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As nominalizações na sintaxe da língua krahô (jê)

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Academic year: 2021

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(1)UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA INSTITUTO DE LETRAS DEPARTAMENTO DE LINGÜÍSTICA, PORTUGUÊS E LÍNGUAS CLÁSSICAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LINGÜÍSTICA. AS NOMINALIZAÇÕES NA SINTAXE DA LÍNGUA KRAHÔ (JÊ). Maxwell Gomes Miranda. Brasília 2010.

(2) UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA INSTITUTO DE LETRAS DEPARTAMENTO DE LINGÜÍSTICA, PORTUGUÊS E LÍNGUAS CLÁSSICAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LINGÜÍSTICA. AS NOMINALIZAÇÕES NA SINTAXE DA LÍNGUA KRAHÔ (JÊ). Dissertação submetida ao Programa de Pósgraduação em Lingüística do Departamento de Lingüística, Português e Línguas Clássicas da Universidade de Brasília, como parte dos requisitos para a obtenção do grau de Mestre em Linguística.. Brasília 2010.

(3) UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA INSTITUTO DE LETRAS DEPARTAMENTO DE LINGÜÍSTICA, PORTUGUÊS E LÍNGUAS CLÁSSICAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LINGÜÍSTICA. AS NOMINALIZAÇÕES NA SINTAXE DA LÍNGUA KRAHÔ (JÊ). Maxwell Gomes Miranda. Comissão examinadora: Profa. Dra. Ana Suelly Arruda Câmara Cabral (UnB) - Presidente/orientadora Prof. Dr. Aryon Dall'Igna Rodrigues (UnB) – membro interno Profa. Dra. Luciana Dourado (UnB) – membro interno Profa. Dra. Rozana Reigota Naves (UnB) - suplente. Brasília 2010.

(4) iii DEDICATÓRIA. Ao povo Krahô, pela luta e resistência..

(5) iv AGRADECIMENTOS. Agradecer aqueles que contribuíram de forma direta ou indireta em nossa formação, nem sempre é uma tarefa fácil, já que podemos incorrer no erro de esquecer alguém. Em visto disso, tentarei retribuir por meio desses agradecimentos todos aqueles que fizeram parte de mais uma jornada. À minha orientadora, Profa. Ana Suelly, meus mais sinceros agradecimentos. Sou-lhe grato por ter me aceitado como seu orientando e por ter, nesses dois anos, compartilhado comigo vários momentos de aprendizagem. Agradeço-lhe não só pelas lições de lingüística, mas pelo apoio incondicional que tem dado à formação de novos pesquisadores, dedicando-se arduamente na formação de lingüistas indígenas e lingüistas indigenistas; Ao Prof. Aryon Dall‘Igna Rodrigues, pela generosidade e humildade com as quais tem nos atendido sempre que as dúvidas surgem. Agradeço-lhe pelos inúmeros ensinamentos não só de lingüística, mas também de ética e responsabilidade que devemos ter na pesquisa e na aplicação dos resultados nas comunidades indígenas que sempre nos recebem e nos ensinam um pouco de sua língua e sua cultura; À Profa. Luciana Dourado pelas valiosas sugestões e contribuições feitas durante a defesa; Ao pahi Pascoal pela acolhida na aldeia Pedra Branca e também ao Edson Krahô (Txotuk Krahô) e a sua família pela acolhida em sua casa; Aos professores Ataúlio Krahô, José Dilson Krahô, Potut Krakô e Roberto Carlos Krahô pelas aulas em sua língua que muito contribuíram para a realização dessa pesquisa;.

(6) v Aos meus pais, Otaviano e Eva, pelos ensinamentos de vida e perseverança com os quais tenho guiado minha vida nesses anos de luta; e também aos meus irmãos, Max e Andrielma; Às minhas eternas professoras, Sibele Letícia e Maria Raquel Galan; afinal, muito do que aprendi e onde cheguei devo a elas; agradeço-lhes pelas oportunidades que me propuseram em buscar novas oportunidades de estudo; Aos meus amigos e companheiros de luta do Laboratório de Língua Indígenas da Universidade de Brasília, Ana, Andérbio, Chandra, Fernando, Sanderson, Ariel, Suzy, Letícia, Edineide, pelos momentos de discussão e também de descontração; ao Fernando Orphão, pelas discussões teóricas e também ao Lucivaldo Costa pelas discussões sobres dados da língua Xíkrin; Agradeço aos meus colegas indígenas de curso, Paltu Kamaiurá, Maná Huni. também pelas trocas de experiências valiosas e aos meus novos amigos de luta, Gustavo e Nádia, com os quais tenho divido um pouco das minhas inquietações e angústias ―linguísticas‖; Agradeço, especialmente, a minha companheira de sempre, Lidiane, que nesses últimos dois anos, essa ‗menininha‘ tem mais que me suportado, tem compartilhado comigo momentos inesquecíveis de alegria e aprendizagem; Às minhas colegas do Departamento de Linguística, Layane, Cristiane, Michele, Cíntia, Carol pelos nossos encontros e (des)encontros; Ao Diretor Regional da FUNAI – Araguaína, TO, Cleso Fernandes Moraes, pela autorização concedida para entrada na Terra Indígena Krahô;.

(7) vi Ao Professor Francisco Edwiges Albuquerque pelo convite e pela oportunidade de ter participado da oficina com os professores Krahô, na aldeia Manoel Alves, e pelas valiosas discussões sobre fatos linguísticos da língua Apinajé; Aos professores Ludovico Carnasciali dos Santos e Eduardo Rivail Ribeiro pelo envio de textos sobre línguas Jê, os quais contribuíram para o meu trabalho; e agradeço, especialmente, à professora Sueli Maria de Souza que me disponibilizou sua dissertação de mestrado e tese de doutorado, além de um breve vocabulário da língua Krahô; Finalmente, agradeço ao CNPq pela bolsa de estudos de mestrado e pelo apoio financeiro dado à pesquisa de campo (Processos 484727/2006-0 e 401579/2008-5), e à Capes por meio do PROCAD – Programa Nacional de Cooperação Acadêmica (Processo 233/2007)..

(8) vii RESUMO. Esta dissertação explora as propriedades formais e funcionais do processo de nominalização de temas verbais na língua Krahô (família Jê Setentrional), o qual tem sido identificado em línguas da família Jê ora como expressão de tempo passado recente em oposição ao não-passado, ora como distinção entre aspecto perfectivo vs imperfectivo. Na presente dissertação, apresentamos uma análise alternativa para essas formas verbais, na qual elas não têm como função expressar categorias de tempo/aspecto, mas são requeridas por princípios gerais da sintaxe da língua.. Palavras-chave: nominalizações, morfossintaxe, línguas indígenas, língua Krahô.

(9) viii ABSTRACT. The present study is concerned with the functional and formal properties of deverbal nominalizations in Krahô (Northern Jê Group) which have been described for other Jê languages as a process implicated either with a non-past/recent past opposition or with an aspectual distinction between perfective and imperfective. The analyses presented here argue for an alternative view according to which these deverbal forms are not involved in the expression of tense/aspect categories, but are rather demanded by general and independent principles of this language‘s syntax.. Key-words: nominalizations, morphosyntax, indigenous language, language Krahô.

(10) ix LISTA DE QUADROS E TABELAS. Quadro 1 – Família linguística Jê (Rodrigues 1999) ......................................................12 Tabela 1 – Prefixos relacionais em Krahô (Rodrigues 2009) .........................................18 Tabela 2 – Numerais e outras palavras que quantificam .................................................35 Tabela 3 – Formas pronominais em Krahô (Popjes e Popjes 1986)................................46 Tabela 4 – Formas pronominais em Krahô (Souza 1997)................................................47 Tabela 5 – Formas pronominais em Krahô (Miranda 2009)............................................52 Tabela 6 – Distinção entre formas verbais longas e curtas em Canela-Krahô ................59 Tabela 7 - Morfemas nominalizadores em Krahô (Popjes e Popjes (1986).....................71.

(11) x ABREVIATURAS. ASP. Aspecto. SUBORD. AUM. Aumentativo. R. COL. Coletivo. R. CONT. Contínuo. DEM. Demonstrativo. DIM. Diminutivo. DIR. Direcional. ENF. Enfático. ERG. Ergativo. GRP. Grupo. IMPERF. Imperfectivo. INST. Instrumento. NEG. Negação. NLZ. Nominalizador. N.AGT. Nome de agente. N.INST. Nome de instrumento. N.LOC. Nome locativo. N.PAC. Nome de paciente. PART. Partícula. PERF. Perfectivo. PL. Plural. POSP. Posposição. PROJ. Projetivo. REL. Relativizador. Subordinação. 1. Pref. Rel. de Contiguidade. 2. Pref. Rel. de Não Contiguidade.

