Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa
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(3) Renato Pinto Ferreira. Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa.. Universidade Fernando Pessoa. Porto 2010.
(4) Renato Pinto Ferreira. Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa.. Trabalho apresentado à Universidade Fernando Pessoa como parte dos requisitos para obtenção do grau de Mestre em Ciências da Comunicação no Ramo de Jornalismo.. IV.
(5) Sumário A televisão é companhia constante nos lares portugueses e em todo o mundo, apesar de muitos não olharem a televisão com bons olhos. Em Portugal, os canais mais vistos continuam a ser 3 dos 4 canais generalistas emitidos em sinal aberto – a RTP1, a SIC e a TVI -, sendo que os canais por cabo já são mais vistos do que a RTP2. A programação televisiva, encarada como sendo mais que a soma dos programas – de vários tipos - introduzidos numa grelha, é a estratégia dos directores de programas para agarrar as audiências que, nos três canais mais vistos, assistem a uma programação muito idêntica. Ressalta-se actualmente a preferência dos telespectadores pela ficção nacional da TVI, que é segundo um dos responsáveis pela programação do canal a grande aposta da estação, líder de audiências. Olhar a audiência como um conjunto de cidadãos é obrigação do serviço público de televisão com direito a Contrato de Concessão para os canais RTP1 e RTP2. Eduardo Cintra Torres, por exemplo, é muito crítico em relação a esse papel actual dos dois canais públicos.. Abstract Television is constant company in portuguese homes and all over the world, despite the fact that many don´t look to television with good eyes. In Portugal, the more seen channels still are three of the four main channels spread in open signal – the RTP1, SIC and TVI -, and the payed channels are already more seen than RTP2. Television programming, seen as more than the sum of the programmes – of various types inserted in the plan, is the strategy of the programmers to catch the audiences that, in the three more seem channels, watch a very identical programmation. Nowadays, we have to emphasize the preference of the spectators to the national fiction of TVI, that is according to one of the programmers of the channel the big bet of it, leader of audiences. Looking at audiences as a group of citizens is obligation of television’s public service with a Concession Contract for the channels RTP1 e RTP2. Eduardo Cintra Torres, for instance, is very critical in what concerns to the present role of the two public channels.. V.
(6) Agradecimentos. Agradeço ao professor Doutor Ricardo Jorge Pinto a disponibilidade de ter sido o meu orientador nesta dissertação de mestrado. Não posso esquecer de agradecer também aos meus pais pelo apoio a todos os níveis para a feitura deste mestrado e dissertação. Agradeço também à Elda Ferreira por ter acompanhado - ouvindo, apoiando e dando força - a construção desta dissertação desde o seu início.. VI.
(7) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. Índice: Introdução ………………………………………………………………………….…. 4 Parte 1 – Contextualização teórica Capítulo I – A nossa televisão ………………………………………………………... 7 1.1 – A televisão: relação amor-ódio …………………………………………………... 7 1.2 – Canais generalistas Vs Canais temáticos ……………………………………….. 13 1.3 – Paleotelevisão Vs Neotelevisão Vs Hipertelevisão …………………………….. 17 1.4 – Olhar a audiência de televisão ………………………………………………….. 20 Capítulo II – A programação televisiva …………………………………………..... 24 2.1 – Programa e Programação ……………………………………………………….. 24 2.2 – Características da programação ………………………………………………… 26 2.3 – Estratégias de programação …………………………………………………..… 28 2.4 – Tipos de programas .............................................................................................. 35 Parte 2 – Os 4 canais generalistas em Portugal Capítulo I – RTP 1 e 2, SIC e TVI – História ………………………………...…… 39 1.1 – RTP1 ……………………………………………………………………………. 39 1.2 – RTP2 ……………………………………………………………………………. 41 1.3 – SIC ……………………………………………………………………………… 42 1.4 – TVI ……………………………………………………………………………… 43 Capítulo II – Programação dos quatro canais generalistas portugueses …….….. 44 2.1 – Grelha de programação de um dia da semana dos 4 canais ……………………. 44 2.2 – Breve análise da programação do dia da semana ……………………………..... 46 2.3 – Grelha de programação de um Domingo dos 4 canais ………………………..... 48 2.4 – Breve análise da programação de Domingo ……………………………………. 50 Capítulo III – Caracterização das audiências em Portugal ……………………..... 51. 1.
(8) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. Capítulo IV – Obrigações legais na programação ……………………...….……… 61 4.1 – Lei da Televisão …………………………………………………………...……. 61 4.2 – Contrato de concessão do serviço público de televisão ………………………… 63 Capítulo V – Análise de discurso de responsáveis pela programação televisiva dos 4 canais ……………………………………………………………………………….. 68 5.1 – O perfil do programador ……………………………………………………...… 69 5.2 – O papel da televisão …………………………………………………………….. 72 5.3 – Critérios de escolha da programação ………………………………………….... 74 5.4 – Caracterização de cada um dos canais ………………………………………….. 76 5.5 – Programas que melhor caracterizam os canais …………………………………. 78 5.6 – Tendências para o futuro da programação em Portugal ………………………... 81 Capítulo VI – A visão do crítico: Eduardo Cintra Torres ………………………... 84 Conclusão …………………………………………………………………………..... 90 Bibliografia ……………………………………………………………………………92 Anexos ………………………………………………………………………………... 95. 2.
(9) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. Índice de Figuras: Figura 1 – Shares de audiência de Setembro de 2009 ………………………...……… 54 Figura 2 – Evolução do share de audiência mensal em percentagem …………...…… 55 Figuras 3 e 4 – Estrutura da Oferta e da Procura por tipo de programa ……………… 57 Figura 5 – Estrutura da oferta dos canais de Janeiro a Março de 2009 ………………. 58 Figura 6 – Estrutura da procura dos canais de Janeiro a Março de 2009 …………….. 59. Índice de Tabelas: Tabela 1 – Grelha de programação de uma quinta-feira dos quatro canais generalistas portugueses ……………………………………………………………………..…….. 44 Tabela 2 – Grelha de programação de um Domingo dos quatro canais generalistas portugueses …………………………………………………………………………… 48 Tabela 3 – Top Programas de Setembro de 2009 ……………………………….……. 56 Tabela 4 – Audiências do dia 22 de Outubro de 2009 ……………………………….. 56. 3.
