• Nenhum resultado encontrado

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.25 número4

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2018

Share "Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.25 número4"

Copied!
2
0
0

Texto

(1)

R e v i s t a d a S o c i e d a d e B r a s i l e i r a d e M e d i c in a T r o p i c a l 2 5 ( 4 ) : 2 7 9 - 2 8 0 , o u t- d e z , 1 9 9 2

COM UNICAÇÃO

ASPECTO HISTOLÓGICO INCOM UM EM CASO D E FEBRE AM ARELA OCORRIDO NO GRUPO INDÍGENA YANO M AM I

Vera Lúcia R . Barros, M ário A. P. M oraes, Gilberta Bensabath e M aria Aparecida Silva

Em novem bro de 1991, três crianças Yanomami adoeceram, a intervalos de alguns dias, na aldeia Alto Catrimâni, Estado de Roraima, com manifestaçõess de uma hepatite grave: febre, vômitos, icterícia e sangramentos. Elas faziam parte de um grupo de indígenas que se deslocara para o local, algum tempo antes, caminhando através da mata, como é de hábito entre os Yanomami. Removidas da área, duas das crianças faleceram em Boa Vista, RR, e a outra, em Manaus, AM, fato que permitiu a obtenção de amostras hepáticas, por viscerotomia. A primeira criança a falecer, no dia 17 de novembro, uma m enina de 4 anos, apresentava no fígado, m icroscopicamente, alterações degenerativas intensas, com numerosas células em “mórula” ou em “aranha” - aspecto sugestivo, à primeira vista,

do quadro típico da hepatite de Lábrea (delta). Nos d ia sl8 e 2 1 d e novembro morreram as outras duas, ambas do sexo masculino, de oito e quatro anos, respectivamente. Do sangue retirado da última,

Instituto Evandro Chagas, Fundação Nacional de Saúde/ Ministério da Saúde, Belém, PA, Faculdade de Ciências da Saúde, Universidade de Brasília, Brasília, DF e Fundação Nacional do índio, Boa Vista, RR.

Endereço para correpondência: Dr. Mário A. P. Moraes. FS/ PTL/UnB, CP: 15-3031, 70910-970 Brasilia, DF.

Recebido para publicação em 02/06/92.

(2)

C o m u n ic a ç ã o . B a r r o s V L R , M o r a e s M A P , B e n s a b a th G , S ilv a M A . A s p e c to h i s t o l ó g i c o in c o m u m e m c a s o d e f e b r e a m a r e l a o c o r r i d o n o g r u p o in d íg e n a Y a n o m a m i. R e v i s t a d a S o c ie d a d e B r a s i l e i r a d e M e d i c in a T r o p ic a l.

2 5 : 2 7 9 - 2 8 0 , o u t - d e z , 1 9 9 2 .

ainda em vida, isolou-se, no Instituto Evandro Chagas, em Belém, PA, o vírus da febre amarela. A histopatologia do fígado, nestes dois casos, não deixou qualquer dúvida sobre a natureza amarílica das lesões: era evidente a localização mediozonal (lesão de Rocha Lima) da chamada necrose lítica e dos n u m ero so s co rp ú scu lo s eo sin o fílico s (corpúsculos de Councilman) formados pela necrose hialina dos hepatócitos.

Logo após as três mortes, vinte indígenas (doze adultos e oito crianças), participantes do mesmo grupo, forneceram soros para o teste da detecção de anticorpos da classe IgM (MAC ELISA) contra o vírus da febre amarela. Houve positividade em quatro, sendo um deles o soro da mãe da menina primeiro falecida. O mesmo teste foi negativo com o soro do menino do qual se isolara o vírus.

Os dados acima mostram que um surto de febre amarela silvestre ocorreu, realmente, entre os índios do grupo recém-chegado ao Alto Catrimâni. Além disso, pela imuno-histoquímica, foi possível demonstrar-se nos fígados das três crianças mortas a presença de antígeno do vírus da febre amarela. Assinale-se, incidentalmente, que em todos havia também pigmento malárico nas áreas portais e, em menor quantidade, nos lóbulos hepáticos, dentro de algumas células de Kupffer. A disposição do pigmento indicava um ataque anterior de malária - nos meses que precederam a infecção pelo vírus da febre amarela.

