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Rosa Teresa Moreira Machado 1
RESUMO – Neste trabalho conjugam-se dois temas em ritmo de propagação nos agronegó-cios: rastreabilidade de alimentos com uso da Tecnologia da Informação (TI). Para garantir condições de rastreabilidade, busca-se relacioná-la com a questão da coordenação de sistemas agroindustriais (SAGs). Adota-se a Economia dos Custos de Transação (ECT) para descrever e analisar a evolução do sistema de rastreabilidade implantado na cadeia da carne bovina no Reino Unido (RU) entre 1995 a 2000 e os efeitos dessa prática na estrutura de coordenação desse negócio no período. Parte-se do pressuposto de que os custos de transação aumentam em função das novas necessidades de controles rastreáveis mas que a TI pode ser usada para atenuá-los. No curto prazo, enquanto a TI é de uso restrito, espera-se que subsistemas estri-tamente coordenados sejam organizados, visando vantagens competitivas. Na medida que a TI se difunde, as assimetrias de informação tendem a se reduzir, possibilitando o surgimento de outras estruturas de coordenação, mais flexíveis. Os resultados obtidos no estudo de caso são compatíveis com as previsões teóricas. O leilão tradicional, fonte considerada como não confiável para comercializar bovinos desde a “crise da vaca louca”, ao final de 1999 voltou a ser uma alternativa de suprimento do varejo no RU. Além da TI, as pressões de ordem insti-tucional nesse processo de mudanças das estruturas de governança são destacadas. Como contribuição teórica, são apresentados diversos tipos de especificidade de ativos para rastrear alimentos. São também apontadas as dificuldades e tendências do uso e difusão de inovações em TI nos processos de rastreabilidade da carne bovina.
Palavras-chave: gestão da qualidade; assimetria de informação; associações de interesse privado; identificação eletrônica; padrões
Revista Brasileira de Agroinformática, v. 7, n. 1, p.8-28, 2005
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ABSTRACT – This paper comprises two increasingly recurring themes in agribusiness: food traceability with the use of Information Technology (IT). Looking to secure conditions for traceability, it is here related to the coordination of agribusiness systems (SAGs). Transaction Cost Economics (TCE) is adopted to describe and analyze the development of the traceability system as implemented for the beef chain in the United Kingdom (UK) between 1995 and 2000, as well as the effects of this practice on the coordination structure of this business dur-ing the period mentioned. The work starts from the assumption that transaction costs increase as a function of new traceability control requirements, and yet they can be attenuated by the use of IT. In the short term, while IT still has limited use, the authors expect that strictly co-ordinated subsystems will be organized to try and secure competitive advantages. As IT be-comes increasingly used, the information asymmetries tend to be gradually reduced, facilitat-ing the development of other coordination structures considered more flexible. The findfacilitat-ings obtained in this case study are compatible with the theoretical predictions. Considered to be an unreliable source to market cattle since the mad cow disease epidemic, traditional auction came back in late 1999 as an alternative for retail supply in the UK. Besides IT, this work also points to the institutional pressures in this change process regarding governance struc-tures. As a theoretical contribution, several levels of asset specificity to trace food are pre-sented. Also pointed out are the difficulties and trends regarding the use and dissemination of IT innovations in the processes involving cattle traceability.
Keywords: quality management; information asymmetry; private interest associations; elec-tronic identification; standards
1 INTRODUÇÃO
Desde os anos 80, quando a conta-minação de alimentos tornou-se fato cons-tante na mídia, a consciência da vulnerabili-dade da vida vem crescendo. Grande parte dos problemas de ordem alimentar decorrem da distância, no tempo e no espaço, que separa cada vez mais a atividade produtiva do ato de consumo (LAW, 2001). No mer-cado globalizado, onde os sistemas de pro-dução e distribuição são mais complexos, exigir informação confiável sobre os
alimen-tos passou a ser uma forma do consumidor se proteger e, com isso, ter a sensação que pode controlar sua própria vida.
Só após 1996, com a crise da “doen-ça da vaca louca” na Inglaterra, é que o risco de ingerir alimentos contaminados virou questão social. A rastreabilidade tornou-se assunto em voga, passando a ser tema im-portante na literatura de chain management (KALAITZANDONAKES; MALTSBAR-GER, 1998; WILSON; CLARKE, 1998). Relaciona-se com informação, segregação física e controle de qualidade de alimentos.
Entende-se que rastrear é capturar e trocar informações sobre atributos específi-cos de um produto ao longo da cadeia pro-dutiva, desde a origem do seu processo de produção até o consumidor final.
Neste trabalho a rastreabilidade é vista como sendo um processo de práticas sistemáticas de segregação física e troca de informações entre diferentes agentes da ca-deia produtiva, responsáveis pela execução e cumprimento de uma meta especificada: preservar os atributos e a identidade de pro-dutos transacionados segundo suas especifi-cações.
O termo sistema agroindustrial (SAG) embute a idéia de organização sistê-mica e coordenada da cadeia produtiva a-groalimentar. Compreende um conjunto de agentes econômicos, posicionados seqüenci-almente antes, dentro e depois da atividade agrícola, responsáveis por diferentes etapas de produção, transformação e comercializa-ção de um produto de origem agropecuária até o mesmo chegar ao consumidor final. Pode envolver muitas firmas, de indústrias diversas e ocupar diferentes espaços geográ-ficos, até mesmo além fronteira, sob regras institucionais de distintos países. A conjuga-ção de inovações em tecnologia de base microeletrônica, informática e telecomuni-cações é chamada de TI.
Ao demandar um fluxo de informa-ções até então inexistente nas transainforma-ções entre agentes acostumados a operar com um produto tipicamente commodity, o estudo da rastreabilidade aplicada ao SAG da carne bovina do Reino Unido (RU) com a ajuda da TI é o foco deste artigo.
Nos anos 90, o RU enfrentou sérios problemas de ordem alimentar, em especial
na cadeia de carnes. Investimentos pesados em sistemas de informação (SI) tiveram que ser feitos para soerguer essa indústria e dar tranqüilidade aos consumidores, segundo rígidos padrões de qualidade e segurança. A rastreabilidade dos atributos da carne bovi-na, a partir de instrumentos para coleta, transmissão e controle de informações desde a fazenda até a prateleira do supermercado, foi definida como a solução-síntese de todo um SI compulsório que teve de ser implan-tado no RU.
O texto está organizado em cinco seções. A seção seguinte trata da discussão teórica, à luz dos princípios da Economia dos Custos de Transação (ECT). São enfati-zadas as alternativas mais adequadas de coordenação das atividades econômicas, tomando como pressuposto que as informa-ções relevantes são assimetricamente distri-buídas entre os agentes econômicos. Consi-derando as especificidades da informação para efeito de rastreabilidade, bem como afirmações de autores que incorporam a ECT em estudos sobre o papel da TI nas organizações, admite-se que a TI pode dimi-nuir custos de transação e, com isso, estimu-lar mudanças na estrutura de coordenação. A terceira seção trata dos procedimentos para efetuar o estudo e o modelo de análise. Pro-põe-se que a rastreabilidade e a TI afetam inversamente o sistema de coordenação. Essa hipótese implícita serve de fio condutor para a seção 4, onde são descritas e analisa-das as transformações ocorrianalisa-das no SAG da carne bovina entre 1995 até o início de 2000. Diante de efeitos da rastreabilidade (sem e com TI) na estrutura de coordenação da carne no RU, na seção 5 conclui-se pela validade do referencial teórico.
