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O valor da língua informal

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Academic year: 2018

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(1)

o

VALOR DA LINGUA INFORMAL

xwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Aimberê Botelho do Amara}!

RESUMO

cbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

E s t e t r a b a l h o a s s e g u r a q u e e x i s t e u m a l í n g u a

i n fo r m a l e m o p o s i ç ã o a u m a l í n g u a o fi c i a l , a l í n g u a

d o establishment, a l í n g u a d o s g r a m á t i c o s , e q u e e s t a l í n g u a i n fo r m a l é c l a r a m e n t e d i s c r i m i n a d a p e l a s e l i t e s .

E l e p r o p õ e , p o r t a n t o , q u e e s t e p r e c o n c e i t o p o d e r i a

m u i t o b e m s e r v e n c i d o n o i n t e r e s s e n ã o a p e n a s e m s e

e q u i p a r o p r o fe s s o r c o m u m a v a l i o s i s s i m a fe r r a m e n t a ,

m a s t a m b é m n o i n t e r e s s e d e p r o m o v e r u m a m e l h o r

r e l a ç ã o e n t r e a s p e s s o a s . U m a b r e v e p e s q u i s a d e

a u t o r e s c o m o L a b o v , C h o m s k y , W h o r f e M a r x é

r e a l i z a d a a fi m d e s e e s t a b e l e c e r a b a s e p a r a a p r o p o s t a

d e q u e a l í n g u a i n fo r m a l n ã o é m e r a m e n t e u m a fo r m a

d e g e n e r a d a , m a s u m m e i o a l t a m e n t e c o m p l e x o d e

e x p r e s s ã o p o p u l a r .

HGFEDCBA

O t r a b a l h o a n a l i s a , e n t ã o , a s p e c t o s s o c i a i s n o N o r d e s t e d o B r a s i l c o m o fa t o r e s d e t e r

-m i n a n t e s d a e x i s t ê n c i a d e u m fo r t e e a t r a t i v o v e r n á c u l o .

ABSTRACT

This paper asserts that there is an informallanguage as opposed to the official language ofthe establishment

and grammarians, and that this informal language is

learly discriminated by the elite. It propounds then that

this bias could well be overcome in the interest not only of equipping the teacher with an invaluable tool but also . the interest of improving relations between persons.

A brief survey of authors such as Labov, Chomsky,

110rf and M arx is carried out in order to establish the

asis for the proposition that the informal language is

ot merely a degenerated form but a highly complex

edium of popular expression. The paper analyses then

social aspects in the Northeast of Brazil as shaping

agents of a very strong and attractive vernacular.

do em Letras, Língua Inglesa, UECE.

F

1

O PRECONCEITO

Recentemente num programa de rádio, uma

ilustre professora, autora de livros infantis, ao ser

perguntada se tinha uma preocupação sobre a linguagem utilizada em sua obra, respondeu que procurava sempre

usar a "língua correta, nossa língua portuguesa que é

tão bonita". A língua "correta", neste caso, é a língua

formal, a língua do "establishment", a língua das

gramáticas. Este tipo de resposta, dada por um leigo, é

até compreensível, mas quando se trata de um

profissional envolvido em atividades educativas,

toma-se extremamente preocupante.

Na verdade, este caso ilustra não só a ignorância

mas também a existência de um preconceito muito

comum, profundamente enraizado entre as pessoas.

Poderíamos aqui listar dezenas de exemplos

seme-lhantes, pois não há quem, em sua vivência, não tenha observado este tipo de argumento, ou seja, de que existe realmente uma língua correta em oposição a uma língua incorreta.

Este trabalho busca, pois, examinar este

preconceito, buscando estabelecer suas origens e indicar

as instâncias em que a dicotomia língua formal/língua

informal, e não língua correta/língua incorreta, pode ser

explorada em benefício não só da comunicação, mas

também do exercício da cidadania e da tolerância. Desde

logo, convém estabelecermos que não trataremos aqui

de desmontar ou desclassificar a língua formal ou, de

algum modo, descartar a sua importância. Não há como

se negar que a sua existência é perfeitamente aceita

como elemento de normatização do processo

comunicativo, estabelecendo a ordem necessária em

meio a tão rica diversidade.