(10) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. Introdução. Este trabalho pretende falar sobre televisão. Dentro dela abordaremos a programação televisiva como forma de abordar este fenómeno da “janela para o mundo” que está há muito tempo já enraizada no quotidiano dos cidadãos por todo o mundo. Após uma contextualização teórica acerca do papel da televisão na sociedade e outros enquadramentos de caracterização actuais deste meio que poderemos considerar transversais à escala planetária, debruçar-nos-emos sobre a realidade portuguesa, mais concretamente ao cenário oferecido pelos quatro canais generalistas portugueses emitidos em sinal aberto: a RTP1, a RTP2, a SIC e a TVI.. Os motivos de escolha de tal tema para a dissertação de mestrado são fáceis de explicar. O autor tem uma abordagem positiva ao meio de comunicação social televisão. Mantém uma relação próxima com a TV: antes de mais enquanto telespectador atento e apaixonado a tudo o que passa no pequeno ecrã, tanto a nível nacional como numa escala global; e também por já ter dado o seu contributo, a nível profissional e enquanto apresentador de televisão, através de trabalho realizado em dois canais por cabo, ao que se poderá somar a vontade de no futuro poder contribuir ainda mais.. São inúmeras as questões para as quais tentaremos obter respostas ao longo deste trabalho. Algumas delas são as seguintes. Qual a percepção do papel que a televisão poderá efectivamente desempenhar na sociedade? De que forma podemos abordar a crescente importância dos canais por cabo? Que fase da realidade televisiva estamos nós a viver e quais as diferenças em relação à televisão do passado? Como podemos nós olhar e perceber as audiências de televisão? O que é a programação de um canal? Que estratégias usam os programadores para tentar garantir o máximo de audiências? De que géneros televisivos podemos nós falar, entre a grande oferta dos canais? Estas questões no que diz respeito a uma primeira parte de contextualização teórica. Depois, na segunda parte do trabalho, falaremos da realidade portuguesa no tocante aos quatro canais generalistas emitidos em sinal aberto. Que canais e que história dos mesmos temos para toda a população portuguesa que possui uma televisão em casa? A que obrigações legais estão sujeitos esses canais na prossecução dos seus. 4.
(11) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. objectivos? O que é isso de serviço público de televisão? Como é a programação desses canais? Quem vai à frente nas audiências durante o período de construção deste trabalho? Quais as ideias-chave de responsáveis ligados à programação destes quatro canais generalistas portugueses? De que forma podemos olhar criticamente para a programação destes canais portugueses?. Para responder a estas e outras questões, fomos procurar atentamente numa bibliografia diríamos relevante neste tipo de estudos (relevante porque foi a seguida pelos autores portugueses que se debruçaram e debruçam sobre este fenómeno), o que podemos e devemos dizer sobre programação televisiva e os canais que temos. Para além da consulta de livros sobre o tema, realizámos cinco entrevistas com posterior análise de conteúdo às palavras ditas por responsáveis pela programação dos canais generalistas principais de Portugal – entrevistas feitas durante o Verão de 2009, com algumas referências específicas para esse mesmo período -, e por um dos principais críticos de televisão do nosso país, que nos deu uma visão muito pessoal de como podemos olhar para o objecto de estudo deste trabalho.. Como o próprio título deste trabalho menciona, não tentámos dissecar pormenorizadamente nenhum sector específico do fenómeno em causa; tentámos sim obter uma panorâmica geral, dinâmica e pertinente dos principais aspectos relacionados com a programação televisiva e os canais que temos à disposição em sinal aberto (embora sempre atentos à realidade dos canais por cabo). Chamamos a atenção do leitor para o facto de este ser um trabalho circunscrito a uma determinada época, nomeada e concretamente no que diz respeito, por exemplo, às audiências ou à programação dos canais; ou seja, pode acontecer que enquanto se lê este trabalho o panorama possa já estar alterado. A nossa atenção, nesses campos, foi focalizada para o cenário vivido nos anos 2008 e 2009.. Com este trabalho, pensamos nós, ficámos mais enriquecidos a nível teórico sobre o trabalho que se faz enquanto programador de uma estação, e enquanto cidadãos atentos a um fenómeno que não deixa ninguém indiferente. Exactamente por isso será esta uma leitura que interessará a todos e que a todos será familiar, contando nós com um especial foco de interesse, como sendo o facto de termos entrevistados profissionais 5.
(12) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. do meio, que nos ajudam a ter credibilidade nos aspectos práticos do dia-a-dia da televisão que temos.. 6.
(13) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. Parte 1 – Contextualização teórica Capítulo I – A nossa televisão 1.1 – Televisão: relação amor-ódio. Para começar a falar da televisão, iniciamos a nossa viagem pelos repositórios de conhecimento que são as enciclopédias. Segundo a enciclopédia Luso-Brasileira da Cultura da Verbo, a televisão é um “sistema de telecomunicação que assegura a transmissão de imagens não permanentes de objectos fixos ou móveis”. O objectivo? O principal será “estender o sentido da visão para além dos seus limites naturais, para o que precisa de utilizar dispositivos capazes de substituir os mecanismos da vista humana”. Segundo a enciclopédia Verbo da Sociedade e do Estado (Teves, 1987, p.1144), ela é um “espectáculo-tipo (e típico) da moderna sociedade industrial (e de consumo)”, sendo considerada “na 2ª metade do séc.XX, o mais determinante factor de imposição do que se convencionou chamar de civilização da imagem, já marcada pelas contribuições da fotografia e do cinema”. O que é que ela faz? É simples (idem, p.1145):. “Combinando luz, som e movimento, associando as possibilidades da rádio e do cinema, a televisão introduz em casa de cada um o espectáculo completo. À sedução da voz a televisão junta a persuasão da imagem móvel e até o mistério que vem das distâncias retratadas pelas emissões. O espectador não precisa mais de se deslocar (como fazia para assistir à projecção de um filme ou a uma representação teatral), já que agora, é o mundo exterior que vem até si, revelador e intimista”.. Segundo o Observatório Europeu do Audiovisual, em 2007 quase todos possuíam pelo menos uma televisão em casa: mais concretamente 99,3% dos lares portugueses, sendo a percentagem da União Europeia de 97% (Pereira, 2009, p.43).. Afinal o que é que a televisão nos faz? Ou o que é suposto ela conseguir fazer na dinâmica do quotidiano de todos nós? Antes de tentarmos olhar para algumas possibilidades de resposta com a ajuda de alguns autores/pensadores, vamos alongar a nossa visão do pequeno ecrã. Podemos olhar a televisão de vários ângulos. John Corner,. 7.