Revista Brasileira de Agroinformática, v. 7, n. 1, p.8-28, 2005 2 REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 ASSIMETRIA DE INFORMA-ÇÕES E PRESSUPOSTOS
FUN-DAMENTAIS
Até a 2ª guerra mundial, assumia-se que a única informação relevante para coor-denar as atividades econômicas era o preço. Somente os custos de produção para remu-nerar fatores tangíveis como terra, força de trabalho, máquinas, materiais e dinheiro eram considerados.
Questões fundamentais sobre infor-mação, sua distribuição e as dificuldades para ser transmitida homogeneamente entre os agentes econômicos foram contribuições que ajudaram a reformular os pressupostos do mercado perfeito para modelos sintoniza-dos com a realidade.
O pensamento econômico evoluiu ao reconhecer que os custos para adquirir, manter e acessar informações para coordenar transações entre diferentes agentes, no tem-po e no espaço, são elevados. A capacidade humana para processá-las é limitada. Além disso, as informações são desigualmente distribuídas. Experiência, conhecimento e habilidades são diferentes para cada agente e estão constantemente mudando.
Dentre as teorias que discutem a de-ficiência de informações, incerteza e custos diferenciais de aquisição da informação, destaca-se a ECT. Formalizada por William-son (1985, 1991), procura responder a ques-tão fundamental de coordenação eficiente das atividades econômicas, assumindo que existem custos ex-ante para se adquirir in-formações no mercado e tratar um negócio e custos ex-post, associados ao
acompanha-mento da execução de acordos, ajustaacompanha-mentos em decorrência de falhas ou defesas por quebra de contratos. A ECT busca explicar porque, sob certas condições, a firma pode ser mais eficiente que o mercado na produ-ção de bens e serviços. De uma simples fun-ção de produfun-ção, a firma da ECT é estendida e conceituada sob a ótica institucional, como uma estrutura de governança de contratos, adaptada para viabilizar transações aos me-nores custos de produção e de transação possíveis.
Os problemas de assimetria infor-macional podem ser de três tipos, de acordo com o momento de realização de um contra-to (MILGROM; ROBERTS, 1992; WI-GAND et al., 1997):
1. Problemas ex-ante: antes de uma transa-ção ser efetuada, o vendedor oportunista pode ocultar informações sobre caracte-rísticas negativas do bem a ser transacio-nado, prejudicando todo o mercado ao expulsar transações satisfatórias com o mesmo tipo de bem de qualidade superi-or. Trata-se de uma situação típica de se-leção adversa (adverse selection), um problema de falha de mercado.
2. Problemas ex-post: o contratante princi-pal de uma transação incorre em risco moral (moral harzard), após efetivar uma transação com um agente oportunista que não cumpre os termos do contrato e age em interesse próprio.
3. Problemas durante: problemas de vulne-rabilidade no caso de haver intenção de quebra contratual (hold-up) por ação o-portunista de uma das partes, em plena vigência de uma relação envolvendo
in-vestimento específico, com custos irrecu-peráveis2.
Para a ECT, os problemas pós-contratuais decorrentes de assimetrias de informação impactam mais fortemente os custos de coordenação dos negócios e, por isso mesmo, deve-se dar mais atenção aos mecanismos de monitoramento e controle (WILLIAMSON, 1985).
Estabelece ainda que a organização adequada para coordenar transações é refle-xo da conjugação dos seus atributos e dos pressupostos de racionalidade limitada e oportunismo, assim como do ambiente insti-tucional. O ambiente externo às firmas, composto de regras formais (leis, política internacional, direitos de propriedade), cul-tura, assim como a tecnologia e as organiza-ções públicas e privadas que dão suporte financeiro, tecnológico, legal e em informa-ção para a sociedade, no seu conjunto, afe-tam as formas de organização das firmas e a eficiência dos sistemas produtivos (WILLI-AMSON, 1985, 1991; ZYLBERSZTAJN, 1995).
2.2 COORDENAÇÃO VERTICAL DE ALIMENTOS
DIFERENCIA-DOS
Sistema de coordenação é o conjun-to de estruturas de governança que interli-gam os segmentos componentes de uma cadeia produtiva. Farina et al. (1997)
2 Custos irrecuperáveis (Sunk Costs) são custos fixos que, uma vez incorridos não se recupe-ram. Geralmente decorrem de investimentos em ativos específicos mas não necessariamente (FARINA et al., 1997).
nem estrutura de governança como sendo o conjunto de regras, tais como contratos entre particulares ou normas internas às organiza-ções, que governam uma dada transação. A escolha da estrutura de governança eficiente depende principalmente da especificidade de ativos3 nas transações entre os agentes
res-ponsáveis pelas diferentes etapas do proces-so produtivo de um produto.
Coordenação vertical é o processo pelo qual as funções de um sistema adicio-nado de valor – produção, processamento e marketing – são executadas em harmonia (ESPOSITO, 1999). Na ótica econômico-institucional, entende-se por coordenação vertical os possíveis arranjos contratuais para transferir recursos (insumos, matérias-primas, bens, serviços e informações) entre os estágios de um sistema de produção (WILLIAMSON, 1985; MARTINEZ; RE-ED, 1996).
A coordenação vertical pode se dar tanto pela internalização de todas as etapas de produção em uma só firma, quanto por meio de estruturas de governança intermedi-árias - via contratos formais antecipados de produção, com ou sem compartilhamento de riscos - parcerias, franchising, licenciamento de produção, alianças estratégicas, assim como acordos informais de produção. Tais contratos são acrescidos de instrumentos de
3 Especificidade de ativos é o atributo mais im-portante das transações. Quanto mais os ativos são especializados, mais difícil é o seu reem-prego sem sacrifício do seu valor produtivo. A especificidade de ativos cria relações de de-pendência bilateral entre partes tecnologica-mente distintas, com conseqüências danosas em termos de possibilidades de ruptura contra-tual.
Revista Brasileira de Agroinformática, v. 7, n. 1, p.8-28, 2005 incentivo para compensar o esforço extra
dos participantes e de instrumentos de con-trole.
