UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA
PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA
PROGRAMA DE MESTRADO EM PSICOLOGIA
O SOFRIMENTO PSÍQUICO DA MULHER NO PÓS-PARTO:
UMA EXPRESSÃO DE RESISTÊNCIA AO
MODELO TRADICIONAL DE MATERNIDADE
FLÁVIA AGRA
O
RIENTADORA:
P
ROFªD
RªT
ÂNIAM
ARAC
AMPOS DEA
LMEIDAii
UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA
PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA
PROGRAMA DE MESTRADO EM PSICOLOGIA
O SOFRIMENTO PSÍQUICO DA MULHER NO PÓS-PARTO:
UMA EXPRESSÃO DE RESISTÊNCIA AO
MODELO TRADICIONAL DE MATERNIDADE
FLÁVIA AGRA
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Psicologia da Universidade Católica de Brasília, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Psicologia
O
RIENTADORA:
P
ROFªD
RªT
ÂNIAM
ARAC
AMPOS DEA
LMEIDAiii
BANCA EXAMINADORA
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Psicologia, da
Universidade Católica de Brasília, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em
Psicologia, sob orientação da Professora Doutora Tânia Mara Campos de Almeida.
Examinada e aprovada pela banca:
Profa. Dra. Tânia Mara Campos de Almeida
Universidade Católica de Brasília – Membro (Orientadora)
Profa. Dra. Alessandra da Rocha Arrais Universidade Católica de Brasília – Membro
Profa. Dra. Ondina Pena Pereira Universidade Católica de Brasília – Membro
iv
AGRADECIMENTOS
Ao Programa de Pós-Graduação e Pesquisa da Universidade Católica de Brasília,
Mestrado em Psicologia, que me possibilitou a rara oportunidade de desenvolver um estudo
transdisciplinar.
À minha orientadora Profª Drª Tânia Mara Campos de Almeida, que desde o início
confiou nas minhas idéias, me incentivou a desenvolvê-las e me apresentou novas
perspectivas de compreensão do sofrimento psíquico, para além das fronteiras da
psicologia.
Às professoras do programa de Mestrado da Católica, que compartilharam comigo
de forma generosa os seus conhecimentos, em especial à Profª Dra. Ondina Pena Pereira,
que me apresentou as idéias de Baudrillard.
Às amigas e colegas de mestrado, que acompanharam as diversas fases de gestação
desta pesquisa, em especial à Carol, pela amizade e disponibilidade constantes.
À Ana Cristina, que além de revisar este trabalho com doçura, respeito e dedicação,
v
AGRADECIMENTOS ESPECIAIS
À minha filha Isabela, que com amor e paciência compreendeu a necessidade de dividir a minha atenção com este trabalho.
À minha mãe, que ao expressar sinceramente seus afetos e ao acolher os meus sentimentos, me permitiu vivenciar as diversas dimensões da relação mãe-filha.
Ao meu pai, pelo amor com que sempre me apoiou e incentivou.
À minha querida irmã, que ao longo da vida vem inspirando a minha busca intelectual e emocional, a partir de seu precioso exemplo.
Ao Antônio, pelo companheirismo inabalável, pelas noites intermináveis de trabalho em conjunto, que alimentaram a nossa admiração mútua, e pelas doces palavras de amor que me incentivavam nos momentos mais cansativos.
Aos amigos que sempre acreditaram no meu potencial acadêmico, até mesmo quando eu fraquejava.
vi
À minha amada filha Isabela,
com quem a cada dia reescrevo
RESUMO
Ramos, Flávia Regina Agra da Silva Ramos (2006). O sofrimento psíquico da mulher no pós-parto: uma expressão de resistência ao modelo tradicional de maternidade. Dissertação de Mestrado. Curso de Pós-graduação em Psicologia. Universidade Católica de Brasília.
Esta dissertação teve como objetivo refletir sobre o sofrimento psíquico vivenciado por muitas mulheres burguesas modernas no período pós-parto, nomeado pelo modelo biomédico por “depressão pós-parto”. Ao contrário da maioria das pesquisas realizadas sobre o tema - que associa o fenômeno às alterações fisiológicas relacionadas ao parto, a uma suposta fragilidade emocional comum às mulheres e a história familiar e subjetiva da puérpera – buscamos compreender o sofrimento psíquico da mulher neste período sob uma perspectiva diferenciada, propondo que tal sofrimento é apenas uma das muitas dimensões possíveis da vivência da maternidade. Para tanto, investigamos como foi criado o modelo de “boa mãe” imposto à mulher burguesa moderna, a partir de autores que se dedicaram a estudar os aspectos socioculturais e econômicos que influenciaram, nos últimos três séculos, a construção da família burguesa. Entramos em contato com a cultura Xavante, na qual as mulheres vivenciam a maternidade em contexto político, econômico, social e cultural bastante distinto daquelas burguesas dos grandes centros urbanos, com a intenção de relativizar os conceitos da sociedade moderna que tende a universalizar os valores que norteiam a vivência da gestação-parto e puerpério na sociedade de produção. Por fim, propomos que este fenômeno seja compreendido como uma forma da mulher expressar sentimentos banidos pela sociedade simulacral, nos termos que Baudrillard a define, e de resistir ao modelo tradicional de maternidade.
ABSTRACT
Ramos, Flávia Regina Agra da Silva Ramos (2006). Women’s postnatal psychic suffering: a expression of resistence to the traditional model of maternity. Master’s Dissertation. Postgraduation in Psychology. Brasília Católica University.
This study had the aim to reflect on the by the modern woman after giving birth, particularly the one interpreted by the current biomedical paradigm as “postnatal depression”. On the contrary of the majority of researches about the issue – which associate the phenomenon to physiological alterations related to birth and a supposed emotional fragility characteristic of women – we prefer to understand this psychic postnatal suffering as one amongst other possible dimensions of the maternity experience. Our approach is based on the ideas of authors who have studied the social and economical aspects which influenced, during the last three centuries, the construction of the notion of bourgeois family, as well as how the model of “the good mother” (according to Rousseau) was created in history and then, imposed to the modern woman. To complement this bibliographic survey, we conducted a brief field research with Xavante Indians, in order to get to know how women in this tribe experience maternity, given that their cultural context is completely different from the urban one. The parallel between these two cultures allowed us to elaborate a critical discussion of the modern urban values that guide the experience of the contemporary maternity.
