• Nenhum resultado encontrado

Gramsci e os 100 anos da Revolução Russa

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Gramsci e os 100 anos da Revolução Russa"

Copied!
8
0
0

Texto

(1)

Gramsci e os 100 anos da Revolução Russa

Gramsci and the 100 years of the Russian Revolution

Inez Stampa

1

Ana Lole

2

Guido Liguori

3

O ano de 2017 registra dois fatos marcantes na história das lutas dos povos: o centenário da Revolução Russa e os oitenta anos de morte de Antonio Gramsci. A Revolução Russa de 1917 foi expressão máxima do contraponto ao capitalismo ocidental na primeira metade do século XX e, ainda hoje, continua a impulsionar inúmeros grupos subalternos nas lutas por emancipação política e humana. Vinte anos depois desse evento revolucionário, em 1937, já às portas da Segunda Guer-ra Mundial, deu-se o falecimento precoce do filósofo Antonio GGuer-ramsci (1891-1937) em virtude da dureza dos cárceres do fascismo italiano.

Sobrevivem, contudo, as ideias do intelectual sardo e dos revolucionários rus-sos de 1917, cujas contribuições são fundamentais para a nossa compreensão não somente daquele período histórico, mas, também, para a construção de novas visões e estratégias visando à superação do capitalismo.

Nesse sentido, retomar criticamente o exemplo da primeira grande revolu-ção proletária vitoriosa do mundo é tarefa fundamental para a construrevolu-ção de uma nova ordem societária, sem dominação ou exploração de qualquer natureza, como de classe, etnia e gênero. A utopia tornada concreta pela classe trabalhadora na Rússia, bem como os escritos de Gramsci servem de estímulo para novas lutas e organizações das classes e grupos subalternos.

Num momento de grave ofensiva contra os direitos da classe trabalhadora, de intensificação da exploração da força de trabalho4, este dossiê temático se propôs

recordar acontecimentos que transformaram a história e abriram um horizonte de expectativa libertador para as classes subalternas.

Este número da revista O Social em Questão traz o dossiê “Gramsci e a Revo-lução Russa”, que reúne artigos produzidos por estudiosos da tradição marxista,

ISSN: 1415-1804 (Pr ess) / 2238-9091 (Online) ISSN: 1415-1804 (Pr ess) / 2238-9091 (Online)

(2)

ISSN:

1415-1804 (Pr

ess) / 2238-9091 (Online)

em especial por gramscianos, de diversas áreas do conhecimento no Brasil e em outros países, garantindo a pluralidade do debate e a participação de autores de todas as regiões do país e de centros de estudos internacionais de reconhecida produção na temática do dossiê. As abordagens apresentam contribuições acerca do legado da Revolução Russa e do pensamento político de Gramsci.

O texto de Guido Liguori “Gramsci e a Revolução de Outubro” abre o dossiê. Liguori apresenta como o filósofo sardo se relacionou com a Revolução Russa, pontuando os escritos gramscianos desse período. O texto deixa claro o reco-nhecimento de que Gramsci foi não apenas um teórico da revolução, mas um revolucionário – desde os anos turineses5 às obras do cárcere.

Massimo Modonesi em “Gramsci y las revoluciones rusas a un siglo de dis-tancia” apresenta a interseção de Antonio Gramsci com a história da Revolução Russa. Mostra-nos, além da riqueza teórica de suas categorias, que o marxismo gramsciano alcança a todos, pois é um marxismo crítico comprometido.

Anita Helena Schlesener em “Notas sobre a Revolução Russa e a reflexão de Gramsci” evidencia a Revolução Russa enquanto o grande marco revolucioná-rio do século XX, aborda a interpretação de Gramsci sobre o movimento russo, bem como a relação entre os sovietes6 e os conselhos de fábrica7. A autora

indi-ca que Gramsci analisou a Revolução Russa como incentivo para a organização dos trabalhadores na Itália.

