UNIVERSIDADE FEDERAL DA GRANDE DOURADOS FACULDADE DE CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA
ALEXANDRE DA SILVA GONÇALVES
ANÁLISE DOS IMPACTOS AMBIENTAIS NEGATIVOS NA SUB-BACIA HIDROGRÁFICA DO CÓRREGO PANDUÍ –
MUNICÍPIO DE AMAMBAI / MS
Dourados 2017
ALEXANDRE DA SILVA GONÇALVES
ANÁLISE DOS IMPACTOS AMBIENTAIS NEGATIVOS NA SUB-BACIA HIDROGRÁFICA DO CÓRREGO PANDUÍ –
MUNICÍPIO DE AMAMBAI / MS
Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação de Geografia, da Faculdade de Ciências Humanas, na Universidade Federal da Grande Dourados, para a obtenção do título de Mestre em Geografia.
Orientador: Prof. Dr. André Geraldo Berezuk Co-orientador: Prof. Dr. Adelsom Soares Filho
Dourados 2017
TERMO DE APROVAÇÃO ALEXANDRE DA SILVA GONÇALVES
ANÁLISE DOS IMPACTOS AMBIENTAIS NEGATIVOS NA SUB-BACIA HIDROGRÁFICA DO CÓRREGO PANDUÍ –
MUNICÍPIO DE AMAMBAI / MS
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal da Grande Dourados para obtenção do título de Mestre em Geografia.
Aprovado em: 21 de março de 2017
Banca Examinadora
Prof. Dr. André Geraldo Berezuk (orientador) Faculdade de Ciências Humanas, UFGD
Prof. Dr. Charlei Aparecido da Silva Faculdade de Ciências Humana, UFGD
Prof. Dr. Marcos Norberto Boin
Faculdade de Ciências Humana, UFGD
Pra trás, nem pra pegar impulso.
Clóvis de Barros Filho
AGRADECIMENTO
Agradeço, primeiramente, a Deus, que me deu energia e saúde para concluir este trabalho.
Aos meus pais, que me incentivaram durante o tempo em que estive dedicado a esta pesquisa.
Ao professor Adelsom Soares Filho, pelo apoio técnico neste trabalho.
Ao professor Marcos Norberto Boin, pela disposição em compartilhar seus conhecimentos.
Ao professor André Geraldo Berezuk, pelo acompanhamento no trabalho.
Aos professores participantes da banca de avaliação, pelas suas contribuições.
À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior e à Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários e Estudantis, pelo apoio financeiro.
À Prefeitura Municipal de Amambai, pelo apoio disponibilizado pelos técnicos da Secretaria de Meio Ambiente.
Aos/às amigos/as, em nome de Dionnes Soares Oliveira, agradecer a todos/as pelo compartilhamento de momentos difíceis, de alegria e de conquistas a serem sempre lembrados.
Enfim, agradeço a todas as pessoas que fizeram parte desta etapa importante em minha carreira profissional.
RESUMO
Este trabalho propõe fazer a análise dos impactos ambientais na sub-bacia hidrográfica do Córrego Panduí, no município de Amambai/MS, para tal intento utilizando a base teórico- metodológica do pensamento sistêmico e o conceito paisagem fundamentado na Geoecologia da Paisagem. Nos procedimentos metodológicos foram utilizadas técnicas de geoprocessamento para a elaboração de produtos cartográficos e, posteriormente, elaboração de mapa de Unidades Ecodinâmicas e de impactos ambientais. Constatou-se que a bacia possui duas atividades econômicas predominantes ─ a agricultura e a pecuária, atividades essas que, junto com as demais, quando associadas às características físicas da área da sub-bacia, apresentam 51,58% na Unidade Ecodinâmica de Instabilidade Emergente de grau médio e 33,09% em áreas de grau alto. Nessas áreas também se concentra a maioria dos impactos ambientais negativos, sendo que as áreas de maior grau de fragilidade ambiental são os locais mais suscetível a impactos por erosão. Devido à antropização das áreas prioritárias para a preservação, restam na sub-bacia apenas 5,45% de vegetação, sendo apenas 21% em áreas de mata ciliar. Nas áreas úmidas, 20% foram antropizadas, condição que suprime os serviços ambientais. Esses impactos de processos erosivos e de antropização de áreas prioritárias a preservação condicionam a área numa gradação que vai de "pouco degradada" a "degradada".
Se mantidas essas condições, sem a tomada de medidas que minimizem os impactos ambientais, os recursos hídricos serão gravemente afetados, tendo em vista o atual aparecimento de banco de areia nos córregos.
Palavra-chave: Geoecologia; Fragilidade ambiental; impacto ambiental.
ABSTRACT
This work proposes to analyze the environmental impacts in the sub-basin hydrographic of the Panduí Stream in the municipality of Amambai / MS. Using for such, the theoretical- methodological base of systemic thinking, and the landscape concept, based in Landscape Geoecology. In the methodological procedures, were used geoprocessing techniques for the elaboration of cartographic products and later elaboration of map of Ecodynamic Units, and of environmental impacts. It was found that the basin has two predominant economic activities, agriculture, and livestock. These activities, together with the others, when associated with the physical characteristics, the area of the sub-basin has 51.58% in the Ecodynamic Unit of Emergent Instability, and 33.09% in high degree areas. In these areas also concentrate the majority of negative environmental impacts, being the areas of greater degree of environmental fragility, the places most susceptible to impacts by erosion. Due to the anthropization of the priority areas for the preservation, only 5.45% of vegetation, being only 21% in areas of riparian forest. In the humid areas 20% were anthropized, a condition that suppresses environmental services. These impacts, which are representative of the sub-basin Panduí Stream, the dynamics of erosive processes accelerated by economic activities, with the anthropization of priority areas preservation, the area is in a stage of low degraded to degraded. This condition, if maintained without taking measures that minimize environmental impacts, water resources will be seriously affected, in view of the current appearance of sand bank in the stream.