SUMÁRIO
Introdução 1
Capítulo 1 - A construção do modelo burguês de maternidade 13
1.1 - A mulher marcada pelo determinismo biológico 13
1.2 – Maternidade: natureza da mulher ou construção sociocultural? 18
1.3 - A maternagem como construção social 21
1.4 - A construção da “boa mãe” rousseauniana 24
1.5 - O espaço privilegiado da criança 27
1.6 - A transformação da maternagem no Brasil: da Colônia à República 31
1.7 - O nascimento das especialidades médicas que disciplinam o corpo da
mulher e o seu comportamento com os filhos 36
1.8 - Como a psicologia e a psicanálise contribuíram para normatizar e
culpabilizar os pais modernos – a mãe, em especial 43
1.9 - Desconstruindo o mito do “amor materno” 52
Capítulo 2 - Os comportamentos da mulher moderna que negam o mito do
amor materno 55
2.1 - O abandono e o infanticídio no Brasil 55
2.2 - O aborto como saída para a gravidez indesejada ou não planejada 59
2.3 - Mulheres fantasmas: mães que entregam o filho para adoção,
ou os abandonam 61
2.4 – “O caso Simone” 69
2.5 - A negação da maternidade como resistência ao modelo atual 79
Capítulo 3 - O sofrimento psíquico da mulher burguesa moderna no pós-parto 82
3.2 - O sofrimento vivenciado pela mulher no pós-parto descrito como
uma doença 83
3.3 - “Depressão pós-parto” ou depressão vivida no período após o parto? 89
Capítulo 4 – Um olhar crítico sobre os valores da sociedade burguesa moderna 96
4.1 - O individualismo e a ilusão de autonomia 96
4.2 - A sociedade do simulacro 101
4.3 - A pobreza da eficácia simbólica nas práticas terapêuticas modernas 103
4.4 - A dessimbolização dos ritos de passagem na sociedade moderna 111
4.5 - O processo de medicalização das ações e dos sentimentos 116
4.6 - Velhos valores da sociedade burguesa reeditados em um “novo”
Projeto 121
Capítulo 5 - Um olhar sobre o ciclo gestação-parto-puerpério na cultura
Xavante 127
5.1 - Os ritos que preparam para o ingresso na fase reprodutiva 127
5.2 - Os rituais e crenças relacionados com o ciclo gestação-parto-puerpério 133
5.3 - A participação da família e da comunidade na gestação, no parto e nos
cuidados com a mãe e o bebê 136
5.3.1 - A participação do pai 136
5.3.2 - A participação da família e da comunidade no ritual do
Nascimento 139
5.3.3 - A participação da família na amamentação 143
5.3.4 - A participação da família e da comunidade nos cuidados
com a puérpera 145
Capítulo 6 - Paralelo entre a vivência da mulher Xavante e a da mulher
burguesa urbana no pós-parto 152
6.1 - O ciclo gestação-parto-puerpério como rito de passagem 152
6.2 - A rede de suporte comunitário e familiar 158
6.3 - A cura 164
6.4 - O sofrimento psíquico da mulher no pós-parto 168
Notas conclusivas: A depressão como expressão de resistência 171
Introdução
A necessidade de compreender o significado do sofrimento vivenciado por
mulheres, no período pós-parto, originou-se de minha prática clínica como
psicoterapeuta, e dos dez anos como facilitadora de grupos de gestantes e puérperas,
período que, aliás, coincidiu com o exercício de minha própria maternidade. As
mulheres com quem trabalho integram um estrato social privilegiado, têm a
possibilidade de investir na carreira profissional, acadêmica e de encontrar várias
formas de realização pessoal, ou seja, não têm a maternidade como destino inexorável.
Estas mulheres burguesas (conforme as denomino nesta dissertação), quando
engravidam e têm seus filhos, buscam a assistência de um obstetra da rede privada, não
vinculada a convênio, que lhes presta um atendimento instrumentado pela mais moderna
tecnologia médica, e as coloca também em contato com outros especialistas, que irão
“guiá-las” ao longo da gestação e no período pós-parto.
Diante dessa realidade, tenho me perguntado sobre o que o sofrimento emocional
vivido por elas, no pós-parto, nos comunica acerca do que é ser mulher e mãe na
sociedade burguesa moderna. Além disso, tenho me questionado quais os valores e
interesses que o levaram a ser definido como uma categoria nosológica, nomeada
“depressão pós-parto” em nosso meio.
Este sofrimento, tão freqüentemente descrito pelas puérperas que me procuram
para atendimento psicoterápico, caracteriza-se por um conjunto de sinais, a saber:
tristeza, que se acentua no final da tarde, acessos de choro sem causa aparente, angústia
(relatada como sensação de aperto no peito), cansaço físico exacerbado, distúrbios no
padrão de sono e de alimentação, sentimento de impotência diante do bebê, dificuldade
de cuidar do filho e se vincular a ele e, ao mesmo tempo, de se afastar dele fisicamente,
morrer – na maioria das vezes, não se trata de um desejo de atentar contra a própria
vida, mas de que algo ocorra e coloque fim ao sofrimento.
Diante desse fenômeno, intriga-me o fato de que, essas mesmas mulheres que me
relatam seu sofrimento emocional no pós-parto, durante a gestação, enquanto
participavam dos grupos por mim coordenados, associavam a palavra mãe a
características como: pureza, devoção, dedicação, paciência, calma e amorosidade, e
raramente utilizavam adjetivos considerados socialmente negativos. Isto aponta para
uma idealização do papel materno e a associação dele com a representação de mãe
exemplar da cultura judaico-cristã: a Virgem Maria.
Além disso, as mulheres em questão, em sua grande maioria, imaginavam os
primeiros dias com o bebê como momentos de extrema felicidade e prazer. Quando
eram questionadas sobre as possíveis dificuldades de adaptação que poderiam vir a ter,
elas as restringiam ao cansaço físico e à dificuldade de amamentar ou cuidar do filho,
situações que, no caso das primíparas, eram associadas à inexperiência com
recém-nascidos.
No período que segue o parto, porém, a fala dessas mulheres freqüentemente se
transforma de maneira radical. A imagem de mãe passa a ser descrita como alguém
aprisionada e oprimida por um tirano que lhe “tomou a vida de antes”: o bebê. É
comum, nelas, o sentimento de falta de perspectiva, vivido como se a maternidade
tivesse restringido todas as outras possibilidades “de estar no mundo”.
A partir da minha formação acadêmica e da participação em aulas e seminários,
tanto como docente quanto discente, além do convívio com vários profissionais de
saúde, posso afirmar que, inclusive nas universidades, pouco se fala sobre o sofrimento
experienciado por muitas mulheres no pós-parto, ainda que sob a ótica da
pessoas dispostas a assumir o lado sombrio da maternidade. A irritação, a raiva, a
frustração, o desgosto, o cansaço e a sensação de incapacidade em relação ao próprio
filho são raramente confessáveis. As puérperas que conseguem falar destes sentimentos
aos profissionais de saúde, o fazem carregadas de dor, culpa, vergonha e medo em
relação ao que pode lhes acontecer após sua “confissão”.
Trata-se de um tema-tabu, uma vez que o senso comum define o amor materno
como um sentimento inerente à natureza da mulher, ao seu instinto e à sua condição,
presente, portanto, em todas as fêmeas da espécie humana. Quando o suposto instinto
não se revela no idealizado pós-parto, elas são consideradas, por si mesmas e pelos
outros, estranhas, e até subversivas, na medida em que alteram a dita ordem natural e
esperada, transgredindo o rígido código moral da “boa mãe”. Seu comportamento chega
a ser considerado uma anormalidade, uma doença que precisa ser tratada para que a
“ordem natural” seja restabelecida e o equilíbrio da “sagrada família” seja mantido.
A partir do levantamento bibliográfico feito sobre o tema, constatei que a maioria
das pesquisas de vários países do Ocidente associa a etiologia da chamada “depressão
pós-parto” a: a) fatores biológicos, como hipotireoidismo, mudança hormonal própria
do ciclo gestação-parto-puerpério, e a intercorrências no parto e na saúde do
recém-nascido; b) fatores sociais, como relação com o pai da criança, dificuldades financeiras,
presença de fatores estressantes no pós-parto, qualidade da rede de apoio social e c) a
fatores psicológicos, antecedentes psiquiátricos pessoais e familiares e a ocorrência de
depressão na gestação, dentre outros fatores descritos pela psicopatologia (Ramos,
2001).
Por conseguinte, são raras as pesquisas, no campo da psicologia e da psiquiatria,
que relacionam o sofrimento da mulher durante o pós-parto com a sua construção
patologizou e medicalizou o parto e o pós-parto, esvaziou de sentido coletivo os ritos de
passagem, praticamente extinguiu as redes de colaboração e suporte social e criou um
modelo nuclear de família, fundamentada em uma ideologia individualista.
Do mesmo modo, são escassas as pesquisas que associam o sofrimento dessas
puérperas com o conflito hoje instalado entre a “boa mãe” rousseauniana, modelo
segundo o qual a mulher se dedica prioritariamente à maternidade e se responsabiliza
pelo desenvolvimento físico, emocional e moral dos filhos, e o perfil da mulher do
século XXI. Esta última, diferentemente daquela, vive a dissociação entre sexualidade e
procriação, a amplitude de possibilidades de relacionamentos amorosos, bem como a
busca pela realização e reconhecimento profissional.
Outro fato curioso é que, apesar de um número considerável dessas pesquisas
apontarem para uma incidência e prevalência de depressão puerperal de 12 a 20%, nas
mulheres ocidentais que têm um bebê, em nosso país, não foi desenvolvida nenhuma
política de saúde pública preventiva que preste informação sobre o tema, tampouco
foram efetivados programas sistematizados de suporte emocional às mulheres no
pós-parto.
