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A influência da mídia no tribunal do júri

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Academic year: 2021

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CRISTINE TATIÉLE HOMERDING

A INFLUÊNCIA DA MÍDIA NO TRIBUNAL DO JÚRI

Três Passos (RS) 2016

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CRISTINE TATIÉLE HOMERDING

A INFLUÊNCIA DA MÍDIA NO TRIBUNAL DO JÚRI

Monografia final do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Monografia.

UNIJUÍ – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.

DCJS – Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais

Orientadora: MSc. Eliete Vanessa Schneider

Três Passos (RS) 2016

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Dedico este trabalho a todos que de uma forma ou outra me auxiliaram e ampararam durante estes anos de caminhada acadêmica.

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AGRADECIMENTOS

A Deus, acima de tudo, pela vida, força e coragem.

A minha orientadora Eliete Vanessa Schneider pela sua incansável dedicação e disponibilidade.

A minha família, especialmente, aos meus pais Clovis e Fábia e a meu namorado Sérgio Diogo, que sempre estiveram ao meu lado, não medindo esforços para que meu sonho se tornasse realidade.

A todos os amigos e colegas que estiveram comigo durante a trajetória acadêmica, muito obrigada!

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“A verdadeira igualdade consiste em aquinhoar desigualmente seres desiguais.”

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RESUMO

O presente trabalho de pesquisa monográfica faz uma análise de como se deu o surgimento do Tribunal do Júri, sua posterior evolução até chegar aos dias atuais. Discute seus princípios fundamentais, bem como toda a estrutura e funcionamento, buscando compreender sua sistemática. Realiza-se, também, breve apresentação e histórico dos meios de comunicação, bem como seu panorama atual. Na sequência são analisados os aspectos dominantes no tocante a influência que a mídia exerce frente ao Tribunal do Júri, efetivamente sobre os jurados que compõem o conselho de sentença. Nessa perspectiva, tece algumas considerações sobre esse fenômeno em nosso país, igualmente, analisando casos julgados de grande repercussão midiática, a fim de demonstrar a influência da mídia frente ao instituto popular.

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ABSTRACT

The present work of monographic makes an analysis about how the Justice Court has emerged and their posterior evolution until latterly. Discuss about the fundamental principles, and all the structure of operation searching to know about their systematic. Realize too, a briefly presentation, about the history of the media, and their current owerview. After we analise the dominant aspects about the influence that the media exerts in the Justice Court, and whit the juror. On this way, we can do some considerations about this phenomenon in our country at the same way, analyzing some cases that have a big repercussion in the media, to demonstrate their influences to the peoples.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...9

1 O TRIBUNAL DO JÚRI NO BRASIL...12

1.1 Principais aspectos históricos do Júri Popular Brasileiro...12

1.2 Princípios Constitucionais do Tribunal do Júri...15

1.3 Competência do Júri...20

1.4 Estrutura e Funcionamento do Júri Popular Brasileiro...24

2 A MÍDIA BRASILEIRA E SUA INFLUÊNCIA SOBRE O JÚRI POPULAR...29

2.1 Apontamentos históricos e panorama atual da mídia...29

2.2 Influência sobre os julgamentos no Tribunal do Júri...35

2.3 Análise de casos julgados...39

CONCLUSÃO ... ...45

REFERÊNCIAS ... ...47

ANEXO A ... ...50

ANEXO B...56

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INTRODUÇÃO

A presente pesquisa monográfica tem como objeto de estudo a influência da mídia frente aos julgamentos de competência do Tribunal do Júri, instituto popular que está expresso na Constituição Federal de 1988, no artigo 5º, inciso XXXVIII, alínea d, o qual é competente para apreciar os crimes dolosos contra vida, na forma tentada ou consumada.

A primeira seção de estudo busca apresentar os principais aspectos históricos do Tribunal do Júri, o qual, no Brasil foi inserido antes mesmo da promulgação da primeira Constituição. Neste sentido, são analisadas, de forma cronológica, as Cartas Constitucionais e as leis infraconstitucionais, buscando traçar a evolução do instituto popular até os dias atuais.

Apresenta-se de igual forma, os princípios constitucionais do Júri Popular, visando destacar sua importância, vez que se trata de um direito e garantia individual, que não pode ser suprimido do ordenamento jurídico pátrio, pois é tido como verdadeira cláusula pétrea. A Carta Magna de 1988 cuidou de apresentar tais princípios, norteadores do Tribunal do Júri, sendo eles: a plenitude de defesa, o sigilo das votações, a soberania dos veredictos e a competência para julgamento de crimes dolosos contra a vida.

Na sequência é apresentada a estrutura e o funcionamento do Júri Popular brasileiro, o qual, vem disciplinado do artigo 406 ao 497 do Código de Processo Penal, prevendo o rito para julgamento e as normas de organização do Júri. Busca-se delinear a estrutura e o funcionamento, a fim de proporcionar a compreensão da sistemática do julgamento que tem como figuras importantes os jurados que compõem o conselho de sentença.

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Na segunda seção de estudo deste trabalho são abordados os principais aspectos históricos da mídia, a qual é tida como um conjunto de meios utilizados para a comunicação social, sendo que neste conceito são abrangidas todas as formas de comunicação, tais como rádio, televisão, imprensa, publicações na internet, videograma, satélite de telecomunicação etc.

Faz-se importante destacar os aspectos históricos da mídia pois, somente com o entendimento da rápida evolução de todos os meios de comunicação se chegará a compreensão da sociedade conectada que vivemos. Assim sendo, busca-se destacar através da apresentação de dados oficiais qual é a atual situação da sociedade brasileira frente aos diversos meios de disseminação de informações.

Como ponto culminante da pesquisa, tem-se a influência da mídia frente às decisões proferidas pelo Tribunal do Júri. Neste sentido, a pesquisa visa traçar relação entre as informações repassadas pela mídia frente a um crime doloso contra a vida e o posicionamento dos jurados que compõem o conselho de sentença de uma sessão de julgamento do Júri Popular. Busca-se observar se há, de fato, influência dos órgãos da mídia sobre as decisões proferidas pelo Tribunal do Júri.

Ademais, pretende-se, ainda, analisar a influência da mídia frente aos casos julgados pelo Tribunal do Júri, buscando compreender em que medida tais influências podem vir a alterar ou até manipular os resultados dos julgamentos, infringindo os direitos constitucionais das partes em litígio. Como forma de efetivar este estudo, são trazidos três casos julgados que tiveram elevada repercussão nacional sobretudo pela forma como ocorreram.

Busca-se também alavancar questionamentos acerca do assunto, tais como: As decisões do Tribunal do Júri são baseadas, apenas, nas informações contidas no processo? Os jurados baseiam-se, apenas, nestas informações? A mídia revela-se imparcial? A ―noticia-crime‖ é, essencialmente, verdadeira ou manipulada? Os fatos realmente ocorrem como são noticiados, ou são frutos do sensacionalismo midiático? Se toda a sociedade é direcionada a ter uma visão sobre os fatos como acreditar que os membros do conselho de sentença serão imparciais?

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Para a concretização do presente trabalho foi utilizado método de abordagem dedutivo, tendo como metodologia a pesquisa doutrinária em diversos livros, artigos, revistas e rede mundial de computadores, sendo ainda utilizada a consulta a casos julgados por sessões plenárias do Tribunal do Júri no Brasil, bem como análise de notícias veiculadas a época dos fatos.

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1 O TRIBUNAL DO JÚRI NO BRASIL

O instituto do Tribunal do Júri no Brasil foi inserido em 18 de junho de 1822, antes mesmo da promulgação da primeira Constituição e por isso faz-se tão importante conhecer os principais aspectos históricos e organizacionais do Júri Popular.

A primeira seção de estudo deste trabalho, busca abordar sua formação histórica, seu funcionamento e organização legal, bem como os princípios constitucionais que o norteiam. Tal abordagem se faz pertinente, vez que tem por objetivo aprofundar os conhecimentos acerca da temática visando esclarecer a influência da mídia sobre as decisões proferidas pelo Tribunal do Júri.

1.2 Principais aspectos históricos do Júri Popular Brasileiro

A instituição do Tribunal do Júri gera inúmeras discussões entre doutrinadores. Alguns acreditam que tenha surgido entre Gregos e Romanos outros sugerem que os primeiros a utilizarem métodos semelhantes foram os ingleses em 1215 e há quem defenda como sendo sua origem a Revolução Francesa.

