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Violência contra a mulher e a legislação protetiva

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Academic year: 2021

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GRANDE DO SUL

HENRIQUE ROBERTO SCHEUERMANN

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER E A LEGISLAÇÃO PROTETIVA

Ijuí (RS) 2017

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HENRIQUE ROBERTO SCHEUERMANN

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER E A LEGISLAÇÃO PROTETIVA

Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Trabalho de Curso - TC.

UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.

DEJ- Departamento de Estudos Jurídicos.

Orientadora: MSc. Diolinda Kurrle Hannusch

Ijuí (RS) 2017

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Dedico este trabalho à minha família, pelo incentivo, apoio e confiança em mim

depositados durante toda a minha

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AGRADECIMENTOS

À minha família, que sempre esteve ao meu lado me dando confiança, e suporte para superar as dificuldades e avançar nos objetivos postulados. É a família que faz a vida valer a pena.

À minha orientadora Diolinda Kurrle Hannusch, pela dedicação e seus ensinamentos, os quais foram fundamentais para a concretização desta etapa.

Por fim, meu agradecimento as demais pessoas que contribuíram direta ou indiretamente para a realização deste trabalho.

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“Violência não é um sinal de força, a violência é um sinal de desespero e fraqueza.” Dalai Lama.

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O presente trabalho de conclusão de curso faz uma abordagem sobre a violência contra a mulher e suas diferentes formas em nosso país. Além disso analisa todo o aspecto histórico de vulnerabilidade e discriminação contra a mulher, abordando as questões socioeconômicas, culturais, jurídicas da mesma, iniciando nas primeiras civilizações do Brasil até chegar nos dias de hoje. Analisa também a evolução dos direitos conquistados pelas mulheres até chegar às Leis 11.340/2006 e 13.104/2015. Faz uma breve analise da concepção de mulher atualmente para fins de aplicação dessas leis. Por fim explora as inovações e obstáculos trazidos pela lei Maria da Penha e as características da lei do Feminicidio.

Palavras-Chave: Violência contra a mulher. Vulnerabilidade da mulher. Legislação protetiva.

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The present undergraduate thesis makes an approach on the topic of violence against women and its different forms in our country. Furthermore, it analyses the whole historical aspect of vulnerability and discrimination against women, approaching the socioeconomic, cultural and legal aspects of it, starting from the first Brazilian civilizations up to nowadays. It also analyses the evolution of the rights achieved by women as far as the laws 11.340/2006 and 13.104/2015. It conducts a brief analysis of the current concept of woman considered for the purposes of enforcement of those laws. Finally, it explores the innovations and obstacles brought by the Maria da Penha law and the characteristics of the Femicide law.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 07

1 ASPECTOS HISTÓRICOS RELACIONADOS A VULNERABILIDADE DA MULHER NO BRASIL ... 09

1.1 Aspectos socioeconômicos e culturais da mulher no Brasil ... 10

1.2 Aspectos jurídicos e os avanços na busca pela diminuição da desigualdade ... 15

2 VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER ... 19

2.1 Concepções de mulher ... 19

2.1.1 Critério Biológico ... 19

2.1.2 Critério Juridico ... 20

2.1.3 Critério Psicológico... 20

2.2 A violência contra a mulher e suas diferentes formas... 22

3 A LEGISLAÇÃO PROTETIVA ... 27

3.1 Novidades e obstáculos na aplicação da lei 11.340/ 2006 ... 27

3.2 O ingresso da lei 13.104/2015 ... 31

3.2.1 O conceito de feminicidio ... 32

3.2.2 Espécies de feminicidio ... 33

3.2.3 O feminicidio como circunstância qualificadora no crime de homicídio .. 35

3.2.4 O feminicidio é circunstância qualificadora de natureza objetiva ou subjetiva?... 36

CONCLUSÃO ... 39

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INTRODUÇÃO

O presente trabalho apresenta um estudo acerca da violência contra a mulher e a legislação protetiva. Buscando uma maior compreensão com relação a história das lutas de gênero e os avanços significativos referentes à igualdade entre o homem e a mulher, até chegar na sociedade contemporânea e suas legislações protetivas.

A análise da evolução histórica da proteção das mulheres evidencia que estas sofreram e ainda vem sofrendo com a desigualdade de gênero, muitas delas violentadas e assassinadas tão somente pelo fato de serem do sexo feminino. Denota-se que tais ocorrências fazem parte de uma constante violência de gênero, configurada em crimes de estupro, lesões corporais, abusos sexuais, torturas, incestos entre outros. Ao analisar tal cenário, verificamos que a sociedade contemporânea ainda sofre os reflexos das sociedades antigas, patriarcais e machistas.

No Brasil a Lei 11.340/2006, conhecida como lei Maria da Penha é um marco na proteção e coibição das violências contra as mulheres, recentemente complementada pela Lei 13.104/2015 que inclui a circunstância qualificadora, denominada de feminicidio, no crime de homicídio, quando o crime ocorrer por razões de gênero.

A relevância desse estudo é evidente, uma vez que o assunto tem grande repercussão no mundo e principalmente em nosso país. A mídia está dando importante visibilidade ao tema, fazendo com que as pessoas cada vez mais reflitam

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acerca da violência contra a mulher, assim como os operadores do direito estão se envolvendo em inúmeros debates sobre as inovações e obstáculos trazidos pelas legislações protetivas.

Para a realização deste trabalho foram realizadas pesquisas bibliográficas por meio de livros físicos, e a fim de uma maior compreensão e coleta de informações foi realizado também pesquisas por meio eletrônico, com a leitura de artigos, capítulos de livros, teses e monografias.

O estudo se divide em três capítulos. O primeiro faz uma abordagem acerca da vulnerabilidade vivenciada pela mulher nas sociedades antigas, referente ao aspecto socioeconômico e cultural. Ou seja, como era a cultura e as relações da mulher desde o Brasil Colônia até o início do século XX, incluindo a referência aos importantes avanços jurídicos conquistados pela mulher.

No segundo capítulo, analisa-se inicialmente, quais as concepções de mulher, para fins de aplicar as legislações protetivas, bem como o conceito de violência e as formas de violência contra a mulher.

Por sua vez, no terceiro capítulo é realizado um estudo sobre as inovações e obstáculos da lei 11.340/2006, e a inclusão da lei 13.104/2015, que trata do feminicidio.

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1 ASPECTOS HISTÓRICOS RELACIONADOS A VULNERABILIDADE DA MULHER NO BRASIL

No presente capítulo serão abordados os aspectos históricos relacionados à vulnerabilidade da mulher em nosso país, destacando os aspectos socioeconômicos e culturais de uma discriminação e desigualdade identificadas desde os primórdios das sociedades antigas e ainda vista nos dias de hoje. Ademais, também será abordado o aspecto jurídico dessa vulnerabilidade existente entre homem e mulher, visto que é evidente que a mulher sempre esteve atrás do homem, quando falamos em direitos.

É importante abordar esses aspectos históricos, na busca de ser ter um maior conhecimento sobre acontecimentos passados, além de podermos verificar os impactos que isso teve na construção de nossa sociedade contemporânea. Ou seja, o que passamos até chegarmos nos dias de hoje, que ainda revelam a existência de uma desigualdade material entre homem e mulher.

Antes de falarmos sobre a mulher durante a história do Brasil, imperioso fazer alguns comentários sobre alguns pensamentos de filósofos da Grécia antiga referente a mulher.