(12) xi SUMÁRIO AGRADECIMENTOS....................................................................................................................... RESUMO............................................................................................................................................ ABSTRACT........................................................................................................................................ LISTA DE QUADROS E TABELAS................................................................................................ ABREVIATURAS............................................................................................................................... v vii viii ix x. INTRODUÇÃO 0.0 Considerações iniciais.................................................................................................................. 0.1 Objetivos...................................................................................................................................... 0.2 Fundamentação teórica e metodológica....................................................................................... 0.3 Sobre o projeto de pesquisa.......................................................................................................... 0.4 Organização dos capítulos............................................................................................................. 01 02 02 03 04. CAPITULO I BREVE HISTÓRICO DO POVO KRAHÔ E SUA LÍNGUA 1.0 Introducão..................................................................................................................................... 1.1 Breve história do povo Krahô...................................................................................................... 1.2 A língua Krahô e sua filiação na família linguística Jê................................................................ 1.3 Trabalhos linguísticos sobre a língua Krahô................................................................................ 1.4 Considerações finais ..................................................................................................................... 06 06 11 13 14. CAPÍTULO II SOBRE NOMES E VERBOS 2.0 Introdução........................................................................................................................... 2.1 Nomes, verbos e posposições............................................................................................. 2.1.1 Prefixos relacionais e classes temáticas.............................................................................. 2.1.1.1 Temas nominais ................................................................................................................. 2.1.1.2 Temas Verbais.................................................................................................................... 2.1.1.3 Temas Posposicionais......................................................................................................... 2.1.2 Discussão sobre os prefixos relacionais em Krahô............................................................. 2.1.2 Divisão semântica dos nomes............................................................................................. 2.1.2.1 Nomes independentes possuídos: o morfema mediador de posse -o 2.1.3 Constituição interna dos nomes.......................................................................................... 2.1.3.1 Número............................................................................................................................... 2.1.3.2 Gênero................................................................................................................................. 2.1.4 Funções sintáticas exercidas por nomes............................................................................. 2.2 Classe dos verbos................................................................................................................ 2.3 Considerações finais............................................................................................................ 16 16 17 19 20 26 27 28 31 33 33 38 39 42 44.

(13) xii CAPÍTULO III FORMAS PRONOMINAIS EM KRAHÔ: DISTRIBUIÇÃO E FUNÇÃO 3.0 Introdução..................................................................................................................................... 3.1 Formas pronominais em Krahô: análises precedentes ................................................................ 3.2 Formas pronominais em Krahô: uma análise alternativa............................................................. 3.3 Considerações finais...................................................................................................................... CAPÍTULO IV INVESTIGANDO AS FORMAS VERBAIS LONGAS E CURTAS EM KRAHÔ 4.0 Introdução .................................................................................................................................... 4.1 Formas verbais longas e curtas em Krahô: análises precedentes................................................. 4.1.1 Shell 1952..................................................................................................................................... 4.1.2 Popjes e Popjes 1986.................................................................................................................... 4.1.3 O tratamento das formas longas do Krahô por Souza (1997)...................................................... 4.2 Uma análise das formas verbais longas e curtas em Krahô (Miranda 2009)............................... 4.2.1 Outros tipos de deverbais em Krahô............................................................................................ 4.3 Mais fundamentos para a existência de um processo de derivação de ‗nomes de ação‘ em Krahô ........................................................................................................................................... 4.4 Considerações finais ..................................................................................................................... 45 45 51 55. 57 58 58 59 63 64 71 81 82. CAPÍTULO V NOMINALIZAÇÕES E O SISTEMA DE ALINHAMENTO EM KRAHÔ 5.0 Introdução .................................................................................................................................... 5.1 Sistema de marcação de caso em Krahô (Souza 1997)................................................................ 5.1.1 Sistema nominativo...................................................................................................................... 5.1.2 Sistema ergativo........................................................................................................................... 5.1.3 Sistema ergativo ‗cindido‘........................................................................................................... 5.2 Cisão no alinhamento em Krahô: uma proposta de análise......................................................... 5.3 Considerações finais...................................................................................................................... 83 83 84 85 86 87 88. CONCLUSÃO............................................................................................................................................ 90. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................................................... 93.

(14) 1 INTRODUÇÃO ______________________________________________________________________. 0.. CONSIDERAÇÕES INICIAIS. As línguas da família Jê têm sido objeto de constante interesse de lingüistas de diferentes formações teóricas, principalmente pelos diferentes tipos e subtipos de predicados existentes nessas línguas (ativos – transitivos e intransitivos -, estativos e existenciais), mas também pela marcante distinção entre formas longas e curtas de seus verbos, e pela distinção de número singular, dual, plural, ou singular, dual, paucal e plural. Vários linguistas de línguas Jê têm interpretado as formas longas dos verbos dessas línguas como expressões das categorias de tempo, aspecto e modalidade, e essa associação à expressão de ergatividade (Reis Silva 2001; Costa 2003; Ferreira, 2003; Castro Alves, 2004; Oliveira 2005; Salanova, 2007; Santos, 2008). Esta dissertação explora as propriedades formais e funcionais do processo de nominalização das formas verbais longas na língua Krahô (família Jê Setentrional), demonstrando que essas formas não codificam tempo passado, mas são requeridas por princípios gerais da sintaxe da língua. Mostraremos que essas formas são decorrentes de um processo de nominalização que deriva ‗nomes de ação‘ e que a análise mais apropriada pode não ser aquela que as associa à manifestação de ergatividade. Esperamos com este estudo contribuir para o aprofundamento do conhecimento de alguns aspectos importantes da morfossintaxe da língua Krahô..

(15) 2 0.1 OBJETIVOS Os objetivos deste estudo são os seguintes: analisar as propriedades formais e funcionais das nominalizações nos contextos sintáticos em que ocorrem na língua Krahô; identificar os tipos de nomes que são derivados a partir de temas verbais; apresentar uma análise alternativa para as formas pronominais, mostrando sua distribuição e função na sintaxe; descrever e analisar o padrão de alinhamento em Krahô e sua relação com as nominalizações, focalizando suas propriedades morfossintáticas; contribuir para a descrição e documentação da gramática Krahô, no contexto das línguas da família Jê.. 0.2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA E METODOLOGIA. A análise dos dados teve como preocupação a descrição da interface da forma e da função de estruturas linguísticas do Krahô, o que exigiu a utilização de critérios distribucionais e de comutação, assim como de procedimentos analíticos contrastivos. A análise focalizou as classes de palavras, nome, verbo e posposição, com base em Bath (2003) e Croft (2003), mostrando que essas são as únicas classes que se flexionam para indicar a contiguidade ou não-contiguidade entre o núcleo e seu determinante por meio de prefixos relacionais (cf. Rodrigues 1953, 1986, 1996, 1999, 2000, 2009). Com respeito às nominalizações, embasamos nossa análise em Comrie (1976), Comrie & Thompson (1985) e Koptjevskaja-Tam (1993, 2003). O padrão de alinhamento em.

(16) 3 Krahô, por sua vez, foi descrito seguindo as abordagens de Comrie (1978, 1989) e Dixon (1994). Os dados utilizados no presente estudo foram coletados em pesquisa de campo em quatro etapas. As duas primeiras etapas foram realizadas durante o curso de formação de professores indígenas, oferecido pela Secretaria Estadual de Educação do Estado de Tocantins, na cidade de Paraíso, nos meses de junho e julho. A terceira etapa realizou-se na aldeia Pedra Branca, município de Goiatins (TO), na qual permanecemos 20 dias. A coleta dos dados foi realizada por meio de elicitação de estruturas previamente selecionadas que permitiram testar hipóteses levantadas. As gravações incluem dados naturais (conversações e relatos, tanto históricos quanto míticos). Os dados foram gravados em sistema digital (Handy Recorder H4). Além dos dados coletados em pesquisas de campo, servimo-nos também dos dados de Popjes e Popjes (1986) e de Souza (1990, 1997).. 0.3 SOBRE O PROJETO DE PESQUISA. O projeto de pesquisa a partir do qual resultou esta dissertação teve a finalidade de contribuir para a documentação, descrição e conhecimento da língua Krahô. Além disso, foi projetado para que os resultados servissem aos professores Krahô, tanto para que fizessem uso dos dados e resultados na sua formação linguística, como para a construção de materiais didático-pedagógicos para o ensino da escrita e leitura da língua Krahô nas escolas das aldeias. Desde 2008 temos acompanhado os professores Krahô durante o curso de formação de professores indígenas para o magistério oferecido pela Secretaria Estadual.