O reconhecimento da existência de uma língua

informal, correta e perfeitamente aceita ainda encontra

muita resistência, mesmo no mundo acadêmico. No

E d u c a ç ã o e m D e b a t e - F o r t a le z a -

m o

1 9 · N " 3 4 . 1 9 9 7 - p.5 - 1 2

Is

~

(2)

de um vernáculo negro, mas passa um entusiasmado

aval de sua eficiência:

cbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

T h e v e r n a c u l a r u s e d b y w o r k i n g - c l a s s s p e a k e r s s e e m s t o h a v e a d i s t i n c t a d v a n t a g e o v e r m o r e e d u c a t e d s t y l e s . W e h a v e n o t b e e n c o m p a r i n g b l a c k a n d w h i t e v e r n a c u l a r s ; b u t i n t h i s r e s p e c t , i t s h o u l d b e c l e a r t h a t t h e b l a c k v e r n a c u l a r i s t h e v e h i c l e o f c o m m u n i c a t i o n u s e d b y s o m e o f t h e m o s t t a l e n t e d a n d e ffe c t i v e s p e a k e r s o f t h e E n g l i s h l a n g u a g e .

A capacidade de penetração dessas idéias já

se faz sentir entre pensadores locais como bem ilustra a

citação abaixo retirada de um artigo 2 de Gilmar de

Carvalho, pesquisador da cultura popular:

E s s a p o é t i c a , e n q u a n t o m a n i fe s t a ç ã o d a s

c a m a d a s s u b a l t e r n a s , n ã o s e

ONMLKJIHGFEDCBA

f o s s iliz a n e m s e d e i x a d o m e s t i c a r , e m a n t é m a s o b r e

-v i d a , a p e s a r d e t u d o , n a r e i n v e n ç ã o e s o n o r i d a d e d a fa l a o u n o j a t o d e s p r a y d o sp i c h a d o r e s q u e i n s c r e v e m e m n o s s o s m u r o s u m a c a l i g r a fi a i n d e c i fr á v e l d o s a n s e i o s e fa l t a d e p e r s p e c t i v a d o s j o v e n s d a p e r i fe r i a , v i s u a l m e n t e p o é t i c a e m s e u e s t r a n h a m e n t o i n i c i á t i c o .

Outro autor que descobriu o apelo da língua

informal foi o jornalista José Simão, que publica a sua

famosa coluna em vários jornais do país. Em entrevista

concedida ao jornal OP o v o , ao ser perguntado sobre o

uso de uma linguagem "debochada" que a entrevistadora fez questão de frisar, opõe-se ao português correto [sic],

ele respondeu ficando bem claro o seu objetivo, mas

deixando escapar também um certo preconceito:

M a s é fe i t o d e p r o p ó s i t o . N ã o é q u e e u e s c r e v a e r r a d o . O q u e e u q u e r o c o l o c a r n a c o l u n a é u m a l i n g u a g e m fa l a d a , c o m o s e fo s s e u m p r o g r a m a d e

2 Poéticas Populares, publicada pelo jornal OP o v o , Caderno Vida e Arte, em 27/9/97

3 Publicada pelo jornal O Povo, Caderno Vida e Arte, em 2/1 0/97

HGFEDCBA

6 ] E d u c a ç ã o e m D e b a t e - F o r t a le z a - A N O J9 - N ° 3 4 - J9 9 7 - p.5 -J2

As grandes criações estilísticas, praticamente

reinventado a linguagem, que encontramos nas obras

de João Guimarães Rosa e James Joyce, para citar dois notáveis, atestam a sintonia obtida por estes autores entre a língua formal e a língua informal. Ao mesmo tempo que mantêm o rigor da linguagem formal, eles vão buscar

na língua informal os elementos vitais ao processo

criativo. Assim é que encontramos em suas obras

vocabulário, expressões e técnicas de discurso próprios

do falar do povo que, se não se apresentam claramente

registrados, estão presentes na circunvolução dos seus

processos criativos.

O lado inconsciente, a busca no grande

reservatório genético onde se origina a linguagem, pode

ser sentido no processo criativo quando os autores,

lembrando que são citados aqui como exemplo, mas

que muitos outros podem passar o mesmo atestado,

deixam rolar livremente a pena, a mão, o teclado, na

busca de registrar os processos mentais dos personagens

através do que se convencionou chamar de "stream of

consciousness" .

Z

GENERALIDADES

Neste ponto, a fim de estabelecermos mais um

elo com os tipos de preconceito mais comum ente

associados à língua, analisaremos o conflito existente

entre o falar e o pensar, exposto por W horf em um

importante artigo intitulado "Science and Lingusistics".

