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O CONCEITO DE DEUS NA ÉTICA DE ESPINOSA
Angelo Zanoni Ramos1
RESUMO
Neste trabalho, pretendemos identificar o conceito de Deus na Ética demonstrada à maneira
dos geômetras. Nosso propósito é situar o tema no interior de um contexto histórico no qual o
autor contesta as tradições judaico-cristã e aristotélico-tomista, estabelecendo com elas uma ruptura que deixou traços na posteridade.
Palavras –chave: Deus – ética – substância - natureza.
RÉSUMÉ
Dans ce travail, nous avons l'intention d'identifier le concept de Dieu dans l'éthique démontré à la manière des géomètres. Notre but est de localiser l'objet dans un contexte historique dans lequel l'auteur conteste la civilisation judéo-chrétienne et aristotélicienne et thomiste, les engageant dans une rupture qui a laissé des marques sur la postérité. Mots-clés: Dieu - l'éthique - le fond - la nature.
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O CONCEITO DE DEUS NA ÉTICA DE ESPINOSA
O filósofo Bento de Espinosa apresenta-se ao leitor de um modo inquietante e, às vezes, polêmico. Autor de uma concepção popularizada como panteísta, Espinosa foi um dos intelectuais que, em pleno século XVII e sob o risco da sofrer a penalidade máxima pelo Tribunal do Santo Ofício, verteu suas críticas à tradição judaico-cristã, na qual ele mesmo fora introduzido, sobretudo no judaísmo.
A tradição judaico-cristã concebe Deus como um ser transcendente, criador do homem, da terra e todos os seres que a habitam. O Cristianismo difundiu a noção de criação em contrapartida à de geração. O Deus Filho é produzido mediante a geração, isto é, engendrado (gerado) pelo Deus Pai, num ato produtor que consiste em conferir àquele que é produzido toda a natureza e perfeição do produtor. Do mesmo modo que um casal humano, ao gerar um filho, atribui a ele sua natureza humana, racional, o Deus Pai confere ao Filho a própria natureza divina.
Quanto ao homem, a tradição cristã, assim como a judaica, considera-o objeto de ato criador, pelo qual Deus produz do nada as suas criaturas, as quais não herdam a natureza divina. A noção criação supõe, portanto, que aquilo que é produzido seja de uma natureza inferior à do seu produtor, da mesma maneira que um artefato é inferior ao artesão que o concebeu por meio da sua razão, inteligência e criatividade. Além disso, o ato criador supõe a causalidade eficiente transitiva: a causa (Deus) transcende o nível dos seus efeitos, o que resulta na separação entre o criador transcendente e a criatura imanente.
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34 O homem, por sua vez, também é dotado de livre arbítrio e, na condição de criatura, que não herdou a perfeição do criador, fez mau uso de seu arbítrio, optando pela violação do preceito divino, o que resultou na queda da condição humana.
Portanto, essa tradição que Espinosa contesta forjou teorias sobre Deus que são, segundo nosso autor, produto da imaginação (CHAUÍ, 2001, p. 44). Imaginaram um Deus separado dos demais seres, uma espécie de figura antropomórfica atribuída a Deus, dotada de vontade, arbítrio para julgar os homens, puni-los, uma espécie de governante do mundo supostamente criado por ele. Além de transcendente, Deus é imaginado como onipotente pela sua vontade e seu intelecto, onipresente porque está em toda a parte como uma espécie de vigia de todas as suas criaturas, juiz que dispensa aos homens criados por ele a punição e a recompensa, e também legislador do mundo, ao formular leis para o convívio entre os homens numa sociedade, além de produzir leis que se tornam necessárias por uma espécie de decreto divino, tais como as leis da matemática, da mecânica ou da geometria.
Tudo o que é contingente no mundo, assim o é pela vontade divina que determinou sua contingência. E tudo o que é necessário no mundo passou pelo crivo da vontade divina que, uma vez produzindo algo, determinou que seria necessário. Mas, pela sua onipotência, Deus é capaz de “revogar” sua decisão, tornando contingente o que é necessário. Em outras palavras, Deus, por sua onipotência, é capaz de fazer com que 2+2 não sejam 4, que o sol desapareça do universo, deixando a Terra no completo congelamento e obscurecimento, parar o tempo, além de outras atitudes extraordinárias, as quais Deus não põe em prática simplesmente porque não quer fazê-lo.
