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Origens teológicas do conceito moderno de soberania

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www.lusosofia.net

Origens teológicas do conceito

moderno de soberania

António Rocha Martins

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Covilhã, 2010

FICHATÉCNICA

Título:Origens teológicas do conceito moderno de soberania

Autor: António Rocha Martins Colecção: Artigos LUSOSOFIA

Design da Capa: António Rodrigues Tomé Composição & Paginação: Filomena S. Matos Universidade da Beira Interior

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Origens teológicas do conceito

moderno de soberania

António Rocha Martins

Jean Bodin, nome associado ao conceito moderno de soberania, repreende em Maquiavel o desprezo pela história e forma da República (estado popular), considerando o autor florentino comohomo levis-simus ac nequislevis-simus1.

Precisamente, ao descurar (e desprezando) as linhas fundacio-nais medievas, costuma ver-se na reacção ao religioso (com o qual aí se identifica univocamente a teologia medieval) uma das primei-ras expressões da filosofia política: o elemento religioso como que

∗Universidade de Lisboa. Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa 1 Eis na versão latina a célebre passagem: «En quoy Macciavel s’est bien

fort mesconté, de dire que l’estat populaire est le meilleur: et neantmoins ayant oublié sa premiere opinion, il a tenu en un autre lieu que pour restituer l’Italie en sa liberté il faut qu’il n’y ait qu’un Prince: et de facit il s’est efforcé de former un estat le plus tyrannique du monde: et en autre lieu il confesse que l’estat de Venize est le plus beau de tous, lequel est une pure Aristocratie s’il en fut onques, tellement qu’il ne sçait à quoy se tenir». (Bodin, Jean,Les six livres de la République, Liv. VI, cap. 4, Paris, Fayard, 1986, pp. 148-149). Para outros juízos de Bodin acerca de Maquiavel, veja-se: Meinecke, Friedrich,

Machiavellis. The Doctrine of Raison d’État and Its Place in Modern History, trad., New Haven, Yale University Press, 1957, p. 61.

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subtrairia a simples possibilidade do político, que, assim, se ori-ginaria a partir da desagregação daquele2. Não é difícil

pressen-tir, nessa perspectiva, a censura (e desprestígio) pela medievali-dade desconhecer muito particularmente, presume-se, o fenómeno político – seja pela visão negativa do saeculumseja pela não indi-viduação da sociedade (exaltação da Divindade). Nessa perspec-tiva ainda, para lá de se conservar uma imagem dominantemente religiosa/teocrática do medievo (e sobretudo de características cris-tãs), o poder como que resulta de uma revolta contra a teologia política (desteologização), a forma constante que o pensamento re-ligioso tomara perante questões políticas; poder-se-ia, pois, falar propriamente de soberania política somente a partir de Quinhen-tos3. Marsílio de Pádua, ao admitir o fim da aliança entre as

es-feras religiosa e política, antecipara em parte a revolução – de onde emergiria a secularização – mas o paduano fora ainda demasiada-mente (negativamente) portador de elementos teológicos/religio-sos, segundo os quais – presume-se – jamais a lei se subordinaria exclusivamente a uma posição inferior (secular)4.

Mas todas as épocas, já pela dinâmica de sentido, interna às culturas, são portadoras de modernidade, já por serem únicas e

2 No sentido de total oposição à tradição medieval (i.e., a ideia de que a

filosofia política moderna nasceu completamente apenas com o fim convencional da Idade Média) tornou-se célebre a obra de Mesnard, Pierre, L’essor de la philosophie politique au XVIe siècle, Paris, Vrin, 1969. No sentido de fazer apreender igualmente elementos de continuidade, mas evocando expressamente as limitações da posição de Mesnard, veja-se: Muralt, André de,L’unité de la philosophie politique. De Scot, Occam et Suarez au libéralisme contemporain, Paris, Vrin, 2002.

3 Sobre os arquétipos medievais da soberania, pelo menos desde o século

XII, veja-se David, Marcel,La souveraineté du peuple, Paris, Puf, 1996, pp. 13 ss.

4Veja-se Wolin, Sheldon S.,Politics and Vision. Continuity and Innovation

in Western Political Thought, Princeton University Press, 2006, p. 128. O século XIV originara em parte o que o século XVI consumaria.