Palavra-chave: Geoecology; Environmental Fragility; Environmental Impact.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 – Localização da SBCP ... 14
Figura 2 – Modelo de Sistema Geoecológico da Paisagem... 23
Figura 3 – Sequência do processo de degradação dos geossistemas. ... 24
Figura 4 – Mata ciliar ... 32
Figura 5 – Distribuição das bandas do Sentinel-2B ... 41
Figura 6 – Procedimento para elaboração do Mapa Geológico ... 43
Figura 7 – Procedimento de elaboração do mapa de relevo ... 45
Figura 8 – Elaboração de dados a partir do MDE ... 45
Figura 9 – Elaboração do mapa de Unidades Ecodinâmicas ... 49
Figura 10 – Depósitos aluvionares nas proximidades da foz da SBCP ... 56
Figura 11 – Extração de basalto na SBCP ... 57
Figura 12 – Geologia da SBCP ... 58
Figura 13 – Transformação do relevo com a retirada de solo ... 60
Figura 14 – Unidade de relevo da SBCP ... 61
Figura 15 – Declividade da SBCP ... 62
Figura 16 – Hipsometria da SBCP ... 63
Figura 17 – Compactação do solo por máquina agrícola ... 66
Figura 18 – Solo presente na SBCP... 67
Figura 19 – Escoamento superficial ... 68
Figura 20 – Erosão em sulco em área de agricultura ... 69
Figura 21 – Erosão em sulco em área de pastagem ... 69
Figura 22 – Erosão por sulco em área urbana sem asfalto ... 70
Figura 23 – Erosão em sulco em área urbana asfaltada ... 70
Figura 24 – Voçoroca nas proximidades da área urbana ... 71
Figura 25 – Clima na SBCP ... 74
Figura 26 – Perfil esquemático da Região da Savana ... 76
Figura 27 – Fragmento de Cerradão na SBCP ... 76
Figura 28 – Perfil esquemático da Região de Floresta Estacional Semidecidual ... 77
Figura 29 – Fragmento de Mata Atlântica na SBCP ... 77
Figura 30 – Voçoroca em área de mata ciliar ... 79
Figura 31 – Uso em área de mata ciliar na SBCP ... 80
Figura 32 – Sistema de hierarquia de Shreve ... 81
Figura 33 – Dendrítico (A) Subdendrítico (B) ... 82
Figura 34 – Textura fina (A) e Textura média (B) da rede hídrica ... 82
Figura 35 – Erosão em AUs e no leito do córrego ... 84
Figura 36 – Deposição de solo em AUs ... 84
Figura 37 – Banco de areia no córrego ... 85
Figura 38 – Uso em área úmida na SBCP ... 86
Figura 39 – Tipos de pastagem limpa e suja ... 88
Figura 40 – Uso e cobertura da terra na SBCP ... 89
Figura 41 – Unidade Ecodinâmica na SBCP ... 93
Figura 42 – Perfil dos elementos e componentes das unidades físicas da SBCP ... 94
Figura 43 – Uso e cobertura da terra x componentes das UE ... 95
Figura 44 – Lençol freático elevado na área do cemitério ... 99
Figura 45 – Impactos Ambientais negativo representativos da SBCP ... 103
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 – Conceitos de sistemas ... 19
Quadro 2 – Geografia Ambiental (Ecogeografia Geoecológica) ... 22
Quadro 3 – Subsistema da Geoecologia da Paisagem ... 26
Quadro 4 – Denominações dadas as AUs ... 29
Quadro 5 – Conceito de impacto ambiental ... 33
Quadro 6 – Poluição x impacto ambiental ... 34
Quadro 7 – Tipos de erosão ... 36
Quadro 8 – Serviços ambientais ... 38
Quadro 9 – Especificações técnicas das imagens Sentinel-2B ... 41
Quadro 10 – Visitas técnicas realizada na SBCP ... 42
Quadro 11 – Critérios adotados para elaboração de chave de interpretação. ... 44
Quadro 12 – Chave de interpretação para elaboração do uso e cobertura da terra... 48
Quadro 13 – Conceitos relacionados aos ambientes naturais e antropizados... 50
Quadro 14 – Fatores e elementos de análise para determinação da fragilidade ambiental ... 51
Quadro 15 – Graus de proteção do solo conforme o uso da terra e cobertura vegetal ... 52
Quadro 16 – Classes de fragilidade de acordo com as unidades litológicas ... 53
Quadro 17 – Classes de fragilidade de acordo com o relevo ... 53
Quadro 18 – Classes de fragilidade de acordo com o grau de declividade ... 54
Quadro 19 – Classes de fragilidade de acordo com o tipo de solo ... 54
Quadro 20 – Níveis de comportamento dos elementos climáticos ... 54
Quadro 21 – Solos da SBCP ... 65
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1 – Precipitação média mensal na SBCP entre 1983 a 2013 ... 73 Gráfico 2 – Áreas de mata ciliar ocupadas ... 78 Gráfico 3 – Uso e cobertura da terra em AUs... 83
LISTA DE SIGLAS
ANA Agência Nacional de Águas APA Área de Proteção Ambiental
APROSOJA Associação dos Produtores de Ssoja AUs Áreas Úmidas
CAD Desenho Assistido por Computador
CMMAD Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento CRJC Connecticut River Joint Commissions
ESA European Space Agency
FAO Food and Agriculture Organization FUNAI Fundação Nacional do Índio GPS Global Positioning System
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
ICMS Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços IDHM Índice de Desenvolvimento Humano Municipal IMAP Instituto de Meio Ambiente Pantanal
MDE Modelo Digital de Elevação MMA Ministério de Meio Ambiente MS Mato Grosso do Sul
PIB Produto Interno Bruto
SBCP Sub-Bacia do Córrego Panduí
SEBRAE Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas SISNAMA Sistema Nacional do Meio Ambiente
SRTM Shuttle Radar Topography Mission TGS Teoria Geral dos Sistemas
TIN Rede de Triangular Irregular UE Unidade Ecodinâmica
UEIE Unidade Ecodinâmica de Instabilidade Emergente UEIP Unidade Ecodinâmica de Instabilidade Potencial UP Unidade de Paisagem
USGS United States Geological Survey
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 13
CAPÍTULO 1: FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ... 16
1.1 Sistemas na análise ambiental ... 18
1.2 Paisagem ... 20
1.3 Planejamento da paisagem em bacia hidrográfica ... 26
1.4 Áreas úmidas ... 28
1.5 Matas ciliares ... 31
1.6 Impactos ambientais ... 33
CAPÍTULO 2: PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ... 39
2.1 Dados e informações coletadas ... 40
2.2 Levantamento de dados em campo ... 42
2.3 Elaboração dos produtos cartográficos ... 42
2.4 Unidade Ecodinâmica ... 50
CAPÍTULO 3: DESCRIÇÃO E ANÁLISE DA SUB-BACIA DO CÓRREGO PANDUÍ ... 55
3.1 Geologia... 55
3.2 Relevo ... 59
3.3 Solo ... 64
3.4 Clima ... 72
3.5 Vegetação ... 75
3.6 Recursos hídricos ... 81
3.7 Diagnóstico de uso e cobertura da terra ... 87
CAPÍTULO 4: FRAGILIDADE AMBIENTAL E IMPACTOS AMBIENTAIS NA SUB- BACIA DO CÓRREGO PANDUÍ ... 90
4.1 Fragilidade ambiental das Unidades Ecodinâmicas ... 90
4.2 Impactos ambientais na SBCP ... 96
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 105
REFERÊNCIAS ... 108
APÊNDICE ... 117
INTRODUÇÃO
A Sub-Bacia do Córrego Panduí (SBCP) está localizada no município de Amambai, no Estado de Mato Grosso do Sul, Brasil (Figura 1). A SBCP possui uma área de 382,89 km2 (38.289 ha), o que corresponde a 9,11% da área do município, que, por sua vez, é de 4203,51 km2 (420.351 ha), com perímetro de 106 km. O Córrego Panduí é o principal córrego da SBCP e está classificado como de 3a ordem pelo método de Horton, com 54 km de extensão.