Neste sentido, Marcus Vinícius Amorim de Oliveira (2008, p. 67), assevera que, apesar, de inúmeras divergências quanto à origem no instituto popular, o mesmo surgiu na Inglaterra tendo características muito semelhantes às atuais, sendo que, a competência para exercer os julgamentos era conferida aos que compunham a aristocracia local, o que por sua vez acarretava em enorme insegurança jurídica devido aos julgamentos imparciais.

De acordo, escreve James Tubenchlak (1997, p. 3),

[...] tendo como berço a Inglaterra, depois que o Concílio de Latrão aboliu as ordálias e os juízos de Deus, em 1215, espargiu-se o Júri, pelas mãos da Revolução Francesa, por numerosos países, notadamente da Europa, simbolizando vigorosa forma de reação ao absolutismo monárquico, vale dizer, um mecanismo político por excelência, malgrado com supedâneos místicos e religiosos, ainda presente na fórmula do juramento do Júri inglês, onde há a expressa invocação de Deus.

Na sistemática jurídica brasileira, a configuração inicial do Tribunal do Júri se deu mesmo antes da declaração de independência. A iniciativa foi do Senado da Câmara do Rio

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de Janeiro, o qual sugeriu ao Príncipe Regente D. Pedro a criação de um ―Juízo de Jurados‖. Em 18 de junho de 1822, a sugestão foi atendida, criando-se os ―Juízes de Fato‖, competentes para apreciar os delitos de imprensa. Para dirimir eventual divergência quanto à sentença, cabia somente o recurso de apelação direta ao Príncipe Regente (TUBENCHLAK, 1997, p. 3).

Conforme Aramis Nassif (2009, p. 17), ―O Júri é um instituto de direito processual constitucional.‖ Desta forma, faz-se importante destacar o nascimento constitucional de tal instituto na Constituição Política do Império, de 25 de março de 1824, precisamente em seus artigos 151 e 152, os quais definiram o Júri como sendo um dos ramos do Poder Judiciário, determinando sua competência para apreciar todas as infrações na área cível e criminal.

A Carta Imperial de 1824 foi um marco histórico no que diz respeito à instituição do Júri Popular no Brasil, pois consagrou, em seu artigo 179, direitos e garantias fundamentais, tais como a inviolabilidade dos direitos civis e políticos dos cidadãos brasileiros, tendo por base a liberdade, a segurança individual, e a propriedade (NASSIF, 2009, p. 18).

Posteriormente, a Lei de 20 de setembro de 1830 organizou o Júri de forma mais específica, prevendo o ―Júri de Acusação‖ e o ―Júri de Julgação‖. Já em 1832, o Código de Processo Criminal do Império, estabeleceu em vinte e três o número de jurados do ―Júri de Acusação‖ e em doze o ―Júri de Sentença‖. Definiram-se também os requisitos para exercício da função de jurado, tais como: ser eleitor, possuir bom senso e probidade. Por sua vez, ficavam excluídos do direito de exercê-lo, os que não gozassem de notório conceito público, não possuíssem inteligência, integridade ou bons costumes além de determinadas pessoas egrégias, tais como senadores, deputados, bispos, juízes eclesiásticos entres outros (TUBENCHLAK, 1997, p. 6).

Com a promulgação da Lei 261 de 03 de dezembro de 1841 e posterior Regulamento número 120, o Júri sofreu inúmeras alterações, entre elas pode-se destacar a extinção do ―Júri de Acusação‖. Passados alguns anos, com o advento de uma nova legislação, qual seja a Lei 562 e Regulamento 707 de 1850, foram retiradas de sua competência várias infrações penais, tais como: moeda falsa, roubo, homicídio, resistência, tirada de preso e bancarrota (TUBENCHLAK, 1997, p. 6).

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Somente foi restabelecida a competência para apreciação de tais delitos, a partir da Lei 2.033, de 20 de setembro de 1871, regulada pelo Decreto imperial número 4.824, de 22 de novembro de 1871. Redefiniu-se a competência do Júri para possibilitar análise de toda matéria criminal, dando a este contornos estritamente nacionais (NASSIF, 1996, p. 27).

No ano de 1891, eis que foi proclamada a primeira Constituição republicana, ―[...] de cunho eminentemente federalista, consagrou a autonomia política dos Estados Federados, identificando-se com a estrutura norte-americana. [...]‖ (NASSIF, 2009, p. 19). A nova constituinte expressamente declarou, em seu artigo 72, parágrafo 31, que o instituto do Tribunal do Júri seria mantido, elevando-o ao nível de garantia individual, após ampla discussão e debate, em plenário, sobre o assunto (TUBENCHLAK, 1997, p. 7).

Já no ano de 1937, o então presidente Getúlio Vargas chegando ao fim de seu mandato, dissolveu a Câmara e o Senado, revogou a Constituição de 1934 e outorgou a nova Carta Magna em 10 de novembro do mesmo ano. O Estado Novo iniciava-se, porém deixava de lado previsão expressa de existência do Tribunal do Júri, o que causou perplexidade e clamor de inúmeros jurista (NASSIF, 2009, p. 20).

Sobre o assunto complementa, ainda, José Frederico Marques (apud TUBENCHLAK 1997, p. 7):

A instituição do Júri sofreu duro golpe com a promulgação do Decreto-Lei n.167, de 5-1-1938. Em verdade, já a Constituição de 10-11-1937 silenciara a respeito, com a ressalva de que o art. 183 declarava em vigor, enquanto não revogadas, as leis que, explicita ou implicitamente, não contrariassem o texto constitucional. Pois bem. O art. 92, b, do citado decreto lei, não fez menos que abolir a soberania de seus veredictos, ao ensejar recurso de apelação quanto ao mérito, nos casos de ―injustiça de decisão, por sua completa divergência com as provas existentes nos autos ou produzidas em plenário‖. E, consoante o art. 96 do mesmo diploma, o Tribunal de Apelação poderia, ao prover o recurso, aplicar a pena justa ou absolver o réu, conforme o caso, se a decisão do Júri não encontrasse nenhum respaldo nos autos.

Apesar de não haver expressa previsão, o Júri manteve seu status constitucional. Importante registrar-se, afinal diz respeito diretamente ao instituto, que neste período histórico era constitucionalmente possível a ocorrência de condenação a morte para os homicídios cometidos por motivo fútil e com extremos de crueldade (NASSIF, 2009, p. 21).

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No ano de 1946, visando à organização de um regime democrático, foi publicada a nova Constituinte brasileira, a qual proclamou em seu artigo 141 parágrafo 28 a instituição do Júri, previsto entre os direitos e garantias constitucionais. A nova carta constitucional trouxe, de forma expressa, regras em relação ao número jurados e, inclusive, alguns de seus atuais princípios.

É mantida a instituição do júri, com a organização que lhe der a lei, contanto que seja sempre ímpar o número dos seus membros e garantido o sigilo das votações, a plenitude da defesa do réu e a soberania dos veredictos. Será obrigatoriamente da sua competência o julgamento dos crimes dolosos contra a vida. (BRASIL, 2015).

Quase vinte anos mais tarde, como resultado do golpe militar de 1964, passou a Constituição a sofrer a pressão da arbitrariedade, sendo esta substituída por uma nova Lei maior, a Carta Constitucional de 24 de janeiro de 1967 (NASSIF, 2009, p. 22). Conforme o mesmo autor (2009, p. 22, grifo nosso), o instituto do Tribunal do Júri foi mantido.

[...] a Carta que sucedeu o diploma de 1946 veio marcada pelo amparo à doutrina da Segurança Nacional, centralizando o poder da União e ampliando os do Presidente da República. Mas o Tribunal do Júri manteve-se na configuração anterior, elencado entre os direitos e garantias individuais, determinando a Carta que são

mantidas as instituições e a soberania do Júri, que terá competência dos crimes dolosos contra a vida (art.150, §18).

Redemocratizado o país eis que surge em 05 de outubro de 1988 a atual Constituição da República Federativa do Brasil, ―[...] reflexo de amplo movimento popular e de intensa movimentação política. É fruto de atitudes corajosas e da persistência de um povo inteiro, cansado da arbitrariedade, em busca de resgate de sua integridade político-jurídica [...]‖ (NASSIF, 2009, p. 23).

