico do que ser separado da mãe ao nascer. O dilema foi considerado por muitos especialistas. Ao final, psicólogos, pediatras e assistentes sociais concluíram que era melhor nascer preso do que nascer sem mãe. A lei brasileira garantiu, então, que ao menos os seis primeiros meses do bebê fossem vividos juntos dela, durante os quais ele seria amamentado.
Outra violação que ocorre referente às mulheres encarceradas está relacionada à visita íntima, sua previsão constitucional encontra-se no artigo 5º, X, da Constituição Federal, e dispõem que: “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito de indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação.” (BRASIL, 1988).
Inclusive, o tema é reconhecido internacionalmente, e sua previsão legal encontra-se no artigo 12 da Declaração dos Direitos Humanos (2016), promulgada pela Organização das Nações Unidas (ONU), e refere que: “Ninguém será sujeito a interferências na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataques à sua honra e reputação [...].” Porém, conforme Silva e Sousa (2014, p. 5),
Embora esteja assegurado o direito à visita íntima aos presos recolhidos nas unidades prisionais, independentemente do gênero, as políticas de visitação conjugal de muitos estados discriminam as mulheres presas. A visita íntima, totalmente vedada em algumas unidades prisionais, quando existe está subordinada a exigências como comprovação de vínculo de parentesco e uso obrigatório de contraceptivos.
Outro grande problema enfrentado pelas mulheres que cometem crimes e acabam sendo privadas de liberdade é o abandono, outro estigma social, pois “quando uma mulher é presa, a história corriqueira é: ela perde o marido e a casa, os filhos são distribuídos entre familiares e abrigos. Enquanto o homem volta ao mundo que já o espera, ela sai e tem que reconstruir o mundo.” (QUEIROZ, 2015, p. 44).
Referente ao assunto, o Relatório sobre as Mulheres Encarceradas no Brasil (2007, p. 37) aduz que:
Quando se discute a manutenção das relações familiares, vê-se que a violência praticada contra a mulher presa ultrapassa os limites da pena, atingindo também a sua família e, especialmente, os filhos nascidos nas unidades prisionais. Um dos aspectos negativos mais incidentes nas vidas das mulheres presas é o distanciamento da família, diferentemente da realidade vivida pelos homens durante o período do encarceramento.
Ainda sobre o tema, Espinosa (2004, p. 153) diz que:
Interessa-nos destacar que o estigma que normalmente cerca a mulher se origina não só no seu interior, mas, igualmente do próprio interior da reclusa, que não aceita a prisão e pretende proteger os que ama, afastando-os, possivelmente para justificar a rejeição que o cárcere provoca.
Chama atenção o fato de que, em relação às mulheres presidiárias, estas sofrem uma dupla estigmatização, podemos constatar que tal fato se dá pelo fato de ainda vivermos em uma sociedade machista e patriarcal que fazem com que a reprovação da mulher criminosa seja ainda mais severa diante da sociedade.
O mínimo que poderia se esperar do sistema carcerário, é que o Estado pudesse efetivar de fato o tratamento diferenciado a essas mulheres, isso porque não podemos ignorar “as transgressões de mulheres como se pudéssemos manter isso em segredo, a fim de controlar aquelas que ainda não se rebelaram contra o ideal de feminilidade pacifica.” (QUEIROZ, 2015, p. 19).
Ainda sobre os motivos relacionados às diferenças das mulheres Miotto (1992, p. 134) explica que:
Uma mulher na direção terá a sensibilidade e compreensão para melhor adaptar o regulamento à condição feminina com suas particularidades e naturais exigências, e igualmente elaborar ou reelabora a agenda diária. Uma mulher na direção há de se saber melhor o que à luz dos princípios, das normas gerais e das leis, é mais acertado para a agenda diária, a fim de haver uma ordem interna e uma disciplina, uma quotidiana vivência (ou convivência) mais adequadas à condição fermina, à dignidade humana das presas, que são primordialmente pessoas, sujeitos de direitos, de deveres e de responsabilidade.
Assim, podemos concluir que grandes são as violações de direitos humanos e gênero, enfrentadas pelas mulheres no cárcere, dessa forma, é preciso que o Estado tome consciência do problema enfrentado por essas mulheres, e como grande responsável pela tutela das mesmas, garanta os direitos inerentes, para que, apesar de terem transgredido as normas penais, possam, ao entrar no sistema prisional, encontrar um local apto, para atender suas necessidades especificas, desencadeadas justamente por serem mulheres.
CONCLUSÃO
O presente trabalho de conclusão de curso teve por objetivo analisar de que forma ocorrem as violações de direitos humanos das mulheres dentro do cárcere, face ao desenfreado crescimento do numero referente às mulheres privadas de liberdade.