A mulher sempre foi vista como um ser inferior e tratada como se fosse um objeto. Desde o início das civilizações elas foram discriminadas pelo simples fato de serem mulheres. Com o surgimento das primeiras famílias, as funções de homem e mulher foram dividas, o homem por ter mais força teve o papel de conseguir a comida, seja caçando, pescando, plantando. Além disso, tinha a função de proteger sua família. Por sua vez, a mulher tinha as funções domésticas.

Com isso, o homem possuía o entendimento de ser a pessoa que podia exteriorizar as relações sociais, ter vida pública, e a mulher como ser inferior, seja pelo corpo fraco ou por sua mente sensível, somente cabia a ela desempenhar as funções na vida privada, dentro de casa, e ser submissa a ele.

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Nesse sentido, Aristóteles (apud Ferreira, 2007, p.144) referente à mulher nos diz que “a palidez e a ausência de vasos sanguíneos [na mulher] é sempre mais

visível, e é óbvio o desenvolvimento deficiente do seu corpo comparado com o do homem”.

Aristóteles reservava a mulher um papel de submissão e condicionada à obediência do homem, aduzindo que a mulher não era merecedora de nenhum destaque, e tampouco de igualdade em relação ao homem.

Por sua vez, o filósofo Platão acreditava na igualdade dos seres, e que a mulher devidamente educada poderia comandar o estado. Porem ele faz referência a mulher como “mais débil” que o homem, presando dessa maneira, por um modelo masculino para comandar as mais variadas atividades.

Não há na administração da cidade, nenhuma ocupação, meu amigo, própria da mulher enquanto mulher, nem do homem, enquanto homem, mas as qualidades naturais estão distribuídas de modo semelhante em ambos os seres, e a mulher participa de todas as actividades, de acordo com a natureza, e o homem também, conquanto em todas elas a mulher seja mais débil do que o homem. (Grifei) (Platão apud Ferreira, p.141, 2007):

Destarte, são dois pensamentos de importantes filósofos da Grécia antiga, aproximadamente 400 A.C, que nos remete ao quanto à mulher era menosprezada desde os primórdios das civilizações.

1.1 Aspectos socioeconômicos e culturais da mulher no Brasil

No Brasil, muito anteriormente à chegada dos portugueses as mulheres nativas já exerciam funções na agricultura. As ameríndias como eram chamadas, eram encarregadas pelas atividades de campo e cuidado dos filhos, enquanto as atividades dos homens eram associadas às artes. Apesar disso, na cultura indígena as meninas eram educadas a serem inferiores e submissas aos meninos, evidenciando uma cultura de menosprezo à condição da mulher. (BASEGGIO E SILVA, 2015).

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Com a chegada dos portugueses no século XVI, época da colonização, a mulher nativa passou a ser vista como objeto sexual por parte dos colonizadores, os quais estavam deslumbrados pelas mulatas e negras que viviam na terra. Com o governo português se consolidando, ocorreu uma tentativa de escravização dos índios, porem em um primeiro momento não se concretizou. Anos depois os jesuítas conseguiram mudar diversos hábitos e costumes dos nativos. (BASEGGIO E SILVA, 2015).

A partir daí quem mais se prejudicou com essa mudança cultural foram as mulheres, as quais eram acostumadas à nudez e tiveram que passar a usar roupas de acordo a moral e os bons costumes das mulheres europeias. No entanto, ainda continuavam sendo objetos sexuais, e atribuídas ao pecado.

Com a chegada de milhares de escravos africanos, se estabelecia uma divisão entre as mulheres. As negras viraram escravas da senzala, e as mulheres brancas dos portugueses, ao chegarem ao Brasil, encontraram seus maridos com diversos filhos de nativas, cabendo às mesmas somente cuidar da casa e dos herdeiros junto com as escravas negras, sendo excluídas do convívio social. No que tange as mulheres brancas e solteiras, essas se tornavam prostitutas. Dessa forma a relação machista e de superioridade do homem sobre a mulher se fixava cada vez mais. Baseggio e Silva (2015).

A partir do século XVII houve maior incidência e imposição da igreja, fazendo com que algumas práticas costumeiras virassem pecados, tais como ter filhos antes do casamento e a poligamia. Nesse sentido Alves (apud Baseggio e Silva, 2015, p.25):

Basta ver que no Brasil de 1650 não existiam tabus como o da virgindade obrigatória até o casamento. Quebrado em tempos modernos, esse tabu ainda estava por nascer em 1600, e até o século XVIII era difícil achar alguém que se casasse sem antes ter tido relações sexuais. Mas o motivo era bem diferente do atual. É que, naquela época, ter filhos era muito importante. A mulher precisava provar ao homem que era fértil, engravidando antes do compromisso, uma regra consentida por toda a comunidade inclusive pela Igreja, desde que tudo terminasse em casamento.

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Com efeito, nos séculos XVII e XVIII, a sociedade hierárquica e patriarcal, comandada pela Igreja Católica e conexa com o estado, alterou as regras e os costumes. Uma das maiores mudanças foi à exigência do casamento, o que ocasionou mudanças no modo como à sociedade se comportava. As mulheres brancas de família passaram a serem vistas como geradoras de herdeiros, dignas de elevada moral e bons costumes. Por conseguinte, a família passou a presar pela fama e comportamento das filhas pensando em um futuro casamento. Dessa maneira colocavam as mesmas em conventos. Entretanto, denota-se que as mulheres eram apenas educadas a trabalharem na esfera doméstica, para serem boas esposas e mães. Ou seja, nos remete a visão da mulher perfeita da época, aquela que era submissa, fiel e obediente ao marido.

Nesse sentido, o conhecido filósofo iluminista Jean Jacques Rousseau traduziu o pensamento não só do Brasil, mas do mundo, no século XVIII, no sentido de inferiorizar a mulher, e confinar a mesma no âmbito doméstico. O autor acreditava que a desigualdade entre os gêneros advinha da razão. Rousseau (apud Souza, 2014, p. 151) afirma:

Quando a mulher se queixa da injusta desigualdade que o homem impõe, não tem razão; essa desigualdade não é uma instituição humana ou, pelo menos, obra do preconceito, e sim da razão: cabe a

quem a natureza encarregou do cuidado dos filhos a

responsabilidade disso perante o outro.

Ainda, por se ter uma desigualdade de gênero, o autor acreditava que homem e mulher mereciam ter uma educação diferenciada, limitando a mulher nas obrigações de seu sexo, seja nas tarefas do lar, seja obedecendo o homem.

Uma vez demonstrado que o homem e a mulher não devem ser constituídos da mesma maneira, nem de caráter nem de temperamento, segue-se que não devem receber a mesma educação. Seguindo as diretrizes da natureza, devem agir de acordo, mas não devem fazer as mesmas coisas: o fim dos trabalhos é o mesmo, mas os trabalhos são diferentes e, por conseguinte, os

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Destarte, a igreja mudou o paradigma vivido no mundo naquela época, alterando o “status” da mulher. As funções da mesma se restringiram a esfera doméstica e familiar, tornando-a cada vez mais submissa e obediente ao homem.

No século XIX também era evidente a vulnerabilidade sofrida pela mulher com relação ao homem. A mulher ainda era dependente social e economicamente ao homem, e submissa ao extremo. Na época, a mulher precisava de características que a tornasse desejável ao seu marido.

No ocidente, em 1857, com impactos no Brasil, foi aprovada a lei do divórcio, definindo diferentes parâmetros morais ao homem e a mulher. O homem poderia conseguir a dissolução do casamento em caso de provas da infidelidade. Por sua vez a mulher para conseguir a dissolução teria que comprovar a infidelidade e a crueldade imposta. Ainda sobre o casamento, havia raras aprovações da família para uma decisão pessoal da escolha do parceiro para casar. Eram as famílias que escolhiam com quem, e quando os filhos iriam casar. (MACHADO, 2004).

