Secção B2 – Instituições e dinâmicas económicas e sociais na Época
Moderna
Org: Margarida Sobral Neto (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
Moderador/Chair: Carlos Pimenta
Carmelindo Rodrigues da Silva _ CV
Carmelindo Rodrigues da Silva é mestre em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba (2001) com o tema “Educação e cultura: portugueses e africanos no Brasil dos séculos XVI e XVII” e doutor em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba (2005) como o tema “Educação e Cultura: Um estudo da Sociedade Colonial -- Bahia e Pernambuco, 1532-1654”. Atualmente é Professor efetivo adjunto IV da Universidade Federal Rural do Semi-Árido/Brasil e Revisor de periódico (ad hoc) da Revista de Ciências da Educação. Possui um livro publicado, intitulado “Povoadores de Além-Mar: portugueses e africanos no século XVI” e um caderno de estudos preparado para um curso de especialização (UFERSA) em História da África, intitulado “A escravidão na história da humanidade”. Tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em Filosofia da Ciência e Metodologia Científica. Atuando também com os seguintes temas: História da Educação, História do Brasil Colonial.
O Regimento de Tomé de Sousa e a Sociedade Colonial – Bahia e Pernambuco 1549 a
1654.
Carmelindo Rodrigues da Silva O presente trabalho se insere em um conjunto de discussões que recentemente tem sido o centro das preocupações de historiadores brasileiros e portugueses. O problema abordado, trata-se do tema da administração do Império Português, mais especificamente da eficiência do controle do centro sobre suas periferias por meio da promulgação de decretos, regimentos, da instalação de instituições e do envio de representantes.1 Por consequência, também se insere na vertente das pesquisas historiográficas, aquelas dedicadas ao estudo da sociedade colonial e da formação de uma cultura luso-brasileira.
Ao pesquisar o controle do centro sobre suas periferias, em especial a promulgação de decretos, regimentos, a instalação de instituições e envio de representantes, procuramos nos dedicar, também, ao estudo dos primeiros colonizadores. O nosso foco voltou-se para a forma que estes indivíduos atuaram na colônia, se organizaram à frente da nascente sociedade que
1 António Manuel HESPANHA, Antigo Regime nos Trópicos? Um debate sobre o modelo político do Império Colonial Português, p. 46
eles mesmos ajudaram a construir, e os posicionamentos que tiveram diante das medidas de controle estabelecidas pela administração da Coroa. Pois, a experiência irá mostrar que o Regimento de Tomé de Sousa e outras regulamentações que se seguiram, mostraram que por si só seriam insuficientes para garantir a aplicação e o equilíbrio da justiça. Desta forma, no problema a abordar, procuramos ver até que ponto a cultura destes atores sociais, estruturada na experiência portuguesa se manteve, ou passou por modificações decorrentes das dificuldades encontradas na colônia portuguesa da América. Por fim, buscamos também conexões da cultura colonial, com a que ainda permanece. Acreditamos que, por falta de uma atenção mais acurada e reflexão, sobre experiências já vivenciadas, é possível que estejamos a repetir comportamentos que, se incontornáveis em um tempo pretérito, podem estar ainda a prejudicar o bom relacionamento social e o desenvolvimento de nossa sociedade, no tempo presente.2 Da mesma forma, não é razoável ignorar e desprezar experiências que nos foram
favoráveis, proporcionaram coesão, expansão e sustentaram a sociedade colonial portuguesa/brasileira em seus primórdios.