A literatura tem mostrado que a co-ordenação vertical, enquanto estrutura de governança intermediária entre o mercado e a integração vertical, tem sido a solução mais comum para coordenar SAGs voltados para padrões diferenciados (ZYLBERSZ-TAJN, 1995; ZIGGERS; TRIENEKENS, 1999), já que dependem de uma coordena-ção que não se sustenta simplesmente no preço para se suprir de matéria-prima ou mesmo para distribuir o produto. Além de amortecer os riscos inerentes às característi-cas do estágio de produção na fazenda, co-mo perecibilidade, padrão variável de quali-dade e ciclo de produção dependente das forças da natureza, as empresas de segundo processamento e distribuição conseguem mais flexibilidade, quando se concentram em suas funções essenciais, podendo com isso desenvolver produtos, marcas e canais de distribuição, sem prejudicar os esquemas de qualidade desejados.
Firmas em busca de maior poder de mercado e margens maiores buscam padrões próprios para sustentar suas estratégias de competição com produtos de atributos dife-renciados, sejam eles portadores de selos, certificados ou marcas. Sendo as especifica-ções sobre processos e/ou atributos desses produtos mais complexas(os) e, portanto, sujeitas a informações assimétricas, tais padrões privados incorrem em maiores cus-tos de transação. Nesses casos, a coordena-ção via mercado é limitada porque não con-segue refletir informações relevantes para garantir alimentos em conformidade com especificações voltadas para atributos
espe-ciais de qualidade, ou para atender mercados segmentados. Só quando o padrão é univer-salmente adotado é que o comprador pode limitar sua decisão de compra apenas em cima do menor preço.
A coordenação vertical pode aconte-cer sob arranjos contratuais diversos, a de-pender do produto, dos atributos das transa-ções e da estrutura do mercado. A empresa ou o elo da cadeia que consegue controlar uma ou mais operações-chave4, passa a ter
mais capacidade de apropriação de valor e, com isso, criar barreiras a entrada e mesmo deter maior poder de mercado. As funções estratégicas da firma ampliam-se para coor-denar e controlar um conjunto maior de ope-rações sob a responsabilidade de outros a-gentes ao longo da cadeia (MACHADO, 1998).
Buscando antecipar-se ou adaptar-se rapidamente às incertezas do ambiente em mutação, uma firma pode coordenar vários elos da cadeia e organizar uma estrutura de governança particular como estratégia com-petitiva para lidar com especificidades do mercado, formando um subsistema orientado para a qualidade (ZYLBERSZTAJN, 1995), ou o que Zylbersztajn; Farina (1999) cha-mam de subsistema estritamente coordena-do.
4As operações-chave podem decorrer de fatores
ligados a aspectos tecnológicos (economias de escala, curva de aprendizagem, patentes de fa-bricação e P&D), a aspectos logísticos (tipos de circuitos de distribuição ou de abastecimento) ou ainda de aspectos comerciais como imagem de marca, atratividade do mercado, relação de poder entre fornecedores e clientes (BATA-LHA, 1993).
2.3 ESPECIFICIDADE DA INFOR-MAÇÃO E RASTREABILIDADE
DE ALIMENTOS
Baseados no conceito de especifici-dade de ativo de Williamson (1985), Malone
et al. (1987) afirmam que a informação para
tomada de decisão é um ativo sujeito à espe-cificidade de tempo. Choudhury; Sampler (1997) desenvolveram esse conceito, afir-mando que existem duas formas de especifi-cidade da informação: informação com es-pecificidade de tempo e informação com especificidade de conhecimento. Segundo eles, (p. 28), “a especificidade da informa-ção é definida como a extensão pela qual o valor da informação é restrito ao seu uso e/ou aquisição por indivíduos específicos ou durante períodos específicos de tempo”.
Como o ato de adquirir informação pode ser separado do seu uso no contexto decisório, afirmam ainda que, para cada uma dessas categorias, pode-se distinguir, adicio-nalmente, entre especificidade de uso e es-pecificidade de aquisição.
Com base em Choudhury; Sampler (1997), entende-se que o valor da informa-ção para efeito de rastreamento de alimentos é especifico e varia conforme o produto. A especificidade de conhecimento na aquisição de informação pode ser muito elevada. Por exemplo, identificar traços de organismos geneticamente modificados (OGM) em grãos demanda equipamentos e pessoal es-pecializados. Por outro lado, a informação para rastrear alimentos perecíveis é mais atrelada à especificidade de tempo.
Segundo Choudhury; Sampler (op.
cit.) há dois tipos de especificidade de
tem-po: a de aquisição e a de uso da informação. Quando a informação precisa ser capturada no momento exato da sua origem, maior será sua especificidade de tempo. Assim, a mag-nitude de um tremor de terra deve ser captu-rada exatamente quando ele acontecer, pois esse evento não estará disponível novamen-te.
A especificidade de tempo de uso de uma informação é definida pela extensão por meio da qual a informação perde valor se não for usada, assim que se torna disponível. Pode variar conforme o usuário e o contexto. Por exemplo, a informação sobre o negócio de ações tem especificidade de tempo de uso mais alta para um operador da Bolsa de Va-lores do que para um investidor individual que ajusta mensalmente seu portfolio. A mesma informação tem especificidade de tempo ainda menor para quem estuda a ten-dência histórica da valorização das ações.
Assim como a cotação de hoje das ações tem valor limitado para o operador amanhã, a informação sobre bens de origem agropecuária sofre a restrição das especifici-dades de tempo de aquisição e de uso, seja por depender do ciclo biológico de produ-ção, seja pela perecibilidade do produto. A aquisição de informações para efeito de ras-treabilidade deve dar-se em intervalos de tempo estreitos e específicos, corresponden-tes aos pontos críticos do fluxo do processo produtivo de um produto, até o mesmo che-gar nas mãos do usuário.
Por outro lado, a especificidade de tempo de uso da informação de rastreabili-dade para minimizar riscos por ingestão de alimento contaminado é muito grande, uma questão de saúde pública e de impacto
nega-Revista Brasileira de Agroinformática, v. 7, n. 1, p.8-28, 2005 tivo na reputação do negócio. Quanto mais
tempo levar para localizar o foco e as causas do problema, maior será o risco de propaga-ção do mesmo e/ou o custo em termos de extensão do recall, perda de reputação de marca, queda nas vendas e credibilidade do produto e do negócio.
No presente trabalho, enfatiza-se o aspecto informacional do custo de transação ligado ao conceito de rastreabilidade de ali-mentos. Como o componente do custo de
transação mais importante é a especificidade de ativos, propõem-se ainda dois grupos de especificidades de ativos associados à ras-treabilidade, que desdobram a especificidade da transação como proposta por Williamson (1985) em duas partes, isto é, especificidade associada ao valor do produto a ser transa-cionado ao longo do seu fluxo físico e espe-cificidade do fluxo de informação, conforme consta no Quadro 1:
Quadro 1 - Especificidade de ativos em rastreabilidade de alimentos. Especificidade do Produto
(fluxo físico) Especificidade da Informação (fluxo de informação) • Especificidade de atributos e processo
• Especificidade locacional
• Especificidade temporal (ciclo biológico, perecibilidade)
• Ativos dedicados (para segregação e lo-gística)
• Especificidade de tempo para aquisição • Especificidade de tempo para uso
• Especificidade de conhecimento para aqui-sição
• Especificidade de conhecimento para uso • Alta conectividade de transações e pessoas Fonte: Elaborado por Machado (2000, p. 207) com base em Juran; Gryna Jr. (1970, 1991,
1992), Choudhury; Sampler (1997), Malone et al. (1987) e Williamson (1985). 2.4 RASTREABILIDADE COM TI E
CUSTOS DE TRANSAÇÃO O tempo é critério fundamental na tomada de decisão e na capacidade adaptati-va das organizações e, portanto, fonte de vantagem competitiva. Eliminando barreiras de local e tempo, a TI passa a ser uma fer-ramenta que permite estruturar susistemas coordenados rastreáveis, podendo ser vista como variável estratégica de diferenciação
competitiva. Agiliza transações, inclusive de rastreabilidade.