Keila Lúcio de Carvalho em “Gramsci e o biennio rosso (1919-1920): a expe-riência dos conselhos de fábrica na Itália” traz uma análise sobre as expeexpe-riências de auto-organização da classe trabalhadora durante o biênio vermelho italiano (1919-1920) na cidade de Turim, na Itália. Com base nos escritos gramscianos pré-carcerários, a autora traz o debate sobre os conselhos de fábrica e conselhos de trabalhadores (os sovietes) nos dando elementos para pensarmos sobre a orga-nização da classe trabalhadora no contexto atual.

O texto de Michael Löwy, “Gramsci e Lukács: em direção a um marxismo antipositivista”, apresenta uma interlocução entre os escritos destes dois autores no que tange à filosofia dialética e revolucionária rumo a um marxismo liberto dos entraves positivistas.

Giovanni Semeraro em “Gramsci e a religião: uma leitura a partir da Améri-ca Latina” traz elementos para refletirmos sobre a questão da religião na Amé-rica Latina na contemporaneidade, em particular, sobre a Igreja Católica e o cristianismo. São destacadas as distinções que Gramsci faz entre os elementos revolucionários do cristianismo e a estrutura feudal da igreja. Versa sobre o

(3)

ISSN:

1415-1804 (Pr

ess) / 2238-9091 (Online)

pensamento de Antonio Gramsci mostrando que a religião possui seus apare-lhos privados de hegemonia, estabelece um “contraponto entre as considera-ções de Gramsci sobre cristianismo (e Igreja Católica) e o papel da Teologia da Libertação na América Latina”, demonstrando que, no continente, setores significativos de cristãos, utilizando instrumentos analíticos do marxismo e do pensamento de Gramsci, fizeram uma “opção pelos pobres” e conferiram uma nova configuração à religião e à politica.

Vicente A. C. Rodrigues em “Notas sobre direitos humanos e marxismo nos 100 anos da Revolução Russa” traz um interessante debate acerca dos direitos humanos e o marxismo. Vicente Rodrigues reconstrói com leveza a história dos direitos humanos correlacionando-a com o período da Revolução Russa, bem como dialoga com a crítica marxista reafirmando que a posição de Marx não é contrária a esse debate.

Raúl Burgos em “Para uma teoria integral da hegemonia: uma contribuição a partir da experiência latino-americana” aborda a teoria gramsciana da hege-monia apresentando, no contexto latino-americano, formas de disputas entre a economia política do capital e a economia política do trabalho. Para essa abor-dagem, Burgos traz o debate sobre economia solidária. A “concepção integral da hegemonia” é tomada como base teórica para pensar os novos processos de economia solidária na América Latina, como forma da disputa hegemônica en-tre a economia política do capital e a economia política do trabalho, na direção da construção de uma “esfera produtiva social” que dispute o sentido social do trabalho e a vida produtiva.

Victor Leandro Chaves Gomes em “A Grande Política em Maquiavel: uma interpretação gramsciana” traz à tona o debate da política em Maquiavel pelas lentes de Gramsci. Situa o leitor sobre o contexto em que Gramsci se aproxima do pensamento maquiaveliano para compreender o complexo mundo da política, demonstrando de que maneira o pensador sardo percebia, na obra de Maquiavel, uma fonte revolucionária para a instauração de novos horizontes políticos. A aná-lise torna clara a abrangência filosófica da teoria política maquiaveliana, identi-ficando perigos atinentes à redução que comumente se faz da política à pequena política e ressaltando que “tamanha redução do complexo universo do político ao mínimo é, e sempre será, um artifício digno da grande política”.