Também sobre esse período, imperioso trazermos o depoimento de Louisa Garrett Anderson referente à educação das mulheres:

“... os pais acreditavam que uma educação séria para suas filhas era algo supérfluo: modos, música e um pouco de francês seria o suficiente para elas. Aprender aritmética não ajudará minha filha a encontrar um marido, esse era um pensamento comum. Uma governanta em casa, por um breve período, era o destino habitual das meninas. Seus irmãos deviam ir para escolas públicas e universidades, mas a casa era considerada o lugar certo para suas irmãs. Alguns pais mandavam suas filhas para escolas, mas boas escolas para garotas não existiam. Os professores não tinham boa formação e não eram bem educados. Nenhum exame público (para escolas) aceitava candidatas mulheres". (ANDERSON 1831, apud MACHADO, 2004).

Apesar da vulnerabilidade e a restrição da mulher no âmbito privado, o Brasil, somente no fim do século XIX e início do século XX, foi marcado por algumas transformações oriundas das revoluções ocorridas principalmente nos Estados Unidos e no continente europeu. Grupos sociais dão maior visibilidade às ideias inovadoras relacionadas à educação e religião.

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Esses grupos sociais tinham o intuito de abrir as portas para a educação das mulheres, sobretudo que as mesmas além de educarem seus filhos na esfera privada, pudessem exercer a função de educadora de outras crianças, adquirindo reconhecimento na esfera pública. Com isso, as mulheres ganharam campo na área da educação e, por conseguinte promoveram discussões acerca de seu papel na sociedade. Ademais, aos poucos conseguiram mudar o parâmetro econômico, uma vez que conseguiam obter seu sustento, diminuindo a dependência e subordinação que havia em relação ao homem.

Nesse sentido, Oliveira (2008, p.04) nos elucida:

A história da civilização das mulheres passa também pelos ideais iluministas e progressistas presentes no século XIX. A presença da mulher na esfera pública passa ser vista como um avanço na perspectiva de progresso e melhoria da sociedade, a partir do paradigma da evolução. Deste modo, a educação e religião protestante caminham juntas no propósito modernizador da sociedade brasileira postulado por líderes republicanos na época. A história da educação se entrelaça com a historia das mulheres no Brasil, quando estas encontram no espaço educacional ressonância para os seus desejos de liberdade e emancipação, ainda que esta venha com aspectos de conformação com o poder instituído.

No século XX a grande parte das faculdades para mulheres se concentrava na região Rio/São Paulo, devido ser o grande centro da economia no país. Esse século se destacou por grandes mudanças, tendo a mulher se distanciado da ideologia dos séculos passados.

No espaço em que era (e é agora) permitido que a mulher transitasse. Depois da década de 30, quando ela nem podia sair à rua para fazer compras, a não ser que estivesse acompanhada por uma pessoa mais velha, por uma criada, ou pelo próprio marido, o direito de ir e vir vai surgindo e cada vez se tornando maior, sendo poucos os ambientes (se comparados com o que acontecia antes) em que existe a proibição ou a não recomendação de sua presença. (ALVES, 2001).

Por conseguinte, a mulher por estar mais presente na sociedade começou a conquistar espaço no mercado de trabalho. Todavia, ainda necessitava cuidar do ambiente doméstico e dos filhos. E nesse sentido, ao trabalhar em casa, e ainda no

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âmbito externo, ela começou a obter reconhecimento pela sociedade, se comparado com as épocas passadas.

Apesar disso, a desigualdade e a discriminação ainda eram vistas, e a partir da metade do século XX, movimentos feministas foram ganhando força, bem como foram importantes para a conquista de diversos direitos sociais, na busca pela diminuição dessa desigualdade e discriminação.

Portanto, depois de todo esse processo de discriminação e desigualdade no Brasil, além de vulnerável, a mulher sempre andou atrás do homem no que se refere a direitos, e o século XX e sua transição para o século XXI, foram um marco na conquista de importantes direitos sociais, e de uma maior igualdade. Dessa forma, veremos a seguir avanços jurídicos relacionados à mulher.

1.2 Aspectos jurídicos e os avanços na busca pela diminuição da desigualdade

Verifica-se que o século XX foi o período marcado pelas conquistas femininas, devido ao grande esforço de inúmeras mulheres que se envolveram em movimentos sociais de afirmação dos direitos, e rompimento de barreiras impostas pelos homens.

Um importante direito adquirido pela mulher no século XX foi à conquista do direito ao voto. Após a proclamação da república em 1889, o sistema político abriu caminho para manifestos e lutas sociais. Em 23 de dezembro de 1910 foi criado o Partido Republicano Feminino (PRF), tendo como objetivo fazer com que a mulher tivesse direito a voto. O estado do Rio Grande do Norte concebeu em 1927 o primeiro voto feminino devido a Constituição do Estado fazer menção ao voto sem distinção. Em 1932 foi permitido o voto para algumas mulheres, tais como as casadas, e as solteiras ou viúvas que possuíam renda própria.

Na seara trabalhista, o primeiro importante avanço também foi na constituição de 1932 que apontou “sem distinção de sexo, a todo trabalho de igual valor correspondente salário igual; veda-se o trabalho feminino das 22 horas às 5 horas da manhã; é proibido o trabalho da mulher gravida durante o período de quatro

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semanas antes do parto e quatro semanas depois; é proibido despedir mulher grávida pelo simples fato da gravidez”.

Finalmente, em 1934 com o Código Eleitoral as restrições do voto feminino foram eliminadas e as mulheres puderam votar, entretanto sem obrigatoriedade, que veio em 1946.

Em 27 de agosto de 1962, foi sancionada a lei 4.121, que transformou os direitos e deveres da mulher em relação à família. A lei foi denominada Estatuto da mulher casada e modificou alguns artigos do código civil de 1916. Com o advento da lei, o marido deixou de ser a autoridade da sociedade conjugal, e a mulher conquistou a igualdade perante o marido. Ademais tornou a mulher capaz para a realização de atos da vida civil, além de economicamente ativa. Ainda, conseguiu o direito de requisitar a guarda dos filhos em caso de separação.

Nesse sentido, o Estatuto da mulher casada trouxe alterações que modificaram o antigo sistema familiar patriarcal em que o homem era o dono da sociedade conjugal e a mulher não tinha nenhum poder na relação conjugal.

Outro fato digno de destaque no Brasil, é que a partir de meados dos anos 60, nosso país adotou lembrar o dia 08 de março, como o dia internacional da mulher. Uma vez que nessa data, no ano de 1857, mulheres de uma fábrica têxtil de Nova York ao realizarem uma greve e reivindicarem melhores condições de trabalho, foram trancadas dentro da fábrica e incendiadas, resultando na morte de aproximadamente 130 mulheres.

Seguindo a ordem dos avanços, em 1983 foi criado o Conselho Estadual da Condição Feminina, que tem como meta a conexão entre o poder público e a sociedade, no intuito de criar políticas públicas e da fiscalização das que já existiam.

Ainda na década de 80 foi onde surgiu a SOS – Mulher, onde alguns grupos de feministas possuíam o objetivo de prestar auxílio às mulheres vítimas de violência, bem como ofertar suporte psicológico. E logo em seguida, as Delegacias da Mulher viraram a primeira política pública no que se refere à violência domestica.