(17) 4 de Educação de Tocantins – SEDUC – na cidade de Paraíso, há 63 km da capital, Palmas. Em 2009 tivemos a oportunidade de participar do lançamento da cartilha de alfabetização Krahô na aldeia Manoel Alves, que foi elaborada pelo professor indígena Renato Yahé Krahô, em co-autoria com o Prof. Francisco Edwiges Albuquerque (Universidade Federal de Tocantins). Participamos também da oficina para elaboração de livros didáticos com vários professores indígenas. Nessa ocasião testamos algumas hipóteses e coletamos alguns dados com o professor Ataúlio Krahô. Ainda em 2009, além de participarmos do referido curso de formação em Paraíso, realizamos pesquisa de campo na aldeia Pedra Branca. Nessa aldeia fomos recebidos pelas lideranças políticas locais e pudemos mostrá-los e explicá-los o real motivo que tinha nos levado a estudar sua língua. Desde então, temos nos engajado com a causa indígena no que tange, principalmente, à formação de professores indígenas.. 0.4. ORGANIZAÇÃO DOS CAPÍTULOS. O presente estudo está organizado em cinco capítulos. No primeiro capítulo reunimos informações sobre a história do povo Krahô com os não-índios, sobre a filiação da língua Krahô e sobre os trabalhos linguísticos precedentes. Na sequência, o segundo capítulo descreve as classes de palavras nome, verbo e posposição, explorando o mecanismo da flexão relacional, única manifestação de flexão na língua, a qual flexiona temas verbais, nominais e posposicionais para assinalar as relações de dependência entre um determinante e elemento por este determinado..

(18) 5 Nomes e verbos são analisados e classificados com base em critérios distribucionais e funcionais. O terceiro capítulo oferece uma análise das formas pronominais na língua Krahô, mostrando distinções entre essas formas e suas respectivas associações aos tipos de predicados com os quais cada uma delas se combina. O quarto capítulo explora a natureza estrutural e funcional das nominalizações na sintaxe da língua Krahô. Seguimos a análise de Costa (2003) da língua Xíkrin, segundo a qual as formas longas dos verbos são nominalizações, obtidas por meio de um sufixo nominalizador que deriva ‗nomes de ação‘ a partir de temas verbais (cf. Comrie 1976, Comrie e Thompson 1985). Mostramos a ocorrência das nominalizações em Krahô em contextos sintáticos nos quais se exige um nome, além de ser a forma básica para a derivação de outros nomes nessa língua. O quinto capítulo focaliza a relação entre nominalizações e padrão de alinhamento em Krahô, mostrando que as construções transitivas com núcleos nominalizados, embora se assemelhem a um padrão de alinhamento ergativo, em virtude de seu argumento externo ser marcado por uma posposição específica para esta função, não correspondem à expressão do que tem sido definido como ergatividade linguística (cf. Dixon 1994). As considerações finais são apresentadas no sexto capítulo, seguidas das referências bibliográficas que substanciaram a análise desse estudo..

(19) 6 BREVE HISTÓRICO SOBRE O POVO KRAHÔ E SUA LÍNGUA ______________________________________________________________________. 1.. INTRODUÇÃO. Neste capítulo reunimos algumas informações sobre a história do contato dos índios Krahô com os não-índios. Em seguida, fazemos algumas observações sobre a classificação genética da língua Krahô – sua posição na família lingüística Jê, tronco Macro-Jê (Rodrigues 1986, 1999). Apresentamos também neste capítulo uma visão geral dos estudos linguísticos realizados sobre a língua Krahô, entre os quais se destacam os trabalhos descritivos de Shell (1952), Popjes & Popjes (1986), Souza (1990, 1997) e Bastos (2006).. 1.2. BREVE HISTÓRIA DO POVO KRAHÔ. O povo Krahô ou Mhi, como o próprio povo se autodenomina, vive no norte do estado de Tocantins, em uma Terra Indígena (TI) que ocupa uma área de 3.200 km2, entre os rios Manoel Alves Pequeno e Vermelho (afluente do rio Manoel Alves Grande), ambos formadores da bacia do Tocantins. A TI em que vivem os Krahô foi demarcada a partir do Decreto-lei nº 102, de 5 de agosto de 1944. Atualmente, os Krahô contam com uma população de 2.184 habitantes, distribuída em 24 aldeias (dados da FUNASA, 2006). A história do contato do povo Krahô, em certa medida, relaciona-se com a política de expansão e exploração do território brasileiro em direção ao interior do.

(20) 7 Brasil, desencadeada a partir do final do século XVII1. Segundo Melatti (2005), a política de exploração do interior do Brasil privilegiava duas frentes de ocupação que tinham a agricultura e a pecuária como principais atividades econômicas – a maranhense-paraense, de tipo agrícola, e a baiana, de tipo pastoril. Essas frentes convergiram rumo a uma região2 já habitada por vários povos indígenas. A frente maranhense-paraense, ainda que tivesse como objetivo a exploração de terras para o cultivo de arroz e algodão, teve pouco impacto, uma vez que os exploradores preferiam regiões de floresta, ambientes que o sul do Maranhão e o norte de Tocantins não lhes podiam oferecer (Melatti 2005). A frente pastoril, oriunda da Bahia, tinha por finalidade abastecer as populações de escravos que trabalhavam na exploração de reservas auríferas em Goiás e Mato Grosso. Melatti (2005) descreve a introdução da criação de gado na colônia, da seguinte forma: [...] O gado foi introduzido nesses dois núcleos ainda no século XVI. O gado pernambucano ocupou a costa da Paraíba e a do Rio Grande do Norte, avançando depois para o interior até atingir o Ceará. Dos arredores de Salvador, com a conquista de Sergipe, o gado baiano foi levado até as margens do rio São Francisco, também alcançadas pelo gado pernambucano, atravessou-o e penetrou na bacia do Parnaíba. Atravessaria finalmente este rio para penetrar no sul do Maranhão, por volta de 1730; será nesta última área que entrará em contacto com os craôs; mas não parou aí: no século XIX, continuando seu avanço, atravessou o Tocantins, penetrando no norte de Goiás, onde encontrou os apinajés; finalmente, nos últimos anos do mesmo século, cruzando o Araguaia, entrou no Pará estabelecendo contacto com os caiapós (os de Pau d'Arco)‖ (MELATTI 2005:11). Com a decadência da produção aurífera nas capitanias de Goiás e Mato Grosso, retoma-se a navegação comercial pelo Rio Tocantins que, até então, fora proibida. 1. Segundo Apolinário (2006:53), ―mesmo que começando enquanto economia acessória ao complexo açucareiro e, posteriormente, a da mineração no Brasil, foi o crescimento do criatório que permitiu a expansão do povoamento luso-brasileiro para o interior do Brasil, provocando violentas guerras contra os grupos indígenas.‖ 2 Na região que compreendia a zona de exploração agrícola e pastoril além de povos Jê encontravam-se também povos Tupí, como os Tenetehara, Tembé, Guajajara, Guajá, etc..

(21) 8 devido ao contrabando de ouro praticado no período da mineração no século XVIII3, e ao longo deste rio vários núcleos populacionais. Nesse contexto de frentes de exploração agrícola e pastoril, como e de que forma surge a figura do índio? À medida que a frente agrícola expandia e aumentava sua produção, aumentava a carência de mão-de-obra escrava. Contudo, esgotadas as possibilidades da mão da obra tradicionalmente usada, passou-se a aprisionar e a escravizar os índios que eram encontrados na marcha expansionista, mesmo contrariando acordos entre a Igreja e a Coroa, nos quais a primeira queria garantida a tutela da educação espiritual dos índios. Ao contrário da frente agrícola, a frente pastoril ainda que precisasse de mão-deobra escrava, esta demanda era reduzida. Entretanto a expansão agrícola esbarrava nas terras habitadas por indígenas, e para solucionar os entraves da expansão, fazendeiros e índios entraram em conflitos, salvo casos isolados em que houve acordo entre índios e fazendeiros, como ocorreu no caso de índios Krahô, como veremos adiante. Segundo Melatti (2005): ―...tanto a frente agrícola como a frente pastoril consideravam os indígenas como um obstáculo à sua expansão, pois eles eram os possuidores dos territórios de que elas necessitavam. Uma vez, porém, destribalizados, desorganizados ou simplesmente pacificados, a frente agrícola tentava absorver os indivíduos, sobreviventes à luta com os "brancos" e às moléstias por estes introduzidas, como mão-de-obra. A frente pastoril, no entanto, não precisava da força de trabalho dos índios; não lhe restava outra alternativa, portanto, senão aniquilá-los ou afastá-los para bem longe...‖ (MELATTI 2005:18). Em um primeiro momento, a história do contato dos Krahô com os não-índios se deu pela aliança com os criadores de gado, pois ―...em troca da paz com os "brancos", os craôs deviam ajudá-los a guerrear e escravizar os grupos indígenas vizinhos, timbiras. 3. [...] A partir de 1757 a navegação do rio Tocantins, que até então nunca fora levada a efeito de modo regular, mas apenas esporadicamente, ficou como que proibida por uma provisão do Conselho Ultramarino, pois o governo português punha todo o empenho em limitar as vias de entrada e saída de Goiás para evitar o contrabando do ouro [...] (MELATTI, 2005:14)..