Mônica Maria Torres de Alencar em “Gramsci e a perspectiva nacional-popu-lar no âmbito da Cultura” traz o debate sobre a categoria nacional-popunacional-popu-lar e de como a mesma se relaciona com a concepção de cultura em Gramsci. Discute,

(4)

ISSN:

1415-1804 (Pr

ess) / 2238-9091 (Online)

com base no pensamento gramsciano, como, no Brasil, a perspectiva nacional--popular comparece na formação histórica e social do desenvolvimento do capita-lismo no país, demonstrando que “esse processo teve consequências negativas na formação cultural brasileira”, aspecto que atinge as relações que se estabelecem entre Estado e sociedade civil e “influem na dinâmica de organização da cultura e na constituição da intelectualidade no Brasil”.

O artigo de Inez Stampa e Ana Lole “Lutas e movimentos sociais: compromis-so de classe com quem?” busca, no centenário da Revolução Russa, refletir compromis-sobre o compromisso de classe na perspectiva de uma sociabilidade fundada na eman-cipação humana. As autoras utilizam as contribuições de Marx e de Gramsci para a análise realizada, bem como procuram articular o debate com o Serviço Social na perspectiva de indicar possíveis desafios para tal compromisso e para que o ideal de emancipação humana se estabeleça no âmbito da sociabilidade capitalista.

Alex Fabiano de Toledo traz o artigo “A categoria classes e grupos subalter-nos para o Serviço Social brasileiro”, onde o autor apresenta investigação sobre a teorização da categoria classes e grupos subalternos de Antonio Gramsci pelo Serviço Social brasileiro nas últimas décadas, indicando pontos de convergência e divergência no debate, apresentando-os a partir de dois eixos: a forma como abordam a categoria e a superação da subalternidade.

Telma Cristiane Sasso de Lima em “Gramsci e ações coletivas populares: uma releitura dos protestos brasileiros no ciclo 2013-2015” traz uma análise dos pro-testos brasileiros no período 2013-1015 à luz do pensamento gramsciamo. O artigo identifica a presença de esforços organizativos nas massas populares com-prometidos com a construção de uma nova vontade coletiva hegemônica, obser-vando a dialética indivíduo-coletivo, presente na ação coletiva popular.

No artigo “Crítica ao marxismo antiecológico prometéico de Hans Jonas” Gabriel Vicente Riva debate a posição do autor alemão Hans Jonas sobre o mar-xismo, tomando como foco de análise a obra O princípio da responsabilidade: en-saio de uma ética para a civilização tecnológica. Gabriel Riva demonstra como Hans Jonas “aponta o marxismo como uma concepção teórico-política que conduz à idolatria do progresso técnico inconsequente, o qual tem levado a humanidade para uma catástrofe ecológica. Infirma-se esta posição apontando elementos ecológicos no pensamento materialista marxiano”. Calcado na obra marxiana, o artigo traz instigante contribuição para os estudos voltados para questões socio-ambientais, demonstrando que Marx, muito antes de Jonas, “já vislumbrava a preocupação com as gerações futuras e as condições da natureza que se deixava

(5)

ISSN:

1415-1804 (Pr

ess) / 2238-9091 (Online)

para os séculos seguintes” e se faz presente, pontualmente ou largamente, nas mais diversas fases do pensamento de Karl Marx, observa.

O Social em Questão número 39 traz, também, duas resenhas. A primeira

aborda a obra “Gramsci e a Revolução Russa”, publicada pela Mórula Editorial em 2017, que é uma coletânea organizada pelos estudiosos de Gramsci Ana Lole, Victor Gomes e Marcos Del Roio. A segunda resenha comenta a obra “Guerra e re-volução: o mundo um século após outubro de 1917”, de Domenico Losurdo, publicada pela Boitempo, também em 2017.

Na Seção Livre temos dois artigos. O primeiro, intitulado “Sob a ponta da agulha: dimensões do trabalho precário na indústria têxtil”, de Hiago Trindade, traz o debate sobre a precarização do trabalho na sociedade contemporânea. Para compreender esse processo de precarização, o autor realizou um estudo articulando revisão de literatura com um conjunto de informações produzidas mediante pesquisa empírica realizada junto aos operários da indústria têxtil potiguar “Casa de Costura”.

