12
Ressignificando o processo de adoção:
encontros e desencontros
Autora: Patrícia Jakeliny Ferreira de Souza Moraes
Orientador: Vicente de Paula Faleiros
Co-Orientadora: Marta Helena de Freitas
Brasília, 2011.
Mestrado em Psicologia
Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Psicologia
13
7,5 cm
Ficha elaborada pela Biblioteca Pós-Graduação da UCB 22/08/2011
M827r Moraes, Patrícia Jakeliny Ferreira de Souza
Ressignificando o processo de adoção: encontros e desencontros. / Patrícia Jakeliny Ferreira de Souza Moraes – 2011.
132 f. : il.; 30 cm
Dissertação (mestrado) – Universidade Católica de Brasília, 2011.
Orientação: Vicente de Paula Faleiros
Co-Orientação: Marta Helena de Freitas
1. Adoção. 2. Família. 3. Relações humanas. I. Faleiros, Vicente de Paula,
orient. II. Freitas, Marta Helena, co-orient. III. Título.
14
Patrícia Jakeliny Ferreira de Souza Moraes
Ressignificando o processo de adoção:
encontros e desencontros
Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação Strictu Sensu em Psicologia da Universidade Católica de Brasília, como parte dos requisitos para obtenção do Título de Mestre em Psicologia.
Orientador: Vicente de Paula Faleiros
Co-Orientadora: Marta Helena de Freitas
15
Dedicatória
A Ana Beatriz, Maria Eduarda e João Pedro, pelo tempo roubado, pelo prazer de viver a maternidade e a fecundidade do afeto todos os dias de nossas vidas.
16
AGRADECIMENTOS
Agradeço,
Aos sujeitos dessa pesquisa, que pela disponibilidade plena, viabilizaram a concretização desse estudo, que ao final tornou-se mais do que uma pesquisa, tornou-se um aprendizado de vida e de inspiração para trabalhar e viver melhor.
A todas as crianças que vivem a espera de uma família afetiva e legal, demonstrando pela resiliência uma capacidade inspiradora de viver a transposição do vínculo de filiação.
Aos meus orientadores Vicente de Paula Faleiros e Marta Helena de Freitas, que pela transmissão de conhecimento, pela inspiração e afeto se tornaram amigos e cúmplices desse aprendizado.
A meu esposo Alexander, que me acompanha amorosamente nos meus projetos de vida, vivendo comigo de corpo e alma os prazeres da adoção.
A meus pais, pelo carinho, acolhimento e confiança, que mesmo distantes fisicamente, se fizeram presentes nos momentos mais difíceis.
Aos meus irmãos Fábio e Janayne, por me ensinarem todos os dias ser resiliente na aventura da frátria.
Aos meus avôs: Miguel Souza e Maria Mariazinha (in memorian), pelo aprendizado e o exemplo.
Aos meus sogros, que me acolheram como filha, pelo afeto e carinho.
A Maria de Fátima de Novais Gondim, por me acolher nas minhas incertezas, no meu sofrimento, nas oras mais difíceis dessa jornada, e por me guiar até minha essência.
A Maria Luisa de Assis Moura Ghirardi, pela contribuição do conhecimento agregado.
A Maria da Penha Oliveira Silva, pela sua intervenção profissional, pela cumplicidade e pelo ombro amigo, que se fez presente nos momentos de angústia e alegria.
A Soraya Kátia Rodrigues Pereira, que com alma e corpo, trabalha com as famílias em prol das incertezas e dos desafios que são inerentes aos processos de adoção.
A Dirce França, por entender minha ausência em vários momentos de trabalho.
A Aline de Souza, que transpõe as barreiras burocráticas do processo de adoção, aferindo uma prática eficaz na preparação das crianças e adolescentes do serviço de acolhimento do Lar de São José.
17 A todos os amigos e amigas que se fazem lembrar, em especial: Mariana, Edileuza e Dirce, que me impulsionam ousar novos vôos.
A CAPES, pela concessão de bolsa de estudo, imprescindível para concretização deste estudo.
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RESUMO
Este estudo propôs uma análise sobre a adoção e a devolução, a partir do discurso de quatro famílias e seus respectivos filhos que vivenciaram o encontro ou o desencontro na adoção. O objetivo central dessa dissertação foi compreender o processo de vinculação adotiva dentro da dinâmica familiar, destacando indicadores que contribuíram para construção do vínculo de filiação e indicadores que foram desfavoráveis ao encontro filial. Foi utilizado o aporte teórico da estrutura sistêmica e a teoria do vínculo de Pichon-Rivière (1986), que viabilizaram compreender a adoção a partir da análise dos vínculos internos e externos das famílias e respectivos filhos adotados. Considerou-se para este estudo a metodologia qualitativa de González-Rey (2002), que possibilitou interagir de forma plena com os sujeitos pesquisados tornando os resultados mais consistentes. A escuta das crianças adotadas se deu pelo desenho, cujo instrumento serviu como recurso de expressividade para desvelar o fenômeno de adoção, isso viabilizou avaliar como a adoção e a devolução tem impactado a vida dessas crianças. Foi possível constatar que a devolução se relacionou a falta de apoio profissional às famílias e respectivos filhos antes, durante e após o processo de adoção, a falta do apoio das famílias extensas e a ausência do diálogo claro entre a família adotante e seus respectivos filhos adotados. Outros fatores como os conflitos experimentados com a alteridade da origem biológica ampliaram as fantasias de apropriação indevida da criança, contraparte da devolução, podendo-se supor que os sentimentos de altruísmo e bondade vividos pelos adotantes foram formações defensivas contra esses conflitos.