(22) 9 ou acuéns, tomando-lhes os territórios‖ (Melatti 2005:18). Logo depois desse período, uma vez dizimados os povos indígenas inimigos, cujas terras eram alvo de interesse dos criadores de gado para expansão de sua atividade, a aliança com os Krahô é desfeita e estes passam de aliados a vítimas da ação predatória e nefasta da política de expansão e exploração dos campos do cerrado brasileiro4. Apesar da escravização do índio ser proibida pela Coroa portuguesa, essa escravização persistia e era justificada pela abertura presente na Carta Régia de 1814: ―...que permitia a escravidão temporária dos índios do Tocantins e Araguaia, sob certas condições.‖ (Melatti 2005:22). Os índios aprisionados eram levados para Belém para que os mesmos fossem vendidos para trabalharem nas plantações e descaroçadouros de algodão. De acordo com Melatti (2005), os Krahô tiveram importância fundamental no processo de esvaziamento de outros grupos indígenas do sul do Maranhão. Na condição de instrumento manipulado pela ambição dos criadores de gado, os Krahô se viram beneficiados, por um lado, pelo apoio armado dado pelos criadores na guerra contra outros grupos indígenas e, por outro lado, pelas oportunidades que tiveram de roubar gados desses mesmos fazendeiros, colocando a culpa em seus inimigos tribais. Neste. 4. Melatti (2005:19) citando Paula Ribeiro (1841) situa geograficamente os povos indígenas com os quais a frente agrícola e pastoril mantiveram conflitos com aqueles que se opuseram à política de expansão territorial no início do século XIX. [...] Os Gamelas se localizavam então próximo de Viana e de Monção, no baixo Pindaré e também no vale do Codó, afluente da margem esquerda do Itapecuru. Na região da confluência do Grajaú com o Mearim estavam os Guajajaras ("Guajojáras"), que Paula Ribeiro inclui erradamente entre os timbiras. Os índios deste último grupo, os timbiras, ficavam de Caxias para o sul: os txocamecrás (mateiros) ocupavam a margem esquerda do Itapecuru a partir da altura desta última vila até os primeiros sertões de Pastos Bons; os canelas (canelas finas ou capiecrans) viviam a oeste do rio Alpercatas; os pucobiês habitavam as margens do alto Grajaú; os ponrecamecrás (purecamecrans) tinham suas aldeias entre os pucobiês e a barra do rio Farinha no Tocantins; confinando com estes dois últimos grupos estavam os "Cannaquetgê"; os craôs, que constituíam o grupo timbira mais meridional, ocupavam um território na bacia do rio Balsas, talvez na sua parte setentrional. Finalmente os grupos acuéns, representados pelos xavantes e pelos xerentes, confinavam com os craôs, habitando ao norte do rio Manoel Alves Grande (Ribeiro, 1841, pp. 193, 194, 297, 298, 304, 314, 316 e 319). Todos os grupos citados — com a duvidosa exceção dos ponrecamecrás — chegaram a entrar em conflito armado com os civilizados [...]..

(23) 10 jogo de interesses múltiplos e dúbios, ambos agentes do confronto, índios e criadores, contribuíram para a política de conquista e exploração do sertão, uma vez que os primeiros tratavam de dizimar as nações indígenas inimigas para que seus territórios fossem ocupados pelos fazendeiros, competindo aos segundos, posteriormente, tratar de aniquilá-los, já que, ―...diante dos civilizados eles em nada diferiam daqueles que combatiam, pois eram igualmente ocupantes de uma área cobiçada e "ladrões" de gado; destruindo os outros grupos, apenas estavam apressando a vinda do momento em que eles próprios, eliminados todos os outros, seriam obrigados a se afastar da área que ocupavam ou sucumbir diante de algum ataque de fazendeiros‖ (MELATTI 2005:22). Até aqui podemos observar que os índios sempre foram considerados como obstáculos à execução do plano de desenvolvimento econômico nas capitanias que tinham uma relativa presença indígena. Este fato se consubstancia pelas evidências históricas das políticas indigenistas, tanto local quanto colonial do empenho que deveria ser feito para que fosse declarada ‗guerra justa‘ àqueles que se opuseram aos interesses da Coroa (Apolinário 2005). Havia um projeto para afastar os Krahô para a foz do Rio Sono, a fim de que fosse constituída a povoação de São Fernando, por volta de 1810 (Melatti 2005). Contudo, esse projeto só veio a se concretizar em 1848 com o estabelecimento da missão de Pedro Afonso na foz do mesmo rio. O projeto de transferência dos Krahô para a missão de Pedro Afonso tinha por finalidade a catequese destes, além dos AkweXerente que habitavam a mesma região, tendo sido concedida aos missionários capuchinhos responsabilidade de catequizá-los, e em especial ao Frei Rafael de Taggia.5. 5. Segundo Melatti (2005:25) ―Em 1852 os craôs que aí estavam somavam 620 indivíduos7. Eram em maior número ao serem trazidos para o local, mas epidemias nos anos de 1849 e 1850 os reduziram.‖.

(24) 11 Melatti (2005) observa que, com uma população já reduzida devido às epidemias contraídas6, o projeto de catequizar os Krahô não teve o resultado esperado e imediato de convertê-los à fé católica, uma vez que ―...os índios atribuíam ao batismo o poder de lhes abreviar a vida e era à força que o padre o administrava às crianças moribundas, havendo mesmo entre eles a proibição de dar parte dos doentes ao missionário por considerarem os remédios dos civilizados como feitiços.‖ (MELATTI 2005:25). O atual território que os Krahô ocupam não é o mesmo lugar para o qual foram trazidos por Frei Rafael de Taggia. A região que primeiramente ocuparam localizava-se nas imediações do núcleo urbano de Pedro Afonso, distribuídos em três aldeias. Em sucessivos movimentos, os Krahô foram se deslocando para o norte, chegando a ocupar o atual território.. 1.2 A LÍNGUA KRAHÔ E SUA FILIAÇÃO NA FAMÍLIA LINGÜÍSTICA JÊ. A família lingüística Jê é a única família do tronco Macro-Jê que apresenta na atualidade o maior número de ramificações. Esse fato se reflete na distribuição geográfica dos falantes dessas línguas que se situam desde os estados de Maranhão e do Pará, passando pelo norte e centro do Tocantins e nordeste do Mato Grosso, e alcançando São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul (cf. Rodrigues 1986, 1999). O quadro seguinte contém os nomes dos povos Jê distribuídos de acordo com as suas respectivas regiões geográficas:. 6. Colleção das Leis de 1843, tomo V, parte I, pp. 25-26 (MELATTI 2005).

(25) 12 Quadro 1 – Línguas da família Jê (tronco Macro-Jê) (Rodrigues 1999) Apinajé Gorotíre,. (A‘ukré, Kayapó. Kikretum,. Kokraimôro,. Kubenkrakén,. Menkrangnotí,. Mentuktíre, Xikrin). SETENTRIONAL. (Canela Timbíra. FAMÍLIA JÊ. Kararaô,. Ramkokamekrã,. Canela. Apanyekrã, Gavião Pykobjê, Gavião Parakatejê, Krinkatí, Krahô, Krenje). Panará. (Kren-akarôre). Suyá. (Tapayuna). Xerente CENTRAL. Xavante †. Xakriabá (K. de São Paulo, K. do Paraná, K.. Kaingang. Central, K. do sudoeste. K. do Sudeste). MERIDIONAL. Xokleng †. Ingaín. A língua Krahô, falada pelo povo conhecido pelo mesmo nome, pertence à família linguística Jê (Rodrigues 1986, 1999). A língua Krahô junto com as línguas Canela – Ramkokamekrá e Apãniekrá – Parkatejê (Gavião do Pará) e Pykobjê (Gavião do Maranhão), Krikati e Krenjê formam o grupo Timbira (Nimuendajú 1946). Ainda que essas línguas sejam mutuamente inteligíveis os seus respectivos falantes, as consideram como línguas distintas. Atualmente, os povos Timbira convivem pacificamente uns com os outros, ao contrário do passado, em que constantemente guerreavam entre si. Segundo alguns professores Krahô, é comum receber a visita de ‗parentes‘ Canela ou Apinajé. Trata-se.