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35 outras coisas, o homem forja a noção de um Deus justo que, pela sua providência, pode castigar os mal-feitores, e que, no futuro, isto é, numa vida após a morte, exercerá o julgamento final, punindo com o castigo eterno os dominadores e injustos, assim como recompensando com a felicidade eterna os justos, vítimas das perversidades dos maus.
Espinosa nasceu em 1632, numa família de origem judaica que foi forçada a se converter ao Cristianismo em Portugal, e que se mudou para a Holanda, num bairro judeu, num país que era uma ilha de tolerância religiosa. Entretanto, Baruch (Bento) de Espinosa não buscou usufruir da relativa liberdade religiosa como um judeu diante das pressões do Cristianismo, e sim como um pensador à frente de sua época, um inovador cujo pensamento ia de encontro aos fundamentos do Cristianismo, bem como do próprio Judaísmo.
Em 1756, Espinosa é excomungado da comunidade judaica mediante um processo de excomunhão que se consumou na assembléia dos anciãos da comunidade judaica de Amsterdã. Em 1674, uma de suas obras, o Tratado teológico-político, foi condenada pelos pastores holandeses, que qualificaram o pensamento espinosano de veneno pernicioso, blasfematório, cheio de teses infundadas e perigosas, e abominações contra a chamada verdadeira religião (CHAUÍ, 2001, p.8).
A Ética demonstrada à maneira dos geômetras é uma obra em que o autor combate a tradição judaico-cristã na questão das paixões, dando a elas um tratamento livre do juízo de valor estabelecido dentro de doutrina revelada pelas Escrituras. Pretende ele tratar das paixões como se tratasse de superfícies, volumes, figuras geométricas, admitindo que as paixões são naturais ao ser humano, e não uma anomalia que é preciso extirpar pelo emprego da razão. Contudo, de acordo com o “modo dos geômetras”, antes mesmo de abordar a questão das paixões humanas, Espinosa abre a obra com um primeiro capítulo, que ele denomina “parte I”, dissertando acerca de Deus. Isso porque as paixões são do ser humano e, para compreender como elas se manifestam no homem, é preciso antes identificar e explicar a causa do homem: Deus, produtor de um homem dotado da capacidade de sentir e provocar paixões.
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36 imanente que produz seus efeitos sem transcendê-los, Deus aqui não cria, mas simplesmente produz de outro modo, o que é explicado na parte I da Ética.
Na definição VI, da parte I, Espinosa define Deus como substância: “Por Deus entendo o ente absolutamente infinito, isto é, uma substância que consta de infinitos atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita” (ESPINOSA, 1983, p. 76). Sendo assim, a partir do que foi afirmado, tudo o que o autor atribuir à noção de substância nos trechos seguintes da obra será também atribuído a Deus. Mas nesta definição, Espinosa não apenas define Deus como substância, mas também insiste que é um ser absolutamente infinito, isto é, infinito não no seu gênero, como são os números, os seres que compõem o universo físico e que são numericamente infinitos. Ser infinito absolutamente significa não ser limitado por nada e não ter nada que impeça ou reduza a sua essência, o que envolveria a sua negação e sua finitude.
As primeiras proposições da parte I estabelecem o monismo da Substância, demonstrando que a hipótese de haver mais de uma substância resulta em absurdos. É nesse trecho que o autor vai costurando sua concepção de Deus imanente, sendo ele a única substância da qual os humanos são efeitos produzidos por uma causalidade imanente os quais são modos de exprimir a substância única, e não substâncias produzidas por uma substância anterior. Espinosa explora a etimologia da palavra latina substantia, aquilo que subsiste por si mesmo e independe de qualquer outro ser. A tradição aristotélico-tomista não negava que Deus fosse substância, mas concebia esta substância como causa primeira de um conjunto de outras substâncias. Daí a necessidade de admitir a causalidade transitiva, uma vez que, de uma série de seres causados, chega-se à necessidade de admitir um ser que seja causa de todos os outros e não seja causado por nada2.