19
ABSTRACT
This study has proposed an analysis about adoption and return, starting from the speech of four families and their respective children who experienced the encounter and mis-match in adoption. The main purpose of this dissertation was to comprehend the process of adoptive linkage within the domestic dynamics, detailing the indicators that contributed to the filiation bond construction and indicators that were unfavorable to the filial encounter. The theorist subsidy of the systematic structure has been utilized along with the bond theory of Pichon-Rivière (1986), which made it viable to comprehend the adoption based on the analysis of the internal and external bonds of the families and their respective adopted children. The qualitative methodology of González-Rey (2002) has been considered for this study, which made it possible to interact in full form with the subjects researched, making the results more
consistent. The adopted children’s audition was done by drawing, in which such instrument served as a resource of expressiveness to unveil the adoption phenomenon. This made it
viable to evaluate how adoption and return have been impacting these children’s lives. It was
possible to find that the return has connected itself to the lack of professional support to the families and to their respective children before, during and after the adoption process, the lack of support from the extended families and the absence of open dialog between the adopter family and their respective adopted children. Other factors such as the conflicts experienced
20
SIGLAS
ABT Associação Brasileira Terra dos Homens BPC Benefício de Prestação Continuada BSB Brasília
CAPES Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CF Constituição Federal
CNAS Conselho Nacional de Assistência Social
CONANDA Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente CRAS Centro de Referência da Assistência Social
CREAS Centro de Referência Especializado da Assistência Social CT Conselho Tutelar
DF Distrito Federal
ECA Estatuto da Criança e do Adolescente GT Grupo de Trabalho
IPEA Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada LOAS Lei Orgânica de Assistência Social
MDS Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome MP Ministério Público
NOB Norma Operacional Básica ONG Organização Não Governamental ONU Organização das Nações Unidas PNAS Política Nacional de Assistência Social PAIF Proteção e Atendimento Integral à Família
PAEFI Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos
PNCFC Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do Direito de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária
PSE Proteção Social Especial SAC Serviço de Ação Continuada
SEDH Secretaria Especial de Direitos Humanos SGD Sistema de Garantia de Direitos
SNAS Secretaria Nacional de Assistência Social SUAS Sistema Único de Assistência Social SUS Sistema Único de Saúde
21
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO... 12
CAPÍTULO 1 PROCESSO HISTÓRICO DA ADOÇÃO ... 17
1. Historização do processo de adoção... 17
1.1 Procedimentos técnicos para adoção ... 22
1.2 Novos parâmetros legais do acolhimento institucional... 27
CAPÍTULO 2 APROXIMAÇÃO DO CONCEITO DE FAMÍLIA... 35
2. Da família idealizada a família possível... 35
2.1 Pensando família a partir da estrutura sistêmica... 38
2.2 Aproximação teórica com o conceito de vínculo . ... 41
CAPÍTULO 3 APRESENTAÇÃO DO MÉTODO... 45
3. Contextualização da metodologia... 45
3. 1 Participantes e Local da pesquisa ... 46
3.2 Instrumentos... 48
3.3 Procedimentos em campo... 48
3.4 Procedimentos de análise... 49
CAPÍTULO 4 O FENÔMENO DA ADOÇÃO EM UM CONTÍNUO DESVELAR-SE... 52
4.1 Análise dos fragmentos dos discursos: a adoção a partir das falas das famílias e da expressividade das crianças adotivas... 52
4.2 Família [1][D] Joana e Isabel... 53
4.3 Família [2][D] Janete e Cláudia... 65
4.4 Família [3][AP] Débora, Vilmar e Guilherme... 72
4.5 Família [4][AP] Lilian, Mônica e Júlio... 82
CAPÍTULO 5 RETOMANDO AS ZONAS DE SENTIDO... 92
5.1 Indicadores favoráveis e indicadores desfavoráveis no processo de adoção... 92
5.2 O desejo e sua falta... 92
5.3 A relação entre as motivações, o altruísmo e a realidade vivenciadas no processo de adoção... 94
5.4 A desvelação da família de origem como condição do vínculo... 97
5.5 A criança imaginária e a criança real... 101
5.6 A preparação da criança e do requerente para adoção a partir da viabilização institucional... 104
5.7 Vínculo familiar estendido... 109
5.8 A devolução: o silêncio dos pais versus o sofrimento dos filhos... 111
CAPÍTULO 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS... 114
22
GLOSSÁRIO... 118
BIBLIOGRAFIA... 122
ANEXO 1
MODELO DE TCLE PARA O RESPONSÁVEL LEGAL DA CRIANÇA E/OU ADOLESCENTE ADOTADO... 127
ANEXO 2
MODELO DE TCLE PARA O RESPONSÁVEL LEGAL DA CRIANÇA E/OU ADOLESCENTE DO SERVIÇO DE ACOLHIMENTO... 128
ANEXO 3
MODELO DE TCLE ÀS FAMÍLIAS ADOTANTES... 129
ANEXO 4
ROTEIRO DAS ENTREVISTAS ÀS FAMÍLIAS ADOTIVAS... 130
ANEXO 5
ROTEIRO PARA APLICAÇÃO DO DESENHO ÀS CRIANÇAS E
ADOLESCENTES QUE PASSARAM PELO PROCESSO DE ADOÇÃO... 131
ANEXO 6
23
INTRODUÇÃO
A sobrevivência da ligação diante das “tempestades emocionais” ou das pequenas “ventanias” dá aos integrantes do grupo familiar o sentimento de uma vinculação sólida e real. Estamos falando aqui do que eu chamaria da verdadeira adoção, que é a que todos almejam, e se caracteriza pelo sentimento vivo de estar ligado e em
sintonia com alguém importante. (LEVINZON, 2004, p. 133).
A empatia com o tema de adoção me foi apresentada como um desafio pessoal. Seria ousadia mensurar em palavras a quantidade de conhecimento pessoal e o amadurecimento profissional que obtive com a conclusão desse trabalho.
Essa jornada teve início no Abrigo Lar de São José, no ano de 2005 até 2010, a qual suscitou contato direto com a realidade de crianças e adolescentes1 que viveram e ainda vivem em instituições de acolhimento aguardando uma reorganização estrutural de suas famílias biológicas ou a colocação em uma família adotiva.
Durante minha prática profissional foi possível participar de vários estudos de casos que demandavam um conhecimento específico sobre os conflitos e acertos que circulavam as relações afetivas das famílias, em especial reporto-me a dois casos que me suscitaram as instigantes perguntas: o que fazem as pessoas ficarem juntas? Como se constrói uma boa convivência entre pais e filhos, independente de serem biológicos ou não? Como se configura o conflito ou a aceitação do estranho na família? Quais as motivações dos requerentes para a adoção? Qual o espaço que a criança adotada tem na família, para expressar sua história, seus medos e desejos? Como uma boa orientação favorece a vinculação da criança aos pais adotivos? Qual a contribuição da família e amigos no processo de adoção e como a interrupção de um processo de adoção, via devolução, pode reeditar o abandono na criança adotada?
Retrato aqui dois casos em específico, que acompanhei no Serviço de Acolhimento onde atuei e que me impulsionaram ao ingresso no mestrado para aprofundamento do tema de adoção. Reitero que estes dois casos não foram os objetos dessa pesquisa, apenas serviram para ilustrar minhas instigações, muitos outros serviriam para retratar os desafios que o tema propõe, mas em especial foram escolhidos dois, devido às suas complexidades, e que me suscitaram duas perguntas mais específicas, as quais serão respondidas no decorrer desse
24 estudo: o que faz com que a adoção se torne um verdadeiro encontro ou um verdadeiro desencontro para os requerentes e para a criança envolvida? Como esse processo pode ressignificar a vida dos envolvidos?
O primeiro deles faz referência a um grupo de oito irmãos que foram separados para adoção. Depois de uma tentativa frustrada de reintegração à família biológica, seis dos oito irmãos foram cadastrados para adoção, os outros dois foram reintegrados ao tio paterno, sobre os demais não houve manifestação do tio para acolhimento. A adoção aconteceu na seguinte ordem: a primeira a sair foi a última das irmãs acolhida na Instituição por ser bebê, com dois meses de acolhimento, por decisão da Vara da Infância a criança foi adotada separada dos irmãos.
Em seguida saíram uma menina de seis anos e o irmão de cinco anos, três anos e meio de acolhimento, depois foram adotadas mais duas irmãs: uma com três anos a outra com oito anos, a primeira com três anos de acolhimento e a segunda com dois. E por último o irmão de doze anos com dois anos de acolhimento foi recebido em separado por outra família. Não se sabe se os trâmites legais já foram concluídos. As crianças foram liberadas do Serviço de Acolhimento mediante guarda provisória, deferida pela Vara da Infância. As informações obtidas um tempo depois foram de que as famílias preferiram manter vínculos afetivos entre os irmãos, mesmo depois da separação, o que, segundo o relatado por um dos familiares foi de extrema importância para adaptação inicial do grupo.
Em outro momento, a experiência de acompanhar o processo de uma adoção internacional de uma menina de onze anos, agraciou-me com a esperança de que adoções tardias acontecem e dão certo, mas primeiro é necessário que tanto a criança quanto seus requerentes estejam preparados.
25 cadastro nacional, foi então encaminhada para adoção internacional. O processo de aproximação e apresentação a outra família, agora Italiana, durou um ano e meio. Durante esse período a criança teve acompanhamento psicológico sistematizado pelo setor de psicologia da Instituição, sendo trabalhados aspectos relevantes de sua historia de vida anterior e posterior ao acolhimento institucional, além de uma apresentação gradativa às origens da família adotiva até que esta se familiarizasse e demonstrasse segurança nessa nova relação. Depois de um ano e meio de trabalho entre serviço de acolhimento e Vara da Infância, a criança foi apresentada ao casal, e gradativamente foi se desligando do serviço de acolhimento até que todo o trâmite legal da adoção internacional fosse concluído, sendo a criança então adotada e levada para Itália. Essa etapa durou dois meses. O que se sabe até o momento é que a criança encontra-se bem vinculada à família adotiva.
