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0 GENIAL ATOR DA SALA DE AULA

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Academic year: 2019

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MALBA TAHAN

0 GENI AL ATOR DA SALA DE AULA

Júlio César de Mello e Souza nasceu há cem anos e celebrizou- se com o Malba Tahan. Foi um caso raro de professor que ficou quase tão fam oso quanto um craque do futebol. Em classe, lem brava um at or em penhado em cativar a platéia. Escolheu a m ais tem ida das disciplinas, a Matem át ica .Criou um a didática própria e divertida, até hoj e viva e respeitada. Ainda está para nascer outro igual.

Exím io contador de hist órias, o escritor árabe Malba Tahan nasceu em 1885 na aldeia de Muzalit , Península Arábica, perto da cidade de Meca, um dos lugares santos da religião m uçulm ana, o islam ism o. A convite do em ir Abd el- Azziz ben I brahim , assum iu o cargo de queim açã ( prefeito) da cidade árabe de El- Medina. Estudou no Cairo e em Const ant inopla. Aos 27 anos, recebeu grande herança do pai e iniciou um a longa viagem pelo Japão, Rússia e Í ndia. Morreu em 1921, lutando pela libert ação de um a t ribo na Arábia Cent ral.

A m elhor prova de que Malba Tahan foi um m agnífico criador de enredos é a própria biografia de Malba Tahan. Na verdade, esse personagem das areias do desert o nunca exist iu. Foi inventando por outro Malba Tahan, que de certo m odo tam bém não existiu efetivam ente: tratava- se apenas do nom e de fantasia, o pseudônim o, sob o qual assinava suas obras o genial professor, educador, pedagogo, escritor e conferencista brasileiro Júlio César de Mello e Souza. Na vida real, Júlio nunca viu um a caravana at ravessar um deserto. As areias m ais quentes que pisou foram as das praias do Rio de Janeiro, onde nasceu em 6 de m aio de 1895. Júlio César era assim , um tipo possuído por incontrolável im aginação. Precisava apenas inventar um pseudônim o, m as aproveit ava a ocasião e criava um personagem int eiro.

Pr oble m a s da s 1 0 0 1 N oit e s

Malba Tahan e Júlio César form aram um a dupla de criação que produziu 69 livros de contos e 51 de Matem ática. Mais de dois m ilhões de exem plares j á foram vendidos. A obra m ais fam osa, O Hom em que Calculava, está na 38e edição.

Com o seu pseudônim o, Júlio César propunha problem as de Arit m ét ica e Álgebra com a m esm a leveza e encanto dos contos das Mil e Um a Noites. Com sua ident idade real, foi um criat ivo e ousado professor, que estava m uito além do ensino exclusivam ente teórico e expositivo da sua época, do qual foi um feroz crítico. "O professor de Matem ática em geral é um sádico", acusava. "Ele sente prazer em com plicar tudo."

Um su ce sso fe it o de t r a ba lho dur o, la n ce s de e spe r t e za e m u it a im a gina çã o

Um dos m aiores incentivadores da carreira de Júlio César de Mello e Souza foi o seu pai, João de Deus de Mello e Souza. Ou, explicando m elhor, a m odesta m esada que seu pai lhe dava nos tem pos de colégio. Funcionário do Minist ério da Justiça e com um a escadinha de oito filhos para criar, João de Deus não podia fazer m ilagres. O dinheiro era cont adinho. Para com prar um a barra de chocolate, por exem plo, o j ovem Júlio César econom izava na condução durante o final de sem ana.

Re da çõe s pa r a ve nde r

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episódio, para cada t em a lançado pelo professor, o criat ivo Júlio César fazia quat ro, cinco redações e as vendia a 400 réis cada.

As fum aças do gênio j á com eçavam a desenhar o futuro Malba Tahan. A fam ília j á conhecia seu gosto pela lit erat ura, m as t inha suas dúvidas: .. "Quando com punha um a historieta, era certo o Júlio criar personagens em excesso, m uit os dos quais não tinham papel nenhum a desem penhar, dando- lhes nom es absurdos, com o Mardukbarian, Protocholóski, Orônsio", conta o irm ão m ais velho do escritor, João Batist a, no seu livro Meninos de Queluz, em que lem bra a sua infância e a de Júlio César em Queluz, interior de São Paulo.