Com a decisão pelo sistema de capitanias hereditárias, a Coroa portuguesa procurou se acautelar, nesse princípio de colonização, priorizando selecionar os donatários de capitanias, favorecendo aqueles personagens que se destacaram a serviço do Reino nas conquistas da Índia e África, ou que estiveram a serviço da burocracia administrativa. Tal cuidado mostrou-se uma ação mostrou-sensata, pois os avanços e retrocessos na dinâmica da colonização evidenciaram que o fator povo, o colonizador, e as instituições seriam determinantes para o sucesso da empreitada estabelecida. No entanto, mesmo considerando o fundamento adotado na definição da escolha para cabeças destas doações é possível perceber, entre outros indícios, que algumas coincidências se sobressaem nessas mercês. Antes de tudo, porém, é preciso levar em conta que estamos tratando de uma sociedade e cultura portuguesa dos séculos XVI e XVII, no Antigo Regime, onde, entre outras características, o universo de prática clientelar, já bem cristalizado, tendia a se misturar e coexistir com outras relações de natureza meramente institucional ou jurídica3. Sobre o sistema adotado pela Coroa portuguesa, o
2 Nos séculos precedentes, o termo “costume” foi empregado para denotar boa parte do que hoje está implicado na palavra “cultura”. O costume era a “segunda natureza” do homem. Francis Bacon escreveu sobre o costume como a conduta inercial, habitual e induzida. “Os homens professam, protestam, comprometem-se, pronunciam grandes palavras, para depois fazer o que sempre fizeram. Como se fossem imagens mortas, instrumentos movidos exclusivamente pelas rodas do costume”. Para bacon, portanto, o problema consistia em induzir melhores hábitos o mais cedo possível: “Como o costume é a principal diretriz da vida humana, que os homens procurem ter bons costumes [...] O costume é mais perfeito quando tem origem nos primeiros anos de vida: é o que chamamos de educação, que, com efeito, não passa de um costume cedo adquirido”. E. P. THOMPSON, Costumes
em Comum, p. 14
3 O sistema de governo vigente na sociedade portuguesa de 1580 a 1668 era caracterizadamente pluralista, como recorda o vocábulo monarquia, palavra pela qual se designava então o conjunto do poder político: o monarca “estava à frente, tinha a precedência”. Portugal, com efeito, era uma
professor Jack P. Greene, ao analisar o início do processo de colonização na América inglesa, de certa forma, acaba por justificar, também, o modelo de colonização adotado na colônia da América portuguesa, ao defender que, neste período histórico, nenhum Estado emergente da Europa tinha condições de tocar o empreendimento colonizador de forma diferente do que foi feito. Assim ele afirma: “No começo da era da colonização moderna, nenhum dos
Estado-nação emergentes da Europa tinha quer os recursos coercitivos necessários para estabelecerem sua hegemonia em partes do Novo Mundo, quer meios para mobilizar aqueles recursos”.4 Pensar, também, este referido período, considerando Portugal como um Estado
liberal seria anacronicamente transportar os fatos passados para contemporaneidade.5
Portugal do Antigo Regime, tratado neste trabalho, evidentemente já mostrava tendências centralizadoras em sua administração, estas, porém, laboravam e disputavam espaços simultaneamente com outras arraigadas correntes de poder, nada desprezíveis, e que se moviam no sentido oposto ao da centralização política, perenizando a manutenção da pluralidade dos polos de poder6.
Nas novas Terras de Santa Cruz, o distanciamento da metrópole e a ausência de um interlocutor com status de suficiente poder para sensibilizar a administração da Coroa a favor dos interesses dos colonizadores não impediriam que os senhores de engenho e outros povoadores de maior expressão interferissem no estabelecimento de leis ou encaminhamentos que lhes fossem desfavoráveis. Seguindo estes indícios e raciocínio, evitamos trabalhar uma história estritamente jurídica que, certamente, já foram bem contempladas por especialistas da área. Nossa preocupação voltou-se, sim, para o contexto social dos atores da sociedade em foco e em suas formas de organização (conceito da corrente do novo institucionalismo que monarquia, uma forma de governo, não uma monocracia, a qual designa o sistema político ”0nde o rei é o verdadeiro e único soberano de direito e fato”. António de OLIVEIRA. História de Portugal, p. 34 4 Jack P. GREENE. Tradições de governança consensual na construção da jurisdição do Estado nos impérios europeus da Época Modena na América, p. 98