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nunca as únicas5. Justamente a lei, que é provavelmente a

instân-cia humana que mais perfeitamente apreende o espírito de uma civilização (a história da civilização é essencialmente a história da mente humana), permanece talvez o mais significativo sintoma da medievalidade; sob o impacte do direito na realeza medieval, especialmente a partir de inícios do século XII, o elemento reli-gioso retrair-se-á positivamente, abrindo espaço espiritual para o nascimento do político no Ocidente: o ideal de uma realeza litúr-gica começa a desintegrar-se6. Produz- se uma secularização da

esfera espiritual, uma secularização do pensamento e das insti-tuições eclesiásticas; o novo vocabulário jurídico tende a substi-tuir e a restaurar, num sentido secular, os valores religiosos que haviam determinado a imagem da realeza nos séculos anteriores à querela das Investiduras7. O rei-autor das leis começa a

eclip-sar o rei-protector das leis dos séculos precedentes, o rex legisla-tor suplantará orex justus, cuja coloração era mais religiosa8. Eis

5Veja-se Cerqueira Gonçalves, J., «Medievalidade – Crise ou Hiato?», in J.

F. Meirinhos (édit.),Itinéraires de la Raison. Études de philosophie médiévale offerts à Maria Cândida Pacheco, Louvain-la-Neuve, 2005, pp. 1-9.

6 Veja-se Boureau, Alain, La religion de l’État. La construction de la

République étatique dans le discours théologique de l’Occident médiéval (1250-1350). La Raison scolastique I, Paris, Les Belles Lettres, 2008, pp. 120-123. Esse ‘retraimento’ corresponde como que a uma saída voluntária da religião; a partir do século XII o poder papal vai caminhar lado a lado com o renascer do direito canónico (Decretode Graciano ouConcordância dos cânones dis-cordantes, 1140) e de um renascer do direito romano (Códigode Justiniano ou

Corpus juris civilis, 1070).

7Vão eclodir os sistemas jurídicos modernos do Ocidente: o direito canónico

foi primeiro desses sistemas. Veja-se também Berman, J. Harold,Law and Revo-lution. The Formation of the Western Legal Tradition, Harvard University Press, 1983, pp. 115 ss.

8Veja-se Kantorowicz, Ernest H., «Kingship and the Impact of Scientific

Ju-risprudence», Gaines Post (et alii), Twelfth-century Europe and the foundations of modern society, The University of Wisconsin Press, 1966. Aí se lê (p. 99): «Indeed, the law-making king began to eclipse the law-preserving king of earlier centuries, and therex legislator superseded the more religiously tintedrex

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por que se não há soberania políticasem legislador/soberano sec-ular(e, portanto,Estado), também por isso a ideia moderna de lei provem essencial e substantivamente da lei medieval, verdadeiro factor de afirmação e constituição dos poderes9.

Efectivamente, a persistente (e controversa) afirmação de que o medievo entra e se prolonga pela modernidade é especialmente válida a respeito da influência das ideias políticas medievais na for-mação/constituição dos conceitos políticos, os quais haviam de en-contrar, nos primeiros decénios de Trezentos (Marsílio de Pádua, Ockham. . . ), a sua plena consumação10. Já afirmámos que

teologi-camente a secularização é factor positivo. Acrescentámos agora que laicidade da razão antecede positivamente (i.e., juridicamente) a desteologização da própria razão, pelo que, verdadeiramente fa-lando, o político preserva essencialmente, também como causa

efi-tus. The image of Justinian and Tribonian began to obscure that of Melchizedek, whose name was translated rex iustitiae. That is to say, under the impact of jurisprudence and juristic rationalism the ideal of liturgical kingship began to disintegrate. Its roots had been undercut anyhow by the papacy of the Church Reform. Now it fell Justinian’s lawbooks and their vocabulary to replace and, in a secular sense, restore some of the religious values of kingship, which had deter-mined, as an effluence of the ruler’s liturgical consecration (then still considered a sacrament), the image of kingship in the centuries preceding the Struggle over Investitures».

9 Recorde-se, por exemplo, que oCorpus juris civilisé colocado entre as

obras mais influentes escritas até hoje no Ocidente. Sobre a noção de lei, veja-se: Ullmann, Walter,The medieval idea of law, London, 1946, pp. 7 ss. 7. ID., «The Development of the Medieval Idea of Sovereignty», inEnglish Historical Review, LXIV, 1-33; Wilks, Michael, J.,The problem of sovereignty in the later middle ages. The papal monarchy with Augustinus triumphus and publicists, Cambridge University Press, 1964.