Os principais usos da terra são a agricultura e a pecuária, sendo as principais fontes de arrecadação de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). A agricultura, em especial com o plantio de soja, está presente em 77.368 hectares do município, com produtividade média de 53 sacos de soja por hectare. A alta produtividade permite ao município ser o décimo terceiro do estado de Mato Grosso do Sul em produtividade por área, segundo dados obtidos na primeira safra de 2015/2016 (APROSOJA/MS, 2016). Em relação à pecuária, o município possui 327.888 cabeças de gado. Juntas, as atividades de agricultura e pecuária somam 70,74% da área total da SBCP.
Também está presente na SBCP a área urbana de Amambai/MS, que conta com aproximadamente 1.481 empresas, das quais 99,5% se enquadram na categoria de Micro ou Pequena Empresa, sendo 35,85% delas do seguimento da agropecuária, 32,48% do comércio, 21,88% relacionadas aos serviços, 6,28% à indústria e 3,51% à construção civil (dados de 2013) (SEBRAE/MS, 2014). O setor de comércio e serviços é o que mais contribui para o Produto Interno Bruto (PIB) municipal, com uma média anual de 57% (dados de 2003/2012) (SEBRAE/MS, 2014).
Acrescentado às demais atividades econômicas, o PIB municipal totaliza R$
631.908.000,00 reais anuais, o que possibilita ao município a consolidação de uma renda per capita de 17.224,77 reais. No mais, o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), que diz respeito à qualidade de vida e ao seu desenvolvimento econômico, é de 0.673. Esse número é considerado um valor médio, e é sustentado majoritariamente pelas condições de melhoria no setor educacional. Quando se observa o IDHM especificamente no quesito renda, de 1991 a 2010, este contribuiu com um aumento do índice de 0.078, muito abaixo dos outros indicadores que fazem parte do cálculo do IDHM (SEBRAE/MS, 2014).
Figura 1 – Localização da SBCP
Com tais características econômicas e sociais, a SBCP possui uma constante transformação das dinâmicas das paisagens, gerando impactos ambientais negativos com repercussão direta na rede hídrica, e em áreas úmidas (AUs). Diante dessa condição, esta dissertação tem como objetivo elaborar uma análise dos impactos ambientais negativos dessa sub-bacia, com os seguintes objetivos mais específicos:
─ caracterizar o meio físico da SBCP;
─ analisar os impactos ambientais negativos no meio físico;
─ identificar os impactos ambientais negativos mediante a identificação das fragilidades das Unidades Ecodinâmicas.
─ propor medidas mitigatórias para os principais problemas ambientais negativos identificados.
Para atender a tais objetivos, a dissertação divide-se em quatro capítulos, além das considerações finais, sendo eles (com os respectivos assuntos):
─ Capítulo 01 – Abordada assuntos para uma fundamentação teórica: a evolução histórica da sociedade na sua capacidade de transformar a natureza; a concepção sistêmica
evidenciando sua importância na análise ambiental; a paisagem como categoria geográfica de análise; o planejamento da paisagem tendo sua delimitação na bacia hidrográfica, que compreende por si só uma unidade sistêmica; e a conceituação de impacto ambiental.
─ Capítulo 02 – Consiste na descrição dos materiais, dos procedimentos técnicos e da metodologia adotada.
─ Capítulo 03 – Apresenta uma descrição e a análise das características físicas e do uso e cobertura da terra.
─ Capitulo 04 – Análise das Unidades Ecodinâmicas e dos principais impactos encontrados na SBCP
Por último vão as considerações finais, com a compreensão das dinâmicas que transformam as Unidades de Paisagem (UPs) da SBCP que geram os impactos ambientais negativos e a degradação ambiental nas Unidades Ecodinâmicas, bem como as medidas mitigatórias aos principais impactos encontrados.
CAPÍTULO 1: FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
No processo de evolução da sociedade humana, o conhecimento sobre a natureza foi sendo ampliado, o que foi condição para a subsistência do homem e a consequente evolução da capacidade de transformação dos ambientes. Na busca de recursos para sua sobrevivência, novas ferramentas e técnicas foram sendo implementadas. De início, a invenção de ferramentas rudimentares de pedras com bordas cortantes e a capacidade de dominar o fogo provocaram significativas transformações na relação do homem com a natureza, ainda no período denominado de Paleolítico (FIGUEIRA, 2005, p. 7).
No decorrer dos tempos, com o início da prática da agricultura, da domesticação de animais e do aprimoramento de ferramentas, foi possível produzir alimentos e outros recursos excedentes para sustentar o aumento populacional e a formação de aldeias. A ampliação do domínio da natureza pelo homem favoreceu, ainda, o surgimento das especializações e o aprimoramento das técnicas de produção ligadas à cerâmica, à tecelagem, e à metalurgia.
Devido às mudanças na relação homem com a natureza, passou a haver aumento da produção e, do mesmo modo, a geração de mais excedentes. Isso foi fundamental para a intensificação das trocas e o aumento das relações sociais, originando as primeiras sociedades complexas, com a instituição do Estado, atividades regulares de comércio, religião oficial e escrita, como, por exemplo o que passou a ocorrer entre os egípcios antigos, organizações essas datadas do quarto milênio a.C. (FIGUEIRA, 2005, p. 8-12).
As organizações sociais foram se aprimorando ao ponto de, no século XVIII, termos o surgimento de máquinas a vapor e de fábricas mecanizadas no período chamado de advento da Revolução Industrial. Esta, por sua vez, deu início às transformações radicais das dinâmicas ambientais, contudo os problemas ambientais resultantes das profundas transformações nessas dinâmicas tiveram repercussões de alcance em escala global por causa dos efeitos de precipitações radioativas dos testes da bomba atômica nos anos que sucederam a Segunda Guerra Mundial, em 1949.
Do mesmo modo, o crescimento do uso de pesticidas e de inseticidas foi responsável pelos alertas em relação à degradação ecológica na segunda metade do século XX, como abordado no livro "Silent Spring" ("Primavera Silenciosa"), de Rachel Carson (1962).
