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QUALIDADE AMBIENTAL: RESPONSABILIDADE DA IDÚSTRIA

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Academic year: 2021

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_____________________________________________________________________________________________________ Rua Marques do Herval, nº 1425, sala 602, Centro, CEP 95020.261 - Caxias do Sul – RS

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QUALIDADE AMBIENTAL: RESPONSABILIDADE DA IDÚSTRIA

Claudio Sehbe Fichtner1

RESUMO

O presente trabalho se propõe a comprovar a emergência de uma responsabilidade sócio-ambiental para as indústrias. Para tanto, inicia fazendo uma contextualização geral dessa exigência ambiental em

suas dimensões legal e social, assim como pela considerável necessidade de adaptação a que foi submetida a indústria pelo mercado nacional e internacional.

Por outro lado, em virtude dessa nova necessidade, o meio ambiente assumiu um papel estratégico no mundo globalizado dos negócios, sendo um importante diferencial não só para os Estados, mas também

para as empresas que buscam seu lugar no mercado nacional e internacional.

Assim, quer seja pela imposição de severas penalidades, pela pressão social, ou mesmo pela exigência do próprio mercado, as indústrias têm aceitado a qualidade ambiental como uma peça fundamental no

desenvolvimento da sua organização.

1. EVOLUÇÃO DA ORDEM JURÍDICA AMBIENTAL

Em decorrência da própria dinâmica do Direito, que exige sua progressão nos moldes da evolução sócio-ambiental, está-se, inegavelmente, diante de um tema muito novo, advindo da própria transformação da sociedade, através da expansão dos conceitos de meio ambiente, poluição e da projeção dos seus efeitos para as futuras gerações: a qualidade ambiental.

1 Advogado, especialista em Direito Ambiental Nacional e Internacional pela UFRGS, especializando em

Direito Empresarial pela UFRGS, membro do Núcleo de Estudos de Direito Ambiental da Escola Superior da Magistratura.

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Com efeito, verifica-se a emergência de uma dimensão ecológica para a cidadania que se situa na confluência de pelo menos três temáticas distintas: a economia, a emergência do ambientalismo e o lócus jurídico ocupado tanto pela cidadania como pela necessidade de uma maior efetividade na reparação dos danos ambientais.

Na imprescindibilidade de marcos para delimitar este amplo objeto, o presente trabalho passará a localizar a emergência de uma cidadania ambiental a partir da emancipação do 1º Princípio de Direito Ambiental, criado na Assembléia Geral das Nações Unidas, em Estocolmo, em 1972:

“o homem tem o direito fundamental à liberdade, à igualdade e a condições de vida satisfatórias, em um ambiente no qual a qualidade lhe permita viver na dignidade e bem estar. Ele tem o dever solene de proteger e de melhorar o meio ambiente para as gerações presentes e futuras.”

Assim, esta valoração do meio ambiente, de conotação positiva, apresenta-se para ampliar o conceito e a extensão da responsabilidade sócio-ambiental e os seus reflexos no ordenamento jurídico interno de cada Estado.

Cumpre observar, outrossim, que, no direito brasileiro, o direito ambiental teve seu marco inicial, a partir da vigência da Política Nacional do Meio Ambiente2. Em que pese existirem leis anteriores que disciplinassem a utilização dos recursos do meio ambiente no território nacional3, a saber o Código de Caça ou o Código de Pesca, tais normas tinham por objetivo regular a atividade humana como centro explorador do meio ambiente e não a sua proteção. Em virtude dessa triste realidade, é somente com o advento da Lei nº 6.938/81 que o Meio Ambiente ganhou, além de uma conceituação condigna, uma efetiva proteção jurídica:

“Art. 3° - Para os fins previstos nesta Lei, entende-se por:

I. Meio Ambiente: conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga

2 Lei nº 6.938 de 31 de agosto de 1981.

3 “Toda essa legislação, antiga, complexa, esparsa e inadequada, deixava immune (se é que não o

incentivava) o esbulho do patrimônio natural, despojado do seu caráter de bem comum e tratado ignominiosamente como propriedade privada, gerido e explorado sem escrúpulos, com discricionariedade acima de qualquer legislação coerente, de qualquer interesse maior.” MILARÈ, Edis. Direito do ambiente: doutrina, jurisprudência, glossário. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004, p. 116.