Na parte I Espinosa tece um conjunto de proposições por meio das quais aponta os absurdos de concebermos a existência de mais de uma substância. Se supusermos que há, por exemplo, duas substâncias, deveremos admitir que ambas têm, ou os mesmos atributos, ou atributos diversos. Ora, de acordo com a definição VI supracitada, a substância possui
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37 infinitos atributos. Sendo assim, se admitimos a existência de um ser com infinitos atributos, não haverá um atributo sequer que possa pertencer a outro ser senão ele mesmo. Logo, se houver duas substâncias, elas teriam de possuir atributos em comum, uma vez que cada uma delas, possuindo os seus atributos exclusivos, resultaria no absurdo de termos que admitir que os atributos da substância não são infinitos, e que uma substância não teria aqueles atributos que pertencem à outra.
Resta então a segunda hipótese: que haja duas substâncias com atributos em comum. Ora, de acordo com a proposição V, não pode haver duas ou mais substâncias com a mesma propriedade ou atributo (ESPINOSA, 1983, p. 80). Isso se torna mais claro se nos reportamos à definição de atributo na proposição IV: “Por atributo entendo o que o intelecto percebe da substância como constituindo a essência dela” (Ibid., p, 70, grifo meu).
Ao demonstrar sua concepção de substância, distinta daquela difusa em sua época, Espinosa também reformula o conceito de atributo. Para ele, um atributo não é simplesmente aquilo que atribuímos à substância, podendo ser essencial como, por exemplo, quando dizemos “Sócrates é homem”, ou acidental, tal como “Sócrates é calvo”. O atributo, segundo Espinosa, é aquilo que constitui a essência da substância e, neste caso, sendo a substância infinita, seus atributos também serão infinitos, e sendo ela algo que subsiste por si mesmo, os atributos também serão auto-subsistentes. Por fim, sendo o atributo aquilo que constitui a essência da substância, não poderá o mesmo atributo constar em duas substâncias, pois daí decorreria que ambas as substâncias, tendo o mesmo atributo, teriam a mesma essência e, conseqüentemente, seriam a mesma.
Portanto, não pode haver na natureza mais de uma substância, nem na hipótese de duas ou mais terem atributos diferentes e nem na de compartilharem os mesmos atributos. Sendo a substância única, tudo o que existe na natureza será, ou a substância enquanto produtora, ou então o seu produto (efeito), que não será substância, mas resultado de uma produção por causalidade imanente segundo a qual os efeitos não se separam da substância-causa, mas são maneiras de exprimi-las, ou seja, modos da substância divina única.
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38 seres humanos e outros que compõem a natureza não têm o estatudo de substância, por outro, evidentemente não são carentes de existência. Eles têm uma existência modal, uma vez que não são subsistem por si mesmos, mas ganham existência a partir da substância divina da qual são expressões, ou seja, afecções da substância que só existem por ela e por ela são concebidos. Sua existência é dependente da da substância, pois são produzidos por ela, não como pensa a tradição judaico-cristã, a saber, a substância divina criando substâncias humanas, irracionais ou inanimadas, mas enquanto efeitos de uma causa que é imanente e, dessa forma, não têm uma natureza separada, mas estão inseridos nessa natureza e são modos de essa natureza se expressar.
No escólio II da proposição VIII, Espinosa admite a dificuldade de os adeptos da tradição judaico-cristã compreenderem a verdadeira relação causal entre a substância e seus modos:
Não duvido que a demonstração da proposição 7 seja aceita com dificuldade pelos que julgam confusamente as coisas e não afizeram a conhecê-las pelas respectivas causas primeiras, sem dúvida, por não fazerem a distinção entre as modificações das substâncias e não saberem como são produzidas as coisas (Ibid., pp. 81-2).
Espinosa emprega o termo substância no plural porque, durante a redação da proposição VIII, ainda não havia demonstrado com suficiente clareza a unidade da substância divina, bem de acordo com o “modo geométrico” com que se propôs a fazer suas demonstrações. Quanto aos adeptos da tradição contra a qual escreve, o autor considera que a insistência em rejeitar sua tese do monismo da substância deve-se à confusão na tentativa de compreender o seu conceito, quando atribuem a ela tudo aquilo que se verifica nos modos. Dessa forma, confundem a natureza divina com a humana, atribuindo a Deus afetos humanos e, ao mesmo tempo, ignorando como esses afetos são produzidos (Ibid., p. 82)3.