Diante dessas questões, dediquei-me a buscar um ponto de vista diferenciado para
compreender o sofrimento vivenciado por essas mulheres. Observo, contudo, que minha
intenção não foi estudar a “depressão pós-parto” como categoria nosológica, explicável
a partir de uma perspectiva biológica/hormonal, conforme vem sendo encarada pela
medicina (uma vez que não me identifico com estas explicações). Também não me
apoio numa perspectiva psicodinâmica/psicanalítica, adotada pela maioria dos
psicólogos e psicanalistas, já que ela não me parece dar conta suficientemente bem do
Minha proposta é compreendê-lo a partir da análise crítica das nuances, dobras,
micro-vilosidades da sociedade burguesa moderna, que produz e mantém o modelo de
maternidade atual, campo no qual este sofrimento se forja e se desenvolve. Por esta
ótica, espero contribuir com os estudos atuais, bem como ampliar as possibilidades de
entendimento da questão e intervenção na área.
Para tanto, realizei, inicialmente, uma vasta revisão bibliográfica sobre o tema.
Minha experiência clínica com puérperas e gestantes, por sua vez, valeu-me como
referência central para elaborar reflexões acerca da bibliografia selecionada. Apesar de
não ter utilizado os relatos das pacientes, em consultório, como dados diretos da
pesquisa, fiz uso de algumas de suas falas para ilustrar as diversas facetas que compõem
o ciclo gestação-parto-puerpério.
A partir das observações que fiz em minha prática clínica e por acreditar que o
sofrimento da mulher burguesa moderna no pós-parto guarda estreita relação com o
contexto sócio-cultural no qual ela exerce sua maternidade, busquei conhecer a
experiência de mulheres que vivenciam a maternidade em um contexto bastante
diferente daquele por mim conhecido, até então: as Xavante.
Realizei, para tanto, uma pequena incursão a campo, com o objetivo exclusivo, é
importante ressaltar, de entrar em contato com uma experiência distinta de maternidade,
e não, de realizar uma pesquisa de campo propriamente dita com todos os elementos
metodológicos que a integram. Nesta incursão, servi-me da entrevista semi-estruturada
como instrumento de aproximação dos sujeitos. Os ricos relatos colhidos nesta visita,
que se deu por cinco dias, durante um evento realizado na Aldeia Cachoeira, foram
usados, pois, como exemplos de um modelo de experiência do ciclo
gestação-parto-puerpério que se contrapõe àquele vivido pela mulher burguesa, verdadeiro foco de
Outra fonte de dados que compõe minha análise acerca do fenômeno do
sofrimento no pós-parto, são informações coletadas na internet – na versão online de alguns veículos impressos de circulação nacional e regional, e num fórum virtual de
discussão – sobre o caso de uma mãe (Simone) que recentemente abandonou seu bebê
na Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte.
Ao longo da dissertação, estabeleci um diálogo permanente entre os dados
oriundos das diversas fontes às quais recorri – a bibliográfica, o contato com os
Xavante, as matérias jornalísticas dos sites da internet, os depoimentos dos participantes do citado fórum virtual e os atendimentos em consultório – o que subsidiou minhas
reflexões de cunho teórico.
Estruturei este trabalho em cinco capítulos, somados às notas conclusivas. No
Capítulo 1, dediquei-me à reflexão sobre os aspectos históricos, sociais e culturais, que
influenciaram a construção do modelo burguês de maternidade contemporânea. Para
tanto, explorei de que modo as ciências naturais, marcadas pelo determinismo
biológico, produziram as ditas verdades científicas sobre as diferenças genéticas entre
homens e mulheres, que justificam as desigualdades sociais, definem os papéis de
gênero e reproduzem as relações de poder entre eles e elas.
Essa “política de verdades” (Foucault, 1979/2005) define o que é ser mulher e o
que é ser mãe, a partir de valores biologicistas e sexistas, que associam a maternidade à
propagada natureza da mulher. Com a intenção de desconstruir vários desses discursos,
que possuem a força de mito – o amor materno instintivo, a maternidade como caminho
para a realização plena das mulheres e, especialmente, o sofrimento no pós-parto como
sintoma de uma doença – associei-me às idéias de autoras como Mead (1935/1988),
Beauvoir (1949/1980), Badinter (1980/1985), Chodorow (1978/1990), Forna
Também me propus a explorar como a medicina, por intermédio de seu ideal
higienista, penetrou nas famílias e estabeleceu novos papéis para as mães e pais
burgueses desde o século XIX no Brasil. Pesquisei, sobretudo, os objetivos que
motivaram o nascimento da ginecologia, que disciplinou o corpo da mulher, e da
puericultura, que normatizou os cuidados com as crianças.
No capítulo 2, elaborei uma reflexão sobre o modo pelo qual os membros da
sociedade burguesa contemporânea percebem e avaliam as mulheres cujo
comportamento em relação ao filho se opõe à crença do amor materno instintivo, ou
seja, “o mito do amor materno”. Refiro-me, então, àquelas que, nos dias atuais,
abortam, abandonam ou entregam o filho para adoção. Analisei um caso em particular,
denominado nesta dissertação de “Caso Simone”, que foi amplamente explorado pela
mídia e causou grande mobilização na opinião pública.
A escolha deste evento como objeto de análise, se deu principalmente, porque
Simone tornou-se alvo do julgamento social e da discussão de profissionais ligados à
saúde mental e ao direito, que buscaram explicações para seu comportamento, que
contrariou a suposta natureza da mulher e, portanto, foi considerado anormal. Ao
estudar o material veiculado na internet sobre o caso, tive o intuito de detectar as reações do público em geral e dos especialistas, em relação ao ato praticado por Simone.
Tais informações valeram-me como elementos de confrontação com as evidências
bibliográficas, as quais demonstram que, em outro contexto social, político e econômico
da nossa história, as mulheres que abandonavam seus filhos eram tratadas de forma
bastante distinta da atual.
No capítulo 3, iniciei a discussão, mais específica, sobre o sofrimento psíquico
da mulher burguesa moderna no pós-parto. Para tanto, explorei como a medicina, a
perfeição universal, fomentou, de modo particular, a antiga concepção do corpo
defeituoso da mulher. Corpo este cujas peculiaridades e diferenças, percebidas pelo viés
da deficiência, submeteria as mulheres a uma grande fragilidade emocional, a qual seria
responsável, por conseguinte, pela ocorrência de diversos distúrbios psiquiátricos,
inclusive a “depressão pós-parto”.
Embora a literatura psiquiátrica reconheça a existência de uma depressão
diretamente associada ao evento do parto, a versão mais atual do manual que é a
referência basilar para a identificação e o tratamento de doenças psíquicas, o
“Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais” (DSM) da Associação Americana
de Psiquiatria, não cria categorias nosológicas específicas para esta suposta patologia.
Aproveitei, então, esta contradição, para desenvolver questionamentos acerca do
modelo biomédico, que medicaliza e patologiza o sofrimento no pós-parto. Propus,
assim, outra maneira de enxergar o fenômeno, segundo a qual este sofrimento pode ser
entendido como parte integrante da vivência da maternidade contemporânea, ou seja,
ele seria uma das suas muitas facetas.
No capítulo 4, com o intuito de identificar e elaborar argumentos teóricos que
pudessem sustentar esta proposta, dediquei-me a uma reflexão sobre os valores e a
condição de produção material e simbólica da sociedade moderna, a partir dos quais a
mulher burguesa se subjetiva e vivencia o ciclo gestação-parto-puerpério. Baseei-me,
para tanto, em autores contemporâneos que criticam fortemente esta sociedade e seus
pilares, como Foucault (1972/1995 e 1979/2005), Baudrillard (1976/1996 e 1999/2002)
e Bauman (1991/1999 e 1997/1998).
O capítulo 5 resulta do contato que tive com os Xavante e das observações que fiz
a respeito da vivência do ciclo gestação-parto-puerpério em sua cultura. Como já
variadas que possibilitassem ampliar meu olhar crítico acerca do sofrimento vivido pela
mulher burguesa urbana no pós-parto.
