Jusiça, políica penal
e tolerância zero
ENGUÉLÉGUÉLÉ, Stéphane. Jusice, poliique pénale et tolérance zero. Paris: L’Har
-matan, 2010.
Francisco Thiago Rocha Vasconcelos*
O
livro de Stéphane Enguéléguélé1 aborda as mudanças nas políicas penaise as iniciaivas de reforma do Judiciário a parir do inal dos anos 1990, na França, e interessa ao leitor brasileiro por dois moivos principais: (1) pela abordagem original das relações entre direito e políica, que interligam um vasto repertório de disciplinas interessadas, de um lado, na judicialização do sistema polí
-ico e dos conlitos sociais, e, de outro, nos novos discursos e práicas na segurança pública e jusiça criminal; (2) por iluminar processos que afetam o cenário europeu e que possibilitam antecipar ou situar, por contraste ou aproximação, o caso brasi
-leiro frente a processos transnacionais de circulação de ideias e redes de aivismo relacionados à origem de novas disciplinas e insitucionalidades políicas.
Em coninuidade com a relexão iniciada em obra de mais amplo escopo (Enguélé
-guélé, 1998), o autor analisa a emergência de um paradigma penal concorrente ao que teria predominado entre 1945 e 1995. Neste período, ter-se-ia estabelecido um equilíbrio entre correntes de ideias penais e criminológicas cujo princípio reside na humanização da pena e na reabilitação do criminoso. Porém, nas úlimas décadas ha
-veria uma reorientação das prioridades das políicas penais, menos ditadas pela preo
-cupação com a ressocialização de delinquentes e cada vez mais orientada por uma “retórica securitária”. É justamente este novo ambiente intelectual que o autor se propõe a reconstruir. Para tanto, propõe conciliar duas ênfases geralmente contem
-pladas de modo separado na história das ideias e na sociologia das políicas públicas.
Assim, na primeira parte do livro, uilizando como fontes revistas jurídicas e sindi
-cais, manuais de direito penal e textos e decisões legislaivas das úlimas décadas, o autor opta por historiar as principais evoluções do campo intelectual penal na Europa por intermédio das divisões entre as correntes da “nova defesa social” e do “direito penal neoclássico”.
A primeira expressão designa o consenso hegemônico desenvolvido ao longo de uma série de congressos penitenciários, criminológicos e de direito penal, ao menos
* Doutor em sociolo
-gia pela Universidade de São Paulo (USP), com estágio-sanduí
-che no Centre de Recherches Sociolo
-giques sur le Droit et les Insituions Pénales (Cesdip), na França. Bacharel em ciências sociais e mestre em sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). <t_rocha@ yahoo.com.br>.
1 Cienista políico e membro do Ministério Público francês.
desde 1947, em torno da críica do sistema social como condição da compreensão do fato delituoso e da humanização da pena como princípio de transformação dos sistemas penitenciários através da criação de sistemas de avaliação e tratamento que considerem a personalidade do delinquente. Essa corrente de pensamento, promovida por associações e agências relacionadas à Organização das Nações Uni
-das (ONU), como o Conseil de l’Europe2, visou superar o radicalismo repressivo e
puniivo de medidas de defesa social pautadas em propostas de compromissos en
-tre o direito penal clássico retribuivo e o determinismo das escolas criminológicas vigentes no pré-Guerra. O qualiicaivo “novo”, neste senido, diz respeito à criação de um espaço intermediário entre a criminologia e o direito penal, a políica crimi
-nal considerada como meio de construir uma aliança com os princípios de direitos humanos difundidos internacionalmente e, posteriormente, com as correntes crí
-icas da criminologia de base eiológica. Fundamentada na inalidade educaiva e reformadora da pena, essa proposta erigiu pontes entre diferentes correntes, de cunho mais tradicional – caso da criminologia clínica –, ou mais críicas – como o abolicionismo penal – na reconstrução dos sistemas jurídicos europeus como pre
-tensões a futura ordem jurídica mundial.