10 Veja-se Panarese, Angelo, I tre Poteri. Papa, Imperatore e Popolo nelle

teorie politiche del Medioevo, Bari, 2008, p. 7. Veja-se também: M. Rizzi,

Cesare e Dio. Potere spirituale e potere secolare in Occidente, Bologna, 2009, pp. 133 e ss; Zarkar, Yves-Charles, Aspects de la pensée médiévale dans la philosophie moderne, Paris, Puf, 1999, pp. 155-165.

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ciente, um horizonte genésico de cariz teológico (teológico-políti-co).

Por outro lado, são bem conhecidas as teses de E. Kantorowicz e C. Schmitt acerca da ligação entre teologia e política. Quer a metáfora dos «dois corpos do rei»11, quer a ideia de que «todos

os conceitos marcantes da teoria moderna do Estado são conceitos teológicos secularizados»12, pressupõem a posição do poder a

par-tir da declaração do direito natural e positivo, isto é, a parpar-tir do homem – evidenciando-se, portanto, um caminho originário, em-bora primeiramente para a suficiente autonomia do poder real –, ao afirmarem que as teorias e os sistemas modernos, construídos a partir de situações históricas e sobre bases racionais (puramente) escondem em si raízes teológicas secularizadas, como fé e crença. Ou seja, o mundo moderno constituiu-se sobretudo por secularizar os conceitos teológicos e não tanto por desteologizar os conceitos teológico-políticos.

De facto, o rei medieval, justamente em virtude da sua figura anfíbia (i.e., enquanto soberano teocrático e enquanto senhor feu-dal), tivera um habitat constitucional; essa institucionalização do governo feudal fora o exacto paralelo da institucionalização da soberania política13. Por outro lado ainda, importa notar que não é

a teologia que se conserva positivamente na política como resto ou como conteúdo de uma translação do sagrado para o secular, mas, sim, que o político emerge do teológico, que é ele próprio favore-cido pela secularização. Propriamente falando, não há conceitos teológicos não seculares. Também por isso, ao mesmo tempo que há uma teologia do político é impossível falar de uma política

re-11 Kantorowicz, Ernest H., The King’s Two Bodies. A Study in Medieval

Political Theology, Princeton University Press, 1981.

12Veja-se Schmitt, Carl,Politische Theologie. Vier Kapitel zur Lehre von der

Souveränität, Berlin, 1996, p. 43.

13Veja-se Ullmann, WalterRadici del Rinascimento, trad., Bari, pp. 80-81.

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ligiosa, ao menos no que respeita ao cristianismo, a única religião que subtraiu o religioso à esfera do poder14.

Na interpretação histórica – característica da mundividência cristã – é esse um ideal de progresso voltado para o futuro, que, nas palavras de B. Lewis, conheceu intermitências e direcções opostas: algumas funções das religiões pré-cristãs sobrevivem, ou reapare-cem, no mundo cristão, onde, de tempos a tempos, os padres/sacer-dotes exerceram o poder temporal, tal como os reis invocaram o di-reito divino passando por cima da igreja, ao recusarem a mediação e confirmação pontifícia15.

O poder espiritual está para Deus assim como o poder secular está para César. Verdadeiramente falando, é o núcleo teológico do poder que impossibilita falar (paradoxalmente) de um monoteísmo político. A teologia comporta uma estrutura do mundo que torna possível um tipo de pensamento político. Eis pois a grande pre-missa da teologia política: a laicidade da política não é garan-tida pela superação/negação do teológico (espécie de purga do e-lemento religioso), que mais favoreceria o surgir de mitos tota-lizantes e divinizações do político; pelo que será a separação, a concorrência, a interacção entre a jurisdição espiritual e a juris-dição laica – a fonte principal da trajuris-dição jurídica do Ocidente – que propiciará positivamente a formação da soberania política, ao prever como condição de possibilidade a distinção entre o religioso não político e o político não religioso, visando consolidar a autori-dade real.