Tais fatos históricos, acrescidos de outros desastres ambientais, culminaram, em 1970, com a participação de 300 mil norte-americanos em uma manifestação pelo Dia da Terra. Como resultado, o ambientalismo chegou aos jornais e às revistas e foi proclamado como questão
pública fundamental (MCCORMICK, 1992, p. 71). Nesse momento, ainda na década de 1970, começaram os trabalhos para a conferência de Estocolmo, com o propósito de discutir problemas referentes ao meio ambiente global, conferência a qual se tornaria um marco importante no crescimento do ambientalismo internacional, sendo “[...] a primeira vez que os problemas políticos, sociais e econômicos do meio ambiente global foram discutidos num fórum intergovernamental com uma perspectiva de realmente empreender ações corretivas”
(MONTIBELLER FILHO, 2001, p. 97). Outra conferência de grande importância, a das Nações Unidas sobre o meio ambiente e desenvolvimento (ECO-92), nomeada de Cúpula da Terra, tinha como uma das metas avaliar a situação ambiental mundial desde 1972, bem como a relação do perfil de desenvolvimento até aquele momento.
A Cúpula da Terra, realizada no Brasil em 1992, representou o auge da discussão sobre as questões ambientais, estando presentes todos os grandes chefes de Estado, e, pela primeira vez, ocorreu a presença dos movimentos sociais e organizações não governamentais, em uma reunião paralela (HAESBAERT e GONÇALVES, 2005, p. 123).
Da Cúpula da Terra foi originada a Agenda 21 e nela ocorreu o fortalecimento do conceito de desenvolvimento sustentável, tendo por objetivo atender às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem às suas próprias necessidades (CMMAD, 1988, p. 46). O propósito maior da Agenda 21 foi o de proteger o nosso planeta, pois, segundo Do Lago (2006, p. 76):
Trata-se de um programa de ações que atribui novas dimensões à cooperação internacional e estimulam acadêmicos e científicos a planejar e executar juntos programas destinados a mudar as concepções tradicionais de desenvolvimento econômico e de proteção ao meio ambiente.
Quanto a resultados concretos que façam jus ao conceito de desenvolvimento sustentável estabelecido pela Agenda 21, contudo pouco se evoluiu, como constatado na Conferência Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável realizada em Joanesburgo em 2002.
Ali, nessa conferência, ficou implícita a informação da falta de resultados contundentes diante do que tinha sido proposto na Rio 92, com a Agenda 21.
O que se observou, em especial por parte do Secretário-Geral das Nações Unidas, foi o aprofundamento da crise ambiental, tornando esse conceito referência de insucesso e de falta de resultados (SILVA, 2011, p. 4-6). Mesmo assim, no entanto, as conferências – em especial a Eco’92 – estabeleceram definitivamente a internacionalização da “[...] proteção ambiental e das questões ligadas ao desenvolvimento [...]” (SILVA, 2011, p. 3).
No Brasil, um dos aspectos positivos decorrentes é a melhoria das instituições e o crescimento da participação da população civil e das academias nas questões ambientais (DO LAGO, 2006, p. 224). É necessário salientar que essa nova demanda ligada à conservação e à preservação do meio ambiente se somaria às questões sociais, pois
A sociedade brasileira não havia resolvido os problemas básicos da população, como saúde, educação ou alimentação, identificados como pré-condições para que uma sociedade passe a ter o meio ambiente como prioridade. Com isso, a questão ambiental entrou em uma longa lista de dívidas sociais [...]. (DO LAGO, 2006, p. 146).
Esta condição de não ter resolvido as questões de dívidas sociais leva o Estado a destinar mais recursos à saúde, à educação e à alimentação, ficando as questões ambientais num segundo plano na lista de prioridades. Eis a situação encontrada na SBCP. Nessa região, dadas as condições de recursos escassos do município para fazer frente às necessidades básicas da população local, as questões ambientais, que deveriam ser postas como complementares à qualidade de vida da população local, acabam sendo tratadas de forma secundária nas prioridades de distribuição de recursos públicos.
1.1 Sistemas na análise ambiental
A complexidade que envolve os problemas ambientais abrange aspectos físicos, biológicos, sociais, culturais, políticos, jurídicos, dentre outros, tornando necessária a compreensão das dinâmicas e dos processos que os envolvem de forma sistêmica. Dessa forma, os estudos das condições ambientais necessitam de análises integradoras e sistêmicas, o que se consolida com os constantes avanços da ciência e com o aprimoramento de metodologias e técnicas.
O agravamento das condições ambientais e suas repercussões em escala global fizeram com que as discussões sobre a preservação do meio ambiente não ficassem mais restritas apenas a um conjunto de países. As questões ambientais não podem mais ser tratadas isoladamente, pois “[...] são problemas sistêmicos, o que significa que estão interligados e são interdependentes” (CAPRA, 2006, p. 23). Diante de tais reflexões, o emprego da Teoria Geral dos Sistemas (TGS), tal como formulada pelo biólogo Bertalanffy (1968) em 1933, passa a ser fundamental nos estudos das alterações das dinâmicas ambientais.
O pensamento sistêmico, embora já utilizado por Bertalanffy (1968) e outros cientistas, consolida-se com a Teoria Geral dos Sistemas – TGS, estabelecendo-se como um
“[...] movimento científico de primeira grandeza” (CAPRA, 2006, p. 53) em meados de 1972 a 1973. Distingue-se, por sua vez, do pensamento analítico – que defende que, para compreender o todo, é preciso isolar as partes.
O melhor, contudo, é acompanhar o pensamento sistêmico, para o qual a compreensão do todo acontece com a contextualização das partes, colocando-as em um contexto mais amplo, o que não exclui o pensamento analítico (CAPRA, 2006, p. 41), tendo em vista que “[...] todas as concepções e todas as teorias científicas são limitadas e aproximadas” (CAPRA, 2006, p.
49). Quanto às definições adotadas para "sistema" (Quadro 1), entende-se que “[...] pode ser definido como um complexo de elementos em interação [...], “um todo unitário [...]”
(BERTALANFFY, 1977, p. 84 e 102).
Quadro 1 – Conceitos de sistemas
Fonte: Christofoletti (1979, p. 1).
Org.: Gonçalves (2017).
Conforme as características e as definições dos sistemas na TGS, essa teoria tem grande capacidade de abordar as questões ambientais e compreender os processos que causam impactos ambientais, pois:
O conceito de sistema é, atualmente, o melhor instrumento lógico de que dispomos para estudar os problemas do meio ambiente. Ele permite adotar uma atitude dialética entre a necessidade da análise – que resulta do próprio progresso da ciência e das técnicas de investigação – e a necessidade, contraria, de uma visão de conjunto, capaz de ensejar uma atuação eficaz sobre esse meio ambiente. Ainda mais, o conceito de sistemas é, por natureza, de caráter dinâmico e por isso adequado a fornecer os conhecimentos básicos para uma atuação – o que não é o caso de um inventário, por natureza estático. (TRICART, 1977, p. 19).