Estudiosos da TI em organizações, incorporando fundamentos da ECT, afirmam que a TI é capaz de impactar a coordenação de cadeias produtivas porque diminui os custos de transação, estimulando mudanças na estrutura de coordenação, com efeitos como: (1) aumento da coordenação via mer-cado e atrofia das hierarquias (MALONE, YATES; BENJAMIN, 1987); (2) mecanis-mos de mercado dentro das firmas e
meca-nismos hierárquicos em transações coorde-nadas pelo mercado (PICOT; RIPPERGER; WOLFF, 1996); ou ainda, (3) a firma pode crescer vertical ou horizontalmente ou ainda nos dois sentidos. As mudanças dependem muito de cada negócio (GURBAXANI; WHANG, 1991).
A estrutura de governança é deter-minada pelos atributos das transações que, por sua vez, decorrem de condicionantes institucionais, organizacionais, tecnológicos e estratégicos (WILLIAMSON, 1985, 1991; ZYLBERSZTAJN, 1995; FARINA, 1996). Se a curto prazo, a estrutura de coordenação é determinada principalmente pelas especifi-cidades dos ativos, a longo prazo, as estraté-gias individuais e coletivas podem redefinir os ambientes competitivo, institucional e tecnológico, alterando as estruturas de go-vernança criadas no curto prazo. As empre-sas que buscam estratégias de segmentação por qualidade e diferenciação de produto tendem a se organizar em estruturas mais coordenadas, formando subsistemas especí-ficos, governadas pela hierarquia ou por uma combinação de contratos formais e informais para minimizar os custos de transação. O governo e as organizações de interesse pri-vado têm papéis importantes de coordena-ção. Ao fornecerem bens e serviços públicos e coletivos de incentivo e controle para agi-lizar processos de adaptação, essas institui-ções e organizainstitui-ções ajudam a reduzir os custos de transação que afetam os negócios privados, promovendo a sobrevivência, o crescimento e a competitividade.
Pressupõe-se que a rastreabilidade eleva os custos de transação, especialmente em termos de especificidade de ativos. No curto prazo, ajustes contratuais tornam-se
relevantes para a definição de mecanismos de coordenação eficientes. A cooperação entre agentes visando às coordenações hori-zontal e vertical, como as associações de produtores ou as parcerias formais e infor-mais, ou a forma hierárquica são soluções mais eficientes do que as relações impesso-ais do mercado, baseadas apenas no preço. A tecnologia é, por sua vez, um elemento tanto do ambiente externo quanto do interno. Co-mo a tecnologia não se altera no curto prazo, a especificidade do ativo é a variável mais importante para definir a forma de coorde-nação mais adequada. Enquanto o uso da TI não se difunde por todo o sistema, transfor-mando-se em padrão de concorrência gene-ralizado, é esperado que subsistemas estri-tamente coordenados sejam organizados nessa etapa de adaptação, com investimentos específicos em TI e com vistas à obtenção de vantagens competitivas. No longo prazo, porém, as mudanças no ambiente tecnológi-co podem afetar a estrutura de governança do SAG. Assim, à medida que os avanços em TI passam a ser incorporados pelos agen-tes ao longo da cadeia, aumentando o com-partilhamento e a fluidez da informação, os custos de transação diminuem, afetando as formas de coordenação.
3 PROCEDIMENTOS METODO-LÓGICOS
Neste estudo, utiliza-se a metodolo-gia de estudo de caso, focalizando a indús-tria de carnes vermelhas do Reino Unido para validar as propostas conceituais que foram apresentadas no final do tópico ante-rior. Escolheu-se o Reino Unido por ter sido ele alvo da incidência de doença transmitida
Revista Brasileira de Agroinformática, v. 7, n. 1, p.8-28, 2005 pela ingestão de carnes contaminadas (mal
da vaca louca), o que determinou ações dos organismos públicos e gerou estratégias privadas que visaram a garantia da qualida-de, entre elas os mecanismos de rastreabili-dade.
O caso do Reino Unido tem impor-tância para outros países produtores de carne vermelha, seja pela difusão dos mecanismos de controle, seja pela importância atual e potencial do Mercado Europeu, inclusive para as carnes brasileiras.
As fontes para a elaboração do pre-sente estudo fundamentaram-se em buscas na internet, dados secundários, troca de e-mails com pesquisadores do RU e entrevis-tas pessoais.
A partir do estudo de caso, são teci-das as ligações com a tese fundamental da ECT, que é a do alinhamento entre as formas de governança, o nível de investimento em ativos específicos e o papel das normas insti-tucionais. Espera-se que as formas de gover-nança observadas sejam adequadas às mu-danças nessas variáveis.
4 EVIDÊNCIAS EMPÍRICAS E A-NÁLISE DOS RESULTADOS 4.1 TRANSFORMAÇÕES EM
CUR-SO NO SAG DA CARNE BOVINA NO REINO UNIDO
O negócio de carne bovina do RU tem passado por muitas transformações des-de os anos 80. O consumo des-de carne verme-lha diminuiu e o processo de racionalização da indústria eliminou criadores de gado e frigoríficos. Segundo Fearne (1998), o ritmo
de concentração mais evidente está no va-rejo.
Em 1997, apenas cinco cadeias de supermercados já respondiam por mais de 70% das vendas de carne fresca. Na década de 80, a rede varejista Marks; Spencer (M&S) foi a primeira a lançar produtos com marca própria, através de uma parceria com a Northern Foods, a maior empresa proces-sadora de alimentos do RU. O que era estra-tégia individual de um supermercado, aos poucos passou a ser o padrão de concorrên-cia da indústria. A briga por market share dos supermercados intensificou-se, princi-palmente pela venda de carne fresca com marcas próprias (FEARNE, 1998).
Em 1997, embora os pecuaristas de-sejassem comercializar seus animais através do leilão tradicional, com pagamento basea-do no animal em pé, a peso vivo, os super-mercados estavam preferindo o sistema de remuneração pelo peso morto, critério que exige qualidade das carcaças e rastreabilida-de. Mesmo reconhecendo que a cooperação entre os agentes estivesse se tornando condi-ção para sobreviver no negócio, os fazendei-ros eram resistentes ao pagamento pelo peso morto.