Este conflito, na análise de W horf, se deve ao fato de todos terem o poder da linguagem e assumi-Ia sem outras

contestações. Além do mais, ele é agravado pelo fato

de a linguagem ser sentida como um "fait accompli",

impermeável àmudança. Claro que isto não é um simples

acidente: estas idéias equivocadas sobre o falar v e r s u s

pensar estão baseadas no senso comum que W horf

preferiu denominar de lógica natural.

A lógica natural estabelece que o falar lida

apenas com a comunicação e não com a formulação de

idéias que, para esta lógica, é um processo independente, separado do uso da linguagem.

W horfpropõe então que, contrário a este senso

comum ou lógica natural, as línguas são de fato

(3)

as línguas modelam as idéias. Ele prossegue para

mostrar que a lógica natural é um processo

precon-ceituoso de pensamento. Ele ilustra sua proposta com o exemplo de um povo hipotético que só podia ver a cor azul devido a um igualmente hipotético defeito fisiológico.

Neste caso eles só poderiam formular a regra de que

viam apenas o azul se, de algum modo, sobrepujando

este "handcap", pudessem ver outras cores, isto é, ter

uma base para comparação. Após ter, deste modo,

preparado o terreno, ele propõe frnalmente sua famosa hipótese de que a nossa língua determina o que somos, como percebemos a natureza, i.e., que nós "dissecamos a natureza de acordo com linhas estabelecidas pela nossa

língua nativa". Este determinismo assegura que não

somos livres "para descrever a natureza com absoluta

imparcialidade", que somos "constrangidos a certos

modos de interpretação". As línguas são, portanto, como

filtros através dos quais percebemos a natureza.

Uma avaliação crítica de W horf poderia seguir

exatamente na direção oposta, ou seja, que o mundo

tem existência independente e leis bem definidas e que

qualquer ser humano, se cientificamente treinado, vai

percebê-lo da mesma maneira. O primeiro homem que inventou a linguagem, fê-lo a partir de um modelo que já

se encontrava embutido em seu cérebro. Apesar da

existência deste processo inconsciente, as palavras que

ele criou e a ordem delas foram originadas como um

resultado de suas necessidades, seu meio ambiente e a

sua própria percepção limitada ou distorcida do mundo. A linguagem seria, portanto, o resultado das necessidades

de um certo povo que a cria de acordo com uma

capacidade limitada ou privilegiada a fim de se

comunicar.

A aceitação da existência de uma língua

informal, rica e produtiva, passa necessariamente pelo

conceito de universais lingüísticos tão brilhantemente

explorado por Chomsky quando expõe que a linguagem é inerente ao ser humano que, ao nascer, já traz consigo

um modelo, uma "tábula rasa" onde será inscrita a

língua , qualquer que seja ela,

HGFEDCBA

à qual será exposto.

Sentimos aqui a existência de processos instintivos,

geneticamente arraigados, que podem explicar a riqueza

criativa da língua informal. Chomsky chama este

modelo básico de construção lingüística de "universal

grammar". Uma língua é mais do que os fenômenos

superficiais de sons, palavras e ordenamento. Todas

as línguas partilham de uma outra estrutura mais

profunda composta de um conjunto limitado de

princípios de organização. Chomsky revolucionou o

estudo das estruturas das línguas com a sua teoria da

gramática transformacional gerativa. A idéia que

I

parece dominar a teoria de Chomsky é que existe um

conjunto comum de regras que governa um processo

inconsciente na formação de qualquer língua. As regras

desta gramática transformacional fornecem a geração

do número infinito de sentenças possíveis em qualquer

língua. Chomsky introduziu o importante conceito de

estrutura profunda e estrutura superficial. A estrutura

profunda é o plano básico da língua equivalente à

habilidade inconsciente do ser humano para produzir a

fala. A estrutura superficial inclui as diferentes formas que a língua toma, quando as regras transformacionais

são aplicadas à estrutura profunda. A estrutura

superficial ramifica-se da estrutura profunda.