A partir desse estudo, foi possível traçar indicadores que levaram ao verdadeiro encontro, que perpassaram pelo bom vínculo de filiação e indicadores que apontaram para o fracasso da adoção, muitas vezes expresso pela agressão física ou verbal, e pelo silêncio da devolução vivenciada pela família adotiva e pela criança como uma expressão de “abandono”,
fracasso ou vergonha.
Assim, é notório considerar que a construção da filiação adotiva nesse estudo dependeu tanto do desejo dos adultos em exercerem sua parentalidade, como do desejo da criança em ter um ambiente de troca, respeito e afeto. Na prática, observou-se que, para entender o processo de adoção, foi necessário entender primeiramente as motivações dessas famílias que buscaram por meio da adoção a verdadeira filiação, como também foi necessário entender o desejo da criança por essa nova família e as expectativas que foram desenvolvidas nesse processo.
Apresentam-se aqui algumas reflexões em torno da apreensão do outro dentro do contexto da adoção. Assim sendo, o presente estudo teve como objetivo a compreensão do processo de vinculação adotiva dentro da dinâmica familiar, com intuito de destacar indicadores que contribuíram para manutenção do vínculo e indicadores que impulsionaram no seu rompimento.
26 respectivos filhos nas entrevistas possibilitou um aprofundamento do tema. Entende-se que esse recorte não inviabilizou o entendimento da vinculação afetiva entre pais e filhos adotivos e não desqualificou os resultados que serão apresentados no decorrer dessa dissertação, ficando a análise desse fluxo como sugestão para futuras investigações acadêmicas.
Nesse contexto busquei entender dois casos onde foi possível a concretização da vinculação social e afetiva entre a família e a criança adotada, e dois casos onde esse encontro não aconteceu. Por um lado, identificamos famílias que, mesmo passando por conflitos, conseguiram superar os desafios da adoção; por outro identificamos famílias que encontraram mais dificuldades em nesse encontro filial com a criança adotiva.
Assim sendo, a construção desta dissertação contou com seis capítulos, cuja sequência linear, descrevo aqui. Antes disso, ressalto que do capítulo um ao capítulo quatro o objetivo foi articular os fragmentos dos discursos e dos desenhos de forma predominantemente elucidativa no que tange às suas dimensões histórico-contextuais, deixando para o capítulo cinco uma análise mais aprofundada no que tange as zonas de sentido.
No primeiro capítulo, faço uma revisão teórica sobre o tema, teço breves considerações sobre a legislação da adoção, sobre o processo da adoção no Brasil, os procedimentos técnicos e os parâmetros institucionais que nortearam a prática do acolhimento institucional.
O segundo capítulo foi dedicado ao estudo da família com o fundamento na teoria sistêmica de Minuchin (1982) e Andolfi (1989) e considerando os novos paradigmas apresentados pela Política Nacional de Assistência Social (PNAS/2004), o Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente à Convivência Familiar e Comunitária (PNCFC/2006) e a Lei 12.010/09. Além disso, procedi à discussão do vínculo interno e externo segundo Pichon-Rivière (1986) da família e da criança, inerente a todo processo de filiação adotiva.
A seguir, no terceiro capítulo, apresento a contextualização da metodologia utilizada para acessar os sujeitos da pesquisa. Como referência trago González-Rey (2002) que considera o conhecimento como uma produção não linear que envolve aspectos passíveis de uma construção interpretativa e interativa com os sujeitos pesquisados e a significação da singularidade como nível legítimo da produção do conhecimento científico.
27 fala e interpretações dos desenhos dos sujeitos entrevistados. Tomo como aporte teórico alguns autores que são referência, na discussão desse tema, como: Levinzon (2004), Ghirardi (2008), Schettini (2009), Hamad (2010) e Lévy-Soussan (2010).
No quinto capítulo, a partir de uma análise mais aprofundada, retomo as zonas de sentido identificadas nos discursos dos pais e nos desenhos dos seus respectivos filhos adotivos. O que me possibilitou vislumbrar alguns indicadores que facilitaram a construção dos vínculos de filiação e alguns indicadores que inviabilizaram o encontro parental no processo de adoção.
28
CAPÍTULO 1
PROCESSO HISTÓRICO DA ADOÇÃO
1. Historização do processo de adoção
Para entendermos o tema “adoção” buscou-se, preliminarmente, historiar suas origens e se inteirar dos motivos e formas como eram acolhidas as crianças, antes das “mudanças de concepções dos direitos humanos fundamentais, infância, família, relação indivíduo-sociedade-estado” (GHESTI-GALVÃO, 2008, P. 3), correlacionando-a nos itens seguintes, com a legislação atual, especificamente no que se refere às propostas e determinações da Política Nacional de Assistência Social (PNAS/2004), do Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente à Convivência Familiar e Comunitária (PNCFC/2006), do Plano Distrital de Promoção, Proteção e Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente à Convivência Familiar e Comunitária (PDCFC/2007) e da Lei 12.010/09.
A adoção constitui-se em uma medida legal2, com caráter de excepcionalidade e irrevogabilidade, o que vem ganhando grande repercussão, inclusive em nível jurídico, permitindo maior abertura e análise da atuação dos profissionais que trabalham com a questão. Ainda assim, vislumbramos lacunas acerca de alguns aspectos práticos que interferem sobre as possibilidades da vinculação afetiva e que serão explorados ao longo deste trabalho.
O tema adoção começa a ser tratado como política social, principalmente nos países europeus, durante a emergência das guerras mundiais, sendo impulsionado pelas novas concepções de criança e o novo papel que o Estado assume sob a vida privada. Até este ponto, na história, a adoção, quando existia, dizia respeito principalmente à transmissão de bens, de um nome familiar e, eventualmente, de poder político.
O adotante, via de regra, tinha que ser de idade avançada (50 anos era o mínimo colocado, por exemplo, no Código Napoleônico) e os adotados eram freqüentemente adultos. Os poderes centrais agiam em geral contra a adoção. Assim mantinham relativamente alto o número de pessoas sem herdeiros, fazendo com que o patrimônio de muitas famílias escoasse para o senhor feudal ou para a Igreja. (FONSECA, 2002, p.118).
29 Apesar do grande número de enjeitados deixados na roda de expostos, assim como os jovens que viviam nas vias públicas (DONZELOT, 1980; RIZZINI, 1993; CABRAL, 2002), antes do século XX, houve poucos movimentos ou debates para adaptar as leis sobre adoção
ao problema destas “crianças abandonadas”. Não raro, as pessoas recebiam em seus lares um jovem desamparado. Filhos de criação existiam de fato. Mas raras vezes pensava-se em legalizar sua situação pela adoção.
A desigualdade entre filhos “legítimos” e “criados” era um fato pacífico da vida social. Havia o perigo da adoção ser usada para legitimar filhos adulterinos, um ato que, ferindo a moral familiar, era expressamente proibido na legislação de diversos países. Em uma sociedade estamental, em que cada um conhecia seu lugar, um indivíduo sem herdeiros podia achar mais honroso deixar seu patrimônio à Igreja do que a um filho legítimo ou ao criado que tinha abrigado durante anos.
Foi só depois da virada do século XX que o estado tomou a iniciativa de intervir no que, até este momento, tinha sido administrado seja por acordos informais, seja pelo direito contratual. A reorientação da filosofia jurídica para o bem-estar de crianças, antes de ser interpretada como uma mera evolução humanista deve ser vista em função do campo político em que ocorreu.
O Estado moderno não tinha os mesmos motivos que a Igreja para colocar obstáculos à adoção, já que seu poder econômico residia em outras bases, que não o patrimônio de famílias sem herdeiros. Tinha interesse, isto sim, na ordem pública, na socialização adequada dos jovens sem família. É sem dúvida por este motivo que, durante a primeira metade do século XX, as discussões jurídicas centraram-se na transferência do pátrio poder, deixando a questão de herança em segundo plano. Mas a adoção também vinha ao encontro das necessidades de um poder público que estendia sua influência cada vez mais para dentro da intimidade familiar. Aproveitava-se a responsabilidade de garantir direitos individuais, para assim, estreitar o controle sobre a vida dos súditos. Simultaneamente, a nova concepção de infância consolidou a noção moderna de infância enquanto fase crucial para o desenvolvimento da personalidade adulta, necessitando de orientação especializada, o que teve contribuição da psicologia.