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e rege a vida em todas as suas formas;” Artigo 3º, I da Lei nº 6.938/81”

Como se depreende, houve uma mudança significativa na forma da legislação e do Poder Público tutelar o Meio Ambiente, e com base nesta modificação, José Rubens Morato Leite e Patrick de Araújo Ayala referem que:

“O que se verifica, todavia, mediante o contraste das formas de tutela e instrumentos utilizados, é a modificação de sua localização como problema normativo, que levou à construção de novos modelos jurídicos de justificação e fundamentação de sua proteção, originários da própria ruptura com o paradigma do Estado liberal, de proteção de bens jurídicos, para um sistema de tutela e realização efetiva de direitos.

Uma conseqüência imediata desse fenômeno dissociativo, e talvez a mais importante, é aquela que atingiu diretamente a própria significação do ambiente, que o retirou da posição passiva de bem jurídico para localiza-lo definitivamente do dinâmico processo de atribuição de direitos.”4

Vale ratificar que uma das grandes inovações trazidas pela Política Nacional do Meio Ambiente foi a consolidação de um conceito jurídico autônomo e integral de ambiente, capaz de contemplar sua dimensão coletiva, ultrapassando a antiquada e restrita dimensão individual a que estava vinculado.5

Outro grande marco na legislação ambiental no Brasil foi a Constituição Federal de 1988, que trouxe um capítulo inteiro para tratar da proteção do Meio Ambiente, o que nunca havia sido feito anteriormente.6 Dessa forma, José Afonso da Silva enfatiza que

“a Constituição de 1988 foi, portanto, a primeira a tratar deliberadamente da questão ambiental. Pode-se dizer que ela é uma Constituição eminentemente ambientalista. Assumiu o tratamento da matéria em termos amplos e modernos. Traz um capítulo específico sobre o meio ambiente, inserido no título da “Ordem

4 LEITE, José Rubens Morato; AYALA, Patrick de Araújo. Direito ambiental na sociedade de risco. Rio

de Janeiro: Forense, 2004, p. 134.

5

LEITE; AYALA, Direito ambiental..., p. 142.

6 Em consonância, “as Constituições anteriores não cogitavam da proteção ao meio ambiente e foram

alguns Estados, notadamente São Paulo e Rio de Janeiro, que, na década de 70, editaram leis estaduais de controle da poluição ambiental.” MILARÉ, Edis; COSTA JÚNIOR, Paulo José da. Direito penal ambiental: comentários a Lei nº 9.605/98. Campinas: Millennium, 2002, p. 202.

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Social” (Capítulo VI do Título VIII). Mas a questão permeia todo o seu texto, correlacionada com os temas fundamentais da ordem constitucional.7, 8, 9, 10 e 11

Um último marco na legislação ambiental é a Lei dos Crimes e Infrações Administrativas Ambientais12, uma vez que esta norma disciplina, rigorosamente, as infrações, os crimes e as condutas lesivas ao meio ambiente. Mister se faz ressaltar que esta norma jurídica é regulamentada pelo Decreto nº 3.179/9913, que dispõe sobre a especificação das sanções aplicáveis às condutas e atividades lesivas ao meio ambiente. Em análise a este marco legislativo, Antônio Herman Benjamim, assim, refere:

“Com a promulgação da Lei nº 9.605/98 (Lei dos Crimes contra o Meio Ambiente ou Lei Jobim), o Brasil fecha o círculo regulatório do controle da poluição, integrando as esferas administrativas, cível e penal.

Nesse ponto, era no mínimo curiosa, para não dizer paradoxal, a situação do país, antes da elaboração do novo regramento. Dotado de eficiente e internacionalmente aclamado modelo de prevenção e reparação cível dos danos ambientais, inaugurado, na perspectiva da compreensão holística do meio ambiente, pela Lei nº 6.938/81 (Lei da Política Nacional do Meio Ambiente) e complementado pela Lei nº 7.347/85 (Lei da Ação Civil Pública), o Brasil submetia os

7

SILVA, José Afonso. Direito ambiental constitucional. São Paulo: Malheiros, 2003. p. 46.