Os sistemas são divididos em fechados e abertos. Os sistemas fechados, abordados pela física convencional, são sistemas que se considera estarem isolados de seu ambiente, de modo que a entropia chegue ao máximo, o que tende à destruição do próprio sistema
Hall e Fagen (1956)
“[...] o conjunto dos elemento s e das relações entre eles e entre os seus atributos [...]”. Para essa definição dos autores, qualquer conjunto de objeto s que possa ser relacionado no tempo e no espaço constitui-se como um sistema.
Thornes e Brunsden (1977)
“[...] conjunto de objetos o u atributos e das suas relações, que se encontram organizados para executar uma função particular”. Nessa perspectiva, o sistema é um operador que, em determinado lapso de tempo, recebe o input e o transforma em output.
Miller (1965)
[...] conjunto de unidades com relações entre si. A palavra ‘conjunto’
implica que as unidades possuem propriedades comuns. O estado de cada unidade é controlado, condicionado ou dependente do estado das outras unidades”. Dessa maneira, o conjunto encontra -se organizado em virtude das inter-relações entre as unidades, e o seu grau de organização permite que assuma a função de um todo que é maior que a soma de suas partes.
(BERTALANFFY, 1977, p. 63). Por outro lado, nos sistemas abertos há o fluxo contínuo de entrada e saída de energia e/ou importação e exportação de matéria (BERTALANFFY, 1977, p.
197).
Na geografia, os estudos de Chorley (1974) serviram de base para a criação de uma corrente geográfica com viés sistêmico, com maior ênfase, primeiro, na geomorfologia.
Posteriormente, passa também a estar presente na geografia como um todo (FIERZ, 2008, p.
49). Dentre os estudos da Geografia que têm como referência a abordagem sistêmica estão os autores internacionais Sotchava (1977) e Bertrand (1982), e no Brasil estão Christofoletti (1979) e Monteiro (2000) (SUERTEGARAY, 2002, p. 113).
A abordagem sistêmica nos estudos geográficos das questões ambientais é fundamental tendo em vista que “[...] a totalidade dos sistemas que interessa aos geógrafos não atua de um modo isolado, mas funciona dentro de um ambiente [...] parte de um conjunto maior”
(CHRISTOFOLETTI, 1979, p. 3). Essa necessidade de avaliar de forma sistêmica as questões ambientais foi fundamental para a escolha da TGS, que se desdobrara no processo de análise sistêmica das condições ambientais na SBCP, em especial os impactos ambientais negativos.
1.2 Paisagem
Quanto à paisagem, antes de ser abordada na perspectiva estética e ligada, sobretudo, a um gênero da pintura do século XVII e XVIII, ou mesmo na de antigas denominações como landschap, landschaft e paese ─ ligadas às significações de território e geografia, com sentido, na maioria das vezes, jurídico-político e topográfico, bem como província, pátria ou região (BESSE, 2006, p. 20), aqui, porém, a paisagem terá significações de acordo com o contexto em que a palavra estiver empregada.
Conforme Metzger (2001, p. 2):
Pintores, geógrafos, geólogos, arquitetos, ecólogos, todos têm uma interpretação própria do que é uma paisagem. Apesar da diversidade de conceito, a noção de espaço aberto, espaço “vivenciado” ou de espaço de inter-relação do homem com o seu ambiente está imbuída na maior parte dessas definições.
Na Geografia, a paisagem é estudada a partir de diferentes abordagens, no entanto há o consenso de que ela “[...] é a materialização resultante da interação do homem e os elementos
da natureza” (RANGEL, 2008, p. 66). De acordo com a abordagem sistêmica, há diferentes formas para estudá-la, dentre elas, a "paisagem sistêmica" e a "geoecologia da paisagem".
A paisagem sistêmica “[...] surge do estudo da combinação dos elementos físicos, biológicos e sociais, um conjunto geográfico indissociável, uma interface entre o natural e o social, sendo uma análise em várias dimensões” (VERDUM, 2015, p. 17). Tem sua metodologia baseada no geossistema, que “[...] é hierarquicamente organizado, mais dinâmico e flexível [...]
[buscando] revitalizar a perspectiva de integração e de totalidade da paisagem geográfica”
(LOPES, 2012, p. 27).
A geoecologia da paisagem, que é a abordagem adotada nesta pesquisa, pertence à linha de pensamento da chamada "geografia ambiental" (Quadro 2). A partir dessa linha de pensamento, a geoecologia da paisagem busca “[...] compreender como [funciona] a arquitetura da superfície do planeta Terra, e sua combinação e relação com os sistemas humanos, partindo da transformação e modificação da natureza da epiderme do globo terrestre” (RODRIGUEZ;
SILVA, 2013, p. 90).
A fundamentação da geoecologia começa com Dokuchaev, na Rússia, no final do século XIX, e avança com Karl Troll, na Alemanha, com a proposta de criar uma ciência que tem por base os complexos naturais e inter-relação dos seres vivos e seu ambiente. A disciplina foi nomeada como “[...] << Ecologia da Paisagem >>, termo utilizado em 1939 [...] rebatizado em 1966 como << Geoecologia >>” (RODRIGUEZ; SILVA, 2013, p. 82).
A geoecologia tem como forma de análise a conjugação de duas abordagens. Segundo Troll, a primeira “[...] estuda a diferenciação espacial da superfície terrestre, na interação entre os fenômenos naturais [...]” (RODRIGUEZ; SILVA, 2013, p. 82). A segunda tem como característica “[...] biológico-ecológica, [...] investigando as inter-relações funcionais dos fenômenos naturais e os sistemas ecológicos complexos” (RODRIGUEZ; SILVA, 2013, p. 82).
A partir das abordagens supracitadas, a geoecologia, em1960, passa a ser difundida como “[...] ciência que estuda os complexos territoriais, naturais antropogênicos da Terra (paisagens, geossistemas dos continentes, oceanos e mares) em âmbito global, regional e local [...]” (RODRIGUEZ; SILVA, 2013, p. 82-83). Estudos dessa magnitude fundamentados na abordagem sistêmica e abordando as questões ambientais passam a ser crescentes a partir de 1980. Destacam-se autores como Bertrand e Tricart, com trabalhos balizadores quanto a metodologias e suas aplicações (GUERRA; MARÇAL, 2006, p. 113).
EXPOENTE Tricart, Troll, Sochava
CARACTERÍSTICAS E PARADIGMA
BÁSICO
A Geografia como o estudo dos sistemas ambientais, numa relação natureza-sociedade, nos espaços físicos concretos. Privilegia a articulação espaço-temporal das diferentes categorias de sistemas ambientais. Tenta-se superar a dicotomia natureza -sociedade, articulando-se a questão ambiental à criação de espaços .