30 está na transição dos séculos XVII e XVIII, quando ela passa a ser definida como um período de ingenuidade e fragilidade do ser humano, que deve receber todos os incentivos possíveis para sua felicidade. O início do processo de mudança, por sua vez, nos fins da Idade Média, tem como marca o ato de mimar e paparicar as crianças, vistas como meio de entretenimento dos adultos (especialmente da elite). A morte das crianças também passa a ser recebida com dor e abatimento.
Já no século XVII, as perspectivas transitam para o campo da moral, sob forte influência de um movimento promovido por Igrejas e Estado, por meio de suas leis especialmente, onde a educação ganha terreno: trata-se de um instrumento que surge para colocar a criança "em seu devido lugar”, embora com uma função disciplinadora, a escola não nasce com uma definição de idade específica para a criança ingressá-la. Isto porque os referenciais não eram o envelhecimento (ou amadurecimento) do corpo. A ciência moderna ainda não havia triunfado e a educação nascia, portanto, com uma função prática, ora de disciplinar, ora de proporcionar conhecimentos técnicos, que posteriormente configuram uma escola para a elite e outra para o povo.
A análise feita por Áries (1973), portanto, destaca-se por fornecer elementos para problematizarmos a infância em uma sociedade que, desde a conclusão da obra, apresenta um individualismo acentuado. Muitas vezes nos deparamos com crianças (e, mais recentemente, adolescentes) que são vistos como projeções de expectativas dos pais ou que são protegidos ou mimados, reinventando os hábitos de fins da Idade Média. Os perigos e consequências desta situação podem, sem dúvida, serem melhor compreendidos a partir das reflexões presentes na obra: História Social da Criança e da Família.
O Código Civil de 1916 recupera uma prática antiga: a transferência por escritura de responsabilidade tutelar entre um adulto e uma criança. Segundo esta lei, qualquer pessoa com mais de 50 anos, sem prole legítima ou legitimada, podia adotar uma criança mediante contrato com os pais biológicos. Não havia restrição quanto a sexo, estado civil ou nacionalidade. O adotado podia ter qualquer idade desde que fosse respeitada uma diferença de 18 anos entre ele e os pais adotivos. A relação adotiva era revogável e não anulava o vínculo entre a criança e seus genitores. Em suma, a posse da criança era regulamentada no cartório da mesma forma que se regulamentava a posse de bens e imóveis.
31 tratados da época, da necessidade urgente de corrigir a legislação em benefício da grande legião de crianças desamparadas” (FONSECA, 1995, P. 119). A idade mínima dos pais adotivos baixou para 30 anos e a diferença de idade para 16 anos. Também nessa época os juízes de menores começaram a exercer pressões no sentido de que os cartórios somente lavrassem escrituras mediante autorização judicial.
Com a Lei 4.655 de 1965 sobre a “legitimação adotiva”, vemos, pela primeira vez, a
idéia de um laço irrevogável que confere direitos hereditários (se bem que limitados) à criança, fazendo cessar qualquer ligação com a família anterior. A lei diz respeito a órfãos, de
pais desconhecidos, ou a “menores abandonados”, até a idade de sete anos. Com o Código de Menores de 1979, passaram a coexistir duas formas de adoção – plena (a imagem da legitimação adotiva) e simples (à imagem do Código Civil).
Em 1988, a nova Constituição Federal do Brasil, com o intuito de promover a proteção integral da criança e do adolescente e de mudar a concepção prevalente vinculada ao tema
“menor”, e dando prioridade à promoção social da criança e do adolescente, revogou as leis anteriores, instaurando uma só forma de adoção. A nova filosofia, consolidada no Estatuto da Criança e Adolescente, de 1990, facilitou a adoção – ampliando tanto a categoria dos adotantes (agora com idade mínima de 21 anos), como dos adotados (crianças e adolescentes até 18 anos de idade).
Vinte e um anos depois, novas mudanças alteram o processo de adoção. Em se tratando das mudanças sobre o tema adoção observa-se um ganho jurídico, prático, operacional e psicossocial a partir da aprovação da Lei 12.010/09 que altera a Lei 8.069, de 13 de julho de 1990 - Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei 8.560, de 29 de dezembro de 1992; revoga dispositivos da Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002 - Código Civil, e da Consolidação das Leis do Trabalho - CLT, aprovada pelo Decreto-Lei 5452, de 1o de maio de 1943 a qual altera a Lei 8.069/90 do ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente, dando outras providências.
De forma simplificada destacamos a seguir as principais mudanças que a Lei 12.010/09 trouxe no âmbito da adoção, com destaque na criação do Cadastro Nacional de Adoção, o qual reúne os dados das pessoas que querem adotar e das crianças e adolescentes aptos para a adoção, de modo a impedir a "adoção direta", ou mais conhecidamente como
32 através de cursos preparatórios, de modo a esclarecer sobre o significado de uma adoção e promover a adoção de pessoas que não são normalmente preferidas (mais velhas, com problemas de saúde, indígenas, negras, pardas e amarelas);
a) Traz o conceito de família extensa (ou ampliada), pelo qual se deve esgotar as tentativas de a criança ou adolescente ser adotado por parentes próximos com os quais o mesmo convive e mantém vínculos de afinidade e afetividade. Para só depois serem encaminhadas para o cadastro nacional de adoção. Assim, por exemplo, tios, primos e cunhados têm prioridade na adoção (não podem adotar os ascendentes e os irmãos do adotando);
b) Estabelece a idade mínima de 18 (dezoito) anos para adotar, independente do estado civil (casado, solteiro, viúvo etc.). Contudo, em se tratando de adoção conjunta (por casal) é necessário que ambos sejam casados ou mantenham união estável;
c) A adoção dependerá de concordância, em audiência, do adotado se este possuir mais de 12 (doze) anos;
d) Irmãos não mais poderão ser separados, devem ser adotados pela mesma família, salvo raras exceções;
e) A adoção conjunta por união homoafetiva (entre pessoas do mesmo sexo) é vedada pela lei. Não obstante, o Poder Judiciário já se decidiu em contrário, em caso de união homoafetiva estável;
f) A gestante que queira entregar seu filho (nascituro) à adoção terá assistência psicológica e jurídica do Estado, devendo ser encaminhada à Vara da Infância e Juventude de sua Comarca;
g) A lei estabelece também como medida protetiva a figura do acolhimento familiar, a qual a criança ou o adolescente é encaminhado para os cuidados de uma família acolhedora, que cuidará daquele de forma provisória;
h) A lei ainda determina que crianças e adolescentes que estejam sob a medida protetiva nos serviços de acolhimento institucional, tenham sua situação reavaliada de 06 (seis) em 06 (seis) meses, tendo como prazo de permanência máxima no Serviço 02 (dois) anos, salvo exceções;
33 em segundo, forem esgotadas as possibilidades de colocação em família substituta brasileira (se adequado, no caso sob análise, a adoção por esta). Por fim, os brasileiros que vivem no exterior ainda têm preferência aos estrangeiros.
Dentro desse novo contexto legislativo que valoriza o direito à convivência familiar e comunitária, onde os princípios igualitários e individuais estão instaurados, é que temos o intuito de trabalhar o tema adoção, visto que, conforme podemos observar ao longo da história da adoção, a institucionalização de crianças e adolescentes é uma prática comum, aplicada em sua maioria por motivos de pobreza e abandono, ausente de uma prática de avaliação e monitoramento da medida protetiva.