Mais velho, Júlio César aprendeu a lidar com o descrédit o. Quando t inha 23 anos, e era colaborador do j ornal carioca O lm parcial, entregou a um editor cinco contos que escrevera. A [ papelada ficou j ogada vários dias sobre um a m esa da redação. Sem fazer nenhum com entário, Júlio César pegou o trabalho de volta. No dia seguinte, reapareceu no j ornal. Trazia os m esm os contos, m as com outra aut oria. Em vez de J.C. de Mello e Souza, assinava R.S. Slade, um fict ício escrit or am ericano. Entregou os contos novam ente ao editor, dizendo que acabara de traduzi- los e que faziam grande sucesso em Nova York. O prim eiro deles, A Vingança do Judeu, foi publicado j á no dia seguinte - e na prim eira página. Os outros quatro tiveram o m esm o destaque.

M a r e ch a l de pij a m a

Júlio César aprendeu a lição e decidiu que iria virar Malba Tahan. Nos sete anos seguint es, m ergulhou nos estudos sobre a cultura e a língua árabes. Em 1925, decidiu que estava preparado. Procurou o dono do j ornal carioca A Noit e, I rineu Marinho, fundador da em presa que se tornaria as at uais Organizações Globo. Marinho gost ou da idéia. Cont os de Mil e Um a Noit es foi o prim eiro de um a série de escrit os de Malba Tahan para o j ornal. Det alhist a, Júlio César providenciou at é m esm o um tradutor fictício. Os livros de Malba Tahan vinham sem pre com a "tradução e notas do prof. Breno Alencar Bianco".

Júlio César viveu sem se dar conta do pat rim ônio cult ural que const ruíra. Em um depoim ento ao Museu da I m agem e do Som , declarou- se profundam ente arrependido de não ter seguido a carreira m ilit ar, com o queria seu pai. "Eu est aria hoj e m arechal, calm am ente de pij am a, em casa", im aginava. "Não precisaria estar m e virando na vida."

O qu e M a lba fa z ia for a dos livr os e a u la s.

Desde m enino, Júlio César de Mello e Souza t inha suas m anias. Algum as com pletam ente m alucas, com o m anter um a coleção de sapos vivos. Quando vivia em Queluz, às m argens do Rio Paraíba do Sul, Júlio César chegou a j untar 50 sapos no quintal da sua casa. Um dos anim ais, o Monsenhor, costum ava acom panhá- lo, aos saltos, por suas andanças na região. Adult o, o professor Júlio César cont inuou a coleção, dessa vez com exem plares de m adeira, louça, m et al, j ade e crist al.

Outras preocupações eram bem m ais sérias. Ele sem pre se entregou de corpo e alm a à causa das vítim as da lepra, os hansenianos. De cabeça aberta e sem preconceit os, Júlio César de Mello e Souza edit ou durant e 10 anos a revist a Dam ião, que pregava o reaj ustam ento social desses doentes. A dedicação de Júlio César era tão grande que, no seu testam ento, pediu que lessem , à beira do seu túm ulo, um a últim a m ensagem de solidariedade aos hansenianos.

M UD AN ÇA N A I D EN TI D AD E

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Um pr ofe ssor qu e a nda va m uit o m a is r á pido do qu e o se u t e m po

Malba Tahan, o gênio da Mat em át ica, foi um desastre com pleto nos núm eros quando era o aluno Júlio César de Mello e Souza, do Colégio Pedro I I , no Rio. Nessa época, seu boletim registrou em verm elho um a nota dois, em um a sabatina de Álgebra, e raspou no cinco, em um a prova de Aritm ética.

Qual seria a causa de um desem penho tão fraco para alguém que viria a se apaixonar pela Matem ática? Com certeza, Júlio César não gostava da didática da época, que se resum ia a cansativas exposições orais. Mal- hum orado, classificou- a m ais t arde com o O "det est ável m ét odo da salivação".