Um registro entre a fala e a língua escrita

deve ser também feito aqui. Talvez porque a fala

seja mais antiga do que a escrita, a primeira seja

vista como inferiorizada ou sobrepujada pela

modernidade da escrita. O primeiro esforço de

comunicação humana veio diretamente na forma

falada. A escrita requer um alto grau de sofisticação

que nossos ancestrais, na luta diária para escapar

de seus inimigos naturais, os mais perigosos dentre

eles sendo os répteis com os quais uma batalha mortal

e definitiva foi travada, não poderiam possivelmente

ter. M as eles sabiam que poderiam produzir sons e

que era possível transmitir mensagens por meio

destas elocuções. As primeiras emissões foram, é

claro, cruas expressões de ira ou apreensão que,

eventualmente, desenvolveram-se nos belíssimos

sons da línguas que conhecemos hoje. Quando a fala

humana se originou é difícil precisar. Pode-se

especular que a fala se desenvolveu muito cedo na

evolução humana, cerca de 4 milhões de anos atrás.

A necessidade de transmitir mensagens rapidamente,

num mundo extremamente hostil, provavelmente

determinou a aparição da fala como um

desenvolvimento daquelas elocuções guturais.

Uma boa parte do que é dito acima confina-se

ao domínio da especulação, mas com respeito àescrita,

não há qualquer dúvida de que ela veio depois da fala.

E isto é fácil de ser inferido. É difícil imaginar-se seres

humanos, primitivos que fossem, sem o poder de produzir

sons, especialmente se formos particularmente atentos

na observação de outros animais, para notar que os feitos

vocais são habilidade quase universal entre os seres

vivos. A escrita, por outro lado, é uma representação

da fala. Uma invenção relativamente recente, a escrita

não tem mais do que 6000 anos de idade. Ela é

geralmente uma espécie de imitação visual da fonologia

de uma língua onde o mesmo número de unidades é

usado de acordo com os mesmos padrões de arranjo.

(4)

Independentemente de origem, posição social, avanço

tecnológico, a fala é uma presença constante em suas

vidas diárias. O uso da escrita, contudo, demanda um

certo grau de sofisticação de seus usuários, apesar da

existência de sistemas de escrita em sociedades muito

remotas e atrasadas. Estes sistemas eram, porém, muito insipientes, alguns deles desenhos grosseiros em pedras.

Para se usar um sistema de escrita é necessário

treinamento, enquanto se duas pessoas falam a mesma

língua, não importa qual seja a formação, experiência,

educação e personalidade delas, descobrirão uma

maneira de falar sobre qualquer coisa que desejem,

usando sentenças que nunca foram impressas. A

verdade é que os seres humanos adoram falar. Como

resultado, a fala tem uma clara vantagem sobre a escrita.

Para registrar a fala é necessário grande esforço e

trei-namento. A fala pode também transmitir uma ampla faixa de sentimentos humanos por meio de simples e imediatas variações em entonação. A escrita, por outro lado, é o

grande meio pelo qual os seres humanos registram a

fala, deste modo tornando possível que ela seja

preservada e passada para outros. Na atualidade, a

escrita se tornou um valioso instrumento no processo

comunicativo das várias culturas humanas. Uma das

principais dificuldades em se aprender uma outra língua,

e a principal fonte do aparecimento do sotaque, é

precisamente os sistemas escritos. A maioria das línguas

modernas usam aproximadamente o mesmo alfabeto.

Apesar de um alfabeto comum, as línguas diferem muito em valores fonéticos que cada símbolo recebe em cada língua.

O desenvolvimento da sociedade humana

como um todo tem lançado os sistemas de escrita para

uma posição de grande destaque. Uma crescente

comunidade de estudantes, professores, cientistas deve

recorrer

HGFEDCBA

à língua escrita para registrar suas

descobertas. Contudo, não se pode esquecer a riqueza,

criatividade e ritmo célere das línguas em suas formas

faladas como uma das grandes revelações do gênio

humano.

3

O ENFOQUE

IDEOLÓGICO

Dentre os argumentos utilizados para explicar a

rejeição à língua informal, sem dúvida, a questão

8 1

E d u c a ç ã o e m D e b a t e - F o r t a le z a - A N O 1 9 - N ° 3 4 - 1 9 9 7 - p.5 - 1 2

é bom para elas, especialmente no sentido de assegurar

para si o bem-estar, incluindo-se aí a boa alimentação, a

boa educação dos filhos, acesso aos bons serviços de

saúde e à prática de atividades relacionadas ao lazer.

Além disso, elas reconhecem também a importância da

atividade política como elemento de manutenção do

cbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

s t a t u s q u o .