(14) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. referenciado por Felisbela Lopes – investigadora da universidade do Minho - (2009, p.8), a propósito de estudos sobre a televisão, diz que a podemos ver como: instituição – é a este nível encarada “enquanto indústria com organizações particulares, condicionada fundamentalmente pela política governamental”; como programação/realização – onde interessa a cultura e práticas profissionais que se actualizam ao longo do tempo, e que poderá ser percebida através de relatos autobiográficos, análises de grelhas de programação e programas (conforme faremos mais à frente neste trabalho, na parte 2), etc.; como fenómeno sociocultural (como faremos neste preciso tópico do trabalho, mais à frente, comparando reacções diversas à televisão enquanto um fenómeno deste tipo) – onde a TV é “entendida como um „facto social‟ estruturante e estruturada em relação à rede social”, sendo no binómio televisão-sociedade que se desenvolverá constantemente uma reflexão articulada em diálogo permanente entre duas esferas, a televisiva e o espaço público/privado; como representação e forma – “a forma em TV também é conteúdo e está em permanente evolução”; e finalmente como tecnologia – onde se pensa a evolução do audiovisual em função das inovações tecnológicas “que impõem outras formas de dizer e mostrar a realidade” (forma de ver a televisão que será menos abordada neste trabalho).. Ela está presente, actualmente, na casa de todos nós. A televisão. Faz parte de nossas vidas. Talvez mesmo por causa dessa presença contínua, é alvo de reacções bem vincadas e bem díspares. Ninguém lhe consegue ficar indiferente, tendo toda a gente uma opinião sobre o fenómeno. A facilidade com que interagimos com ela é explicitada por René Berger (1979, p. 15), quando o autor diz que: “A televisão faz irrupção; ela explode em casa de todos os que – única condição – dispõem dum aparelho e dos quais se requer, não uma iniciação como na comunicação escrita, mas tão só a iniciativa, caso mesmo a seja, de girar um botão”.. Ela faz parte de nossa família. É um membro dela. E, segundo Roger Silverstone, teórico da comunicação (1945-2006) (1994, p.38), podemos vê-la “como um componente do sistema familiar”; acrescentando que “o padrão de uso da televisão dentro de uma família terá consequências na maneira como a família constrói e mantém a si mesma como uma unidade social no tempo e no espaço”.. 8.
(15) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. Quanto às reacções bem diferentes ao fenómeno televisão, tal fica bem patente quando Felisbela Lopes, na sua tese de doutoramento (2008, p.17), começa a mesma logo com a distinção: visões pessimistas/críticas e visões integradoras. Para as primeiras contamos com os argumentos de que a televisão presa a pressões económicas, de que está subordinada a dispositivos tecnológicos e de que está dependente de constrangimentos estruturais; para as segundas os defensores vêem a TV como (re)produtora de conhecimentos, como promotora de novas formas de vida e como elo de união: dentro desta visão de TV como elo de união temos como defesa deste meio de comunicação os seguintes argumentos – é “um meio que instala pontos de referência”, “um meio que celebra a vida de todos os dias” e “um meio de coesão social”(2008, p.62).. Karl Popper, um dos mais conceituados pensadores do século XX, considerou a televisão um perigo para a democracia, segundo ele porque ela tornou-se um poder incontrolado – e qualquer poder incontrolado contradiz os princípios da democracia. Afirma que já não se trata apenas de violência, mas também “da dificuldade cada vez maior de captar a diferença entre realidade e ficção” (1995, p.11). Contudo, este filósofo vienense foi durante a sua vida um ainda esperançoso e optimista, tendo escrito que “a televisão, cuja influência pode ser terrivelmente nociva, poderia ser, pelo contrário, um notável instrumento de educação” (1995, p.16), achando, no entanto, que transformar a TV numa instância cultural benéfica representa tarefa árdua, necessitando o meio de pessoas talentosas. Quanto ao facto de termos cada vez mais cadeias televisivas, ele acha que elas “não rivalizam certamente para produzirem programas de elevada qualidade e de alcance moral que inculcariam uma determinada ética nas crianças” (1995, p.18), faltando para isto acontecer exemplos edificantes.. Por seu lado, Cathrine Kellison demarca bem alguns argumentos que os estudiosos deste fenómeno foram demarcando ao longo dos tempos, no que diz respeito a certas hipotéticas características nefastas que muitos pensadores acreditam ser uma realidade (2007, p. 17-18): “(...) seus detractores foram severos insistindo que ela [a TV] nivela por baixo seus padrões de entretenimento, que nos soterra com impressões negativas, controla o conteúdo e a veiculação de notícias, manipula as tendências culturais e encoraja os telespectadores a serem consumistas”.. 9.
(16) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. Entretanto, e para equilibrar as contas, quanto a visões optimistas e positivas, a mesma autora refere: “(...) pesquisas actuais afirmam que a televisão é um veículo que pode tornar os telespectadores mais inteligentes à medida que eles viajam em enredos narrativos complexos, exploram questões éticas de relacionamentos que são centrais para os reality shows, ou usam vídeos como ferramentas educacionais.”. Em Portugal, Eduardo Marçal Grilo, administrador da fundação Calouste Gulbenkian e ex-ministro da educação, tem-se mostrado preocupado com a análise feita a este media. Genericamente traça um mau cenário embora também tenha esperança. Afirma peremptoriamente que “a televisão, tal como hoje vai ao encontro da maioria da população, é um factor de deseducação e de aviltamento de alguns valores” (2006, p. 77), valores esses que ele considera como pilares fundamentais em que deve assentar a formação de crianças e adolescentes. Apesar de acreditar que “num país como Portugal não se pode querer que uma população com este nível educacional se interesse por canais como o People and Arts, o Arte, o História ou o Odisseia”, impõe no entanto a necessidade da constatação de que “é possível criar um canal que seja educativo e cultural sem ser maçador”, através de “um equilíbrio entre o atraente sem ser sensacionalista e o cultural sem ser enfadonho” (2006, p.79).. O ex-ministro da Educação considera que o mais importante é que os media, e em particular a televisão, seja capaz de (2006, p.79): “(...) contribuir para o crescimento e para a realização de cada um e especialmente para despertar em cada jovem o interesse e o gosto pelo saber e pelo conhecimento, ao mesmo tempo que deve tornar cada um mais autónomo e capaz de criar os seus próprios centros de interesse e motivação”.. Também no âmbito de pensar no que a televisão é e pode ser para todos nós, importa referirmos Francisco Rui Cádima, professor universitário e autor na área dos media (2006, p.29), para quem: “(...)importará pensar quais as modalidades e as acções que poderão contribuir para que a TV generalista seja mais um apelo ao mundo da vida e à experiência da Cidadania e menos uma concessão soporífera pós-laboral. E se aproxima mais da Ciência, da Cultura e do Conhecimento e menos dos desvarios do infotainment, da violência gratuita, do sensacionalismo e do fait-divers”.. 10.