Nas palestras que dava - foram m ais de 2000 ao longo da sua vida , nas aulas para norm alistas ou nos livros que escreveu, Júlio César defendia o uso dos j ogos n a s a u la s de M a t e m á t ica. Enquanto os outros professores usavam apenas o quadro- negro e a linguagem oral, ele recorria à criatividade, ao estudo dirigido e à m anipulação de obj etos. Suas aulas eram m ovim entadas e divertidas. Defendia a instalação de laboratórios de Matem ática em todas as escolas.

Se m ze r os e se m bom ba s

"Ele est ava m uit o além de seu t em po', afirm a o respeitado m at em ático e professor paulista Antônio José Lopes Bigode, autoridade em Malba Tahan. "O resgate da sua didática pode revolucionar o ensino", acredita. "Ainda hoj e, o ensino tradicional da Matem ática é responsável por m etade das repetências."

Em sala de aula, Júlio César não dava zeros, nem reprovava. "Por que dar zero, se há t ant os núm eros?", dizia. "Dar zero é um a tolice: ' O professor encarregava os m elhores da turm a de aj udar os m ais fracos. "Em j unho, j ulho, est avam todos na m édia', garant iu no depoim ento ao Museu da I m agem e do Som .

"Hoj e, as at ividades lúdicas são m uit o valorizadas, m as naquela época eram vistas com o um a heresia", observa o professor de Matem ática Sérgio Lorenzato, de 58 anos, da Universidade Estadual de Cam pinas ( Unicam p) . Lorenzat o, que foi aluno de Júlio César, guarda com o um a relíquia o caderno que usou para anotar as aulas. "Ele dizia que o caderno tinha de refletir a vida do aluno", lem bra Lorenzato. "E estim ulava que colássem os em suas folhas gravuras, recortes de revistas e j ornais e até provas j á corrigidas."

Carism ático, Júlio César encantava os alunos. Mas nem todos se sentiam à vontade com a sua inform alidade. "Os t radicionalist as eram absolut am ent e contrários a Malba Tahan e ao seu interesse pelo cot idiano da Mat em át ica", explica o edit or de livros didát icos da edit ora Scipione, Valdem ar Vello.

Júlio César foi professor de Hist ória, Geografia e Física até dedicar- se à Matem ática. Sua fam a com o pedagogo se espalhou e ele era convidado para palest ras em t odo o país. A últ im a foi em Recife, no dia 18 de j unho de 1974, quando falou para norm alistas sobre a arte de contar histórias. De volta ao hotel, sentiu- se m al e m orreu, provavelm ente de enfarte.

Júlio César deixou inst ruções para seu enterro. Não queria que adotassem luto em sua hom enagem . Citando o com positor Noel Rosa, explicou o porquê: "Roupa preta é vaidade/ para quem se veste a rigor/ o m eu luto é a saudade/ e a saudade não tem cor".

Biogr a fia

Ju ve n t ude

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Janeiro para estudar. Cursou o Colégio Milit ar e o Colégio Pedro I I . A partir de 1913, passou a freqüentar o curso de Engenharia Civil da Escola Politécnica.

A ca r r e ir a de e scr it or

Em 1918, Júlio César passou a colaborar no j ornal O I m parcial, onde publicou seus prim eiros contos com o pseudônim o R. S. Slade. Nos anos seguintes, o j ovem escritor est udou a fundo todos os aspectos da cultura árabe e da oriental. Em 1925, propôs a I rineu Marinho, dono do j ornal carioca A Noite, um a série de “ contos de m il e um a noit es” . Surgia aí o escrit or fict ício Malba Tahan, que assinava os cont os que foram publicados com com ent ários do igualm ent e fict ício Prof. Breno de Alencar Bianco. Seu pseudônim o tornou- se tão fam oso que o então President e Getúlio Vargas concedeu um a perm issão para que o nom e aparecesse estam pado em sua carteira de identidade. Até o fim da vida, Júlio César escreveu e publicou livros de ficção, recreação e curiosidades m at em áticas, didáticos e sobre educação, com seu nom e verdadeiro ou com o ilustre pseudônim o.