Por detrás dos fenómenos, subjacentemente ao mundo dos a-contecimentos, há um rumo do mundo cujo sentido de desenvolvi-mento vai mostrando uma configuração cada vez mais “leiga”, a

civitas e oregnum. Neste sentido, à presumível objecção a favor

14A laicidade é só – e sem fim – a consciência desta sublime separação:

veja-se: Lourenço, Eduardo, «Os dois poderes», in Lourenço, E., A Esquerda na encruzilhada ou fora da história? Ensaios políticos, pp.127-131.

15 Veja-se Lewis, Bernard,What Went Wrong? Western Impact and Middle

East Response, Oxford University Press, 2002, pp. 96-97.

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da permanecência e sobredeterminação do elemento religioso, res-ponderemos que a índole religiosa não é a marca mais distintiva da Idade Média e sobretudo que no dealbar do Baixo Medievo se encontram sinais manifestos de liberdade política. Mais, se a acção electiva (individuação) constitui princípio fundamental da secular-ização16, a eleição de Hugo de Semur, em 22 de Fevereiro de 1049,

para Abade de Cluny, fora dos binários da tradição clunicense, é certamente momento determinante da história europeia, ao exceder já a respublicae christiana e indicar o gradual surgir de um novo tipo de organização e associação humanas17. Ou seja, o homem

medieval passou a assimilar os seus factores essenciais numa visão positiva dosaeculum, ainda provido de um poder constituído: um poder que administra, legisla, julga e tributa em nome de um com-plexo de normas, as quais, justamente porque pertinentes aostatus rei publicae, são de direito público (res), não de direito privado (persone)18, factores esses pois de ordem política e que, ao

afir-marem articuladamente uma jurisdição, entram especificamente no conceito moderno desoberania19.

Aduzir-se-á, em sentido oposto, que apenas é possível falar de soberania onde há Estado, o qual só aparecerá nos séculos XV-XVI, pelo que, por idêntico motivo, a soberania é criação da mo-dernidade. Mas a fortuna dos conceitos resulta sempre de um processo de justificação (forçosamente prévio) por meio do qual eles (os conceitos) vão constituindo o seu próprio referente. É o que sucede igualmente com os conceitos de Estado, soberania,

16 Veja-se Germani, Gino, «Democrazia e autoritarismo nella società

mo-derna», inStoria contemporânea, XI, 2 (1980), p. 187.

17 Veja-se D’Entrèves, Alessandro P.,La dottrina dello Stato. Elementi di

analisi e di interpretazione, Torino, Giappichelli, 1962, pp. 141-139.

18Veja-se D’Entrèves, Alessandro P.,La dottrina dello Stato. . . , p. 138. 19Veja-se também Kritsch, Raquel,Soberania: a construção de um conceito,

São Paulo, Humanitas, 2002, p. 46.

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poder, laicidade/secularização, República. . . , conceitos sobre os quais vão colocando os pés as primeiras políticas modernas20.

Na verdade, a oposição à tese da «revolução aristotélica» (com a qual a secularização verdadeiramente começara), a favor de uma interpretação mais gradativa dos processos mediante os quais o Ocidente encontrou as ideias políticas e morais de Aristóteles, é hoje ponto assente. Os estudos historiográficos mostram que, cerca de 150 anos antes da tradução integral daÉtica a Nicómaco(1250), eram já amplamente conhecidos os aspectos essenciais da filosofia moral de Aristóteles – incluindo a sua noção da ética como filosofia prática (tripartição das ciências). Por outro lado, o naturalismo político, associado ao poder transformador da Política(disponível integralmente em 1260), encontra igualmente origens privilegiadas em autores latinos (Cícero, Séneca, Lactâncio, Macróbio. . . ) – cu-jas obras oferecem considerações apreciáveis sobre as origens na-turais das associações políticas humanas. Pode mesmo dizer-se que o naturalismo aristotélico serviu mais para completar do que para suplantar tradições do pensamento preexistentes21.