Com o “direito penal neoclássico”, por sua vez, o autor visa enquadrar as correntes que enfaizam o livre arbítrio do delinquente e a responsabilidade individual, sem contudo retornar ao “dogmaismo clássico”, que impediria uma individualização da pena de acordo com a personalidade do delinquente, pois, ao contrário da “nova defesa social”, não se trata de uma preocupação com a reinserção social do delin
-quente. O direito penal neoclássico apropriar-se-ia da críica à prisão como estraté
-gia de ressocialização para, em nome de uma repressão úil e justa em face de uma delinquência considerada cada vez mais violenta, incenivar o caráter retribuivo e infamante da pena como saisfação aos direitos da víima e como proteção da or
-dem social, com a reirada de circulação do criminoso pelo maior tempo possível. Entre uma vicimo-criminologie e uma criminologie de la sécurité, trata-se da elabo
-ração de uma nova jusiicaiva para a repressão penal.
Essa corrente teria buscado apoio na ideia de tolerância zero, caracterizada como acentuação da repressão penal acompanhada do recuo de políicas sociais e da aceitação da superlotação carcerária como “mal menor”, tudo em nome da segu
-rança – a “primeira das liberdades”. A preocupação com a compreensão das causas estruturais do crime é suplantada por uma concepção do crime como “risco social normal” e do criminoso como “ser racional”, orientado para a oimização de suas oportunidades e para a maximização de seus interesses. O cálculo probabilísico e estaísico aplicado a populações em situação de risco – grupos ideniicados por etnia, idade, comportamentos sociais e habitação –, torna-se o fundamento de uma penalogia que se orienta para a securiização dos espaços e das relações so -2. O Conseil de
ciais. Promovida inicialmente por think tanks norte-americanos, a tolerância zero ganharia espaço cada vez maior na Europa a parir dos anos 19903 e é analisada
criicamente pelo autor como parte de um complexe économico-sécuritaire4 que
lucraria, direta ou indiretamente, com a existência do crime. Mais recentemente tal complexo incorporaria collèges e universidades que reivindicam a criminologia como disciplina e formação proissional na área da jusiça e da segurança.
Antes de nos aprofundarmos um pouco mais em sua análise da incorporação deste ideário e de sua aproximação com outras correntes de pensamento no contexto francês, cabe destacar a singularidade de sua abordagem frente às interpretações de cunho políico ou epistemológico, presentes na literatura críica da exportação de uma soluion à l’américaine para o problema penal (Wac quant, 1999) e das mais recentes controvérsias do campo universitário francês (Mucchielli, 2014). Em nosso entender, ela se expressa, em primeiro lugar, por sua ênfase em não dissociar a discussão conjunta das ideias e das redes de atuação políica. É isto que lhe permi
-irá analisar, a parir “de dentro”, o encadeamento entre decisões políicas acerca da reforma de disposiivos legais do Judiciário, a criação de novas experises e sua repercussão no âmbito de organizações ou subsistemas da jusiça penal, como as polícias ou o sistema penitenciário.
Assim, dando ênfase à “dimensão cogniiva” da ação pública, Enguéléguélé aponta que a construção de políicas penais passaria, de um lado, pela elaboração de re
-ferenciais que dão senido à ação; de outro, pela formação de redes de decisões e ações concretas. Uma “políica penal”, desse modo, não se resumiria nem à “ação pública” (meio de pôr em práica uma determinada políica), nem à “políica cri
-minal” (conjunto de meios prevenivos e repressivos). Embora relacionada a estas duas dimensões, ela seria consituída pelas interações de uma série de atores em um “sistema de decisão penal”. Para caracterizar a interação dos “operadores inte
-lectuais da tecnocracia penal”, Eguénléguélé se uiliza da noção de “comunidades epistêmicas”, elaborada por Haas (1992) para iluminar as aividades intelectuais e organizacionais de grupos e redes, dotadas de ramiicações múliplas no plano in
-ternacional, que disputam a elaboração das matrizes teóricas de “esilos” de políica pública. No caso em pauta, tratar-se-ia da adaptação de uma políica penal a parir da transformação dos quadros intelectuais de legiimação com a entrada de novas elites no sistema de decisão penal.