TRATAMENTO DA CATEGORIA
ESPAÇO
Duas categorias de espaços: o espaço físico como visto como um conjunto de pontos que têm existência em si e as relações entre esses pontos; e o espaço geográfico, visto como conjunto de sistemas de objetos e sistemas de objetos e sistemas de ações, considerando -se como as formas em que se representam as relaç ões homem-natureza, mais a vida que as anima. O território se define como uma porção concreta do espaço, que se delimita por fronteiras jurídicas e inclusive imaginárias.
TRATAMENTO DA CATEGORIA
PAISAGEM
A paisagem é vista como um sistema de conceito s, atrelados em três níveis de sistemas ambientais: a paisagem natural (ecossistema), formada pela interação de elementos e componentes naturais e antropo-culturais; a paisagem social, vista como a área onde vive a sociedade humana, o ambiente de relações espac iais que tem importância existencial para a sociedade; a paisagem cultural resultado da ação da cultura ao longo do tempo, modelando -se por um grupo social a partir de uma paisagem natural. Inclui a paisagem visual, o percebido e o valorizado.
TRATAMENTO DA CATEGORIA
REGIÃO
A regionalização é vista como a divisão em um território de indivíduos geográficos espaciais de qualquer categoria. Existem várias categorias de regionalização: político-administrativa, natural, econômica, social, ecólogo -econômica ambiental, etc. Os indivíduos geográficos (espaciais) se caracterizam pela irrepetibilidade no espaço e tempo, a unidade genética e a integridade territorial . Quadro 2 – Geografia Ambiental (Ecogeografia Geoecológica)
Fonte: Rodriguez; Silva; Cavalcanti, (2013, p. 54) Org. Gonçalves (2017).
Exemplos de trabalhos utilizando a paisagem em seu aspecto geográfico de modo conciliado com os sistemas ecológicos complexos são os de Bolós (1981) e os de Jardi (1990).
Segundo Guerra; Marçal (2006, p. 113), esses trabalhos estão fundamentados nos conceitos relativos a:
[...] Teoria do Geossistema de Sotchava e da Ecodinâmica de Tricart e enfatizando o papel da energia no controle da dinâmica ambiental, apresentam o conceito de
“paisagem integrada” como sendo o resultado da interação do geossistema (elementos, estrutura e dinâmica) com sua localização espacial e temporal.
Nessa concepção, Bolós (1981) propõe a discussão do geossistema como “[...]
combinación de un geoma o subsistema abiótico (litomasa, aeromasa, hidromasa) un bioma o ecosistema (biomasa) dentro del que creemos debe de incluirse al hombre y un subsistema socioeconómico, creado por la sociedad humana” (BOLÓS, 1981, p. 51). Desse modo, o geossistema de Bertrand (1978) está posto como “[...] un espacio homogéneo dividido en
geofacies [...]”, más associado a “[...] definición mas lógica de V. B. Sochava que hace del geosistema, como del ecosistema una abstracción y un concepto [...] (BOLÓS, 1981, p. 51).
Segundo Guerra & Marçal (2006), a autora Bolós (1981) avalia que “[...] a paisagem aparece perceptível diretamente através de um sistema e a partir do modelo de processo, sendo possível se levantar [realizar] diagnósticos e prognósticos a partir das observações coletadas”
(GUERRA; MARÇAL, 2006, p. 113), ao passo que afirma também ser a paisagem integrada
“[...] como uma área geográfica, uma unidade espacial [...]” (GUERRA; MARÇAL, 2006, p.
113).
Para a análise integrada da paisagem e o seu planejamento, a geoecologia se utiliza de quatro subsistemas: o natural, o social, o econômico e o de manejo (Figura 2, Quadro 3).
Figura 2 – Modelo de Sistema Geoecológico da Paisagem Fonte: Romanova; Alexeiev; Vasileiva (2010) In: Rodriguez; Silva;
Cavalcanti (2013, p. 123).
Ao se observar a paisagem como um sistema, percebe-se que ela cumpre determinadas funções e trabalhos, seja de caráter natural, seja de caráter social ou mesmo econômico.
Alterações ocorridas nos mecanismos das relações de autorregulação e nas suas propriedades sistêmicas levam àa condição de degradação geoecológica (Figura 3) (RODRIGUEZ; SILVA;
CAVALCANTI, 2013, p. 139).
A degradação dos processos geoecológicos naturais pode ser identificada pela “[...]
erosão, deflação, perda de biodiversidade, degradação das pastagens, degradação do solo (perda do horizonte húmico, compactação) salinização, redução do nível de água subterrânea, lateralização, inundação etc.” (RODRIGUEZ; SILVA; CAVALCANTI, 2013, p. 139). Quando esses danos ambientais ocorrem com os subsistemas naturais, isso implica diretamente a incapacidade do cumprimento de funções socioeconômicas e de sustentabilidade de grupos sociais (RODRIGUEZ; SILVA; CAVALCANTI, 2013, p. 139).
Figura 3 – Sequência do processo de degradação dos geossistemas.
Fonte: Rodriguez; Silva; Cavalcanti (2013, p. 140).
Subsistema Serviços Fatores Características Avalição
Natural Asseguradores
Solo, terra, recurso do ar, água, madeira, minerais e outros recursos naturais, materiais que o homem obtém da natureza para a sua atividade vital.
A partir da posição de setores e ramos da economia para a construção industrial, urbana, silvicultura, a economia turística ou hídrica.
Culturais
Criam as condições para a existência do homem, para satisfazer as suas exigências estéticas, recreativas e espirituais. São aqueles que formam o ambiente físico do hábitat da população: o relevo, o clima, o mundo animal, a vegetação, entre outros.
Índice de conforto climático, adaptação para a ocupação populacional, taxa de diversidade interna da paisagem, a presença de redes e de corredores ecológicos, entre outros.
Reguladores
São os defensores e reguladores do meio ambiente, que são as propriedades da paisagem complexa que permitem amortecer os impactos naturais ou impactos antropogênicos da natureza externa, e, além disso, determinam a estabilidade do subsistema natural.
Por indicadores tais como a produtividade primária da massa vegetal, a intensidade da circulação bioquímica (elementos de volume biofílico), a intensidade dos processos naturais.
Econômico Urbano – Industrial Agrícolas – Transportes Hidro construtivo Silvícolas
Reflete a presença dos principais objetos das atividades produtivas. Os objetos desses subsistemas são, por um lado, os usuários fundamentais dos serviços ecossistêmicos da paisagem natural e, por outro lado, são um agente fundamental de sua mudança e alteração.