Independentemente da resposta a estas

questões, uma certeza existe que é o sentimento de

superioridade das pessoas favorecidas pela educação

formal. M esmo uma pessoa de grandes posses

financeiras seria olhada com reserva, como é o caso de

novos ricos que não dominaram ainda a língua da classe

para a qual estão ascendendo. M esmo indivíduos com

formação superior, mas que mantêm hábitos provincianos no falar, serão vistos como inferiores. Tom W olfe, em seu livro "The Bonfire ofV anities", bem-humoradamente

registra este tipo de preconceito no desconforto do marido com o falar da mulher:

T h a t w a s a n o t h e r t h i n g . S i n c e t h e b a b y

n u r s e h a d a r r i v e d , K r a m m e r h a d a l s o

b e c o m e a c u t e l y a w a r e o f t h e w a y h i s

w i fe t a l k e d . H e h a d n e v e r n o t i c e d i t

b e fo r e , o r h a r d l y . F o r t h e p a s t fo u r

y e a r s s h e h a d b e e n a n e d i t o r a t W a v e r l y

P l a c e B o o k s . S h e w a s a n i n t e l l e c t u a l ,

o r a t l e a s t s h e s e e m e d t o b e r e a d i n g t h e

p o e t r y o f J o h n A s h b e r y a n d G a r y

S n y d e r w h e n h e fi r s t m e t h e r a n d s h e

h a d a l s o a l o t t o s a y a b o u t S o u t h

ONMLKJIHGFEDCBA

A f r ic a

a n d N i c a r a g u a . N e v e r t h e l e s s , a

fo r e h e a d w a s a f u h - h e a d a n d t h e r e h a d n o r a t t h e e n d , b u t s a w d id .

M arx e Engels, de modo esparso mas muito

consistente, discorreram sobre a lingüística e o que

podemos abstrair do pensamento destes grandes mestres

que ilustram, em última instância, o grande leque

ideológico da esquerda, é que a linguagem é

defini-tivamente um fenômeno social, ou seja, " ... a linguagem,

como a consciência, só surge da necessidade, a

necessidade de intercâmbio com outros homens" ("A

Ideologia Alemã", v. A, 1). Neste ponto a proposta

marxista difere da concepção chomskiana de que a

(5)

a

xwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

?

?

proposto por M arx, vai, de certo modo, ao encontro da tese de W horf que igualmente explora as relações entre linguagem, pensamento e realidade. Engels, por seu lado,

fortaleceu ainda mais a idéia de M arx ao propor sua

tese empírica de que a linguagem tem origem no trabalho.

M arx enfoca também que o poder das classes

dominantes permeia todos os segmentos da sociedade, inclusive o uso da linguagem, numa clara componente ideológica.

A pirâmide social brasileira é bem

carac-terística do Terceiro M undo. No alto, em pequeno

número, encontram-se os grandes empresários, os

tecnocratas gerenciadores das empresas estrangeiras

e a aristocracia representada pelos detentores de altos

cargos nas forças armadas, no parlamento, na igreja,

nos sindicatos, etc. A classe média mais numerosa

engloba funcionários públicos de alta qualificação,

profissionais liberais, executivos, o baixo clero,

pequenos proprietários, etc., que aspiram a ascender

ou a tirar alguma vantagem e, deste modo, servem aos

interesses da classe dominante.

Abaixo desses conglomerados, encontra-se a

grande classe marginal dos pobres, representados por

descendentes de negros e de índios, moradores das

periferias dos grandes centros urbanos e das regiões

pobres do campo. Fortemente oprimida, esta classe

reúne os elementos de transformação social, pois, alijada

do sistema, não encontra outra alternativa senão a

proposta de uma outra sociedade em que possa ter

vez. Esta força encontra-se, no entanto, fortemente

reprimida não só pela falta de organização do povo,

mas também pelos fortes grilhões que lhe são impostos.

Este potencial que no Brasil tem permanecido

relativamente estacionário com relação aos aspectos

políticos é, no entanto, altamente produtivo no que diz

respeito às expressões populares, como a dança e a

fala.

4

A LíNGUA INFORMAL NO

NORDESTE

Uma verdadeira revolução cultural tem ocorrido

no Nordeste, especialmente em Fortaleza, onde o

renascimento do forró realizou a façanha a tanto

reclamada e, até então, embalde perseguida, que foi o

alijamento ou pelo menos uma sensível diminuição da

presença da música americana das rádios locais.