Adiante seguem algumas ponderações sobre os procedimentos técnicos utilizados no processo de adoção, imprescindíveis para efetivação do processo.
1.1Procedimentos técnicos para adoção
Quem decide adotar uma criança deve dirigir-se à Vara da Infância e da Juventude mais próxima do seu domicílio para inscrever-se como candidato à adoção. No Distrito Federal, os interessados à adoção peticionam por meio de advogado particular ou defensoria pública, pedido de adoção seguido da apresentação dos seguintes documentos, necessários para abertura do processo: Carteira de identidade do(s) requerente(s) (cópia); Certidão de casamento ou Declaração de Convivência Marital; comprovantes da situação econômica dos candidatos à adoção, comprovante de residência, certidão de nascimento dos filhos biológicos, atestado de antecedentes criminais, declaração de idoneidade moral e atestado de saúde física e mental.
No Distrito Federal, antes de se tornarem habilitados para adoção os interessados participam de seis encontros que são obrigatórios e recebem o nome de cursos de pré-adoção. Ressaltamos que cada comarca define a quantidade de encontros que melhor prover sua necessidade de preparação aos candidatos. Essa obrigatoriedade da preparação está prevista na Lei 12.010/09 no art. 50, conforme especificado abaixo:
§ 3o A inscrição de postulantes à adoção será precedida de um período de preparação
34
§ 4o Sempre que possível e recomendável, a preparação referida no § 3o deste artigo
incluirá o contato com crianças e adolescentes em acolhimento familiar ou institucional em condições de serem adotados, a ser realizado sob a orientação, supervisão e avaliação da equipe técnica da Justiça da Infância e da Juventude, com apoio dos técnicos responsáveis pelo programa de acolhimento e pela execução da política municipal de garantia do direito à convivência familiar.
Para realização dessa preparação, a VIJ-DF firmou Termo de Cooperação com as
OSCIP’s: Berço da Cidadania3 e o Grupo de Apoio à Adoção “Projeto Aconchego” 4, e os
Cursos de Psicologia da Universidade Paulista - UNIP e da Universidade Católica de Brasília
– UCB.
Os temas5 trabalhados nos encontros preparatórios são:
a) As Expectativas da Adoção; b) Ressignificando a adoção;
c) O processo de desenvolvimento da criança e do adolescente; d) A criança idealizada e a criança real;
e) O papel da Justiça nos processos de adoção; f) Origem e revelação
3Berço da Cidadania é uma instituição da sociedade civil, sem fins lucrativos, cuja missão é promover ações de
prevenção, intervenção e acompanhamento para assegurar a convivência familiar e comunitária a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade e risco social. Seu objetivo é proporcionar práticas que previnam a necessidade da medida de Acolhimento Institucional, bem como meios que assegurem cuidados de qualidade nos serviços de acolhimento de crianças e adolescentes, tendo em vista a otimização do trabalho de reintegração familiar de modo a tornar a passagem pelo serviço o mais breve possível. Sobre os projetos desenvolvidos pela instituição acessar o site: http://www.bercodacidadania.org.br. Tem como frente de trabalho quatro linhas de atuação:
a) Cuidados reparadores nos serviços de acolhimento,
b) Preparação de pais, crianças e profissionais no processo de adoção,
c) Construção de autonomia para adolescentes atendidos nos serviços de acolhimento, d) Trabalho de reintegração familiar.
4 O Projeto Aconchego é uma entidade civil, sem fins lucrativos, fundada em dezembro de 1997, com atuação
em todo o Distrito Federal. Dentre os principais objetivos do projeto encontram-se:
a) Esclarecer, orientar, apoiar famílias adotivas, pretendentes à adoção e a comunidade;
b) Promover o direito à convivência comunitária de crianças e adolescentes sob medida de acolhimento institucional;
c) Prevenir o abandono e a marginalização;
d) Buscar uma estrutura que possa direcionar, assistir e promover os esforços Estado-Comunidade, na tarefa de encontrar famílias para crianças e adolescentes liberados para adoção, guarda e tutela, inclusive, como órgão voluntário auxiliar da Vara da Infância e Juventude do Distrito Federal.
Atualmente, as principais áreas de atuação do PROJETO ACONCHEGO são: o Apadrinhamento Afetivo, realizado junto às crianças e aos adolescentes institucionalizados, com as atividades do Apadrinhamento e do Irmão mais velho; e o Apoio à Adoção, através do Pré adoção, Preparação para Adoção, Adoção Tardia e Encontro sobre Adoção. São várias atividades que vão desde o encontro de filhos e pais adotivos com pessoas interessadas no tema até a preparação das crianças nos abrigos, sempre trabalhando a preparação e acompanhamento emocional de adotantes e adotados, buscando, ainda, incentivar as
chamadas “adoções necessárias” (adoções tardias, de grupos de irmãos, inter-raciais etc.). Sobre os projetos acessar o site: http://www.projetoaconchego.org.br
35 Após a conclusão dessa preparação e aprovação pelo juiz, os candidatos passam a ser considerados habilitados à adoção e entram no cadastro de pretendentes.
Em seguida os candidatos, já habilitados, inscrevem-se para as entrevistas com a equipe técnica da VIJ, composta por psicólogos e assistentes sociais. Nesse momento, reforçam por meio do preenchimento de um formulário, as características da criança que desejam adotar (sexo, idade, cor, condições de saúde etc.) apresentando suas expectativas e motivações em relação à adoção, momento em que recebem orientações.
Na sequência, os candidatos habilitados, esperam pelo estudo do cadastro psicossocial de crianças abrigadas e então são convocados para uma nova entrevista, respeitando-se sua ordem de inscrição6. Uma vez encontrada a criança que melhor se encaixa no perfil estabelecido pelos candidatos, é feita uma aproximação entre as partes, no sentido de estabelecer vínculos de afinidade entre um e outro. Ressalta-se que o tempo de espera pela criança varia conforme o perfil estabelecido pela família habilitada.
No Brasil, o número de interessados em adotar é quase seis vezes maior do que o número de crianças e adolescentes inscritos no Cadastro Nacional de Adoção – CNA. Conforme o último levantamento realizado em 2011, pelo Conselho Nacional de Justiça7, o número de pretendentes chega a 26.694, em contrapartida o número de crianças e adolescentes cadastrados somam 4.427.
O levantamento traz detalhes acerca do perfil dos cadastrados. Entre os interessados, 10.129 aceitariam adotar apenas crianças brancas. Outros 1.574 adotariam somente crianças pardas, e 579 aceitariam só crianças negras, enquanto que 8.334 são indiferentes à raça. O cadastro mostra ainda o desinteresse dos pretendentes em adotar crianças com irmãos. Do total de interessados, 21.978, o que equivale a 82,37% disseram que não fariam esse tipo de adoção. Outros 21.376 (80,8%), afirmaram ainda que sequer aceitariam adotar gêmeos.
6 O Cadastro Nacional de Adoção – CNA, é uma ferramenta criada pelo Conselho Nacional de Justiça - CNJ,
com objetivo de otimizar um diálogo maior entre o próprio judiciário, visando diminuir o tempo de espera das crianças por uma família adotiva. Conforme previsto nos incisos abaixo do art. 50 da Lei 12.010/09:
§ 5o Serão criados e implementados cadastros estaduais e nacional de crianças e adolescentes em condições de
serem adotados e de pessoas ou casais habilitados à adoção.
§ 7o As autoridades estaduais e federais em matéria de adoção terão acesso integral aos cadastros,
incumbindo-lhes a troca de informações e a cooperação mútua, para melhoria do sistema.
§ 8o A autoridade judiciária providenciará, no prazo de 48 (quarenta e oito) horas, a inscrição das crianças e
adolescentes em condições de serem adotados que não tiveram colocação familiar na comarca de origem, e das pessoas ou casais que tiveram deferida sua habilitação à adoção nos cadastros estadual e nacional referidos no § 5o deste artigo, sob pena de responsabilidade.