8

Para Vladimir Passos de Freitas, “possuímos um texto constitucional avançado, que coloca o Brasil em posição de vanguarda.” FREITAS, Vladmir de Passos. Direito administrativo e meio ambiente. Curitiba: Juruá, 2004., p. 32.

9 “Segundo tendência universal, a Carta brasileira erigiu o meio ambiente à categoria de um daqueles

valores ideais da ordem social, dedicando-lhe, a par de uma constelação de regras esparsas, um capítulo próprio que, definitivamente, institucionalizou o direito ao meio ambiente sadio como um direito fundamental do indivíduo.” MILARÉ; COSTA JÚNIOR., Op. cit., p. 197.

10 Julio César de Sá da Rocha ressalta que “com a Constituição Federal de 1988, foi assegurado

tratamento ímpar à matéria ambiental e urbanística, dedicando-se um capítulo específico sobre meio ambiente (Capítulo VI, Título VIII) e outro sobre política urbana (Capítulo II, Título VII).” ROCHA, Julio César de Sá da. Função ambiental da cidade: direito ao meio ambiente urbano ecologicamente equilibrado. São Paulo: Juarez de Oliveira, 1999, p. 17.

11 Na concepção de Édis Milaré, um dos textos mais avançados do mundo em matéria ambiental. MILARÈ, Edis. Direito do ambiente: doutrina, jurisprudência, glossário. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004. p. 121 e 304.

12 Lei nº 9.605 de 12 de fevereiro de 1998. 13

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degradadores a um sistema ultrapassado, caóitica e judicialmente rejeitado de sancionamento administrativo e penal.14

É, sobremodo, importante analisar que a evolução da legislação ambiental brasileira foi responsável pela introdução de novos institutos criados para garantir a preservação do Meio Ambiente.

2. RESPONSABILIDADE AMBIENTAL

Conforme foi demonstrado anteriormente, as exigências ambientais cresceram e se multiplicaram nas ultimas décadas, sendo que as questões ambientais têm de ser tratadas com toda a seriedade que merecem.

Atualmente, a responsabilidade ambiental desvinculou a conduta da indústria da ocorrência concreta de um dano, na medida em que está voltada ao momento anterior a consumação do dano, o chamado “mero risco”. Luis Paulo Sirvinskas afirma que nos crimes contra o meio ambiente, os bens jurídicos protegidos se aproximam mais do perigo do que do dano, o que permite uma prevenção e ao mesmo tempo uma repressão.

Analisando o caput do artigo 14 da Lei nº 6.938/81, depreende-se a clara influência de um princípio de preservação, eis que a norma preocupa-se, antecipadamente, a ocorrência da degradação ambiental.15 e 16 Para Paulo Affinso Leme Machado, este princípio corresponde ao dever jurídico de evitar a consumação de danos ao meio ambiente, e não é estático, devendo

14 COSTA NETO, Nicolao Dino de Castro; BELLO FILHO, Ney de Barros; COSTA, Flavio Dino de

Castro e. Crimes e infrações administrativas ambientais: comentários à Lei nº 9.605/98. Brasília: Brasília Jurídica, 2001. p. 09.

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Edis Milaré justifica que “diante da pouca valia da simples reparação, sempre incerta e, quando possível, excessivamente onerosa, a prevenção é melhor, quando não a única solução.” MILARÉ, Direito do..., p. 145.

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“Os danos causados ao meio ambiente encontram grande dificuldade de serem reparados. É a saúde do homem e a sobrevivência das espécies da fauna e flora que indicam a necessidade de prevenir e evitar o dano.” MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito ambiental brasileiro. São Paulo: Malheiros, 2003. p.331.

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ser atualizado e reavaliado para poder influenciar a formulação de novas políticas ambientais:17

“Art. 14 - Sem prejuízo das penalidades definidas pela legislação federal, estadual e municipal, o não cumprimento das medidas necessárias à preservação ou correção dos inconvenientes e danos causados pela degradação da qualidade ambiental sujeitará os transgressores:

§ 1°: Sem obstar a aplicação das penalidades previstas neste artigo, é o poluidor obrigado, independentemente de existência de culpa, a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados por sua atividade. O Ministério Público da União e dos Estado terá legitimidade para propor ação de responsabilidade civil e criminal por danos causados ao meio ambiente.”