Podemos dizer que o momento de efervescência criativa

que ocorre na arte popular de cantar e dançar, marcada

ONMLKJIHGFEDCBA

I

por um grande orgulho e fixação de uma identidade, tem

uma equivalência no falar onde o enfrentamento do

preconceito se toma patente. Esta relação entre aspectos

sociais e mudanças que ocorrem na língua são

registrados por Labov ("Sociolinguistic Patterns", 1984),

como um fenômeno de grande força e de incidência

não no passado, mas no presente:

cbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

o n e c a n n o t u n d e r s t a n d t h e d e v e l o p m e n t o f a l a n g u a g e c h a n g e a p a r t fr o m t h e s o c i a l l i fe o f t h e c o m m u n i t y i n w h i c h i t o c c u r s . O r t o p u t i r a n o t h e r w a y , s o c i a l p r e s s u r e s a r e c o n t i n u a l l y o p e r a t i n g u p o n l a n g u a g e s , n o t fr o m s o m e r e m o t e p o in t i n t h e p a s t , b u t a s n a i m m a n e n t s o c i a l fo r c e a c t i n g i n t h e l i v i n g p r e s e n t .

Paralelamente à musica, desenvolveram-se as

maneiras de dançar, com destaque para a Bahia com

suas versões estilizadas do pagode, e o Ceará, com

formas igualmente modernas do xote e do baião. A fala, como a seguir esta revolução, ou mesmo puxando-a em

muitas instâncias, atesta o grande poder criativo das

classes populares. Orgulhosamente assumindo o seu

vernáculo, o povo passa a convicção e valor que sente

neste seu falar, cantando alto, com a famosa banda

M a s t r u z c o m L e i t e , para todo o Brasil ouvir:

. . . é q u e m e u c o r a c ã o t e m m e d o d e t e p e r d e r

e m e o b r i g a a fa z e r c o i s a s q u e n ã o p o d e s e r

s e e u n ã o s e n t i s s e n a d a p o r v o c ê e u n ã o l i g a r i a p o d e s c r e r .

S a b e a m o r ( s a b e a m o r )

p o r q u e e s t e a m o r c o m b i n a a s s i m e u c o n fi o e m v o c ê c o n fi o e n fi m S ó t e n h o m e d o q u e t e r ó b e m d e m i m

("M edo de te Perder", Rita de Cássia. Ed.

Passaré, 199?)

Os falantes da língua informal são claramente

discriminados pelo fato de usarem um vernáculo que

não é aquele reconhecido como correto. Esta

discri-minação pode ser detectada não só entre os próprios

pares, dentro da própria comunidade destes falantes,

mas principalmente fora dela como na escola ou no

trabalho, deste modo diminuindo-se, sensivelmente, as

oportunidades de desenvolvimento social dessas

pessoas.

(6)

o fato que existe uma língua informal, rica e produtiva,

que pode coexistir pacificamente com a língua formal.

A exploração desse conhecimento pode revelar-se

extremamente útil nos processos educativos em geral,

retirando do professor o preconceito e criando a

oportunidade de se usar uma ferramenta de inestimável

valor no trato com os alunos.

A aprendizagem de uma coisa nova, a

aqui-sição de uma certa habilidade, ou expor-se à

informa-ção de um modo geral, é sempre uma importantíssima vantagem. Para um policial, por exemplo, a habilidade

de usar adequadamente um revólver pode significar a

preservação de sua própria vida. E devemos nos

lem-brar ainda que para continuar na ativa, esse policial

precisa não apenas disparar sua arma, mas saber como

dispará-Ia da melhor maneira possível. Além do mais,

todos os assuntos que dizem respeito a armas e crime

vão ajudá-Io a manter sua sobrevivência. A mesma

linha de pensamento se aplica ao professor. Não que

ele vá literalmente ser morto pelos estudantes, mas

uma certa morte metafórica acontecerá se ele não

estiver preparado para usar apropriadamente suas

armas que, neste caso, são o conhecimento e as

técnicas associadas a ele. O conhecimento tem um

elevado valor intrínseco que ninguém em sã consciência

vai desprezar como irrelevante, independentemente da

atividade em que esteja engajado. O valor do

conhecimento lingüístico é, portanto, essencial para o

professor, não apenas pelo valor da pletora de

informação derivada dele, mas também da percepção

que o conhecimento é poder. O poder que se origina

do conhecimento, associado aos aspectos práticos do

conhecimento em si, tais como o funcionamento

profundo dos mecanismos da linguagem, como ela é

produzida no cérebro, como ela é articulada através

do trato respiratório e como é modificada para

repre-sentar a fala, a essência da aventura humana, poderia

dar mais poderes ao professor fazendo-o sentir-se mais

seguro, ajudando-o a explicar melhor as coisas e

tor-nando-o mais criativo.