Além da falta de incentivo para re-compensar o esforço para atender os padrões de qualidade, cada vez mais exigentes, para continuar na atividade os pecuaristas tinham que fazer parcerias, seja na venda de animais para os frigoríficos via contratos informais, seja participando voluntariamente de associ-ações restritas (os clubes de criadores), e adesão a métodos de produção e padrões específicos, com fidelidade de fornecimento para grandes varejistas.
4.2 AUMENTO DA COORDENA-ÇÃO DO NEGÓCIO DE CARNE BOVINA NO RU: OS
FATORES-CHAVE
As transformações ao longo desse período derivam de um somatório de fato-res-chave que, a princípio, por demandar especificidades de ativos, exigem soluções cooperativas e coordenadas entre comprado-res e vendedocomprado-res de um extremo ao outro da cadeia para reduzir custos de transação. Tais fatores são: 1) mudanças nas atitudes e com-portamento de compras dos consumidores de carne; 2) as estratégias competitivas das cadeias de supermercados; 3) a Lei de Segu-rança Alimentar de 1990 e 4) a bovine
spon-giform encephalopathy, ou a doença da
“va-ca lou“va-ca”.
O catalisador do processo de coor-denação das cadeias de suprimento é de ordem institucional - a Lei de Segurança Alimentar de 1990 - implementada pelo governo britânico para atender as diretrizes da União Européia (UE) sobre segurança do alimento e padrões de higiene. Essa lei obri-ga os agentes dos SAGs a adotar melhorias nas práticas de manejo dos alimentos, ao longo de toda a cadeia produtiva. A punição é elevada, com custos que podem afetar todos os agentes da cadeia.
As grandes redes de supermercados passaram a liderar iniciativas de desenvol-vimento de relações de parceria com os fri-goríficos, exigindo práticas adequadas de manejo, criação e expedição de animais dos seus fornecedores para se adaptar às restri-ções impostas e evitar custos de transação adicionais. O objetivo maior de tais medidas era evitar problemas de risco moral, por
assimetrias de informação em situação
ex-post.
Preservar a marca própria como es-tratégia de market share foi o incentivo en-contrado pelos supermercados para viabili-zar ações cooperativas e coordenadas de suprimento de carne dentro de padrões rígi-dos de qualidade com segurança. A adoção de tais sistemas implicava em custos que o setor privado de carne teve que absorver até 1996. No entanto, até essa data, havia ainda muitas fazendas que não eram inspecionadas por terceiras partes pois os criadores tinham dificuldades de aceitar o conceito de inspe-ção independente (FEARNE, 1998).
Nesse processo, foram sendo criadas diferentes estruturas de coordenação apoia-das em práticas obrigatórias que cada agente comprometia-se a cumprir. Organismos independentes, pagos com recursos coleta-dos coleta-dos próprios agentes, inspecionavam cada etapa da cadeia produtiva. Além de padrões específicos de grandes redes varejis-tas, desenvolveram-se outros programas para atingir práticas dos abatedouros, processado-res e transportadoprocessado-res, todos incorporando as boas práticas da ISO e os princípios do HACCP, ou Análise de Risco dos Pontos Críticos de Controle (FEARNE, 1998; LE-AT, MARR; RITCHIE, 1998).
Somente depois da “crise da vaca louca” é que o mercado passou a assimilar programas efetivos de qualidade (SIMP-SON; MUGGOCH; LEAT, 1998). O gover-no decidiu encarar a qualidade da carne co-mo uma questão de saúde pública e a rastre-abilidade passou a ser uma necessidade e não apenas uma fonte de vantagem compe-titiva.
Revista Brasileira de Agroinformática, v. 7, n. 1, p.8-28, 2005 4.3 O PAPEL DAS ASSOCIAÇÕES
DE INTERESSE PRIVADO (AIPS) Para dar agilidade ao processo de adaptação às novas regras mais rígidas do ambiente competitivo, vale ressaltar a im-portância das organizações coletivas de ade-são voluntária de interesse privado e dos seus serviços voltados para a qualidade da carne. Um exemplo é a Scottish Quality Beef
and Lamb Association (SQBLA),
organiza-ção voluntária fundada por fazendeiros com apoio do governo da Escócia.
O uso da marca coletiva Scotch Beef tem sido um meio de defesa e recuperação da confiança dos consumidores na carne originada da Escócia, relacionando-a com a garantia de um sistema de rastreabilidade, documentado e certificado por um organis-mo competente de certificação (FEARNE, 1998; SIMPSON et al., 1998). Funcionando como organização que investe na transpa-rência de informações de qualidade dos pro-dutos dos seus associados, a SQBLA reduz custos de transação e dá condições de flexi-bilidade contratual e formas de coordenação alinhadas com os atributos exigidos pelo mercado. Dois anos após a rastreabilidade tornar-se compulsória, o leilão tradicional voltou a ser uma alternativa confiável de escoamento do gado dos produtores escoce-ses (SQBLA, 2000).
4.4 DIFICULDADES E OPORTUNI-DADES DE NEGÓCIOS
ENVOL-VENDO RASTREABILIDADE A rastreabilidade completa e efetiva dos produtos para atender o grande varejo é uma atividade difícil de ser implantada.
To-das as práticas de manejo, criação e expedi-ção de animais têm que ser devidamente registradas. Controlar a movimentação do gado entre fazendas e leilões é a etapa mais crítica.
O tempo necessário para a aquisição de informações de rastreabilidade é altamen-te específico. A movimentação de um ani-mal não registrada desestrutura todo o sis-tema de controle das informações para efeito de rastreabilidade, porque um dado depende do outro. Problemas como a seleção adversa e o risco moral podem ocorrer, elevando custos de transação, até porque a criação, engorda de rebanhos e abate são atividades que ocupam grandes áreas e dispersas loca-cionalmente.
Mesmo que o padrão de um dado processo de produção seja amplamente co-nhecido, como garantir que todos os agentes da cadeia estejam efetivamente adotando as práticas de segurança exigidas? Fazendeiros oportunistas podem complementar a ração de animais com produtos proibidos e masca-rar essa informação para o mercado (seleção adversa). Com isso, o abatedouro ou o su-permercado podem ser multados e perder reputação frente ao consumidor caso se constatar carne fora das especificações (risco moral).
Quando a assimetria de informação entre os agentes da cadeia é grande, surgem oportunidades de negócio envolvendo inves-timentos em TI e mecanismos sofisticados de coordenação, com o objetivo de obter vantagens competitivas.
Antes de 1996, o consumidor do RU dispunha-se a pagar um prêmio adicional para carne diferenciada de subsistemas
estri-tamente coordenados. Tracesafe e Scotbeef investiram nessa estratégia. Sob estruturas de governança distintas, cada qual criou seu padrão de qualidade em carne e canais de distribuição específicos, com ênfase em sistemas seguros de rastreabilidade informa-tizada (FEARNE, 1998).