(26) 13 de prática recíproca que fortalece os laços de amizade entre os grupos. O mesmo não dizem os Krahô das relações com os Parkatejê (Gavião do Pará), com os quais mantêm certo distanciamento, embora os reconheçam como ‗parentes‘ também. Nos últimos anos, tem sido constante o trabalho em conjunto desses povos na elaboração e realização de projetos promovidos pelo Centro de Trabalho Indigenista (CTI) nas áreas de educação, manejo ambiental e agricultura sustentável.. 1.3. TRABALHOS LINGÜÍSTICOS REALIZADOS SOBRE A LÍNGUA KRAHÔ. Em um levantamento dos estudos linguísticos realizados sobre a língua Krahô, constatamos a escassez de estudos descritivos, lexicográficos e histórico-comparativos sobre essa língua. O primeiro trabalho linguístico sobre a língua Krahô é um esboço gramatical com base nas anotações de campo feitas pelo antropólogo Buell Quain e analisadas por Olive Shell (1952)7. Este estudo apresenta informações sobre a fonética e fonologia da língua, além de uma caracterização das classes de palavras, com ênfase especial na morfologia nominal e verbal. Jack Popjes e Josephine Popjes (1986), missionários do Summer Institute of Linguistics (SIL), coletaram dados linguísticos entre os Canela-Ramkokamekra durante trabalho de campo entre 1968-1977 e descreveram importantes aspectos gramaticais dessa língua. Dadas as semelhanças que eles observaram entre as línguas CanelaRamkokamekrá e Krahô estenderam a descrição a esta última.8 A relevância do estudo. 7. SHELL, Olive .QUAIN, Buell. Grammatical Outline of Kraho (Ge Family). International Journal of American Linguistics, Vol. 18, No. 3. The University of Chicago Press, 1952 pp. 115-129. 8 POPJES, Jack & POPJES Josephine.. "Canela-Krahô." In: Desmond C. Derbyshire & Geoffrey K. Pullum (eds.). Handbook of Amazonian languages, vol. 1. Berlin: Mouton de Gruyter, 1986 pp. 128-99..

(27) 14 de Popjes e Popjes (1986) reside principalmente no fato de que se trata de uma primeira abordagem gramatical dessas duas línguas Timbíra. Outros estudos linguísticos sobre a língua Krahô são os de autoria de Sueli Maria de Souza (1990, 1997), os quais focalizaram aspectos da morfologia e da sintaxe da língua. O trabalho de 1990 descreve o sistema de referência pessoal da língua9, e o segundo aborda a estrutura do sintagma nominal e verbal dessa mesma língua à luz da Teoria da Regência e Ligação10. Há ainda o estudo de Bastos (2006) voltado para a correlação entre acento fonético e fonológico na língua.. 1.4 CONSIDERAÇÕES FINAIS. Neste capítulo tecermos considerações sobre o povo (histórico do contato com não índios) e sobre a língua Krahô, neste caso especificamente sobre sua filiação genética e sobre os trabalhos linguísticos realizados sobre ela. Nos próximos capítulos, daremos início à análise linguística, focalizando as classes de palavras, nome, verbo e posposição; a distribuição das formas pronominais na língua, considerando o tipo de argumento que codificam e os tipos de predicados com os quais se combinam. Descrevemos e analisamos os processos de nominalização na língua Krahô, a partir do qual ‗nomes de ação‘ são derivados. Mostramos que esses deverbais são a base de outras nominalizações na língua, como as que derivam nomes de agente e nomes de circunstância. Finalmente, discutimos a relação entre núcleos de predicados verbais. 9. SOUZA, Maria S. O sistema de referência pessoal da língua Krahô. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Goiás, 1990. 10 ______________. A sintaxe de uma língua de verbo final: Krahô. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo, 1997..

(28) 15 nominalizados e padrões de alinhamento na língua, apontando problemas nas análises que associam formas nominalizadas do verbo em línguas da família Jê Setentrional à manifestação de ergatividade..

(29) 16 SOBRE NOMES E VERBOS EM KRAHÔ. ______________________________________________________________________. 2. INTRODUÇÃO. Neste capítulo abordamos as classes de palavras nomes, verbo e posposições na língua Krahô, considerando o que foi dito sobre elas nas análises precedentes (cf. Popjes e Popjes, 1986; Souza, 1990, 1997), mas acrescentando resultados de nossa análise sobre o tema. A abordagem das classes de palavras aqui focalizadas é necessária à descrição do tema central no nosso estudo, nominalizações em Krahô. A análise das três classes de palavras foi desenvolvida por meio de contraste de estruturas e padrões e pela adoção de critérios distribucionais e funcionais, o que permitiu que identificássemos formas e funções em associação na morfossintaxe da língua. A análise põe em evidência a flexão relacional em Krahô, que é a única categoria flexional da língua, comum a nomes, verbos e posposições, a qual indica a contiguidade ou não-contiguidade sintática dos determinantes desses elementos.. 2.1 NOMES, VERBOS E POSPOSIÇÕES. O Krahô distingue três classes de palavras que recebem morfologia flexional: a classes dos nomes e a dos verbos, ambas classes abertas, e uma classe fechada, a das posposições. Os nomes referem-se a entidades concretas e abstratas e os verbos exprimem processos ou eventos (Bhat 2000, Croft 2000). Nomes, verbos e posposições.

(30) 17 compartilham do sistema de prefixos relacionais (Rodrigues 1953, 1986, 1996, 1999, 2000, 2009).. 2.1.1 PREFIXOS RELACIONAIS E CLASSES TEMÁTICAS. Os prefixos relacionais estabelecem relações de dependência e de determinação entre determinante e determinado, como são as relações entre um verbo transitivo e o seu objeto, um verbo intransitivo e o seu sujeito, o possuidor e o elemento possuído, uma posposição e o seu complemento (cf. Rodrigues 1953, 1986, 1996, 1999, 2000, 2009). Se todos os verbos se combinam com prefixos relacionais, o mesmo não ocorre com os nomes. A classe dos nomes divide-se em nomes dependentes e nomes independentes. Os nomes dependentes ocorrem precedidos obrigatoriamente pelo seu possuidor, enquanto os nomes independentes ocorrem sem o possuidor, mas apenas os dependentes se combinam com prefixos relacionais. Os que não se combinam com prefixos relacionais são nomes como ‗sol‘, ‗onça‘, ‗frio‘ etc (cf. seção 2.1.2 sobre a divisão semântica dos nomes em Krahô). Temas nominais, verbais e poposicionais podem ser divididos em duas classes, de acordo com a sua distribuição com os prefixos relacionais, classe I e classe II, respectivamente. Os elementos da classe I se distribuem em duas subclasses de acordo com a combinação de seus elementos com os alomorfes do prefixo relacional R1, j- e ts, e com o alomorfe h- do prefixo relacional. R. 2. . Há, dessa forma, duas subclasses de. temas da classe I. A subclasse Ia se combina com o alomorfe j- do relacional. R. elementos da classe Ib se combinam com o alomorfe -ts do mesmo relacional. 1. R. 1. , os. . Por.

(31) 18 outro lado, os elementos da classe II se subdividem em três subclasses: IIa, IIb e IIc. Todas as subclasses da classe II se combinam com o alomorfe - do relacional com respeito ao prefixo. R. 2. R. 1. ; mas. , a subclasse IIa recebe o alomorfe -, a IIb o alomorfe i- ,. enquanto a suclasse IIc se combina com o prefixo –ku. À esta subclasse pertencem apenas temas verbais transitivos e posposições. Na tabela abaixo, apresentamos os prefixos relacionais do Krahô e as subclasses de nomes, com base em Rodrigues (2009) e seus respectivos alomorfes.. PREFIXOS RELACIONAIS DA LÍNGUA KRAHÔ CLASSE I. CLASSE II. Ia. Ib. IIa. IIb. IIc. Contiguidade (R1). j-. ts-. -. -. -. Não-contiguidade (R2). h-. h-. -. i-. ku-. Tabela 1: Distribuição dos prefixos relacionais em Krahô adaptado de Rodrigues (2001; 2009). 2.1.1.1. TEMAS NOMINAIS NOMES DA CLASSE. I. Ia - R1 (1). a-. j-arkwa. 1-. R. 1. (2). -boca. ‗tua boca‘. rp. j-arkwa. cachorro. R. 1. -boca. ‗boca do cachorro‘. Ia – R2 (3). m. h-. humano. R. 2. arkwa -. ‗boca humana‘. boca. (4). hR. 2. arkwa -. boca. ‗boca de alguém‘.