A existência do homem como modo da substância supõe uma relação de dependência que decorre da própria causalidade imanente: o homem é produto da substância e consta de
3Sobre as paixões Espinosa dissertou na parte III da Ética, depois de escrever sua concepção acerca da relação
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39 corpo e alma. Ora, Espinosa e os leitores do século XVII estavam cientes de como Descartes concebera o homem como um composto de duas substâncias, a saber, a substância pensante (alma) e a extensa (corpo), produzidas pelo Deus criador. Ao compor a concepção monista da substância, Espinosa não se opõe completamente a Descartes, mas confere um outro estaduto às ditas substâncias acima. Pensamento e extensão são atributos da substância única, que consta de infinitos atributos dos quais conhecemos clara e distintamente apenas esses dois: o pensamento, pelo qual a substância produz nossas almas, e a extensão, pela qual produz nossos corpos.
Na proposição X, Espinosa demonstra a independência entre ambos os atributos pelo fato de que exprimem o ser da realidade ao mesmo tempo em que cada um é concebido por si (Ibid., p. 84). A afirmação da independência entre os atributos é um dos aspectos da obra de Espinosa que vai de encontro à tradição aristotélico-tomista, em especial no tocante à substância divina.
Extensão e pensamento são os dois atributos que conhecemos clara e distintamente. A substância divina é extensa enquanto, modificada, ocupa um lugar no espaço, tem uma figura, é visível ou tangível. O nosso corpo, os demais corpos e o universo físico, por exemplo, são modificações da substância pelo atributo extensão. A substância é pensante enquanto, modificada, exerce a inteligência, memória, vontade, etc. As idéias existentes, assim como nossa alma, são modificações da substância pelo atributo pensamento.
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40 alegria, nem de movimentos corpóreos passando pelo coração e nervos até afetar a alma, produzindo a tristeza.
Na proposição XI, Espinosa faz a demonstração de que Deus, a substância única, existe necessariamente: “Deus, ou, por outras palavras, a substância que consta de infinitos atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita, existe necessariamente” (Ibid., p. 85). Provar a necessidade de sua existência é imprescindível para o desenrolar do “modo geométrico”, já que nenhum dos componentes da demonstração de Deus como substância única pode deixar de ser estabelecido.
A prova se desenvolve tomando como pressuposto que Deus é substância que consta de infinitos atributos – o que foi afirmado anteriormente. Logo, provar que tem existência necessária um ser único e infinito, isto é, que não é limitado por nada, parece algo que pode ser exercido com fluência e toda facilidade. Entretanto, o autor propõe-se a examinar exaustivamente a questão, uma vez que está tocando num ponto crucial de sua contestação às tradições judaico-cristã e aristotélico-tomista, sobretudo levando-se em consideração que diversos autores ao longo da História estabeleceram provas da existência de Deus, dentre os quais os mais célebres são Santo Agostinho de Hipona, Santo Anselmo de Cantuária, Santo Tomás de Aquino e René Descartes.
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41 A segunda demonstração aponta para a ausência de forças que possam destruir a substância divina, isto é, a falta de causas pelas quais Deus possa não existir. Ora, para tudo há uma causa pela qual a coisa existe ou não existe. Esta causa deve estar contida, ou na própria natureza da coisa, ou fora dela (Ibid., p. 85).
No que tange à substância divina, a causa da sua não existência não pode estar no interior dela mesma, pois, segundo a proposição VIII, o existir pertence à natureza da substância. Sendo assim, seria absurdo que esse ser, cuja natureza implica necessariamente a existência, tivesse em si mesmo a causa de sua própria destruição.
Resta a outra hipótese: que a causa da não existência esteja fora da substância. Esta hipótese mostra-se absurda se nos reportamos à proposição VII, segundo a qual nada inibe a existência de Deus. De fato, se Deus é a substância única e infinita, não haverá nenhuma outra substância, nem nada fora dela que possa inibir sua existência. Deus existe necessariamente porque não há causa destruidora de sua existência, pois, para que houvesse, essa causa inibidora deveria vir da natureza divina, o que é inadmissível, ou então de outra substância, o que também não se pode admitir. Caso houvesse outra substância, esta não poderia ter atributos em comum com a substância divina, uma vez que duas substâncias, tendo atributos em comum, e sendo o atributo aquilo que constitui sua essência, as duas supostas substâncias seriam, na verdade, uma só. Portanto, nada inibe a existência de Deus.