As coordenações verticais dos dois subsistemas diferem. A Tracesafe é uma companhia de responsabilidade limitada e capital privado, controlada e de propriedade de criadores, com 130 membros exclusivos. Distribui carne com a marca Tracesafe para pequenos estabelecimentos de varejo como restaurantes e casas de carne sofisticadas. A
Scotbeef é uma empresa familiar de abate e
processamento que mantém parceria volun-tária com clube selecionado de criadores da Escócia e é a única fornecedora de carne fresca da M&S.
4.5 O SI PARA VIABILIZAR A RASTREABILIDADE
COMPUL-SÓRIA
A organização de um sistema rastre-ável de identificação de animais da fazenda à mesa do consumidor foi a principal medida de longo prazo para garantir a segurança e salubridade da carne bovina e restabelecer o funcionamento de seu mercado, não só no RU mas em toda a UE (Regulamento CE n.º 820/97 do Conselho, 1997).
Para viabilizar a rastreabilidade, o regime de identificação e registro de bovinos é um SI composto dos seguintes elementos: 1) marcas auriculares para identificação individual dos animais; 2) passaportes para os animais; 3) registros individuais mantidos
em cada exploração e 4) bases de dados informatizadas.
O uso de brincos, o passaporte e a manutenção de registros nas fazendas são apenas um bom ponto de partida, mas insu-ficientes para a rastreabilidade. Somente em setembro de 1998, com a implantação do
Cattle Tracing System (CTS), o sistema
informatizado de identificação e registro dos animais, é que foi possível ligar todos os dados e viabilizar a reconstrução do históri-co de cada animal.
Além do serviço público de inspeção de carne, o governo criou duas organizações de apoio coletivo em informações, redutoras de custo de transação: (1) a Assured British
Meat (ABM), criada para coordenar o
plane-jamento da garantia de todos os produtos e processos de produção de carne e derivados, em todos os estágios da cadeia produtiva, procurando eliminar a disputa entre os pa-drões privados de qualidade já existentes; (2) a British Cattle Movement Service (BCMS), organização responsável pelo ge-renciamento do Cattle Tracing System (CTS), o banco central de dados de identifi-cação e registro dos animais.
Na época, o CTS custou caro aos co-fres públicos, cerca de £$ 36 milhões, equi-valente a US$ 58 milhões. Até 2003, o go-verno se propunha a manter o CTS; a partir daí, o criador e os demais usuários do siste-ma teriam que assumir o custo dos serviços (MAFF, 1999).
Revista Brasileira de Agroinformática, v. 7, n. 1, p.8-28, 2005 4.6 A IDENTIFICAÇÃO
AURICU-LAR, O PASSAPORTE E A ESPE-CIFICIDADE DA INFORMAÇÃO
Todo animal nascido após 1º de ja-neiro de 1998 passou a portar um par de brincos com um número individual de iden-tificação aprovado pelo governo. Esse nú-mero acompanha o animal em toda a sua vida e é único no mundo. O criador tem que seguir regras para solicitar brincos a um fabricante autorizado. O pedido recebe nú-meros seqüenciais para cada brinco enco-mendado, usando a marca do rebanho do criador e fazendo referência cruzada com o código do endereço da propriedade de nas-cimento dos animais, com o intuito de evitar a duplicação da numeração dos brincos. A fábrica imprime o número de identificação no par de brincos e manda para o pecuarista. Uma vez gravado o número no brinco, este se torna inviolável.
Outro componente essencial de i-dentificação é o passaporte, introduzido em julho de 1996. O animal não pode circular sem o seu passaporte, no qual se registra cada lugar por onde ele passa até seu abate. Para cada número de identificação “brinca-do” no animal, há um número e um código de barras correspondente impressos no pas-saporte, para leitura ótica, além do número da fazenda.
O registro individual de bovinos por meio do sistema manual é trabalhoso e buro-crático, especialmente no RU. A cada mu-dança de proprietário, uma página do passa-porte - um carnê com 14 folhas de papel - tem de ser destacada e enviada para a base central no prazo de sete dias. Esses registros ficam armazenados manualmente ou por
computador para acesso do público interes-sado, por um prazo não inferior a três anos. Além desse controle do paradeiro de cada animal, imediatamente após a sua chegada e antes da sua partida, o pecuarista é obrigado a, no mínimo, registrar e manter na sua pro-priedade os dados de movimentação da ati-vidade, os nascimentos, as mortes e as datas das ocorrências.
O tempo de requisição de passapor-tes também é rígido, mas vem diminuindo com o aperfeiçoamento do sistema de identi-ficação e registro. A etiquetagem tem de ser feita em curto período de tempo: gado leitei-ro deve ser “brincado” durante as primeiras 36 horas de vida; quanto ao gado de corte, esse prazo era de até 30 dias após o nasci-mento; a partir de janeiro de 2000 esse limi-te caiu para 20 dias. Em 1996, as solicita-ções de passaporte para gado de corte ti-nham de ser feitas até 58 dias após o nasci-mento. Em janeiro de 2000, em plena opera-ção do CTS, esse prazo caiu para sete dias. Aquele que não cumprir essas regras sofre advertências e, no caso de reincidência, cor-re o risco de ser processado (MAFF, 1999).
Como a rastreabilidade é um sistema composto por vários elementos inter-relacionados, os custos de transação para rastrear bovinos permeiam essa estrutura interdependente de informação pois são dados com alta especificidade de tempo para serem capturados pelo sistema central de identificação e controle, assim como de alta especificidade de tempo para uso da infor-mação. A etiquetagem é atrelada ao período de nascimento do animal. Se o criador envia o número de identificação de um bezerro que nasce para a base central no tempo exi-gido, mas a notificação da movimentação de
animais num leilão não é capturada pelo CTS até 7 dias após, a rastreabilidade fica ameaçada pois se pode perder o paradeiro dos animais.
4.7 IDENTIFICAÇÃO ELETRÔNI-CA: TENDÊNCIA INEVITÁVEL
O mercado dispõe de recursos tecno-lógicos para a identificação eletrônica de animais que aumentam a praticidade, a segu-rança e a agilidade do processo, reduzem a possibilidade de erros de digitação e elimi-nam a exigência do envio de passaportes em papel para a central pública de dados. Base-ados em rádiofreqüência5, um microchip
atado no animal contém informação que é
5 Até 2000, a tecnologia disponível no mercado para identificação eletrônica de animais era a de radiofreqüência (RFID), com leitor eletrôni-co eletrôni-compatível eletrôni-com o padrão ISO 11784 e 11785 (CALDER; MARR, 1998). Conhecido pelo nome de transponder, o brinco externo, em forma de cápsula plástica blindada conten-do um microchip, tem siconten-do o tipo mais utiliza-do na pecuária. O brinco com microchip tem mais vantagens porque foi projetado para su-portar condições ambientais hostis, tem maior alcance de leitura e é de fácil aplicação. Para efeito de rastreabilidade, só pode ser usada a versão inviolável. Embora venha sendo difun-dida em alguns países da UE, a etiqueta com código de barras não é prática para identificar grandes rebanhos de animais por ser de difícil leitura. O código de barras tem utilidade a par-tir do abate porque permite a captura automáti-ca da identidade de automáti-cada animal em sua entrada no abatedouro e, principalmente, nas etapas posteriores de etiquetagem da carne para distri-buição no atacado e no varejo. Como os dados que documentam o histórico de um animal são incluídos em seu passaporte, recomenda-se também usar códigos de barras nos passaportes dos animais.
captada por um leitor especial e transmitida para o computador do próprio criador e para o banco central de dados. Esse sistema ga-rante a manutenção atualizada da base cen-tral de dados, acompanhando passo a passo a movimentação dos animais.