O instituto do Tribunal do Júri foi mantido no artigo 5º inciso XXXVIII de nossa Constituição, com a organização que a lei lhe der, sendo assegurados a plenitude de defesa, o sigilo das votações, a soberania dos veredictos e a competência para julgamento dos crimes dolosos contra a vida.

1.2 Princípios Constitucionais do Tribunal do Júri

Em nossa Carta Constitucional o instituto popular encontra-se inserido no Capítulo Dos Direitos e Garantias Individuais (artigo 5º, XXXVIII) e tem por finalidade ampliar o

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direito de defesa dos réus funcionando como uma garantia individual dos acusados pela prática de crimes dolosos contra a vida permitindo que, no lugar de um magistrado de carreira que está preso a regras jurídicas, sejam estes julgados pelos seus pares (FERNANDO CAPEZ, 2009, p. 580).

Em verdade, de acordo com Walfredo Cunha Campos (2015, p. 5), o Júri ―se coloca, ao lado do plebiscito e do referendo, como instrumento de participação direta do povo nas decisões‖, assim sendo, tem-se ―o amadurecimento da consciência cívica, chamando o povo agora não apenas para criticar, olhando de fora, mas para assumir, ele próprio, uma fatia do poder, passando-lhe a responsabilidade de parte da política criminal‖.

Por se tratar de um direito e garantia individual o Tribunal do Júri, não pode ser suprimido de nosso ordenamento jurídico, nem mesmo por emenda a Constituição, uma vez que é tido como verdadeira cláusula pétrea, ou seja, uma norma constitucional revestida de imutabilidade, por força da limitação material expressa no artigo 60, §4º, IV, da Constituição Federal (CAPEZ, 2009, p. 580).

Neste sentido, complementando a essência de cláusula pétrea do instituto popular, trata Campos (2015, p. 7),

Não apenas seria injurídico propor emendas que visassem abolir o Tribunal do Júri, como também devem ser acoimadas de inconstitucionais quaisquer leis que, embora nominalmente preservem a instituição no seu conteúdo, retiram-lhe substância e poder, esvaziando-a. É claro que alterações desse jaez, que acabem por aniquilar a essência do Júri, devem ser acoimadas de inconstitucionais.

Após árduo percurso histórico, o Tribunal do Júri no Brasil, passou a ter, efetivamente, na Carta Magna de 1988, alguns princípios que ―o legislador constituinte elegeu como reserva constitucional, imutável, a plenitude de defesa, o sigilo das votações, a soberania dos veredictos e a competência para julgamento de crimes dolosos contra a vida [...]‖ (NASSIF, 2009, p. 24).

A plenitude de defesa, primeiro princípio constitucional do Tribunal do Júri, visa garantir ao acusado a concreta e irrestrita defesa no curso do processo. Sobre o tema, assevera Capez (2009, p. 580, grifo nosso):

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A plenitude de defesa implica no exercício da defesa em um grau ainda maior do que a ampla defesa. Defesa plena, sem dúvida, é uma expressão mais intensa e

mais abrangente do que defesa ampla. Compreende dois aspectos: primeiro, o pleno exercício da defesa técnica, por parte do profissional habilitado, o qual não precisará restringir-se a uma atuação exclusivamente técnica, podendo também servir-se de argumentação extrajurídica, invocando razões de ordem social, emocional, de política criminal etc.

A plenitude de defesa deve ser tida como um dos mais importantes princípios do Tribunal do Júri, sendo que o acusado deve ter ao seu lado um defensor apto a defender os seus direitos de forma plena. O desrespeito a este principio, pode acarretar a dissolução do conselho de sentença, tendo por base o artigo 497, inciso V, do Código de Processo Penal. Sobre o assunto, tem-se o posicionamento de Campos (2015, p. 8, grifo nosso):

No Júri, não basta a ampla defesa, cabível em todos os processos, inclusive os administrativos. É necessário, [...] que a defesa seja plena, ou seja, que o

trabalho do defensor se situe acima da média, seja o mais perfeito possível, sem retoques. Em razão disso, é importante que o juiz presidente e promotor, ambos

fiscais do exato cumprimento da lei, sejam vigilantes quanto ao desempenho do advogado, cabendo, caso a defesa seja sofrível, requerer (o promotor) ou

determinar, até de ofício (no caso do magistrado), a dissolução do Conselho de Sentença, por considerar o réu indefeso (art. 497, V, do CPP).

Dentro deste princípio, tem-se ainda a ideia da composição heterogênea do conselho de sentença, ou seja, a composição do mesmo deve ocorrer de forma que os representantes do povo sejam escolhidos de diversos segmentos, buscando evitar que apenas um determinado grupo social venha a compor o corpo de jurados (OLIVEIRA, 2008, p. 87).

Resta claro, por exemplo, que se tratando de um crime de homicídio cometido contra a própria esposa, o direito a ampla defesa do réu estaria visivelmente comprometido se este fosse julgado por um conselho de sentença composto, em sua totalidade, por mulheres. Nesta perspectiva, deve-se analisar também, que havendo a prática de um crime de aborto, por exemplo, é óbvio que ocorrerá a condenação do réu se o conselho for composto, por cidadãos com convicções religiosas ligadas a Igreja Católica (OLIVEIRA, 2008, p. 87).

O princípio do sigilo das votações que vem descrito no artigo 5º, XXXVIII, alínea b da CF/88, visa assegurar que a votação se de com o maior sigilo possível, a fim de preservar, de forma efetiva, os jurados de qualquer tipo de influência ou, depois do julgamento, de eventuais represálias, de quem quer que seja.

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Conforme explica Capez (2009, p. 581), ―o sigilo nas votações é princípio informador específico do Júri, a ele não se aplica o disposto do art. 93, IX, da CF, que trata do princípio da publicidade das decisões do Poder Judiciário‖. Neste mesmo sentido, o STF já se manifestou sobre a constitucionalidade dos artigos 485, 486 e 487 do CPP, devendo as deliberações ocorrerem em sala especial (secreta), sem publicidade das votações. Neste sentido tem-se também, as palavras de Campos (2015, p. 9, grifo nosso):

Pacificou-se, hoje em dia, que tal previsão legal que estabelece o sigilo de uma

decisão judicial - pelo Júri – ocorrida no recinto não aberto ao público, não viola o preceito constitucional que assegura a publicidade, em geral, dos atos

processuais (art. 93, IX, da CF); isto porque, a própria Lei Maior, em seu art. 5º, LX, faz a ressalva de que a lei pode restringir a publicidade de atos processuais quando o interesse social exigir.

A votação em local não aberto ao público está atrelada ao interesse social, pois visa evitar que os jurados se submetam a pressões indevidas. Todavia, a realização de tal procedimento não gera nenhuma ilicitude em relação ao julgamento, isto, pois a mesma corre sob a fiscalização do magistrado presidente da sessão, bem como do Ministério Público e do defensor do acusado (CAMPOS, 2015, p. 9).

Este princípio também está relacionado com a incomunicabilidade trazida pelo artigo 466, § 1º do CPP. Isto, pois, antes do sorteio dos membros do Conselho de Sentença, o juiz deve advertir os jurados de que, uma vez sorteados não poderão comunicar-se entre si e com outrem, nem manifestar sua opinião sobre o processo, sob pena de exclusão do Conselho e multa.

A incomunicabilidade trazida pela Lei Processual Penal, conforme Campos (2015, p. 213), busca proibir que os jurados ―se comuniquem entre si sobre o processo ou com alguém de fora do tribunal‖, todavia, deve-se destacar que a comunicação entre os jurados é permitida, desde que não seja sobre o processo, buscando assim evitar que ocorram influências em suas decisões.

O Tribunal de Justiça de São Paulo, já se manifestou neste sentido, mencionando que a incomunicabilidade tem por objetivo impedir que o jurado expresse sua forma de decidir, isto, busca evitar influências no julgamento, seja favorecendo ou prejudicando qualquer das partes

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(CAMPOS, 2015, p. 213). Tratando deste assunto, o mesmo autor tece comentários ao artigo 466, §2º do CPP:

A incomunicabilidade deverá ser certificada nos autos por oficial de justiça (art. 466, § 2º, do CPP); mas a falta de certidão não constitui motivo de nulidade do julgamento, o qual só pode ser decretada se houver prova efetiva da quebra de incomunicabilidade. A certidão lavrada pelo oficial de justiça goza de presunção (relativa) de veracidade, como já decidiu o STF (CAMPOS, 2015, p. 213).