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Nesse sentido Ferraz (2016, p.248) explica:

AS Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMS) constituem o principal serviço da rede socioassistencial. Em certa medida, seu protagonismo se explica não apenas pelo fato de ter

sido a primeira politica publica de segurança destinada

exclusivamente às mulheres. mas porque o Brasil foi também o primeiro país do mundo a ter uma Delegacia Especializada: a Delegacia da Mulher da Praça da Sé, inaugurada em agosto de 1985.

Todavia, um dos principais avanços, se não o maior foi à promulgação da Constituição Federal de 1988, que teve como objetivo assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade, entre outros.

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição; (BRASIL, Constituição Federal Brasileira, 1988).

Inobstante o artigo 226, §5 nos diz que “Os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exercidos igualmente pelo homem e pela mulher”.

Outro marco jurídico foi em 1993, ano em que foi realizada a Conferencia Mundial de Direitos Humanos, oportunidade em que os estados membros adotaram o compromisso de eliminar a violência contra as mulheres.

Em 1996 o Congresso Nacional incluiu o sistema de cotas em nossa legislação eleitoral, impondo que os partidos políticos deveriam inscrever no mínimo 20% nas chapas proporcionais. Nesse sentido, as mulheres ganharam espaço no governo, principalmente no poder legislativo. Esse avanço, por consequência, teve impacto no congresso e proporcionou maiores debates e ideias relacionadas à criação de mais politicas públicas no enfrentamento da discriminação contra a mulher.

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E 10 anos depois, o Brasil dava mais um passo na luta contra a violência e discriminação contra a mulher. Mais precisamente no dia 07 de agosto de 2006, foi sancionada a lei 11.340/2006, denominada como Lei Maria da Penha, com a finalidade de proporcionar instrumentos de coibição, prevenção e erradicação” da violência doméstica e familiar contra a mulher, garantindo sua integridade física, psíquica, sexual, moral e patrimonial.

O nome da lei foi em homenagem a Maria da Penha Maia que em 1983 foi vítima de tuas tentativas de homicídio por parte de seu marido, a primeira deixou a mesma paraplégica e a segunda o agressor tentou eletrocutar a vítima. In casu, o agressor conseguiu por meios jurídicos protelar o cumprimento da sentença, e após o caso chegar a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Marco Antonio Herredia, agressor e marido de Maria da Penha foi preso no ano de 2002, ou seja, quase 20 anos após o fato.

Em meio aos avanços jurídicos, um ocorreu no dia 01 de janeiro de 2011, ocasião em que Dilma Rousseff tomou posse como a primeira presidenta da história do Brasil. Ou seja, após toda a luta das mulheres por espaço social, cultural, econômico e jurídico, em fim uma mulher comandava nosso país.

Por fim, um dos últimos avanços jurídicos ocorridos no Brasil, foi em 09 de março de 2015, oportunidade em que foi sancionada a lei 13.104/2015, que alterou o artigo 121 do Código Penal, incluindo o feminicidio como circunstância qualificadora do crime de homicídio. Ou seja, qualificou o crime de homicídio, quando o assassinato de mulheres ocorrer em razão da condição feminina, e menosprezo contra a mulher.

Dessa forma, esses foram alguns dos importantes avanços conquistados pelas mulheres, tanto culturalmente e socialmente, quanto juridicamente, todos em sintonia contribuíram para a diminuição da vulnerabilidade e discriminação contra a mulher.

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2 VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

Após uma análise sobre a vulnerabilidade e discriminação contra a mulher durante o passar da história no Brasil, abordando aspectos socioeconômicos, culturais, além dos avanços jurídicos, enfrentar-se á neste segundo capitulo, as concepções de mulher nos dias de hoje para fins de aplicação das leis, bem como a violência contra a mulher e suas diferentes formas.

2.1 Concepções de mulher

Sobre o conceito de mulher, verifica-se que ao longo da história esse conceito foi muito claro e sem muitas polêmicas e questionamentos. Dessa forma, denota-se que a partir do século XXI a concepção de mulher vem sendo modificada, uma vez que com a evolução da sociedade, novos conceitos referentes ao gênero foram sendo incluídos em nosso dia a dia.

As leis 11.340/2006 e 13.104/2015 possuem como sujeito passivo a mulher, então antes da análise das leis, se faz necessário definir o que é mulher para que seja esclarecido o alcance fático das normas protetivas. Alguns doutrinadores possuem um entendimento no sentido de serem três, os critérios para identificar a mulher. São eles, o biológico, o psicológico e o jurídico.

2.1.1 Critério Biológico

Referente ao critério biológico, Barros (2016) afirma:

O critério biológico identifica homem ou mulher pelo sexo morfológico, sexo genético e sexo endócrino: a) sexomorfológico ou somático resulta da soma das características genitais (órgão genitais externos, pênis e vagina, e órgãos genitais internos, testículos e

ovários) e extragenitais somáticas (caracteres secundários –

desenvolvimento de mamas, dos pelos pubianos, timbre de voz, etc.); b) sexo genético ou cromossômico é responsável pela determinação do sexo do indivíduo por meio dos genes ou pares de cromossomos sexuais (XY – masculino e XX – feminino); e c) sexo

endócrino é identificado nas glândulas sexuais, nos testículos e nos

ovários, que produzem hormônios sexuais (testosterona e progesterona) responsáveis em conceder à pessoa atributos masculino ou feminino. (BARROS, 2016, p.51).

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Esse critério nos remete a genética, no sentido que leva em consideração a mulher como a soma de diversas características, tais como os órgãos sexuais e outras peculiaridades e individualidades do corpo humano.

2.1.2 Critério Jurídico

O critério jurídico refere que o sexo é definido pelo que consta no registro civil do indivíduo, é o mais utilizado pelos julgadores e operadores de direito. Com relação à alteração do registro civil, Greco (apud Barros, 2016, p.51) nos diz:

[...]No entanto, se houver determinação judicial para a modificação do registro de nascimento, alterando-se o sexo do peticionário, teremos um novo conceito de mulher, que deixará de ser natural, orgânico, passando, agora, a um conceito de natureza jurídica,

determinado pelos julgadores, (GRECO, 2015, apud BARROS,

2016, p.51).

Ou seja, o critério jurídico não está vinculado apenas ao critério biológico, podendo decorrer do critério psicológico reconhecido em decisão judicial.

2.1.3 Critério Psicológico

Por sua vez, o critério psicológico é um critério novo, que se tornou mais utilizado a partir do século XXI, com a globalização e a luta de classes, foi se tornando conhecido pela sociedade.

Em regra, homens e mulheres, apresentam características sexuais do sexo biológico, entretanto, algumas pessoas entendem e sentem que não pertencem ao sexo biológico em que seus corpos estão. Isso chama-se de transexualismo.

Greco (apud FRANÇA 2015, p.62) esclarece sobre o transexualismo:

inversão psicossocial, uma aversão ou negação ao sexo de origem, o que leva esses indivíduos a protestarem e insistirem numa forma de cura por meio da cirurgia de reversão genital, assumindo, assim, a identidade do seu desejado gênero. As características clínicas do

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transexualismo se reforçam com a evidência de uma convicção de pertencer ao sexo oposto, o que lhe faz contestar e valer essa determinação até de forma violenta e desesperada. (GRECO, 2015, p.62 apud FRANÇA)

Ainda, sobre o transexualismo, Cruz (2009) informa:

O transexualismo é definido como patologia pela Organização Mundial de Saúde (OMS), na Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento (CID 10) que reconhece como um transtorno de identidade sexual desde 1993. É considerado uma anomalia da identidade sexual, onde o indivíduo se identifica psíquica e socialmente com o sexo oposto aos que lhe fora determinado pelo

registro civil. (CRUZ 2009, p. XI)

Barros (2016) salienta que para pessoas que possuem esse tipo de comportamento, existe a possibilidade de ser realizada a cirurgia denominada neocolpovulvoplastia, que tem como objetivo a adequação de sexo. Refere também que essa cirurgia modifica os aspectos estéticos e não genéticos, e possui duas fases, a primeira é a retirada do pênis e a formação da cavidade vaginal e a segunda é mudança plástica.

