1. O padrão sexual do pastor
Será que o pastor tem um padrão defi nido para a sexualidade? Há um modelo biblicamente ideal, ou mesmo cristão de sexualidade pas-toral? Existe uma espécie de “cama-sutra” espiritual para o sacerdo-te? Eu creio que sim, pois nas Escrituras encontramos um padrão de sexualidade descrito com um surpreendente conjunto de detalhes. Todos nós sabemos que a Bíblia é nosso manual de fé e prática, nos-so mapa de nos-sobrevivência, o manual do “proprietário”, com todas as dicas para que a “máquina” funcione corretamente. Erroneamen-te pensamos a Bíblia de uma forma reducionista, apenas como um compilado de temas espirituais que nos orientam nas demandas do ministério, desde o preparo dos nossos sermões, passando pela se-dimentação doutrinária, chegando ao suporte para o nosso trabalho de aconselhamento. A verdade é que as Escrituras trabalham tudo que diz respeito ao Criador e a criatura, inclusive a anatomia do pra-zer. Falam abertamente acerca de sexo e, tanto no Antigo quanto noSENSA
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Novo Testamento, nos deparamos com textos fartos e preciosos sobre sexualidade. Obviamente não encontramos no texto sagrado termos como: pênis, vagina, relação sexual ou orgasmo. Isto apenas é uma questão de tradução visto que, embora o Novo Testamento tenha sido produzido originalmente numa linguagem popular, o conhecido “gre-go koiné”, sua tradução foi feita num português clássico, numa época de extrema censura e intensos tabus. Estas palavras são trocadas por vocábulos diferentes, sinônimos mais suaves, resultado do moralismo com que engessaram o tema. A expressão “manteve relações sexuais”, por exemplo, é traduzida por “conheceu” ou “coabitou”, ou mesmo “foi para a tenda”. Órgãos genitais são conhecidos como “entranhas” ou “por baixo da coxa”. Na verdade, a moralidade da Idade Média, soma-da à falsa concepção de pecado original trabalhasoma-da pela Igreja Católica Romana, infl uenciaram a tradução da Bíblia no quesito sexo.
Quando o assunto é casamento, por exemplo, podemos fazer uma leitura bíblica romântica e descobrir o grande romance de Deus. A Bíblia nos conta a história de um “Rei” todo-poderoso que tinha um fi lho, o “Príncipe”, que se apaixonou por uma “plebeia”. A “plebeia” ti-nha uma vida errada e muito distante dos padrões do palácio, sendo inclusive escrava de seu “cafetão”, que a explorava. Ao se apaixonar por ela, o “Príncipe” passou a disputá-la com o “cafetão” ao longo de anos. Na luta o “Príncipe” morreu pela sua amada e o “cafetão” pensou ter ganhado a batalha. O “Rei”, porém, todo-poderoso, ressuscitou seu fi lho e mandou prender o “cafetão”. Com a ressurreição do “Príncipe”, um milagre aconteceu, a “plebeia” se transformou numa “Princesa” pura e maravilhosa, reconheceu quanto fora enganada pelo “cafetão” e consagrou seu amor ao “Príncipe”. Por fi m fi caram noivos; o “Príncipe” fez uma longa viagem e, quando retornou, casou-se com a “Princesa”. Agora estão se preparando para juntos morarem no requintado palá-cio preparado exclusivamente para ambos no “Reino” do seu pai. Não há como negar que a história da salvação é uma história de romance e casamento. Eu costumo brincar com os jovens dizendo que no céu não entrarão solteiros, visto que lá já seremos recebidos com as bodas do Cordeiro (Ap 19.9).
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Quando o tema é sexo, da mesma forma podemos nos debruçar sobre a Bíblia e nela encontrar os mais nobres princípios para uma vida abundante. Certa ocasião, ministrando a colegas, disse que ia passar para eles uma posição bíblica para a sexualidade”. Falei, ensi-nei, discorri e ao fi nal um pastor cochichou ao meu ouvido: “Pr. Jasiel,
você esqueceu de nos falar qual é a posição”. Dei muita risada por causa da
expectativa que ele alimentou sobre a tal “posição”. Na verdade, eu me referia ao “padrão bíblico” para o sexo.