(32) 19 Ib – R1 (5). pjen. ts-om. grains. R. 1. (6). -sand. ‗grains of sand‘ (P&P 1986:193). a-. ts-u. 2-. R. 1. -pai. ‗teu pai‘. Ib – R2 (7). h-om R. 2. (8). -kernels. h- u R. ‗kernels‘ (P&P 1986:193). 2. -pai. ‗pai de alguém‘. NOMES DA CLASSE II. IIa – R1 (9). i-. -put. 1-. R. 1. (10). -pescoço. ‗meu pescoço‘. rpt. -put. onça. R. 1. -pé. ‗pescoço de onça‘. IIa – R2 (11). -put R. 2. (12). -pescoço. ‗pescoço de alguém‘. m. -put. humano. R. 2. -pescoço. ‗pescoço humano‘. IIb – R1 (13). a-. -tswa. 2-. R. 1. -dente. ‗teu dente‘. (14). Potut. . Potut. R. 1. -dente. ‗pé de Potut‘.

(33) 20 IIb – R2 (15). m. i-. . humano. R. 2. dente. -. ‗dente humano‘. TEMAS VERBAIS TRANSITIVOS DA CLASSE I. Ia – R1 wa. ha. pixo. j-uhkà. 1. FUT. fruit. R. 1. -buy. ‗I will buy fruit‘ (P&P 1986:129). (18). ka. pi. j-itep. 2. wood. R. 1. -cut. ‗You cut wood‘ ( P&P 1986:129). Ia – R2 (19). i-t. h-. 1-PAST. R. 2. uhkàr buy. ‗I bought it‘ ( P&P 1986:129). (20). ku-t 3-PAST. h-. itp. 2. cut. R. -. iR. 2. -. par pé. ‗pé de alguém‘. 2.1.1.2 TEMAS VERBAIS. (17). (16). ‗It cut it‘ ( P&P 1986:129).

(34) 21 Ib – R1 (21). ka. ha. ken. ts-i. 2. FUT. stone. R. 1. - put down. ‗You will put the stone down‘ (P&P 1986:195). Ib – R2 (22). a-. t. h- ir. 2. PAST. R. 2. - put down. ‗You put it down‘ ( P&P 1986:129). TEMAS VERBAIS TRANSITIVOS DA CLASSE II. IIa – R1 (23). ke 3SG. h-u. ha PROJ. R. 2. wap. -pai. faca. -t. tun. -kura. 1. tatu. R. R -POSP. 1. -matar. ‗ele, o pai de alguém vai matar o tatu com a faca‘. (24). wa 1SG. i-. -t. a-. -men. 1-. 1. 2-. R. R -POSP. 1. -derrubar-NLZ. ‗eu derrubei você (lit.: ‗a tua derruba por mim‘). IIa – R2 (25). wa. i- -t. 1SG. 1-. 1. R -POSP. -kura-n R. 2. -matar-NLZ. ‗eu matei algo/alguém (lit.: ‗a matança de algo/alguém por mim‘).

(35) 22. (26). ka. a-. -t. -men. 2SG. 2-. R -POSP. 1. R. 2. -derrubar-NLZ. ‗você derrubou algo/alguém‘ (lit.: ‗a derrubada de alguém por você‘). IIb- R1 (27). wa. i- -t. 1sg 1-. 1. R -POSP. pro-t. -. sapo-AUM. R. 1. kura-n - matar. ‗eu matei o sapo cururu‘ (lit.: ‗a matança do sapo cururu por mim‘). (28). Capi. t. man. PAST FUT. ha. rp. -kakwin. dog. R. 1. -beat. ‗Capi will beat the dog‘ (P&P 1986:129). IIb – R2 (29). iR. 2. -. kura matar. ‗kill it‘ (P&P 1986:194). (30). i- kakwi(n) R. 2. - hit. ‗beat it‘ (P&P 1986:193). IIc- R1 (31). ne. ke. ha. 3SG. PROJ NEG. pti. -me-. pote. R. 1. -derrubar-NLZ. nar NEG. ‗ele não vai derrubar o pote‘ (lit.: ‗não haverá a derrubada do pote por ele‘).

(36) 23. (32). ka. m. pt. kuna. km. waji. -ku. 2SG. PL. sol. todo. POSP. carne. R. 1. -comer. ‗você come carne todos os dias‘ (Souza 1997:64). IIc- R2 (33). ku-me. wa. ha. 1SG. PROJ R. 2. -derrubar. ‗eu vou derrubar algo/alguém‘. (34). Capi. t. p. kuran ne. wa. apu. ku- ku. Capi. PAST. deer. kill. 1. CONT. R. and. 2. -eat. ‗Capi killed the deer, and I‘m eating it‘ (P&P 1986:147). TEMAS VERBAIS INTRANSITIVOS DA CLASSE I. Ia – R1 (35). wa. ptk. -km. 1SG. esteira. R -POSP. 1. i-. j-o-t. 1-. R. 1. -dormir-NLZ. ‗eu dormi na esteira‘ (lit.: ‗minha dormida na esteira‘). (36). ku. h-ukwar. 1PL.DUAL. R. 2. -casa. -nã 1. R -POSP. pa-. j-pi-r. 1PL.DUAL-. R. 1. -subir-NLZ. ‗nós (dual) subimos na casa dele‘ (lit.: ‗a subida de nós dois na casa dele‘).

(37) 24 Ia – R2 (37). ptk. -km. esteira. R -POSP. 1. h-o-t R. 2. -dormir-NLZ. ‗alguém dormiu na esteira‘ (lit.: ‗a dormida de alguém na esteira‘). (38). h-ukwar R. 2. -nã. h-pi-r. 1. -casa. R -POSP. R. 2. -subir-NLZ. ‗alguém subiu na casa dele‘ (lit.: ‗a subida de alguém na casa dele‘). TEMAS VERBAIS INTRANSITIVOS DA CLASSE II. IIa– R1 (39). i-. -kr-r. 1-. R. 1. -cantar-NLZ. ‗eu cantei‘ (lit.: ‗meu cantar‘). (40). pur. pin. field. from 1. wa. -te R. 1. -go. ‗I‘m coming from the field‘ (P&P 1986:158). IIa – R2 (41). ke. ha. pah. k. -pe. 3SG. PROJ. chefe. pátio. R -POSP. ‗o chefe vai cantar no pátio‘. 1. -kr R. 2. -cantar.

(38) 25. (42). pin. -te. wa. pur. 1. field from. R. 2. -go. ‗I‘m coming from the field‘ (P&P 1986:158). IIb – R1 (43). ita km. i-. -kra. hoje. 1-. R. 1. -filho. -pm- R. 1. -cair-NLZ. ‗meu filho nasceu hoje‘ (lit.: ‗o nascimento do meu filho hoje‘). (44). i-. -kra. 1-. R. 1. -kw-r. -filho. R. 1. -defecar-NLZ. ‗meu filho defecou‘ (lit.: ‗a defecação do meu filho‘). IIb – R2. (45). ita km. i-pm-. hoje. R. 2. -cair-NLZ. ‗alguém nasceu hoje‘ (lit.: ‗o nascimento de alguém hoje‘). (46). i-. -kra. 1-. R. 1. -filho. apu. aket. -km. CONT. mato. R -POSP. 1. ‗meu filho está defecando no mato‘. i-kw R. 2. -defecar.

(39) 26 2.1.1.3 TEMAS POSPOSICIONAIS. Os temas posposicionais em Krahô recebem apenas os prefixos relacionais da classe II, tanto para contíguo quanto para não-contíguo. Esses temas seguem a mesma distribuição descrita acima para os elementos da classe II. Conforme dissemos anteriormente, os prefixos relacionais da classe IIc flexionam apenas temas verbais transitivos e posposicionais. Nos dados analisados não encontramos a ocorrência desses prefixos com temas nominais em construções possessivas assim como em temas verbais intransitivos. Nos exemplos abaixo, extraídos de Popjes e Popjes (1986), mostramos a ocorrência dos prefixos relacionais da classe II com as posposições mã, km e pin.. TEMAS POSPOSICIONAIS – R1. (47). i-t 1-ERG. i-. ts-u. 1-. 1. R. -mã. -pai. 1. R -POSP. ho. -p-r. comida. R. 1. -pegar-NLZ. ‗eu peguei a comida do meu pai‘ (‗o pegar da comida do meu pai por mim‘). (48). pur. -km. poh. roça. R -POSP. 1. milho. ‗na roça tem milho‘. (49). wa. pur. -p. 1. field. R -POSP. 1. -te R. 2. -go. ‗I coming from the field‘ (P&P 1986:158).