36 Por outro lado, a realidade das crianças e adolescentes cadastrados no CNA é outra, a maior parte é de grupos de irmãos que somam 3.352 (75,72%). Com relação à idade, o levantamento explicitou que quanto mais velha a criança, menor as chances de ela ser inserida em uma nova família. Segundo o levantamento, a predileção dos pretendentes é maior por bebês, 5.373 disseram que adotariam crianças com até um ano de idade, e 5.474 disseram que adotariam crianças com até dois anos de idade.
A realidade do Distrito Federal não se diferencia de outros estados brasileiros, no que tange ao perfil das crianças pretendidas. Conforme mostram os dados da Seção de Adoção da VIJ do DF, 61,66% dos pretendentes têm preferência por crianças de até dois anos de idade, em contrapartida, 38,33% são favoráveis a adoções tardias. O número de famílias habilitadas para adoção cresce desproporcionalmente ao número de crianças cadastradas. Só no ano de 2009, 112 famílias foram habilitadas8, dentro de um universo de 426 famílias já existentes nesse cadastro. Já o número de crianças e adolescentes cadastrados em 2009, soma 69, de um total de 161 crianças e adolescentes aguardando adoção no DF.
Essa desproporção remete-nos a explicitar alguns dados sobre o perfil das crianças pretendidas por esses casais no DF: 55% esperam adotar crianças do sexo feminino, 43,33% da cor morena clara, contra 2,78% da cor negra. 80% das crianças que foram adotadas em 2008 apresentavam ótimas condições de saúde, contra 1,11% de crianças portadoras de necessidades especiais.
Dentro desse contexto é imprescindível mencionar que durante o ano de 2009, foram deferidas 180 adoções, das quais 107 foram intuitus personae9 e 26 adoções foram intermediadas pela VIJ-DF, ou seja, deferidas a casais habilitados. Das 26 adoções acompanhadas pela sessão de adoção, ressalta-se um caso de devolução. Vale salientar que do restante das adoções efetivadas no ano de 2009, que somam um total de 154 processos, o
8Informações colhidas em 09/09/2010, na Seção de Colocação em Família Substituta – SEFAM da Primeira
Vara da Infância e Juventude do Distrito Federal.
9 Adoção
Intuitus Personae , também conhecida como “adoção pronta” e “adoção direta”é aquela onde a
37 acompanhamento sistemático da formação do vínculo não foi efetivado pela SEFAM, devido à criança não ter sido acolhida por casais habilitados desta Vara. Todavia, cabe salientar que esses pretendentes passaram por uma avaliação prévia10 dos técnicos de psicologia e assistentes sociais desta Seção, antes da efetivação do processo de adoção, não sendo esse acompanhamento sistematizado. Assim sendo, não foi possível dimensionar se posteriormente houve ou não devolução dessas crianças por essas famílias.
De acordo com o coordenador da seção de adoção, essa realidade já sofreu algumas mudanças significativas com a lei 12.010/09, uma vez que não mais é possível adoção com caráter intuitus personae.
Essa é apenas uma expressão da realidade que encontramos em nível de Distrito Federal, mas que se assemelha a tantas outras em nível de Brasil. A Lei 12.010/09 abre espaço para uma discussão que necessita estar afinada com os serviços de acolhimento, vara e demais instituições que trabalham com o tema. Por um lado, nos obriga a refletir sobre práticas mais consistentes de reintegração à família de origem, por outro aumenta a possibilidade de inclusão dessas crianças cadastradas em famílias disponíveis à adoção, uma vez que o cadastro se torna nacional, mas nos desafia ainda na inclusão dos grupos de irmãos nas famílias habilitadas.
Voltando aos procedimentos para adoção temos que, após habilitados, os pretendentes passam por uma aproximação com a criança “escolhida”. Esse processo é feito por intermédio da equipe técnica da VIJ, sendo denominado de Estágio de Convivência, que acompanha os primeiros encontros e observa a interação ocorrida com vistas à colocação da criança nessa família. É recomendável aos casais que essa aproximação seja gradativa, respeitando os momentos da criança em relação à sua separação do serviço de acolhimento, que é muitas vezes seu único lugar de referência. No entanto, há relatos tanto de técnicos da SEFAM, como de famílias afetivas, dentro do grupo de Apoio à adoção: Aconchego, que ela também ocorre de forma abrupta e rápida, sem levar em conta a complexidade desse momento.
Embora a reflexão acerca das razões desses procedimentos não seja objeto deste estudo, é importante considerar as necessidades subjetivas dos envolvidos na constituição do vínculo adotivo. Para ilustrarmos a importância disso, far-se-á referência à fala de uma das
10 A avaliação prévia era composta de uma entrevista com a pessoa ou o casal pretendente a adoção. Em alguns
38 famílias entrevistadas F[2]: (...) mas ao mesmo tempo ela chorava e me segurava e perto de mim o tempo todo no meu colo, e depois me segurando enquanto a equipe do Abrigo fazia todo o processo de despedida, que eu achei bonito, de despedir daquele lugar, daquelas
pessoas, daquilo que tinha sido parte da vida dela (...).
Dando continuidade ao processo de inclusão da criança na família pretendente, inicia-se o chamado estágio de convivência que não tem tempo determinado. A inicia-sentença da adoção será promulgada após um tempo de convívio, paralelo aos trâmites judiciais. No DF, as famílias são acompanhadas esporadicamente pela equipe técnica da Vara, que relata ao juiz, através de relatório, a qualidade dessa relação. Neste estudo observou-se que esse acompanhamento não é feito de forma sistematizada nem pelos técnicos responsáveis da Vara que acompanham o processo, nem pelos técnicos do serviço de acolhimento. Urge salientar que uma das justificativas disso pelos técnicos da seção de adoção é o grande volume de processos, significativamente desproporcional ao número de funcionários para atender à demanda.
Entende-se aqui como acompanhamento sistematizado um planejamento minucioso do estágio de convivência, elaborado pela equipe psicossocial da VIJ em parceria com a equipe do serviço de acolhimento, o qual considera toda a história de vida da criança anterior e posterior ao acolhimento. Esse processo auxilia na elaboração do luto da criança em relação à família biológica e facilita sua integração à família adotiva. Entende-se que tudo isso pode auxiliar o laudo psicosssocial que representa o alicerce da sentença judicial.
É o juiz a autoridade competente para proferir a sentença que definirá e legalizará o vínculo de filiação por adoção. Nesse momento, é emitida uma nova certidão de nascimento para a criança e se apagarão as referências ligadas à sua história anterior, em sua
documentação. Ela passa a ser reconhecida como filha(o) legítima(o) dos novos pais. É a
sentença da adoção que dá a legitimidade para essa nova filiação.
Antes de aprofundarmos os conceitos sobre vinculação adotiva discutiremos algumas alterações legais que têm norteado reflexões importantes sobre o tema de adoção. Não
aprofundaremos o tema “Acolhimento Institucional”, apenas faremos uma breve reflexão
sobre as mudanças legais que dizem respeito a ele.
1.2 Novos parâmetros legais do acolhimento institucional
39
Enquanto o Acolhimento for necessário, é fundamental ofertar à criança e ao adolescente um ambiente e cuidados facilitadores do desenvolvimento, de modo a favorecer, dentre outros aspectos: i. Seu desenvolvimento integral; ii. A superação de vivências de separação e violência; iii. A apropriação e ressignificação de sua história de vida; iv. O fortalecimento da cidadania, autonomia e a inserção social. (CONANDA, 2009, p. 29).
Antes da discussão dos novos parâmetros legais que perpassam pelo tema de adoção vale ressaltar a mudança de nomenclatura do termo de Abrigo para “Acolhimento
Institucional”, que por sua vez substitui também o termo “orfanato”, sendo fruto de uma
ampla discussão em âmbito nacional do Grupo de Trabalho – GT, composto por
representantes de ONG’s de todo território nacional.