Artigo 14 da Lei nº 6.938/81

Por outro lado, no tocante ao parágrafo único do artigo 14 da Lei nº 6.938/81, é de ser reconhecida a aplicação do Princípio do Poluidor-Pagador18 e 19, que, na concepção de Cristiane Derani, visa a internalização dos custos relativos externos de deterioração ambiental, trazendo uma preocupação em relação ao potencial poluidor do agente.20, 21 e 22

Como justificativa pela imposição da responsabilidade civil por danos ambientais, independentemente, da culpa do poluidor, Ney de Barros Bello Filho afirma que:

“a atitude de poluir é uma apropriação pelo poluidor dos direitos da coletividade de usufruir de um meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado. A utilização dos recursos naturais é um direito irrenunciável que fica agredido quando atos de poluição são

17 Ibidem, p. 72, p. 74.

18 Também conceituado como Princípio do Usuário-Pagador ou Princípio da Responsabilidade.

19 Constante também no artigo 4º, VII da Lei nº 6.938/81: “Art. 4° - A Política Nacional do Meio

Ambiente visará: VII. À imposição, ao poluidor e ao predador, da obrigação de recuperar e/ou indenizar os danos causados e, ao usuário, da contribuição pela utilização de recursos ambientais com fins econômicos.”

20 DERANI, Cristiane. Direito ambiental econômico. São Paulo: Max Limonad, 2001, p. 162. 21

Em síntese, Chris Wold destaca que este princípio “pode ser compreendido como um mecanismo de alocação da responsabilidade pelos custos ambientais associados à atividade econômica.” SAMPAIO, José Adércio Leite; WOLD, Chris; NARDY, Afrânio. Princípios de direito ambiental: na dimensão internacional e comparada. Belo Horizonte: Del Rey, 2003, p. 23.

22

Nesse sentido, Edis Milaré afirma que este princípio prende-se à vocação redistributiva do Direito Ambiental e se inspira na teoria econômica de que os custos sociais externos que acompanhamo processo produtivo precisam ser internalizados, vale dizer, que os agentes econômicos devem leva-los em cinta ao elaborar os custos de produção e, conseqüentemente, assumi-los.” MILARÉ, op. cit., p. 142.

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gerados a partir de uma empresa que se utiliza de um fito particular e próprio – geralmente o auferimento de lucros – para agredir um direito fundamental.” 23

De outra banda, a Constituição Federal instituiu e compatibilizou os Princípios da Prevenção e do Poluidor-Pagador entre outros princípios, além de enfatizar a responsabilidade ambiental em três esferas distintas, incluindo, assim, a responsabilidade ambiental administrativa:

“Artigo 225 [...]

§3º As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados.”

Nos dizeres expressivos de José Rubens Morato Leite, a respeito da tríplice responsabilidade apresentada pela Constituição Federal:

“pelo que se depreende da literal leitura do dispositivo constitucional, uma responsabilidade não exclui a possibilidade da outra e vice-versa. Desta forma, conforme já afirmado, o sistema de responsabilização ambiental é múltiplo e deve ser articulado conjunta e sistematicamente.”24

Com efeito, a responsabilidade penal ambiental está definida no artigo 2º da Lei dos Crimes e Infrações Ambientais Administrativos, in verbis:

“Art. 2º Quem, de qualquer forma, concorre para a prática dos crimes previstos nesta Lei, incide nas penas a estes cominadas, na medida da sua culpabilidade, bem como o diretor, o administrador, o membro de conselho e de órgão técnico, o auditor, o gerente, o preposto ou mandatário de pessoa jurídica, que, sabendo da conduta criminosa de outrem, deixar de impedir a sua prática, quando podia agir para evitá-la.”