A referida incomunicabilidade termina com o encerramento da votação, isto, pois a partir daí, com a vontade dos jurados, expressa pelo voto secreto, o magistrado, presidente da sessão de julgamento, irá elaborar a sentença, não mais atuando o corpo de jurados (CAMPOS, 2015, p. 214).

Outro principio norteador do Tribunal do Júri, é o da soberania dos veredictos, assim chamado, pois se refere às decisões coletivas dos jurados. A soberania dos veredictos, conforme assevera Campos (2015, p. 10) ―é a proibição de o juiz presidente proferir uma sentença que contrarie o que decidido pelos jurados‖, sendo assim, evidencia-se que ―a soberania dos veredictos é endereçada ao juiz presidente‖ e não ao Tribunal do Júri.

Ao tratar de Tribunal do Júri, deve se ter em mente que em relação a este, se tem a soberania do júri, que é diferente da soberania dos veredictos. A soberania do júri é dirigida ao Tribunal, que em sede de julgamento de recursos ou ações de impugnação, não pode substituir o Júri nas causas de sua competência.

Todavia, tem-se um princípio relativo, pois no caso de apelação das decisões do Júri, o Tribunal poderá anular o julgamento, determinando a realização de um novo, se entender que a decisão dos jurados afrontou as provas constantes nos autos, isto conforme as disposições do artigo 593, inciso III, alínea d do Código de Processo Penal. Sobre o mencionado, leciona Alexandre de Moraes (2003, p. 77):

A possibilidade do recurso de apelação, prevista no Código de Processo Penal, quando a decisão dos jurados for manifestamente contrária à prova dos autos, não afeta a soberania dos veredictos, uma vez que a nova decisão também será dada pelo Tribunal do Júri. Assim entende o Supremo tribunal Federal, que declarou que a garantia constitucional da soberania do veredicto não exclui a recorribilidade de suas decisões. Assegura-se tal soberania com o retorno dos autos ao Tribunal do Júri para novo julgamento.

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No mesmo sentido, tem-se o posicionamento de José Frederico Marques (apud, CAMPOS, 2015, p. 10):

Se o Júri, em crime doloso contra a vida, decide contra a prova dos autos de modo manifesto, absolvendo o réu, o direito à vida, um dos direitos fundamentais da pessoa humana, não estará sendo assegurado, mas, ao contrário rudemente atingido, com perigo evidente de tornar a proteção à vida um puro mito ou autêntica ficção. [...] quem vai examinar se a sentença do Júri está manifestamente contra a prova dos autos é órgão do Poder Judiciário, a quem a própria Constituição conferiu a guarda e a tutela suprema dos direitos individuais [...]. Muito natural, portanto, que esse órgão examine se o direito individual ao julgamento pelo Júri, por ter sido abusivamente exercido, não atenta contra a segurança do direito à vida, que a Constituição também garante [...].

Assim, têm-se estas como sendo as principais considerações acerca dos princípios do Tribunal do Júri, o qual tem em sua essência o desejo de que aqueles acusados de cometer crime doloso contra a vida sejam julgados por seus pares, sempre na busca de uma decisão justa diante da situação fática trazidas pelas provas e demais documentos constantes dos autos.

1.3 Competência do Júri

A Constituição Federal de 1988 definiu também a competência mínima do Tribunal do Júri em seu artigo 5º, inciso XXXVIII, alínea d. Através deste preceito constitucional e da disposição apresentada no artigo 74, § 1º do Código de Processo Penal, pode-se constatar que ao Tribunal do Júri cabe apreciar crimes dolosos contra a vida, na forma tentada ou consumada.

A vida é o bem jurídico a ser tutelado por esta competência mínina do Júri Popular e conforme Nassif (1996, p. 50) este ―é indubitavelmente, o mais expressivo dos bens e o mais significativo dos direitos‖. Prossegue ainda o autor dizendo que,

[...] na investigação teleológica da tutela jurídica, decorrem, necessariamente, considerações sobre a relevância do bem ―vida‖, posto serem, por ora, os atentados contra ela os únicos a serem julgados pelo Tribunal do Júri (e que assim permaneça), por sua hierarquia sobre todos os demais protegidos pelo direito e, fundamentalmente, porque a perda violenta dele, provocada por um ser semelhante, resulta na irremediabilidade de recuperação, de restauração ou de compensação, possíveis em relação ao demais violados, subtraídos ou destruídos. Por tão relevante, mantém-se a competência do Tribunal do Júri também para julgar as tentativas contra a vida (1996, p. 49).

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O instituto popular visa, conforme já mencionado anteriormente, tutelar o bem mais precioso que os seres humanos possuem, qual seja, a vida. Esta proteção busca através de todo um conjunto de normas jurídicas, não só prevenir os atos atentatórios a mesma, mas também punir, os delitos já cometidos. Em havendo a prática de crimes dolosos contra a vida, têm-se, neste sentido, a atuação do Júri Popular.

O Código Penal, em sua parte especial, traz os crimes de competência do Tribunal do Júri, quais sejam: homicídio, previsto no artigo 121; induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio, no artigo 122; infanticídio, trazido no artigo 123; e aborto, presente do artigo 124 ao 127. Todavia, este rol não é taxativo, isto, pois o artigo 5º, inciso XXXVIII da CF/88 prevê que o Júri é reconhecido com a organização que a lei lhe der, sendo assim, a lei ordinária está autorizada a sistematizar procedimentalmente este instituto popular, podendo inclusive ampliá-lo (CAMPOS, 2015, p. 11).

Conforme trata Moraes (2003, p. 78, grifo nosso),

A Constituição Federal prevê regra mínima e inafastável de competência do Tribunal do Júri, não impedindo, contudo, que o legislador infraconstitucional lhe

atribua outras e diversas competências. Ressalte-se que o art. 5º, XXXVIII, da

Constituição Federal, não deve ser entendido de forma absoluta, uma vez que existirão hipóteses, sempre excepcionais, em que os crimes dolosos contra a vida não serão julgados pelo Tribunal do júri.

Faz-se necessário analisar as regras gerais de fixação de competência territorial, no âmbito dos julgamentos perante o Tribunal do Júri. Neste contexto, surgem diversos questionamentos acerca da aplicabilidade/inaplicabilidade das previsões do artigo 701 do Código de Processo Penal, aos crimes dolosos contra a vida.

A aplicação e interpretação literal do referido dispositivo legal, leva ao entendimento de que, nosso Código Processual Penal adota a teoria do resultado, sendo, em regra,

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Art. 70. A competência será, de regra, determinada pelo lugar em que se consumar a infração, ou, no caso de tentativa, pelo lugar em que for praticado o último ato de execução.

§ 1o Se, iniciada a execução no território nacional, a infração se consumar fora dele, a competência será determinada pelo lugar em que tiver sido praticado, no Brasil, o último ato de execução.

§ 2o Quando o último ato de execução for praticado fora do território nacional, será competente o juiz do lugar em que o crime, embora parcialmente, tenha produzido ou devia produzir seu resultado.

§ 3o Quando incerto o limite territorial entre duas ou mais jurisdições, ou quando incerta a jurisdição por ter sido a infração consumada ou tentada nas divisas de duas ou mais jurisdições, a competência firmar-se-á pela prevenção.

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competente para o julgamento o local em que a infração se consumou, ou, em se tratando de crime na modalidade tentada, pelo lugar onde tenha ocorrido o último ato de execução.

Entretanto, quando se trata de crimes dolosos contra a vida, de competência do Tribunal do Júri, a teoria a ser aplicada deixa de ser a do resultado e, conforme se depreende dos ensinamentos de Campos (2015, p. 13), devemos adotar a teoria da atividade:

Tem-se compreendido, assim, consoante forte entendimento doutrinário e jurisprudencial, a inaplicabilidade, em regra, do art. 70 do CPP, em se tratando de crimes da alçada do Júri; afasta-se, com essa interpretação, a teoria do resultado, consagrada em lei, e adota-se a teoria da atividade, quando o resultado ocorrer em comarca diversa daquela onde foram perpetrados os atos de execução.