Assumi como pressuposto básico desta dissertação a idéia de que o modelo de
maternidade e de maternagem predominantes em um grupo social está diretamente
associado ao seu contexto histórico, a seu modo de produção econômico e simbólico,
seus interesses dominantes naquele momento e às questões de gênero. Por este motivo,
optei por estudar e me inserir em uma cultura que possui uma organização social,
política e econômica bastante distinta da sociedade urbana moderna. Sendo assim, não
acolho as teorias que percebem a maternidade como simples conseqüência de
fenômenos ditos inerentes à natureza feminina e aos instintos presentes nas fêmeas em
geral.
Meu objetivo no contato com este grupo social foi, portanto, mostrar que não há
universalidade na vivência da mulher no pós-parto e, por conseqüência, nos sentimentos
que emergem nesse período. Isto me forneceu subsídios para sustentar a crítica ao
modelo biomédico, que associa a causa da “depressão pós-parto”, predominantemente,
às alterações ou disfunções fisiológicas. Ao conviver diretamente com membros desta
cultura e tentar estabelecer com eles um diálogo intercultural, ainda que preliminar, tive
oportunidade de deslocar meu olhar e assim, enxergar a experiência da maternidade sob
uma perspectiva bastante diversa daquela instaurada como única referência e modelo
para nós, à medida que pude apreender a dimensão relativizadora dessa aproximação.
Para tanto, busquei conhecer os rituais e costumes relacionados com o ciclo da
gestação-parto-puerpério, a compreender a participação da família e da comunidade no
parto, nos cuidados dedicados à puérpera e ao bebê e sondar se as mulheres desta
cultura experimentam algum sentimento de tristeza e angústia no pós-parto, ou ainda, o
bebê. Ou seja, procurei identificar a existência de manifestações que freqüentemente são
definidas por nosso modelo biomédico como sintomas da “depressão pós-parto” e
auxiliam em seu diagnóstico.
Minha visita à Aldeia Xavante Cachoeira, Terra Indígena de Areões, foi
viabilizada por intermédio de um contato feito com o Instituto Sociedade População e
Natureza (ISPN)1, responsável por um projeto de revitalização da alimentação
tradicional junto às mulheres Xavante, realizado pela Associação Xavante Warã2.
Acompanhei uma das fases deste projeto, ocorrida no período entre 17 a 20 de maio de
2006. O encontro reuniu 38 mulheres Xavante, de diversas aldeias, oriundas de quatro
Terras Indígenas diferentes: Sangradouro; Areões; São Marcos e Pimentel Barbosa. A
maioria delas não falava português, o que impossibilitou a minha comunicação direta
com elas.
Entrevistei, com certa dificuldade de comunicação, quatro mulheres e quatro
homens, que vivem em seis aldeias diferentes, situadas nas seguintes Terras Indígenas
(TI): Areões (Aldeias Cachoeira, Dois Galhos e Mutum); Sangradouro (Aldeia
Abelhinha) e São Marcos (Aldeias Auxiliadora e Guadalupe). Também entrevistei o
padre salesiano Bartolomeu Giaccaria, que convive e trabalha com o povo Xavante há
50 anos. Este religioso é, hoje, autor de vasta literatura, editada no Brasil e no exterior,
sobre esta cultura.
A pesquisa foi realizada a partir de entrevistas semi-estruturadas, conduzidas de
acordo com a disponibilidade de tempo e interesse dos entrevistados para responderem
1 O ISPN é uma Organização não- governamental, sediada em Brasília, que é responsável pela coordenação técnica e administrativa
de “Programas de Pequenos Projetos Eco-Sociais” (PPP Ecos) financiados pelo Banco Mundial.
2
às questões. Enquanto alguns deles demonstraram pouca receptividade e vontade de
elaborar as respostas, outros transcenderam o conteúdo principal em falas bastante
complexas e detalhadas.
O contato com as mulheres Xavante foi bastante difícil, mesmo com aquelas que
falavam português. Elas evitavam conversar comigo e pediam para que eu procurasse
uma Xavante que havia feito curso de auxiliar de enfermagem, como se apenas ela
estivesse “autorizada” a falar com os brancos sobre gestação, parto e pós-parto. O
motivo desta resistência foi-me esclarecido posteriormente por um Xavante, que me
disse: “eles não gostam de pesquisadores porque eles vêm aqui, pesquisam e depois vão
embora, não voltam nunca mais e ainda querem levar os nossos segredos”.
A intenção inicial era gravar integralmente as entrevistas e tomar nota por escrito
apenas de informações adicionais, o que não foi possível, uma vez que três dos
entrevistados me pediram para não usar o gravador. Cinco entrevistas, portanto, foram
gravadas, e as outras três, como os entrevistados falavam português com dificuldade e
lentamente, foram anotadas na íntegra. Foram utilizados nomes fictícios com a intenção
de preservar o anonimato dos entrevistados.
Por fim, no capítulo 6, tracei um paralelo entre os valores e costumes que
marcam a vivência da gestação, do parto e do puerpério nas mulheres Xavante e nas
mulheres burguesas urbanas modernas. Esforcei-me em compreender as peculiaridades,
de cada uma dessas culturas, que influenciam as diversas dimensões que compõem a
experiência da maternidade no pós-parto, inclusive aquelas geradoras de sofrimento
entre nós.
Diante da necessidade de dedicar um espaço, na estrutura desta dissertação, para
apresentar minhas conclusões sobre a função e o sentido que o sofrimento vivido pela
Conclusivas”. Neste espaço, inspirada na teoria de Baudrillard (1976/1996 e 1999/2002)
acerca da negação de determinados fenômenos simbólicos e essenciais pela sociedade
moderna, apresentei minha proposta de entendimento da chamada “depressão
pós-parto”.
Em suma, contrariamente à visão psicopatologizante, hoje hegemônica entre
nós, cheguei ao entendimento de que tal “depressão” pode ser um dos únicos meios
encontrados pela mulher moderna para lidar com o lado sombrio da experiência da
maternidade e expressar sua dor, a qual foi socialmente banida das trocas simbólicas na
Capítulo 1 – A construção do modelo burguês de maternidade
1.1 - A mulher marcada pelo determinismo biológico
A Biologia, como nenhum outro campo da Ciência, exerce um enorme impacto
social no mundo moderno, em especial a perspectiva do determinismo biológico
(Lewontin, Rose & Kamin, 1984). Suas conquistas têm extrapolado o campo
estritamente biológico e influenciado as Ciências Sociais, de modo que muitas das
proposições das Ciências Biológicas vêm sendo utilizadas para explicar as complexas
relações entre os seres humanos e, de modo mais abrangente, entre populações humanas
em sua diversidade (Souza, 2005). Em particular, ao longo dos séculos, têm sido
produzidas “verdades biológicas” sobre a “natureza” dos homens e mulheres,
justificando supostas diferenças comportamentais e cognitivas.
Em 2004, foi lançado no Brasil o livro “Diferença Essencial”3, do psicólogo e professor da Universidade de Cambridge na Inglaterra, Baron-Cohen, no qual o autor
cita mais de 400 artigos científicos, predominantemente das áreas de Neurociência e
Psicologia. Tais artigos sustentam a idéia de que as diferenças anatomo-fisiológicas
existentes entre os cérebros de homens e mulheres explicam uma maior aptidão dos
homens para tarefas que exijam compreensão e criação, bem como para lidar com
máquinas, computadores, sistemas abstratos, música e política. Por outro lado, explicam
uma maior aptidão das mulheres para as áreas ligadas à comunicação e empatia.
É inegável que caracteres biológicos diferenciam os dois sexos, o que lhes
confere, até certo ponto, peculiaridades associadas a aspectos reprodutivos, biométricos
e, até mesmo, a suscetibilidades diferentes em determinadas condições ambientais. No
entanto, quando se defende que as diferenças comportamentais entre os gêneros, suas
3
capacidades diversas, variações das habilidades, padrões cognitivos ou até mesmo sua
orientação sexual podem ser definidas pelos genes, hormônios, ou circunvoluções
cerebrais, configura-se o que vem sendo definido como determinismo biológico (Souza,
2005).