A terceira demonstração aponta para a potência divina:
Não ter poder para existir é impotência, e, pelo contrário, ser capaz de existir é potência (como por si é noto). Por conseguinte, se o que agora existe necessariamente é constituído apenas por entes finitos, segue-se que os entes finitos têm mais poder que o ente absolutamente infinito – o que é absurdo (como por si é noto). Portanto, ou não existe coisa alguma, ou um ente absolutamente infinito tem necessariamente de existir (Ibid., p. 86).
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42 para tornar-se uma laranjeira. O movimento de plantar a semente na terra, o da fecundação, o crescimento da planta e, por fim, a mudança da pequena planta para a laranjeira atualiza a semente, fazendo que a laranjeira, em potência, torne-se uma laranjeira em ato.
Espinosa não compartilha dessa tradição. Ao contrário, toma o termo potentia no sentido de força ou poder. Segundo a proposição XXXIV, a potência de Deus é sua própria essência, isto é, causa de si (e causa de si nunca se limita) e causa de todas as coisas, e que sua essência supõe existência necessária. A sua potência, pela qual ele mesmo e todas as coisas existem e agem, é sua própria essência (Ibid., p. 113).
Voltando à terceira demonstração, na qual Espinosa associa a noção de potência à de existência, afirma ele o seguinte: ter poder para existir é potência, e não tê-lo, é impotência. Ora, os modos da substância, como, por exemplo, os seres humanos, entes finitos, existem. Logo, um ser que é absolutamente infinito, e que tem potência absoluta, mais razão tem para ser declarado existente.
Espinosa faz questão de ressaltar que essa terceira demonstração é feita a posteriori, e não a priori, como as anteriores. De fato, uma prova da existência de Deus a posteriori aparentemente depõe contra o modo geométrico. Entretanto, o próprio autor explica que se trata de uma espécie de “recurso didático”, ou seja, um meio de tornar a existência de Deus mais facilmente entendida pelo fato de prová-la partindo da existência de seres finitos, como nós mesmos. Não se trata de ceder ao modo aristotélico-tomista, presente nas vias de demonstração da existência de Deus elaboradas por Santo Tomás de Aquino, em sua Suma de
Teologia. Trata-se, antes, de um recurso visual do qual o próprio Galileu teria feito uso ao
lançar os objetos da torre de Pisa a fim, provavelmente, de tornar mais nítido aos olhos do público aquilo de que ele já era ciente a priori.
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43 resulta a sua existência. Sua perfeição não inibe sua existência, pois somente a imperfeição poderia fazê-lo. Neste caso, conclui Espinosa, não há existência alguma de que estejamos mais certos do que a existência de Deus, ente absolutamente perfeito e infinito, já que sua essência exclui toda imperfeição e supõe perfeição absoluta e, neste caso, exclui qualquer dúvida sobre sua existência (Ibid., p. 86-7).
Uma vez provada a existência de Deus, Espinosa parte para a demonstração de que a substância é indivisível. Trata-se de uma tarefa extremamente necessária depois de ter afirmado que pensamento e extensão são atributos da substância e, como tais, constituem a essência de Deus.
O que há de problemático no atrito com a tradição que Espinosa contesta é o conceito de extensão, uma vez que este conceito diz respeito a algo material, como, por exemplo, o universo físico. Se qualquer matéria é considerada divisível, pois pode ser repartida (o que mostra a própria experiência), resta demonstrar que a substância divina, bem como todos os seus atributos, é indivisível, e que a extensão, atributo pelo qual se originam os seres materiais, também o é.