As decisões penais dependeriam do jogo da compeição políica, que conduziria os governantes a se apoiarem, segundo o momento, em uma ou outra comunidade epistêmica, apostando na permanência ou inlexão do referencial penal. Portanto, o seu principal produto – a lei penal – não seria o puro relexo de demandas sociais, mas responderia a uma construção prévia de uma questão social como “problema
3. Nos Estados Unidos, a parir da obra de James Wilson e George Kelling (1982) e das políicas implementadas em Nova York, a tolerância zero recebeu apoio da Fondaion Heritage e do Manhatan Insitute; na Inglaterra, através do Adam Smith Insitute e do Insitute of Economic Afairs; e na França, através do Insitut Montaigne, e posteriormente, do Insitut des Hautes Études de la Sécurité Intérieure, do Centre de Recherches sur les Menaces Criminelles Contemporaines, do Insitut de Criminologie de Paris e do Observatoire Naional de la Délinquance.
penal”. Assim, retornamos à discussão sobre os referenciais: a maneira como são construídos, difundidos e mobilizados tornariam o domínio penal especíico em re
-lação a outras políicas públicas. Nesse ponto, Enguéléguélé destaca a disinção en
-tre dois ipos de dinâmica, que preferimos traduzir por circuito, de natureza diferen
-te: o da jusiça criminal, na qual a ação pública é sobredeterminada pelos contextos de dramaização e midiaização do problema no espaço público, contribuindo para promover o debate e abrir janelas de oportunidades para a ação da parte dos deci-sion-makers; e o da procédure criminelle, que segue o ritmo de mais longa duração e cuja tecnicidade exige o fechamento do espaço de confrontação.
Esta divisão analíica, embora nem sempre claramente discernível, é ensaiada na segunda parte do livro, quando o autor se volta para a análise das iniciaivas de reforma do judiciário francês nos úlimos anos. O seu ponto de parida é a poliiza
-ção de juízes em casos de corrup-ção da classe políica, que desencadeia uma série de discussões a parir da metade dos anos 1990 sobre as virtudes mas também os limites do engajamento de juízes, sobre as condições de independência do Judiciá
-rio e sobre as garanias de defesa durante o julgamento. Nesse paricular, o insitu
-to inquisi-torial de la garde à vue5 é quesionado, em prol da adoção de normas que
reforcem a lei de presunção da inocência e admitam princípios para a acusação, como presença do advogado de defesa e lógica do contraditório.
Uma reação especial se destaca, vinda do campo policial. A progressão da delin
-quência é interpretada por estes como decorrente da baixa do número de gardes à vue e detenções provisórias. Em 2001, a morte de policiais em aividade desen
-cadeia uma série de manifestações de protesto por parte de sindicatos da área, oportunidade para atores políicos reclamarem a anulação da lei de presunção da inocência na Assembleia Nacional. Esta vem sofrer uma revisão que joga luz sobre os conlitos entre polícia e órgãos de controle judicial e que se reverte em decisão que reforça a aproximação entre quadros paridários de esquerda e a questão da segurança pública e do combate à impunidade.