A identificação eletrônica pode di-minuir custos de transação na rastreabilidade da carne bovina sob diferentes maneiras: • ao transpor as barreiras de local e
tem-po, a identificação eletrônica diminui as especificidades de tempo de aquisição e de uso da informação;
• a conectividade, especificidade de ativo exigida entre os diversos agentes de uma cadeia de carne submetida à ras-treabilidade, é eliminada porque todos os agentes envolvidos no processo po-dem ser conectados rapidamente; • a identificação eletrônica facilita a
co-ordenação afinada com o princípio de incentivo baseado em remuneração da carne pelo critério de qualidade da car-caça;
• com a consolidação de esquemas de qualidade certificados e do suporte de TI para manter o fluxo de informações, o mercado como um todo fica transpa-rente possibilitando transações confiá-veis coordenadas, inclusive, pelo mer-cado.
Até quando este estudo foi efetuado, a tecnologia de identificação ainda estava em fase de experimentação e era pouco pa-dronizada. Muitas experiências de campo vinham sendo conduzidas, tanto com identi-ficadores eletrônicos, quanto em termos de sistema de codificação em padrão
EDI-Revista Brasileira de Agroinformática, v. 7, n. 1, p.8-28, 2005 FACT6 para alimentar o banco de dados
central. A falta de padronização em equipa-mentos e sistemas de linguagem para comu-nicação de dados por via eletrônica tem sido a principal barreira para a difusão do uso de recursos em TI nessa atividade (EAN/EAN BRASIL, 1999; RIBÓ; CROPPER; KORN, 1999).
Contudo, rastrear mais de 20 mi-lhões de animais ao ano, com dados indivi-duais sobre data e local de nascimento, pro-gênie, sexo, registros veterinários de contro-le sanitário e trânsito, sem contar com o suporte da TI para minimizar riscos proveni-entes de erros humanos e papelada, é tarefa difícil e gera altos custos de transação. Co-mo a identificação através de brincos con-vencionais é vulnerável e o sistema manual de registro individual de bovinos é trabalho-so, burocrático, especialmente no RU, acre-dita-se que o governo inglês decida por im-plantar um sistema de identificação eletrôni-ca a médio prazo, até mesmo em eletrôni-caráter compulsório (MAFF, 1999).
Como o mercado tem papel funda-mental na validação da tecnologia e ações institucionais são determinantes para dire-cionar o ambiente competitivo, uma vez que
6 Eletronic Data Interchange for Administration
Commerce and Transport (EDIFACT) é o
prin-cipal padrão internacional de EDI ou troca ele-trônica de dados, definida pela Organização das Nações Unidas. Inclui procedimentos para definir padrões de EDI específicos para transa-ções internacionais de comércio, transportes, bancos, seguros, alfândega, construção e turis-mo. Com o EDIFACT, o tratamento eletrônico da papelada envolvida nas transações interna-cionais poupa tempo, dinheiro e reduz o volu-me de erros (EAN BRASIL, 2000).
países como a Austrália, o maior exportador de carne bovina, decidiu investir na identifi-cação eletrônica adquirindo um milhão de
transponders auriculares em 1999 da
All-flex, líder mundial na fabricação de identifi-cadores eletrônicos para animais de produ-ção, é de se supor que o padrão de rastreabi-lidade tenda a incorporar a TI nos próximos anos.
4.8 O LEILÃO TRADICIONAL E O LEILÃO ELETRÔNICO Apesar das inovações organizacio-nais e tecnológicas criadas para restabelecer a confiabilidade da carne bovina do RU, o tradicional leilão de gado parece ser um sistema que tende a persistir no RU, contra-riando o ponto de vista de Fearne (1998; 2000). Segundo esse autor, no longo prazo a tendência é aumentar as ligações diretas entre fazendeiros, abatedouros e varejistas, a exemplo dos clubes de criadores que seria uma maneira de estabelecer relações de fide-lidade na cadeia de suprimento.
Porém, o que se percebe é que o lei-lão tradicional ainda exerce papel importante na comercialização e movimentação de bo-vinos e obo-vinos no RU. Estatísticas mostram que os leiloeiros convencionais vendem mais de 50% do gado de primeira linha e cerca de 65% dos ovinos da Escócia (SQ-BLA, 2000).
Prova maior disso é uma matéria publicada pela imprensa inglesa em novem-bro de 1999, informando que a Tesco, prin-cipal cadeia de supermercados do RU, pas-sou a permitir que seu principal fornecedor complementasse seus estoques (usualmente
comprados diretamente de membros de clu-bes de criadores) com carne de boi e de cor-deiro adquiridos em leilões aprovados pela SQBLA, a título de experimentação (SQ-BLA, 2000). Tal prática contraria a postura inicial da Tesco de se suprir apenas de carne de clubes de criadores.
Conforme já indicado, a SQBLA tem papel importante no desenvolvimento de padrões que levam em conta o bem-estar do animal, rastreabilidade e qualidade do corte. Atuando também junto aos leilões tradicio-nais, os padrões SQBLA e de outros pro-gramas de garantia que atingem a indústria da carne do RU, conjugados ao programa nacional de rastreabilidade de gado bovino, parecem estar dando mais flexibilidade ao mercado. A restauração da confiabilidade do leilão tradicional resulta de uma conjugação de esforços, garantindo transparência de informações no mercado.
O leilão tradicional faz parte da cul-tura do homem do campo; tende a beneficiar os fazendeiros que preferem vender animais vivos, além de exercer uma função social muito apreciada por eles. Em teoria, o leilão eletrônico poderia ser melhor para os fazen-deiros pois ampliaria o número de compra-dores. No entanto, a sua participação é ainda pequena, não mais que 20% do volume ne-gociado nesse tipo de mercado, segundo Fearne (2000).
4.9 O AMBIENTE INSTITUCIONAL E A DINÂMICA DA ESTRUTURA DE COORDENAÇÃO DA CADEIA
DE CARNE NO RU
A estrutura de coordenação da ca-deia de carne tem sofrido alterações ao
lon-go do tempo, condicionada pelas forças do ambiente institucional, organizacional, tec-nológico e da própria conduta estratégica das empresas.
Assim, grosso modo, é possível es-tabelecer três fases distintas de evolução das estruturas de coordenação dominantes da cadeia de carne bovina no RU.