Dos 66 livros das Escrituras, um foi separado, para tratar exclusiva-mente sobre intimidade e sexo. Trata-se do Cântico dos Cânticos, um livro que conta o romance e casamento de um homem e uma mulher na manifestação aberta e direta da sexualidade. É claro que a lingua-gem é poética, difi cultando para nós a compreensão de suas fi guras e simbolismos. É um exercício de interpretação cultural e transposi-ção. Comparar uma linda esposa às éguas de Faraó, por exemplo, não é nada romântico para a nossa cultura ocidental. Imagino que, se o pastor arriscar este tipo de elogio à sua esposa, no mínimo terá de dor-mir uma semana no sofá ou fora de casa. Apesar das ponderações da hermenêutica, creio que o padrão de sexualidade pastoral está neste li-vro e, ao estudarmos Cântico dos Cânticos, teremos um ideal bíblico e não menos erótico para a sexualidade. É aqui que nos deparamos com a descrição de um amor físico e ao mesmo tempo espiritual, de um servo de Deus e sua esposa. Sabemos que Salomão, o autor, entendia muito de sexo, afi nal teve 700 esposas e 300 concubinas, mas sabemos também que foi inspirado pelo Espírito Santo para descrever o modelo santo de sexualidade.
O dr. Joel Wright, em seu comentário sobre Cântico dos Cânticos, escreve que Salomão foi coroado em 970 a.C. e reinou 40 anos (1Rs 11.42). Como Rei de Israel, Salomão solidifi cou seu poder político e se dedicou à construção do Templo e do Palácio em Jerusalém. Depois de concluir as obras, como um passo político, realizou seu primeiro “casamento” com a fi lha do Faraó do Egito (1Rs 9.16-24), visto que entre os estadistas havia a prática dos casamentos múltiplos e políticos que garantiam os acordos de paz. Eram os pactos políticos selados pelos
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reis, num ambiente familiar ou tribal. Esta prática já era do seu pai Davi (2Sm 5.13) e da grande maioria dos reis da época. No fi nal da sua vida, (1Rs 11.1-6) encontramos as esposas da linhagem real, de muitos outros reinos. Estes, certamente, não foram pactos dentro do padrão bíblico de casamento, e inclusive representaram um tropeço para todo o reino. Não obstante, em meio a uma “realidade política”, este cântico ainda tenta fazer uma projeção mais pessoal e consistente com Gêne-sis, de estabelecer um relacionamento especial com uma só mulher. Salomão mesmo declara: Há sessenta rainhas, oitenta concubinas, e virgens
sem número. Mas uma só é a minha pomba, a minha imaculada; …viram-na as rainhas e as concubinas, e louvaram-na. (Ct 6.8, 9).
Pode ser que esta “esposa dos seus sonhos”, seu “amor ideal”, que inspirou seus cânticos, fosse uma fi gura composta, em parte histórica, em parte fi cção. Muito possível é que tenha sido baseada em parte numa mulher real chamada “Sulamita” (Ct 6.13), que signifi ca “paci-fi cadora”. Em 1Rs 1.1-4 encontramos várias qualidades de Abisague, a moça mais bonita de Israel conhecida como a “Sunamita”. Ganhando uma “competição nacional de beleza”, Abisague atendeu a Davi nos seus últimos dias de vida, sem ter relações sexuais com o rei. A mu-lher “Sunamita” pode muito bem descrever esta “Sulamita” de Cân-ticos, mulher de beleza surpreendente, que morava e trabalhava nas campinas, tendo sido criada longe do palácio real. Interessante que as palavras “Sunamita” e “Sulamita” no hebraico são quase idênticas e sinônimas. Deste jogo de letras deriva-se a tese de que Abisague era a Sulamita.
Sendo “Abisague” sobremaneira formosa, era muitíssimo cobiça-da por Adonias, irmão de Salomão, depois cobiça-da morte do seu pai Davi (1Rs 2.21-25). Casar e dormir com a esposa do pai seria um ato ilícito pela lei judaica e repudiado pela sociedade. É interessante que Salo-mão teve uma reação muito forte em proteger “Abisague” no começo do seu reinado. Antes que o pedido da parte de Adonias se tornasse um escândalo na casa real, Salomão autorizou a morte de Adonias. Salomão alegou que, ao pedir a mão dela, Adonias estaria pedindo o reino.