Imperioso mencionar a recente decisão do dia 09 de maio de 2017, da 4º Turma do Superior Tribunal de Justiça1, a qual decidiu que todos os transexuais podem alterar o seu gênero no registro civil e não somente as pessoas que haviam feito à cirurgia de adequação. Esse entendimento foi ajustado sob a ótica que o direito do transexual não pode ser vinculado somente a quem tem condições financeiras ou médicas para realizar a cirurgia. Agora, a pessoa deverá comprovar sua transexualidade por meio de avaliação psicológica pericial.

O relator da decisão argumentou que apenas a alteração do nome não é suficiente para efetivar o princípio da dignidade da pessoa humana, e dessa forma Salomão (2017) ressalta:

1 Referente à mencionada decisão da 4º Turma do Superior Tribunal de Justiça, não é possível referir

o número do acórdão e do processo, devido a não divulgação em razão de segredo judicial, conforme http://www.stj.jus.br/sites/STJ/default/pt_BR/Comunica%C3%A7%C3%A3o/noticias/Not%C3%ADcias/

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Se a mudança do prenome configura alteração de gênero (masculino para feminino ou vice-versa), a manutenção do sexo constante do registro civil preservará a incongruência entre os dados assentados e a identidade de gênero da pessoa, a qual continuará suscetível a toda sorte de constrangimentos na vida civil, configurando-se, a meu

juízo, flagrante atentado a direito existencial inerente à

personalidade. (Desconhecido, 2017 apud Salomão, 2017)

Dessa forma, o colegiado entendeu que, no que tange a definição de gênero, além da informação Biológica, a Jurídica, deverá ser levado em consideração, a psicológica também.

Para exemplificar, e trazer questões de fato, Barros (2016) nos traz uma indagação:

Problematização I: Tício fez um procedimento cirúrgico denominado neocolpovulvoplastia alterando genitália masculina para feminina; ato contínuo, Tício, por meio de uma ação judicial, muda o seu nome para Tícia e, consequentemente, todos os seus documentos são alterados. Posteriormente, em uma discussão motivada pela opção sexual de Tícia, Seprônio disparou 5 tiros, assassinando-a. Pergunta-se: Seprônio será denunciado por homicídio com a qualificadora do

inciso VI (Se o homicídio é cometido: [...] VI – contra a mulher por

razões de gênero)? (Barros, 2016, p.49).

Assim sendo, são esses os critérios utilizados para conceitualizar a mulher, no sentido de dar embasamento e uma maior compreensão para aplicação da legislação penal, uma vez que se faz necessário em casos práticos ter conhecimento de quem pode ser considerada mulher.

2.2 A violência contra a mulher e suas diferentes formas

A palavra Violência surge do latim e significa força contra alguma coisa ou indivíduo. Ou seja, é a coercibilidade que traz prejuízos, ferimentos para outra pessoa ou objeto.

Para Salviano (2016 apud Viela, 1985):

Violência é toda iniciativa que procura exercer coação sobre a liberdade de alguém, que tenta impedir-lhe a liberdade de reflexão,

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de julgamento, dedicação e que, termina por rebaixar alguém a nível de meio ou instrumento num projeto, que a absorve e engloba, sem trata-lo como parceiro livre e igual. A violência é uma tentativa de diminuir alguém, de constranger alguém a renegar-se a si mesmo, a resignar-se à situação que lhe é proposta, a renunciar a toda a luta, abdicar de si. (Salviano, 2016, p.01).

Nesse sentido, importante trazer outro conceito, conforme Michaud (apud Porto, 2002, p. 01).

Há violência quando, numa situação de interação, um ou vários atores agem de maneira direta ou indireta, maciça ou esparsa, causando danos a uma ou várias pessoas em graus variáveis, seja em sua integridade física, seja em sua integridade moral, em suas posses, ou em participações simbólicas e culturais. ( Michaud, apud Porto, 2002, p.01).

Uma vez conceituada, a violência mais evidenciada atualmente no mundo, e em nosso país, sendo considerada a mãe de todas as violências, é a violência contra a mulher. Segundo a Convenção do Belém do Para, violência contra a mulher é qualquer ação ou conduta, baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto no âmbito público como no privado.

Assim, Dias (2004) nos ensina:

A violência contra as mulheres deve ser compreendida como parte de um contexto socioeconômico e cultural que, historicamente, discrimina o sexo feminino. A manutenção dessas discriminações tem como consequência um conjunto de situações desvantajosas para as mulheres, que reforçam e são reforçadas por práticas de violência física, sexual e psicológica. Nesse sentido, a violência contra as mulheres tem fundamentos estruturais e tem sido um dos mecanismos sociais principais para impedi-las a ter acesso a posições de igualdade em todas as esferas da vida social, incluindo a vida privada.

Ainda, a violência contra a mulher pode ser exercida de diversas formas. O artigo 7º da lei 11.340 de 07 de agosto de 2006 nos traz uma pequena definição de cada um deles.

Art. 7o São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher,

(26)

I - a violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda sua integridade ou saúde corporal;

II - a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da auto-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação;

III - a violência sexual, entendida como qualquer conduta que a constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou

à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou

manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos;

IV - a violência patrimonial, entendida como qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades;

V - a violência moral, entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria.

Inobstante, podemos ainda dividir a violência contra a mulher em Violência Doméstica e Violência Intrafamiliar. A primeira é a conduta que causa dano a mulher, podendo ser dentro da residência ou na unidade doméstica. Pode ser provinda de relação parental, mas também, pode ocorrer por pessoa sem qualquer vínculo familiar, como por exemplo, um empregado, ou pessoa que frequente o local eventualmente.

Por sua vez, a violência intrafamiliar é aquela conduta que causa dano a mulher, tendo em vista as relações familiares, seja parente de sangue ou aquele que mantem relações parentais, seja em âmbito familiar ou fora.

Ao analisarmos a violência contra a mulher, verifica-se que na sociedade brasileira ainda existe uma cultura machista, além da pratica do velho ditado “em

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briga de marido e mulher ninguém coloca a colher”. Ou seja, ocorrendo algum tipo de violência mencionado acima, a regra costumeira é de não intervenção por parte de terceiros. Referente a esses casos, o Instituto Patrícia Galvão (2014), esclarece:

Na pesquisa Tolerância social à violência contra as mulheres (Ipea, 2014), 63% dos entrevistados concordam, total ou parcialmente, que “casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família”. E 89% concordam que “a roupa suja deve ser lavada em casa”, enquanto que 82% consideram que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. (IPEA, 2014).

Apesar disso, percebe-se que lentamente essa cultura machista vem diminuindo, visto que algumas políticas públicas estão sendo implementadas, bem como a mídia está oportunizando uma maior visibilidade aos direitos das mulheres e à luta pela igualdade de gênero. Com efeito, as pessoas aos poucos vão adquirindo um maior poder de indignação ao se deparar com a violência contra mulher.

No tocante a isso, Dias (2004) sugere:

Imperioso também conscientizar a sociedade da necessidade de sua efetiva participação, seja preservando o sigilo da comunicante, seja criando mecanismos que prestem informações, deem orientações e tomem as providencias necessárias de forma imediata a toda e qualquer denúncia. (DIAS, 2004, p.21).