23 COSTA NETO; BELLO FILHO; COSTA, Crimes e..., p. 33.

24 LEITE, José Rubens Morato. Dano ambiental: do individual ao coletivo extrapatrimonial. São Paulo:

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Em comentário ao artigo 2º do referido diploma legal, Ney de Barros Bello Filho assevera que:

“a proteção ao meio ambiente por norma criminal não estava presente no cotidiano da doutrina penalista que se sedimentou no correr dos anos, e os objetivos hoje buscados por intermédio do direito penal ambiental não eram considerados quando se solidificaram as teorias criminais mais acolhidas.”25

Posta assim a questão, é de se dizer que, em todos os níveis, vem-se fortalecendo o controle sobre atividades causadoras de impactos ao meio ambiente, sendo que severas penalidades têm sido aplicadas para quem desrespeita a legislação ambiental, as quais vão desde multas, paralisação das atividades até penalidades civis e criminais que incidem, diretamente, sobre a alta gerência.

Como resposta lógica disso, as indústrias têm realizado um monitoramento mais preciso de suas próprias atividades, a fim de evitarem qualquer confronto com a legislação ambiental aplicável ou mesmo com a produção de prejuízos ambientais.

Não obstante, além dos dois critérios conhecidos e utilizados para responsabilização civil objetiva por danos ao meio ambiente (independente da existência de culpa ou dolo), Ney de Barros Bello Filho enfatiza que existem duas teorias que clamam pela imputação desta responsabilização: a teoria da responsabilidade por risco integral26 e a teoria da responsabilidade por risco criado.27 Explicando estas teorias, o autor acrescenta que:

“interessante notar que a partir do instante em que uma empresa passa a lidar com materiais potencialmente causadores de ofensa ao meio ambiente, o que existe é um “contrato de risco” com os ecossistemas e com a população. A atividade econômica pode ser desenvolvida, mas o risco de um dano ao meio ambiente é suportado por aquele que aufere lucros com a atividade.

[...]

25 COSTA NETO; BELLO FILHO; COSTA, Crimes..., p. 17.

26 Segundo Andréas J. Krell, a teoria do risco integral é atualmente dominante no Brasil, e não aceita a

licitude do ato como fator excludente da responsabilidade civil objetiva por dano ambiental (art. 14, § 1º, da Lei nº 6.938/81). KRELL, Andréas J. Discricionariedade administrativa e proteção ambiental: o controle dos conceitos jurídicos indeterminados e a competência dos órgãos ambientais: um estudo comparativo. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004, p. 65.

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Impende observar que a existência de uma potencial poluição ou a perspectiva de um dano é a razão que basta para que os cuidados sejam evidentemente tomados pela pessoa jurídica.

Quem aufere lucros com a atividade sustenta a possibilidade de ser responsabilizado pelo dano ambiental causado por seu empreendimento, independentemente de a ação relevante ser praticada por si só.

Aproxima-se da teoria do risco integral a teoria do risco proveito, que se arrima a idéia de que todo aquele que exerce atividade e dela possa fruir benefício de ordem econômica, coloca-se na posição de responsável pelo dano que esta atividade vier a causar ao ambiente.”28

Cumpre examinarmos que, na modalidade atual da sociedade de risco e na busca de um desenvolvimento sustentável para as presentes e futuras gerações, a ciência perdeu a posição de centro legitimado de conhecimento, frente a constante exposição da sociedade e do meio ambiente a uma diversidade de riscos que muitas vezes são incompreensíveis a partir dos modelos científicos imediatos29. Nesse sentido, convém trazer à luz a ideologia apresentada por Cristiane Derani, que representa com perfeição a síntese e o fundamento do direito ambiental, onde o princípio da precaução é traduzido pela “busca da proteção da existência humana”, o que justifica a cautela sobre os riscos ainda não existentes, os riscos futuros, “os quais nossa compreensão e o atual estágio de desenvolvimento da ciência jamais conseguem captar em toda densidade” 30.

Oportuno se torna dizer que a partir desse entendimento, a indústria assume a postura de garante da preservação ambiental, eis que exploradora de uma atividade econômica, onde a mesma aceita, compulsoriamente, as eventuais conseqüências danosas do seu empreendimento.

Além da fiscalização pelo Poder Público, as indústrias sofrem pressões de outras partes interessadas que impõem a adoção de uma atuação ambiental responsável. Com efeito, as instituições financeiras têm exigido, cada vez mais, das indústrias à atenção as questões ambientais, na hora de conceder financiamentos (sem falar nos devidos licenciamentos

28

Ibidem, p. 35.