No segundo artigo “Retomar la informalidad: un abordaje de su dimensión política”, María Maneiro e Nicolas Bautès analisam, a partir de uma abordagem teórica, a questão da informalidade, explorando a dimensão política que se ins-creve no binômio formalidade-informalidade. Os autores trazem o debate sobre “estado de exceção” e “zona cinzenta”, elementos muito oportunos para compre-ender processos históricos e a realidade atual, no Brasil e no mundo.

A leitura deste número do O Social em Questão convida os/as leitores/as a encontrarem um vasto registro de ideias de Antonio Gramsci e do processo revolucionário russo, o que demarca a singularidade e a riqueza da proposta do dossiê, bem como das resenhas e artigos da sessão livre.

Importante registrar, para pensarmos os desafios que o tempo presente nos impõe, que, diante do “Outubro Vermelho”, Gramsci não se contentava com as ideias já acomodadas dos líderes sociais democratas da Segunda Internacional, razão de seu rompimento com o Partido Socialista Italiano (PSI). Ele ousou se alinhar à Lenin ao considerar a falência da Segunda Internacional. Acreditava ser necessário criar uma terceira, a chamada Internacional Comunista (1919-1943). Dessa forma, a Revolução Russa é, para Gramsci, uma revolução contra o capital.

Gramsci foi um pensador muito mais sofisticado do que a maioria dos marxistas de sua geração. Sua estratégia revolucionária ainda hoje alimenta discussões conceituais que ganham cada vez mais repercussão. Termos como hegemonia, fordismo, bloco histórico, revolução passiva e sociedade civil ainda são atuais neste

(6)

ISSN:

1415-1804 (Pr

ess) / 2238-9091 (Online)

início do século XXI. Não obstante, temos que ter clareza de suas proposições e do significado da Revolução Russa e de suas contribuições para refletirmos sobre o tempo presente, sob o risco de contribuirmos para distorcer o que Gramsci escreveu e o que o “Outubro Vermelho” representou no processo histórico.

Fora de seu contexto original, conceitos como sociedade civil e hegemonia, por exemplo, têm servido para usos, distorções e abusos de diversas ordens, in-clusive a tentativa de compatibilização de projetos societários divergentes e total-mente distintos. O legado de Gramsci pode ser lido e interpretado de muitas for-mas. Mas não fora do processo histórico em que foi constituído. É bom recordar, Gramsci foi, acima de tudo, um revolucionário. Seu projeto político sempre foi organizar a política e o poder para a busca da hegemonia pela classe trabalhadora, tendo como horizonte o socialismo.

Neste sentido, esperamos que o dossiê “Gramsci e a Revolução Russa” possa ser-vir como instrumento de reflexão e de estímulo para as lutas sociais e cotidianas do nosso próprio tempo. Boa leitura!

Outros outubros virão Outras manhãs, plenas de sol e de luz [...]. O que foi feito deverá / O que foi feito de Vera Milton Nascimento, Fernando Brant e Márcio Borges Clube da Esquina, 1978.

Referências

ANTUNES, R.; DRUCK, G.. A terceirização sem limites: a precarização do tra-balho como regra. O Social em Questão, Rio de Janeiro, v. 34, n. 1, p. 19-40, 2015. Disponível em: <http://osocialemquestao.ser.puc-rio.br/media/OSQ_34_1_ Antunes_Druck.pdf>. Acesso em: 12 jul. 2017.

BRASIL. Lei nº 13.467, de 13 de julho de 2017. Altera a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aprovada pelo Decreto-Lei no 5.452, de 1o de maio de 1943, e as Leis nos 6.019, de 3 de janeiro de 1974, 8.036, de 11 de maio de 1990, e 8.212, de 24 de julho de 1991, a fim de adequar a legislação às novas relações de trabalho. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/L13467.htm>. Acesso em: 12 ago. 2017.