Buscou-se compreender se o Estado garante a efetivação de direitos das mulheres segregadas, principalmente por estas merecerem tratamento diferenciado, em função de questões relacionadas a gênero. Para tanto, foi necessário fazer um resgate histórico, a fim de compreender como ocorreu a evolução do sistema prisional, nesse sentido, no primeiro capitulo podemos compreender como se deu a evolução da pena, e como sempre houve a predominância do caráter de retribuição, sendo que a pena era considerada um castigo, inclusive a própria Lei de Talião, baseado no Código de Hamurabi nos mostra como eram aplicadas as penas pela sua famosa frase “olho por olho dente por dente”, ou seja, o mal causado a outrem deveria ser pago na mesma moeda, nessa perspectiva, a pena de morte era comum, e não se olvidavam aplicações jutas de pena, não existiam direitos e garantias para aqueles que viessem a delinquir.
Após, no segundo tópico do primeiro capitulo, corolário se fez a compreensão de como é o sistema prisional Brasileiro e quais são os tipos de violações de direitos humanos perpetrados dentro do sistema prisional. Importante frisar que o Brasil, por ser colônia de Portugal demorou até conquistar sua independência, nesse viés, nossa legislação ainda é nova, porém os textos constitucionais, e a lei específica buscou de alguma forma garantir o direitos dos seres humanos dentro do cárcere. Porém, o sistema carcerário brasileiro vem sendo apontado em diversos estudos e
meios de comunicação como falho, isso porque, se transformou em um ambiente desprezível, que não garante condições mínimas de vida aos que se encontram segregados, viola direitos inerentes a todos os cidadãos, e não cumpre com um dos principais pressupostos da pena, a ressocialização. Fica claro com todas as analises que o sistema prisional praticamente foi esquecido pelo Estado, o tratamento dispensado aos apenados não é digno, e estes não são tratados como pessoas possuidoras de direitos e deveres, isso porque não houve a efetivação de tais direitos.
Após no segundo capitulo do trabalho, pretendeu-se compreender como é a situação da mulher encarcerada, e verificar quais são as principais dificuldade enfrentadas por essas mulheres, averiguando se há de fato garantias aos direitos fundamentais dentro das prisões, e como o cárcere influencia suas vidas.
Nesse interim, no primeiro tópico do segundo capítulo foi analisado de que maneira ocorrem às desigualdades entre homens e mulheres, e como se deu as lutas das mulheres em busca de igualdade, a fim de alcançar seu lugar na sociedade. Nesse tópico foi possível compreender que grandes foram as lutas das mulheres em busca da concretização de seus direitos, porém, em nossa sociedade ainda trazemos marcas fortes do machismo, situação que reflete negativamente em nossa sociedade e ainda estigmatiza questões de violência e violações dos direitos das mulheres, que são perpetuadas e reproduzidas até mesmo dentro do cárcere.
Já no segundo tópico referente ao segundo capitulo do trabalho monográfico foram feitas considerações acerca das mulheres no cárcere, como essas mulheres estão inseridas no sistema privativo de liberdade, e de que forma ocorrem as violações de direitos humanos e gênero.
Nesse contexto, foi possível constar e confirmar a hipótese buscada por este trabalho, comprovando que as mulheres dentro do sistema prisional além de sofrerem os mesmos problemas que acometem os homens presidiários, ainda recebem uma carga maior de violações de direitos ao serem submetidas ao sistema carcerário.
Em relação aos direitos e garantias fundamentais as mulheres encarceradas, pode-se dizer que a legislação brasileira apresenta normas e dispositivos baseados na garantia de direitos a questões relacionadas a direitos humanos. Porém, na prática a realidade é outra, há um tratamento desumano e degradante, enfrentado por essas mulheres, e não existe efetivação de tais direitos elencados nos textos da lei.
Como resultado, podemos concluir que o sistema prisional brasileiro praticamente foi esquecido pelo Estado, vivemos hoje o colapso do sistema, a superlotação, e a falta da efetivação do principio fundamental da dignidade humana elencado na Carta Magna, demonstra o descaso ao desrespeito humano.
Em relação às mulheres presas, percebe-se que as violações de direitos, ocorrem de forma ainda mais evidenciada, a superlotação dos presídios, a ausência de prisões femininas, a falta de condições mínimas de saúde, inclusive quando gestantes, a precária infraestrutura sem condições mínimas de saúde, além dos abusos sexuais sofridos pelas mulheres encarceradas, afirmam ainda mais que o sistema carcerário é falho, não cumpre com suas funções e viola direitos no que diz respeito às mulheres, justamente por suas especificidades e condições especiais derivadas de questões relacionadas a gênero.
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