29 LEITE, José Rubens Morato. AYALA, Patrick de Araújo. In Transdisciplinariedade e a Proteção

Jurídico-ambiental em Sociedade de Risco: Direito Ciência e Participação. Direito Ambiental Contemporâneo. São Paulo: Editora Manole, 2004. p.100.

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ambientais, os quais são condições sine qua non para a contratação com os agentes financeiros). Em resultado disso, uma indústria com baixos riscos ambientais, ou ambientalmente correta, tem uma maior probabilidade de obter créditos e a custos mais baixos do que a outra.

Não se pode perder de vista que a própria Constituição Federal, ao aludir sobre A Ordem Econômica e Os Princípios Gerais da Atividade Econômica, faz expressa alusão aos benefícios diferenciados para as empresas ambientalmente corretas, senão vejamos:

“DA ORDEM ECONÔMICA E FINANCEIRA

DOS PRINCÍPIOS GERAIS DA ATIVIDADE ECONÔMICA

Art. 170 – A ordem econômica, fundada na valoração do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios:

VI – defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação;”

Como se não bastassem as exigências das instituições financeiras, uma outra grande pressão tende a vir da própria sociedade ou da comunidade local, que, convencida do seu importante papel na preservação ambiental, cobra da indústria a utilização de meios mais limpos de produção de produtos e serviços. Não se pode olvidar que a sociedade assumiu uma representatividade ambiental forte, uma vez ciente da limitação dos recursos naturais e da constatação dos nefastos comportamentos sobre a natureza.

Dessa forma, surge a necessidade das indústrias incorporarem essa responsabilidade sócio-ambiental31 e partirem em busca de formas de reduzir ou mesmo eliminar a poluição, o desperdício e o consumo excessivo dos recursos naturais. Em conseqüência positiva a essa conduta, as indústrias se tornam mais competitivas, inclusive, em relação ao mercado internacional.

Portanto, nasce um novo modelo de progresso industrial vinculado a busca da qualidade ambiental que associa o desenvolvimento econômico à natureza. Neste contexto,

31 A expressão “sócio-ambiental” é meramente exemplificativa sobre a necessidade de atender tanto as

exigências legais como as provenientes dos anseios da sociedade, pois, em uma análise jurídica, a responsabilidade ambiental incorpora a social.

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entram as novas preocupações em relação ao bem-estar da sociedade, devendo-se implementar políticas ambientais, de acordo com a legislação vigente e os anseios da comunidade, preconizando o desenvolvimento sustentável.

3. QUALIDADE AMBIENTAL

É indubitável que a sociedade humana milenar foi palco, em poucas décadas e em todos seus setores, de profundas e, muitas vezes, enormes transformações, entre as quais emergiu a sociedade contemporânea, conforme bem delineia Édis Milaré.32

Com efeito, estas transformações não significaram apenas desenvolvimento e progresso, mas trouxeram consigo alguns grandes problemas modernos, como a produção e o consumo de massa, os parques industriais, as multinacionais, os grandes conglomerados financeiros e todas as conseqüências problemáticas inerentes a esses fenômenos sociais.

Tenha-se presente que os novos atores sócio-econômicos têm como expoente tornar possível não só a lucratividade, como também a preservação de um ambiente sadio e equilibrado. Dessa premissa, José Afonso da Silva refere que “uma cidade não é um ambiente de negócios, um simples mercado onde até a paisagem é objeto de interesses econômicos lucrativos, mas é, sobretudo, um ambiente de vida humana, no qual se projetam valores espirituais perenes, que revelam às gerações porvindouras a sua memória”.33

A sociedade de hoje demonstra um significativo interesse em questionar o antigo modelo de “desenvolvimento” apresentado pelas indústrias, pois o mesmo gerava um problema com o equilíbrio ecológico (meio ambiente sadio) que estava intimamente ligado ao modo de vida da comunidade e à tecnologia utilizada pela atividade industrial.