Conforme esta visão determinista, a identidade feminina ou masculina, uma vez
subordinada ao biológico, pouco ou nada teria de construto social. As diferenças entre
os gêneros, portanto, seria algo imutável, uma vez que estariam associadas à natureza,
concebida, por sua vez, de modo estático e fixo. Este argumento vem sendo utilizado
para justificar uma série de preconceitos a respeito da inexorabilidade dos destinos das
pessoas. Sendo assim, o determinismo biológico tem estado a serviço da supremacia dos
machos, como também de raças e de classes, mantendo e justificando as desigualdades
sociais, em especial em sociedades liberais e neoliberais (Lewontin e cols., 1984).
Um bom exemplo do uso de tais teorias encontra-se nas idéias dos biólogos e
médicos do século XIX. Uma delas afirmava que o cérebro da mulher era menor que o
do homem, o que se articulava com a idéia de que os ovários e útero exigiam muita
energia para a reprodução. Devido a esses “achados científicos”, os administradores
públicos defendiam que meninos e meninas tivessem acesso diversificado à
escolaridade, já que elas deveriam ser mantidas longe das escolas e faculdades, sob pena
dos seus genitais se atrofiarem em função da energia requerida para aprender, pondo em
risco o futuro da humanidade (Souza, 2005).
É importante assinalar que, não por coincidência, essas vertentes teóricas
biologicistas e seus desdobramentos nas Ciências Sociais se consolidaram no século
XIX, momento em que ocorreram também grandes mudanças na divisão do trabalho
igualdade entre os sexos em relação ao acesso à educação, à oportunidade de trabalho e
ao sufrágio universal (Souza, 2005).
Ao contrário do que se possa supor, a crença no determinismo biológico associado
às diferenças entre os gêneros não se perdeu no tempo, nem tampouco foi superada
pelas revoluções sociais. Um fato recente, ocorrido em janeiro de 2005, demonstra bem
como argumentos relacionados às diferenças biológicas entre os sexos permanecem
sendo utilizados para justificar as desigualdades sociais.
Lawrence Summer, reitor da Universidade de Harvard nos Estados Unidos,
declarou, em conferência sobre “mulher e ciência”, que as diferenças inatas entre os
sexos explicariam o porquê de as mulheres não serem tão bem sucedidas nas ciências
quanto os homens. Segundo ele, a mulher não se desenvolve de forma semelhante ao
homem, ou até superior a ele, na carreira científica, devido à sua menor aptidão
biológica para matemática e ciências, bem como às suas obrigações como mãe (Folha
de São Paulo, caderno Sinapse, 25/10/2005, p.13).
Apesar de esta declaração ter causado um escândalo no meio acadêmico e
suscitado contraposições indignadas das feministas, a ponto de Lawrence ter sido
“obrigado” a se desculpar publicamente, diariamente é possível encontrar exemplos de
matérias publicadas nos veículos de comunicação que divulgam “novos dados
científicos” dessa natureza. Ou seja, dados que reafirmam as bases biológicas das
peculiaridades comportamentais e cognitivas entre homens e mulheres.
Conforme afirma a professora Maria Teresa Citeli, do Departamento de Política
Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Universidade de Campinas:
hormônios. Ainda hoje, encontramos com freqüência esse tipo de afirmação científica estampada em notícias de jornal. Olhar para esse passado nos ajuda a lembrar que esses resultados, tidos à época, como comprovação da inferioridade feminina eram reflexos de consensos entre cientistas imersos num contexto social permeado de preconceitos (...) Apesar do determinismo biológico seduzir muita gente, até mesmo cientistas, a comprovação das bases biológicas somente seria possível depois de superados os obstáculos de natureza sociocultural, muito evidentes e tão difíceis de combater” (Folha de São Paulo, caderno Sinapse, 25/10/2005, p.13).
Apesar do questionável valor deste tipo de pesquisa, seus resultados são
freqüentemente divulgados em jornais e revistas nacionais de grande alcance, o que
significa dizer que estas informações se disseminam de forma rápida e passam a ser
assimiladas pelo discurso da população em geral, a qual desconhece os interesses que
governam estas pesquisas e sua divulgação. Ainda mais grave é o fato de que os
consumidores destas informações, via de regra, não questionam a veracidade das
mesmas; influenciados pelo paradigma positivista, permanecem acreditando na
existência de uma “neutralidade científica” que supostamente orientaria esses trabalhos,
bem como supervalorizam os pesquisadores das Ciências Naturais, conferindo-lhes
poder e autoridade inquestionável.
Um estudo do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento chegou a resultados
alarmantes sobre o trato que a mídia confere ao tema. Tal estudo analisou 646 matérias
publicadas em quatro dos principais jornais diários brasileiros, no período
compreendido entre julho de 1996 e junho de 1998, com o objetivo de monitorar a
mídia brasileira, ao tratar temas científicos, o faz com excessiva simplificação; não
divulga as controvérsias; apresenta o novo dado como verdade ou descoberta definitiva;
toma as correlações como relações de causa e efeito; altera título e conteúdo dos
resultados das pesquisas e empresta às interpretações dos dados um viés de gênero
(Souza, 2005).
Conforme este estudo, a mídia, em geral, privilegia a divulgação das pesquisas que
despertam o interesse do consumidor, ávido por “resultados científicos” que ratifiquem
suas crenças e preconceitos acerca das diferenças, ditas naturais, entre homens e
mulheres. Ainda como estratégia mercadológica, os veículos freqüentemente distorcem
os resultados das pesquisas científicas e imprimem aos dados divulgados um tom
sensacionalista e reducionista. Além disso, os próprios cientistas, algumas vezes,
simplificam seus achados, tornando-os mais acessíveis ao grande público, tanto para
tentar persuadi-lo, como para chamar a atenção das agências financiadoras.
Este processo de produção de conhecimento pela ciência, endossado por setores
específicos da sociedade e reproduzido no senso comum, é chamado por Foucault
(1979/2005) de “regime de verdade”. Segundo o autor, cada sociedade tem sua política
geral de verdade que consiste nos tipos de discurso que ela acolhe e que irão atuar como
verdadeiros; nos mecanismos e instâncias que permitem distinguir os enunciados
verdadeiros dos falsos; na maneira como se sanciona uns e não outros; nas técnicas e
nos procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade e no estatuto
daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro.
Nesse sentido, na sociedade moderna, a verdade está ligada a sistemas de poder
que a produzem e a apóiam, e a efeitos de poder, induzidos por ela, que a reproduzem,
num esquema que se retroalimenta. Assim, cientistas, homens em sua maioria,
justificam as diferenças sociais e definem todo o complexo de gênero – papéis sociais,
identidade sexual, inscrição afetiva no mundo, etc. (Segato, 1997) – que reproduz o
modelo hegemônico das relações de poder entre eles e fixa nas bases anatômicas de
macho e fêmea um conjunto de expectativas sociais.
Da mesma forma, em nossa cultura, o saber científico hegemônico vem
produzindo “verdades” sobre a mulher associadas à sua capacidade de procriar, parir,
amamentar e cuidar dos filhos, por exemplo: a maternidade como destino natural da
mulher; o amor materno como produto do instinto; a definição de comportamentos
maternos normais e patológicos; as normas para uma boa maternagem que garantirão o
desenvolvimento saudável dos filhos. Questões que exploro ao longo desta dissertação.
1.2 – Maternidade: natureza da mulher ou construção sociocultural?
Ao contrário do que acontece com o homem, a definição do que é ser mulher, em
nossa sociedade, está diretamente vinculada às suas características biológicas e, mais
especificamente, à sua capacidade de procriar. Estas características são associadas à
essência da feminilidade e vêm sendo usadas para justificar as construções dos papéis
de gênero, sustentadas pela ideologia dominante da sociedade burguesa moderna.