(7)

ISSN:

1415-1804 (Pr

ess) / 2238-9091 (Online)

______. PEC 287/2016. Proposta de Emenda à Constituição. Altera os arts. 37, 40, 109, 149, 167, 195, 201 e 203 da Constituição, para dispor sobre a seguri-dade social, estabelece regras de transição e dá outras providências. (Reforma da Previdência). Disponível em: <http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fi chadetramitacao?idProposicao=2119881>. Acesso em: 12 jul. 2017.

GRAMSCI, A. Escritos políticos. Vol. 2: 1921-1926. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

MAESTRI, M.; CANDREVA, L. Antonio Gramsci: vida e obra de um comunista revolucionário. São Paulo: Expressão Popular, 2007.

Notas

1 Doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Professora do Departamento de Serviço Social da PUC-Rio. Coordenadora do Centro de Re-ferências das Lutas Políticas no Brasil (1964-1985) – Memórias Reveladas. O presente trabalho foi realizado com apoio do CNPq – Brasil (processo 30727/2015-0 – bolsa produtividade em pesquisa). E-mail: [email protected].

2 Doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Pós-doutoranda em Serviço Social pela PUC-Rio. Professora do Departamento de Serviço So-cial de Niterói da Escola de Serviço SoSo-cial da Universidade Federal Fluminense (UFF). Mem-bro da International Gramsci Society Brasil (IGS-Brasil). E-mail: [email protected]. 3 Professor de História do Pensamento Político na Universidade da Calábria, Itália. Presidente da

International Gramsci Society Itália (IGS-Itália). E-mail: [email protected]. 4 Reportamo-nos às reformas trabalhista e da previdência, em curso no país que, dentre outras

ofensivas, vêm intensificando a regressão de direitos dos trabalhadores brasileiros. A esse res-peito ver: Antunes e Druck (2015) e Brasil (2016; 2017).

5 Para melhor situar o leitor, merece registro o período entre 1911-1920, quando Gramsci iniciou seus estudos na Universidade de Turim e ingressou no Partido Socialista Italiano (PSI). A cidade de Turim, à época, passava por um rápido processo de industrialização, com as fábricas da Fiat e Lancia, recrutando trabalhadores de várias regiões da Itália. Os sindicatos se fortaleceram e começaram a surgir conflitos sociais associados aos interesses trabalhistas. Gramsci frequentou círculos comunistas e associou-se com migrantes sardos. Gramsci, em Turim, tornou-se jornalista. Nesse período também atuava como militante nos conselhos de fábrica (mais especificamente entre 1919-1920), ocasião em que seu interesse de estudo esteve mais centrado na questão dos sindicatos, do partido e dos conselhos de fábrica e seus escritos foram basicamente publicados em jornais de esquerda como o Avanti! (órgão oficial do Partido Socialista Italiano). No período anterior à sua prisão, Gramsci produziu muito como editor de

(8)

ISSN:

1415-1804 (Pr

ess) / 2238-9091 (Online)

diversos jornais comunistas na Itália. Entre estes, fundou, juntamente com Palmiro Togliatti, em 1919, o L’Ordine Nuovo e contribuiu para o La Città Futura. O grupo que se reuniu em torno de L’Ordine Nuovo aliou-se com a ampla facção comunista abstencionista dentro do Partido Socialista. Isto levou à organização do Partido Comunista Italiano (PCI), em 1921. Gramsci viria a ser um dos líderes do partido desde sua fundação. Em 1924, Gramsci foi eleito deputado pelo Vêneto, quando começou a organizar o lançamento do jornal oficial do partido, denominado