Pelos objetos identificados no sistema subeconômico e o seu estudo específico de toda área do complexo natural, mas também o resultado do funcionamento de objetos produtivos (liberação de resíduos, a quantidade de biomassa recolhida desde as culturas, a densidade da infraestrutura de rede).
Social Densidade e tipo de povoamento IDH Índice de estabilidade ecológica
Reflete as peculiaridades da população, que é o objeto de utilização dos serviços ecossistêmicos da paisagem, e cria a estrutura econômica e os
impactos. O status
socioeconômico das pessoas que vivem no complexo natural depende da combinação e da intensidade da assimilação dos serviços ecossistêmicos.
Por indicadores, tais como:
densidade populacional e tipo de assentamento (urbano ou
agrícola), taxa de
desenvolvimento do potencial humano, o Índice de Estabilidade Ecológica (IEE).
Os indicadores neste bloco são geralmente integrais. Cada indicador é usado em uma escala de impacto de vários parâmetros e reflete a causa fundamental do estado do geossistema.
Manejo
Compreende o manejo, SIG, EIA, e tomada de decisões. Este subsistema reflete o estado atual do conhecimento sobre o subsistema, suas inter -relações e também o nível de desenvolvimento e gestão de soluções adotadas, que dependerá das variantes e do subsistema natural e organização do sistema
econômico, e cálculo da Avaliação de Impacto Ambiental, bem como da qualidade das mediadas de gestão cientificamente fundamentadas ou adaptadas de forma espontânea, a sua eficácia econômica e a consciência ambiental das pessoas que as implementam.
Quadro 3 – Subsistema da Geoecologia da Paisagem Fonte: Rodriguez; Silva (2013, p. 123-127).
Org.: Gonçalves (2017).
A análise da SBCP a partir do Sistema Geoecológico da Paisagem se aterá ao subsistema natural e ao subsistema econômico (Figura 2, Quadro 3), pois as características dos serviços e dos fatores, com as do modo de avaliação dos subsistemas natural e econômico (Figura 3, Quadro 3), são fundamentais para a análise dos impactos ambientais negativos, que estão ligado diretamente com aos processos de degradação dos geossistemas (Figura 3).
1.3 Planejamento da paisagem em bacia hidrográfica
O planejamento da paisagem como forma de ordenamento do espaço está presente no arcabouço jurídico em diversos países, com ênfase na Alemanha, tendo a abrangência de proteção que vai desde o impacto visual até a proteção da capacidade do ecossistema. No Brasil, os estudos que têm por objetivo o planejamento da paisagem de forma integrada com o meio ambiente com o propósito de diagnosticar e propor melhorias são muito reduzidos, sobretudo em escalas grandes, por exemplo, maiores que 1:10.000 (NUCCI, 2010, p. 21).
Os avanços teórico-metodológicos da geoecologia associada ao geoprocessamento têm possibilitado a integração dos diversos elementos, como o uso da terra, da fauna, da vegetação, do solo, bem como de estudos de diferentes áreas, como hidrologia de superfície, fisiografia, hidrologia de subsolo, meteorologia e geologia. Busca-se, ao final, realizar o planejamento com identificação de áreas propícias a determinados tipos de uso, bem como de suas limitações (NUCCI, 2010, p. 23).
Nesse sentido, evidencia-se a necessidade de reconhecimento da dinâmica do meio natural e a dinâmica-posicional, tendo em vista que ela “[...] reflete a dependência e integração das paisagens, devido às conjugações que se formam no relevo pelas diferenças altitudinais”
(RODRIGUEZ; SILVA; CAVALCANTI, 2013, p 130). Isso ocorre em razão de que onde ocorrem as intervenções antrópicas, dependendo da dinâmica-posicional, pode ser potencializada a fragilidade existente no local.
Dessa forma, a identificação do nível de fragilidade a partir da integração natural, e associada à dinâmica-posicional com as atividades antrópicas, é fundamental, pois é mediante
o estudo da organização do espaço que se possibilita determinar como uma ação pode se inserir na dinâmica natural, mitigando aspectos desfavoráveis e facilitando a exploração dos recurso ecológicos (TRICART, 1977, p. 35).
Nessa perspectiva, o planejamento da paisagem tem papel importante na redução de danos ambientais e econômicos. Na França, o zoneamento destinado ao desenvolvimento da área urbana, por exemplo, tem papel fundamental para a redução considerável dos custos, uma vez que antes é feito estudos de potencialidades e de limitações dos terrenos prevenido futuros danos ambientais e econômicos (TRICART, 1977, p. 65).
No Brasil, o planejamento ambiental tem ocorrido mediante pressões, sobretudo, de bancos internacionais, pressões que levaram o governo, em 1981, à promulgação da Lei de Política Nacional de Meio Ambiente (Lei Federal nº. 6.938/1981), criando o Sistema Nacional de Meio Ambiente ─ SISNAMA e o Conselho Nacional de Meio Ambiente ─ CONAMA.
Foram formuladas, assim, “[...] diretrizes de avaliação de impactos, planejamento e gerenciamento de zoneamento ambientais, [e] usando como unidades de planejamento as bacias hidrográficas” (SANTOS, 2004, p. 21).
O uso de bacia hidrográfica como unidade de planejamento tem como ganho a perspectiva de incorporação dos fatores políticos, econômicos e sociais às suas características biofísicas (LORANDI; CANÇADO, 2002, p. 37), tendo em vista que essa condição ocorre em virtude de constituir:
[...] um sistema natural bem delimitado no espaço, composto por um conjunto de terras topograficamente drenadas por um curso d`água e seus afluentes, onde as interações, pelo menos físicas, são integradas e, assim, mais facilmente interpretadas.
Esta unidade territorial é entendida como uma caixa preta, onde os fenômenos e interações podem ser interpretados, a priori, pelo input e output (SANTOS, 2004, p.
40).
A bacia hidrográfica também pode ser entendida como “[...] um conjunto de superfícies, vertentes, e de uma rede de drenagem formada por cursos de água que confluem até resultar um leito único no exutório” (SILVEIRA, 2004, p. 40). Com o mesmo princípio, as sub-bacias compreendem apenas uma restrição do tamanho da área, sendo de 100 km2 a 700 km2 aproximadamente (FAUSTINO, 1996) ─ especificações em que a SBCP se enquadra.
O manejo inadequado do solo em uma bacia hidrográfica está diretamente relacionado ao modo de produção e do uso da terra adotado. Em determinadas condições, a exploração do solo ultrapassa a capacidade de resiliência da paisagem e ignora os limites ambientais, ocasionando danos ambientais e, consequentemente, supressão de serviços ambientais.