(40) 27 2. TEMAS POSPOSICIONAIS – R. (50). i-t. mã. 1-ERG. R -POSP. 2. ho. -p-r. comida. R. 1. -pegar-NLZ. ‗eu peguei a comida de alguém‘ (lit.: ‗o pegar da comida de alguém por mim‘). (51). -km 2. R -POSP. ‗in, into, at it‘ (P&P 1986:178). (52). i-pin 2. R -POSP. ‗from there (locational source)‘ (P&P 1986:178). 2.1.2 DISCUSSÃO SOBRE OS PREFIXOS RELACIONAIS EM KRAHÔ. Com respeito aos prefixos relacionais, Popjes e Popjes (1986:193) os analisaram como mudanças que ocorrem no início da raiz de uma série de verbos transitivos, quando esses apresentam objeto especificado ou não-especificado. Os autores observaram ainda que a seguinte regra morfofonológica opera na maior parte da língua: j e x [ts] ocorrendo em sintagma medial tornam-se h em sintagma inicial, conforme ilustram os exemplos abaixo: (53). po. x-umré. ‗male deer‘. h-umré. ‗male, man‘. pjên. x-ôm. ‗grains of sand‘. h-ôm. ‗kernels‘ (P&P 1986:193).

(41) 28 (54). cu-te. ampo. j-aprôr. 3-PAST. something buy. ‗He bought something‘. cu-te. h-aprôr. 3-PAST. 3+buy. ‗He bought it‘(P&P 1986:193). Já Souza (1997:20) observa que: ―...a mudança do radical verbal, geralmente junto aos verbos iniciados por vogal, de ―y-‖ para ―h-‖, indica referência subjetiva ou objetiva não contigua, ou seja, não mencionada, ou distante do lugar de origem...‖ e que essa mudança em certos radicais verbais é uma estratégia previsível usada pela língua ―...para a indicação de contiguidade ou não da terceira pessoa, sendo esse um fato da prosódia da língua (spell out).‖. Conforme podemos observar na análise de Souza (1997), os prefixos ―y‖ e ―h‖ ocorrem para indicar referência pessoal somente em temas verbais. De acordo com a autora, ―Se usada primeira ou segunda pessoa pronominal, ou um nominal, usamos antes do verbo a forma ―y-‖. Caso passemos para a terceira pessoa mudamos para a forma verbal iniciada por ―h-‖. Nesse segundo caso temos as condições propícias para a categoria vazia de terceira pessoa, podendo-se considerar essa possibilidade como uma alternante para a terceira pessoa.‖ (SOUZA 1997:20). A análise que adotamos aqui com base em Rodrigues (1981, 1990, 1993, 1997, 1999, 2001, 2009) considera que esses prefixos flexionam temas verbais, temas nominais e posposições para indicar a relação de dependência sintática entre estes e seus respectivos determinantes, diferentemente do que propuseram as análises precedentes sobre essa língua.. 2.2 DIVISÃO SEMÂNTICA DOS NOMES Do ponto de vista morfológico e semântico, podemos distinguir duas classes de nomes em Krahô, isto é, os nomes dependentes (Classe I) e os independentes (Classe II). Os nomes da classe I designam termos de parentesco, parte do corpo humano, etc. e.

(42) 29 são, obrigatoriamente, possuídos. O possuidor é codificado por meio de prefixos pessoais específicos para esta função (cf. cap. III a seguir sobre marcas pessoais), de acordo com os exemplos a seguir. (55). a-. -. 2-. R. 1. tse -. mãe. ‗tua mãe‘. (56). m. i-. -. PL. 1-. R. 1. kra filho. ‗meus filhos. (57). pa-. - t. 1.INCL-. R. 1. - olho. ‗nossos olhos‘. Os nomes da classe II são independentes designam entidades concretas e entidades abstratas e podem ocorrer em funções adjetiva ou substantiva. Em função adjetiva, esses nomes seguem o núcleo do sintagma que qualificam, exemplos (58), (59) e (60); em função substantiva, seus determinantes ocorrem marcados pela posposição de caso dativo ma(61), (62) e (63): (58). ko. kr. água. fria. ‗água fria‘. (59). kahãj. mpj. mulher. boa/bonita. ‗mulher bonita‘.

(43) 30. (60). pi. ho. ink. árvore. folha. verde. ‗a folha verde da árvore‘. (61). i-. -mã. mpj. 1-. R -POSP. 1. boa/bonita. ‗eu sou bonito‘. (62). -mã. a-. kr. 1. 1-. R -POSP. frio. ‗você está com frio‘. (63). i-kra R. 2. -filho. -mã 1. R -POSP. pro-t. kupa. sapo-AUM. medo. ‗o filho dele tem medo de sapo cururu‘. Souza (1997:36) considera as construções que têm esses nomes como núcleo, como ‗orações de verbos nulos‘, considerando-os como verbos intransitivos com fortes características adjetivais.. Na nossa análise, a classe dos nomes independentes. subdivide-se em subclasses, formando uma subclasse de nomes descritivos que compartilham com os demais nomes dessa classe o fato de não se combinarem com prefixos relacionais. Entretanto à diferença destes, pode ter existência relativa a algo ou alguém, relação esta expressa sintaticamente pela construção [N+DAT + DESCRITIVO].. NOME.

(44) 31 2.1.2.1 NOMES INDEPENDENTES POSSUÍDOS: O MORFEMA MEDIADOR DE POSSE {-o}. Os nomes da classe II que designam artefatos da cultura material e animais domésticos, e que foram recém introduzidos na sociedade Krahô em consequência do contato com os não-índios, têm sua posse mediada por meio do morfema {-o}. Rodrigues (1992) analisou as formas correspondentes deste morfema em quatro famílias do tronco Macro-Jê (Bóroro, Maxacalí, Jê e Karirí), mostrando que estas famílias ―...não só têm em comum um mesmo processo sintático para exprimir a posse de nomes alienáveis mediante o uso de marcadores especiais, de significado mais ou menos genérico, mas apresentam marcadores que têm toda aparência de terem um étimo comum‘ (Rodrigues 1992:386).. (64). i-. j-o. 1-. R -MP. rp. 1. cachorro. ‗meu cachorro‘. (65). h-o 2. R -MP. rp. -t-k. cachorro. R. 2. -morrer-NLZ. ‗cachorro dele/cachorro de alguém‘ (lit.: ‗a morte do cachorro dele‘). (66). me PL. a-. j-o. pur. poh. 2-. 1. roça. milho. R -MP. ‗roça de milho de vocês‘ (Souza 1990:06). Souza (1990:07) ressalta que nomes como ‗tecido‘ e ‗dinheiro‘ podem ter características tanto de nomes alienáveis quanto inalienáveis, podendo ocorrer sem o.

(45) 32 morfema mediador de posse {-o}, como nos exemplos abaixo, extraídos da própria autora. (67). a-. j-o. 2-. R -MP. tše. 1. tecido. ‗teu tecido‘ (Souza 1990:08). (68). i-. j-o. 1-. R -MP. p. 1. dinheiro. ‗meu dinheiro‘ (ibidem). (69). a-tše 2-tecido ‗teu tecido‘ (Souza 1990:8). (70). i-p 1-dinheiro ‗meu dinheiro‘ (Souza 1990:8). Acrescentamos que não só nomes alienáveis podem ocorrer em ambas as formas, como também termos de parentesco, conforme exemplos abaixo.. (71). i-. j-o. 1-. 1. ts-u. R -MP. R. ‗meu pai‘. (72). h-o 2. R -MP. tse mãe. ‗mãe de alguém‘. 1. -pai.

(46) 33 2.1.3 CONSTITUIÇÃO INTERNA DOS NOMES: NÚMERO E GÊNERO. 2.1.3.1. NÚMERO. Nomes contáveis se combinam com a partícula de número (plural) m que precede imediatamente o nome:. (73). i-. -ket. 1-. R. 1. -tio. ‗meu filho‘. (74). m. pa-. -ket. PL. 1.EXCL-. R. 1. -tio. ‗nossos tios‘. (75). pur roça ‗roça‘. (76). m. pur. PL. roça. ‗roças‘ A categoria gramatical de número é também expressa por meio de outros morfemas que indicam referência coletiva. Conforme Popjes e Popjes (1986:186), a expressão de número em nomes independentes é indicada por meio de pronomes demonstrativos, numerais e quantificadores na função de modificadores do núcleo do sintagma nominal, além de morfemas que indicam coletividade. Nesse caso específico, em Krahô, os morfemas que denotam coletividade distinguem-se pelo traço semântico.