(17) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. O que é certo que este meio de comunicação social está implantado no quotidiano da população. Muitos questionam o papel formativo que a televisão tem ou podia ter, essencialmente na formação dos mais novos, enquanto elemento que interfere na educação e formação do carácter dos mesmos. Manuel João Vaz Freixo, cuja tese de doutoramento relaciona a televisão com a instituição escolar, diz-nos, com os seus estudos, que “em geral, a televisão é para os pedagogos e educadores um inimigo que se aceita como inevitável, mas que conviria afastar, pelo menos, das idades mais sensíveis” (2002, p.15). Em relação aos propósitos e objectivos gerais da „janela para o mundo‟, afirma que ela (id., p.16): “Não parece sequer importar-se com a superficialidade ou possível malefício dos seus conteúdos para a formação de crianças e jovens. Deixa-se levar maioritariamente pela dinâmica e lógica do mercado, importando-lhe muito pouco a qualidade ou, até mesmo, a oportunidade do produto que oferece. Neste sentido, a nossa televisão não é, com efeito, uma „televisão inteligente‟: uma televisão que faça seu, também, o projecto de educar. Embora o devesse fazer”.. Este projecto de educar que a televisão poderá ou não ter, é sem dúvida atribuível aos pais: esses não poderão fugir a essa responsabilidade. Segundo Pedro Coelho, jornalista desde 1988, a televisão poderá ajudar “o diálogo entre os membros da família quando a recepção é conjunta e o conteúdo é assumido como tema de conversa” (2005, p.67). Este autor, que trabalha em televisão desde 1992, assume que esta recepção conjunta ajudará a quebrar barreiras entre os membros da família, contribuindo essencialmente para abrir a porta aos diálogos difíceis: “Assim, temas tabu, como o consumo de drogas, a sexualidade, os problemas da juventude, podem ser mais facilmente abordados entre pais e filhos frente a programas que tratem esses temas, do que seriam se não existisse esse pretexto. Desta forma, a televisão também pode ser um foco de aproximação da família, contribuindo, através dos conteúdos que transmite, para quebrar barreiras e generalizar a boa disposição a todos os membros” (2005, p.67-68).. Esta será uma visão do agrado dos “amigos” da televisão... Coisa rara é, no entanto, encontrar mesmo assim quem de diga apaixonado por este meio, conforme o autor deste trabalho se assumiu na introdução. Segundo Arlindo Machado, a propósito deste tipo de afirmações, diz que (2005, p.9):. 11.
(18) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. “De fato, não soa muito inteligente dizer-se apaixonado pela televisão. Se a confissão de amor pela literatura ou por quaisquer outras formas sofisticadas de arte funciona como uma demonstração de educação, refinamento e elevação do espírito, a paixão pela televisão é, em geral, interpretada como sintoma de ignorância, quando não de desequilíbrio mental”.. Logo de seguida, este autor passa a defender quem defende a televisão: “Dizer que na televisão só existe banalidade é um duplo equívoco. Em primeiro lugar, há o erro de considerar que as coisas são muito diferentes fora da televisão. O fenómeno da banalização é resultado de uma apropriação industrial da cultura e pode ser hoje estendido a toda e qualquer forma de produção intelectual do homem. (...) Porque deveria a televisão pagar sozinha pela culpa de uma mercantilização generalizada da cultura?. Por outro lado, da mesma forma como, na contramão das tendências hegemónicas, continua existindo uma literatura de insubmissão ao gosto padronizado e um cinema de expressão de inquietudes não catalogadas, existe também vida inteligente na televisão. Uma pesquisa seriamente conduzida pode demonstrar que o acervo de obras criativas e inquietantes produzido pela televisão não é maior nem menor do que aquele acumulado em outras linguagens.”. No final deste tópico, mais uma especial relevância à relação dos mais novos – crianças e adolescentes - com o pequeno ecrã. Alguns estudos centram-se exclusivamente nesta relação, e na preocupação dos mais novos não terem o mesmo poder de defesa perante os hipotéticos poderes nefastos deste meio. A televisão, “uma presença significativa no quotidiano das gerações mais jovens, podendo constituir uma fonte privilegiada de informação e de aprendizagem”, é sem dúvida “um agente que participa no processo de socialização das crianças e influencia a forma como elas percepcionam o mundo em que vivem e a visão que têm de si próprias e dos outros” (Pereira, 2009, p.20). A televisão tem sido acusada de encorajar crianças e adolescentes a serem mais agressivos, a começar a beber álcool cedo, a usar má linguagem, a adoptar pontos de vista sexistas e racistas e a minar o desenvolvimento educacional dos mais novos através do cultivo da passividade mental e da preguiça e através de deixá-los acordados até mais tarde (Gunter, 1990, p.217).. Apesar disto, esta mesma fonte referida anteriormente também nos dá noções claras no sentido positivo e construtivo do meio de comunicação que deu origem a este trabalho. Ela, segundo Barrie Gunter e Jill McAleer, possibilitará às crianças um. 12.
(19) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. conjunto de experiências e claramente nem todas elas deverão ser vistas como más: traz conhecimento e outros benefícios indisponíveis através de qualquer outra fonte, pode estimular competências de conversação, cooperação com outras crianças, brincadeiras imaginativas, o desenvolvimento de inferências lógicas, o entendimento de histórias e a compreensão dos dilemas das outras pessoas (idem, p.222). Estes autores entendem que as pessoas que reforçam o lado negativo da televisão falham na justiça que fazem ao papel do pequeno ecrã na vida das crianças. E complementam afirmando que, olhando num contexto mais vasto sobre a agressividade das crianças, estudos afirmam que o estilo de vida da família, a vizinhança, a escola e os pares são mais influenciadores nesse aspecto que os programas de televisão (ibidem, p.221). 1.2 – Canais generalistas Vs Canais temáticos. Hoje em dia a escolha dos telespectadores pode ser distribuída por muitos canais. Aliados à existência do controlo remoto, contribuem para o muito falado “zapping”, com uma constante mudança de canal à procura de algo que mereça a atenção de cada um, e muitas vezes fugindo aos intervalos comerciais. Em relação aos canais por cabo, convêm reportar a dissertação de mestrado de Luisa Coelho Ribeiro (que se transformou em livro); parafraseando o autor Pena, logo no início do seu trabalho, diz-nos que (Ribeiro, 2007, p.33): “(...) a televisão por cabo caracteriza-se por ser uma televisão privada (no sentido de que não é participada pelo Estado), que chega a casa do consumidor final por uma rede que pode ser analógica ou digital, sendo uma indústria que se financia mediante o pagamento de uma mensalidade ou por consumo (enquanto que a televisão dita “em canal aberto” é financiada pela publicidade e/ou por fundos públicos)”.. Para justificar o sucesso de audiências da indústria de cabo, a autora recorre a Oz Shy, para quem o sucesso se deve a um jogo decorrido entre esta indústria e os canais em sinal aberto. Assim sendo, quando duas estações co-existem, o bem-estar seria então maximizado, teoricamente, quando as duas transmitissem programas idênticos em momentos diferentes; no entanto não é isso que acontece: na guerra de audiências, e para conseguirem maiores receitas publicitárias, ambas as estações tendem a transmitir programas semelhantes nos mesmos horários – esta falha no mercado criou a indústria. 13.