5 O Estado moderno ou de Antigo Regime, que desde finais do século XV se constrói, assenta nos equilíbrios sociais conferidos em lei pelos privilégios que são pessoais e que são de grupo. Diferenças que se implantam também de modo diverso pelo território em que é reconhecida uma mesma soberania régia. A pertença a um grupo ou a um espaço de naturalidade ou de residência conta na distribuição diversificada de posições e de papéis sociais. Esses diversos estatutos têm no rei a garantia de manutenção e equilíbrio. Enquanto o Estado liberal se organiza e legitima a partir da vontade dos cidadãos que se exprime como um somatório de vontades individuais igualmente consideradas, o Estado moderno representa-se como um conglomerado de diferenças em que a igualdade jurídica não é um princípio que possa fundamentar o raciocínio político e social. Daí resultar estruturante a conflitualidade potencial entre os interesses dos vários grupos. Joaquim Romero MAGALHÃES. Concelhos e Organização Municipal na Época moderna, p. 11
6 O poder plural não configurava, porém, um poder múltiplo como há exemplos nos dias de hoje, onde o Estado “é árbitro dos múltiplos grupos que pretendem fazer prevalecer os seus interesses”6, mas de uma hierarquia de círculos jurisdicionais autônomos, de corpos, de estados. Trata-se, com efeito, de uma articulada organização política de “círculos autônomos de poder que se exprimem através da família, cidades, corporações (artesanais e culturais), senhorios, reinos e impérios”. António de OLIVEIRA. História de Portugal p. 34/35
estuda o papel das instituições formais e informais na organização da vida) para além das balizas do poder oficial.7 Procuramos levantar alguns recursos, utilizados por esses primeiros
povoadores, apontados e nomeados por alguns historiadores portugueses como “poderes informais”.8 Entretanto, ao procurar conhecer os recursos utilizados por esses primeiros
povoadores não partimos da pressuposição que eles prosperaram devido a inexistência de controle do centro, ou que o mesmo fosse predominantemente rarefeito.9 A administração da
Coroa, ao se decidir pelo sistema de capitanias, se fez presente na colônia da América, desde o primeiro momento, com a transposição para o Brasil das instituições que se tinham demonstrado eficazes na governança do reino, caso das capitanias e dos municípios. Porém, mesmo considerando que os inícios do século XVI são tempos de mudança, de modernização em Portugal e, de uma cultura política que está a se afirmar, era de esperar a começar dos próprios representantes desta mesma administração, a natural expectativa de que os povoadores estabelecidos na colônia reagissem às suas determinações dentro dos padrões culturais já bem sedimentados na sociedade portuguesa.
Através de uma pesquisa histórico-bibliográfica, que possa nos aproximar o máximo possível do objeto para melhor entendê-lo, analisamos as narrativas dos cronistas que descreveram a vida na colônia dentro do período proposto neste trabalho. Cartas e documentos dos missionários da Companhia de Jesus relativos ao comportamento social dos colonizadores e que, na visão destes religiosos, necessitavam de um posicionamento da justiça eclesiástica ou secular; Documentos relativos à visitação do Santo Ofício na Bahia; uma análise naquele contexto da cultura portuguesa considerada “poderes informais” e do uso da “resistência aos
7 Não eram, portanto, estas orientações metodológicas que mereciam as críticas de formalismo que a primeira geração da Escola dos Annales dirigiu contra a história política e jurídica. Os destinatários destas críticas eram antes os historiadores do direito, que dominavam as faculdades jurídicas e que faziam uma história “estritamente jurídica”, dirigida unicamente para descrição da evolução do direito oficial e letrado, dos seus aspectos legislativos e conceituais (ou “dogmáticos”) (Dogmengeschichte), não considerando, nem o contexto social destes, nem as múltiplas formas de organização e de constrangimento que não tem origem no poder oficial, nem abrigo no discurso letrado sobre o direito. António Manuel HESPANHA. História de Portugal Moderno: político e institucional, p. 17
8 Angela Barreto XAVIER e António Manuel HESPANHA. As Redes Clientelares. p. 381