Historicamente, a tese de Tácito, segundo a qual o poder pro-vém do povo (i.e., da comunidade organizada dos cidadãos), é apoiada correntemente na Idade Média, contrastando com uma no-ção exclusivamente religiosa de Estado. Especialmente a partir de meados do século XI (recorde-se o progresso da jurisprudência), é possível identificar uma plêiade de termos, correlatos de político,

20Sobre isso pode ver-se: Kantorowicz, Ernest H.,The King’s Two Bodies...,

pp. viii-vi. Sobre as origens da noção de Estado (do rei à «Coroa» e ao «Es-tado»); Guenée, Bernard,L’Occident aux XIVe et XVe siècles. Les Etats, Paris, Puf, 1971; Dunbabin, Jean, «Governement», in J. H. Burns (ed.),Medieval Po-litical Thought c. 350-c. 1450, Cambridge University Press, 1991, pp. 477-519.

21Sobre as origens e características do pensamento político até ao século XII,

pode ver-se: Nederman, Cary J., «Aristotelianism and the origins of Political Science in the twelfth century», inJournal of the History of Ideas, 52 (1991), pp. 180-181; David E. Luscombe, «Introduction: the formation of political thought in the west», in J. H. Bruns (ed.), Medieval Political Thought c. 350-1450, Cambridge University Press, 1988, pp. 169-173.

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e, bem assim, da génese do Estado, de que o homem medieval se servia, quer ao indicar o «governo» (por exemplo,gubernatio, gu-bernaculum, gubernator) quer a «jurisdição» (jus dicere), fruto da actividade legislativa22. O político é ainda e claramente um corpo

próprio do conhecimento, tal como a teologia e a jurisprudência. João de Salisbúria, Hugo de São Vítor, Guilherme de Conches e Dominicus Gundosalvi, entre muitos outros, abraçam essa perspec-tiva, pelo que, como o sublinha Niderman, é preciso rejeitar a ideia do papel «revolucionário» da Política e compreender que o pro-cesso de transmissão e difusão das ideias aristotélicas ocorre lenta e gradualmente23.

Importa menos, pois, a ausência de um conceito moderno de Estado do que o gradual surgir de uma noção quedessesempre se aproxima mais. Deste modo e por isso mesmo, também a noção de Estado possui profundas raízes teológico-políticas.

Com efeito, sendo certo que a palavrastatusnão assume, pri-mordialmente, um sentido social/político, deve, contudo, acrescen-tar-se que, em toda a época medieval – e desde o Baixo Império –, se fala dostatus reipublicae, status imperii, status regni; no século XII, começa também a falar-se do status regis, de onde se induz facilmente esse sentidopolítico. João de Salisbúria, por exemplo, referir-se-á ao Estado tanto como «corpo político» (corpus reipu-blicae) como «corpo da justiça» (corpus justitiae)24, ao vincar uma

teoria orgânica da ordem secular; motivo esse por que, ainda sem

22Veja-se Ullman, Walter,Il pensiero politico del Medioevo, trad., Bari, 1984,

p. 4.

23 Veja-se Nederman, Cary J., «Aristotelianism and the origins of Political

Science. . . », pp. 182 ss.

24João de Salisbúria (Ionnis Saresberiensis),Polycraticus, Sive De Nugis

Cu-rialium Et vestigiis, Lib. III, cap. 15 (PL; 199, p. 512): «Et cum multa sint crimina majestatis, nullum gravius est eo, quod adversum ipsumcorpus justitiae

exercetur.» Lib. V, cap. 2, p. 540 : «Est ergo primum omnium, ut princeps se to-tum metiatur, et quod in totocorpore Reipublicae, cujus vice fruatur, dilingenter adversat.» (Itálico nosso).

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instituir o nome, H. Berman e G. Post, por exemplo, vêem no filó-sofo inglês o criador da ciência política ocidental25.

De facto, no texto significativamente intitulado Policraticus

(escrito justamente por desaprovar o comportamento do rei Hen-rique II e da sua corte), Salisbúria dedica particular atenção à le-gitimação do poder civil (i.e., a autoridade política), que ele traduz sempre em função da lei, e que o leva a distinguir o príncipe do tirano. O príncipe, isto é, o «poder público», cuja autoridade de-pende da «autoridade do direito»; mas que, embora se declare vin-culado às leis, está livre dos vínculos da lei, para assim promover a justiça e o bem-estar da coisa pública, antepondo em todas as circunstâncias o «bem comum» à sua própria vontade. Ou seja, o príncipe (a autoridade política suprema) está ao mesmo tempo den-tro e fora das obrigações jurídicas26. Assim, o termo «príncipe»,

segundo João de Salisbúria, provê de algum modo o que os autores dos séculos seguintes designariam como sendo o Estado27.