Tal entendimento busca não só melhorar a colheita de provas como também visa suprir a necessidade do fato ser julgado pelo Tribunal do Júri naquela comunidade que sentiu-se mais abalada. Entende-sentiu-se ainda que o foro competente sentiu-seja o local da atividade criminosa, pois, se a morte de uma determinada vítima ocorrer em uma comarca que não tenha vínculo com o local dos fatos, tendo sido levada para tal lugar apenas para ter melhor assistência hospitalar, o local competente deve ser aquele que melhor elucide a verdade real, ou seja, o local dos fatos e não do evento morte (CAMPOS, 2015, p. 13).

Neste sentido, conforme Campos (2015, p. 14, grifo nosso), o Superior Tribunal de Justiça já se manifestou dizendo que,

A competência para o conhecimento e julgamento do crime de homicídio, em regra, é determinada pelo lugar em que se consumou a infração, ou seja, pelo lugar onde ocorreu a morte da vítima, sendo esta passível de modificação na hipótese em que

outro seja o local que melhor sirva para a formação da verdade real.

(CC34557/PE, DJ 10.02.2003)

Ainda no que tange o assunto competências do Tribunal do Júri, faz-se necessário destacar aquelas do Júri federal e do Júri estadual. Em verdade, as de competência do Júri federal são aquelas tidas como específicas já as do Júri estadual são as residuais. O Júri federal é composto por um juiz federal, seu presidente, e 25 jurados, e sua competência está expressa no artigo 109, incisos IV e IX da carta Magna Brasileira.

Segundo Adriano Marrey, Alberto Silva Franco e Rui Stoco (apud CAMPOS, 2015, p. 16), a referida norma atende:

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à conciliação dos dois textos constitucionais: o julgamento dos crimes dolosos contra a vida pelo Tribunal do Júri [...] e a competência da Justiça Federal para processar e julgar os crimes praticados em detrimento de bens, serviços e interesses da União ou de suas entidades autárquicas ou empresas pública.

O Júri estadual, por sua vez, é composto por 25 jurados e tem na presidência da sessão um juiz de direito e sua competência é residual, ou seja, o que não for alcançado pelo Júri federal será de competência deste. Neste sentido, assevera Campos (2015, p. 20) que,

se o crime doloso contra a vida não tiver relação com interesses, bens ou serviços da União, entidades autárquicas ou empresas públicas federais, nem tiver ocorrido o delito no interior de um navio ou aeronave, a competência para seu julgamento será das justiças dos Estados-membros da Federação.

Como já visto, de regra, todo e qualquer cidadão deve ser julgado pelo Tribunal do Júri quando da prática de um crime doloso contra a vida. Todavia a própria constituinte brasileira cuidou de excepcionar esta regra, determinando que aqueles que ocupem determinadas funções públicas não sejam julgados pelo Tribunal do Júri, mas sim por uma instância superior (CAMPOS, 2011, p. 6).

Assim, conforme lembra Nassif (2009, p. 26) a norma é excepcionada quando se tratar de:

a) autoridades governamentais, do Poder Judiciário e do Poder Legislativo, que serão julgados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) [...] e pelo Superior Tribunal de Justiça [...];

b) Justiça Militar para julgamento dos policiais militares e bombeiros militares [...]; c) prefeitos, que serão julgados pelo Tribunal de Justiça [...];

d) Pelo princípio da simetria, o Tribunal de Justiça Estadual para julgamento dos Vice-Governadores e Secretários de Estado, membros do Poder Judiciário de 1º grau e dos deputados estaduais [...]

Havendo divergências em relação às prerrogativas de função previstas na CF/88 e nas Constituições Estaduais, deve-se destacar o entendimento sumulado do STF. A Súmula Vinculante 45 da Corte Superior, com o objetivo pacificar o tema, passou a prever que a competência constitucional do Tribunal do Júri deve sempre prevalecer sobre o foro por prerrogativa e função que possa ter sido estabelecido exclusivamente pela Constituição Estadual.

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1.4 Estrutura e Funcionamento do Júri Popular Brasileiro

O Tribunal do Júri detém a competência para julgar os crimes dolosos contra a vida. No Código de Processo Penal está disciplinado nos artigos 406 a 497, os quais prevêem o rito para julgamento e as normas de organização do Júri.

O Tribunal do Júri visa ampliar as possibilidades de defesa dos réus acusados pela prática de crimes dolosos contra a vida. Este instituto funciona como verdadeira garantia constitucional, afinal, no lugar de um magistrado de carreira, preso a regras jurídicas, o julgamento (de quem está sendo acusado) é feito por cidadãos da comunidade, seus pares (CAPEZ, 2009, p. 580).

O Tribunal do Júri é composto de um magistrado de carreira que o preside e vinte e cinco jurados, formando o chamado corpo de jurados, destes apenas sete farão parte do conselho de sentença, instaurado a cada sessão de julgamento. Para o exercício da função de jurado é necessário ser brasileiro nato ou naturalizado, maior de 18 anos, de notória idoneidade, alfabetizado, no gozo de direitos políticos, residente na comarca e não sofrer de deficiência em quaisquer sentidos ou faculdades mentais (BRASIL, 2015).

O serviço do Júri é obrigatório e a recusa injustificada, conforme artigo 436 do CPP acarretará multa no valor de um a dez salários mínimos, ficando a critério do juiz sua fixação, o qual deverá levar em conta a situação financeira do jurado. Por sua vez, existem também os isentos de serviço do Júri,

[...] o presidente da República e seus ministros de Estado, os governadores e seus secretários, os membros do Poder Legislativo, em qualquer das esferas federativas, os prefeitos, os magistrados, os representantes do Ministério Público, os servidores do Poder Judiciário, do Ministério Público e da Defensoria Pública, os funcionários da polícia e da segurança pública, os militares da ativa, os cidadãos maiores de 70 (setenta) anos que requeiram sua dispensa, aqueles que o requerem, demonstrando justo impedimento (CPP, art. 437). (CAPEZ, 2009, p. 583).

Dispõe o artigo 439 da carta processual penal sobre a relevância do serviço, de caráter público desenvolvido pelo jurado, e sobre a presunção de idoneidade que este possui. O doutrinador Julio Fabrini Mirabete (2005, p. 554) trata deste assunto e dos privilégios que gozam aqueles que exercem a função de jurados dentre os quais a ―prisão especial, em caso de

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crime comum, até o julgamento definitivo‖ e o direito de ―preferência, em igualdade de condições, nas concorrências públicas‖.

No dia e hora designados para sessão de julgamento, o juiz presidente depois de verificar se na urna estão presentes as cédulas com o nome dos vinte e cinco jurados sorteados, determinará o juiz, que o escrivão proceda à chamada dos mesmos. Estando presentes no mínimo quinze jurados a sessão será declarada instalada, caso contrário, convocar-se-á nova sessão para o próximo dia útil (BRASIL, 2015).

Na sequência, os jurados serão advertidos, pelo juiz, de todos os impedimentos e incompatibilidades legais, bem como, sobre a impossibilidade de comunicação entre estes durante a sessão. Neste instante, deverá também, o juiz, ler os artigos 252 e 253, referente aos impedimentos e artigo 254 sobre as incompatibilidades (TUBENCHLAK, 1997, p. 109).

Após estes procedimentos indispensáveis, inicia-se o sorteio dos sete jurados que irão compor o conselho de sentença da sessão de julgamento do Júri, sendo que destes, a defesa e acusação poderão rejeitar, sem expor seus motivos de recusa. Após a arguição de suspeição do jurado, o juiz presidente decidirá de plano e sem direito a recurso (TUBENCHLAK, 1997, p. 110). Ainda de acordo com o mesmo autor (1997, p. 109):

Não desconhecemos que número sete (7) é um número bíblico – o símbolo da perfeição. É também referenciado na cabala e no espiritismo. Porém já constatamos não poucos veredictos cujo resultado gravoso para o réu se obteve por um único voto (4x3), devido até mesmo a um voto equivocado. Melhor será, sem dúvida, um número de par de jurados, com o que a condenação só advirá por dois votos de diferença; em caso de empate a aplicação do in dubio pro reo ensejará a absolvição ou outro resultado favorável ao acusado.