(20) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. do cabo no qual as estações especializaram-se em notícias, desporto, televendas, etc., explicando o sucesso perante o público (id., p.33).. A televisão por cabo teve origem nos EUA. A primeira instalação de um sistema de televisão por cabo documentada foi feita em 1948, no estado do Oregon. Em Portugal, temos de recuar menos: recuamos à decada de 90 do século passado para vislumbrarmos o início de tais emissões – em 1994 a TV Cabo obteve licença e iniciou o planeamento da rede, e em 1995 a Cabovisão iniciou também a sua actividade, tendo surgido mais recentemente outras empresas. Luiz Guilherme Duarte ajuda-nos a perceber o que está por trás deste “cortar o público em fatias menores”(1996, p.179): “No âmago da segmentação do mercado está o conceito de que os telespectadores/consumidores são, ao mesmo tempo, complexos e diferenciados demais para serem tratados como massa única, mas homogéneos o suficiente para serem classificados em pequenos grupos”.. Assim sendo, “(...) as estratégias de marketing de televisão estão se afastando de uma audiência de massa, em direcção a grupos mais específicos, cujo tamanho reduzido é compensado por uma empatia maior com a programação e os anunciantes” (Duarte, 1996, p.195).. Ou seja, a televisão temática ou fragmentada tem como ideia-base o seu apoio numa programação onde não existe a mistura de géneros e que tem como objectivo não todo o público, mas um determinado público-alvo (Freixo, 2002, p.285). Este autor destaca no seu estudo, na mesma página atrás referenciada, a imagem utilizada por Dominique Wolton, que diz que a televisão generalista se ajusta à sociedade estandardizada/de massas, da mesma forma que a televisão fragmentada/temática se associa ao paradigma da individualização, que supostamente estamos a viver. Referindo-se ainda às ideias de Wolton, e trazendo à discussão vantagens da televisão generalista, Manuel João Vaz Freixo escreve que ela é a única que liga a informação a outros programas: com isto consegue-se „agarrar‟ os dois grandes aspectos da realidade – o mundo objectivo e o mundo dos lazeres e da distracção; desta forma, defendeu Dominique Wolton, o espectador ao dispor desses géneros diferentes num mesmo canal. 14.
(21) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. e a diferentes horas do dia, vai usufruir de uma visão de unidade social e cultural, embora possa não ter disso uma grande consciência (Freixo, 2002, p.291).. Havendo a inevitabilidade deste cenário, o de mais oferta e consequente maior poder de escolha dos telespectadores, Eduardo Marçal Grilo destaca a separação entre os dois grupos distintos: o que dispõe de televisão por cabo ou de antena parabólica e o que tem acesso apenas aos quatro canais nacionais, que constituem objecto de estudo desta dissertação; acredita que, quanto a eles (2006, p. 76): “(...) o que está a acontecer conduz necessariamente a que os estratos sociais mais cultos e economicamente mais poderosos, que têm acesso aos canais temáticos, continuem a aprender e a cultivar-se, enquanto os restantes têm de se contentar com programações muitas vezes indigentes, que os entretém, se calhar até os divertem, mas cujo resíduo sólido é positivamente nulo”.. Gabriela Borges parafraseia Wolton, mostrando que ele defende a televisão generalista - a que transmite todos os tipos de programas -, defendendo mesmo que ela privilegia a programação, “procurando satisfazer públicos distintos ao oferecer uma grelha de programação capaz de contemplar diversas expectativas”(2008, p.168). Em oposição à televisão generalista, Wolton declara que “a televisão segmentada remete-se ao programa singular, assistido por um telespectador individual que não tem qualquer ligação com outros telespectadores”(2008, p.168), o que enfraquecerá uma das principais funções potenciais da televisão já referidas neste trabalho, que é a de criar laços sociais entre diferentes comunidades.. Contudo, há também autores que defendem que a televisão segmentada é inteligente, por não reduzirem qualquer assunto à sua expressão mais banal e ao denominador comum que nivela por baixo a sua programação – é o caso do autor Nelson Hoineff, referenciado por Gabriela Borges no seu artigo.. Porque a oferta existe e não podemos ignorar já esta realidade da co-existência de canais generalistas com canais temáticos, o mais sensato será mesmo assumirmos a complementaridade entre os dois modelos, tal qual faz o autor Pedro Coelho, por entender que ambos têm um papel social a cumprir (2005, p.99):. 15.
(22) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. “Poderemos assumir e caracterizar o poder da televisão generalista para romper a tendência crescente em direcção a uma sociedade fragmentada, ao afirmar-se como o único vínculo social capaz de estabelecer pontes de contacto entre comunidades que vivem cada vez mais fechadas sobre si próprias. Mas também reconhecemos as dificuldades que a televisão generalista demonstra em responder às necessidades específicas de determinados grupos sociais”.. Segundo este autor, ainda, e face à escalada nas audiências do cabo frente aos generalistas, entende que resta aos operadores reflectirem, para talvez concluírem “que os espectadores dos canais generalistas exigem conteúdos alternativos e rejeitam essa oferta global padronizada que insiste na fórmula „mais do mesmo‟” (2005, p.103).. A propósito dos diferentes cenários entre o que se vive agora, com os canais por cabo, e o que tínhamos há vinte anos atrás, quando só havia dois canais em Portugal, os dois principais da RTP, Ricardo Reis, professor de Economia da Universidade de Columbia, apresenta-nos a curiosa proposta que relaciona a preferência entre a televisão de agora com a de há vinte anos atrás com as nossas opções políticas. Assim sendo, e antes da conclusão, o autor começa por caracterizar os dois estados diferentes do pequeno ecrã, espaçados no tempo: “Há 20 anos havia apenas dois canais em Portugal, ambos geridos pelo Estado. A programação era determinada por funcionários públicos, que tinham em conta não só o que as pessoas queriam ver, mas também o que achavam que elas deviam ver. (...) Hoje muitos portugueses têm acesso a mais de vinte canais. Uns são geridos pelo Estado, outros por privados, alguns por portugueses e muitos por estrangeiros. Não podem impor programas aos espectadores, que num instante mudam de canal.”. Ricardo Reis posteriormente, nesta sua crónica, conclui que: “Quem acha que a televisão é melhor hoje tem tendência para confiar nas pessoas e no mercado e para suspeitar das intervenções do Estado. Quem preferia a televisão no passado prefere soluções centralizadas, planeadas, e com uma forte mão do Estado. Na maior parte das opções políticas, são estes os valores em jogo.”. Desta forma consegue-se distinguir quem é de esquerda e quem é de direita, na política. Uma coisa é certa: com os canais por cabo é evidente a solidificação de um maior poder de escolha, com a inevitável consequência da maior dificuldade de. 16.