Antes de 1990, a carne vermelha era uma commodity. Os animais eram vendidos predominantemente por meio do leilão tradi-cional e a carne era distribuída indistinta-mente para muitos agentes intermediários e varejistas, numa situação típica de mercado competitivo.
Em 1990, com a constatação do “mal da vaca louca”, as regras do jogo para os agentes participarem da atividade torna-ram-se rígidas com a promulgação da Lei de Segurança Alimentar. Nessa fase, para aque-les agentes mais agressivos e com recursos para investir em TI, surgiram novas oportu-nidades de negócios para carnes diferencia-das, vendidas com marcas próprias, por meio de alianças entre frigoríficos e redes de supermercados, bem como por restaurantes sofisticados e boutiques de carne, interessa-dos em obter melhores preços e vantagem competitiva. Sob padrões de qualidade para segmentar o mercado e esquemas próprios de suprimento, envolvendo “clubes de cria-dores”, entre 1990 a 1996, os agentes priva-dos, organizados em subsistemas estritamen-te coordenados, usavam a rastreabilidade com TI como condição para se diferenciar dos concorrentes e aumentar sua participa-ção no mercado.
A terceira fase começou ao final de 1996, quando a “doença da vaca louca”
tor-Revista Brasileira de Agroinformática, v. 7, n. 1, p.8-28, 2005 nou-se crítica e a rastreabilidade obrigatória.
Foi preciso conjugar esforços do setor públi-co e privado para implantar e públi-controlar pa-drões de qualidade da produção do gado, devidamente certificados, bem como disse-minar recursos em TI para organizar e dar transparência da informação entre os agentes da cadeia. As inovações implantadas tiveram que ser de duas ordens: tecnológicas e orga-nizacionais. As tecnológicas têm relação com: (1) os padrões de criação e manejo dos animais e (2) as de informação, como o sis-tema de identificação e o CTS. As ações das organizações públicas (ABM, BCMS) e as iniciativas de interesse privado (SQBLA) foram fundamentais para restabelecer a con-fiabilidade do negócio de carne e flexibilizar a sua estrutura de coordenação, restaurando o leilão como fonte alternativa de suprimen-to para os supermercados e, portansuprimen-to, a con-corrência via mercado.
5 CONCLUSÃO
Buscando conjugar a questão da TI com rastreabilidade na coordenação de SAGs, neste trabalho partiu-se do pressupos-to de que, a princípio, a rastreabilidade de atributos de alimentos aumenta os custos de transação por exigir um fluxo de informação complexo, até então desnecessário para co-ordenar SAGs de produtos simples e homo-gêneos como o da carne bovina. O aumento dos custos de transação decorre principal-mente da especificidade de ativos relaciona-dos à natureza do produto e às informações sobre suas características que precisam ser coletadas e transmitidas para responsáveis de todos os segmentos da cadeia produtiva. Isso acaba por estimular alterações nas for-mas de coordenação do SAG para essas
informações fluírem com maior agilidade e segurança. Estruturas coordenadas vertical-mente como a hierarquia e/ou contratos de cooperação formais e informais seriam solu-ções mais adequadas para tratar transasolu-ções complexas, preferíveis às transações gover-nadas pelo mercado.
A eficácia da rastreabilidade em SAGs depende de coordenação baseada no tempo. Como velocidade de ajustamento de um sistema é fonte de vantagem competiti-va, SAGs mais agressivos, ao buscarem o apoio da TI, conseguem diminuir as especi-ficidades de ativos envolvidas na rastreabili-dade de produtos, reduzindo assim seus cus-tos de transação.
Em transações que envolvem rastre-abilidade de alimentos, a ótica da informa-ção foi enfatizada, com descriinforma-ção dos seus ativos específicos. O componente do custos de transação mais importante é a especifici-dade de ativos e é de duas ordens: 1) especi-ficidade do produto a ser transacionado ao longo do seu fluxo físico e 2) especificidade do fluxo de informação.
As limitações deste estudo se devem principalmente ao curto período de tempo analisado. Por causa disso, preferiu-se evitar falar em impacto da TI na coordenação do SAG da carne bovina no RU. Impacto dá a entender grandes mudanças. Pelo menos foi possível verificar alguns efeitos da rastreabi-lidade na estrutura de coordenação da ca-deia, indicando a validade do referencial teórico.
Entre 1990 até 1996, quando se deu a “crise da vaca louca”, enquanto a TI tinha uso restrito, abriu-se um leque de oportuni-dades em empreendimentos privados para
fornecer carne bovina cujo elemento dife-renciador era a rastreabilidade garantida por processos eletrônicos. Subsistemas estrita-mente coordenados foram organizados nessa etapa de adaptação com investimentos espe-cíficos em TI, visando vantagens competiti-vas.
Nesse período de adaptação, estraté-gias individuais de supermercados para ven-da de carne bovina foram se tornando padrão competitivo generalizado: uso de marcas próprias e desenvolvimento de ações coope-rativas para trás, visando coordenação verti-cal com abatedouros e criadores de gado para atender padrões em rastreabilidade garantida da carne.
Em 1996, quando a rastreabilidade tornou-se compulsória, a transparência sobre os atributos de qualidade exigidos para a carne bovina e as condições de rastreabili-dade passaram a se aprimorar, especialmente após setembro de 1998, quando a base cen-tral de dados informatizada entrou em ope-ração. Ao possibilitar um fluxo mais rápido de informação e agregação dos dados, favo-receu transações coordenadas tanto pelo mercado, via leilões, quanto pelas formas híbridas. Supermercados como o Tesco, havendo estabelecido uma política de só adquirir carne de clubes de criadores sele-cionados da Escócia, passam a aceitar carne adquirida de leilões tradicionais. Além de o leilão dar mais incentivo aos criadores, van-tagens competitivas conquistadas por inicia-tiva do setor privado tendem a ser elimina-das.
Entretanto, a aprovação do leilão tradicional como fonte supridora de carne assegurada não decorre somente da redução
das especificidades de ativos por causa da TI. Mais do que a TI, a mudança das estrutu-ras de coordenação decorrem das pressões de ordem institucional. Se a rastreabilidade não fosse compulsória e os custos (incenti-vos negati(incenti-vos) de não alinhamento aos pro-cedimentos exigidos não fossem efetivos, o leilão tradicional estaria ameaçado. Serviços de informação ligados a padrões em proces-sos de qualidade e certificação, desenvolvi-dos em conjunto com organizações de inte-resse privado como a SQBLA, também são importantes redutores dos custos de transa-ção. A TI passa a ser o instrumento catalisa-dor da redução das especificidades de ativos, eliminando principalmente as barreiras geo-gráficas, erros e tempo necessário para aqui-sição e uso de informação de rastreabilidade e facilitando a coordenação pela capacidade de conexão rápida de todos os agentes da cadeia produtiva.
Da releitura teórica do ambiente competitivo do negócio de carne com a difu-são da TI, conclui-se ainda que, para ser competitivo nesse mercado, além da rastrea-bilidade, a tendência é incorporar inovações em TI, inclusive com identificação eletrôni-ca de animais.
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