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A Bíblia não relata o casamento eventual de “Abisague” com Salo-mão, sendo então possível que Salomão tenha guardado um amor secreto por ela no seu imaginário, mas negando relações íntimas em função da honra do nome de seu pai, Davi. Salomão, mesmo com todos os seus “casamentos políticos”, parece haver morrido sem ter realizado o sonho do amor ideal, além dos interesses políticos e da paixão física. Independentemente da tese que faz alusão ao contexto do livro, creio que Cântico dos Cânticos descreve o sexo como se o casal não tivesse passado pela “queda do Éden”, nem pelas suas consequências funestas. Creio também que o livro de Cântico dos Cânticos é mais do que uma poesia hebraica; é um texto erótico para uso legítimo e sem culpa. Que bom seria se o pastor e a esposa lessem o Cântico dos Cânticos e fi cassem excitados! Não leia o Cântico dos Cânticos com os olhos do “santarrão superespiritual”, dizendo que ele trata da fi gura alegórica de “Cristo e a Igreja”. Trata-se de um poema hebraico eróti-co. Puro, sagrado e limpo, mas erótieróti-co. Nesta poesia Salomão descreve coxas, seios e lábios. Descreve insinuações, perfumes, roupas sensuais e desejos. Leia o capítulo 4 sob este prisma:
Como és formosa, querida minha, como és for-mosa! Os teus olhos são como os das pombas
e brilham através do teu véu. Os teus cabelos são como o rebanho de cabras que descem
ondeantes do monte de Gileade. São os teus dentes como o rebanho das ovelhas
recém-tos-quiadas, que sobem do lavadouro, e das quais todas produzem gêmeos, e nenhuma
delas há sem crias. Os teus lábios são como um fi o de escarlata, e tua boca
é formosa; as tuas faces, como romã partida, brilham através do véu. O
teu pescoço é como a torre de Davi,
edifi cada para arsenal; mil escudos pendem dela, todos broquéis de soldados
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valorosos. Os teus dois seios são como duas crias, gêmeas de uma gazela,
que se apascentam entre os lírios. Antes que refresque o dia, e fujam as sombras, irei ao monte da mirra e ao outeiro do incenso. Tu és toda formosa, querida minha, e em ti não há defeito. Vem comigo do Líbano, noiva minha, vem comigo do Líbano; olha do cimo do Amana,
do cimo do Senir e do Hermom, dos covis dos leões, dos montes dos leopardos. Arrebataste-me o coração, minha irmã, noiva minha; arrebataste-me o cora-ção com um só dos teus olhares, com uma só pérola do teu colar. Que belo é o
teu amor, ó minha irmã, noiva minha! Quanto melhor é o teu amor do que
o vinho, e o aroma dos teus unguentos do que toda sorte de especiarias! Os
teus lábios, noiva minha, destilam mel. Mel e leite se acham debaixo da tua língua, e a fragrância dos teus vestidos é como a do Líbano. Jardim fechado és
tu, minha irmã, noiva minha, manancial recluso, fonte selada. Os teus
reno-vos são um pomar de romãs, com frutos excelentes: a hena e o nardo; o nardo e o açafrão, o cálamo e o cinamomo, com toda a sorte de árvores de
incenso, a mirra e o aloés, com todas as principais especiarias. És fonte dos jar-dins, poço das águas vivas, torrentes que correm do Líbano! Levanta-te, vento norte, e vem tu, vento sul; assopra no meu jardim, para que se derramem os seus aromas. Ah! Venha o meu amado para o seu jardim e coma os seus frutos excelentes! (Ct 4).
Salomão não deixa dúvidas sobre sua paixão ardente pela Sulamita, quando tece todas as comparações poéticas aludindo a cada parte do corpo encantador da jovem que cativou seu coração.
A sexualidade descrita neste livro é de uma beleza e pureza tal, que podemos concluir que é totalmente cristã. É como se o casal tivesse conhecido Cristo, se convertido e consagrado seu corpo e sua sexua-lidade a Deus. Posso dizer com toda convicção que “Salomão e Sula-mita”, segundo o livro de Cântico dos Cânticos, é um casal-modelo de sexualidade para todos nós, pastores e líderes. Tenho colocado em nossa vida matrimonial um alvo de excelência sexual semelhante à do Cântico dos Cânticos. Um conselho, pastor: leia e pratique Cântico dos Cânticos... enquanto é tempo.
2. “Oito ou oitenta”
A nossa religiosidade, herdada de um movimento missionário quase medieval, distorceu, reprimiu e reduziu a sexualidade. Para Deus, o casamento é a relação sexual entre duas pessoas que, com responsa-bilidade, projetam seu destino comum, e, quando um casal se une no sexo, está ofi cialmente casado. Esta é a ideia original do Gênesis, o li-vro dos começos. Deus nos fez à sua imagem e semelhança, e sabemos que Deus é uma família – a Trindade – e nos fez família também.Acontece que o moralismo religioso nos leva, inconscientemente, a extremos, em que, de um lado temos o celibato dos sacerdotes que que-rem melhor servir a Deus e à Igreja. O voto de celibato proíbe qualquer expressão de sexualidade do sacerdote e é claro que esta normativa tem outras motivações, porém ela discretamente induz ao pensamen-to de que a sexualidade do sacerdote é pecaminosa. No outro extremo deste pensamento, para nós, protestantes, o casamento é quase uma condição para ordenarmos nossos pastores. Apoiamos cem por cento