Dessa forma, as vítimas estão mais encorajadas em procurar alguma delegacia especializada ou a registrar ocorrência policial contra o agressor, o grande problema é a renúncia ou desistência das mesmas em continuar com o processo criminal, seja por perdão ou pena do acusado etc. Nesse sentido, Maria Berenice Dias (DIAS, 2004, p.62) afirma “ É preciso romper o pacto de silencio, não aceitar

sequer um grito, denunciar a primeira agressão. É a única forma de estancar o ciclo da violência da qual a mulher é a grande vítima”.

Com relação as causas das violências contra a mulher, existem inúmeros motivos que dão ensejo a um indivíduo cometer algum ato violento, tais como dificuldades financeiras, desemprego, baixa instrução, entre outros. Todavia, grande

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parte delas estão interligadas com o álcool e outras drogas, visto que desinibem e impulsionam o agressor.

Nesse sentido, Azambuja e outros (2003) informa:

Um estudo de vítimas de agressão física, realizado num pronto-socorro em São Paulo, encontrou dados que corroboram a correlação de maior vitimização por agressão física e ingesta alcoólica. Este risco não está relacionado só a consumidores pesados, mas também a bebedores eventuais, leves e moderados. Assim, considera-se que os indivíduos intoxicados também podem estar mais propensos a sofrer algum tipo de violência. O consumo de álcool e drogas ilícitas em indivíduos portadores de outros transtornos mentais como Esquizofrenia e Demências, assim como em pessoas com personalidade de características impulsivas e com pouca tolerância à frustração, pode ser considerado como potencializador e desencadeande de atos violentos. (AZAMBUJA, et.al, 2003, p.19).

Importante ressaltar, que o álcool e as drogas potencializam a violência, mas não podem ser responsabilizados ou servirem de justificativa para um ato violento. O filosofo Barbosa (apud Instituto Patrícia Galvão, 2014) afirma:

É preciso criar uma forma para que esses homens possam se responsabilizar, entendendo que a violência não é fruto do uso de álcool ou de drogas, mas que é a própria construção da masculinidade que, de certa forma, desencadeia esse exercício da violência sobre as mulheres. ”

Insta salientar, que o agressor coloca a culpa em outras coisas, e grande parte das vezes na própria vítima, seja por crises de ciúmes no caso de companheiro, ou cônjuge, seja por qualquer atitude cometida pela mesma. O agressor utiliza artimanhas no sentido de fazer com que a mulher sinta total responsabilidade pelo acontecido.

Nesse sentido Dias (2016) nos alerta:

O vítimizador sempre atribui a culpa a mulher, tenta justificar seu descontrole na conduta dela. [...]. Alega que foi ela quem começou pois não faz nada certo, não faz o que ele manda. Ela acaba reconhecendo que ele tem razão, que em parte a culpa é sua. Assim

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o perdoa. Para evitar nova agressão, recua, deixando espaço para a agressão.

Com efeito, a partir da concepção de mulher para a legislação penal, bem como após a conceituação de violência e as suas formas, serão abordados a seguir as legislações protetivas, em especial a lei 11.340/2006 e a lei 13.104/2015.

3 A LEGISLAÇÃO PROTETIVA

Após todo esse processo de evolução tanto cultural, econômica e jurídica, se faz necessário um aprofundamento sobre as principais legislações protetivas da mulher. Em um primeiro momento, será abordado algumas inovações e obstáculos trazidos pela lei 11.340/2006, e por fim será abordado a lei 13.104/2015, com o conceito e espécies de feminicidio, a inclusão da qualificadora no artigo 121 do Código Penal, além de ver a natureza da qualificadora.

3.1 Novidades e obstáculos na aplicação da lei 11.340/2006

O Brasil precisava de políticas públicas com o objetivo de acabar ou diminuir com a violência contra a mulher, além de instrumentos que viabilizassem a rápida apuração e sanção desses delitos, e a Corte Interamericana de Direitos Humanos instigou isso, ao condenar o país por omissão e negligência em razão de duas tentativas de homicídio à Maria da Penha, caso este, já explicado no primeiro capítulo. Dessa forma, em 08 de agosto de 2006, foi promulgada a lei 11.340/2006, denominada “Lei Maria da Penha”,

O artigo 1º da lei 11.340 de 08 de agosto de 2006 assim dispõe:

Esta Lei cria mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher [..] dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; e estabelece medidas de assistência e proteção às mulheres em situação de violência doméstica e familiar. (BRASIL, 2006).

(30)

Apesar de o Brasil ter evoluído em alguns aspectos jurídicos, socioeconômicos e culturais mencionados no primeiro capítulo, verifica-se que ainda necessitava uma lei que combatesse a discriminação e desigualdades contra a mulher. Não obstante a evolução do ser humano, ainda se nota os reflexos de uma sociedade brasileira machista e de ideologia patriarcal.

Com o advento da lei, foram trazidas inovações, podendo citar entre elas, a não incidência da violência doméstica e familiar nos crimes de menor potencial ofensivo, à luz da lei 9.099/1995, independente da pena aplicada. Isso gerou algumas discussões e posicionamentos diversos dos doutrinadores, em relação a constitucionalidade do art.41 da Lei Maria da Penha2, o qual em 09 de fevereiro de 2012 afastou a aplicação dos benefícios legais da Lei 9099/1995.

Verifica-se que o legislador na busca de uma maior agilidade processual, permitia que o agressor fizesse uso do benefício da transação penal ou suspensão condicional do processo, e por consequência, não iniciava o processo criminal nas infrações abrangidas pelo conceito de menor potencial ofensivo. Com efeito, a impunidade estava bastante presente, não havendo políticas públicas que coibissem o agressor, tampouco que punissem o mesmo.

Todavia, o STF em 24 de março de 2011 esclareceu que violência contra a mulher não se configura como de menor potencial ofensivo, pois é grave, e atenta não somente ao aspecto físico, mas também psíquico, podendo trazer consequências permanentes a vítima.

Além disso, em 10 de junho de 2015 o STJ aprovou a súmula 536 que afirma “A suspensão condicional do processo e a transação penal não se

aplicam-na hipótese dos delitos sujeitos ao rito da Lei Maria da Penha” (BRASIL,2015).

2 “Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal em

julgar procedente a ação declaratória para declarar a constitucionalidade dos artigos 1º, 33 e 41 da Lei nº 11.340/2006 – Lei Maria da Penha –, nos termos do voto do relator e por unanimidade, em sessão presidida pelo Ministro Cezar Peluso, na conformidade da ata do julgamento e das respectivas notas taquigráficas”. AÇÃO DECLARATÓRIA DE CONSTITUCIONALIDADE 19

(31)

Ademais, após a lei 11.340/2006, passou a não ser exigido a representação nas lesões corporais leves ou culposas, além de ser possível a prisão em flagrante do agressor nos casos de violência doméstica ou familiar.

Ainda, sobre as novidades da referida lei, Maria Berenice Dias (2010, p.01), destaca o procedimento da autoridade policial nos casos de violência doméstica e familiar e comemora o desprendimento desse tipo de ocorrência, com a pratica do crime, no sentido da adoção de medidas protetivas independentemente da ocorrência do crime.

De qualquer modo, mesmo não havendo crime, mas tomando conhecimento a autoridade policial da prática de violência doméstica, deverá tomar as providências determinadas na lei (art. 11): garantir proteção à vítima, encaminhá-la a atendimento médico, conduzi-la a local seguro ou acompanhá-la para retirar seus pertences. Além disso, deverá a polícia proceder ao registro da ocorrência, tomar por termo a representação e remeter a juízo expediente quando a vítima solicitar alguma medida protetiva (art. 12). (Dias, 2010, p.01).