9 No entanto, também não comungo da perspectiva pós-moderna de um império fraco e acéfalo. Esta visão minimiza a posição da coroa no império, exagera a importância dos poderes locais e foge à pergunta principal: como é que este império descontínuo conseguiu manter-se coeso durante séculos. Ironicamente, as consequências ideológicas desta perspectiva política horizontal e frouxa reforçam a visão nacionalista: se o estado era tão fraco, então o único poder capaz de sustentar as comunidades ultramarinas portuguesas foi a Igreja católica. Isto leva-nos diretamente às comemorações salazaristas dos descobrimentos, nas décadas de 1930 e 1960, que realçaram a importância da obra missionária como justificação para expansão portuguesa. Foi exatamente a este tipo de armadilha ideológica que a historiografia séria, começando com Vitorino Magalhães Godinho9, tentou escapar. Tal como noutros casos semelhantes, a expansão portuguesa resultou de uma combinação de motivações econômicas, sociais e religiosas, e não faz sentido retomar uma disputa de há cinquenta anos. Francisco BETHENCOURT. Configurações Políticas e Poderes Locais. In.: A Expansão Marítima Portuguesa, 1400-1800. p. 208/209
poderes” como recurso e fator de reequilíbrio social de forças. No desenvolvimento deste trabalho, procuramos levar em conta, também, o que E. P. Thompson chama a atenção para os “padrões” nas relações sociais e a importância de conhecê-los: “Evidentemente, a questão é
como o indivíduo veio a ocupar esse “papel social” e como a organização social específica (com seus direitos de propriedade e estrutura de autoridade) aí chegou. Estas são questões históricas”.10 Nesta análise procuraremos levar em conta a recomendação de E. H. Carr, em
sua afirmação de que é preciso dominar e compreender o passado como sendo uma chave para um melhor entendimento do presente.11
Considerando tais indícios, o objeto desta pesquisa é verificar: Qual a razão da aparente insuficiência do Regimento concedido a Tomé de Sousa para o ordenamento da vida social da colônia na época em foco? As respostas para esta pergunta poderão esclarecer até que ponto a cultura portuguesa e a atuação dos primeiros povoadores facilitaram ou dificultaram o fortalecimento das instituições de justiça e controle na nova Terra de Santa Cruz.
Referências bibliográficas:
BETHENCOURT, Francisco. Configurações Políticas e Poderes Locais. In: BETHENCOURT, Francisco; CURTO, Diogo Ramada (Dir,). A Expansão Marítima Portuguesa, 1400-1800. Lisboa: Edições 70, 2010.
GREENE, Jack P. Tradições de governança consensual na construção da jurisdição do Estado nos impérios europeus da Época Modena na América. In: João Maria Fragoso e Maria de Fátima Gouvêa (Orgs.). Na Trama das Redes: Política e Negócios no Império Português, Séculos XVI-XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
HESPANHA, António M. Antigo regime nos trópicos? Um debate sobre o modelo político do império colonial português. In: FRAGOSO, João; GOUVÊA, Maria de Fátima (Orgs.). Na Trama das Redes: política e negócio no império português, séculos XVI-XVII. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2010.
HESPANHA, António M. História de Portugal Moderno: político e institucional. Lisboa: Universidade Aberta, 1995.
10 Evidentemente, a questão é como o indivíduo veio a ocupar esse “papel social” e como a organização social específica (com seus direitos de propriedade e estrutura de autoridade) aí chegou. Estas são questões históricas. Se determos a história num determinado ponto, não há classes, mas simplesmente uma multidão de indivíduos com um amontoado de experiências. Mas se examinarmos esses homens durante um período adequado de mudanças sociais, observaremos padrões em suas relações, suas ideias e instituições. E. P. Thompson, A Formação da Classe Operária Inglesa, Vol. I, p. 12
MAGALHÃES, Joaquim Romero. Concelhos e Organização Municipal. Coimbra: Universidade de Coimbra, 2011.
NETO, Margarida S. A Persistência Senhorial. In: MAGALHÃES, Joaquim R. (Org.). História de Portugal Vol. 3 Lisboa: Estampa, 1993.
OLIVEIRA, António. Capítulos de História de Portugal (1580-1668) – vol. I. Coimbra: Palimage, 2015.
THOMPSON, E. P. A Formação da Classe Operária Inglesa Vol. 1. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
THOMPSON, E.P. Costumes em Comum. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
XAVIER, Ângela B. e HESPANHA, Antônio M. As Redes Clientelares. In: HESPANHA, António M. (Org.). História de Portugal Vol. 4. Lisboa: Estampa, 1993.
1997.