Para auxiliar na resolução desse problema e na busca de uma qualidade ambiental, a indústria necessita de uma Gestão Ambiental, a qual trabalha todas as atividades capazes de representar riscos ambientais, bem como todas as ações que visem evita-los. Em síntese, a Gestão Ambiental representa o conjunto de medidas e procedimentos que visam a redução e

32 MILARÉ, Édis. A ação civil pública na nova ordem constitucional. São Paulo: Saraiva, 1990, p. 3. 33 SILVA, José Afonso da. Direito urbanístico brasileiro. 2. ed. rev. e atual.. São Paulo: Malheiros, 1997,

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o controle dos impactos que possam ser produzidos por um empreendimento no Meio Ambiente.

A partir dos padrões legais específicos, ou como prefere referir Edis Milaré, “Padrões de Qualidade Ambiental”34, busca-se assegurar um nível de harmonia e segurança ambiental entre o empreendimento proposto e o meio ambiente ecologicamente equilibrado.

É interessante observar que está aumentando, gradativamente, o número de indústrias que implantaram um Sistema de Gestão Ambiental, motivo pelo qual se pode concluir que a busca pela qualidade ambiental assumiu, definitivamente, um papel estratégico no mundo dos negócios. Tenha-se presente que a adoção de uma Responsabilidade Ambiental pressupõe a que a indústria tenha se conscientizado sobre a importância da qualidade ambiental, sendo que a sua implantação resulta um desenvolvimento da empresa como um todo.

Em grandes indústrias, a gestão ambiental é tratada como função dentro da própria organização, de forma independente e necessária, com características próprias que a distinguem (mas complementam) as outras funções. Há, todavia, indústrias que, em virtude do seu reduzido porte, não comportam uma gestão ambiental interna, mas que terceirizam esta função por empresas ou prestadores de serviços especializados. Em todos os casos, a gestão ambiental passou a ocupar posição de destaque entre as funções organizacionais, não só pelas pesadas responsabilidades legais ou pelas incessantes cobranças sociais, mas, também, pela disseminação dos princípios de garantia da qualidade e pela contribuição que a mesma agrega à imagem da indústria.

Assim, a qualidade ambiental passou a fazer parte de uma responsabilidade da indústria, desempenhando papel importante no seu desenvolvimento. A idéia desse desenvolvimento econômico e tecnológico deve ser mensurada com a preservação do meio ambiente, buscando alternativas “mais limpas”.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

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Como foi visto ao longo do desenvolvimento deste trabalho, é imperativo que compatibilizemos os instrumentos utilizados para satisfazer as atuais necessidades, com a pretensão de manter um status de vida sustentável no futuro. É incontestável que tanto a sociedade, como a própria economia, dependem do consumo de energia e dos recursos naturais. Todavia, esta máxima traz à luz uma realidade assustadora, de que o limite de crescimento está limitado a capacidade de o próprio planeta fornecer estes recursos naturais e a sua capacidade de absorver a poluição causada pelo destino final desses mesmos recursos.

O setor industrial, estigmatizado como um dos principais responsáveis pela grave situação ambiental do planeta e também pelas crescentes exigências legais, com relação aos resíduos gerados, deve reagir pró-ativamente, a partir da busca constante de uma qualidade ambienta, por meio da implantação de estratégias de gestão como: produção limpa, certificação ambiental, redução de resíduos, reciclagem e reuso, entre outras medidas.

Em virtude dessas considerações, é necessário que as indústrias adotem a responsabilidade ambiental e, a partir disso, tornem-se mais competitivas, pois, atualmente, desperdício ou excesso de resíduo significa perda de matéria prima, falta de eficiência e aumento de custos de produção, além de uma imagem negativa. Inadequado seria esquecer que a introdução dessa questão, na organização industrial, ocasiona inúmeras vantagens, tais como: aumento de rendimento das matérias-primas, redução da geração de resíduos, diminuição dos custos de produção, tratamento e disposição, além de ganhos substanciais quanto à saúde do meio ambiente e da população.

Com o atendimento dessas exigências, vêm outros fatores positivos, como melhoria da imagem, aumento da competitividade e conquista de novos mercados.

Há inúmeras outras inovações, mas entende-se que o presente trabalho deve apenas pincelar algumas, demonstrando a verdadeira utilização da qualidade ambiental como responsabilidade da indústria.

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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