Vejamos a proposição XII: “Não se pode considerar, verdadeiramente, qualquer atributo da substância do qual resulte que a substância pode ser dividida” (Ibid., p. 87). Se fosse admitida a divisibilidade da substância (e seus atributos), as partes resultantes dessa divisão, ou conservariam a natureza da substância, ou não a conservariam. Na primeira hipótese, cada parte seria, então, uma substância. Porém, sendo substância, cada parte deveria ser infinita (pela proposição VIII), seria causa de si (pela proposição V) e deveria ter um atributo diferente do das outras partes. Conseqüentemente, a divisão de uma substância geraria outras substâncias, o que é absurdo pela proposição VI, segundo a qual uma substância não pode ser produzida por outra substância. Por outro lado, na segunda hipótese, com a divisão das partes não conservando a natureza da substância, quando ela já estivesse toda dividida em partes iguais perderia a natureza da substância, o que é absurdo pela proposição VII, que diz que é da natureza da substância sempre existir (Ibid., p. 87).
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44 seus atributos, na proposição XIII ele se refere apenas à substância infinita independentemente dos seus atributos. Entretanto, o corolário desta proposição é digno de atenção: “segue-se daqui que nenhuma substância, e, por conseguinte nenhuma substância corpórea, enquanto substância, é divisível” (Ibid., p. 88, grifos meus).
Vimos que a substância consta de infinitos atributos dos quais conhecemos clara e distintamente o pensamento e a extensão. Uma vez que os atributos constituem a essência da substância, e, como ela, são indivisíveis, evidentemente o pensamento e a extensão são indivisíveis. Neste caso, Espinosa pode, enfim, declarar que a substância corpórea é indivisível, pois, pela expressão “substância corpórea” o autor quer dizer a própria substância entendida pelo atributo extensão.
Espinosa jamais negaria que um determinado corpo é divisível, uma vez que uma simples experiência mostra e a própria razão admite sua divisibilidade. Mas este corpo divisível não é sinônimo de substância corpórea: é simplesmente um modo finito da substância pelo atributo extensão, ou seja, uma maneira de expressar a substância de modo extenso e finito. Por substância Espinosa entende Deus, do qual conhecemos dois atributos: pensamento e extensão. A substância divina é pensante e extensa. Enquanto extensa, é corpórea. Daí o corolário: substância corpórea indivisível enquanto substância, pois ela é Deus indivisível visto pelo atributo extensão.
Deus é, portanto, substância única indivisível. Tudo o que existe que não está na essência divina é ao menos um modo finito de exprimir a substância. Sendo Deus substância única, este não está no interior da natureza; ele é a própria natureza da qual somos modo de exprimir. Nosso corpo exprime a natureza de maneira extensa, enquanto nossa alma exprime-a de mexprime-aneirexprime-a pensexprime-ante. Espinosexprime-a empregexprime-a exprime-as expressões, nexprime-aturezexprime-a nexprime-aturexprime-ante e nexprime-aturezexprime-a
naturada, esclarecendo a posição que os modos ocupam na natureza.
Natureza naturante é aquilo que existe e é concebido por si. É Deus enquanto
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45 infinito. Mas Deus é também Natureza naturada, enquanto modificado, ou seja, enquanto é expresso de um determinado modo.
Não se pode dizer que Deus, para Espinosa, é finito, já que foi provada sua infinitude. Entretanto, como Deus é a substância única, e tudo o mais, se não é seu atributo, é ao menos seu modo, então pode-se dizer que Deus é infinito enquanto Natureza naturante e finito apenas enquanto Natureza naturada, vista a partir dos modos finitos que expressam de maneira finita uma substância única e infinita. Isso vai ao encontro da insistência em tomar Deus como causa imanente, e não transitiva. Seria transitiva se Deus fosse apenas a Natureza
naturante. Mas a Natureza naturada também é Deus enquanto modificado. Deus também
seria causa transitiva se o que Espinosa chama de modos fossem criaturas divinas. Como são modos, fazem parte da substância única, da natureza única enquanto expressam, de certa maneira, o Deus único.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ESPINOSA, Ética demonstrada á maneira dos geômetras, Coleção Os Pensadores, São Paulo: Abril Cultural, 1983;
CHAUÍ, Marilena, Espinosa, uma filosofia da liberdade, São Paulo: Ed. Moderna, 2001; CUAUÍ, Marilena, Introdução à leitura de Espinosa, Tese de Doutoramento, São Paulo, USP,