As medidas protetivas estão previstas nos artigos 18 a 24, e são consideradas uma das principais novidades trazidas pela lei. Contudo, apesar da importância são mais difíceis de serem aplicadas.

Nesse sentido, Ferraz (2016) cita alguns problemas na aplicação dessas medidas protetivas, tais como, números altos de violação, tendo em vista a resistência do Poder Judiciário em enquadrar no crime de desobediência, assim como o descumprimento do prazo de 48 horas para a decisão acerca da concessão ou não das medidas, além da dificuldade em comunicar o agressor.

Já com a criação de Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, Maria Berenice Dias (2010) ressalta que esse foi o maior avanço legislativo, destacando a necessidade de haver em todas as Comarcas, Juízes, Promotores, Defensores e serventuários capacitados para tratar sobre a violência doméstica e familiar.

(32)

Diante disso, importante trazer a exposição recente de Ferraz (2016, p.09), o qual nos informa sobre realidade desses Juizados Especiais de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher após aproximadamente 10 anos de existência da lei:

Os Juizados Especializados de Violência Doméstica (JVDs) são muito pouco expressivos (com apenas 61 em todo o país), gerando uma enorme sobrecarga de processos, que se deve também ao baixo número de serventuários. A principal consequência negativa desse quadro seria o prejuízo da prestação jurisdicional, sendo praticamente impossível o cumprimento do prazo legal para análise das medidas protetivas de urgência, por exemplo. Outra questão seria referente à limitação da competência dos JVDs à esfera criminal quando na realidade, a Lei Maria da Penha prevê a competência híbrida (cível e penal). A CPMI constatou que praticamente todos os Juizados ou Varas Especializadas visitadas apenas conseguem dar conta da competência criminal, o que constitui um importante obstáculo ao acesso à justiça. (FERRAZ, 2016, p.09).

Nessa mesma banda, além de um número baixo de Juizados, ocorre problemas referente aos que existem, uma vez que há um número baixo de servidores nos locais, consoante Pasinato, 2014, p.136/137.

As queixas referem-se à falta de pessoal de cartório, ao pequeno número de juízes, à ausência de equipe multidisciplinar e, também, à falta de uma equipe de oficiais de Justiça que atue exclusivamente junto ao Juizado, para dar vazão ao grande número de mandados que são expedidos no deferimento das medidas protetivas, e naqueles que são necessários para o andamento dos processos criminais. Problemas com oficiais de Justiça foram Avanços e obstáculos na implementação da Lei 11.340/2008 137 referidos por vários entrevistados, inclusive porque provocam atraso no cumprimento das medidas em desrespeito a seu caráter de urgência.

Destarte, todas as novidades trazidas pela lei, foram com o objetivo de dar maior proteção à vítima, com medidas protetivas, atendimentos e programas assistenciais. Além disso, dificultou a vida do agressor aumentando a pena para delitos relacionados a violência doméstica e familiar, e impossibilitando a substituição da punição por cesta básica e multa, distanciando o agressor da vítima, e prevendo a possibilidade do mesmo ser preso preventivamente.

A vítima precisa saber que está amparada pela lei, e isso está dando certo, tendo em vista a informação divulgada pela Secretaria Especial de Políticas para as

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Mulheres, órgão ligado ao Ministério da Justiça e Cidadania (2016), qual nos informa que “O Ligue 180, número da Central de Atendimento à Mulher em Situação de

Violência, registrou um aumento de 133% nos relatos envolvendo violência doméstica e familiar, no primeiro semestre deste ano, em comparação ao mesmo período em 2015”.

Ocorre que, na prática, constata-se, ainda, uma dificuldade na aplicação e efetividade dessas inovações, uma vez que são poucos os investimentos por parte do poder público no sentido de dar melhores condições técnicas e estruturais para o funcionamento de equipe multidisciplinar de atendimento.

Nesse sentido, Pasinato (2014, p.125) nos diz:

A pesquisa nas 40 DEAMS em funcionamento nas capitais mostrou que esse comprometimento do poder público, na maior parte das vezes, não ocorreu ou vem ocorrendo de forma tímida e com resultados muito pontuais. As DEAMS enfrentam muitas limitações em seu funcionamento, com problemas relacionados à inadequação da infraestrutura e limitações de recursos materiais e técnicos e baixa qualificação dos recursos humanos. (PASINATO, 2014, p.125).

Em complementação à Lei Maria da Penha, foi editada a lei que criou a forma qualificada do homicídio decorrente da violência contra a mulher, denominada de Feminicidio.

3.2 O ingresso da lei 13.104/2015

Como já vimos a violência contra as mulheres pode ser exercida em diferentes formas, sendo física, psicológica entre outras, e a mais extrema e irreversível é o assassinato. Assim como as outras, esse tipo de ocorrência preocupa bastante nosso país devido aos seus elevados números comparado com a grande parte dos demais países. Nesse sentido, vejamos os números apresentados pelo o Mapa da Violência de 2015, elaborado por Julio Wiselfisz (2015, p.27):

Com sua taxa de 4,8 homicídios por 100 mil mulheres, o Brasil, num grupo de 83 países com dados homogêneos, fornecidos pela

(34)

Organização Mundial da Saúde, ocupa uma pouco recomendável 5ª posição, evidenciando que os índices locais excedem, em muito, os encontrados na maior parte dos países do mundo. Efetivamente, só El Salvador, Colômbia, Guatemala (três países latino-americanos) e a Federação Russa evidenciam taxas superiores às do Brasil. Mas as taxas do Brasil são muito superiores às de vários países tidos como civilizados: (Wiselfisz, Julio, 2015, p.27).

Visando minorar esses dados alarmantes, no dia 09 de março de 2015 foi sancionada a lei 13.104/2015, conhecida como a Lei do Feminicidio. De acordo com o novo regramento legal, ocorre feminicídio quando a agressão envolve violência doméstica e familiar, ou quando evidencia menosprezo ou discriminação à condição de mulher, caracterizando crime por razões de condição do sexo feminino. Insta salientar que para fins da aplicação da lei, o sujeito passivo é apenas a mulher, conforme concepção explicada no capítulo anterior.

3.2.1 Conceito de Feminicidio

Inicialmente é importante fazer uma conceituação do que significa o termo feminicidio e qual é a sua origem. Nesse sentido, Vania Pasinato (2011, p.01) nos informa:

A expressão femicídios ou – ‘femicide’ como formulada originalmente

em inglês – é atribuída a Diana Russel, que a teria utilizado pela

primeira vez em 1976, durante um depoimento perante o Tribunal Internacional de Crimes contra as Mulheres, em Bruxelas. Posteriormente, em parceria com Jill Radford, Russel escreveu um livro sobre o tema, o qual viria a se tornar a principal referência para os estudos aqui analisados (...) De acordo com a literatura consultada, Russel e Radford utilizaram a expressão para designar os assassinatos de mulheres que teriam sido provocados pelo fato de serem mulheres (...) outro característica que define femicídio é não ser um fato isolado na vida das mulheres vitimizadas, mas apresentar-se como um ponto final em um continuum de terror, que inclui abusos verbais e físicos uma extensa gama de manifestações de violência e privações a que as mulheres são submetidas ao longo de suas vidas

Por sua vez, Marcela Lagarte (apud Mello, 2016, p.157), incrementa o conceito introduzindo elementos políticos, uma vez que entende que para a

(35)

ocorrência do feminicidio, deverá se ter a impunidade, negligencia e omissão do Estado, que não dá segurança à vida das mulheres.