A grande importância que para Salisbúria representa a lei leva-o a interrleva-ogar-se nleva-o que pleva-oderíamleva-os chamar a cruzada em defesa do bom governante. A autoridade política depende da lei, que deve viver submetida à justiça. Recordando o Códigode Justiniano, a justiça é um acordo das coisas, que as equipara todas segundo a razão e reclama regras análogas para situações análogas, imparcial

25Veja-se Berman, J. Harold,Law and Revolution. . . pp. 276 ss; Post, Gaines,

Studies in Medieval Legal Thought. Public Law and the State, 1100-1322, New Jersey, The Lawbook Exchange, 2006, pp. 253 ss. Note-se que já no século XVIII Joannes Albertus Fabricius considerara o Policraticuscomo o primeiro grande tratado de ciência política (Bibliotheca Latina mediae et infimae aetatis, VI, 131).

26 João de Salisbúria,Polycraticus, Lib. IV, cap. 2, p. 515: «Omnes itaque

necessitate legis servandae necessitate tenentur astricti, nisi forte aliquis sit, cui iniquitatis licentia videatur indulta. Princeps tamen legis nexibus dicitur absolu-tus, non quia ei iniqua is esse debet, qui non timore poenae, seda more justitae aequitatem colat, reipublicae procuret utilitatem, et in omnibus aliorum com-moda privatae praeferat voluntati».

27Veja-se Berman, J. Harold,Law and Revolution. . . p. 280.

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ante todos ao atribuir a cada um o que é seu. A lei é a sua intérprete, pois ela conhece a vontade da equidade e da justiça28. Face à tirania

que persevera não há alternativa que não a morte. O tirano pode e deve morrer29.

Sublinha Salisbúria, por e para benefício da lei o príncipe rei-vindica para si o primado na direcção da coisa pública; e o príncipe está acima de todos os outros porque, enquanto estes se ocupam de actos particulares, ele preocupa-se com o bem particular e comum, visando a melhor forma de disposição da comunidade humana, de que todos são membros30.

Neste exacto contexto, o príncipe (i.e., o rei, o imperador ou qualquer outro legislador/governante respeitador da lei, pois repre-senta-se nele o conceito geral de ordem política)31, aparece

defini-28João de Salisbúria,Polycraticus, Lib. IV, cap. 2, p. 514: «Porro aequitas, ut

jurisperit asserunt, rerum convenientia est, qua cuncta coaequiparat ratione, et in paribus rebus paria jura desiderat, in omnes aequabilis, tribuens unicuique quod suum est. Lex vero ejus interpres est, utpote cui aequitatis est justitiae voluntas innotuit.»

29 João de Salisbúria, Polycraticus, Lib. III, cap. 15, p. 512: «Unde et in

saecularibus litteris cautum est, quia aliter cum amico, aliter vivendum est cum tyranno. Amico utique adulari non licet, sed aures tyranni mulcere licitum est. Ei namque licet adulari, quem licet occidere. Porro tyrannum occidere non modo licitum est, sed aequum et justum.»

30João de Salisbúria,Polycraticus, Lib. IV, cap. 1, p. 513: «Est ergo tyranni

et principis haec differentia sola, quod hic legi obtemperat, et ejus arbitrio pop-ulum regit, cujus se credit ministrum, et in reipublicae muneribus exercendis, et oneribus subeundis, legis beneficio sibiprimum vindicat locum, in eoque prae-fertur caeteris, quod cum singuli teneantur ad singula, principi onera imminenet universa. Unde merito in eum omnium subditorum potestas confertur, ut in utili-tate singolorum et omnium exquirenda et facienda, sibi ipse sufficiat, et humanae reipublicae status optime disponatur, dum sunt alter alterirus membra».

31 João de Salisbúria, Polycraticus, Lib. IV, cap. 1, p. 513: «Est ergo, ut

eum plerique definiunt, princeps potestas publica[. . . ] Quia de juris auctori-tate principis pendet auctoritas; et reverá majus império est, submittere legibus principatum; ut nihil sibi princeps licere opinetur, quod a justitae aequitate dis-cordet».