Os traços anatômicos contribuem para uma visão dicotômica dos dois sexos e
facilitam a naturalização das distinções das tarefas e posições sociais relativas aos
homens e às mulheres, incluindo-se aí as responsabilidades de cada um em relação à
criação dos filhos. Esse fato é definido por Bourdieu (1998/2003) como “socialização
do biológico” e “biologização do social”. O autor explica o fenômeno a partir da
construção de uma relação de causalidade circular. Se, por um lado, o social constrói a
própria diferença entre os sexos biológicos conforme uma visão androcêntrica de
por outro, a diferença biológica e anatômica entre homens e mulheres, explicitada nos
corpos e nas funções sexuais, é usada como justificativa natural da diferença social
construída e da dicotomia entre os gêneros.
Na perspectiva de Bourdieu (1998/2003), a divisão entre os sexos é inscrita dentro
da ordem das coisas, dentro daquilo que é considerado normal e natural, uma vez que se
funda no que é visto enquanto imutável e essencial na diferenciação entre homem e
mulher: o corpo. A definição do feminino, a partir da anatomia e da capacidade de gerar
e nutrir, produz a idéia de que o comportamento normal e natural da mulher é ser,
exclusiva ou prioritariamente, mãe (Costa, 2004).
Dessa forma, apesar das experiências da maternidade e da gravidez serem
experiências sociais, elas são percebidas pelos indivíduos como meramente naturais.
Bourdieu (1998/2003) defende que tais fenômenos são, na verdade, produto de uma
imposição social que se efetiva por meio do processo de formação e educação, como
por exemplo, a divisão sexual do trabalho. Isso ocorre pelo fato de esses fenômenos
estarem presentes de forma marcante e objetiva no mundo social e por terem sido
incorporados à própria estrutura cognitiva das pessoas, de tal modo que são concebidos
como sistema de categorias de percepção e ação. O arbitrário torna-se, então, necessário
e assume, assim, a aparência de natural.
Simone de Beauvoir, importante autora feminista, trabalhou em prol da libertação
feminina com relação a qualquer tipo de predeterminação em seu processo de
subjetivação, inclusive aquele que restringe o feminino à maternidade. A autora
(1949/1980) defende em sua obra que fenômenos ideológicos imputam um conjunto de
tarefas, papéis sociais e formas de subjetivação às mulheres, de tal modo que elas os
assumem como verdades axiomáticas e passam a se constituir de acordo com essas
diferencia-se em relação ao homem e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial
perante o essencial. O homem é o sujeito, o Absoluto; ela é o Outro” (p.10).
Ainda segundo a autora, não é possível obrigar uma mulher a assumir a
maternidade, no entanto, o que se pode fazer é cercá-la por uma realidade em que o
tornar-se mãe é a única saída que lhe resta. São citados os costumes do casamento, a
proibição dos anticoncepcionais, do aborto e do divórcio como alguns dos artifícios
utilizados para a construção deste cerco. A mulher se vê sem alternativas, a não ser
cumprir o destino que lhe é socialmente imposto: a maternidade.
É verdade que Beauvoir (1949/1980) analisou a realidade feminina em função do
contexto da década de 60, no entanto, ao longo das décadas, outras autoras como Chauí
(1985), Badinter (1980/1985), Segato (1993 e 1997) continuaram denunciando a
“armadilha social” a qual a mulher vem sendo submetida há séculos. Ou seja, as
ideologias dominantes condenam as mulheres a assumirem, como atribuição da
natureza, o que é da ordem de uma construção histórico-social.
Para Chauí (1985), a subjetividade da mulher vem sendo outorgada socialmente,
já que a forma e o conteúdo das vivências femininas, como a própria maternidade,
nunca foram determinados pelas próprias mulheres, ao contrário, sempre foram
externamente determinados pela cultura, guiados por valores patriarcais e sexistas.
Segato (1993 e 1997), objetivando impedir que a “pseudo-natureza” construa
identidades fixas para os homens e para as mulheres, elabora um modelo sofisticado
para a compreensão de gênero, composto por seis níveis independentes4. Este modelo permite que enxerguemos a circulação dos sujeitos por esses níveis, de forma que
homens e mulheres adquiram a possibilidade com relação à ocupação variada de papéis
4
e lugares que lhes estão disponíveis na sociedade, favorecendo também esta permuta no
registro afetivo.
1.3 - A maternagem como construção social
As pesquisas baseadas na análise de fatos históricos e de estudos etnográficos,
voltados para a apresentação da diversidade cultural, oferecem argumentos para
desmontar a associação entre a biologia da mulher e seu destino, seus papéis sociais
tradicionais e seu lugar de submissão em relação ao homem. Do mesmo modo,
contribuem para desconstruir uma forte relação entre a capacidade que a mulher tem de
gestar, parir e amamentar, e a suposta natureza feminina que a impele, inexoravelmente,
para a maternidade.
Na década de 40, Margaret Mead (1935/1988) realizou um estudo sobre o
temperamento dos habitantes de três tribos que habitam ilhas do Pacífico e constatou
que o padrão de maternagem e paternagem, bem como a importância dada à criança,
variavam entre os povos dessas ilhas. A título de exemplo, citarei algumas das
características observadas pela pesquisadora.
Os Mundugomor recebiam a notícia da gravidez com desgosto; os membros da
comunidade se afastavam do casal que estava esperando um bebê; as mulheres não
gostavam de amamentar; a relação entre mãe e filho era marcada pela impaciência e por
ressentimentos. Os Arapesh devotavam atenção especial às crianças, procurando
deixá-las sempre confortáveis e bem alimentadas. As mulheres Tchambuli desenvolviam forte
laço de solidariedade; a responsabilidade pela alimentação e pelo cuidado da prole era
dividida entre as diversas esposas do pai das crianças.
A partir dos resultados desta pesquisa, a autora concluiu que não é possível
desde o nascimento, diferentes papéis sociais e expectativas são atribuídos a cada sexo
de acordo com os valores da cultura na qual se encontram.
Badinter (1980/1985), no livro “Um Amor Conquistado: o mito do amor
materno”, reconstruiu a história do comportamento da mulher francesa em relação à
maternidade a partir de relatos, apontamentos oficiais das prefeituras das cidades,
cartas, obras literárias e pinturas. Nessa pesquisa, a autora encontrou, ao longo dos
séculos, uma grande variação nas atitudes das mulheres em relação aos seus filhos. Em
toda a Idade Média e mesmo na Antiguidade, a maternidade foi socialmente
desvalorizada; esta situação se transformou apenas no século XVIII, a partir do
Iluminismo, quando a vida da criança e, por conseqüência, os cuidados maternos
ganharam um novo valor social.
A partir da reconstrução deste percurso histórico, Badinter (1980/1985) elaborou
uma argumentação que desnaturaliza o amor materno. Segundo a autora, nem sempre as
mães foram tão dedicadas à maternagem como tendemos a acreditar quando nos
limitamos a pensar o conceito de maternidade a partir do modelo atual.
Badinter (1980/1985) adotou a prática da amamentação como principal referência
para exemplificar que a preservação da prole não foi, por muito tempo, prioridade para
as famílias. A forma como as francesas lidavam com a nutrição e os cuidados com seus
filhos variou de acordo com a época, a classe social a que pertenciam, os valores sociais
e culturais de cada classe, a importância dada à sobrevivência das crianças pelas
instituições sociais, dentre outros fatores. Durante o período estudado pela autora, o
comportamento das mães variou entre: a) amamentar o bebê ao seio; b) contratar uma
ama-de-leite que morava na casa da família, amamentava e cuidava do bebê como uma
mãe substituta; c) enviar o bebê para a casa de uma ama-de-leite mercenária que
A primeira agência de amas-de-leite de Paris data do século XIII e servia
exclusivamente à aristocracia, permanecendo assim até o fim do século XVI. Durante
este período, as mulheres ricas traziam as amas para trabalhar em suas casas,
afastando-as de seus filhos biológicos, que ficavam sem mamar, entregues à própria sorte.