A ca r r e ir a de pr ofe ssor

Paralelam ent e à carreira de escrit or, Júlio César dedicou- se ao m agistério. Graduou- se com o engenheiro civil na Escola Politécnica e com o professor na Escola Norm al. Deu aulas no Colégio Pedro I I e na Escola Norm al, lecionando diversas m atérias com o história, geografia e física, até se fixar no ensino de m atem ática. Ensinou t am bém no I nst it ut o de Educação e na Escola Nacional de Educação. Além das aulas, Júlio César proferiu m ais de 2000 palestras por todo o Brasil e em algum as localidades do exterior. Ficou célebre por sua técnica de contação de histórias e por sua atuação inovadora com o professor. Suas aulas eram agitadas e interessantes, sem pre repletas de curiosidades que atraiam a atenção dos estudantes.

Ou t r a s a t ivida de s

Júlio César foi um a enérgico m ilit ant e pela causa dos hanseníacos. Por m ais de 10 anos editou a revista Dam ião, que com batia o preconceito e apoiava a hum anização do tratam ento e a reincorporação dos ex- enferm os à vida social. Deixou, em seu testam ento, um a m ensagem de apoio aos hanseníacos para ser lida em seu funeral.

Fa le cim e nt o

Júlio César faleceu a 18 de j unho de 1974 de ataque cardíaco em seu quarto de hot el, após um a palest ra proferida no Recife. Deixou um a série de instruções para seu sepultam ento: além da m ensagem que devia ser lida, exigiu caixão de terceira classe, flores anônim as, nada de coroas, nada de luto nem discursos.

Biogr a fia de M a lba Ta h a n

Ao criar seu pseudônim o, Júlio César criou t am bém um personagem : Malba Tahan. Este escritor, cuj o nom e com pleto seria Ali Yezid I zz- Eddin I bn Salim Hank Malba Tahan, t eria nascido na aldeia de Muzalit , próxim o a Meca, a 6 de m aio de 1885. Teria feito seus estudos no Cairo ( Egito) e I stam bul ( Turquia) . Após a m orte de seu pai, teria recebido vultosa herança e viaj ado pela China, Japão, Rússia e Í ndia, onde teria observado e aprendido os cost um es e lendas desses povos. Teria estado, por um tem po, vivendo no Brasil. Teria m orrido em batalha em 1921 na Arábia Cent ral, lut ando pela liberdade de um a m inoria local.[ 5] Seus livros t eriam sido escritos originalm ente em árabe e traduzidos para o português pelo tam bém fictício Professor Breno Alencar Bianco.

Obr a

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tendo publicado com seu nom e verdadeiro ou sob pseudônim o. Abaixo, um a lista de seus t ít ulos m ais relevant es:

1. Cont os de Malba Tahan ( cont os) 2. Am or de Beduíno ( contos) 3. Lendas do Deserto ( contos) 4. Lendas do Oásis ( contos)

5. Lendas do Céu e da Terra ( cont os) 6. Maktub! ( cont os)

7. Minha Vida Querida ( cont os)

8. O Hom em que Calculava ( rom ance)

9. Mat em át ica Divert ida e Delirante ( recreação m atem ática) 10. A Arte de Ler e Contar Histórias ( educação)

11. Aventuras do Rei Baribê ( rom ance) 12. A Som bra do Arco- Í ris ( rom ance) 13. A Caixa do Futuro ( rom ance) 14. O Céu de Allah ( cont os)

15. Lendas do Povo de Deus ( cont os) 16. Mil Hist órias Sem Fim ( cont os)

17. Matem ática Divertida e Curiosa ( recreação m atem ática) 18. Novas Lendas Orientais ( contos)

19. Salim , o Mágico ( rom ance)

20. Diabruras da Matem ática ( recreação m atem ática)

Bibliografia: Adaptado da Revista Nova Escola (Setembro 1995 )

Reportagem: Luiza Villamea

Referências

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