L’Unità, vivendo em Roma. Em 1926, a polícia italiana prendeu Gramsci e, posteriormente,

ele seria condenado a cinco anos de confinamento na remota ilha de Ústica. No ano seguinte, foi condenado a vinte anos de prisão em Turi, próximo a Bari, capital da Apúlia. Sua saúde começava a se degradar rapidamente. Mas, em 1933, os sintomas da tuberculose dos ossos tornaram-se evidentes. A doença fez progressos rápidos. Como as autoridades fascistas não quiseram que o preso morresse como mártir dentro dos muros do cárcere, Gramsci foi solto três dias antes de falecer. Morreu em 27 de abril de 1937, com 46 anos, numa clínica particular em Roma. No período pré-cárcere, Gramsci escreveu ensaios sobre literatura e teoria política, publicados em jornais operários e socialistas. No período do cárcere (1926-1937) escreveu as

Cartas e os Cadernos do Cárcere (MAESTRI & CANDREVA, 2007).

6 Sovietes (do russo: сове́ты) são colegiados, ou corpos deliberativos, constituídos de operá-rios ou membros da classe trabalhadora que regulam e organizam a produção material de um determinado território, ou mesmo indústria.

7 “Através da luta pelo controle – luta que não se trava no Parlamento, mas que é luta revolu-cionária de massas e atividade de propaganda e de organização do partido histórico da classe operária, o Partido Comunista –, a classe operária deve adquirir, nos planos espiritual e organi-zativo, consciência de sua autonomia e de sua personalidade histórica. É por isso que a primeira fase da luta se apresentará como luta por uma determinada forma de organização. Esta forma de organização só pode ser o conselho de fábrica, bem como a organização nacionalmente cen-tralizada do conselho de fábrica. Esta luta deve ter como resultado a constituição de um conse-lho nacional da classe operária, que será eleito - em todos os seus níveis, do conseconse-lho de fábrica ao conselho urbano e ao conselho nacional – mediante sistemas e procedimentos estabelecidos pela própria classe operária, e não pelo parlamento nacional, não pelo poder burguês. Esta luta deve ser encaminhada no sentido de demonstrar às grandes massas da população que todos os problemas existenciais do atual período histórico, os problemas do pão, do teto, da luz, do ves-tuário, só podem ser resolvidos quando todo o poder econômico – e, portanto, todo o poder político – tiver sido transferido para a classe operária. Ou seja: esta luta deve ser encaminhada no sentido de organizar em torno da classe operária todas as forças populares em revolta contra o regime capitalista, com o objetivo de fazer com que a classe operária se torne efetivamente classe dirigente e guie todas as forças produtivas a se emanciparem através da realização do programa comunista”. Trecho do artigo “Controle Operário”, publicado no L’Ordine Nuovo, de 10 de fevereiro de 1921 (GRAMSCI, 2004, p. 39-40).

Referências

Documentos relacionados

Os estudos iniciais em escala de bancada foram realizados com um minério de ferro de baixo teor e mostraram que é possível obter um concentrado com 66% Fe e uma

Changing distribution of human rotavirus serotypes during two epidemic outbreaks of gastroenteritis in Campinas, São Paulo, Brazil, 2003-2004: detection of G6 strains..

Tendo como parâmetros para análise dos dados, a comparação entre monta natural (MN) e inseminação artificial (IA) em relação ao número de concepções e

Quando contratados, conforme valores dispostos no Anexo I, converter dados para uso pelos aplicativos, instalar os aplicativos objeto deste contrato, treinar os servidores

Percebemos a necessidade de questionar a teoria de Halbwachs, no tocante à reconstrução do passado pela memória através de processos coletivos, anteriores ao indivíduo e mais ainda

Poderá existir alocação de recursos neste segmento, somente após autorização do Conselho Deliberativo da PREVI-ERICSSON, respeitando os limites estabelecidos pela Resolução do CMN

Quais os principais assuntos tratados nas APG?________________ 11.2 Periodicamente, ocorrem kaizens workshops eventos caracterizados por trabalho intensivo, brainstorming e

Atualmente o predomínio dessas linguagens verbais e não verbais, ancorados nos gêneros, faz necessário introduzir o gênero capa de revista nas aulas de Língua Portuguesa, pois,