O conhecimento como poder deve ser o

desiderato final de nossos esforços, contudo esta perse-guição dele não deve se confinar ao apelo do poder em si, mas ao invés disso expandir-se para atividades

criati-vas que eventualmente surgirão em sua esteira.

A esta altura gostaríamos de argumentar que a

grande maioria das regras gramaticais na linguagem

for-Iõl

E d u c a ç ã o e m D e b a t e - F o r t a le z a - A N O '9 - N ° 3 4 - '9 9 7 - p.5 - ' 2

s e c a s a s , estabelecendo a seguinte regra lógica que

poderia ser pacificamente aceita:

e m v e n d e - s e c a s a s e o s d e m a i s c a s o s

s e m e l h a n t e s o v e r b o fi c a n a 3

ONMLKJIHGFEDCBA

Q

p e s s o a d o s i n g u l a r p a r a c o n c o r d a r c o m o s u j e i t o , r e p r e s e n t a d o p e l o p r o n o m e

" s e " q u e , p o r s u a v e z , p a r a fi n s d e e n t e n d i m e n t o , e q u i v a l e r i a a a l g u é m , o u s e j a , a s e n t e n ç a p o d e r i a s e r e n t ã o e x p r e s s a c o m o " a l g u é m v e n d e c a s a s " .

6

UMA AMOSTRAGEM DA

RIQUEZA DA LíNGUA

INFORMAL

Um passeio casual pelo linguajar nordestino,

onde se vai coletando o material aqui e ali, revela

elementos significativos que bem demonstram os

parâmetros buscados de força e beleza.

V o c a b u lá r io

F i o , fi a , usado em expressões afetivas pelas mulheres, mais comum ente com relação a pessoas que não são

parentes.

C a x a , m a n t e g a , r o b a r , s u b e , t r u s s e , b e j o , eliminação

do ditongo substituindo-o por fonema menos forçado.

No espanhol esta trocajá foi incorporada à língua formal

e a palavra r o d e o ,por exemplo,já recebeu o beneplácito

do léxico.

M a c h o ou a forma abreviada m a ,usado nas expressões do tipo: D i z a í , m a c h o .

M u l h e r , forma equivalente a m a c h o , usada pelas mulheres.

M e d o n h o ,indicativo de grande quantidade ou intensidade. Exemplo: "Ele morava no Urucum e foi lá ensinar a cavar

aqueles valados, aquelas trincheira, sim, ele foi. Eles eram

uns homem e d o n h o "(Antonio Saturnino do Prado",jornal

(7)

a

s

ONMLKJIHGFEDCBA

E x p r e s s õ e s

HGFEDCBA

Ia

cbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

M e u d e u s o , para indicar irritação ou impaciência.

G a l e g u i n d o s á i a z u , filho bastardo.

T á p ô d e , expressão exclamativa para enfatizar uma

proeza. Por exemplo: Acabei de ganhar dez pau no

macaco, tá pôde?

C a b r a d a p e s t e , p a i d 'é g u a , pessoa valente, pessoa

boa.

F i e d u m a é g u a , pessoa ruim.

o .

d e j i p e , pessoa dos olhos grandes.

N ã , forma exclamativa, enfática do n ã o , mais utilizada

pelas mulheres.

e

D im in u t iv o s

I n ez i n ,os diminutivos em i n ez i n são o grande atrativo

da língua informal. Vejamos, por exemplo, a expressão

e l e é c o r r e d o r z i n q u e s ó e l e que passa uma gama de

valiosas informações sutilíssimas no seu elaborado

subjetivo, mas muito práticas no discurso.

F o r m a s V e r b a is

E u fu i , t u fo i , e l e fo i , n ó s fu m o , e l e s fo r a m , troca do

"o" por "u" nas formas verbais da Ia pessoa plural do

indicativo. Troca do t u fo s t e pela forma simplificada t u

fo i . O pronome v ó sjá foi inteiramente eliminado do falar.

P r o n o m e s

A grande preferência pelo democrático t u que

é o grande nivelador das trocas faladas entre as pessoas. Ele funciona como quebra-gelo, como indicador de que a pessoa pode confiar, que está entre amigos, mas pode

ser, por outro lado, profundamente agressivo. Há que se

registrar também a presença do v o c ê que se alterna

com ot u dando mais formalidade ao discurso.