A discussão do tema da adoção vem ganhando grande visibilidade, na última década e maior ênfase a partir da promulgação da Lei 12.010/09, a qual altera a Lei 8.069/90 – ECA. Ressalta-se que o marcos que impulsionaram essa mudança foram à reportagem do Correio
Brasiliense, em 2002: “Órfãos de Pais Vivos” de Ana Beatriz Magno e o Projeto de Lei de
Adoção, do deputado João Matos (1.756/2003). Estes motivaram o estudo realizado em 2004 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA11 (IPEA, 2004), o qual teve certa continuidade com nova pesquisa realizada pelo MDS em parceria com a FIOCRUZ em 2010. Ambas as pesquisas trazem uma série de reflexões e destacam a urgência da efetivação das leis já existentes, no que se refere à proteção integral às crianças e adolescentes privados da convivência familiar e comunitária.
Paralelo a esse processo, em 2004 foi aprovado pelo CNAS a Política Nacional de Assistência Social (PNAS), com o objetivo de concretizar direitos assegurados na Constituição Federal (1988) e na Lei Orgânica de Assistência Social (1993). A PNAS organiza a matriz de funcionamento do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), inaugura no país um novo paradigma de defesa dos direitos socioassistenciais. Na sequência, a aprovação da NOB/SUAS estabelece parâmetros para operacionalização do SUAS em todo o território nacional. Em 2006, foi aprovada a NOB-RH do SUAS que, dentre outros
11Levantamento realizado pelo IPEA em 2003 e promovido pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos
40 aspectos, estabeleceu parâmetros nacionais para a composição das equipes que devem atuar nos serviços de acolhimento.
Dentre outros resultados a pesquisa realizada pelo IPEA apontou que 50,1% das crianças e adolescentes foram abrigados por motivos relacionados à pobreza; 24,1% estavam acolhidas em função da situação de pobreza de suas famílias; 86,7% tinham família, sendo que 58,2% mantinham vínculos familiares, com contatos regulares; apenas 43,4% tinham processo na justiça, e somente 10,7% estavam em condição legal de adoção; 20% estavam institucionalizadas há mais de seis anos.
O objetivo do levantamento realizado pelo IPEA, sob coordenação e solicitação da SEDH/CONANDA, era construir um perfil atualizado dessas instituições para subsidiar o processo de reordenamento dos serviços de acolhimento nas capitais e em diversos municípios brasileiros e, desse modo, promover a adequação das práticas institucionais aos princípios previstos no ECA. Visava-se identificar as medidas institucionais que segregam, confinam e dificultam a preservação dos vínculos familiares, a fim de estabelecer estratégias para sua correção.
No que se refere ao Distrito Federal12, consta um número significativo de 23 instituições13 que acolhem infantes entre 0-18 anos. Porém, 38% dessas instituições restringem sua oferta de vagas a faixas etárias de até seis anos, o que contraria o princípio da primazia de crianças e adolescentes receber proteção e socorro em quaisquer circunstancias (art. 4º, parag. Único do ECA, 1990).
Das Instituições de Acolhimento do Distrito Federal, apenas uma é pública, sendo as demais filantrópicas. Contudo, ressaltamos que nenhuma atende com serviços específicos, de forma parcial ou gradual à demanda de crianças e adolescentes em situação e vivência crônica de rua e uso de drogas. O que nos incita pensar sobre uma reedição do abandono desse público.
12 Conforme pesquisa realizada pela Comissão Intersetorial criada pelo decreto Governamental 28.075 de
28/06/2007, visando elaboração do Plano Pró Convivência Familiar do Distrito Federal, aprovada pelo Conselho de Assistência Social do DF e Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente do DF, publicada no DODF de 27/06/08. Tal Plano tinha por fundamento o Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária (BRASIL, CONANDA, 2006)
13 Serviços de acolhimento no Distrito Federal: Ampare, Casa Abrigo ABA, CEICON, FALE, Grupo Luz e
41 A maior parte dessas instituições não dispõe de recursos físicos, humanos, financeiros suficientes para execução de projetos psicopedagógicos, o que visivelmente dificulta o trabalho de reintegração as famílias de origem e o trabalho qualificado de preparação para adoção daquelas que já se encontram cadastradas para adoção.
Dentre outros dados apresentados no Plano Distrital de Convivência Familiar e Comunitária temos que apenas cinco (23,8%) serviços de acolhimento trabalham com o limite de até 20 crianças e adolescentes, sendo que as demais atendem até 60 crianças, o que contraria as recomendações do MDS e as Orientações técnicas de atendimento singularizado a pequenos grupos. Três (14,28%) contam simultaneamente com profissionais de pedagogia psicologia e serviço social, oito (38,09%) com apenas dois profissionais, quatro (19,04%) não tem nenhum profissional do quadro técnico a não ser voluntários. Quanto aos cuidadores/educadores, dez serviços de acolhimento trabalham com uma cuidadora para cada dez crianças e adolescentes, ou menos, enquanto nove serviços não atendem as recomendações da NOB/RH/SUAS, a qual indica um coordenador para cada 20 crianças e adolescentes; um educador por turno para até 10 crianças e adolescentes, contando com a ajuda de um auxiliar, um assistente social e um psicólogo para atendimento de até 20 crianças e adolescentes em, no máximo, dois equipamentos. Importante ressaltar que 66% desses cuidadores que desempenham as funções diretas com esse público, moram no serviço de acolhimento. Além disso, ressaltamos que a ausência de alternância entre vida pessoal e profissional leva ao esgotamento emocional desses profissionais.
A esse respeito, consultar PEREIRA (2004), que indica o fenômeno de burn out a que essas profissionais são submetidas. Dentre outros dados contemplados no Plano Distrital ressaltamos que apenas 24% de cuidadores permanecem no cargo por mais de quatro anos, sendo que a maioria deixa o trabalho por motivos familiares, cansaço ou dificuldades de adequação. Esse fenômeno tem implicação direta com o processo de reintegração à família de origem ou à família adotiva. no que diz respeito à construção do vínculo positivo ou negativo que a criança ou e/ou adolescente desenvolve com os suas figuras de autoridade. Para aprofundamento sobre a especificidade do vínculo entre educadora/ cuidadora e criança abrigada, indicamos o trabalho de FRANÇA, intitulado: Mãe social: o mito do amor materno nas instituições de abrigo.
42 CONANDA, através da resolução conjunta n. 1, de 18 de junho de 2009, aprovou as orientações técnicas que tem como finalidade regulamentar em todo território nacional os Serviços de Acolhimento para Crianças e Adolescentes, no âmbito da política de assistência social.
As mudanças nas orientações e exigências legais para os serviços de acolhimento institucional revelam a busca da profissionalização de um serviço tradicionalmente filantrópico, para que possa funcionar com garantidor de direitos fundamentais de crianças e adolescentes. Esses instrumentos normativos passam a ser referências para o sistema de Justiça, responsável pela fiscalização desses serviços, bem como para as exigências cotidianas que faz em decorrência do acompanhamento da situação de acolhimento institucional de crianças e adolescentes.
A regulamentação ora apresentada era uma ação prevista no Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do Direito de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária e representa um compromisso partilhado entre o MDS, a SEDH, o CONANDA e o CNAS, para afirmação no Estado brasileiro do direito de crianças e adolescentes à convivência familiar e comunitária. Além de ser fruto de amplas discussões travadas em diferentes fóruns regionais, nacionais e internacionais, Conferências Estaduais e Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente realizadas principalmente, em 2007 e encontros do Grupo Nacional de Trabalho Pró-Convivência Familiar e Comunitária – GT Nacional14.
Os Serviços de Acolhimento para crianças e adolescentes integram os Serviços de Alta Complexidade do SUAS, sejam eles de natureza público-estatal ou não-estatal, e devem estar pautados nos pressupostos do ECA, do PNCFC, PNAS, NOR-RH do SUAS e no Projeto de Diretrizes das Nações Unidas sobre Emprego e Condições Adequadas de Cuidados Alternativos com Crianças.