No século XVII, generalizou-se entre a burguesia o comportamento de deixar os
filhos recém-nascidos nas casas das amas-de-leite para que fossem cuidados por elas. Já
no século XVIII, esse costume se estendeu por todas as camadas da sociedade urbana,
de tal modo que, em 1780, das 21.000 crianças que nasceram em Paris, 19.000 foram
enviadas para a casa das amas e ali ficaram até os quatro ou cinco anos. Das outras
2000 crianças, metade foi amamentada pela própria mãe e a outra metade por
amas-de-leite no domicílio do bebê, hábito comum entre a nobreza e alta burguesia.
Para Badinter (1980/1985), os dados epidemiológicos da França nos séculos XVII
e XVIII exemplificam bem o valor que a vida dos filhos tinha para os pais. Na cidade
de Lyon, tanto burgueses quanto artesãos perdiam cerca de 2/3 de seus filhos sob os
cuidados das amas de leite e, apesar desta alta taxa de mortalidade, o hábito das mães de
entregar o filho para outra mulher criá-lo não era condenado pela ideologia moral ou
social. As crianças não eram consideradas únicas e insubstituíveis, como ocorre na
sociedade burguesa contemporânea e sua morte era sentida como um acidente quase
banal, reparado pelo nascimento de outro filho.
As crianças da burguesia e da aristocracia, que sobreviviam e retornavam da casa
das amas para a casa dos pais com quatro ou cinco anos de idade, eram entregues, se
menina, aos cuidados de uma governanta e, se menino, a um preceptor que, na maioria
das vezes, não passava de um empregado comum. Entre oito e dez anos, os meninos
eram mandados para um internato e as meninas para um convento, sendo assim, a
Segundo Badinter (1980/1985), esses dados parecem mostrar que a mãe, quando
não sofre nenhuma pressão ideológica, não é impelida por um instinto ou amor natural a
cuidar do filho e a se sacrificar por ele. A autora diz que “veremos que se tornará necessário, no final do século XVIII, lançar mão de muitos argumentos para convocar a mãe para sua atividade ‘instintiva’. Será preciso apelar ao seu senso do dever, culpá-la e até ameaçá-culpá-la para reconduzi-culpá-la à sua função nutritícia e maternante, dita natural e espontânea” (p.144).
Portanto, o que se pode depreender deste percurso histórico é que o
comportamento da mulher em relação aos filhos e os papéis por ela exercidos na família
não parecem ser biologicamente determinados, pelo contrário, variam em função das
diferentes épocas e contextos, respondendo a interesses econômicos, demográficos e
políticos, além de serem influenciados por fatores oriundos da luta entre os sexos. Ou
seja, os papéis de pai, mãe e filho são determinados em função das necessidades e
valores dominantes em uma dada sociedade.
1.4 - A construção da “boa mãe” rousseauniana
No final do século XVIII, a criança adquiriu um valor mercantil, uma vez que o
ser humano converteu-se em provisão preciosa para o Estado, não só porque produzia
riquezas, mas também porque era uma garantia de poderio militar. Sendo assim, o
Estado passou a se preocupar com as “perdas demográficas” e o novo imperativo
passou a ser a sobrevivência da criança na primeira etapa de vida, que tinha sido
negligenciada até então.
Com o objetivo de convencer as mães a cuidar pessoalmente de seus filhos e
amamentá-los, os Estados Nacionais iniciaram, por intermédio dos médicos e
duzentos anos depois: o do instinto materno, ou do amor espontâneo de toda mãe pelo
filho (Badinter, 1980/1985).
Rousseau, filósofo iluminista, foi o precursor dessa nova mentalidade, que ainda
influencia os ideais de maternidade perfeita. A partir de sua obra Émile, de 1762, o
autor “construiu” a mulher ideal por intermédio da personagem Sophie, esposa e futura
mãe dos filhos de Émile. Ele pensava a diferença sexual apenas sob a forma de
complemento, sendo a mulher essencialmente relativa ao homem. A natureza feminina
era definida por ele como fraca, passiva e criada para “complementar” a masculina,
percebida como forte, ativa, corajosa e inteligente.
Para o autor, a mulher foi feita especialmente para agradar ao homem e se
subjugar a ele, cedendo e suportando todas as situações. A mulher, por sua natureza, foi
feita para ser boa esposa e mãe, vivendo pelo marido e para os filhos, seguindo o
exemplo da Virgem Maria (Paiva, 1990). Para Badinter (1980/1985), na verdade,
Rousseau descreveu a mulher burguesa de seu tempo.
O pensamento de Fontenay (1976) reflete bem essa mentalidade: “a feminilidade é inencontrável (...) Só o homem detém a faculdade dos princípios, e por isso constitui-se em fim absoluto” (conforme citado Badinter por 1980/1985, p. 242). A visão de mulher como “o outro” será, no século XX, um dos temas mais combatidos pelos movimentos
feministas.
A partir desse modelo de mulher ideal, Rousseau construiu a mãe ideal que
deveria ter um corpo robusto (biologicamente perfeito para as funções de procriar e
amamentar) e um caráter doce (para tudo suportar e educar bem seus filhos com doçura,
zelo e afeição). Como boa mãe, deveria ignorar o prazer e a agressividade, portanto, não
poderia ser voluntariosa, orgulhosa, enérgica e egoísta, tampouco deveria se aborrecer
Para Rousseau, a mulher seria a única pessoa a mandar em casa, mas seu poder se
limitaria ao espaço doméstico. Ele assemelhava a casa ao convento – lugar sagrado e de
reclusão onde os filhos seriam criados. A maternidade era entendida como sacerdócio,
uma experiência feliz, mas que implicava necessariamente em dores e sofrimento,
pensamento que remete à famosa máxima: “ser mãe é padecer no paraíso”.
Para convencer as mulheres a seguir a “teoria rousseauniana da maternidade”, os
moralistas, administradores e médicos não utilizavam a linguagem do dever, da
obrigação ou do sacrifício, nem sequer apelavam para as necessidades de crescimento
populacional. Ao contrário, lançavam mão de um argumento extremamente sedutor – o
discurso da felicidade e igualdade, que persistiu por quase dois séculos. Este discurso
“vendia” para a mulher a idéia de que se ela fosse boa mãe seria feliz e respeitada e, se
ela se tornasse indispensável à família, obteria o direito à cidadania.
Segundo Badinter (1980/1985), as mulheres, sem dúvida, foram influenciadas por
essas idéias. No entanto, a rapidez e a intensidade com que o fenômeno ocorreu
dependeram das possibilidades econômicas e da posição social. As pequenas burguesas,
em sua maioria, acataram prontamente seu novo papel. Entretanto, não o fizeram
motivadas pelos interesses sociais e econômicos do Estado e, sim, porque vislumbraram
a possibilidade de assumir um novo lugar na família e na sociedade.
Muitas mulheres, sobretudo as aristocratas, apenas simularam acatar o discurso
hegemônico, sem modificar sua antiga rotina; estas mães continuaram a contratar
amas-de-leite que assumiam totalmente o cuidado de seus filhos. Aquelas que abertamente
resistiram à mudança de comportamento foram, no entanto, bastante combatidas.
Badinter (1980/1985) nos diz que, mesmo que o comportamento de algumas
famílias em relação a seus filhos tenha demorado a se alterar, a ideologia que associa o
mentalidades” (p.101), de modo que a imagem de mãe, seu papel e sua importância modificaram-se radicalmente. Mesmo que a propaganda intensiva de Rousseau não
tenha convencido todas as mulheres a se tornarem mães dedicadas, seu discurso teve
um poderoso efeito: contribuiu fortemente para a instalação do sentimento de culpa nas
mulheres.
Para a autora, se, por um lado, algumas mulheres ganharam um status importante na sociedade e na casa, por outro, os discursos autoritários e enfáticos sobre a condição
materna criaram um mal estar inconsciente. A pressão ideológica foi tão grande que
muitas se sentiram obrigadas a exercer a função materna mesmo sem desejá-la, vivendo
a maternidade sob o signo da culpa e da frustração, o que pode ter sido “a origem da infelicidade e da neurose de muitas mães e crianças” (p.102). Todavia, os pensadores do século XIX e XX realmente não se preocuparam com isso.