Conforme García (1992, p. 186):
[...] la deteccion de los impactos ambientales es un proceso que proviene del reconocimiento de cómo las acciones antrópicas, al alcanzar una cierta intensidad en su desarrollo territorial, llevan a franquear el umbral del potencial del paisaje. La superación de este umbral, como ya sabemos, se traduce en la alteración de la estructura del paisaje, o sea, en la modificación del número y peculiaridades de sus elementos constitutivos, y de la dirección, sentido e intensidad de las interacciones de éstos.
Em uma bacia hidrográfica, a mudança nas estruturas das paisagens acarretadas pelos vários tipos de impactos ambientais negativos repercute diretamente nos recursos hídricos, o que reforça a importância de sua escolha como unidade territorial de planejamento em estudos acadêmicos e em planejamentos oficiais, além de ser indicada pela FAO (Food and Agriculture Organization) como unidade de planejamento adequada para a conservação de regiões tropicais (SANTOS, 2004, p. 40-41).
1.4 Áreas úmidas
As áreas úmidas (AUs), quando ligadas diretamente aos recursos hídricos, têm sua importância reconhecida de forma ampliada com o estabelecido na convenção de Ramsar, em vigor a partir de 21 de dezembro de 1975. A convenção de Ramsar tem como foco as Zonas Úmidas de Importância Internacional, com objetivo intergovernamental de estabelecer a cooperação entre os países em torno da conservação dessas AUs.
A princípio, a convenção de Ramsar tinha como objetivo o fomento e a conservação das áreas úmidas para a proteção das aves migratórias, o que representou um passo importante para o reconhecimento da necessidade de conservação das AUs, isso em função dos diversos serviços ambientais que essas mesmas áreas prestam ao meio ambiente.
A adesão do Brasil à Convenção de Ramsar ocorreu em 1979 e, a partir de então, passou a vigorar o entendimento sobre AUs como ainda é atualmente, ou seja, compreende os pantanais, com superfícies cobertas periodicamente por águas e por florestas ou outro tipo de vegetação adaptada à inundação (BRASIL, 2012). A definição científica e popular de AUs possui, contudo, inúmeras variações (Quadro 4). (CUNHA; PIEDADE; JUNK, 2015, p. 19).
Nome popular Região Caracterização
Banhado Sul do Brasil Denominação geral de áreas úmidas no Rio Grande do Sul.
Brejo Paraná Floresta de várzea. Nome popular pouco
específico para áreas encharcadas.
Estuários Brasil Áreas úmidas costeiras caracterizadas como as áreas finais de rios ou lagos com forte influência das marés e água salina.
Mata ciliar Brasil Mata alagável ao redor de corpos de água Mata ripária, mata
galeria Brasil Mata periodicamente alagada ao longo de rios.
Mata
turfosa/paludosa Sudeste/Sul
Caracteriza-se por uma florística e estrutura muito particulares, diferenciando -se das demais formações florestais por suas espécies capazes de germinar e de crescer em condições de saturação hídrica do solo, também conhecidas como matas de baixada, matas brejosas, matas higrófilas, matinha palustre ou matinha pantanosa.
Nascente/Olho
d’água Brasil
Nascentes de rios. Áreas de descarg a de água proveniente de águas subterrâneas ou de bolsões de água sub-superficial (aluvionárias).
Quadro 4 – Denominações dadas as AUs Fonte: Cunha; Piedade; Junk (2015, p. 19).
Org.: Gonçalves (2017).
Em âmbito internacional são utilizadas três definições recorrentes, dentre elas a da Convenção de Ramsar, que especifica AUs como:
[...] áreas de diferentes tipos de pântanos, brejos, turfeiras ou de águas rasas, tanto naturais quanto artificiais, permanentes ou temporárias, doces, salobras ou salinas, incluindo áreas marinhas até uma profundidade de 6 metros durante a maré baixa (IUCN 1971 apud CUNHA; PIEDADE; JUNK, 2015, p. 34).
Dadas as especificidades brasileiras, as AUs devem ser conceituadas como:
[...] ecossistemas na interface entre ambientes terrestres e aquáticos, continentais ou costeiros, naturais ou artificiais, permanentemente ou periodicamente inundados por águas rasas ou com solos encharcados, doces, salobras ou salgadas, com comunidades de plantas e animais adaptadas à sua dinâmica hídrica. AUs devem possuir (1) presença, pelo menos periodicamente, de espécies de plantas superiores aquáticas ou palustres, e/ou (2) presença de substrato/solo hídrico. (CUNHA; PIEDADE; JUNK, 2015, p. 37).
O Brasil, em virtude da sazonalidade hídrica, guardadas as exceções de certas regiões, é caracterizado por épocas secas e épocas chuvosas, condição que interfere diretamente nos níveis de descarga dos riachos, córregos e rios, o que afeta as AUs ao longo dos meses (CUNHA; PIEDADE; JUNK, 2015, p. 21-23). A sazonalidade se reflete, assim, diretamente na dinâmica das áreas úmidas presentes na SBCP.
Diante das interferências da sazonalidade hídrica, a conservação e/ou preservação das áreas úmidas é fundamental devido aos serviços ambientais indispensáveis disponibilizados por elas aos recursos hídricos. Conforme Cunha; Piedade; Junk, (2015, p. 15), os principais serviços ambientais proporcionados pelas AUs são:
─ estocagem periódica da água e a sua lenta devolução para os igarapés, os córregos e os rios conectados, reduzindo com isso as flutuações do nível da água e o perigo de enchentes e de secas catastróficas;
─ recarga dos aquíferos e do lençol freático;
─ retenção de sedimentos;
─ purificação da água;
─ fornecimento de água limpa;
─ dessedentação de animais, silvestres e domésticos;
─ irrigação da lavoura;
─ regulagem do microclima;
─ recreação (banho, pesca e lazer);
─ ecoturismo;
─ manutenção da biodiversidade;
─ estocagem de carbono orgânico; e
─ fornecimento de produtos madeireiros e não madeireiros (fibras, plantas medicinais, frutas, etc.), pescados, produtos agrários e de pecuária.
Desse modo, os serviços ambientais propiciados pela conservação e pela preservação das AUs são essenciais para o atendimento das demandas econômicas que necessitam diretamente ou indiretamente dos recursos hídricos, como, por exemplo, a produção agrícola e a atividade pecuária. Além da importância econômica, as AUs têm relevante contribuição social, em especial com o crescimento populacional em diversas regiões brasileiras que terão maior demanda por água potável e que necessitam diretamente das AUs para a sua produção (CUNHA; PIEDADE; JUNK, 2015, p. 29).
O estudo das AUs na SBCP é importante devido ao fato de sua influência na conservação e na preservação dos recursos hídricos. Quanto a esse recurso, para ser avaliado relativamente aos impactos ambientais negativos, é necessário fazer uma análise a partir da BH, onde ocorrem os danos ambientais que repercutirão diretamente nos recursos hídricos.