(23) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. “agarrar” e fidelizar um telespectador. Conforme veremos mais à frente neste trabalho, através de números, este fenómeno dos canais temáticos, por cabo, está a crescer... 1.3 – Paleotelevisão Vs Neotelevisão Vs Hipertelevisão Em 1983 Umberto Eco escreveu um artigo – “A transparência perdida” – onde traça diferenças entre dois tipos de televisão: a Paleotelevisão e a Neotelevisão. Estava a distinção feita. Já no século XXI surgiria a designação Hipertelevisão. Falemos um pouco do que diferencia estas três designações para um mesmo fenómeno. A Paleotelevisão era “para todos os telespectadores, e que falava de inaugurações presididas por ministros e procurava que o público aprendesse somente coisas inocentes, ainda que à custa de dizer mentiras” (Eco, 1983, p.1). A Paleotelevisão é então esse período em que as cadeias televisivas eram propriedade do Estado: a oferta era simples, e o monopólio fazia desconhecer muitas possibilidades do ofício de programador. As televisões do estado “limitavam-se a oferecer uma série de programas segundo um certo sentido de oportunidade, da necessidade política e do sentido comum” (Cortés, 1999, p.17). Segundo este autor, não existia na altura o que agora, na neotelevisão, se denomina a lógica da programação.. Não existia na paleotelevisão instrumentos de medição da audiência, ou se existiam eram imprecisos, e os programas que o canal produzia, inicialmente, não se sabia bem para que espaços da grelha eram destinados. Por não haver na altura concorrência, “não havia estímulo algum para modificar ou alterar o ritmo e o rumo das programações, com tudo o que isso implica” (id., p.18). Baseada no princípio de serviço público, de índole desejavelmente pedagógica e cultural, vivia à base de produtos domésticos junto com outros provenientes de diversos mercados, pela impossibilidade técnica ou falta de conhecimentos para produzir produtos semelhantes aos vindos dos Estados Unidos e de Hollywood. Os objectivos da paleotelevisão eram os de “informar, formar e entreter”, onde se criava uma relação política muito estreita entre o poder e os cidadãos. Poder esse, o Estado, que via na televisão um instrumento para ensinar: ensinar, ensinar a ver, ensinar divertindo. A televisão pública permitia ao Estado mostrar-se a si mesmo. 17.
(24) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. A partir dos anos 80, na Europa, no início dos anos 90, em Portugal, começa um processor de desregulação da televisão, com a liberalização da actividade televisiva, que nos faz entrar na neotelevisão. Um panorama de televisão múltiplo, que baseia suas estratégias de rentabilidade na captação de audiências, com forte importância do sector publicitário. Com a entrada da iniciativa privada, a oferta será plural e o Estado deixa de ter o monopólio. A audiência é a peça chave. A sua captação implica uma maior actividade na programação (Cortés, 1999, p.23). Segundo Umberto Eco (1983, p.1), a característica principal da neotelevisão “é que cada vez fala menos do mundo exterior. Fala de si mesma e do contacto que está estabelecendo com o público”. Pouco importa o que se fala, uma vez que é o público que, com o telecomando na mão, deixa o canal continuar a falar ou decide mudar de canal. Para tentar evitar a mudança de canal, a neotelevisão diz constantemente ao telespectador “estou aqui, eu sou eu e eu sou tu”.. Assim sendo, podemos dizer, segundo Cortés (1999, p.24), que na neotelevisão: “1) convivem o modelo público e o privado. 2) que ambos tendem a parecer-se até se chegar a não se diferenciar uns de outros no referente, ou seja, a oferta programática. 3) que todos se submetem a um referendo diário de valoração das audiências. 4) que são precismanete as audiências as que marcam as diferenças e as possibilidades de captar publicidade.”. Podemos concluir, novamente utilizando as palavras de Cortés (id., p.30), que: “Na neotelevisão, produto da transição da TV pública e substancialmente pedagógica, a uma pluralidade de emissores, constatou-se um salto – na planificação da programação – de uma lógica baseada no produto a uma lógica de marketing. Isto significa que no sistema misto e de competência, os canais de televisão dirigem a sua oferta a satisfazer e ao mesmo tempo a solicitar as necessidades do público”.. Contudo, há autores que defendem que, com a passagem ao século XXI, entramos numa outra fase da televisão, a que alguns já chamaram de hipertelevisão. Esta fase, que chega com as potencialidades do universo do digital e as promessas da interactividade, não se esgota contudo nas teses de determinismos tecnológicos. Pensadores há que. 18.
(25) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. cruzam o campo da tecnologia com a sociologia, a estética ou a semiótica. É o caso de Eliseo Veron, referenciado por Felisbela Lopes (2009, p.17), que seguindo os caminhos da semiótica, afirma que as etapas da TV são diferenciadas pelos interpretantes que caracterizam os contratos de comunicação. Esta fase que estamos a viver, que o autor considera que será a última etapa da TV generalista, tem um novo modo de encarar a enunciação televisiva “Aqui, o interpretante dominante consiste, na sua perspectiva, numa configuração complexa de colectivos definidos como exteriores à instituição televisão, atribuídos ao mundo não-mediatizado do destinatário, representando os novos reality shows (tipo Big Brother) os programas de base deste novo contexto de mudança de paradigma. Pela primeira vez na sua história, a TV integraria no ecrã o processo de mediatização do qual ela é a fonte e o principal actor, concedendo à realidade extra-mediática quotidiana, na qual se movimentam os receptores, um espaço estratégico tão importante como aquele que se encontra dentro do pequeno ecrã. Nas palavras de Eliseo Veron, este tipo de programa “coloca em cena uma semiótica do laço social quotidiano extra-mediático” através do qual se completa aquilo que o programador planeou. Nesta fase, a programação fica em aberto, dando-se aos telespectadores o poder de decidirem o desfecho dos programas.”. Felisbela Lopes resume bem o principal destas três fases – paleotelevisão, neotelevisão e hipertelevisão -, que podemos considerar na existência da televisão desde o seu início aos nossos dias, dizendo o seguinte (2009, p.13-14): “À TV dos primeiros tempos, que vingou em regime de monopólio (uma realidade vivida em terreno europeu), poderemos associar um Estado-Providência muito zeloso (talvez até manipulador) dos conteúdos emitidos. À TV que surgiu na era da desregulamentação, poderemos juntar a força de grupos mediáticos que viam no audiovisual uma oportunidade para conquistar substanciais lucros à custa da atracção de audiências que se pretendia reunir em massa em torno de determinada emissão. À TV que emerge com as promessas do digital, poderemos agregar as potencialidades oferecidas por tecnologias que permitem transformar as audiências/públicos em produtores ou, pelo menos, em parceiros activos da programação televisiva”.. Em termos actuais, podemos então dizer que vivemos na terceira era da televisão, conforme o chama Cesário Borga na sua dissertação de mestrado dedicada ao tema, onde os mais jovens lançam o mote de novos usos dos conteúdos da televisão, dado que eles “combinam a condição de espectadores de televisão, utilizadores de internet e produtores de vídeos, libertam-se das grelhas programáticas dos centros de emissão. 19.