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do explicitamente como «o poder público»32; organicamente, o

príncipe é como «a cabeça» à qual estão sujeita os demais mem-bros do corpo: a saúde do corpo depende do bom estado (status) da coisa pública (res publica). O príncipe não pode opor-se à justiça precisamente por ser «príncipe do bem comum»33.

João de Salisbúria não está simplesmente a repetir o que a pa-trística ou a antiguidade disseram. Ao admitir simultaneamente a unidade e a natureza contraditória de dois tipos de governo, Salis-búria assume aí uma posição bem mais complexa do que as prece-dentes mas também cheia de consequências para o que haveria de designar-se como ciência política34. Sente bem a antinomia que

e-xiste entre as máximasprinceps legibus solutuseprinceps legibus alligatus; mas, ao defender que o príncipe deveria ser ao mesmo tempo umaimago aequitatise umservus aequitatus, ele diz «qual-quer coisa de novo»; conduz a uma era em que a questão dos direi-tos e dos deveres do príncipe tende a substituir a vexata quaestio

dos dois gládios35.

Certamente um olhar retrospectivo valorizará política e positi-vamente a distinção entre o governo que respeita e faz uso da lei e o governo que faz simplesmente uso da força e considera como lícito o que se afasta da equidade e da justiça36. Com efeito, para

João de Salisbúria, a tirania é um crime de majestade, a ponto de se justificar o tiranicídio. As leis do tirano (que também é ministro de Deus), tal como as leis do príncipe que respeita a lei, devem ser obedecidas, pois a vontade de Deus também se cumpre através de leis más. Deus serve-se da nossa falsidade para realizar o bem

32João de Salisbúria,Polycraticus, Lib. III, cap. 14, p. 511: «Unde et publico

jure statutum est, ne pro verbis frivolis, quisquam severitate poenarum inuratur».

33João de Salisbúria,Polycraticus, Lib. IV, cap. 2, pp. 514-515. 34Veja-se Berman, J. Harold,Law and Revolution. . . p. 282.

35 Sobre isso veja-se: Berman, J. Harold, Law and Revolution. . . .pp. 279

ss; Kantorowicz, Ernest H., «Kingship and the Impact of Scientific Jurispru-dence». . . ., pp. 96 ss.

36João de Salisbúria,Polycraticus, Lib. IV, cap. 1, p. 513.

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que quer. É por isso que, embora nada haja de mais detestável do que a tirania, é melhor o governo de um tirano do que governo nenhum37. Contudo, há certas coisas tão perniciosas para todo o

corpo da república terrena que justificam a oposição e a própria morte do tirano38.

Se todo o poder vem de Deus a vontade divina não anula uma certa esfera individual, que Salisbúria justamente reconhece ao afir-mar que a vontade humana não pode ser informe, indeterminada, arbitrária, como seria se o homem não pudessepreferir o melhor ao pior.

Com efeito, certas coisas são tão graves que nenhum governo pode justificá-las ou torná-las permissíveis. Por exemplo, se um chefe militar ordenar a um soldado que renegue Deus ou cometa adultério, ele deve recusar. Se o príncipe se opõe a Deus e me chamar a partilhar a sua guerra contra Deus, eu devo recusar e preferir Deus. Todo o poder é bom porque provem de Deus, por quem existem todas as coisas e de quem procede todo o bem. Mas, ao mesmo tempo, esse poder por vezes não é bom, é mesmo mau para aquele que o exerce ou para aquele contra quem se exerce. Mais, se o poder cair nas mãos de um ignorante, ele (o poder)

37João de Salisbúria,Polycraticus, Lib. VIII, cap. 18, pp. 785-788.

38Sobre o tiranicídio em João de Salisbúria, veja-se (entre outros): Turchetti,

Mario,Tyrannie et tyrannicide de l’Antiquité à nous jours, Paris, Puf, 2001, pp. 251-256; Nederman, Cary J., «A Duty of Kill: John of Salisbury’s Theory of tyrannicide»,The Review of Politics, 50 (1988), pp. 365-389.

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torna-se temporalmente gravoso39. Nada há de pior do que um

príncipe ignorante do direito (asinus coronatus)40.

Por outras palavras, João de Salisbúria ao distinguir entre o governo pela lei e o governo pela força, certamente reflectindo as realidades políticas contraditórias da sua época (embora jamais as especifique)41, teoriza dilemas que se perpetuam e sobretudo

per-mitem perpetuar o poder e o direito; simultaneamente, faz como que uma diagnose prognóstica face aos novos estados seculares, que iriam emergir: é a lei que é factor de unidade/soberania e não o poder, que é temporário por definição.