1.5 - O espaço privilegiado da criança
Até o século XVII, a vida da criança pequena – o infante ou lactente – valia muito
pouco e não havia para ela um espaço social particular, de tal forma que compartilhava com
os adultos o trabalho cotidiano, os jogos de diversão, o padrão de vestuário e até mesmo o
ambiente onde ocorriam as práticas sexuais (Ariès, 1973/1978).
A indiferença para com as crianças mostrava-se pela velada tolerância em relação ao
infanticídio que, mesmo sendo considerado prática criminosa, persistiu até o final do século
XVII. Vale observar aqui a semelhança com o que ocorre atualmente no Brasil em relação ao
aborto provocado que, apesar de ser definido no código penal como crime contra a vida,
continua sendo praticado em “segredo”.
Naquela época, era relativamente comum a ocorrência de morte de bebês por asfixia
seguidas advertências das autoridades sociais a respeito do perigo que representava colocar o
bebê para dormir na cama dos pais.
Esse descaso em relação à criança começou a se modificar à medida que as elites
burguesas, preocupadas com uma suposta queda nas taxas populacionais e convencidas de
que a riqueza e a segurança do Estado dependiam do número de súditos, passaram a buscar os
meios para estimular o aumento da população. Sendo assim, a progressiva valorização social
da criança se deu motivada pelos ideais iluministas e pela preocupação com o crescimento
demográfico.
As mães foram, aos poucos, persuadidas por argumentos que exaltavam a necessidade
de se ocuparem diretamente de seus filhos desde os primeiros dias de vida. A sociedade em
geral passou a alimentar sentimentos de compaixão em relação aos bebês pobres e
abandonados. Os governantes de algumas nações européias começaram a desenvolver
políticas de combate a mortalidade infantil.
Marques (2001), no entanto, adverte que o mito do despovoamento, ou o temor da
diminuição da população, é uma idéia que parece ter sido obra de filósofos (Montesquieu,
Voltaire, Rousseau), transformada em argumentos pelos economistas fisiocratas5,
provavelmente com base em estimativas demasiado baixas. Da mesma forma, a autora
adverte que a ideologia defensora do amor à humanidade e da compaixão para com os
desafortunados estava alicerçada em uma política econômica racional e utilitária.
As mudanças gradativas no comportamento das famílias ocorreram concomitantemente
às transformações nos modos de produção dos bens materiais, à nova configuração social da
população repartida entre burguesia e proletariado, e à nova organização das cidades. A
família burguesa supervalorizava a vida privada, morava em bairros próprios onde se sentia
5
protegida da barbárie; cabia à mãe, por sua vez, se ocupar exclusivamente dos cuidados dos
filhos, e ao pai, proteger e prover a família (Ariès, 1973/1978). A mãe passou a ser porta-voz,
na família, do projeto de civilidade que o médico ilustre pregava, a educadora no lar, a
missionária do projeto burguês, transformando-se na defensora dos ideais iluministas dentro
da classe a que pertencia.
A estatística, com seus números muitas vezes questionáveis, também foi utilizada como
argumento junto às autoridades públicas para retirar as práticas popularizadas das mãos dos
agentes da comunidade e entregá-las ao domínio dos médicos, como, por exemplo, o
manuseio do parto e os cuidados da criança recém-nascida. Para tanto, os burgueses
iluministas denunciavam os curandeiros e as parteiras como detentores de práticas
ultrapassadas, não científicas e perigosas, que deviam ser substituídas por aquelas oriundas de
um aprendizado formal, fundamentadas no saber positivo, realizadas pelos médicos. Os
primeiros folhetos médicos condenavam vigorosamente parteiras, aias, nutrizes e mães,
responsabilizando-as pela transmissão das práticas populares e suas “crendices” entre as
gerações (Marques, 2001).
Neste contexto, a saúde da população ganhou uma dimensão que não existia na Idade
Média e passou a ser apreciada como questão social de importância estratégica para as
políticas de Estado. Este começou a se preocupar com questões sanitárias, a contabilizar
nascimentos e óbitos, a controlar os efeitos das epidemias, as condições dos hospitais e a
supervisionar e regulamentar as práticas médicas (Marques, 2001).
A medicina, pois, não permaneceu alheia ao processo iniciado pelo novo discurso
burguês que era, ao mesmo tempo, legislador, ético e pedagógico. Pelo contrário, passou a ser
juntamente com a educação, sua principal aliada. Assim, os impulsos procedentes da
filosofia, da pedagogia e da razão contribuíram para inserir na medicina um novo projeto
campo de atuação no interior das famílias, regulando até os mínimos atos privados que a
mulher exercia no seu cotidiano de mãe.
Ao longo dos séculos, a linguagem médica endureceu, passou do conselho à ordem, de
tal forma que no século XIX já não era mais permitido à mãe escolher entre os diversos
métodos de criação dos seus filhos. A natureza não mais deveria ser tomada como guia,
assim, o saber positivo passou a conduzir a relação mãe-bebê. O pensamento médico
polarizava, de um lado, a natureza, e a tradição; do outro, a razão, a técnica e o
comportamento moderno.
Em resumo, conforme Badinter (1980/1985), três discursos influenciaram, basicamente,
por quase dois séculos, o pensamento da classe burguesa a respeito do valor da criança, e
deram origem a um novo ordenamento familiar. Além disso, a transformação da relação da
mulher com a maternidade deu início à história da culpa materna, nos moldes como a
conhecemos hoje.
O primeiro deles, o discurso econômico, foi obra da demografia, a nova ciência do
século XVII. Esta propagou um discurso capitalista populacional, com argumentos sobre a
importância da quantidade de homens, em termos de preço e matéria-prima, como um recurso
precioso do Estado.
O segundo, o discurso iluminista, disseminou as idéias sobre igualdade, felicidade
individual e valorização do amor, na busca da evolução dos espíritos. Este discurso forçou o
compartilhamento entre o poder paterno e materno, operando mudanças nos costumes. A
procriação passou a ser o ponto alto do casamento: a partir do nascimento do filho, emergia a
nova responsabilidade dos pais e, por conseqüência, acentuava-se a responsabilidade materna
em detrimento da paterna.
O terceiro, o discurso dos intermediários, ou seja, o discurso que o Estado dirigia às
administradores, pedagogos e chefes de polícia – defendia a idéia de que a mulher era a
principal educadora do filho e a grande responsável pelo tipo de cidadão que ele viria a ser.
Por conseqüência, a mãe se tornou a interlocutora privilegiada destes profissionais, alvo tanto
de suas súplicas quanto de suas acusações.
1.6 - A transformação da maternagem no Brasil: da Colônia à República
O processo transformador da intimidade e dos sentimentos em relação à vida
familiar acompanhou, na Europa, a constituição dos Estados modernos, acentuando-se a
partir do período das revoluções liberais. O mesmo processo, no Brasil, seguiu a
passagem do país da condição de colônia de Portugal à nação livre e soberana (Araújo
& Moura, 2003). Apresento, a seguir, como ocorreu esta transição tendo como base a
obra de Jurandir Freire Costa: Ordem médica e Norma familiar(1979/1999).
Durante os três primeiros séculos de colonização, Portugal manteve uma política
de exploração do Brasil, visando o lucro sem fazer investimentos. Para isto, estimulou a
iniciativa privada dos colonos. A família colonial brasileira construiu uma ordem social
e econômica baseada nos seus interesses e a intervenção da coroa portuguesa apenas
ocorria em situações graves de ameaça ao seu poderio. Como conseqüência desta
política, os grandes latifundiários acumularam poder suficiente para competir com os
próprios interesses de Portugal, de tal modo que a família patriarcal tradicional passou a
ser um forte obstáculo à consolidação do Estado Brasileiro.
Na estrutura econômica da colônia, a propriedade determinava a condição social,
dividindo as classes em senhores e escravos. Nesse modelo, a criação e preservação do
patrimônio capitalizavam a força e a disponibilidade dos outros membros da família. O
pai-proprietário era visto pela mulher e pelos filhos como patrão e protetor, fato que