(26) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. televisiva, construindo o seu próprio tempo de visionamento dos programas” (2008, p.7). Nesta terceira era da televisão, escreve o autor (2008, p.17): “(...) os espectadores decidem os programas que querem ver fazendo zapping entre os canais disponíveis, visionam os programas em arquivo nos sites das estações, ou gravam para verem quando os querem. Ver televisão tende a ser um acto individual.”. Por isto mesmo, Cesário Borga refere a passagem da preocupação do „prime-time‟ para a preocupação com o „my-time‟, onde cada telespectador cria a sua própria programação consoante disponibilidade temporal e vontade próprias. Esta era será “a expressão de um individualismo emergente e crescente, que se evade de um conceito familiar agregador” (2008, p.43). O programa paradigmático desta era, consoante já referimos anteriormente, é o reality show tipo Big Brother, “transformando em herói pessoas desconhecidas, sem outro mérito que não seja existirem e realizarem bem ou mal o seu trabalho” (2008, p.17). Será mesmo esta – a hipertelevisão – a última fase da televisão para os canais generalistas? Ou iremos assistir a variantes que mais tarde serão distinguidas por autores para integrarem futuros trabalhos deste género...? 1.4 – Olhar a audiência de televisão. A audiência de televisão é quem dá significado a este meio de comunicação social. Sem ela não valia a pena a construção de conteúdos televisivos. Ela olha o pequeno ecrã em muitos momentos do seu quotidiano, transformando-o quase como que num membro da família. Nós podemos olhar para ela, tentando entendê-la. Apresentamos neste trabalho uma ideia pertinente do autor Manuel Pinto, que considera existirem, pelo menos, dois modos distintos de entender os telespectadores dos programas e dos canais de televisão. O autor defende que, não sendo necessariamente contraditórios ou mutuamente excluentes, estes dois modos distintos remetem para visões diversas da sociedade e do papel que nela os media desempenham.. Assim sendo (2005, p.42):. 20.
(27) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. “A primeira toma a audiência como um mercado e os membros da audiência como consumidores. O entendimento da audiência como mercado abarca dois sentidos complementares: por um lado, é mercado real ou potencial para os anunciantes e publicitários; por outro, é um mercado (ou mais rigorosamente um produto transaccionável) para os operadores televisivos.. Nesta última acepção, e na medida em que os programas e os canais consigam criar e fidelizar uma audiência quantitativa e qualitativamente significativa, constitui-se um “produto” (a audiência), com valor variável, que pode ser vendido aos anunciantes. Compreende-se, assim, o interesse dos canais que vivem da publicidade em maximizar e qualificar a audiência, porquanto disso depende, no fundamental, a sobrevivência e, tanto quanto possível, o lucro de exploração do canal. E compreende-se igualmente como cada telespectador, individualmente considerado, se torna objecto de uma dupla estratégia de sedução: por um lado, da parte do canal que procura que ele se torne seu cliente em detrimento dos canais concorrentes; por outro, dos anunciantes que, tirando partido da probabilidade estatística de o alcançar com as suas mensagens publicitárias, procura levá-lo a adquirir os seus produtos e não os da concorrência.”. Segundo Manuel Pinto, a forma de todos os intervenientes directos conhecerem as características e os valores deste mercado, consistirá em promover e instituir processos tanto quanto possível fiáveis, de medição dos comportamentos e opiniões da audiência, para melhor poderem agir sobre ela. Para isso investe-se meios no estudo da composição sociodeomográfica das audiências, nos seus hábitos e estilos de vida, nas modalidades e características dos usos mediáticos, mormente televisivos.. Quanto à outra forma de olharmos a audiência, o autor refere-se a ela do seguinte modo (2005, p.43): “A par da concepção da audiência como mercado encontra-se a concepção da audiência como conjunto de cidadãos, isto é, como pessoas que, membros de uma comunidade – local, nacional, transnacional, global -, assumem os deveres e direitos inerentes a essa condição. Ao contrário da “marca” socioeconómica e mercantil inerente à primeira concepção, identificamos aqui uma “marca” predominantemente sociocultural e política. E a grande e determinante distinção que se pode estabelecer entre os dois pólos (mais do que duas realidades estranhas ou contrárias entre si, como já sublinhámos) é a seguinte: quando e na medida em que os telespectadores são entendidos como produto ou mercadoria, eles são inerentemente tomados como alvo, ou seja, como clientela, como mero destinatário, ao passo que, quando são assumidos e reconhecidos como cidadãos, eles se constituem como sujeitos e parceiros, com um leque de papéis e um espectro de acção que abarca o consumo, mas não se confina a ele”.. 21.
(28) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. Apesar de, em Portugal, quanto aos quatro canais generalistas mencionados neste trabalho, termos dois que estão associados a um serviço público de televisão e os outros dois serem estações comerciais, não poderemos, segundo Manuel Pinto, associar pura e simplesmente, e de uma maneira directa, a audiência como mercado às estações comerciais e a audiência como conjunto de cidadãos ao serviço público. Ainda assim, é a associação que mais sentido continua a fazer. O autor, a este propósito, refere que (2005, idem): “Apesar de poder parecer o contrário, não procuramos sugerir que um operador televisivo de natureza comercial, dada a lógica de mercado em que se movimenta, esteja impedido ou não deva ser solicitado a tomar os destinatários das suas estratégias e emissões como cidadãos. O que afirmamos é que a faceta ou dimensão que ele irá privilegiar será aquela que mais contrapartidas de audiência lhe trouxer e que essa será a orientação dominante que seguirá”.. Agora sugerimos ao leitor o exercício de considerar outros dois tipos de audiência, consoante a relação que se estabelece entre televisão e telespectador. Seguindo a sugestão de Pedro Coelho, jornalista de televisão, podemos considerar a audiência como sendo activa ou passiva.. Este autor confirma que muitos dos autores que analisam o fenómeno televisivo “não admitem outra abordagem que não seja a do espectador passivo, aquele que não interage com o aparelho e que recebe, sem qualquer sentido crítico, os conteúdos que lhe chegam a casa” (Coelho, 2005, p.78). Para ilustrar melhor esta concepção de telespectador, oferece-nos a seguinte imagem: “O estereótipo do espectador televisivo corresponde, na versão masculina, à imagem do espectador sentado frente ao televisor de telecomando numa mão e prato de comida na outra, sintonizado num jogo de futebol ou em qualquer outro programa de desporto. A versão feminina poderá ser mais refinada na pose, mas demonstra, também, fortes sinais de vício de género – todo o tipo de telenovelas. Em ambos os casos os programas têm de ser fórmulas simples e triviais que não apelem a grandes esforços de compreensão ou de crítica.” (2005, idem). Contudo, Pedro Coelho acha que há “momentos que nos permitem pensar na existência de sinais de resistência que contrariam a passividade que, habitualmente, caracteriza a audiência televisiva”. Assim sendo, considera que (2005, ibidem) ao lado dessa audiência passiva, subsiste uma audiência activa que, por ser em menor número, não consegue alterar as prioridades dos programadores dos canais, sempre mais. 22.