(47) 34 [±humano]. Assim, temos as formas am (juntos) e m kuna (todos) que se combinam com nomes e prefixos que portam o traço [+humano], e kw (grupo) se combina com nomes cujo traço semântico é [-humano].. (77). m PL. ne. kahãj mulher. am. NEG COL. kwr mandioca. -ke-n R. 1. -ralar-NLZ. nar NEG. ‗as mulheres juntas não estão ralando mandioca‘ (lit.: ‗não está havendo a ralação de mandioca pelas mulheres‘). (78). m. pa. kuna am. ajke. PL. 1.EXCL. COL. dançar. COL. ‗nós todos vamos dançar juntos‘. Já a forma ‗kwỳ‘ ‗alguns, grupo‘, por sua vez, parece combinar-se apenas com nomes cujo traço semântico é [-humano].. (79). rp. kwỳ. t. kukoj. kamtsar. dog. GRP. PAST. monkey. bite. ‗The dog pack bit the monkey‘ (P&P 1986:186). (80). humr. t. rp. kwỳ. kahr. man. PAST. dog. GRP. beat. ‗The man beat the dogs‘ (P&P 1986:186). Na tabela abaixo apresentamos os numerais e outras expressões quantificadoras identificadas na língua Krahô (cf. Popjes e Popjes 1986, Sousa 1997):.

(48) 35. NUMERAIS E OUTRAS PALAVRAS QUE EXPRESSAM QUANTIDADE. pyxit. ‗um‘. am. ‗todos juntos‘. ipijakrut. ‗dois‘. m kuna. ‗todos (indefinido)‘. inkrê. ‗três, muitos‘. m /-oket. ‗todos (definido)‘. no. ‗um de‘. kwỳ. ‗grupo de alguns‘. Tabela 2. Observamos que a distribuição das formas m (partícula) combinada com -oket (nome) parece ser condicionada à definitude do referente que quantificam. Observamos também que não há ocorrência de –oket sem que m esteja também presente, o que contribui para a interpretação de que o significado de –oket é próximo ao significado de ‗grupo‘, mas é a partícula m a que contribui com a idéia de plural. Esperamos ampliar o número de exemplos contendo –oket de forma a propor uma análise mais adequada à realidade da língua. A seguir apresentamos dois exemplos apresentados por Souza (1997:56), com glosas adaptadas por nós: (81). m. humr. y-oket. PL. homem. R -GRP. 1. ma. ra. te. MOV. já. ir. ‗Todos os homens já foram (embora)‘. (82). m. . h-oket 2. R -GRP. PL. ma. ra. te. MOV. já. ir. ‗todos já foram embora‘. Exemplos com am são os seguintes:. (83). ku. am mo. 1. COL. ir. ko. kâm. rio. para. ‗Nós vamos juntos para o rio‘ (Souza 1997:56).

(49) 36. (84). pah. kot. am. ten. cacique. POSP. COL. ir. ‗Fomos (juntos) atrás do cacique‘ (Souza 1997:56). Os pronomes demonstrativos ita ‗este/esta‘ e ata ‗aquele/aquela‘ não parecem formar constituintes com os nomes, visto que podem preceder ou seguir os nomes que aparentemente modificam. Combinam-se com o afixo –je que exprime plural, mas que não se associa a taços semânticos [±humano] [±animado]. Assim, temos:. (85). ata. tsumr. DEM. homem. ‗aquele homem‘. (86). ata-je. tsumr. DEM-PL. homem. ‗aqueles homens‘. (87). ken. ita. stone. this. ‗this stone‘ (P&P 1986: 186). (88). ken. ita-je. stone. these. ‗these stones‘ ( P&P 1986: 186). Há também morfemas que se afixam a temas nominais para expressar a ideia de atenuação e de intensificação, respectivamente -t e -r ..

(50) 37. (89). i-. -mã. 1-. R -POSP. 1. pram fome. ‗eu estou com fome‘. (90). i-. -mã. 1-. R -POSP. 1. pram-. t. fome-. INTS. ‗eu estou com muita fome‘. (91). im-prar tỳj 3SG-run strong/well ‗He runs well‘ (P&P 1986:173). (92). im-prar tỳj-. re. 3SG-run strong-. DIMIN. ‗He‘s a good runner ( P&P 1986:173). Esses afixos também entram na formação de nomes de animais e de uma determinada espécie ou objetos, intensificando-lhes ou atenuando-lhes suas respectivas dimensões físicas. (93). pro sapo ‗sapo‘. (94). pro-. t. sapo. AUM. ‗sapo grande‘(lit.: sapo cururu).

(51) 38. (95). pro-. r. sapo-. DIM. ‗sapo pequeno‘ (lit.: perereca). (96). i-. j-o. 1-. 1. wap. R -MP. faca. ‗minha (coisa) faca‘. (97). wap. -ti. faca. AUM. ‗facão‘ (lit.: faca grande). (98). wap. -r. faca. DIM. ‗canivete‘ (lit.: faca pequena). 2.1.3.2 GÊNERO. A categoria gramatical de gênero em Krahô é expressa por meio dos nomes h/tsmacho‘ e kahãj ‗fêmea‘, como mostram o exemplo (99),. (99). prkak tsumr. prkak. kahãj. boi. boi. fêmea. ‗boi‘. macho. ‗vaca‘.

(52) 39 2.1.4. FUNÇÕES SINTÁTICAS EXERCIDAS POR NOMES. Os nomes da classe I – dependentes –, assim como os nomes da classe II independentes – ocorrem como núcleo de sintagmas nominais nas funções de sujeito e objeto, sintagmas possessivos e complemento de posposição.. NOMES DA CLASSE I. SUJEITO. (100). i-. ts-u. 1-. R. 1. -pai. -t. tun. -kura-n. 1. tatu. R. R -POSP. 1. -matar-NLZ. ‗meu pai matou o tatu‘ (lit.: ‗a matança do tatu por meu pai‘). (101). a-. pro. 2-. R. 1. -t. -esposa. 1. R -POSP. itse. -kuho-n. roupa. R. 1. -lavar-NLZ. ‗tua esposa lavou a roupa‘ (lit.: ‗a lavação da roupa por minha esposa‘. OBJETO DIRETO. (102). wj. -t. i-. j-apak. velho. R -POSP. 1. 1-. R. 1. -orelha. -katsw-r R. 1. -furar-NLZ. ‗o velho furou minha orelha‘ (lit.: ‗a furação da minha orelha pelo velho‘). (103). wa. i-. 1SG 1-. -t. a-. . 1. 2-. R. R -POSP. 1. -cabelo.  R. 1. -cortar-NLZ. ‗eu cortei teu cabelo‘ (lit.: ‗o cortar do teu cabelo por mim‘).

(53) 40 COMPLEMENTO DE POSPOSIÇÃO. (104). wa. i-. -t. 1 SG. 1SG. R -POSP. 1. i-. ts-u. 1SG. R. 1. -pai. mã. ho. -ho-r. POSP. comida. R. 1. -dar-NZL. ‗eu dei a comida para o meu pai‘ (lit.: ‗a doação da comida para o meu pai por mim‘). (105). rp. -t. cachorro. R -POSP. -par. i-. 1. 1SG. R. 1. -km 1. -pé. R -POSP. i-ts-r R. 2. -morder- NLZ. ‗o cachorro mordeu no meu pé‘ (lit.: ‗a mordida no meu pé pelo cachorro‘). NOMES DA CLASSE II. SUJEITO. (106). pje. ne. apu. poh. mulheres. NEG. CONT. -ke-n. milho. R. 1. -ralar- NLZ. ‗as mulheres não estão ralando mandioca‘. (107). r p. apu. pro-t. -ts. cachorro. CONT. sapo-AUM. R. 1. ‗o cachorro está mordendo o sapo‘. OBJETO DIRETO. (108). wa. apu. ko. 1SG. CONT. água. -ko R. ‗eu estou bebendo água‘. 1. -beber. -morder. nar NEG.

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Tabela 1: Distribuição dos prefixos relacionais em Krahô adaptado de Rodrigues (2001; 2009)
Tabela 3: Formas pronominais em Canela-Krahô (Popjes e Popjes 1986)
Tabela 4: Formas pronominais em Krahô (Souza 1997)
Tabela 5: Formas pronominais em Krahô (Miranda 2008, 2009)

Referências

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