O feminicídio leva a uma ruptura parcial do Estado de direito, já que o Estado é incapaz de garantir a vida das mulheres, de respeitar os seus direitos humanos, de atuar com legalidade e fazer-se respeitar, de buscar e administrar a justiça, de prevenir e erradicar a violência que ocasiona. (LAGARTE, apud MELLO, 2016, p.157)

Ainda, acerca do feminicidio, Menezes (apud, Bianchi et al 2015, p.44) esclarecem o seguinte:

O feminicídio constitui a manifestação mais extremada da violência machista fruto das relações desiguais de poder entre os gêneros. Ao longo da História, nos mais distintos contextos socioculturais, mulheres e meninas são assassinadas pelo tão-só fato de serem mulheres. O fenômeno forma parte de um contínuo de violência de gênero expressada em estupros, torturas, mutilações genitais, infanticídios, violência sexual nos conflitos armados, exploração e escravidão sexual, incesto e abuso sexual dentro e fora da família.

Verifica-se que há uma harmonia conceitual entre os doutrinadores, grande parte possui praticamente o mesmo entendimento sobre o que é feminicidio.

3.2.2 Espécies de Feminicidio

Analisando o conceito de feminicidio, podemos ainda classificar o tema em diversas espécies. Barros (2016, p.41/45) divide o feminicidio em a) Intralar, b) Homoafetivo, c) Simbólico Heterogêneo e Homogêneo, d) Aberrante por Aberratio Ictus, e) Aberrante por

error in persona. Nessa banda vejamos o significado de cada um deles:

a) Feminicidio Intralar

Tal espécie é considerada a mais comum e frequente de todas, e ocorre basicamente quando o sujeito ativo é um homem e mata a mulher em ambiente doméstico e familiar.

(36)

Tem como característica o sujeito ativo a própria mulher, ou seja, uma mulher mata a outra em contexto familiar e doméstico. Sobre essa espécie, Francisco Dirceus Barros (2016) esclarece a posição do STF, no sentido de ser favorável quanto ao sujeito ativo ser uma mulher, desde que presentes os demais requisitos e a mulher passiva esteja em situação vulnerável e de submissão.

c) Feminicidio Simbólico Heterogêneo e Homogêneo

O primeiro tem a ver com a condição da vítima ser do gênero feminino, ou seja, ocorre quando o homem mata a mulher com menosprezo e discriminação, para destruir a identidade do sexo feminino. Por sua vez o segundo é parecido com o primeiro, contudo o sujeito ativo é uma própria mulher.

d) Aberrante por Aberratio Ictus

Ocorre quando o sujeito ativo, que pode ser homem ou mulher, pretendia assassinar uma mulher, porém, acerta pessoa distinta da planejada, seja por erro na execução ou por acidente. Dessa forma, responde o agente pelo crime como se tivesse matado a mulher, tendo, portanto, um resultado único.

Ainda, segundo Francisco Dirceu Barros (2016), existe a mesma espécie com resultado duplo, quando o agente assassina a mulher e por consequência do ato, atinge terceiro. In casu, o agressor respondera pelo primeiro delito, com a pena aumentada de 1/6 até metade devido ao concurso formal

e) Aberrante por error in persona

Essa modalidade se enquadra na possibilidade tipificada no § 3 do art. 20 do Código Penal, que nos diz “O erro quanto à pessoa contra a qual o crime é praticado

não isenta de pena. Não se consideram, neste caso, as condições ou qualidades da vítima, senão as da pessoa contra quem o agente queria praticar o crime”. (BRASIL,

(37)

Portanto, preenchidos os requisitos exigidos para a configuração do feminicidio, mesmo que o agente erra a pessoa, responderá como se contra aquela tivesse dado causa.

3.2.3 A inclusão do feminicidio como circunstância qualificadora no crime de homicídio

Ao entrar em vigor, a Lei 13.104/15 alterou o artigo 121 do Código Penal, incluindo o feminicidio como circunstância qualificadora prevista no §2 inciso VI, bem como incluiu o §2-A que esclarece as razões de gênero, além de acrescentar o §7 que prevê algumas causas de aumento de pena. Ademais, modificou a lei no 8.072, de 25 de julho de 1990, incluindo o homicídio qualificado pelo feminicidio no rol dos crimes hediondos. Nesse sentido, veja-se:

Homicídio simples Art. 121. Matar alguém:

Pena - reclusão, de seis a vinte anos. (...)

Homicídio qualificado

§ 2° Se o homicídio é cometido: (...)

VI - contra a mulher por razões da condição de sexo feminino:

(..)

Pena - reclusão, de doze a trinta anos.

§ 2o-A Considera-se que há razões de condição de sexo feminino quando o crime envolve:

I - violência doméstica e familiar;

II - menosprezo ou discriminação à condição de mulher. (...)

§ 7o A pena do feminicídio é aumentada de 1/3 (um terço) até a metade se o crime for praticado:

I - durante a gestação ou nos 3 (três) meses posteriores ao parto;

II - contra pessoa menor de 14 (catorze) anos, maior de 60 (sessenta) anos ou com deficiência;

III - na presença de descendente ou de ascendente da vítima.

(BRASIL, 2015)

Dessa forma, ao examinar as modificações do artigo 121 do CP, verifica-se que o feminicidio ocorre por razões de violência doméstica e familiar, ou também por menosprezo e discriminação pelo simples fato da vítima ser mulher. Diferente do femicidio que é o homicídio de mulher.

(38)

Com relação a majoração da pena, no que corresponde ao inciso I3, o autor ao praticar o fato, obrigatoriamente deverá saber que a vítima se encontrava grávida. Outrossim, também respondera se cometer a conduta em até três meses da ocorrência do parto. (BRASIL 1940).

Igualmente o que ocorre no inciso II4, para que a pena seja majorada o agente que pratica o delito obrigatoriamente deverá ter conhecimento da idade da vítima, devendo ainda, ser comprovada a idade da mesma por meio de certidão de nascimento ou outro documento comprobatório. No que tange a deficiência, poderá ser física ou mental, e deverá ser comprovado por laudo pericial ou qualquer meio de que comprove a deficiência. (BRASIL 1940).

No que diz respeito ao inciso III5, o autor ao realizar a empreitada criminosa, deverá saber que a pessoa presente no local é descendente ou ascendente da vítima. Ademais, tal parentesco deverá ser provado nos autos para incidir a majoração da pena. Isso ocorre porque em situações como essa, ocorre um trauma muito grande no ascendente ou descendente da vítima, com consequências irreversíveis para a pessoa. (BRASIL 1940).

3.2.4 O feminicidio é circunstância qualificadora de natureza objetiva ou subjetiva?

Após a inclusão do feminicidio como circunstância qualificadora, surgem questões e posicionamentos diferentes entre os operadores do direito sobre a natureza desta qualificadora.

No que tange a distinção das duas naturezas, Bianchini e Gomes (2016, p.204) nos esclarecem: “As qualificadoras objetivas são as que dizem respeito ao crime, enquanto as

subjetivas vinculam-se ao agente. Enquanto as objetivas dizem com as formas de execução (meios e modos), as subjetivas conectam-se com a motivação do crime”.

3 I - durante a gestação ou nos 3 (três) meses posteriores ao parto;

4 II - contra pessoa menor de 14 (catorze) anos, maior de 60 (sessenta) anos ou com deficiência; 5III - na presença de descendente ou de ascendente da vítima.

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