Elaborado a partir de um amplo processo de discussão conduzido pelo Comitê dos Direitos da Criança da Organização das Nações Unidas (ONU), UNICEF e Serviço Social Internacional, o documento contou com a contribuição de especialistas, governamentais e
14 Iniciado em 2005 por iniciativa do Fundo das Nações Unidas para a Infância e Juventude (UNICEF), com
43 não governamentais, de diversas nacionalidades. Em agosto de 2006, o documento foi discutido no Brasil em uma Reunião intergovernamental que reuniu especialistas representantes de mais de 40 países, o Comitê dos Direitos da Criança da ONU, o Serviço Social Internacional e o UNICEF. Em junho de 2009, durante a 11ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, foi aprovado o Projeto de Resolução sobre as Diretrizes para Cuidados Alternativos para Criança, que será levado à Assembléia Geral das Nações Unidas. (CONANDA, 2009, p. 6).
A organização do SUAS como sistema pressupõe a articulação da rede socioassistencial com as demais políticas públicas e com o Sistema de Garantia de Direitos - SGD15 e elege a família como foco central de atenção. A previsão de serviços de caráter preventivo e de fortalecimento de vínculos familiares e comunitários16, de atendimento especializado a indivíduos e famílias em situação de ameaça ou violação de direitos17 e de serviços de acolhimento para crianças e adolescentes18 tem importância basilar no que diz respeito à concretização do direito à convivência familiar e comunitária.
As orientações metodológicas do referido documento explicitam a importância de um
estudo diagnóstico para subsidiar a decisão acerca do afastamento da criança ou adolescente do convívio familiar; da necessidade de elaboração de um Plano de Atendimento Individual e Familiar no qual constem objetivos, estratégias e ações a serem desenvolvidas tendo em vista a superação dos motivos que levaram ao afastamento do convívio e o atendimento das necessidades específicas de cada situação; da implementação de uma sistemática de acompanhamento da situação familiar a ser iniciada imediatamente após o acolhimento; de os serviços de acolhimento manterem uma interface com outros serviços da rede sócio-assistencial e com os demais órgãos do Sistema de Garantia de Direitos da Infância e da Juventude, por meio de uma articulação intersetorial; da elaboração de um
Projeto Político-Pedagógico que oriente a proposta de funcionamento do serviço como um todo, tanto no que se refere ao seu funcionamento interno, quanto ao seu relacionamento com a rede local, as famílias e a comunidade.
15 Sistema de Garantia dos Direitos – SGD (ver glossário) 16 Proteção Social Básica (ver glossário)
44 Atualmente, os serviços de acolhimento ainda caminham para as mudanças previstas na Lei 12.010/09. Normalmente com práticas ainda disciplinadoras, parecem carecer de uma estrutura capaz de propiciar condições promotoras de um acolhimento adequado. Todavia, compreende-se que nem todos os serviços oferecem riscos danosos a esse público. Alguns, mesmo com a ausência de recursos financeiros, têm mostrado resultados positivos, com a integração de jovens à sociedade, através das Repúblicas. Há de se mencionar que alguns desses adolescentes chegam ao serviço de acolhimento prestes a completarem 18 anos, necessitando de alternativas emergenciais que visem sua inserção à sociedade.
Por outro lado, vê-se nas práticas repetitivas de acolhimento a falta de uma maior reflexão sobre as consequências que uma longa institucionalização pode causar nesses sujeitos, sobretudo quando há ausência de afeto nas relações dentro dos serviços, há falta de atendimento individualizado à criança, há carência de recursos financeiros e humanos, e principalmente quando não há capacitação das pessoas que atuam na proteção social especial de alta complexidade.
Podemos associar ao sofrimento corporal e psíquico sofrido por essas crianças sensações de abandono ou privação de alguém de referência. Estes sinais se expressam em diversas reações, como: um olhar assustado, uma fala não dita, um ato agressivo. Principalmente este último, que na maioria das vezes acarreta na estigmatização da criança como não adaptável às regras institucionais, o que resulta frequentemente em transferência de um serviço de acolhimento para outro ou ainda em encaminhamentos psiquiátricos, com vistas à medicalização.
45 É sabido que em determinadas situações faz-se necessário a aplicação da medida protetiva prevista no ECA, no art. 10119, mas antecede a essa medida o amplo funcionamento
da Proteção Social Básica dessas famílias prevista no SUAS.
Por outro lado, cabe um estudo mais minucioso e acelerado por parte dos serviços de acolhimento e do Judiciário sobre essas crianças e adolescentes, conforme previsto na Lei 12.010/09, a qual estipula sua permanência de no máximo dois anos, salvo raras exceções. Esse estudo deve ser feito a partir do que propõe o Plano de Atendimento Individual e Familiar da Criança, previsto nas orientações técnicas. A celeridade oportuniza a colocação de crianças desprovidas de vínculos familiares a outras famílias, a partir de sua colocação em família acolhedora ou adotiva, dando assim a elas, oportunidade de conviverem em uma família.
No capítulo seguinte faremos uma breve explanação sobre à qual família estamos falando. Assim segue uma prévia da discussão sobre as mudanças que o conceito de família vem sofrendo, principalmente com a aprovação do PNCFC/2006 sob a ótica do direito à convivência familiar e comunitária das crianças e adolescentes que vivem nos serviços de acolhimento.
19 ECA, art. 101- Verificada qualquer das hipóteses previstas no art. 98, a autoridade competente poderá
determinar, dentre outras, as seguintes medidas: (...) VII – Acolhimento Institucional; VIII – Inclusão em programas de atendimento familiar; IX – colocação em família substituta.
46
CAPÍTULO 2
APROXIMAÇÃO DO CONCEITO DE FAMÍLIA
2. Da família idealizada a família possível
[...] mas as coisas tem que mudar, as famílias estão se desfazendo. Houve um descompasso da vida familiar. A gente foi criada nesse ambiente de família [...].F[2][D] (JANETE, 2010)
Não é objetivo deste capítulo fazer uma historização do conceito de família, mas sim tecer uma breve explanação sobre o tema, considerando-se os avanços teóricos a ele relacionados, inclusive em nível da aplicação das políticas públicas.
A referência feita à família20 na CF/88 no artigo 226 §4º é como “entidade familiar
a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes”. Tal conceito ganha
ampliação através da Lei 12.010/09, no art. 25 (...) parágrafo único, no qual “entende-se por família extensa ou ampliada aquela que se estende para além da unidade pais e filhos ou da unidade do casal, formada por parentes próximos com os quais a criança ou adolescente
convive e mantém vínculos de afinidade e afetividade”.
Essas concepções ampliam o conceito e possibilitam ver a família como todo o grupo de pessoas com laços de consanguinidade e/ou de aliança e/ou de afinidade, cujos vínculos circunscrevem obrigações recíprocas, organizadas em torno de relações de geração e de gênero. A amplitude destas definições derruba qualquer idéia preconcebida de modelo
familiar “normal”. Trata-se, portanto, de saber se a família é capaz de realizar as funções de proteção e de socialização.
O PNCFC/2006 chama a atenção para a necessidade de desmistificar a idealização de uma dada estrutura familiar como sendo a “natural”, abrindo-se caminho para o reconhecimento da diversidade das organizações familiares no contexto histórico, social e cultural. O mesmo Plano (PNCFC, 2006) chama ainda a atenção para a necessidade de compreender a complexidade e riqueza dos vínculos familiares e comunitários que podem ser
mobilizados nas diversas frentes de defesa dos direitos das crianças e adolescentes. E enfatiza
a necessidade de uma definição mais ampla de “família”, com base sócio-antropológica. “A
20 Para detalhamento sobre o conceito de família ver KOWALIK, Adam. Noções do Direito Familiar.