Cremos, assim, que se é verdade que não podemos falar do problema da soberania na Idade Média da mesma forma como o fazemos em autores modernos (como Bodin ou Hobbes. . . ), é também verdade que, no dealbar do Baixo Medievo (vemos aqui a protomodernidade), as questões crescentes acerca das relações internas e ‘visíveis’ da Igreja com o mundo vão repercutindo um

39 João de Salisbúria,Polycraticus, Lib. VIII, cap. 18, pp. 785-786:

«Om-nis autem potestas Bona, quoniam ab eo est, a quo solo, omnia, et sola sunt bona. Utendi tamen interdum bona non est, aut patienti, sed mala, licet quoad universitatem sit Bona, illo faciente qui bene utitur malis nostris. Sicut enim in pictura fuscus aut niger color, aut aliquis alius per se consideratus, indecens est, et tamen in tota picture decet: sic per se quaedam inspectus, indecora et mala, relata ad universitatem, bona apparent et pulchra, eo omnia sibi adaptante, cujus omnia opera valde sunt bona. Ergo et tyranni potestas Bona quidem est, tyran-nide tamen nihil est pejus. Est enim tyrannis, a Deo concesse homini potestatis abusus. In hoc tamen malo, multus, et magnus est bonorum usus [. . . ] Porro si potestas accedat sapient, qui rerum omnium novit et habet usum, omnibus bonis grata est, et omnibus utilis. Si vero cadat in insipientem, etsi bonis quibus, omnia cooperantur in bonum, mala esse non possit, molesta tamen ad modicumtempo-ris est».

40 João de Salisbúria,Polycraticus, Lib. IV, cap. 6, p.522: «[. . . ] quia rex

illeteratus est quasi asinus coronatus.»

41O filósofo inglês evita claramente referir nomes, talvez em virtude das suas

relações pessoais com as figuras mais influentes do seu tempo, papas e antipa-pas, reis e tiranos. . . Sobre isso, veja-se: Berman, J. Harold,Law and Revolu-tion. . . .pp. 283 ss.

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Origens teológicas do conceito moderno de soberania 17

âmbito caracteristicamente político (recorde-se que o primeiro Es-tado no Ocidente foi edificado justamente no ‘interior da Igreja’)42,

sendo de prever, nesse processo de modificação progressiva da arte política, o exercício do poder secular em contextos sucessivamente mais restritos, jurisdicionalmente falando. Aliás, a própria noção de regnumsofreria uma alteração semântica, ao passar a designar o âmbito territorial de exercício da autoridade política, e não mais o acto de governo dorex43. Do mesmo modo, o âmbito dapotestas

política começara a dissociar-se da pessoa do detentor, para indicar uma função de governo ou de exercício da jurisdição nesse sentido mais abstracto e geral (i.e., representacional).

Como reconheceria Boaventura, os esquemas do agir humano escondem sempre coordenadas culturais, que sobredeterminam a simples possibilidade de pensar. Ora, também muito antes de se formarem os Estados territoriais modernos, é possível captar teo-logicamente o referente do conceito moderno de soberania, que, assim, se vai consumando previamente, com o gradual concurso da jurisprudência científica: modificados os esquemas da linguagem política, modifica-se também a própria ideia de política, que se ex-pressava comoplenitudo potestatis, summa potestas, etc.

42 A revolução de Gregório VII gerou o Estado moderno ocidental, do qual

a Igreja foi, paradoxalmente, o primeiro exemplo; o pontífice, ao fazer renascer o direito como fonte de autoridade, tornou a Igreja uma entidade visível e inde-pendente (dotada dos poderes legislativo, administrativo e jurisdicional). Veja-se: Cf. Berman, J. Harold,Law and Revolution. . . pp. 113 ss. Veja-se também o nosso estudo, Rocha Martins, A., «A posição de Anselmo face ao uso do poder civil»,Philosophica, 34 (2010), pp. 371-386.

43 Cf. Rizzi, Marco, Cesare e Dio. Potere spirituale e potere secolare in

Occidente, Bologna, Il Mulino, 2009, p. 173.

Referências

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