(29) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. preocupados em “narcotizar a maioria”. Essa audiência activa será crítica e discute o que vê, mesmo que o debate não seja o mais rico em termos de conteúdo, pondo no entanto os intervenientes a pensarem e a interagirem dessa forma com os conteúdos, sendo um grupo de pessoas que poderá mesmo desligar a televisão, resistindo-lhe, em sinal de protesto, quando todas as alternativas não lhe agradarem. E dá um exemplo: “A espectadora viciada numa telenovela não tem de ser, necessariamente, uma espectadora passiva. O conteúdo desse programa pode suscitar-lhe uma análise comparativa com o seu próprio modo de vida; nesse caso, a telenovela não será recebida de forma passiva, mas como um agente que poderá conduzir à mudança. A telespectadora poderá interpretar o conteúdo do programa, por mais trivial que este seja, e retirar dele elementos que lhe permitam melhorar a sua qualidade de vida”.. Compreender o comportamento da audiência, conclui o autor, é o grande desafio do programador que tem dessa forma como actividade um exercício aliciante; a audiência não é, certamente, uma carta fechada, e o seu comportamento não é sempre o mesmo, o que faz da televisão uma ciência não exacta.. Chamamos ainda, a propósito de como podemos encarar a audiência de televisão, a atenção para uma tipologia que vem já desde o ano de 1962, do livro „Living with television‟ de Ira Glick e Sidney Levy, referenciada numa artigo de Teresa Domzal e Jerome Kernan de 1983. Neste artigo, podemos deparar-nos com três tipos de relacionamentos entre espectadores e televisão: „television embracers‟; „television accommodators‟; e „television protesters‟. Os „television embracers‟ (os que abraçam a televisão...) serão os que aceitam bem a televisão, e que estão dispostos a ver a maioria da programação televisiva, seja numa base regular ou ocasional. Estes telespectadores vêem televisão principalmente para escaparem dos seus problemas e para relaxar; apesar de não considerarem a televisão perfeita, estão bastante satisfeitos com o papel dela na vida de cada um, considerando o tempo em frente à TV um tempo proveitoso e considerando a oferta televisiva boa na sua diversidade. Os „television accommodaters‟ (os acomodados à televisão...) serão os que assistem TV principalmente para socializarem com amigos e família – para terem interacção social, quer no visionamento em si, quer nas conversas posteriores com referências em comum. Estes são mais exigentes com a oferta dos canais, não aceitando. 23.
(30) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. tudo o que é oferecido, e fazem no seu diagnóstico à televisão um equilíbrio entre os aspectos positivos e negativos. Quanto aos „television protesters‟ (os que protestam a televisão...), são os mais selectivos quanto ao que vêem no pequeno ecrã, considerando, em geral, que a qualidade é má, que passa sempre a mesma coisa e que essa coisa é chata; apenas assistem televisão para tentarem aprender alguma coisa e saberem o que se passa no mundo; num perfil sociográfico, o artigo demonstra que estas pessoas são as que, em geral, se interessam mais por música clássica, literatura, teatro, pintura, e que têm como passatempo preferido o visitarem amigos.. Também na forma como olhamos o público de televisão, podemos encontrar visões deste meio que o tomam como amigo impulsionador de coisas boas e o contrário, mediante a postura que temos perante o ecrã e o que ele transmite, mostrando-nos que a relação telespectador-televisão é também ela algo de dinâmico. E algo de muito poderoso, uma vez que muitos programas considerados fiascos mesmo assim são vistos por muita gente (centenas de milhares de pessoas), quando comparamos o público de televisão com outras formas de comunicação. Mesmo com um baixo rendimento em termos de audiência, o público a que chega um programa é “muito superior à mais massiva audiência de qualquer outro meio, equivalente à performance comercial de um best-seller na área da literatura”; ou seja, “mesmo a menor audiência é sempre a maior que um trabalho de alta qualidade poderia almejar. Esse simples fato já não justifica toda a televisão?” (Machado, 2005, p.30). Capítulo II – A programação televisiva 2.1 – Programa e programação. É o conjunto de programas encadeados de determinada maneira que dá origem a uma programação. Programa, segundo Arlindo Machado, “é qualquer série sintagmática que possa ser tomada como uma singularidade distintiva, com relação às outras séries sintagmáticas da televisão” (2005, p.27). Quanto à programação, é ela que dá sentido semântico a um canal. Dá-lhe significado e um fio condutor. É ela a quem o telespectador recorre para programar a sua “fruição” da TV nos tempos livres. Por definição simples e basilar de programação entendemos a utilizada por Gabriela Borges(2008, p.167): 24.
(31) Teorias e práticas da Programação Televisiva: a realidade portuguesa. “O conceito de programação pode ser entendido como o conjunto de programas presentes em determinado sistema televisivo, isto é, disponibilizado por todos os canais, assim como a grelha de programas de um determinado canal de televisão.”. Segundo Mariano Cebrián Herreros, um espanhol teórico e estudioso da programação televisiva, “a programação televisiva constitui uma unidade discursiva superior às unidades particulares que a integram” (1998, p.379), sendo as unidades particulares os programas – sendo o programa a unidade básica da grelha de programação de uma estação televisiva. A acção e objectivo da mesma “é introduzir a coerência necessária para que se compreenda como uma continuidade e como uma expressão global a entidade enunciadora”(1998, idem). Neste sentido e nesta problemática, o autor refere que: “Há portanto dois níveis claros de significação. Por um lado, a própria e particular de cada unidade e de cada articulação da continuidade e, por outro lado, a da globalização de todas elas numa unidade de nível superior que é o que diferencia um canal de outro. Este segundo nível é o que proporciona realmente a identidade corporativa. Este nível é o que marca a distinção.”(1998, ibidem). No seguimento de considerarmos a programação mais do que a soma dos respectivos programas que a constituem, o autor Manuel Pinto vem solidificar isso mesmo. Apresenta como conceito fundamental na relação operadores de televisãopúblico, no contexto da programação, o conceito de fluxo, dizendo que (2000, p.47-48): “A noção de fluxo supõe que o débito televisivo não é entendido como um somatório de programas, mas essencialmente como uma programação, isto é, como um produto pensado estrategicamente, em função das preferências imputadas à (identificadas na) audiência, dos ritmos sociais diários e semanais, de critérios de sazonalidade (períodos de férias escolares, por exemplo) e, naturalmente, dos recursos próprios dos operadores e das programações concorrentes”.. Esta ideia de televisão-fluxo está ainda baseada na existência de programas, “mas estes são como que tecidos e articulados num plano estratégico, manobrado num espaço de mercado concorrencial.”(id., p.48), a que Manuel Pinto chama, no fundo, de programação. O autor vê-a assim como um conjunto de textos, mas sendo ela própria como um grande texto, no qual estão espelhados reflexos e representações da vida social. 25.
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