A p resen te com unicação tem a ver principalmente com o caso da criança que apresentava no fígado as células em “mórula”. Conquanto, se tivesse detectado a presença de antígeno amarílico em células do parênquima, o quadro histológico podia fazer supor uma infecção pelo vírus delta1. Para confundir ainda mais o diagnóstico, verificou- se, em 69 indígenas da área, cujos soros foram testados para marcadores dos vírus das hepatites B e delta, uma alta prevalência da infecção pelo HBV (anti-HBc: 85,5% eanti-HBs: 18%) e um elevado número de portadores do mesmo vírus (HBsAg:

11,6%). Dos soros positivos para o HBsAg (8/69), examinados para detecção do anti-Delta, apenas um mostrou-se negativo (Bensabath G: dados não publicados). Isso indica que quase todos os portadores do vírus da hepatite B já haviam sofrido

uma superinfecção pelo delta. De um dos meninos falecidos, aquelo de cujo sangue se isolou o vírus da febre amarela, o resultado da pesquisa para os marcadores, entretanto, deu o seguinte resultado: HBsAg - neg.; anti-HBc -posit. e anti-HBs - posit.

A pesar da in ten sa degeneração gorda multivacuolar presente nos hepatócitos da menina do caso em questão, observou-se, a um exame mais acurado, que a lesão era nitidamente mediozonal - os hepatócitos em tomo das veias centrolobulares e das áreas portais estavam em grande parte conservados -, e que corpúsculos hialinos, embora raros, apareciam entre as células em “mórula” . Finalmente, a existência de antígeno do vírus da febre amarela, nos cortes histológicos, confirmou o diagnóstico.

Q uerem os d estacar a im p o rtân cia da demonstração do antígeno amarílico, em cortes de tecidos formolizados do fígado2, quando se tratar de casos suspeitos, porém com alterações microscópicas não características. A lesão de Rocha Lima nem sempre exibe o aspecto salpicado clássico, onde predomina a necrose hialina dos hepatócitos. Em ocasiões, como no caso da criança Yanomami ora comentado, os corpúsculos de Councilman são raros, predominando na alteração mediozonal a degeneração gorda multivacuolar dos hepatócitos. Na verdade, as proporções dos dois componentes principais da lesão - necrose hialina (levando à formação dos corpúsculos de Councilman) e esteatose multivacuolar - podem variar bastante; nos extremos ocorreria, então, uma predominância quase absoluta da necrose hialina ou da degeneração gorda multivacuolar. No caso de preponderar a esteatose, o quadro resultante é capaz de suscitar dúvidas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Dias LB, Moraes MAP. Hepatite de Lábrea. Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo 15:86-93, 1973.

2. Hall WC, CrowellTP, Watts DM, Barros VLR, KrugerH, Pinheiro F, Peters CJ. Demonstration o f yellow fever and dengue antigens in formalin-fixed paraffm-embedded human liver by immunohistochemical analysis. The American Journal o f Tropical Medicine and Hygiene 45:408-417, 1991.

Referências

Documentos relacionados

E sferocito se ou outras anorm alidades diagnosticas das hem ácias não ocorrem , e os testes diretos de C oom bs geralm ente são negativos21, ain da que estes não

Sendo o Maranhão um estado estritamente agrícola, era de se esperar essa diversidade na distribuição dos casos, pois sabemos que a leishmaniose tegumentar é uma

A presente comunicação refere-se ao caso de um homem jovem, aidético, com toxoplasmose aguda, sem alterações neurológicas, cuja infecção pelo HIV só foi descoberta após o

insuficiên cia hepática na esquistossom ose m ansônica h ep

Figura 1 - Corte microtómico sesgado de ninfa I de Cimex lectularius, mostrando acumulación de formas evolutivas de Trypanosoma cruzi en ventrículo gástrico y

Salm on elose septicêm

The area under the ROC curve was measured and showed that the best discriminating vessels, for schistosomiasis portal hypertension diagnosis, were splenic vein followed by the

In lymphocyte cultures treated with crude antigens or GP43 there was a high frequency of cells gaps, breaks and rearrangements.. The A, D and E chromosome groups were more