Faz-se importante destacar a mudança ocorrida no ano de 2008 com o advento da Lei 11.690, no que diz respeito ao número de votos. Esta nova ordem legal alterou, além de outros, o artigo 489 do Código de Processo Penal, passando este a prever que ―as decisões do Tribunal do Júri serão tomadas por maioria de votos‖. Desta forma, no momento em que estiverem apurados quatro votos condenatórios ou quatro votos absolutórios, os três votos não computados não serão revelados, a fim de manter o sigilo das votações (BRASIL, 2015).

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Composto o conselho de sentença da sessão de julgamento do Tribunal do Júri, deve o magistrado compromissar os jurados, nos termos do artigo 472 do Código de Processo Penal brasileiro. O autor Tubenchlak (1997, p. 111) explica este preceito legal:

O Juiz-presidente fará aos jurados a seguinte exortação: Em nome da lei, concito-vos a examinar com imparcialidade esta causa e a proferir a vossa decisão de acordo com a vossa consciência e os ditames da justiça. Cada Jurado será chamado nominalmente pelo Magistrado, devendo responder: Assim o prometo. Nesta solenidade, todos os presentes devem levantar-se, permanecendo em pé até o seu final. É costume, embora a lei seja omissa, a elaboração do ―termo de compromisso‖, a ser assinado pelo Juiz-presidente e pelos Jurados.

Prestado o compromisso pelos jurados, será iniciada a sessão plenária, onde serão ouvidas, primeiramente, as declarações do ofendido, se possível, e em seguida o depoimento das testemunhas, de acordo com o que estabelece artigo 473 do CPP. Complementa Tubenchlak (1197, p. 112):

Desde que haja requerimento das partes, nesse sentido, entendemos plenamente válido o depoimento da vítima no julgamento. Observar-se-ão todas as regras atinentes ao depoimento testemunhal, com uma única ressalva: o ofendido, por ser um terceiro interessado, não prestará o compromisso de dizer a verdade do que souber e lhe for perguntado, compromisso este alusivo, apenas, às testemunhas, tendo em vista sua característica de terceiros interessados (art. 203).

No que diz respeito à contradita das testemunhas, o mesmo autor (1997, p. 113) descreve:

A contradita e a argüição de circunstância ou defeito da testemunha, que a tornem suspeita de parcialidade ou indigna de fé, encontram-se agasalhadas no art. 214, e são de cunho genérico. Cabe às partes, assim, lançar mão deste remédio, se for o caso, quase sempre gerador de certo impacto no julgamento pelo Júri, mesmo sendo certo que o Juiz-presidente não deixará de tomar o depoimento da testemunha contraditada, que só será excluída nas hipóteses dos arts. 207 e 208.

A seguir, de acordo com o artigo 474 da carta processual penal, proceder-se-á o interrogatório do acusado, se este estiver presente, na forma estabelecida pelo capítulo III do Título VII do Livro I do mesmo código. Nesta fase poderão ainda o Ministério Público, o assistente, o querelante e o defensor formular questionamentos, diretamente, ao acusado, diferente dos jurados que somente poderão elaborar perguntas por intermédio do juiz presidente (BRASIL, 2015).

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Ao se encerrar a instrução, iniciam-se os debates. O primeiro a fazer uso da palavra será o representante do órgão ministerial, que fará a acusação. Este deverá, sempre, observar as não menos importantes orientações do artigo 476 do CPP, mas principalmente atentar-se para as constantes do artigo 478 que são causadoras de nulidades. A nulidade ocorre se o órgão acusador fizer referências à decisão de pronúncia ou ao silêncio do acusado ou ausência de interrogatório. Logo em seguida, será feita a defesa do acusado (BRASIL, 2015).

A seguir, o magistrado deverá indagar os jurados a fim de verificar se os mesmos encontram-se habilitados a julgar ou se necessitam de mais esclarecimentos. Neste sentido Tubenchlak (1997, p. 116) defende que:

Nesta fase de julgamento, é lícito, aos Jurados, pedir reinquirição de testemunhas e realização de acareações, bem assim de novo interrogatório, do qual devem participar ativamente, em sua qualidade de Juízes de fato, com as cautelas aludidas quanto às perguntas por eles feitas às testemunhas, a fim de não demonstrarem sua intenção de voto. Em sendo realizada alguma diligência probatória, o Magistrado reabrirá a fase de debates, facultando à acusação e à defesa tempo razoável para complementarem suas sustentações orais. Não havendo diligências, tem-se por encerrada a fase instrutória do julgamento.

Estando os jurados aptos ao julgamento, passa-se aos quesitos, onde deverá o magistrado realizar a leitura destes e explicar o significado legal de cada um. Em seguida deverá indagar as partes se têm algum requerimento ou reclamação a fazer, atendendo-as se for o caso e fazendo constar da ata o requerimento ou a reclamação não acatada (TUBENCHLAK, 1997, p. 116).

Conforme descreve o artigo 482, parágrafo único, do Código de Processo Penal,

Os quesitos serão redigidos em proposições afirmativas, simples e distintas, de modo que cada um deles possa ser respondido com suficiente clareza e necessária precisão. Na sua elaboração, o presidente levará em conta os termos da pronúncia ou das decisões posteriores que julgaram admissível a acusação, do interrogatório e das alegações das partes (BRASIL, 2015).

Os quesitos deverão conter questionamentos sobre a materialidade do fato, a autoria ou participação do acusado, a absolvição do réu, as causas de diminuição de pena que a parte tenha alegado na defesa e se existem circunstâncias qualificadoras ou causas de aumento de pena. Não havendo mais dúvidas a serem esclarecidas, o juiz presidente, os jurados, o

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Ministério Público, o assistente, o querelante, o defensor do acusado, o escrivão e o oficial de justiça dirigir-se-ão à sala especial a fim de proceder a votação (BRASIL, 2015).

Encerrada a votação e assinado, pelo juiz e pelos jurados, o respectivo termo, o magistrado, ainda na sala secreta, lavrará a sentença com a observância dos incisos e parágrafos do artigo 492, CPP. Sendo a decisão absolutória, não é necessário fundamentação, devendo apenas o juiz determinar a soltura, no caso de réu preso, e o cumprimento de todas as formalidades, tais como registro da sentença, baixa na distribuição entre outras. Diante da condenação, a fundamentação é imprescindível, devendo fazer menção as disposições constantes do artigo 59 do Código Penal a fim de fixar à pena (TUBENCHLAK, 1997, p. 117).

Põe fim aos trabalhos do Júri a leitura da sentença, a qual deverá ocorrer no plenário do Júri com as portas abertas, na presença das partes e dos circunstantes. ―Nada impede à parte vencida manifestar, de público, seu inconformismo, e interpor o recurso cabível, o que deverá constar da ata de julgamento‖ (TUBENCHLAK, 1997, p. 118). Se não houver requerimentos das partes o julgamento está encerrado.

Assim, restam delineados os principais aspectos históricos do Instituto Popular, bem como seus princípios basilares, sua competência e as regras que norteiam seu funcionamento frente a um crime doloso contra a vida, tentado ou consumado. Na sequência será abordada a influência da mídia frente a tal instituto, seus aspectos históricos assim como panorama atual e análise de casos julgados de imensa repercussão midiática.

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2 A MÍDIA BRASILEIRA E SUA INFLUÊNCIA SOBRE O JÚRI POPULAR

Faz-se importante destacar as contribuições e influências trazidas pelos diversos meios de comunicação na sociedade brasileira, especialmente na esfera criminal, afinal, vivemos em uma ―era interligada em que pessoas de todo o planeta participam de uma única ordem informacional [...], resultado do alcance internacional das comunicações modernas‖ (GIDDENS, 2005, p. 367).

Antes, porém, cabe conceituar o tema em estudo. Segundo o dicionário online de Aurélio Buarque de Holanda, a mídia é todo o suporte de difusão de informação (rádio, televisão, imprensa, publicação na Internet, videograma, satélite de telecomunicação, etc), sendo entendido como o conjunto de meios utilizados para a comunicação social (AURÉLIO, 2016).