Esta aproximação retoma algumas das proposições da Comissão Bonnemaison, de 1982, que reuniu prefeitos interessados na relexão sobre políicas de prevenção e repressão à delinquência, e teve como marco a tomada de posição do Pari So
-cialiste de Lionel Jospin, em 1997. A parir deste momento, um consenso maior se formaria em torno da superação de um suposto laxismo das esquerdas, que teriam diluído a questão da segurança pública nas políicas sociais globais para as cidades. No bojo desse processo, ocorrerá a expansão de novos princípios políicas na área, sobretudo através dos Contratos Locais de Segurança (CLS), parcerias entre polícias, judiciário, iniciaiva privada, sociedade civil e setores da administração de políicas sociais em torno do combate da pequena e média delinquência e da sensação de insegurança (Neme, 2005).
O controle das incivilités6 torna-se um dos alvos centrais. Nessa questão, a divisão
entre esquerda e direita se reconsitui, de forma mais situada, entre visões que almejam formas alternaivas de resolução de conlitos e reforço dos laços sociais para tratar de uma delinquência sem grande potencial ofensivo, e uma abordagem que enxerga nas incivilités um primeiro elemento de uma escala de aumento das
violences urbaines7. O combate a estes protestos abre uma janela de oportunidade
bem aproveitada por Nicolas Sarkozy, então ministro do Interior, em sua candidatura à Presidência, em 2002. A parir de então, acentua-se o combate mais duro às inci-vilités e às violences urbaines, interpretados como combusível para o aumento dos crimes violentos e para a entrada das “ameaças globais” em território francês, como a “economia subterrânea” do tráico de drogas e armas e as ameaças terroristas.
Enguéléguélé procura antecipar alguns dos riscos do encontro entre o “pacote de ideias” que acompanha as políicas de tolerância zero e uma produção que enfai
-za as “ameaças globais”. A suspeição generali-zada e o princípio de precaução são destacados em suas consequências para a penalização e criminalização das classes populares, para a reaivação de preconceitos raciais e xenofóbicos, com o afrouxa
-mento dos protocolos invesigaivos, com o au-mento das categorias criminais e da severidade das penas, e com a reincidência erigida em princípio de (auto)avaliação insitucional.
Nesse senido, as divisões do campo doutrinal penal francês – entre “nova defesa social” e “direito penal neoclássico” – seria a expressão da concorrência entre coa
-lizões de interesses e ideias pelo controle das “situações de experise” no jogo da compeição políica. Em circuitos que colocam em evidência, no plano interno, ora a direção do Ministério da Jusiça, ora a do Ministério do Interior, e no plano transna
-cional, a construção jurídica de controles da criminalidade organizada, acentuam-se as issuras entre a doutrina universitária, monopolizada por professores de direito penal, e a doutrina tecnocráica, de práicos do sistema penitenciário e sobretudo de especialistas em segurança pública.
Com este diagnósico, Enguéléguelé antecipa e fornece ferramentas de análise para o contexto atual de controvérsias que tumultuaram o meio acadêmico fran
-cês, com as reivindicações de “novos experts” em segurança pela insitucionali
-zação da criminologia como área de conhecimento e formação proissional (Muc
-chielli, 2014).
6. Atos desrespeitosos, insultos, ameaças, rixas, brigas e vandalismos ou pequenos delitos que não chegam a consituir problema policial-criminal e por isso permaneceriam impunes.
Referências
ENGUÉLÉGUÉLÉ, Stéphane. Les poliiques pénales (1958-1995). Paris: L’Harmatan, 1998.
HAAS, Peter M. Introducion: epistemic communiies and internaional policy coor
-dinaion. Internaional Organizaion, v. 46, n. 1, p. 1-35. Source: Knowledge, Power, and Internaional Policy Coordinaion, winter 1992.
MUCCHIELLI, Laurent. Criminologie et lobby sécuritaire: une controverse française. Paris: La dispute, 2014.
NEME, Crisina. Violência e segurança: um olhar sobre a França e o Brasil. Revista de Sociologia e Políica, v. 25, p.123-137, Curiiba, Nov. 2005.
WACQUANT, Loïc. Penal “common sense” comes to Europe – US exports zero tole
-rance. Le Monde Diplomaique, Abr. 1999.