E lim in a ç ã o d a R e d u n d â n c ia

O s h o m e , a s á g u a , eliminação da redundância

no interesse de se diminuir o esforço da elocução e se estabelecer melhores ligações eufônicas. A língua formal recentemente adotou um plural semelhante, no caso dos

nomes de família, anotando "Os M aciel", "Os Araújo".

Soa desagradável, no entanto. Talvez seja por isso que

o povo tenha optado pela forma tlexionada tanto do

artigo como do nome, numa exceção da regra acima.

"M e dixe o Jorge Simão, que foi quem leu O s S e r t õ e s ,

foi a luta mais sangrenta do sertão do Ceará, a de M aciéis

e Araújos" (M arcílio M aciel, jornal O P o v o , Caderno

Vida e Arte, 05/1 0/97)

R e d u ç õ e s F a c i/ it a d o r a s

O i a r , c a b o c o , h o m e .

F o n e m a s O r ig in a is

O d , o n e o t que se apresentam com

articulação característica, própria de algumas regiões

do Nordeste, como é o caso do Crato, no Ceará, como

nos exemplos t i a , d i a , n i n h o , c o r r e n t e .

R e je iç ã o a o s

o

s sibilante, tanto no fmal da palavra, como em

n ó s fu m o ; como medial, como em m e s m o , é rejeitado

em muitas instâncias, não só por ser desagrável ao

ouvido como por ser de difícil articulação no trato vocal.

Temos assim m e r m o por mesmo, p a s h t a por pasta,

g o s h t a r por gostar, b e s h t a por besta, q u a j e por quase,

d i x e por disse.

7 E m B u s c a d e P r in c í p io s U n iv e r s a is

Propomos aqui que a língua informal é

governada por universais lingüísticos. Destes universais extraímos os princípios que, de tal modo cristalizados,

estabelecem as regras aplicáveis às generalizações de

caráter máximo. Os princípios são aqui entendidos

conforme os define Labov em seu "PrincipIes of

Linguistic Change, Interna! Factors": "um princípio é uma

generalização que é irrestrita na sua aplicação no tempo

e no espaço".

Primeiro

princípio:

A formação da língua

informal atende inicialmente à simplificação fonética

atestada pela facilidade de articulação pelos falantes e

percepção agradável ao ouvinte.

(8)

absolutamente desprovida de lógica.

8

CONCLUSÃO

Língua informal é entendida neste trabalho como o vernáculo utilizado pelas classes menos favorecidas

da população, moradoras das periferias das grandes

cidades ou da zona rural pobre. A remoção do estigma

com relação a este vernáculo poderá ser um elemento

facilitador não só para as atividades do mestre mas para as relações entre as pessoas em geral.

Alguns autores, a interpretar o pensamento de

Bloomfield, chegaram ao ponto extremo de achar que

não se poderia encontrar qualquer erro na fala do povo,

ou, para usarmos a terminologia deste trabalho, na

linguagem informal. Na verdade formas não-gramaticais

existem nesta fala como resultado do conflito entre

desempenho e competência. Chomsky admite uma

linguagem "degenerada" (Labov, 1984) que, ao contrário do que se pode pensar, fortalece ainda mais a sua tese da linguagem como atributo inato do ser humano. Pois,

argumenta ele, se uma criança não nascesse com a

capacidade natural da linguagem, como poderia abstrair

regras gramaticalmente corretas do meio onde a fala se

encontra maculada?

Além da beleza natural do vernáculo em sua

componente universal presente na fala dos povos em

geral, existem no Nordeste do Brasil e especialmente

no Estado do Ceará fortes razões sociais que levam seus

habitantes a assumi-Io de maneira bastante original

tornando-o um veículo muito rico e agradável. Não é

sem razão que as redes de TV no Brasil têm explorado

esta componente, utilizando sistematicamente a língua

informal do povo nordestino em várias de suas novelas.

Este trabalho carrega consigo muito de nossa

perplexidade diante de um tema fascinante, mas

igualmente polêmico. Neste sentido ele apresenta nossas

HGFEDCBA

1 2

I

E d u c a ç ã o e m D e b a t e - F o r t a le z a - A N O 1 9 - N ° 3 4 - 1 9 9 7 - p.5 - 1 2

claramente visto no debuxo de nossa reconhecida

angústia.

9

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Referências

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