Para Fábio Martins de Andrade (2007, p. 5),

O termo mídia é polissêmico, isto é, tem mais de um significado. Segundo a etimologia, a palavra mídia tem sua origem na língua latina. A rigor, media (latim) é plural de medium (latim) e significa meios. Meio é tomado no sentido comum de instrumento mediador, elemento intermediário.

[...] a palavra mídia pode significar: ―todo suporte de difusão da informação que constitui um meio intermediário de expressão capaz de transmitir mensagens; [...]

Alguns doutrinadores trazem a ideia de ―mídia de massa‖, a qual é entendida pela ampla variedade de formas, como televisão, jornais, cinema, revistas, rádio e internet, os quais chegam a audiências de massa, ou seja, atingem inúmeras pessoas ao mesmo tempo, sendo também, algumas vezes, denominada de comunicação de massa (GIDDENS, 2005, p. 367).

Como forma de apresentar a importância dos órgãos midiáticos, na segunda seção de estudo serão apresentados seus principais aspectos históricos e o panorama atual da mídia brasileira. A referida abordagem se faz pertinente na medida em que se objetiva analisar a influência desta frente as decisões proferidas pelo Tribunal do Júri

2.1 Apontamentos históricos e panorama atual da mídia

Desde o início da civilização o homem vem registrando de alguma forma seu cotidiano, buscando expressar e caracterizar suas ações e reações em algum tipo de material

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seja por desenhos em cavernas, nos primórdios, mais tarde pela invenção da escrita, chegando aos dias atuais, em que se vivenciam inúmeras formas de armazenamento e disseminação de informações.

Relatos históricos dão conta de que a mídia brasileira teria surgido a mais de duzentos anos, no ano de 1808, com a instalação do jornal, e segundo Lopes (apud ZOSSO, 2006, p. 11):

Em 1808 é que se caracteriza a instalação da imprensa escrita no Brasil, devido à transferência da Corte Portuguesa para o país. Denominada Imprensa Régia, ela produz o primeiro jornal feito no Brasil – A Gazeta do Rio de Janeiro, cujo primeiro exemplar circulou no dia 10 de setembro de 1808 e tinha por finalidade a divulgação dos editais oficiais emanados da Corte Portuguesa.

Passados alguns anos, já em 1923, eis que é fundada a primeira mídia eletrônica do Brasil, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro – AM, sendo este o meio de comunicação que mais contribuiu para o desenvolvimento da mídia brasileira. O novo mercado da comunicação começava a exigir a profissionalização dos que trabalhavam na área, sendo que fotógrafos, desenhistas e outros profissionais ganharam impulso técnico para atender as necessidades e exigências do mercado, seja ele nacional ou internacional (INCONTRI, 1991).

Alguns anos mais tarde, outro meio de comunicação, fruto do novo mercado da comunicação iniciado pelo rádio, surge: à televisão. Vale salientar que a instalação da televisão brasileira é consequência de ideias corajosas e inovadoras de seus fundadores, os quais enfrentaram diversas dificuldades, entre elas financeiras, tecnológicas e profissionais. A primeira televisão brasileira instalou-se em São Paulo, chamada de TV Tupi (INCONTRI, 1991).

Com o passar dos anos, os meios de comunicação cresceram de forma desenfreada, sobretudo por consequência da globalização. Atualmente o número de pessoas atingidas por meios de comunicação é imenso, afinal, o mundo está constantemente conectado, sobretudo devido às novas tecnologias, que nos permitem a troca instantânea de informações.

A intensa e constante troca de informações faz com que a sociedade esteja cada vez mais diante de realidades antes desconhecidas por ela. Isto resta demonstrado quando da ocorrência e divulgação de crimes bárbaros, que por sua vez geram em todos sentimento de

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insegurança e medo. Sobretudo, esta insegurança moderna, conforme o sociólogo Polonês Zigmunt Bauman (2005, p. 02) ―em suas várias manifestações, é caracterizada pelo medo dos crimes e dos criminosos.‖

Para a sociedade, os outros e suas intenções são tidos como responsáveis pela ocorrência de delitos, isto, pois, nos recusamos a confiar na estável e regular solidariedade humana, e este é motivo pelo qual sempre buscamos atribuir a alguém a prática de algo tido como errado, ilegal ou até mesmo imoral (BAUMAN, 2005).

Conforme Castel (apud, BAUMAN, 2005, p. 02) a culpa por este estado de coisas deve ser atribuída ao individualismo moderno, isto, pois

a sociedade moderna - substituindo as comunidades solidamente unidas e as corporações (que outrora definiam as regras de proteção e controlavam a aplicação dessas regras) pelo dever individual de cuidar de si próprio e de fazer por si mesmo - foi construída sobre a areia movediça da contingência: a insegurança e a idéia de que o perigo está em toda parte são inerentes a essa sociedade.

A fim de se destacar a força de alguns meios de comunicação em detrimento de outros, tem-se a Pesquisa Brasileira de Mídia 2015 conhecida pelas siglas PBM 2015, a qual apresenta informações que vem ao encontro da presente pesquisa. Segundo esta os brasileiros têm passado mais tempo navegando na internet do que assistindo televisão. Todavia, a televisão vem se mantendo como meio de comunicação predominante nas residências brasileiras (BRASIL, 2015).

Esta pesquisa foi realizada pelo Instituto IBOPE em todo o Brasil, através de licitação feita pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, e utilizou dados do Censo Demográfico de 2010 e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) 2011, sendo entrevistados 18.312 brasileiros.

Em relação à utilização da televisão, a pesquisa apresenta que a maioria dos entrevistados, aproximadamente 73%, faz uso dela todos os dias, em média 4 horas e 31 minutos, durante a semana, e 4 horas e 14 minutos, nos finais de semana, sendo que o horário com maior exposição a este meio de comunicação é das 18 às 23 horas (BRASIL, 2015).

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A pesquisa buscou também apresentar os motivos pelos quais as pessoas assistem TV, sendo que, destacam-se, 79% dos entrevistados em busca de informações, 67% objetivando diversão e entretenimento, 32% ocupar/passar o tempo livre, 19% devido a um programa específico e 11% buscam uma companhia (BRASIL, 2015).

Tem-se ainda um panorama sobre a estrutura de acesso a televisão, ou seja, os entrevistados foram questionados sobre a utilização de TV aberta, TV por antena parabólica ou TV paga. Com os resultados obtidos, ―é possível afirmar que 26% dos lares brasileiros são atendidos por um serviço pago de televisão, 23% por antena parabólica e 72% possuem acesso à TV aberta‖ (BRASIL, 2015).

Dos meios de comunicação, o rádio teve e continua tendo elevada importância na sociedade brasileira, sobretudo pela facilidade no acesso. Porém, sua utilização vem decaindo na comparação entre a PBM 2014 e a PBM 2015, de 61% para 55%. Em compensação, houve um aumento na quantidade de entrevistados que afirmam ouvir rádio todos os dias, de 21% em 2014 para 30% em 2015 (BRASIL, 2015).

As justificativas apresentadas para utilização do rádio são várias, dentre as quais se destacam a ―busca de informações (63%), diversão e entretenimento (62%) e como uma forma de passar ou aproveitar o tempo livre (30%)‖. Neste sentido, a pesquisa trata, ainda, que ―o rádio pode ser classificado – ao lado da televisão e da internet – como um meio de comunicação de utilidade híbrida, voltado tanto para o lazer quanto para o conhecimento sobre assuntos importantes do dia a dia das pessoas (BRASIL, 2015).

O hábito de ouvir rádio, diversamente da televisão, ocorre no período da manhã ―independentemente do dia da semana, em especial das 6h às 9h, quando se inicia um processo gradativo de perda de ouvintes‖, sendo que ―durante a semana, as pessoas se expõem mais ao meio, em média 3h 42 por dia, e aos sábados e domingos, 2h 33‖ (BRASIL, 2015).

Deve-se destacar ainda, a preferência dos brasileiros em relação às emissoras de rádio FM, isto, pois estas são as favoritas de ―74% dos brasileiros, enquanto 14% declararam gostar mais das AMs". Todavia, esta preferência varia de acordo com as diferenças regionais e sociais de nosso país, isto se observa, na medida em que os ―moradores do Sul do país ouvem mais rádios AMs (22%) do que a média nacional‖ (BRASIL, 2015).

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No tocante a outros meios de comunicação, não restam dúvidas, que o meio de comunicação do século XXI é a internet, sendo este o panorama observado pela pesquisa do Governo Federal, a qual aponta que 76% das pessoas utilizam a internet todos os dias em média 4 horas e 59 minutos durante a semana, e 4 horas e 24 minutos nos finais de semana (BRASIL, 2015).

Conforme a PBM 2015, os usuários

estão em busca, principalmente, de informações (67%) – sejam elas notícias sobre temas diversos ou informações de um modo geral –, de diversão e entretenimento (67%), de uma forma de passar o tempo livre (38%) e de estudo e aprendizagem (24%) (BRASIL, 2015).

Outra constatação importante, diz respeito às características da população brasileira que geram impacto no acesso a internet, principalmente quando comparada com outros meios e comunicação. Deve-se destacar as diferenças em relação à faixa etária dos usuários, a escolaridade e a renda destes.

De acordo com a Pesquisa Brasileira de Mídia já mencionada, o grau de escolaridade gera influência no acesso a internet, isto, pois entre os usuários que possuem ensino superior o acesso é diário para cerca de 72% deles, já entre as pessoas com até 4ª série os números caem bruscamente para 5% (BRASIL, 2015).

As características etárias e geracionais influenciam no acesso a internet, a PBM mostra que os jovens são a maioria dos usuários, isto, pois 65% dos jovens com 25 anos acessam diariamente a internet, já, para aqueles maiores de 65 anos, o percentual cai para 4% (BRASIL, 2015).

A renda é outro fator que gera influência no acesso a internet, isto, pois dentre aqueles que possuem renda familiar mensal de até um salário mínimo, o acesso, pelo menos uma vez por semana, é de 20%. Já naquelas famílias cuja renda familiar é superior a cinco salários mínimos, o percentual de acesso sobe para sobe para 76% (BRASIL, 2015).

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Esta imensa utilização da internet pelos jovens dá-se, sobretudo pela participação em redes sociais e programas de trocas de mensagens instantâneas. Conforme a pesquisa, o Facebook é o líder de acessos com 83%, seguido por Whatsapp (58%), Youtube (17%), Instagram (12%), Google + (8%) e Twitter (5%) (BRASIL, 2015).

A apresentação dos mencionados dados faz-se pertinente, pois se evidencia que a população mundial está vivendo em intensa e constante troca de informações através das redes sociais, as quais permitem tanto a troca de mensagens de cunho pessoal como a transmissão de informações de âmbito criminal, político, econômico, religioso. Ainda, importante destacar que a conexão entre os sujeitos, por intermédio das redes sociais, independe da localização geográfica em que estejam, bem como não é determinada pela classe social a que pertencem.

As redes sociais, presentes em todo o mundo, vêm sendo utilizadas, inclusive, por empresas, não apenas do ramo, mas também por aquelas que buscam rapidez e eficiência na prestação de seus serviços. Isto resta claro quando se observa a imensa quantidade de aplicativos para smartphones, objetivando a venda de eletrodomésticos, eletroeletrônicos, livros, artigos de vestuário dentre outros.

Outra importante contribuição das redes sociais reside na possibilidade de ―em poucos minutos‖ haver a reunião de um vasto grupo de pessoas para um determinado evento, como por exemplo, as recentes manifestações que usavam o slogan ―Vem Pra Rua Brasil‖, objetivando que a população se dirigisse às ruas de todo o país na busca do impeachment da ex-presidente Dilma Roussef.

No que tange a disseminação de informações de cunho criminal, as redes sociais têm destaque ainda mais importante, isto, pois, antes mesmo de ler um jornal, assistir um telejornal ou acessar um site de notícias, os indivíduos acessam as redes sociais e têm a sua disposição um vasto conteúdo informativo. Sobretudo, estas informações ganham maior força em sua divulgação pois relatam fatos causadores de perplexidade nos indivíduos.

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2.2 Influência sobre os julgamentos no Tribunal do Júri

A mídia exerce importantíssimo papel na sociedade, afinal é através dela que as informações são repassadas a população mundial. Todavia, o problema abordado pelo presente estudo está justamente neste ponto. Busca-se observar se há, de fato, influência dos órgãos da mídia sobre as decisões proferidas pelo Tribunal do Júri.

A influência da mídia não está limitada ao poder judiciário, mas também a compreensões que a própria sociedade tem de si e das instituições que a cercam, sendo que em alguns casos a mídia extrapola as suas funções assumindo tarefas que não lhe dizem respeito (ANDRADE, 2007, p. 9).

Ainda conforme o mesmo autor (2007, p. 9, grifo nosso),

Os motivos e os instrumentos pelos quais a mídia conduz a sua atuação nesta direção são variados. Na media em que os órgãos da mídia criam pautas, fixam agendas e divulgam o que bem entendem (selecionam, hierarquizam e divulgam as notícias), então se torna fácil legitimar-se junto à sociedade, influir em sua capacidade valorativa, manipular a opinião pública e distorcer os dados do processo judicial

em trâmite, por exemplo.

Em verdade o que se tem na sociedade brasileira e mundial é uma ―poderosa máquina‖, capaz de distorcer fatos, manipular opiniões e intervir diretamente na estrutura de outros poderes, principalmente no judiciário. Para que este sistema funcione, explica a juíza federal Salete Maccalóz (apud ANDRADE, 2007, p. 12, grifo nosso), é necessário que,

[...] os leigos, assim designados todos os que estão fora das atividades intelectuais e profissionais do direito, aceitam o discurso oficial, formatado nas altas cortes e

são capazes de repetir os argumentos de que a proposta reformista é boa para o

país, inclusive para eles.

Na atualidade o que se tem é o controle dos meios de comunicação por parte de algumas empresas do ramo, as quais buscando sempre manter-se no topo da audiência acabam criando realidades, distorcendo fatos e veiculando notícias com apresentação espetacular e manipuladora.

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Quando se fala da influência da mídia no processo penal, especificamente na atuação do Júri Popular, deve-se ter em mente as palavras de Habermas (apud Geraldo Prado, 2006, p. 162, grifo nosso) sobre a publicidade:

[...] os processos penais que são suficientemente interessantes para serem documentados e badalados pelos meios de comunicação de massa, invertem, de modo análogo, o princípio crítico da ‗PUBLICIDADE‘, do tornar público; ao invés

de controlar o exercício da justiça por meio dos cidadãos reunidos, serve cada vez mais para preparar processos trabalhados judicialmente para a cultura de massas dos consumidores arrebanhados.

Neste sentido, é notório que a intensa cobertura de causas penais de ampla repercussão gera um processo paralelo, o qual é superficial e com carga emotiva capaz de gerar um processo desigual às partes que litigam. Isto ocorre, pois os envolvidos deixam de ter igualdade de oportunidades para expor seus pontos de vista, pois a mídia já trouxe a versão tida como verdadeira (PRADO, 2006).

A ocorrência do chamado processo paralelo, que acarreta desigualdade às partes, deve ser eliminada na medida em que a todo processo penal deve ser aplicado o princípio da igualdade processual, o qual segundo Capez (2012, p. 64, grifo nosso) consiste em um

desdobramento do princípio consignado na Constituição Federal, art. 5º, caput, de que todas as pessoas são iguais perante a lei. Dessa forma, as partes devem ter, em

juízo, as mesmas oportunidades de fazer valer suas razões, e ser tratadas igualitariamente, na medida de suas igualdades, e desigualmente, na proporção de suas desigualdades (CF, art. 5º, caput).

A mídia, conforme Prado (2006, p. 163), é capaz, ainda, de violar o princípio da presunção de inocência, isto, pois,

[...] a imagem do investigado é difundida como da pessoa responsável pela infração penal; e, em vista disso, o desequilíbrio de posições que os sujeitos têm de suportar durante o período de exposição do caso pela mídia transfigura os procedimentos seculares de apuração e punição, passando subliminarmente a idéia do caráter obsoleto e ineficiente das garantias processuais, a que se soma a percepção do processo penal como meio demorado de se fazer justiça em comparação com a ―célere‖ e ―perfeita‖ investigação da mídia.

Lamentável que a mídia exerça tal papel sobre o processo penal, especialmente os de competência do Júri Popular, pois a presunção de inocência é o maior e mais importante princípio do ordenamento jurídico pátrio, afinal, sem que haja a devida condenação penal,

Referências

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